MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM
ANGÉLICA FERREIRA DA FONSECA ROCHA
EMOÇÕES NO LIBELO INTRODUTÓRIO DE NULIDADE MATRIMONIAL
NATAL / RN 2019
ANGÉLICA FERREIRA DA FONSECA ROCHA
EMOÇÕES NO LIBELO INTRODUTÓRIO DE NULIDADE MATRIMONIAL
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem (PPGeL), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), para obtenção do título de doutora em Estudos da Linguagem.
Área de concentração: Linguística Teórica e Descritiva.
Orientadora: Profa. Dra. Maria das Graças Soares Rodrigues
NATAL / RN 2019
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte.
UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA
Rocha, Angélica Ferreira da Fonseca.
Emoções no libelo introdutório de nulidade matrimonial / Angélica Ferreira da Fonseca Rocha. - 2019.
209f.: il.
Tese (doutorado) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2019.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria das Graças Soares Rodrigues.
1. Direito canônico - Tese. 2. Libelo introdutório de nulidade matrimonial - Tese. 3. Emoções - Tese. 4. Ponto de vista emocionado - Tese. 5. Argumentação - Tese. I. Rodrigues, Maria das Graças Soares. II. Título.
ANGÉLICA FERREIRA DA FONSECA ROCHA
EMOÇÕES NO LIBELO INTRODUTÓRIO DE NULIDADE MATRIMONIAL
Esta tese foi submetida ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem como parte dos requisitos necessários para a obtenção do grau de doutora em Estudos da Linguagem, outorgado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
BANCA EXAMINADORA
Profa. Dra. Maria das Graças Soares Rodrigues – PPgEL/UFRN Orientadora e Presidente
Prof. Dr. Luis Álvaro Sgadari Passeggi – PPgEL/UFRN Examinador interno
Profa. Dra. Célia Maria de Medeiros – UFRN Examinadora interna
Profa. Dra. Maria das Vitórias Nunes Silva Lourenço – FDM Examinadora externa
Profa. Dra. Micheline Mattedi Tomazi – UFES Examinadora externa
Dedico
A minha mãe Elione, quem sempre me incentivou e propiciou condições para que eu estivesse onde estou.
Ao meu esposo Júlio César, quem sonhou este dia comigo.
AGRADECIMENTOS
A Deus, à Virgem Maria e a São José porque sem a graça divina, nada sou.
À minha orientadora e presidente da banca Profa. Dra. Maria das Graças Soares Rodrigues, por confiar em mim e oportunizar tantas experiências para meu crescimento acadêmico. Guardo a gratidão e o exemplo de luta para um mundo mais igual e uma universidade pública de qualidade. Aos professores da banca de defesa Prof. Dr. Luís Alvaro Sgadari Passeggi, Profa. Dra. Célia Maria de Medeiros, Profa. Dra. Maria das Vitórias Nunes Silva Lourenço, Profa. Dra. Micheline M. Tomazi, pela leitura atenta e por compartilhar tanto conhecimento.
Às pessoas demandantes de processos de Declaração de Nulidade Matrimonial que me autorizaram a análise dos libelos.
À minha querida mãe Elione, minha primeira incentivadora. Muito obrigada por me impulsionar a voar alto, acompanhar nas apresentações, rezar, perdoar minhas ausências, preparar comidinhas gostosas, confiando que este dia chegaria. Amo muito você.
Ao meu esposo Júlio César, por sonhar comigo, pela paciência, encorajando, ouvindo as reflexões das minhas análises, perdoando minhas ausências, preparando torradinhas e café para quando eu chegasse da biblioteca. Muito obrigada, meu amor.
Aos meus familiares e amigos pela torcida e preocupação, Francinete, Francimara, Francinaide, Fernanda Moura, Marcela Rafaela, Maria do Carmo, Marcela Luana, Maria Cristina, Alyanne, Manoel Romão, Marcos Saiande. E aos amigos da DMD, aos quais eu recorria pedindo orações. Aos gestores do Centro de Educação, na época em que eu estive afastada parcialmente para estudo, Profa. Dra. Márcia Gurgel e Prof. Dr. Jefferson Alves. Marcinha, muito obrigada por todo incentivo e torcida para que eu concluísse a tese. Aos colegas do CE, obrigada.
À minha amiga Julianne Santos, que generosamente aceitou revisar meu texto. Ao querido prof. Dr. Marcos Lopes pela tradução do meu résumé.
Ao querido Hális, sempre disponível, pela tradução de um texto sobre as emoções.
Aos amigos, professores e colegas do grupo de pesquisa ATD. Aprendi muito com todos. Prof. Dr. Luis Passeggi, Prof. Dr. João Neto, Profa. Dra. Marise Mamede, Profa. Dra. Cândida (em nome dela, faço memória ao prof. Dr. Vanderveken), aos queridos ir. Ana Carla, Lindemberg, Eunice, Vitória, Iranilson, Fernanda, Emiliana, Romena, Cláudia, Geonilson, Alba, Aloma.
Agradeço de forma especial e carinhosa à Profa. Dra. Célia Medeiros (Celinha), uma grande amiga, sempre atenta às necessidades do grupo ATD, modelo de docente.
À UFRN, que me acolheu nesta trajetória desde o período da graduação. A todos os servidores, ao PPGeL e aos pesquisadores que conheci por meio dela, dentre eles o Prof. Dr. Alain Rabatel, Profa. Dra. Rosalice Pinto, Profa. Dra. Sueli Marquesi, Prof. Dr. Giovanni Damele. Foi uma honra ter conhecido mentes tão brilhantes.
“Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” 1Tessalonicenses 5,18.
RESUMO
Esta pesquisa interroga os domínios linguagem e direito a fim de caracterizar o gênero textual/discursivo libelo introdutório para declaração de nulidade matrimonial no direito Canônico. O libelo trata-se um texto peticional, no qual os nubentes usam as sequências textuais para a argumentar as razões que os levaram a demandar a nulidade matrimonial. Nessa direção, o estudo considera a inteligibilidade das emoções como um elemento argumentativo, inserida em uma tríade Responsabilidade Enunciativa - Representação Discursiva - Orientação Argumentativa. Objetiva, assim, investigar a relação emoções e orientação argumentativa em 7 (sete) libelos introdutórios de declaração de nulidade matrimonial. Para tanto, a pesquisa situa-se na abordagem metodológica da Análise Textual dos Discursos (ADAM, 2011 [2008]); nos estudos da Linguística da Enunciação, por meio de Rabatel (1997, 2007, 2008, 2009, 2010, 2013, 2016), e das emoções, a partir da retórica das paixões (conforme Aristóteles), de Plantin (1995, 2008, 2010, 2011, 2012), Micheli (2008, 2010), Rodrigues e Passeggi (2015). Trata-se de uma pesquisa social, descritiva e documental, com abordagem qualitativa, paradigma interpretativista e método indutivo. Os resultados revelam emoções de compaixão, indignação, confiança, amor, imprudência, temor, favor, vergonha, cólera, calma, desprezo e emulação. Em decorrência, as conclusões pontuam as emoções racionalizadas em função de uma ação visada, entendidas sob uma perspectiva de movimentos argumentativos, imbricadas por uma escala de intensidade e um lugar psicológico, configurando a categoria do ponto de vista (PDV) emocionado.
Palavras-chave: Libelo introdutório de nulidade matrimonial. Emoções. Ponto de vista emocionado. Argumentação. Direito Canônico.
ABSTRACT
This research questions the domains of language and law with the objective of characterizing the textual/discursive genre introductory libel for the annulment of marriage declaration in Canonical Law. The libel is a petition text, in which the newlyweds use textual sequences to argue the reasons that brought them to demand the annulment of the marriage. In this way, the study considers the lack of intelligibility of emotions as an argumentative element, inserted in a triad of Enunciative Responsibility, Discursive Representation, and Argumentative orientation. The study aims, thus, to investigate the relationship of emotions and argumentative orientation in 7 (seven) introductory libel for the annulment of marriage declaration. To do this, the research is grounded in a methodological approach from Textual Discourse Analysis (ADAM, 2011 [2008]); in Linguistic Enunciation studies of Rabatel (1997, 2007, 2008, 2009, 2010, 2013, 2016), and emotions from the rhetoric of passions (according to Aristotle), of Plantin (1995, 2008, 2010, 2011, 2012), Micheli (2008, 2010), Rodrigues and Passeggi (2015). It is characterized as a social, description and documental research, with a qualitative approach, interpretivist paradigm, and inductive method. The results show emotions of compassion, indignation, assurance, love, imprudence, fear, favor, shame, cholera, calm, contempt, and emulation. In virtue of this, the conclusions indicate that emotions rationalized in function of a seen action, understood through a perspective of argumentative moves, linked by a scale of intensity and a psychological place, configuring the point of view (POV) category given emotions.
Keyword: Introductory libel to annul marriage declaration. Emotions. Point of view given emotions. Argumentation. Canonical Law.
RÉSUMÉ
Cette recherche interroge les domaines du Langage et du Droit afin de caractériser le genre textuel / discursif du libelle introductif pour la déclaration de nullité matrimoniale du Droit Canonique. Le libelle est un texte de pétition, dans lequel les époux utilisent les séquences textualles pour présenter les raisons qui les ont conduits à demander la nullité du mariage.
En ce sens, l'étude considère l’intelligibilité des émotions comme un élément argumentatif, inséré dans une triade comprenant la prise en charge énonciative, la représentation discursive et l´orientation argumentative. L´étude a donc pour but de rechercher la relation entre les émotions et l´orientation argumentative dans sept (07) libelles introductifs de déclaration de nullité matrimoniale. Pour cela, cette recherche s´appuie est sur l'approche méthodologique de l'analyse textuelle des discours (ADAM, 2011 [2008]); sur l'étude de la linguistique de l'énonciation, d´après Rabatel (1997, 2007, 2008, 2009, 2010, 2013, 2016), et la linguistique des émotions, sur la rhétorique des passions (selon Aristote), selon Plantin (1995, 2010, 2011, 2012), Micheli (2008, 2010), Rodrigues et Passeggi (2015). Il s´agit d´une recherche sociale, descriptive et documentaire, dans une approche qualitative, de paradigme interprétativiste et de méthode inductive. Les résultats révèlent des émotions de compassion, d'indignation, de confiance, d'amour, d'imprudence, de crainte, de faveur, de honte, de colère, de calme, de mépris et d'émulation. De ce fait, les conclusions montrent la rationnalisation des émotios en fonction d'une action visée, comprise dans la perspective des mouvements argumentatifs, imbriquées dans une échelle d'intensité et dans un lieu psychologique qui configurent la catégorie du point de vue (PDV) ému.
Mots-clés: Libelle introductif de nullité du mariage. Émotions. Point de vue ému.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - Operadores de Textualização... p.59 Figura 2 - Dimensões da proposição-enunciado... p.61 Figura 3 - Estrutura da sequência argumentativa... p.62 Figura 4 - Níveis da Análise Textual dos Discursos... p.64 Figura 5 - Classificação dos atos de discurso... p. 68 Figura 6 - Categorias de análise das emoções... p.86 Figura 7 - Esquema para avaliação de uma emoção... p.88 Figura 8 – Modelo de autorização utilizada para coleta do corpus...p.97 Figura 9 - Emoções inseridas na tríade RE-Rd-ORarg... p.100 Figura 10 -Plano de texto do Libelo Introdutório para Declaração de Nulidade Matrimonial... p.112
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Noção de Responsabilidade Enunciativa limitada...p.72 Quadro 2 - Paixões de base, segundo Aristóteles (2000)... p.76 Quadro 3 – Quadro associativo do corpora... p.95
Quadro 4 - Emoções no Libelo Introdutório 01 – LI01...p.119 Quadro 5 - Emoções no Libelo Introdutório 02 – LI02...p.129 Quadro 6 - Emoções no Libelo Introdutório 03 – LI03...p.139 Quadro 7 - Emoções no Libelo Introdutório 04 – LI04...p.154 Quadro 8 - Emoções no Libelo Introdutório 05 – LI05...p.163 Quadro 9 - Emoções no Libelo Introdutório 06 – LI06...p.170 Quadro 10 - Emoções no Libelo Introdutório 07 – LI07...p.179 Quadro 11 - Categoria do PDV...p.183
LISTA DE SIGLAS
AD Análise do Discurso
ADL Argumentação da Língua ATD Análise Textual dos Discursos CaIC Catecismo da Igreja Católica CC Código Civil brasileiro CIC Código do Direito Canônico CPC Código de Processo Civil
e2 Enunciador segundo
L1/E1 Locutor/enunciador primeiro LI01 Libelo Introdutório 01 LI02 Libelo Introdutório 02 LI03 Libelo Introdutório 03 LI04 Libelo Introdutório 04 LI05 Libelo Introdutório 05 LI06 Libelo Introdutório 06 LI07 Libelo Introdutório 07 LT Linguística Textual
ND/DSK Caso de Nafissatou Diallo contra Dominique Strauss-Kahn ORarg Orientação Argumentativa
PdV Ponto de vista – sigla usada por Adam (2011[2008])
PDV Ponto de vista – sigla usada por Rabatel (2004, 2008, 2009) Rd Representação discursiva
RE Responsabilidade enunciativa
TA Tratado da Argumentação (PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L., 1996)
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO 15
2 ESTADO DA ARTE 20
2.1DECLARAÇÃO DE NULIDADE MATRIMONIAL 20
2.2O DISCURSO JURÍDICO/RELIGIOSO NA ATD 23
2.3EMOÇÕES NA ARGUMENTAÇÃO 25
3 LIBELO INTRODUTÓRIO DE NULIDADE MATRIMONIAL 31
3.1A INSTITUIÇÃO MATRIMONIAL 32
3.2DECLARAÇÃO DE NULIDADE MATRIMONIAL 41
3.3O LIBELO INTRODUTÓRIO PARA DECLARAÇÃO DE NULIDADE MATRIMONIAL 50 3.4ARGUMENTAÇÃO JURÍDICA NO LIBELO INTRODUTÓRIO PARA DECLARAÇÃO DE NULIDADE
MATRIMONIAL 53
4 A CONSTRUÇÃO DAS EMOÇÕES NA ARGUMENTAÇÃO 57
4.1ANÁLISE TEXTUAL DOS DISCURSOS (ATD) 57
4.1.1REPRESENTAÇÃO DISCURSIVA 65
4.1.2ORIENTAÇÃO ARGUMENTATIVA 66
4.1.3RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA 69
4.2O PERCURSO DAS EMOÇÕES NA ARGUMENTAÇÃO 74
4.2.1A SISTEMATIZAÇÃO DAS EMOÇÕES A PARTIR DA ANÁLISE DO DISCURSO E DA
LINGUÍSTICA DA ENUNCIAÇÃO 84
5 METODOLOGIA 90
5.1CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA 90
5.2CONSTITUIÇÃO DO CORPORA 95
5.3CATEGORIA ANALÍTICA ADOTADA 100
6 ANÁLISE DOS DADOS 102
6.1APREENSÃO DO DISCURSO 103
6.2APREENSÃO DO TEXTO 110
6.2.1PLANO DE TEXTO 110
6.2.2ANÁLISE DAS EMOÇÕES 112
6.2.2.1 Libelo Introdutório 01 - LI01 113
6.2.2.2 Libelo Introdutório 02 - LI02 119
6.2.2.3 Libelo Introdutório 03 - LI03 129
6.2.2.4 Libelo Introdutório 04 - LI04 140
6.2.2.5 Libelo Introdutório 05 - LI05 155
6.2.2.6 Libelo Introdutório 06 - LI06 163
6.2.2.7 Libelo Introdutório 07 - LI07 171
7 CONCLUSÃO 181
REFERÊNCIAS 185
APÊNDICE A – TERMO DE AUTORIZAÇÃO 193
APÊNDICE B – CORPORA DIGITADO 194
LIBELO INTRODUTÓRIO 01-LI01 194
LIBELO INTRODUTÓRIO 02-LI02 196
LIBELO INTRODUTÓRIO 03-LI03 198
LIBELO INTRODUTÓRIO 04-LI04 200
LIBELO INTRODUTÓRIO 05-LI05 203
LIBELO INTRODUTÓRIO 06-LI06 205
LIBELO INTRODUTÓRIO 07-LI07 207
ANEXO A – ORIENTAÇÕES ENTREGUES PELO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO PARA
1 INTRODUÇÃO
Em 1981, o papa João Paulo II escreveu uma carta apostólica reafirmando a indissolubilidade do sacramento do matrimônio, entendido como um “dom”, ou seja, um presente divino que implica o dever de os esposos permanecerem fiéis um ao outro por toda vida.
O dom do sacramento é, ao mesmo tempo, vocação e dever dos esposos cristãos, para que permaneçam fiéis um ao outro para sempre, para além de todas as provas e dificuldades, em generosa obediência à santa vontade do Senhor: ‘O que Deus uniu, não o separe o homem’ (Mt 19,6). (EXORTAÇÃO APOSTÓLICA FAMILIARIS CONSORTIO, 1981, p. 20).
Sem se contradizer, a igreja concebe a nulidade matrimonial distinguindo-a do divórcio e da anulação matrimonial, termos incorporados ao direito civil que assinalam, no caso do divórcio, uma cerimônia válida, mas que por alguma circunstância descrita em lei ou por livre acordo entre os cônjuges, decide-se dirimir o contrato nupcial; já por anulação matrimonial, entende-se igualmente uma cerimônia válida que, após indagação e verificação sobre os aspectos da lei, torna-se uma cerimônia inválida. Diferentemente, declarar nulo um matrimônio, como compreende o direito canônico, implica considerar que ele nunca existiu. Cabe aqui uma explicação que o Pe. Jesús Hortal Sánchez, doutor em direito canônico, fez no manual “Casamentos que nunca deveriam ter existido” (2016a, p.14),
Anular significa fazer que aquilo que tinha existência verdadeira e legítima deixe de tê-la. Dito com outras palavras: que um casamento inicialmente válido passe a perder por completo o seu valor jurídico. Declarar nulo, pelo contrário, é um ato mediante o qual a autoridade competente atesta publicamente que um ato jurídico concreto nunca teve valor, porque faltou algum dos elementos requeridos como necessários pela lei.
A missão da igreja é a reconciliação. No entanto, ela reconhece o sofrimento e angústia dos fiéis que estão ligados a sacramentos que não foram consentidos, ou seja, invalidados em razão da não observância integral dos bens e exigências do amor conjugal, como define o cânon (doravante cân.) 1055, §1, o casamento é “pacto pelo qual um homem e uma mulher constituem entre si um consórcio de toda a vida, por uma índole natural ordenado ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole”.
Assunto ainda desconhecido, inclusive por fiéis da igreja católica, o conceito de nulidade matrimonial precisa ser esclarecido e tornado público para corroborar e clarificar o próprio conceito do sacramento do matrimônio, além de cessar o dissabor de pessoas que pensam viver o sacramento, quando na verdade nunca o viveram.
O interesse pelo tema “nulidade matrimonial” surgiu a partir da dissertação “A sequência narrativa no libelo introdutório do processo canônico de Declaração de Nulidade Matrimonial” da pesquisadora Ana Carla de Melo Silva, integrante do grupo pesquisa Análise Textual Dos Discursos (ATD) do qual também fazemos parte. A temática inaugural na ATD apresentou a sequência narrativa no libelo introdutório dos processos de nulidade matrimonial como uma das categorias de análise. Por se tratar de temática ainda pouco explorada na área dos estudos da linguagem, requer mais pesquisas, certamente, isso se deve ao sigilo que a Igreja católica mantém sobre processos de qualquer natureza.
Nesse sentido, empenhamo-nos em obter corpora para nossa pesquisa. Contudo, em face da dificuldade para termos acesso aos dados, recorremos a uma rede social, que nos auxiliou a descobrir pessoas envolvidas em processos de nulidade matrimonial. Estabelecemos contato para conhecer as motivações dessas pessoas e obter autorização para estudarmos um componente do processo, no caso,os libelos introdutórios para declaração de nulidade matrimonial de que elas são participantes e autoras, visto que somente com autorização escrita das partes a Igreja concederia os dados. Durante um período de dois meses, ouvimos os relatos sobre o tempo decorrido do processo, os traumas envolvidos, os obstáculos para obter o consentimento da outra parte, o constrangimento diante da leitura das oitivas e da sentença, o desejo de se reintegrar à vivência dos sacramentos na Igreja, as dificuldades para elaboração do libelo introdutório, bem como as expectativas após a obtenção da nulidade matrimonial.
Os encontros para coleta dos dados nos permitiram observar o entusiasmo dessas pessoas, quando tomavam conhecimento da intenção da pesquisa. Igualmente, a leitura, a descrição, a análise e interpretação dos dados nos permitiram identificar uma orientação argumentativa comum intrínseca ao material, revelada por meio da narrativa que constitui o libelo introdutório. Assim, decidimo-nos a focalizar os estudos sobre argumentação nesse tipo de processo, tanto no que diz respeito à visada argumentativa, apoiada em Adam (2011a), como no modo em que a sequência argumentativa se configura nos processo de declaração de nulidade matrimonial.
Situar o texto do libelo introdutório de nulidade matrimonial no domínio discursivo jurídico é fundamental para a orientação da pesquisa doutoral, pois nesse processo a argumentação e a interpretação dadas ao consentimento matrimonial implicam uma sentença procedente ou não. Por exemplo, no caso do erro por qualidade de pessoa, é preciso provar a expectativa que se tinha sobre a pessoa antes do matrimônio e o comportamento real dela após. Além disso, provar a perturbação da vida conjugal por tal ato.
Para o direito canônico, a validade do matrimônio está circunscrita à: observância dos impedimentos matrimoniais; ao consentimento matrimonial, e, à observância da forma estipulada pela lei para a celebração do matrimônio. A inobservância dessas circunstâncias acarreta a declaração de nulidade, decretada pelo Tribunal Eclesiástico. (CHAVES, 2006, p.44).
O libelo introdutório equivale, no direito canônico, à petição inicial no direito civil, diante da sua natureza peticional, na qual há um demandante solicitando que seja acatado o pedido de nulidade matrimonial por ele defendido e justificado. O processo tramita, de fato, em um tribunal eclesiástico instituído e os advogados associados ao tribunal são civilmente reconhecidos.
O gênero petição inicial é o instrumento pelo qual o autor, através de advogado constituído, solicita ao juiz a prestação jurisdicional para seu direito, propiciando o início da ação ou do processo judicial. (LOURENÇO, 2013, p.99).
Nesse processo canônico, diferentemente do civil, é o demandante quem deve redigir o texto de maneira clara e concisa, narrando toda a trajetória de conhecimento, namoro, noivado e casamento com o par, a fim de persuadir o tribunal a respeito da nulidade do matrimônio. Nesse sentido, verificamos que as diferentes sequências identificadas na composição textual funcionam, inclusive, como argumentos.
Apesar de o parágrafo primeiro do cân. 1684 determinar que o texto seja exposto de modo breve, íntegro e claro, nos estudos da argumentação evidenciam-se a subjetividade e a verossimilhança construídas pela linguagem. Por isso, nossa investigação reconhece as emoções como categoria analítica e estratégia argumentativa para o estabelecimento do texto jurídico, com a pretensão também de associar o direito à linguagem, concordando com Lourenço (2013).
Afirmamos a impossibilidade de vida do Direito à margem da linguagem, uma vez que a formulação das leis e os conceitos
produzidos no interior do domínio jurídico somente são possíveis de serem construídos e materializados através dos textos pela linguagem, tanto os debates orais, como, por exemplo, os de apreciação pelo tribunal do júri, os procedimentos de acareação, tomada de depoimentos, as investigações policiais, na fase administrativa das demandas criminais, quanto os textos escritos, por exemplo, na confecção dos textos peticionais, na produção de documentos como testamentos, contratos, certidões, dentre outros. (LOURENÇO, 2013, p.109).
Para isso, filiamo-nos a uma abordagem teórica que reconhece a argumentação a partir dos discursos veiculados nos textos e compreendemos as vozes teóricas perpassantes, a partir da retomada de noções basilares da argumentação, desde a retórica Aristotélica, passando pela nova retórica com Perelman & Olbrechts-Tyteca (1996), por Plantin (2008), até Adam (2011a).
Distanciamo-nos da perspectiva de que, a fim da verdade, o discurso argumentativo deve ser impessoal e cético, associando-nos ao entendimento de que as emoções são racionalizadas em função de uma ação visada.
A linhagem de obras publicadas nos anos de 1950 que refundam a argumentação não retomam a questão dos afetos. Toulmin propõe um modelo contratual-legal da argumentação; esse modelo de racionalidade procedimental não permite perceber o problema das emoções. O lugar atribuído às emoções por Perelman e Olbrechts-Tyteca mereceria desenvolvimentos mais longos: tem-se uma presença das ‘paixões’ no tratado, mas elas nunca são tematizadas; podemos dizer que essa obra propõe uma ‘retórica sem emoções’, o que é algo muito paradoxal. As teorias generalizadas da argumentação, orientadas para a linguística da língua e a lógica natural, desenvolvidas a partir dos anos 1970 (Ducrot, Grize) não dispensam, com toda lógica, nenhum tratamento especial ao problema dos afetos. (PLANTIN, 2008, p. 121-122).
Dessa forma, entendemos as emoções perpassando o libelo introdutório de nulidade matrimonial em uma abordagem macro da argumentação, a fim de serem materializadas em sequências textuais. Considerar as emoções como um elemento da troca argumentativa, elucidada por Plantin (2008, p. 78), “permite deixar aos actantes a plena e total responsabilidade por seus discursos”.
Nesta direção, avançamos com as considerações de Plantin e da análise do discurso em que ele se insere, para desenvolver um estudo das emoções dentro das noções de argumentação na Análise Textual dos Discursos, formulada por Adam (2011a). Interessa-nos investigar questões relacionadas ao fenômeno das emoções, da responsabilidade enunciativa (RE), da representação discursiva (Rd) e da orientação
argumentativa (ORarg), defendendo a tese de que emoções são elementos argumentativos que viabilizam a construção de pontos de vista e representações discursivas a fim de agir argumentativamente em favor de uma sentença procedente no libelo introdutório.
Assim, buscamos entender qual a relação entre as emoções no libelo introdutório de nulidade matrimonial e a orientação argumentativa. Para tanto, a fim de explicitar a problemática, propusemos como objetivo geral investigar a relação entre emoções e orientação argumentativa em libelos introdutórios de declaração de nulidade matrimonial. Estabelecemos ainda os objetivos específicos a seguir:
a) identificar as emoções expressas pelo locutor enunciador;
b) descrever os pontos de vista e as instâncias enunciativas que as emoções referenciam para compreender a responsabilidade enunciativa;
c) descrever as representações discursivas que as emoções evocam; d) identificar os atos ilocucionários em que elas se situam;
e) interpretar como as emoções, inseridas na tríade RE-Rd-ORarg, constroem a argumentação no texto.
Para a realização da investigação, estruturamos a tese em sete capítulos. Neste primeiro, introduzimos a temática. No segundo, apresentamos um breve estado da arte sobre a temática da nulidade matrimonial e das emoções, no campo do Direito e da Linguística. No terceiro capítulo, discorremos sobre o libelo introdutório de nulidade matrimonial e a argumentação jurídica, esclarecendo o conceito de matrimônio, observando as regulamentações do direito canônico e civil. Além disso, no capítulo quarto, situamos a teoria da Análise Textual dos Discursos e os níveis de análise do texto que podem ser associados às emoções, a partir de um levantamento realizado sobre os pressupostos teóricos que abrangem a argumentação e como eles tratam a questão dos afetos.
Posteriormente, no quinto capítulo, descrevemos os procedimentos metodológicos adotados, a constituição do corpus e a categoria analítica que mais se adequou à investigação. Em seguida, no sexto, caracterizamos a eficácia da pesquisa, realizando a análise e discussão dos dados; para no sétimo capítulo, dispor, ao fim, nossas considerações.
2 ESTADO DA ARTE
Apenas o Adão mítico que chegou com a primeira palavra num mundo virgem, ainda não desacreditado, somente este Adão podia realmente evitar por completo esta mútua orientação dialógica do discurso alheio para o objeto. Para o discurso humano, concreto e histórico, isso não é possível: só em certa medida e convencionalmente é que pode dela se afastar. (BAKHTIN, 1988, p. 88).
Neste capítulo, apresentamos sínteses de teses e artigos escritos no âmbito do domínio discursivo jurídico/religioso e no âmbito da argumentação sob o viés das emoções, mesmo que de áreas diversas, a fim de discutir trabalhos que aportaram contribuições para o desenvolvimento desta tese e, assim, compartilhar aquelas nas quais nossa pesquisa se insere.
Para tanto, a seguir, evocamos trabalhos que versam sobre a declaração de Nulidade Matrimonial e abordam o ponto de vista da argumentação/emoção, atentando também para as pesquisas realizadas no grupo de pesquisa, que corroboram com nossa investigação.
2.1 Declaração de Nulidade Matrimonial
A declaração de Nulidade Matrimonial, apesar de se tratar de um processo antigo da Igreja Católica, ainda é pouco explorado no âmbito da Linguística. Identificamos um leque de pesquisas associadas às questões de nulidade matrimonial em áreas distintas das Letras, por exemplo, na Psicologia, com a dissertação de Almeida (2008) intitulada “O que Deus não uniu, o homem pode separar: casais católicos frente ao processo de nulidade matrimonial”, na qual a autora repousa o olhar sobre os participantes envolvidos e o comportamento deles, ao serem acometidos por determinado processo.
Relacionadas ao Direito, pontuamos duas pesquisas que revelam abordagens diferentes para o assunto: (1) a tese “Declaração de nulidade matrimonial no direito canônico e no direito civil”, apresentada por Isivone Chaves; (2) a dissertação de Isabela Amaral, intitulada “Resistência feminina no Brasil oitocentista: as ações de Divórcio e Nulidade de Matrimônio no Bispado de Mariana”.
A tese de Isivone Chaves faz um inventário sobre a instituição do casamento civil e religioso e seus ritos, desde o direito romano até as disposições no Brasil, a partir
das constituições. Relata também a conjuntura em que o matrimônio foi erigido à categoria de sacramento, adquirindo uma ordem sobrenatural pela Teologia Católica.
Destarte, o autor expõe os elementos constitutivos do matrimônio: aliança, comunhão de vida toda e sacramento, e mantém o foco em desvendar o entendimento sobre esse vínculo, elencando os impedimentos matrimoniais, a noção de consentimento e os vícios a ele relacionados, bem como a forma canônica para realização do sacramento. Isso, a fim de propor que “comungam, portanto, a legislação canônica e a legislação civil, acerca dos efeitos que a inobservância dos impedimentos matrimoniais, sistematicamente disciplinados nesses dois corpos legislativos” (CHAVES, 2006, p. 49).
Nessa direção, o estudioso faz apontamentos sobre a validade do casamento no direito civil e o desdobramento em casamento nulo ou inexistente, esclarecendo que, mesmo sem o Código Civil Brasileiro oferecer conceito de matrimônio, o direito civil e o religioso concordam em determinados aspectos sobre a nulidade matrimonial/casamento nulo/casamento inexistente. Inclusive, a igreja Católica, em seu cân. 1058, admite a indispensabilidade do casamento civil: “podem contrair matrimônio todos os que não são proibidos pelo direito”.
Além disso, a fim de defender a não duplicidade de processos no Brasil, o autor apresenta os efeitos civis da sentença de nulidade matrimonial no direito estrangeiro, em países como Espanha, Itália, Portugal e Republica Dominicana.
Já a pesquisa de Isabela Amaral, apesar de inserida no campo do Direito, adquire um caráter social, quando associa o Direito à História para evidenciar os discursos sobre o casamento e a mulher, no período imperial brasileiro, em Mariana/MG.
A razão para se tratar de tal tema, então, é que, normalmente, contenta-se apenas com a reprodução dos discursos dominantes, sem se verificar, a fundo, como se davam as reações femininas no cotidiano, para se compreender até que ponto eles eram construção e até que ponto, realidade. Por esses motivos, a intenção foi investigar qual era o conteúdo dos discursos dominantes do período imperial brasileiro sobre a mulher casada, construídos pelo Direito, pela Igreja e pelo imaginário social da época e de que forma se dava a reação feminina. Foi descoberto importante meio de resistência e estratégias femininas: o término da sociedade conjugal e todo o seu ambiente repressor, por meio de ações de divórcio e nulidade do matrimônio durante o século XIX. (AMARAL, 2012, p.25).
A autora da dissertação se propõe, assim, a observar as continuidades e descontinuidades de gênero em termos jurídicos, uma vez que discorre sobre as
representações femininas construídas nas ações de divórcio e nulidade, a fim de ponderar sobre a resistência da mulher casada ao pleitear tal processo, contrariando as construções discursivas eminentemente masculinas.
A autora situa o contexto da época em que a igreja católica era quem julgava os processos de divórcio e nulidade, entendendo o divórcio como um meio de divisão de bens e separação imediata dos corpos; mesmo assim, diante do caráter sacramental do matrimônio, a sentença do divórcio não era definitiva e indiscutível, pois os cônjuges podiam se reconciliar e retornar a convivência a qualquer momento. Por isso, não era possível contrair novas núpcias. A igreja permaneceu com a competência de julgar essa dupla ação até o estabelecimento do entendimento de casamento pelo Direito Civil.
Não obstante a dificuldade para obter o corpus da pesquisa, a autora analisou 46 processos compreendidos no período de 1822-1900 e constatou que, no bispado de Mariana/MG, as mulheres tinham um ambiente favorável à reação diante de situações de violência e submissão, uma vez que os vigários responsáveis por julgar os casos de divórcio mostraram-se sensíveis a essas situações, julgando procedentes mais da metade dos processos.
Dessa maneira, Isabela Amaral apresenta a constituição do processo de divórcio e nulidade e detalha o libelo a partir de seu entendimento histórico-social, como uma peça processual por meio da qual o demandante expunha os fatos e fundamentos, bem como os pedidos relacionados à demanda. Era estruturado em forma de artigos claros e breves, e deveria ser assinado pelo advogado e oferecido na audiência em que o réu deveria comparecer, como verificamos no exemplo a seguir.
Libelo em que diz como A. D. Luiza Perpetua de Jesus, contra seu marido Veríssimo Joaquim de Souza o seguinte
1º P. que a A. é casada à face da Igreja com o Réu há muitos anos a quem obedeceu e tratou sempre como era do seu dever, mas
2º P. que o Réu tomou tal desafeição à Autora, que a tratava com desprezo, e palavras muito injuriosas, sem que a A. desse causa para isso. Além disto
3º P. que o Réu faltando à fé conjugal entrou a tratar lascivamente com outras mulheres, sendo uma delas certa mulher, que por decência se não declara seu nome; porém é público, e as testemunhas o dirão 4º P. que o Réu concebeu contra a A. tal ódio, que disse que há de vender todos os bens do seu casal, e que nenhum afinal existirá para fazer partilhas com a A.; por isso
5º P. que não só pelas razões expostas, senão também para acautelar qualquer prejuízo provável que possa sofrer a A. por dívidas que o R. esteja contraindo tem ela direito a requerer a separação não só de sua pessoa como de seus bens. E nestes termos
6º P. que confiante aos de Direito o presente Libelo deve ser recebido, para que depois de provado o seu conteúdo se decrete a separação in perpetuum quod mutuam cohabitationtem et thorum da A. e Réu a fim de poder ela tratar no Juízo competente da separação de seus bens: por ser de tudo F. J.. (AMARAL, 2012, p.242).
Sobre as considerações feitas acerca da investigação, a dissertação constata que a maioria dos demandantes do processo eram mulheres vítimas de violência, que se serviam do discurso de coisificação como estratégia para legitimar e resguardar seu direito. Independentemente de serem alfabetizadas ou não, a busca pelo auxílio Clerical aferia resistência e demonstrava que essas mulheres não eram apáticas a seus direitos, por mais que não tivessem voz ativa nesses processos.
Além dessas pesquisas, deparamo-nos com trabalhos que evocam possíveis debates, como a dissertação de Konrad (2003), “Causas de extinção do vínculo matrimonial”, em que o autor utiliza o termo e ratifica no resumo “este trabalho analisa os diversos meios de extinção do vínculo matrimonial”, possibilitando-nos discutir sob a ótica do Direito Canônico o termo “extinção”. Contudo, por se tratar de um trabalho antigo, não consta disponibilizado para leitura na íntegra nas plataformas online.
É importante tomar nota, para a constituição deste estado da arte, que aferimos a maioria das pesquisas que discutiam a declaração de Nulidade Matrimonial vinculadas a universidades católicas, o que revela talvez um receio ainda de instituições laicas para abordar assuntos do direito religioso.
2.2 O discurso jurídico/religioso na ATD
O grupo de pesquisa em Análise Textual dos Discursos, ao qual este trabalho se filia, compreende a importância de levantar questões sobre os mais variados setores da sociedade, por isso analisa textos de diferentes domínios, entre eles o acadêmico, político, jurídico e religioso.
Nesta conjuntura, a tese de Lourenço (2013), intitulada por “Análise Textual dos Discursos: Responsabilidade Enunciativa no Texto Jurídico”, inaugura no grupo investigações que viabilizam o diálogo entre as interfaces do Direito e da Linguagem com a justificativa de discutir o processo de modernização da linguagem jurídica e torná-la de fácil entendimento para todas as áreas, como é de interesse da comunidade governamental e sociedade em geral, pelo que reportam pesquisas realizadas pelo Centro de Justiça e Sociedade (CJUS) e Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE).
O que se tem visto é um conjunto de iniciativas de alguns governos e da sociedade organizada em vários países de diferentes continentes visando reunir linguistas e juristas para buscarem, de forma orquestrada, minimizar a assimetria entre os cidadãos comuns e os operadores do Direito nas situações de interação com os órgãos do judiciário. (LOURENÇO, 2013, p.76).
Nessa direção, a autora propõe como objetivo descrever, analisar e interpretar a responsabilidade enunciativa nas seções “Dos fatos” e “Da fundamentação jurídica”, em 15 (quinze) petições iniciais, protocoladas na Vara Cível da Comarca de Currais Novos-RN, a fim de corroborar igualmente com o que consta no artigo 14 da lei dos Juizados Especiais:
Art. 14. O processo instaurar-se-á com a apresentação do pedido, escrito ou oral, à Secretaria do Juizado.
§ 1o Do pedido constarão, de forma simples e em linguagem acessível: I - o nome, a qualificação e o endereço das partes; II - os fatos e os fundamentos, de forma sucinta; III - o objeto e seu valor. (LOURENÇO, 2013, p. 78, grifo do autor).
A construção da crítica ao texto jurídico perpassa também a análise da responsabilidade enunciativa como uma estratégia linguística para revelar o encadeamento dialógico dos pontos de vista e sua relação com a orientação argumentativa intrínseca ao texto, a partir dos diferentes tipos de representações da fala e indicação dos quadros mediadores.
A reflexão é pertinente, uma vez que se desdobra para além do ensino da argumentação jurídica.
As observações expostas não importam apenas à boa escritura do texto jurídico, embora contribuam para tanto, nem caem no lugar comum das aulas de português para o ensino jurídico, todavia elas mostram que, da perspectiva semântico-pragmática, o texto é passível de apresentar estratégias linguísticas que demandam situações de escrita que pertencem à natureza linguística, mas também exercem poder sobre as questões de natureza jurídica que talvez passem despercebidas pela essência do Direito ser de ordem linguística. (LOURENÇO, 2013, p.215).
Isto posto, o trabalho contempla o gênero petição inicial, considerando a eficácia do texto jurídico por meio dos efeitos de sentido, por exemplo, a coenunciação e o enfraquecimento das teses jurídicas quando da inserção da voz de outrem sem justificativa ou comentário pelo produtor do texto.
A investigação de Lourenço (2013) foi de grande significado para o grupo de pesquisa da ATD, pois a partir dela outros trabalhos desenvolveram o diálogo entre o Direito e a Linguagem. Dentre esses, perpassando também o entendimento do texto peticional, instaurou-se a discussão linguística sobre o libelo introdutório de nulidade matrimonial, desenvolvida por Ana Carla de Melo Silva (2017), na dissertação intitulada “A sequência narrativa no libelo introdutório do processo canônico de Declaração de Nulidade Matrimonial”.
Por meio dessa dissertação, Silva (2017), a fim de analisar como ocorrem as sequências narrativas no gênero libelo introdutório em um processo canônico de declaração de nulidade matrimonial, propôs os seguintes questionamentos: (1) de que forma se dá a estrutura composicional do plano de texto no libelo introdutório? (2) Como se estruturam as sequências narrativas no gênero libelo introdutório em um processo canônico de declaração de nulidade matrimonial?
Dessa maneira, a pesquisadora deteve-se ao estudo da estrutura organizacional da sequência narrativa, a partir da análise e interpretação das macroproposições narrativas em 4 (quatro) libelos introdutórios de nulidade matrimonial, oriundos da Câmara Eclesiástica da Arquidiocese de Natal e do Tribunal Eclesiástico Regional Nordeste II e de Apelação de Olinda e Recife.
Trata-se de um trabalho de grande relevância na área dos estudos linguísticos e jurídicos, visto que amplia o leque dos discursos jurídicos e direciona o olhar para o fazer do Direito Canônico, além de clarificar essas questões de nulidade matrimonial para a comunidade católica, corroborando com o que Ribeiro (2014) orienta.
De acordo com Ribeiro (2014, p.21), outro aspecto que é necessário acrescentar é que é fundamental oferecer aos fiéis ‘condições para um discernimento sério a respeito da própria situação matrimonial, a fim de que a decisão final, seja ela qual for, realmente reflita a realidade dos fatos e não simplesmente as percepções subjetivas que deles se tem’”. (SILVA, 2017, p. 44-45).
Os resultados da pesquisa apontam para o plano de texto convencional e o alto grau de narrativização do libelo introdutório, em consonância com os estudos desenvolvidos por Adam (2011a).
2.3 Emoções na argumentação
O estudo das emoções desdobra-se sobre diferentes campos da ciência, como a Psicologia e as Ciências Sociais. Contudo, propomos este estado da arte a partir do
entendimento das emoções associadas ao campo da Linguística, mais precisamente a Argumentação.
Sendo assim, identificamos, no Brasil, dois tratamentos dados aos estudos das emoções na argumentação: um desenvolvido pelo Núcleo de Análise do Discurso, coordenado pelo professor Wander Emediato de Souza; e outro seguindo uma abordagem textual discursiva, atrelada ao grupo de pesquisa em Análise Textual dos Discursos, coordenado pelos professores Maria das Graças Soares Rodrigues e Luis Álvaro Sgadari Passeggi.
Sob a perspectiva da Análise do Discurso, Wander Emediato esclarece, no artigo “As emoções da notícia”, concepções que permeiam a compreensão sobre a emoção a partir de Goffman (1993), Chabrol (2000), Parret (1983) e Charaudeau (2000), distanciando-se do entendimento de emoções como um estado psico-fisiológico, uma sensação, em que o organismo é disposto a uma ação.
Uma análise discursiva das emoções se diferenciaria de uma análise psicológica mais preocupada com as reações sensoriais, as pulsões, temperamentos e humores mensuráveis ou caracterizáveis nos indivíduos, e igualmente de uma sociologia das emoções interessada em estabelecer categorias interpretativas e prototípicas do comportamento humano regulado por normas sociais”. (CHARAUDEAU apud EMEDIATO, 2007, p. 290).
Emediato (2007) situa o estudo desse fenômeno sob o ponto de vista da Análise do Discurso e discorre sobre as estratégias discursivas para evidenciar emoções em informações jornalísticas. Não busca os efeitos efetivamente sentidos, pois não desenvolve uma análise da recepção, mas os efeitos possíveis ou visados durante o processo de produção do texto.
Dessa maneira, o autor apreende o discurso jornalístico inscrito em um duplo contrato: o da informação e o da captação, sendo o primeiro atento às instâncias de produção e recepção, e o segundo às necessidades de dramatização e espetacularização utilizadas na instância de produção para captar o maior número de leitores. O interesse da pesquisa repousa, assim, nesse segundo contrato.
Para clarificar o entendimento acima, reportamos abaixo um exemplo trazido pelo autor no corpo do artigo.
POLÍTICA Eleições 2006
Aécio afirma que, se eleito, fará administração voltada para o fortalecimento das cidades. Ele promete atrair investimentos com a melhoria da infra-estrutura.
PRIORIDADE PARA OS MUNICÍPIOS
O estudioso parte da concepção de que uma informação nova (P) incide sobre um objeto temático (O), inserido em um universo contextual (UC). Para a realidade ilustrada, significa que em um contexto de eleições, evidenciada pelas rubricas iniciais, o objeto temático “Aécio” realiza uma promessa ou um ato de promessa, quando “afirma que, se eleito” e “Ele promete”. Assim, o locutor engaja-se e é qualificado por uma ação futura.
A partir dessa informação nova - a promessa -, percebemos no efeito de qualificação do locutor a intenção de criar uma disposição emocional de esperança no interlocutor por meio do enunciado, uma vez que o locutor promete algo que é positivo para o interlocutor e ao final ainda realça essa ação como uma “prioridade”. Temos, portanto, no eixo tematização/problematização, um ato de linguagem criando um efeito patêmico e ao mesmo tempo um ethos de benevolente para o candidato.
A análise, como vemos, associada à troca comunicativa da linguagem, revela uma intencionalidade patêmica para informar e emocionar ao mesmo tempo, relacionando o cognitivo e o afetivo. Nesse sentido, infere-se que a experiência afetiva do interlocutor com o objeto temático e a informação nova acarretam respostas específicas, em decorrência de alguma avaliação ou apreciação. Por exemplo, ficar indignado ao saber de algum caso de violência contra crianças.
Em síntese, o autor, sob a perspectiva da Análise do Discurso, equipara o termo emoções a sentimentos, relacionando emoções com os atos do discurso ou atos locutivos, na concepção de Charaudeau. Além disso, entende que os espaços de patemização configuram-se a partir da tematização, problematização, visualização, enunciativo, descritivo e narrativo.
Já os estudos sobre a Análise Textual dos Discursos revelam um olhar para emoções a partir da Linguística da Enunciação, em uma proposta metodológica de Adam (2011a), que associa discurso à materialidade do texto.
Nessa direção, o artigo “Emoções, argumentação e pontos de vista no caso de Nafissatou Diallo contra Dominique Strauss-Kahn. Uma análise textual e discursiva de
crônicas da Folha de São Paulo” (2015), publicado em uma coletânea que contém textos escritos por estudiosos de diversas partes do mundo, é de autoria dos professores Maria das Graças Soares Rodrigues e Luis Passeggi, coordenadores do grupo de pesquisa que participamos, o que assevera o interesse crescente do grupo pela abordagem das emoções nos enunciados.
Os autores objetivam, com essa investigação, construir discursivamente as emoções argumentativas por meio de uma análise textual e discursiva de 4 (quatro) artigos que abordam o caso ND/DSK, veiculadas pela Folha de São Paulo e escritas por jornalistas brasileiros. Os artigos faziam uma cobertura cronológica do caso, desde a prisão até a liberação do então chefe do FMI.
Para tal, basearam-se na abordagem teórica e metodológica proposta por Adam (2011a), bem como Micheli (2010b), Plantin (2013), Rabatel (1997, 2008a, 2008b), Rinn (2008), entre outros, para articular texto e discurso, a partir dos níveis textuais semântico e enunciativo, e propor um modo de semiotização linguística das emoções.
Não nos interessamos por estabelecer critérios para distinguir as emoções e os sentimentos, mas estudaremos os pontos de vista identificados no caso ND vs DSK que expressam as emoções/sentimentos, portanto utilizam uma linguagem subjetiva multiforme que não se limita ao léxico, mas se apoia também no contexto situacional da enunciação. (RODRIGUES; PASSEGGI, 2015, p.292).
Com o entendimento de que as emoções não são desencadeadas por eventos ou avaliações de eventos, mas construídas e concebidas como estratégias que incidem na argumentação, os estudiosos alicerçam suas análises em textos concretos, a partir de marcas linguísticas, sem desprezar o contexto da enunciação.
Na dimensão enunciativa, respaldaram-se em Rabatel (2008), para explicitar os quadros mediativos e pontos de vista presentes nos artigos e inferir os conflitos e desacordos entre os locutores/enunciadores que tematizavam a problemática da agressão sexual, bem como os enunciados carregados de emoção, evidenciados pela escolha lexical de adjetivos avaliativos, pelo tom irônico presente nos locutores enunciadores primeiros (L1/E1), mas também nos discursos reportados e nos títulos, conduzindo o leitor a experienciar a polarização com as emoções.
Para exemplificação, no excerto dado abaixo, L1/E1 utiliza o discurso reportado para sugerir inocência e fomentar dúvida no leitor sobre a culpabilidade de DSK.
O homem alega que foi sexo consentido, mas acaba exibido ao mundo como troféu da democracia e da justiça: preso, obrigado a pagar fiança de US$ 6 milhões, humilhado com uma tornozeleira eletrônica e posto em prisão domiciliar. (Cantanhêde, 2011 apud RODRIGUES; PASSEGGI, 2015, p.297).
Já na dimensão semântica, os estudiosos apoiaram-se na análise das estruturas semântico-sintáticas, dos termos e enunciados de emoções para explicitar como as emoções são semiotizadas direta ou indiretamente. Para tal, recorreram aos conceitos apontados por Plantin (2013).
Dessa forma, selecionaram “frases” com relevância semântica suficiente para a construção dos enunciados de emoção e esquematizam-nas da seguinte maneira:
[lugar psicológico + emoção designada ou hetero-atribuída + fonte da emoção]
Ex.1:O grande poder é eufórico porque DSK está preso [Poder, /euforia/, prisão de DSK].
Ex.2: DSK foi humilhado com um bracelete eletrônico [DSK, /humilhação/, bracelete eletrônico].
Sendo o lugar psicológico para onde aponta a emoção, e a fonte de onde surge a motivação. Essas considerações corroboram para a percepção de um valor semântico dos termos decisivos para a organização da visada argumentativa.
Além desse trabalho, que revela o interesse crescente também do grupo de pesquisa pela temática das emoções, a dissertação de Fonseca (2014) nos incitou a desenvolver a pesquisa na área, a fim de aprofundarmos a investigação iniciada, atrelando emoções à Linguística Textual.
A dissertação inaugurou trabalhos com o olhar para as emoções, de modo que se objetivou por meio dela identificar, descrever, analisar e interpretar a responsabilidade enunciativa (RE) e sua articulação com as emoções em discursos políticos de posse de Lula (2003, 2007) e Dilma (2011), a fim de discutir a categoria teórica das modalidades linguísticas para compreender a RE e os enunciados conativos de emoção.
Para tal, partiu-se da compreensão de Plantin (2010, 2011, 2012) sobre termos e enunciados de emoções, dialogando com a Linguística Enunciativa. Dessa maneira, concluímos que
A modalidade linguística, como uma das categorias determinantes da RE, no discurso político contribui para marcar a assunção da responsabilidade enunciativa, uma vez que funciona como um recurso para o político se impor e delimitar sua opinião. Na modalidade epistêmica, por meio de afirmações sobre o mandato, sobre a sociedade brasileira e sobre o país; na modalidade deôntica, quando há a discriminação das necessidades de um governo, apontando para o que precisa ser feito; na modalidade apreciativa, explicitando algum desejo. Assim, as modalidades contribuem para determinar as instâncias enunciativas e caracterizar os pontos de vista. (FONSECA, 2014, p.121).
Destarte, as modalidades indicam estados emocionais por meio de termos de emoções, assim elas apreendem o patêmico a partir dos valores modais.
Nossa pesquisa se ancora nessas contribuições,portanto, a fim de ampliar os estudos sobre o discurso religioso/jurídico atravessado por enunciados emotivos, como é o caso dos libelos introdutórios de nulidade matrimonial.
3 LIBELO INTRODUTÓRIO DE NULIDADE MATRIMONIAL
A lei não é um simples ato positivo do legislador, mas uma ordenação da razão para o bem comum. Por isso, é preciso conhecer o embasamento doutrinário da norma para conseguir compreender melhor seu alcance e seu conteúdo (HORTAL, 2016b, p. 13).
Para nos reportarmos ao entendimento sobre Libelo Introdutório de Nulidade Matrimonial, é preciso esclarecer alguns conceitos basilares para o Direito Canônico, como matrimônio e tudo o que a ele se associa; da mesma maneira, compreender a norma que rege a instituição da Igreja católica.
Canônico é uma palavra que advém de canôn, derivada de outra grega kánon, que significa régua, critério de medida, portanto, uma lei posta por uma autoridade social. Da mesma maneira, o dicionário Houaiss caracteriza canônico como o que está conforme os cânones, ou seja, regras e normas estabelecidas ou convencionais. No que diz respeito à Igreja católica, o termo assume ainda uma significação apontando para a essência eclesial da instituição.
Nesta direção, a natureza do Código de Direito Canônico (doravante CIC1) remete à tradição jurídico-legislativa da Igreja, preconizada pelos livros do antigo e novo testamento da sagrada escritura, e visa a disciplinar o desenvolvimento da sociedade eclesial e de seus membros, tanto na vida social e individual como atividade da instituição católica.
O CIC é um instrumento de força de lei para a Igreja latina2, reconhecido, portanto, como o principal documento legislativo da Igreja, que trata do poder sagrado, da hierarquia administrativa, da ministração dos sacramentos e dos direitos e deveres dos fiéis católicos, em uma dimensão dogmática e pastoral, definindo um conjunto de regras e normas de ação da instituição. Sendo assim, o Código “não é apenas um conjunto de recomendações de caráter moral. Trata-se de verdadeiras normas jurídicas, obrigatórias” (HORTAL, 2016b, p.13).
Promulgado pelo papa Bento XV em 1917, o Código de Direito Canônico foi revisado e reformado à luz do Concílio Vaticano II3, em 1983, quando João Paulo II, em
1A igreja católica admite como sigla para o Código de Direito Canônico o CIC, visto que advém do latim Codex Iuris Canonici. A fim de reiterar o caráter autêntico da pesquisa, preferimos adotar a sigla
reconhecida pela instituição.
2Entende-se a Igreja Católica Apostólica Romana, nomeada assim em virtude da tradição do rito latino. 3Conhecido como um dos maiores acontecimentos da Igreja Católica, o Concílio Vaticano II iniciou no
seu pontificado, convidou bispos e o episcopado para colaborar com a reformado CIC, como era de interesse do antecessor papa João XXIII. Assim, João Paulo II declarou, na apresentação do novo CIC, que o Código surgiu com o propósito único de restaurar a vida cristã, contribuindo, assim, para a missão salvífica da Igreja.
Dividido em sete livros, o CIC trata do Direito Matrimonial Canônico em dois desses: no livro quatro, quando detalha, nos cânones 1055 a 1165, o Direito substantivo, ou seja, as normas que regulamentam a instituição matrimonial enquanto sacramento, sua origem, desenvolvimento, modificação e extinção; e no livro sete ao discorrer, nos cânones 1671 a 1701, sobre o Direito adjetivo, em outras palavras, sobre os processos matrimoniais, sejam as causas para declaração de nulidade, de separação dos cônjuges, para dispensa de matrimônio ratificado e não consumado, ou de morte presumida do cônjuge.
Com esse mesmo entendimento, para melhor organização e compreensão do objeto de estudo, fracionaremos o capítulo em quatro seções: uma que explana sobre o conceito de matrimônio enquanto sacramento, bem como das proibições e impedimentos que o circunscrevem, e as semelhanças e diferenças com a noção de casamento; outra que se refere ao conceito de nulidade matrimonial; outra ainda que esclarece a organização linguística e plano de texto do libelo introdutório, comparando-o à petiçãcomparando-o inicial ncomparando-o Direitcomparando-o Civil; pcomparando-or fim, uma seçãcomparando-o scomparando-obre argumentaçãcomparando-o jurídica e comparando-o tratamento que pode ser dado ao libelo introdutório com base nessas noções de argumentação.
3.1 A instituição matrimonial
O matrimônio, inserido na vida social da igreja, adquire o caráter de sacramento, ou seja, torna-se um sinal da graça de Deus e serve à instrução e santificação do homem, na medida em que alimenta, fortalece e exprime a fé do cristão. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (CaIC), os sacramentos “são ‘forças que saem’ do corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante; são ações do Espírito Santo operante no corpo de Cristo, que é a Igreja; são ‘as obras-primas de Deus’ na Nova e Eterna Aliança” (CaIC, 1116). São, portanto, eficazes e necessários à salvação, pois neles agem o próprio Cristo. O Código Direito Canônico ratifica esse entendimento ao pontuar que:
moral e espiritual que permeava a sociedade, e terminou no ano de 1965 sob o pontificado de Paulo VI. Todavia, as reflexões do Concílio se perpetuam até o século atual.
Cân. 840 – Os sacramentos do Novo Testamento, instituídos pelo Cristo Senhor e confiados à Igreja, como ações de Cristo e da Igreja, constituem sinais e meios pelos quais se exprime e se robustece a fé, se presta culto a Deus e se realiza a santificação dos homens; por isso, muito concorrem para criar, fortalecer e manifestar a comunhão eclesial; em vista disso, os ministros sagrados e os outros fiéis, em sua celebração, devem usar de suma veneração e devida diligência. A Igreja católica ensina que são sete os sacramentos: os de iniciação na vida cristã (batismo, confirmação e eucaristia), os de cura (penitência e unção dos enfermos) e os de serviço (ordem e matrimônio). O mais importante entre esses e o fundamental para se obter os demais é o sacramento do batismo, visto que por meio dele os cristãos recebem a natureza crística.
Pelo batismo, o homem é liberto do pecado original4 e restituído à condição de filho de Deus, tornando-se membro do corpo místico de Cristo, que é a igreja. A Igreja católica reconhece válido o batismo não somente da Igreja Católica Romana, mas de outras comunidades cristãs. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil legitima o batismo das seguintes denominações5: a Igreja Oriental, Veterocatólica, Anglicana, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Evangélica Luterana do Brasil, Metodotista, Presbiteriana, Batista, Congregacionistas, Adventistas, a maioria das igrejas Pentecostais, Exército de salvação.
A sacramentalidade conferida, pelo batismo, no matrimônio é, portanto, “a plenitude da natureza íntima da união conjugal” (HORTAL, 2016b, p.32), ou um sinal da entrega de Cristo à Igreja. É o próprio Deus o autor do matrimônio. Devido a esse traço extrassensível, é recomendado que o matrimônio ocorra somente entre batizados, católicos ou acatólicos (nesse caso, fala-se com matrimônios mistos).
A natureza crística recebida no batismo faz que o homem e a mulher, que verdadeiramente se entregam e se recebem no matrimônio, realizem uma união que, sem perder sua virtualidade natural, se torna igualmente sacramento da Igreja. (HORTAL, 2016b, p. 32-33). É o contrato matrimonial entre os batizados que se torna sacramento. Contudo, por ser regido pelo direito não somente canônico, mas pelo direito divino, o matrimônio pode ocorrer também entre um batizado e um não batizado, que detalharemos mais adiante. O sacramento não modifica as propriedades essenciais do matrimônio, mas lhes dá força.
4Referência bíblica ao pecado cometido por Adão e Eva, quando provaram da árvore do bem e do mal,
com o intuito de dominar todas as coisas como deus.
Neste sentido, o conceito de matrimônio repousa, sobretudo, na comunhão de vida toda, instaurada pelo consentimento pessoal e irrevogável. É um ato positivo de vontade, em que todas as pessoas possuem o direito-dever natural para contrair matrimônio, desde que estejam livres de impedimentos e sigam as orientações de preparação remota para o casamento, preparação próxima para o casamento (curso de noivos) e celebração litúrgica. Assim estabelece o CIC no cânon 1055:
Cân 1055 - §1. O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si o consórcio de toda vida, por sua índole natural ordenado ao bem dos conjugues e à geração e educação da prole, entre batizados foi por Cristo Senhor elevado à dignidade de sacramento. Dentre as propriedades essenciais do matrimônio, complementa o cân. 1056, estão a unidade e indissolubilidade, corroborando com o conceito de consórcio de toda vida, impossibilitando, dessa forma, a poligamia e a dissolução do vínculo matrimonial. Por isso, muitos teólogos discutem a nomenclatura de contrato atribuída ao matrimônio no CIC, visto que um contrato comumente presume que o conteúdo seja negociável e passível de ser rompido.
O código de 1983 ressalta que o matrimônio igualmente deve ser ordenado ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole para enfatizar justamente o caráter unitivo e procriativo, que não constituem estritamente a essência, mas dela dimanam como um fim do matrimônio.
O matrimônio pode ser entendido como um ato de vontade (matrimonium in fieri), mediante o qual um homem e uma mulher manifestam o compromisso de constituir uma aliança de vida conjugal, e como um estado de vida ou relacionamento (matrimonium in facto esse) resultante desse ato de vontade, que a Igreja considera como consentimento. A troca de consentimento é o que valida e torna juridicamente eficaz o matrimônio, sem ela o matrimônio é inexistente.
Um matrimônio é inválido quando aconteceu a celebração aparentemente válida, mas objetivamente nula, dada pela falta do consentimento por um dos cônjuges, ou nubentes. Ocorrendo dessa forma, a união conjugal é passível de um processo para a declaração de nulidade matrimonial. Entretanto, afirma o CIC, no cân. 1060, “o matrimônio goza do favor do direito; portanto, em caso de dúvida, deve-se estar pela validade do matrimônio, enquanto não se prova o contrário”.
Antes da realização da celebração, e para reconhecer a liceidade e supor a validade do matrimônio, instrui-se o “processo de habilitação matrimonial” com a
finalidade de a) recolher os dados pessoais dos nubentes e averiguar claramente a ausência de impedimentos, ou seja, proibições legais que constituem um obstáculo à celebração válida do matrimônio; b) adquirir certeza moral sobre a liberdade do consentimento; c) e verificar e, se necessário, suprir o grau de instrução suficiente dos noivos acerca da doutrina católica sobre o matrimônio.
A liceidade diferencia-se da validade matrimonial. A validade está associada ao consentimento e matrimônio ato, enquanto a liceidade referencia a legalidade do matrimônio estado, sendo assim, é possível que haja consentimento entre os nubentes, mas que a união seja ilícita. A legalidade do matrimônio deve ser presumida antes da realização da cerimônia. Dessa forma, o cân. 1071 descreve os casos em que é negado o direito de assistir matrimônio, exceto com a licença do ordinário local. A seguir listamos esses casos:
Cân. 1071 - §1. Exceto em caso de necessidade, sem a licença do ordinário local, ninguém assista:
1° a matrimônio de vagantes;
2° a matrimônio que não possa ser reconhecido ou celebrado civilmente;
3° a matrimônio de quem tem obrigações naturais, originadas de união precedentes, para com outra parte ou para com filhos;
4° a matrimônio de quem tenha abandonado notoriamente a fé católica;
5° a matrimônio de quem esteja sob alguma censura;
6° a matrimônio de menor, sem o conhecimento ou contra a vontade razoável de seus pais;
7°A matrimônio a ser contraído por procurador, mencionado no cân.1105.
Nesta direção, é desautorizada assistência a matrimônio em que um dos cônjuges sejam vagantes, aqueles que não possuem residência fixa, a fim de assegurar investigações sobre o estado livre dessas pessoas. É censurado igualmente o matrimônio de pessoas que não estejam separadas judicialmente, seja por meio do desquite ou divórcio, ou que vivam em concubinato com uma terceira, ou seja, apresentem comunidade conjugal, embora não reconhecida civilmente, mas pelos pares devido à convivência quase marital. Não é recomendado estabelecer vínculo matrimonial com alguém que tenha abandonado publicamente a fé católica para não colocar em perigo a fé da parte católica e comprometer a educação cristã da prole. Da mesma maneira, caso uma das pessoas esteja sob censura, ou seja, submetida a privações de bens espirituais, por exemplo, a excomunhão, o interdito e suspensão, esta em caso de clérigo. É vedado contrair matrimônio com pessoa menor de idade sem autorização dos pais, bem como