UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA CURSO DE BACHARELADO EM GEOGRAFIA
TIAGO ANANIAS GONÇALO
T
ERRITÓRIO E
P
ROCESSO DE
T
RABALHO EM
S
AÚDE:
R
EPRESENTAÇÕES
S
OCIAIS DE
A
GENTES
C
OMUNITÁRIOS DE
S
AÚDE (CAICÓ/RN)
CAICÓ (RN) 2016
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA CURSO DE BACHARELADO EM GEOGRAFIA
TIAGO ANANIAS GONÇALO
T
ERRITÓRIO E
P
ROCESSO DE
T
RABALHO EM
S
AÚDE:
R
EPRESENTAÇÕES
S
OCIAIS DE
A
GENTES
C
OMUNITÁRIOS DE
S
AÚDE (CAICÓ/RN)
Monografia apresentada à Coordenação do Curso de Geografia do CERES/UFRN, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Bacharel em Geografia.
Orientador: Prof. Dr. Lucas Pereira de Melo
CAICÓ (RN) 2016
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ensino Superior do Seridó – CERES Caicó
Gonçalo, Tiago Ananias.
Território e processo de trabalho em saúde: representações sociais de agentes comunitários de saúde (Caicó/RN) / Tiago Ananias Gonçalo. - Caicó: UFRN, 2016.
81f.: il.
Orientador: Dr. Lucas Pereira de Melo. Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Centro de Ensino Superior do Seridó - Campus Caicó. Departamento de Geografia.
Curso de Geografia.
Monografia - Bacharelado em Geografia.
1. Geografia da Saúde. 2. Território. 3. Territorialização. 4. Agentes Comunitários de Saúde. 5. Processo de Trabalho em Saúde. I. Melo, Lucas Pereira de.
A
GRADECIMENTOS
Os agradecimentos primeiramente são para Deus, pois até aqui tem me sustentado e não só por isso, mas porque o grande EU SOU é único. Prosseguindo aos meus familiares em especial Maria da Luz de Almeida, Luana Andrea de Almeida e meu pai postiço Dezinho, meu cachorro Davinci, estes minha estrutura e base. As pessoas que Deus usou e que não posso esquecer como Dona Francisca de Elói que me incentivou e acreditou no meu potencial, Matheus Ítalo, o qual não mediu esforços abrindo suas portas para não ficar sem lugar para ficar. A Graça que muitas vezes não tinha suprimentos no apartamento, mas ela sempre ajudava dando um pouco, pois mesmo tendo estas dificuldades não deixava de ajudar o próximo, em seu restaurante Sant’Ana, que não é bajulando, mas é ótimo o comer neste ressinto. A Roberto Rocha uma pessoa amiga e confiável que eu pude contar em um dos meus piores momentos, mas também melhores. A Amiguinha que sempre ajudou com suas palavras de motivação e também de dificuldade. A Willamy por ser um cara bom mesmo dando uma de mal. Aos meus colegas de turma em especial Jaedson meu amigo que passamos muitas coisas, mas me ajudou nesta minha longa caminhada. A Lucivan pela sua sinceridade e amizade, Fabio, Samara, Halyson, Thaís por ser compressível, ao irmão Paulo e Jardel por serem pessoas amigas e exemplares para minha caminhada. Em relação aos meus primos que sempre me defenderam e compreenderam meu jeito de ser. A meus primos amigos Alcilene, Messias, Hosana, Jéssica e Marli, meus amigos primos. Dos professores cito professor Renato que sempre me aconselhou sobre a vida, ao Vitor Hugo pela pessoa simples que ele é, Sandra Kelly sem palavras para falar, um amor de pessoa, Lucas Melo que em minha pouca vivência percebi uma pessoa meiga e bondosa. Dos funcionários da Multicampi e UFRN, em especial Flávio um amigo novo que realmente posso contar, na URN em especial Sr. Zé que não mediu esforços ao me ajudar em suas caronas ao meio dia em ponto, pois precisava ir ao laboratório e o mesmo sempre parava sua carroça de burro para me levar. Dos laboratórios em especial Diego Emanuel, George, Luana, que todos me ajudaram. Fora da instituição o motaxista Sr. Zé sem palavras, porque se todos tivessem a sabedoria deste homem o mundo sereia muito melhor. A Mãe de Matheus por ser generosa e acolhedora. A Anairam por me ensinar muito sobre a vida. É importante ressaltar sobre cada pessoa que não foi citada que apareceu e desapareceu em minha trajetória de vida tiveram um papel importante na minha vida, pois não esqueci. Por fim, peço desculpas e perdão pelos que não citei.
R
ESUMO
A partir das contribuições teóricas e metodológicas do campo da Geografia, o conceito de território ganhou novos contornos conceituais e operacionais no Sistema Único de Saúde (SUS). No contexto do SUS, o conceito de território implicou (e implica) em novas conformações da atenção à saúde e da gestão do processo de trabalho em saúde, notadamente na Atenção Primária à Saúde (APS). Nesse sentido, o presente estudo teve como objetivo compreender a representação social de território dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) das equipes de saúde da família I e II da Unidade Básica de Saúde Paraíba, em Caicó (RN), atentando para as implicações dessa representação no processo de trabalho das referidas equipes. Trata-se de pesquisa qualitativa, cuja população constou dos 16 ACS das Equipes de Saúde da Família I e II da UBS Paraíba. A coleta dos dados ocorreu nos meses de setembro e outubro de 2016. As informações foram registradas em áudio, transcritas na íntegra e analisadas através da técnica de codificação temática. Emergiram duas categorias da análise do material empírico: Em pedaços: representação do conceito de território do/no SUS dos ACS; e O controle do território: a importância do território no processo de trabalho no cotidiano do ACS. Pode-se concluir que tanto o conceito de território como os impactos desta representação de território são um cumulativo de problemas processuais que decorrem no tempo-espaço, destes profissionais vivos ao mesmo tempo cidadãos. As soluções aos problemas gerados pelos poderes existentes no território podem ser solucionadas, segundo os ACS, com planejamento adequado, como: dividir os territórios por quarteirões fazendo uma simulação, melhorar a acessibilidade de contato com o ACS em relação de hierarquia na equipe, ter grupos de ajuda para os ACS desabafarem e se reabilitar de suas aflições no trabalho, não congestionar o sistema de saúde, fazer um novo remapeamento coerente que não fique fragmentado, repensar sobre a divisão de equipes, humanizar mais para a população ser bem atendida, fazer capacitação de urgência para melhor eficácia e compreensão tanto da profissão como do uso da territorialização dos territórios, aumenta mais funcionários da saúde.
Palavras-chave: Geografia da Saúde. Território. Territorialização. Agentes Comunitários de
A
BSTRACT
From the theoretical and methodological contributions of the field of Geography, the concept of territory gained new conceptual and operational contours in the Unified Health System (SUS). In the context of SUS, the concept of territory implied (and implies) new conformations of health care and management of the health work process, notably Primary Health Care (PHC). In this sense, the present study aimed to understand the social representation of the territory of the Community Health Workers (CHW) of health teams of families I and II of the Paraíba Basic Health Unit in Caicó (RN), considering the implications of this Representation in the work process of those teams. This is a qualitative research whose population consisted of the 16 CHW of the Family Health Teams I and II of UBS Paraíba. The data were collected in September and October 2016. The information was recorded in audio, transcribed in full and analyzed using the thematic coding technique. Two categories emerged from the analysis of the empirical material: In pieces: representation of the concept of territory of the / in the SUS of the CHW; And Territorial control: the importance of the territory in the work process in the daily life of the CHW. It can be concluded that both the concept of territory and the impacts of this representation of territory are a cumulative of procedural problems that occur in time-space, of these living professionals at the same time citizens. The solutions to the problems generated by the existing powers in the territory can be solved, according to the CHW, with adequate planning, such as: divide the territories by blocks making a simulation, improve the accessibility of contact with the CHW in relation of hierarchy in the team, To help CHWs vent and rehabilitate their work afflictions, not to congest the health system, to make a new coherent remapping that is not fragmented, to rethink the division of teams, to humanize more for the population to be well served, to provide training of urgency for better effectiveness and understanding of both the profession and the use of the territorialization of territories, increases more health officials.
Keywords: Geography of health. Territory. Territorialization. Community Health Workers.
L
ISTA DEF
IGURASFigura 01:Representação gráfica dos conceitos de territórios contínuos e descontínuos.16 Figura 02: Bairro Paraíba e respectiva divisa com outros bairros de Caicó/RN... ... 30 Figura03: Registro referencial cotidiano, do território do Bairro Paraíba. ... 32 Figura04: Registro referencial fixo, a academia, do território da UBS Bairro Paraíba. . 33 Figura 05: Unidade Básica de Saúde (UBS) do Bairro Paraíba, Caicó/RN. ... 34 Figura 06: Unidade Básica de Saúde (UBS) do Bairro Paraíba, Caicó/RN, seus instrumentos que caracterizam usuários e profissionais. ... 34 Figura 07: Territorialização realizada pelos ACS e a constituição da territorialidade do território SUS. ... 45 Figura 08: Territórios do Bairro Paraíba, Caicó/RN. ... 47 Figura 09: Territórios do Bairro Paraíba, Caicó/RN. ... 48 Figura 10: Divisão criada pelas equipes de Saúde familiar I e II da UBS pertencente ao Bairro Paraíba/Caicó . ... 63
L
ISTA DEM
APASL
ISTA DE
S
IGLAS
ACS-(Agente Comunitário de Saúde) APS-(Atenção Primária de Saúde) CEP-(Comitê de Ética em Pesquisa) ESF-(Equipes de Saúde da família) ESF-(Estratégia Saúde da Família) MS-(Ministério da Saúde)
OMS-(Organização Mundial da Saúde) ONG-(Organização Não-Governamental)
PACS -(Programa de Agentes Comunitários de Saúde) PNAB – (Política Nacional de Atenção Básica)
PNACS- (Programa Nacional de Agentes Comunitários de Saúde) PSF-(Programa de Saúde Familiar)
SESP- (Serviço Especial de Saúde Pública) SMS- (Secretaria Municipal de Saúde) SUS- (Sistema Único de Saúde) UBS- (Unidade Básica de Saúde)
UGI- (Congresso da União Geográfica Internacional)
S
UMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 10
2 REFERENCIAL TEÓRICO ... 12
2.1 O CAMPO DA GEOGRAFIA DA SAÚDE...12
2.2 O CONCEITO DE TERRITÓRIO NA GEOGRAFIA...14
2.3 O CONCEITO DE TERRITÓRIO NO SUS ... 18
2.4 PROGRAMA DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE...23
2.5 REPRESENTAÇÃO SOCIAL...25
3 METODOLOGIA ... 29
3.1 ABORDAGEM E TIPOLOGIA DA PESQUISA...29
3.2 DESCRIÇÃO DO AMBIENTE DE ESTUDO...29
3.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA...35
3.4 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO ... 35
3.5 PERÍODOS E INSTRUMENTOS PARA COLETA DE DADOS...35
3.6 PROCEDIMENTOS PARA ANÁLISE DOS DADOS...36
3.7 ANÁLISE DE RISCOS E BENEFÍCIOS...36
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO...37
4.1 PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO DOS ACS...37
4.2. EM PEDAÇOS: REPRESENTAÇÃO DO CONCEITO DE TERRITÓRIO DO/NO SUS DOS ACS...38
4.3 O CONTROLE DO TERRITÓRIO: A IMPORTÂNCIA DO TERRITÓRIO NO PROCESSO DE TRABALHO NO COTIDIANO DO ACS...49
5 CONCLUSÃO ... 65
1 INTRODUÇÃO
A ciência Geografia tem o objetivo de estudar o espaço geográfico no qual o homem realiza seus sistemas de ações e sistemas de objeto. Para compreender esta problemática é necessário entender a dinâmica geoterritorial de cada lugar, pois a partir delas se podem evidenciar as origens das representações que os homens atribuem às suas ações.
A Geografia da Saúde é um subcampo da Geografia que surgiu no século XX através de uma releitura da então chamada Geografia Médica. No contexto brasileiro, a Geografia da Saúde tem interface com o campo da Saúde Coletiva, mais especificamente a área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde. Sendo assim, a Geografia da Saúde busca compreender não somente a doença enquanto fenômeno patológico e suas relações com o meio físico, mas, sobretudo os determinantes sociais do processo saúde-doença que colaboram para as situações de vida e de saúde de pessoas que vivem num dado espaço-território.
Na Geografia da Saúde, a concepção de saúde difere daquela oferecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) com seu significado de estado de bem-estar completo e perfeito (SEGRE, 1994). Portanto, parte-se da compreensão do processo saúde-doença como um
continuum produzido socialmente, tendo as realidades situacionais múltiplas do lugar como
elementos determinantes da qualidade de vida de uma coletividade.
No Brasil, as discussões produzidas no campo da Geografia da Saúde têm se tornado cada vez mais relevantes, sobretudo após 1988, com a criação do SUS e os desdobramentos políticos e programáticos no sentido de reorientar o modelo de atenção à saúde vigente no país. Nesse cenário, o conceito de território passou a nortear a organização do sistema de saúde, sobretudo com a criação do Programa de Saúde da Família (PSF), em 1994, hoje denominado Estratégia Saúde da Família (ESF). Nesta situação, o conceito de território é determinante, ou seja, importante para prevenção e promoção da saúde, pois sua compreensão permite compreender os múltiplos determinantes do processo saúde-doença e, a partir disso, planejar as ações de saúde voltadas a otimizar as situações vivenciadas.
Diante disso, o objetivo deste estudo foi compreender a representação social de território dos Agentes Comunitário de Saúde (ACS), categoria profissional integrante das Equipes de Saúde da Família. Os específicos foram desvendar as representações sociais dos ACS sobre o conceito de território no SUS e conhecer as implicações dessa representação no processo de trabalho das referidas equipes de saúde da família.
Nesta situação, partiu-se das seguintes questões norteadoras para explicar ou compreender tais ações nesse espaço geográfico: como os ACS das equipes de saúde da família I e II no Bairro Paraíba em Caicó/RN compreendem o conceito de território no Sistema Único de Saúde (SUS)? E em que medida essa compreensão de território implica no processo de trabalho das referidas equipes de saúde da família?
Cumpre destacar que o presente estudo tem pretensão de contribuir na produção de conhecimento próprio dos campos da Geografia, da saúde e da Saúde Coletiva. Logo, a proposta de pesquisa em tela se justifica do ponto de vista científico, uma vez que na literatura especializada brasileira há uma produção ainda incipiente sobre os impactos da representação social de território de ACS e seus impactos no processo de trabalho em saúde (SANTOS, 2010; PEREHOUSKEI, BENADUCE, 2007; JAYME, 2013; FARIA, BERTOLOZZI, 2009).
No que tange à sua relevância social, este estudo poderá contribuir com os processos de transformação do processo de trabalho em curso em algumas Unidades Básicas de Saúde do município de Caicó, disparados por docentes e discentes da Escola Multicampi de Ciências Médicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMCM/UFRN). Tais processos visam, em última instância, qualificar a atenção à saúde prestada à população do município, o que, consequentemente, poderá impactar positivamente na qualidade de vida e nas condições de saúde dessas pessoas.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 O CAMPO DA GEOGRAFIA DA SAÚDE
Esta pesquisa se insere no campo da Geografia da Saúde, subcampo da Geografia. A Geografia da Saúde nasceu da perspectiva das ciências naturais e sociais, em princípios amadurecidos sem se esquecer do passado de múltiplas modificações que transformam o espaço de ações e objetos, propondo uma releitura construtiva do espaço de ordens naturais, humanas e territoriais (PEREHOUSKEI, BENADUCE, 2007; SANTOS, 2006).
Os primeiros estudos na geografia da saúde começaram no contexto da geografia médica. Dentre esses estudos, a primeira obra publicada voltada a este campo foi de Hipócrates, na Grécia Antiga, em 480 a. C., denominada dos ares, das águas e dos lugares (LACAZ, 1972). Ou seja, podemos situar os primórdios da geografia da saúde no mesmo contexto histórico em que emerge a história da medicina.
Segundo Jayme (2013), as pesquisas na área da geografia da saúde posteriores continuaram com um olhar voltado ao meio físico e natural, até que, no século XVIII e início do século XIX, passaram a sofrer as influências de naturalistas como Alexander Von Humboldt e Charles Darwin e seus estudos. O primeiro procurava explicar na interação da natureza física (clima, relevo, hidrografia entre outros) a evolução da sociedade, pois esta somente poderia evoluir se obtivesse as condições ambientais favoráveis, o que gerou a ideia de causas e efeitos e a criação da Teoria da Causalidade, já o segundo propusera sobre os princípios da seleção natural, em que a espécie mais forte ou mais adaptada dominaria as mais fracas, ou seja, poderia controlar o meio natural (ANDRADE, 1987).
Esta situação, no entanto, mudaria a partir da metade do século XIX até meados do século XX, quando tiveram início as discussões que propuseram a modificação da denominação do subcampo de geografia médica para geografia da saúde. Isto era verificado por causa das análises realizadas sobre o homem e suas relações no espaço geográfico, ademais suas ações implicando nos processos socioculturais e econômicos que promoviam uma nova concepção de estudos de égide da multicausalidade (JAYME, 2013).
Dentre essas pesquisas, pode-se citar, no século XIX, a de John Snow, o qual analisou as relações do homem no espaço como fator de distribuição da cólera no bairro Soho, em Londres. Snow estudou não só o meio físico influenciava nos problemas de saúde, mas
também ações do homem (SANTOS, 2010; JAYME, 2013). Outro pesquisador que merece destaque é o geografo Max Sorre que, em meados do século XX, colocou em evidência na geografia médica a necessidade de se abordar a multicausalidade incluindo, também, a perspectiva da Teoria do Possibilismo, de Vidal de La Blache. Tal teoria estabelecia que “[...] o meio exercia alguma influência sobre o homem, mas que este, dependendo das condições técnicas e de capital de que dispunha, poderia exercer influência sobre o meio” (ANDRADE, 1987, p.70).
No século XX, os amadurecimentos científicos levaram à mudança terminológica de geografia médica para geografia da saúde, por esta última denominação abranger a qualidade de vida, a educação, a moradia, o saneamento básico, a infraestrutura em saúde e outros elementos com as condições de saúde das populações (JUNQUEIRA, 2009). Porém, a mudança de nomenclatura ocorreu em 1982, durante o Congresso da União Geográfica Internacional (UGI) onde se instituiu, definitivamente, a mudança do termo Geografia Médica para Geografia da Saúde (PEREHOUSKEI, BENADUCE, 2007).
Isto se deu devido à compreensão do homem como um influenciador no meio e não somente como hospedeiro de doenças, pelas evidências dos estudos voltados a corrente da criticidade ou radicalismo entre os autores podemos citar W. Bunge que buscou transpor as realidades do lugar ou compromisso com “status quo, com a sociedade de classe” (ANDRADE, 1992, p. 126, grifo do autor), porém este autor se enquadrava no grupo dos mais radicais, pois não aceitava em si a corrente tradicional e quantitativa.
Todavia, dentro dessa corrente tinham autores que buscavam compreender e entender de uma forma dialética e relacional sobre as correntes faladas, nisto tendo as influências dos sociólogos Max e Engels (ANDRADE, 1992).
Dentre os autores podemos destacar Milton Santos, que influenciou na construção do objeto de estudo da Geografia e “permitiu mudar o foco de atenção, que antes era centrado na doença, para os determinantes sociais das condições de saúde” (FARIA, BORTOLOZZI, 2009, p. 39). Diversos autores têm estudado doenças e condições, como: malária (VIEIRA, 2011), cólera (BEZERRA, 2012), dengue (NUNES, 2015), leishmaniose (PEITER, 2005), tuberculose associada ao HIV/AIDS (BARCELLOS, 2005) e inúmeros casos de homicídios e acidentes de trânsito relacionados às questões de violência urbana e aos processos de urbanização e industrialização do espaço geográfico (SANTOS, 2006).
Tais acontecimentos fomentaram o desenvolvimento de estudos geográficos sobre diversas temáticas, dentre elas: as questões de saúde coletiva, as categorias espaço e território,
as ações no espaço-saúde, a causalidade de doenças (FARIA, BORTOLOZZI, 2009; SANTOS, 2010).
No Brasil, particularmente, os estudos em geografia da saúde estão centrados no panorama de planejamento dos serviços de saúde (PEREHOUSKEI, 2005), no conceito de território no SUS (GOLDIN et al, 2008). É sobre esta temática que o presente projeto de pesquisa irá se debruçar, como veremos a seguir.
2.2 O CONCEITO DE TERRITÓRIO NA GEOGRAFIA
A palavra território em seu sentido etimológico, segundo os dicionários Aurélio e Houaiss, significa:
[Do lat. Territoriu] S.M 1. Extensão considerável de terra; torrão. 2. Área de um país, ou estado, ou província, ou cidade, etc. 3. Nos E.U.A., região que não constitui Estado e é administrada pela União. 4. Jur. Base geográfica do Estado, sobre a qual exerce ele a sua soberania, e que abrange o solo, rios, lagos, mares interiores, águas adjacentes, golfos, baías e portos. 5. Jur. A parte juridicamente atribuída a cada Estado sobre os rios, lagos e mares contíguos, e bem assim o espaço aéreo que corresponde ao território, até a altura determinada pelas necessidades da polícia e segurança do país, devendo-se, ainda, considerar como parte do território os navios de guerra, onde quer que se encontrem, e os navios mercantes em alto-mar ou em águas nacionais (FERREIRA, 2010, p.2031-2).
(séc. XIV cf. FichIVPM) 1 grande extensão de terra 2 área de município, distrito, estado, país etc. 3 área de uma jurisdição 4 a própria jurisdição 5 no Brasil e E.U.A., região que, não constituindo um estado, é administrada pela União 6 JUR extensão ou base geográfica do Estado, sobre a qual ele exerce a sua soberania e que compreende todo o solo ocupado pela nação, inclusive ilhas que lhe pertencem, rios, lagos, mares interiores, águas adjacentes, golfos, baías, portos e tb. A faixa do mar exterior que lhe banha as costas e que constitui suas águas territoriais, além do espaço aéreo correspondente ao próprio território 7 ECO área que um animal ou grupo de animais ocupa, e que é defendida, parte contra a invasão de outros indivíduos da mesma espécie ETIM lat. Territorum, li ‘grande área ou extensão de terra delimitada, parte da terra ou de uma terra sob jurisdição de terra delimitada, parte da terra ou de uma terra sob jurisdição’; ver terr-; f. hist. Sxiv terrentorio, 1721 territôrio, a 1748 tarrentorio, 1813 terratório SIN/VAR ver sinonímia de terra (HOUAISS, 2001, 2706).
Nessas decifrações, mesmo trazendo o termo de território a uma concepção de senso comum de substrato social, obedece a lógica de poder de algo ou alguém que tem influência
sobre o conjunto como todo ou conjunto como o todo, assim se diluindo as relações de poderes sociais de conflitos. Portanto, entende-se que desde os primórdios, o território era delimitado pelas suas feições físicas e usado para determinados fins, dentre eles proteção e manutenção da raça. À medida que o homem foi se aperfeiçoando em suas técnicas, o espaço-território começou a constituir novos valores de interesses (SANTOS, 2006).
Essa concepção de interesses é identificada principalmente no recorte da Segunda Guerra Mundial, no século XX, tanto nas ciências naturais como nas sociais que conceberam o conceito de território num sentido determinista.
Conforme Haesbert (2002), o geógrafo Frederico Ratzel contribuiu para a importância da relação sociedade-de-espaço que desenvolveu a concepção de espaço vital, no qual uma sociedade mais forte dominava a mais fraca “o que seria justificado, sobretudo, pela necessidade de território, de seus recursos, para a sua sobrevivência biológica” (HAESBAERT, 2002, p. 118). Tais ideias, segundo Andrade (1987), foram bastante utilizadas, por exemplo, por Hitler para a expansão do território alemão durante a Segunda Guerra Mundial.
Entretanto, Souza (2000) diz que Ratzel não tratava, em seus estudos, o território como indissociável, mas como sinônimo de território de Estado. Na realidade, para Ratzel, o território era o solo (boden). Ainda segundo Souza (2000), os territórios, antes de tudo, são relações sociais que constituem redes de interação e força de grupos dentro e externamente. Logo,
O papel do espaço, hoje indissociável em suas perspectivas “natural” e “social”, pode ser interpretado tanto como “rugosidades” ou “constrangimentos”, que redirecionam os processos sociais e econômicos, quanto como referenciais inseridos na vida cotidiana e que perpassam nossas identidades coletivas(HAESBERT, 2002, p. 81).
Nessa perspectiva, o território é condicionado por algo ou alguém que constitui ações desenvolvendo territórios contínuos e descontínuos.
Portanto, "temos que cada território descontínuo é na realidade, uma rede a articular
dois ou mais territórios contínuos" (SOUZA, 2000, p. 94, grifos do autor), pois os territórios
descontínuos são propriamente construídos pela presença de problemas ou tensionamentos diversos que surgem dentro dos territórios contínuos. Os territórios contínuos, por sua vez, são constituídos por processos históricos, envolvendo fatores políticos, culturais, econômicos,
sociais, religiosos e etc., que perpetuam uma reinvenção do território tornando transterritório pela realidade imposta hoje.
Para ilustrar esses conceitos, pode-se utilizar como exemplo os territórios no contexto da Estratégia Saúde da Família, a partir da representação gráfica abaixo (Figura 01):
Figura 01: Representação gráfica dos conceitos de territórios contínuos e descontínuos.
Fonte: Acervo do autor.
Conforme se observa na figura acima, o espaço delimitado pela linha azul corresponde ao território político-administrativo da cidade que se caracteriza como um território contínuo, uma vez que possui processos históricos, políticos, culturais, econômicos, sociais, religiosos e etc. já constituídos. Em seu interior, a linha vermelha delimita o território do SUS, representado pela ESF, que, por seu turno, pode ser denominado território descontínuo, porque, inicialmente, este território é estranho para a população. Porém, no decorrer do processo de territorialização, torna-se contínuo, na medida em que passa a ser usado e vivido pelos usuários do SUS. Por fim, a linha verde que simboliza o ACS, sinaliza as diversas influências que este profissional da saúde recebe tanto do território da cidade como do território do SUS. Logo, ao atuar no território do SUS o ACS produz uma reterritorialização ao engendrar outros arranjos e relações do espaço vivido, primeiramente havendo a descontinuidade (produção de novos territórios dentro do território pré-definido pelo SUS) e depois a continuidade (quando desenvolve tecnicamente aquilo que se espera do seu trabalho,
mas, agora, num território ressignificação), sem deixar as referências de territorialização que vivencia.
Haesbert (2002, p. 83) observa que “embora sem negar que toda espacialidade esteja impregnada, em diferentes níveis, de uma carga simbólica ou disciplinar, alguns espaços parecem assumir primordialmente um destes ‘conteúdos’”. Consequentemente, pode-se dizer que o território é uma possível criação do conteúdo político do mundo moderno, por ter sido desenvolvido por interesses da burguesia. Isto pode ser verificado nas obras de Claude Raffeestin que evidencia o território, domínio e substrato do social:
De acordo com a nossa perspectiva, a territorialidade-adquire um valor bem particular, pois reflete a multidimensionalidade do "vivido" territorial pelos membros de uma coletividade, pelas sociedades em geral. [...] Os atores, sem se darem conta disso, se automodificam também. O poder é inevitável e, de modo algum, inocente. Enfim, é impossível manter uma relação que não seja marcada por ele. (RAFFESTIN, 1993, p.158-9).
Muito embora, segundo Souza (2000), Raffestin em seu trabalho reduzisse o espaço ao natural e o conceito de território equiparado a espaço social esse contribuiu para um melhor entendimento sobre a perspectiva social e outras áreas envolvendo as ações do homem.
Nessas compreensões, em contrapartida Santos (2006) desempenhou o caminho e, pode-se dizer, a lógica, os sentidos e substratos, conforme este, apesar do território possuir significados e representações sociais de cunho político-administrativo de um Estado que exerce poder, não é o condutor dessas territorializações, mas um aspecto que elabora as reproduções dos agentes sociais. Nessa perspectiva, entende-se por território:
A extensão apropriada e usada. Mas o sentido da palavra terriorialidade como sinônimo de pertencer àquilo que nos pertence... esse sentimento de exclusividade e limite ultrapassa a raça humana e prescinde da existência de Estado. Assim, essa ideia de territorialidade se estende aos próprios animais, como sinônimo de área de vivência e de reprodução. Mas a territorialidade humana pressupõe também a preocupação com o destino, a construção do futuro, o que, entre os seres vivos, é privilégios do homem(SANTOS, 2006, p. 19, grifos do autor).
O território, portanto, é na realidade um referencial de interações múltiplas que criam e recriam delimitações devido às ações de forças que constroem seu substrato, mas que essas referências ou aspectos sejam de identidade, economia, política, meio natural, social. Logo
essas referências ou aspectos podem causar certa representação de dominância na construção do território, porém sendo passível de descontinuidade (SOUZA, 2000; HAESBERT, 2002). Depois desta conceituação e definição será examinado o significado de território no SUS.
2.3 O CONCEITO DE TERRITÓRIO NO SUS
O uso e a importância do termo território no SUS é aplicado conforme suas diretrizes e princípios que foram construídas em consequência da Conferência de Alma Alta; do movimento da Reforma Sanitarista; do processo de redemocratização do país; da 8ª Conferência Nacional de Saúde. Este conceito se tornou imprescindível a partir da criação do PACS, em 1991, e da ESF (antes PSF), em 1994, com o intuito de reorganizar o SUS sobre a ótica de regionalização para maior eficácia na prevenção e promoção da saúde. Porém, estas situações se desenvolveram entre os anos 1970 a 1990, como veremos abaixo.
Nos anos 1970, sobre o signo da medicina preventiva, a medicina comunitária desenvolveu nas faculdades ideologias sobre a lógica de modelo da Atenção Primária à Saúde (APS), as quais traziam a concepção de integração, prevenção, universalização, sobre uma organização em uma região para melhor compreensão e atendimento da população adscrita (MOSORI, 2007).
Essas ideias foram difundidas para diversos países, principalmente nos países de pouco aparato tecnológico, o que possibilitou o surgimento de programas relacionados ao modelo como o fortalecimento nas estratégias de ações dos governos, nos conteúdos socioeconômicos. Segundo Mosori (2007), é nessa situação que o modelo de APS alcança relevância na agenda das políticas de saúde.
Com os resultados das experiências nos países que aderiram ao modelo, provocou-se a trigésima reunião anual realizada pela a Assembleia Mundial de Saúde, para debater sobre esta nova proposta, posteriormente gerando, em 1978, a conferência realizada em Alma Ata, no Cazaquistão, onde foram apresentados os princípios da APS (integração, universalização, primeiro contato, coordenação e continuidade em um território delimitado). Na Declaração de Alma Ata foi proposta a seguinte definição de APS:
Os cuidados primários em saúde são cuidados essenciais de saúde baseados em tecnologia e métodos práticos, cientificamente comprovados e socialmente aceitáveis, tornando universalmente acessíveis a indivíduos e famílias na comunidade mediante sua plena participação e a um custo que a comunidade e o
país possam manter em cada fase de seu desenvolvimento, um espírito de autoconfiança e autodeterminação. É parte integral do sistema de saúde do país, do qual é função central, sendo o enfoque principal do desenvolvimento social e econômico global da comunidade. É o primeiro nível de contato dos indivíduos, da família e da comunidade com o sistema nacional de saúde, levando a atenção à saúde o mais próximo possível do local onde as pessoas vivem e trabalham, construindo o primeiro elemento de um processo de atenção continuada à saúde (OMS apud STARFIELD, 2002, p. 30-1).
Nesse panorama de propostas de modelos tecno-assistenciais, condicionou-se uma das principais motivações para desenvolvimento do movimento de Reforma Sanitária Brasileira, pois esta terá o intuito de implantar um sistema de saúde universal, ou seja, o modelo de APS (MOSORI, 2007). Isto motivara a importância de “ [...] uma reflexão sobre o funcionamento dos serviços e, com isso, de sua base territorial, levando a um maior interesse sobre os critérios de delimitação de territórios para saúde” (BARCCELOS, 2008, p. 37).
Esse movimento teve início nos meados da década de 70, sendo influenciada pela reforma sanitária italiana, o qual constitui um grupo restrito de pensadores. Entre os principais integrantes, identificavam Hésio Cordeiro, Sérgio Arouca, Eleutério Rodrigues e Amélia Cohn, todos da área da saúde, os quais reivindicavam substituir o sistema de seguro social para um sistema de saúde democrático com a possibilidade de executar sistema público de atendimento universal, como antes falado (RODRIGUES, 2011; SILVIA, 2004).
Com isso, as ideias propostas pela Reforma Sanitária Brasileira tinham como metas:
[...] saúde ampliada, relacionada às condições gerais de vida como moradia, saneamento, alimentação, condições de trabalho, educação e lazer. A saúde, nesse sentido, é definida como um ‘direito do cidadão’ e, consequentemente, um ‘dever do estado’ (SILVIA, 2004, p. 55).
Tais ideias referenciavam-se nas doutrinas do modelo de APS para um sistema de saúde público no Brasil.
Os anos 1980, consequentemente, foram marcados pelo processo de redemocratização política do Brasil, pois o mesmo encontrava-se sobre uma política de ditadura militar e também se verificava, nessa década, uma explosão demográfica, demostrando um número expressivo de atendimento nos hospitais e agravamentos de problemas sociais como saneamento básico, desemprego, saúde entre outros, que irá efervescer ainda mais a política nos movimentos sociais (SANTOS, 2006). Entre eles, o movimento da Reforma Sanitária que consegue em suas reivindicações a garantia da saúde como “um direito do cidadão e um dever do Estado, na Constituição Brasileira de 1988” (MOSORI, 2007, p. 80).
Todavia, essa situação é constituída especificadamente em 1986, na VIII Conferência Nacional de Saúde, na qual foi delineada a elaboração do projeto da Reforma Sanitária Brasileira que, grosso modo, “empenhou-se em revisar as questões teórico-políticas e recuperar princípios e diretrizes do movimento pela democratização da saúde” (PAIM, 2008, p. 99). Ou seja, tais ideias deste documento se projetaram na Constituição Federal de 1988, concebendo a saúde como um direito de todos.
Essa elaboração do projeto foi feita com a participação da sociedade, destacando-se por ser a primeira conferência a ter a participação da população nos finais da ditadura militar (RODRIGUES, 2011).
Nesse documento continha os princípios de descentralização, integralidade, participação popular, regionalização e hierarquização numa área adscrita, os quais somente foram absorvidos pela Constituição Federal com o término da ditadura militar em 1988, onde foram construídos os direitos de saúde do cidadão e instituído o novo modelo de assistência, a APS e o SUS, pela Lei Orgânica da Saúde e de várias normas e portarias emitidas pelo Ministério da Saúde (MOSORI, 2007).
Na Constituição Federal podem-se identificar essas diretrizes e princípios do SUS, na Seção II da Saúde nos artigos 196 e 198:
Art. 196 A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.
Art. 198 As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes:
I - Descentralização, com direção única em cada esfera de governo;
II - Atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais;
III - participação da comunidade (BRASIL, 2006, p.7).
Compreende-se que essas diretrizes e princípios se diluem no termo território como objeto norteador de estratégias na promoção da saúde e prevenção de doenças, num sentido em que a integralidade e os demais princípios, somente se concretizam em uma regionalização, com isto:
Levando a um maior interesse sobre critérios de delimitação de territórios para saúde. É nessa ótica gerencial que se invoca o conceito de território, concebendo, assim, como área político-administrativa, com maior ênfase na repartição do espaço
do que nos processos que aí se desenvolvem. A operacionalização do conceito de território é o principal objetivo dessa retomada. (BARCELLOS, 2008, p. 37).
Rodrigues (2011) observa que essas regionalizações ou territorializações são organizadas pelo SUS por dois quesitos: demográfico e epidemiológico, do espaço vivido, baseados na Lei Orgânica da Saúde (Lei nº. 8.080/90). O primeiro quesito distingue-se por ser uma intervenção sanitária eficiente e por entender os problemas que afetam estas populações sendo uma população específica, já o epidemiológico seriam as doenças que afetam esta população.
Nos ano 90, especificamente em 1991 nasce o PACS que vem expor ainda mais a importância de se trabalhar sobre a lógica de ações no SUS sobre construção de território.
Esse programa surgiu do SESP (Serviço Especial de Saúde Pública) e dos programas de extensão de cobertura, os quais embasaram e determinaram o surgimento das diretrizes, com a meta de reduzir a mortalidade e promover ações de atenção à saúde nos territórios ou regiões de maior fragilidade (LACAZ, 1972; MOSORI, 2007).
A importância dessas ações promovidas pelos ACS, outrora chamados de visitadores sanitários (BARROS et al, 2010), veio representar, para Ministério da Saúde e Secretárias de Saúde, uma nova tática territorial de promoção da saúde e de surgimento do elo entre as equipes de saúde e a comunidade adscrita, o que condicionou em experiências nas áreas de atuação do programa, dados estatísticos positivos nas condições de saúde da população.
Isto provocou, nestes resultados, a mudança de PNACS para PACS, em 1992, pois na visão do Unicef - (Fundo das Nações Unidas para a Infância e do Ministério) identificava-se uma nova dinâmica de ação e extensão de promoção numa lógica territorial (MOSORI, 2007).
Assim sendo, pode-se dizer que conforme Barcellos (2006, p.37) “[...] a base territorial é um dos princípios organizativo-assistenciais mais importantes do Sistema de saúde”. A comprovação disso foi o surgimento do PSF (Programa de Saúde Familiar) na década de 90, exatamente em 1994, com adesão do PACS, que em suas diretrizes operacionais ressalva:
[...] na vigilância da saúde parte da territorialização do trabalho em saúde, isto é, da localização sócio-político-geográfica do processo saúde-doença que permite a compreensão dos problemas de saúde em seu contexto territorial e o planejamento mais adequado das intervenções necessárias, desde a definição de prioridades ao estabelecimento das ações mais adequadas. Não é à toa que um trabalho prévio ou concomitante instalação das equipes de Saúde da Família em uma região consiste no mapeamento das áreas e microáreas de atuação e na sua distribuição pelas equipes. Em seguida, estas realizações, o cadastramento das famílias e o levantamento das
principais informações socioeconômicas e sanitárias da região adscrita. (MOSORI, 2007, p. 90).
É relevante ressaltar que, atualmente, não se chama mais de PSF, mas de Estratégia Saúde da Família (ESF), alterado pelo Ministério da Saúde em 1996 porque “o conceito de programa estava vinculado a uma ideia de verticalidade e transitoriedade, passando a utilizar a denominação de Estratégia de Saúde da Família por considerá-la a estratégia escolhida para a reorientação da atenção à saúde no país” (MOSORI, 2007, p.90).
Portanto, o termo território no SUS, para Castro et al. (2010, p. 47), em sua conceituação “passa de quadro estático, em que a vida ocorre, para espaço em que um conjunto de saberes, poderes, necessidades, desejos, valores, interesses e discursos se organizam e se reorganizam de maneira específica”. Isto pode se caracterizar por um território de processos e redes em que são exercidas as ações de poderes de territorialidade do SUS sobre a população do lugar, causando as redes de territórios dos já existentes.
Para Borges; Taveira (2012), o conceito de território no SUS é definido como um espaço limitado político-administrativamente ou produzido por um grupo social que exerce um poder ou influência sobre a área, identificando aspectos referenciais como histórico, ambiental, político, simbólico, entre outros em que é defina e exercida as ações do SUS ou, simplificando, é compreendido como território-processo “onde a sociedade se estrutura e reproduz a vida, organiza a cultura, vive a história” (MOSORI, 2007, p. 32).
Nessa situação, o território-processo, também chamado de região de saúde, “promoverá a integração dos serviços ora fracionados, em rede, unindo os municípios de forma sistêmica com a finalidade de garantir a integralidade da assistência à saúde sem perder o princípio constitucional da descentralização” (SANTOS, 2015, p. 440).
Nisto, para haver os princípios constitucionais e a descentralização o SUS organiza em suas territorializações no âmbito estadual e municipal. O primeiro verifica-se em quatro categorias: Região de saúde, Microrregião, Metrópole ou cidade-polo e Módulo assistencial (BORGES; TAVEIRA, 2012).
Enquanto nos municípios se “(...) gerou a necessidade de se limitar cada sistema de saúde com base no território e na população” (BORGES, TAVEIRA, 2012, p. 242), com identificando quatro categorias de território: o Distrital, dado pelo poder político-administrativo; território-Área, formada pelo conjunto das microáreas determinadas pelos ACS e SMS - (Secretária Municipal de Saúde); Microárea: pela homogeneidade
socioeconômica e epidemiológica; e Moradia: lugar residencial para atendimento de uma família.
Portanto, conforme Borges e Taveira (2012) que a territorialização e territorialidade do SUS é importante para melhores serviços e atendimentos à população, muito embora também se perceba que o território Área e Microárea, unidade operacional do ACS, seja um território de múltiplas transformações, o que implica na realidade do número de pessoas para estes agirem, pois “todos os dias o mundo está inventando uma novidade, cada dia somos ignorantes do que são e do que valem as coisas novas” (SANTOS, 2006, p. 151). Em seguida, será falado especificamente do PACS onde se pode compreender mais um pouco das origens desse espaço.
2.4 PROGRAMA DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE
O PACS é um programa governamental que nasceu em 1991, mas suas premissas de assistência de ações na saúde podem ser observadas no período, no qual se denominava de PNACS - (Programa Nacional de Agentes Comunitários de Saúde), o que expressou a minimização das situações de doenças nas áreas de maior fragilidade no Brasil. Isto graças às ações em territórios delimitados ou adscritos, detalhe realizado pelos ACS, que foram primordiais para estratagemas na promoção de saúde no espaço geográfico condicionado a absolvição na Estratégia Saúde Familiar “visando à reorganização das práticas de atenção à saúde” (FRAGA, 2011, p. 6).
Essas iniciativas de ações pelo programa ocorreram entre os anos de 1987 e 1990, as quais foram desenvolvidas ações de infraestrutura e assistência de atenção primária à saúde pelo PNACS, nas regiões de maior fragilidade no país, no caso o Nordeste e Norte (LACAZ, 1972). Porém,
Neste mesmo contexto de ampliação da cobertura das áreas de saúde, pode-se considerar, de certa forma, que essas políticas tiveram alguma continuidade em diversas iniciativas de âmbito regional ou local, e que se traduziram em programas, utilizando a mesma estratégia de recrutamento de trabalhadores residentes no próprio grupo social (MOSORI, 2007, p. 157).
Consequentemente, as experiências positivas, motivaram para o Unicef, o Ministério e secretárias da saúde expandirem esse programa por todo Brasil. Segundo Mosori (2007), em consequência disso e por sua relevância nas operabilidades no território brasileiro, isso
evidenciou e provocou uma nova realidade de ações políticas do SUS, no qual encaixou-se nos propósitos da APS levando consequentemente na modificação do nome de PNACS, em 1992, para PACS.
Por meio desse programa, o Ministério da Saúde não somente fixou, mas amplificou a relevância do ACS, tendo em vista suas ações na territorialização do SUS representou uma “[...] ordenação da formação dos trabalhadores do setor, com base em metodologias mais reflexivas, voltadas ao aprendizado no próprio exercício profissional” (BARROS et al, 2010, p. 79) e, ademais, garantiu legitimidade da função dos ACS, isto em 1992.
Todavia, essa legitimação ocorreu, segundo Barros et al. (2010), por causa das seguintes situações:
1999 – Decreto Nº 3.189, 04/10/1999 e parecer legal Nº 16, 05/10/1999: o primeiro para fixar diretrizes de capacitação de trabalho do ACS, e segundo para a Educação Profissional de Nível Técnico, conforme a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996;
2002- Lei 10.507, 10/07/ 2002 legaliza a profissão do ACS;
2006- revogação da lei de 2002 para ajustes e uma nova regulamentação em atividades promulgada pela Lei Nº 11.350.
Nessa lei 11.350 no Art. 3. ° e 6. ° mostram as ações e objetos com uso da territorialidade e territorialização dos ACS:
Art. 3.º O Agente Comunitário de Saúde tem como atribuição o exercício de atividades de prevenção de doenças e promoção da saúde, mediante ações domiciliares ou comunitárias, individuais ou coletivas, desenvolvidas em conformidade com as diretrizes do SUS e sob supervisão do gestor municipal, distrital, estadual ou federal.
Parágrafo único. São consideradas atividades do Agente Comunitário de Saúde, na sua área de atuação:
I - a utilização de instrumentos para diagnóstico demográfico e sociocultural da comunidade;
III - o registro, para fins exclusivos de controle e planejamento das ações de saúde, de nascimentos, óbitos, doenças e outros agravos à saúde;
IV - o estímulo à participação da comunidade nas políticas públicas voltadas para a área da saúde.
Art. 6.º O Agente Comunitário de Saúde deverá preencher os seguintes requisitos para o exercício da atividade:
I - Residir na área da comunidade em que atuar desde a data da publicação do edital do processo seletivo público;
II - Haver concluído, com aproveitamento, curso introdutório de formação inicial e continuada;
§ 1.º Não se aplica a exigência a que se refere o inciso III aos que, na data de publicação desta Lei, estejam exercendo atividades próprias de Agente Comunitário de Saúde.
§2.º compete ao ente federativo responsável pela execução dos programas a definição da área geográfica a que se refere o inciso I, observados os parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2016, p. 1 e 2).
O § 2.º se refere ao enfermeiro da ESF (a) “[...] pois este deve planejar, gerenciar, coordenar as áreas desenvolvidas pelos ACS, segundo a Portaria n° 648 de 28 março de 2006, assim como sua supervisão, coordenação e realização das atividades de educação permanente desse profissional” (MOSORI, 2007, p. 97) como assistência integral, consulta, solicitação e prescrições em seus limites legislativo.
Para isto ACS integram nas equipes de saúde como ponto chave entre a comunidade e a UBS para facilitar uma maior compreensão do espaço-território como compartilhar informações importantes para as ESF proporcionando uma maior eficácia e melhoria no âmbito saúde e sociedade (BARROS et al., 2010).
Nisso, através do ESF existem três tipos de território de relações de poder:
Território de escuta (na fase de coleta de informações para se atingir a equidade); um território administrativo (quando são definidas articulações com outros territórios para garantir o acesso a equipamentos e instituições que permitem uma disponibilidade de recursos mais complexos ou complementares); e um território de realizações (quando é materializada a prestação de serviços no espaço vivido) (PEREIRA e BARCELLOS, 2006, p. 56).
Por fim, percebe-se que o PACS contribuiu e ainda desenvolvi e reduz os problemas sociais de saúde e educação com ações focadas nas populações mais pobres. Com sua adesão ao ESF possibilitou uma nova estratégia para a compreensão e entendimento das representações sociais das comunidades inseridas no território adscritos, estas de múltiplas criações e recriações territoriais. Agora depois deste entendimento iremos compreender o conceito de representação social.
2.5 REPRESENTAÇÃO SOCIAL
As representações sociais são saberes que se referem às pluralidades existentes no saber, mas sendo especialmente direcionada aos conhecimentos que se produzem e reproduzem no lugar, onde são identificados movimentos, animações, ou seja, o espaço vivido (SANTOS, 2006; REIS, BELLINE, 2011).
As premissas desse conhecimento podem ser observadas em Kant, filósofo iluminista que em suas reflexões, estabeleceu os princípios que determinaram limites ao conhecimento humano. Assim, desses princípios podem ser verificados três:
(...) o científico, o moral e o estético. O conhecimento científico limita-se ao fenômeno, que resulta da imposição de categorias subjetivas de percepção e de entendimento ao mundo externo. Nesta esfera, mediante a razão pura, o conhecimento quantifica e estabelece relações matemáticas entre fatos e coisas. Os conhecimentos moral e estético vão além do fenômeno e se dirigem ao noumeno, à coisa em si, por meio de uma disciplina pessoal e prática – do ponto de vista moral e estético – que procura superar o particular e alcançar o universal. Assim, o fenômeno se qualifica em uma perspectiva que pressupõe um sentido de totalidade e universalidade (QUEIROZ, 2000, p. 28, grifo do autor).
Todavia, essa concepção positivista se enrijeceu principalmente no mundo burguês, pois segundo Queiroz (2000), torna-se opressora com a ascensão desta classe social consequentemente, a globalização iniciada no século XVII e as novas visões de vida cultural, simbólica, social por ela provocadas.
Nesse período pré-modernista os estudos voltados aos sentidos humanos, como sua percepção, a intuição e a emoção eram considerados secundários diante do conhecimento científico da época. Tal posição secundária era explicada por se reconhecer que “diante dele [do conhecimento científico], os saberes do senso comum e do cotidiano, ou seja, as representações sociais passaram a ser consideradas, meios precários e ilusórios de conhecimento, que só podem conduzir ao erro” (QUEIROZ, 2000, p. 29).
Nesse panorama, o primeiro a fundamentar sobre a Teoria de representações sociais foi Durkheim, sociólogo, na idade moderna, outrora chamada de representações coletivas, que em sua obra clássica apresenta As Formas Elementares de Vida Religiosa (1957). Mostrava em suas concepções que a realidade era para ser encarada partindo da premissa da observação, em que homem absorvia, expressava e simbolizava desenvolvendo os fatos sociais, consequentemente adquirindo uma experiência já imposta, nisto consequentemente acreditava “[...] não existem representações falsas, todas respondem às necessidades da existência humana de diferentes formas e em condições dadas” (MINAYO, 2008, p. 221).
Assim, para Durkheim, a representação se dava sobre a determinação dos princípios da organização em vida social, nisto procurando explicar tais ideologias:
[...] nas manifestações religiosas e nos sistemas totêmicos protocientíficos mais simples e primitivos, os princípios elementares da lógica social. Estabeleceu, em
suma, que o ser humano percebe, sente e pensa o mundo em que vive com base em princípios organizacionais provenientes de uma realidade que lhe é externa e independente, ou seja, a realidade social que antecede, coage e se impõe ao indivíduo. (QUEIROZ, 2000, p. 30)
Essas ideias foram tão expressivas que vieram contribuir nas áreas de Sociologia, Antropologia e Psicologia Social modernas, colaborando para que nesta linha de raciocínio o pesquisador Serge Moscovici (1976), na área da psicologia social, se inspirasse e criasse à obra a representação social da psicanálise colocando em pauta a ideia de contexto social ligado ao senso comum da vida cotidiana, conforme a sua conceituação de representação social identificou-se “(...) mais maleável e operacional, mais dinâmico e multidisciplinar” (QUEIROZ, 2000, p. 27).
Já nos estudos da representação social por Max Weber vieram propor uma concepção de representação social mais ampla adquirindo ideias de possibilidade sobre a perspectiva de visão de mundo “[...] todas as representações sociais são visões sobre a realidade, marcadas pelas contradições devido ao lugar que os diferentes atores ocupam no modo de produção” (MINAYO, 2008, p. 233).
Nisso, entende-se que o pensamento de representação social não se limita na sociedade como único determinante, mas na pluralidade existente no espaço geográfico, o qual o homem é um ator de ações e modelador de seu próprio meio, porém sendo passível segundo a concepção de Max Weber de ser influenciado pelo meio que vive, como exemplo o território.
Se bem que, todo contexto social é passivelmente relativo dado por uma relação social, nisso, pode-se afirmar que na concepção de relatividade na representação social proposta por Malinowsky evidenciou uma situação determinista que pesou muito na Antropologia em sua obra “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, com a conceituação do etnocentrismo que se embasou nos fatos conjeturais, fixados em fundamentos e “valores comprometidos com a tendência de avaliar o ‘outro’ de um ponto de vista impregnado com princípios e valores pertencentes ao mundo do observador” (QUEIROZ, 2000, p. 38). Estas ideias traziam no período da idade moderna, contradição que pregava do positivismo.
Essa contradição pode ser explicada pela seguinte passagem:
A pretensão de entender o ‘outro’, em seus próprios termos, coincide com a necessidade de promover metodologias que pudessem controlar tanto os valores como as categorias intelectuais provenientes do mundo do investigador. Esse controle, por sua vez, é análogo à disciplina necessária para se atingir o noumeno kantiano, ou a essência de um fenômeno através da redução eidética ou
fenomenológica de Husserl. Captar a relatividade do fenômeno, que se volta tanto para a sociedade estudada, como para o próprio mundo do investigador, tornou-se o pilar mestre da antropologia moderna (QUEIROZ, 2000, p. 38-9).
Nesse cenário, acaba causando pela moderna antropologia cultural e social um aspecto social mais complexo e dúctil, assentada em suportes estruturais heterogênicos entre si, ou seja, “deixa de ser um mero reflexo da estrutura social mais ampla e apresenta, em relação a esta, uma autonomia relativa” (QUEIROZ, 2000, p. 41). Assim, pode-se compreender que essa relatividade apresenta quando, a representação social do homem em seu comportamento moral supera-se os costumes e tradições do seu espaço-território:
[...] o indivíduo - como conjunto dotado de consciência e vontade - deve superar esta condição de suporte ou efeito passivo de uma estrutura social para integrar-se livre e conscientemente na comunidade e desenvolvem [...] sua responsabilidade pessoal e, com isso, a sua própria natureza moral(VÃZQUEZ, 1984, p. 59).
Isso se configura que as representações sociais não podem ser estudadas no desenvolvimento de técnicas de pesquisa qualitativa, sem considerar devidamente nesse contexto (QUEIROZ, 2000).
Portanto, compreende-se que atualmente a representação social segundo Queiroz (2000) é um tipo de conhecimento socialmente dialético, inserido no senso comum e no espaço vivido, que permite ao indivíduo, no contexto social ter visões de mundo múltiplas, ocasionando possibilidades e orientando-se nas ações e objetos do homem em suas estratégias que constroem e reconstroem para sua vivência no meio social do espaço cotidiano ou “o espaço seria o conjunto do trabalho morto (formas geográficas) e do trabalho vivo (o contexto social)” (SANTOS, 1988, p. 26).
3 METODOLOGIA
3.1 ABORDAGEM E TIPOLOGIA DA PESQUISA
Trata-se de pesquisa qualitativa em sua abordagem metodológica. Quanto aos objetivos, trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva que segundo Gil (2008 p. 27-9),
[...] exploratórias têm como principal finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores [...] descritivas salientam-se aquelas que têm por objetivo estudar as características de um grupo: sua distribuição por idade, sexo, procedência, nível de escolaridade, nível de renda, estado de saúde física e mental etc. Outras pesquisas deste tipo são as que se propõem estudar o nível de atendimento dos órgãos públicos de uma comunidade, as condições de habitação de seus habitantes, o índice de criminalidade que aí se registra etc. São incluídas neste grupo as pesquisas que têm por objetivo levantar as opiniões, atitudes e crenças de uma população.
Nisto são pesquisas que atuam na prática e se complementam, sendo preocupadas com o presente social do homem, tendo em vista o futuro pretérito dependerá das produções reproduções desenvolvidas ou praticadas no presente.
3.2 DESCRIÇÃO DO AMBIENTE DE ESTUDO
O cenário do estudo foi a Unidade Básica de Saúde Santa Costa, localizada no Bairro Paraíba (Figura 02), o qual faz divisa os Bairros: Centro, Penedo, Soledade e João XXIII. Este Bairro pertencente à zona Sul do munícipio de Caicó-RN (Mapa-01) que, por sua vez, encontra-se na microrregião do Ocidente Seridó, na Mesorregião Central do estado no RN do nordeste brasileiro (IBGE, 2016).
Figura 02: Bairro Paraíba e respectiva divisa com outros bairros de Caicó/RN1. Fonte: Elaborado pelo autor.
Mapa 01: Localização do Município de Caicó/RN.
Fonte: Elaborado pelo autor.
Conforme as informações colhidas com ACS, a unidade pública antigamente era um centro clínico chamado popularmente, e ainda chamam, de “Chiqueiro do Doutor”, pois outrora se reunião neste prédio segundo os ACS o reduto ou grupo de Vivaldo Silvino da Costa, representante político e médico, ou mais conhecido por Papa jerimum, por ter comido jerimum, oferecido de uma mulher, assim pedindo a este para consultar seu filho doente, em favor disso a jovem ofereceu o que tinha em sua casa o jerimum, nisto pegando o apelido. Esta situação é ocasionada, segundo Clark (1991) por situações que a população acha marcantes e acabam se tornando marcos local, consequentemente tornado um ponto de localização para as pessoas daquele território ou fora deste ainda trazendo uma perspectiva histórica, cultural e ambiental que podemos chamar até de registros referenciais, tendo em vista esses conteúdos exibem representações de uma identidade territorial do espaço geográfico.
Figura 03: Registro referencial cotidiano, do território do Bairro Paraíba.
Fonte: Acervo do autor.
Na figura-3 é perceptível o registro referencial dos limites territoriais do Bairro Paraíba como sua tipicidade do cotidiano em que envolve o cidadão no seu dia a dia, suas crenças e lazer ou objetos fixos marcadores como a praça, igreja, colégio observado na figura. Já a figura 4 está voltada ao registro referencial do território do SUS, no qual geralmente as pessoas e os profissionais de saúde criam pontos de localização para ir a UBS Paraíba, neste caso sendo a placa da academia, na qual os usuários e profissionais usam para se localizar na rua onde se encontra a UBS Paraíba ou objeto fixo do território do SUS.
Figura 04: Registro referencial fixo, a academia, do território da UBS Bairro Paraíba.
Fonte: Acervo do autor.
Diante desta configuração de registro referencial foi se concretizando e impulsionando-as e transforma o então “Chiqueiro do Doutor” em 30 de junho de 1995 num posto público de saúde. Atualmente chama-se Unidade Básica de Saúde Santa Costa. Isso foi possível pelo convênio entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Caicó/RN. Segundo Morais (1998, p. 107) é um dos bairros mais estruturados em relação aos serviços de saúde, pois,
A área de saúde é contemplada pela existência do Escritório Técnico de Apoio aos Municípios, IV ETAM [hoje IVª Unidade Regional de Saúde Pública – URSAP], órgãos de atuação regional ligado à Secretária de Saúde do Governo do Estado, Centro Clínico Chiqueiro do Doutor [municipal], Fundação Hospitalar Dr. Carlindo Dantas-Hospital do Seridó (...) e clinicas médicas particulares.
Meu primeiro contato com o campo da pesquisa, a UBS, foi junto com os alunos de medicina da EMCM/UFRN. Não imagina que seria aquele prédio mesmo, pois parecia uma casa comum como pode-se observar na figura-05.
Figura 05: Unidade Básica de Saúde (UBS) do Bairro Paraíba, Caicó/RN.
Foto: Acervo do autor.
Todavia minha concepção começou a mudar (ver figura 06) com os instrumentos como a placa também outros dentro deste fixo e mais o fluxo de pessoas e objetos não artificias (profissionais que representam o SUS).
Figura 06: Unidade Básica de Saúde (UBS) do Bairro Paraíba, Caicó/RN, seus instrumentos que caracterizam
usuários e profissionais. Foto: Acervo do autor.
3.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA
A população constou dos 16 ACS das Equipes de Saúde da Família I e II da UBS Paraíba. A amostra foi de tipo intencional, utilizando a técnica (snow ball) “bola de neve” de Bailey (1994), na qual o entrevistado indica o seguinte até que seja atingida a saturação dos dados, também por indicação das pessoas que trabalham no mesmo espaço ou convivem com aquelas. Dessa forma, o tamanho da amostra foi construído em campo, na medida em que aos entrevistados indicavam outro, mas também os profissionais e população que davam as informações sobre os entrevistados e designavam.
3.4 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO
Foram incluídos para coleta de dados ACS de ambos os sexos, com idade a partir dos 18 anos, que trabalham há pelo menos 01 ano na UBS. Todavia houve um caso específico de um ACS que tinha por tempo de serviço somente cinco meses, ao qual foi cabível entrevistar, tendo em vista que o mesmo cooperou para entendimento do vínculo entre população e ACS. Todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice A) e o Termo de Autorização para Gravação de Voz (Apêndice B).
Por outro lado, os critérios de exclusão foram: 1) não atender a todos os critérios de inclusão; 2) desistir por vontade própria no decorrer da coleta de dados para a pesquisa; 3) estar ausente nos dias de coleta de dados por motivos pessoais ou trabalhistas.
3.5 PERÍODOS E INSTRUMENTOS PARA COLETA DE DADOS
O período de coleta dos dados se deu nos meses de setembro e outubro de 2016. As entrevistas foram realizadas na própria UBS. Nesse panorama, foram feitas entrevistas semiestruturadas utilizando um roteiro (Apêndice C) e realizado o preenchimento de questionário socioeconômico (Apêndice D). As entrevistas foram registradas em áudio e, posteriormente, transcritas na íntegra.
Além desses dados, foram realizadas pesquisas documentais de dados e informações geográficas e levantamentos bibliográficos. Os dados secundários serão obtidos no IBGE, na