UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE BIOCIÊNCIAS
CURSO DE BIOMEDICINA
KALYNE DE OLIVEIRA NASCIMENTO
A DOENÇA FALCIFORME E AS POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL
NATAL-RN NOVEMBRO/2019
A DOENÇA FALCIFORME E AS POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL
POR
KALYNE DE OLIVEIRA NASCIMENTO
ORIENTADORA: Profa. Christiane Medeiros Bezerra
NOVEMBRO/2019
Monografia Apresentada à Coordenação do Curso de Biomedicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como Requisito Parcial à Obtenção do Título de Bacharel em Biomedicina.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE BIOCIÊNCIAS
CURSO DE BIOMEDICINA
AMonografia“A DOENÇA FALCIFORME E AS POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL”
elaborada por Kalyne de Oliveira Nascimento
e aprovada por todos os membros da Banca examinadora foi aceita pelo Curso de Biomedicina e homologada pelos membros da banca, como requisito parcial à obtenção do título de BACHAREL EM BIOMEDICINA
Natal, 18 de Novembro de 2019
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________ Prof. Msc. Christiane Medeiros Bezerra (Orientador) Departamento de Microbiologia e Parasitologia – UFRN
_________________________________________ Larisse Araújo Dantas
Biomédica/Mestre em Bioquímica Técnica de laboratório/análises clínicas - UFRN
_________________________________________ Prof. Dr. Thales Allyrio Araújo de Medeiros Fernandes
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Prof. Leopoldo Nelson - -Centro de Biociências - CB
Nascimento, Kalyne de Oliveira.
Doença Falciforme e as Políticas Públicas no Brasil / Kalyne de Oliveira Nascimento. - Natal, 2019.
36 f.: il.
Monografia (Graduação) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Biociências. Curso de Biomedicina.
Orientadora: Profa. Ma. Christiane Medeiros Bezerra.
1. Doença falciforme - Monografia. 2. Hemoglobina S - Monografia. 3. Política pública - Monografia. I. Bezerra, Christiane Medeiros. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título.
RN/UF/BSE-CB CDU 616.155.194
AGRADECIMENTOS
Agradeço eternamente a Deus por sua infinita misericórdia na minha vida, por ter concedido graça, paciência e sabedoria em todos os momentos. Agradeço à minha orientadora e professora Christiane Medeiros por toda ajuda e compreensão, mesmo sabendo que meu tempo era muito limitado, sempre esteve à disposição em me ajudar e me orientar, Deus abençoe grandemente a sua vida e de toda sua família.
Agradeço ao meu pai Carlos, por todo o apoio e sempre estar disposto a ir me buscar no trabalho, para chegar mais cedo em casa e estudar, a minha mãe Francineide por sempre estar ao meu lado, abrindo mão do seu sono, acordando cedo junto comigo, preparando meu almoço e meu café da manhã com tanto carinho, a minha irmã Francikarla por me suportar nos momentos estressantes e tentar me fazer rir.
Ao meu noivo Modesto, por me ajudar, apoiar, me entender nos momentos de estresse, ansiedade e por sempre me falar “vai dar certo”, aos meus futuros sogros Rita e Marcio, e as minhas tias Fátima e Marineide por toda ajuda em oração.
Ao meu tripé, minhas amigas Isabelle, Rebecca e Steffane, pôr todo cuidado, carinho, palavras de apoio, e puxões de orelha também, a minha graduação não teria sido tão especial se não fosse pela presença de vocês.
Agradeço as minhas amigas do trabalho Lígia e Elaine, por todo apoio, compreensão, ajuda e palavras de estimulo.
Agradeço a todos os docentes e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte por fazer parte da construção do ensino da minha querida Biomedicina.
RESUMO
As hemácias de constituição normal apresentam em seu interior, prioritariamente, a hemoglobina (Hb) A, possuem morfologia no formato bicôncavo e têm capacidade de deformabilidade, características que garantem a troca de oxigênio no organismo durante o seu tempo de sobrevida. Uma mutação no códon 6 da globina β resulta na substituição de aminoácidos e à consequente produção de uma hemoglobina alterada, denominada HbS. A doença falciforme é uma das patologias hereditárias mais comuns do mundo e representa um grupo de doenças caracterizadas pela produção de HbS em maior concentração, com um percentual de mais que 50 por cento, sendo a anemia falciforme, representada pela homozigose da HbS, a sua forma clínica mais grave. Quando desoxigenadas, as hemácias contendo hemoglobina S tendem a adquirir o formato de foice, devido à polimerização da HbS, o que resulta nas vaso oclusões e hemólise, que desencadeiam o principal sintoma desta enfermidade– a dor crônica. O diagnóstico da doença é feito através de exames laboratoriais, sendo a eletroforese de hemoglobina e/ou a cromatografia líquida de alta performance bastante utilizadas para evidenciar o genótipo do paciente. Para o tratamento, a hidroxiureia é o medicamento de escolha e atua na prevenção das crises álgicas, dentre outros benefícios. Em decorrência das crises de dores crônicas, os pacientes com doença falciforme podem enfrentar alguns problemas sociais, como por exemplo, dificuldade no rendimento acadêmico e na interação com familiares e colegas. Nessa perspectiva, são imprescindíveis ações de políticas públicas necessárias para garantir acesso ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento de qualidade aos pacientes. No Brasil, a doença falciforme teve a sua importância e gravidade reconhecidas pelo governo e atualmente, dentre algumas portarias e leis, duas importantes políticas asseguram o direito aos pacientes desta enfermidade que são o Programa Nacional de Triagem Neonatal e a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobinopatias. Em relação aos benefícios para suprir as necessidades desses pacientes, não há nada concretizado, somente através da Lei Orgânica da Assistência Social, benefício esse concedido somente se o paciente cumprir todos os requisitos que a lei impõe.
ABSTRACT
Red cells of normal constitution present, in their interior, as a priority, the hemoglobin (Hb) A, have a biconcave shape and deformability, characteristics that ensure the exchange of oxygen in the body duringyour survival time. A mutation in codon 6 of globin β results in the substitutionamino acids and the consequent production of an altered hemoglobin, called HbS. Sickle cell disease is one of the most common hereditary pathologies in the world and represents a group of diseases characterized by the production of HbS in greater concentration, with a percentage of more than 50 percent, being sickle cell anemia, represented by homozygosis of HbS, its most severe clinical form. Whende oxygenated cells, red blood cells containing hemoglobin S tend to take the form of sickle, due to HbS polymerization, which results in vessel occlusions and hemolysis, whichtrigger the main symptom of this disease - chronic pain. The diagnosis of The disease is made through laboratory tests, with hemoglobin electro phoresis and / or high performance liquid chromatography widely used topatient's genotype. For treatment, hydroxyurea is the medicine of choice andacts in the prevention of pain crises, among other benefits. Due to crises In chronic pain patients with sickle cell disease may face some social problems, such as difficulty in academic achievement and interaction with family and colleagues. From this perspective, actions of public policies necessary to ensure access to diagnosis, treatment and quality follow-up to patients. In Brazil, sickle cell disease had it simportance and gravity recognized by the government and currently, among some ordinances and laws, two important policies ensure the right of patients in this disease that are the National Neonatal Screening Program and the National PolicyCare Center for People with Sickle Cell Disease and other Hemoglobinopathies. Regarding the benefits to meet the needs of these patients, there is not hingonly through the Organic Law of Social granted only if the patient meets all the requirements that the law imposes.
LISTA DE ABREVIATURAS
aa Aminoácidos
AF Anemia falciforme
CHCM Concentração de hemoglobina corpuscular média
DF Doença falciforme
FDA Food and Drugs Administration
Hb Hemoglobina
Hb SS Homozigose da Hb S
HPLC Cromatografia líquida de alta performance
HU Hidroxiureia
IEF Focalização isoelétrica
LOAS Lei orgânica da assistência social OMS Organização Mundial de Saúde
PHHF Persistência hereditária da hemoglobina fetal PNTN Programa Nacional de Triagem Neonatal
RN Recém-nascido
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1 – Aspecto morfológico de eritrócito normal e falciforme ... 11 FIGURA 2 – Vaso oclusão dos eritrócitos ... 12 FIGURA 3 – Estrutura da hemoglobina A, complexo tetraédrico com duas α-globina
em azul e duas β-globina em vermelho ... 16
FIGURA 4 – Alterações nas propriedades físico-químicas da molécula de Hb S no
interior dos eritrócitos ... 18
FIGURA 5 – Resumo da cronologia dos principais acontecimentos históricos da DF de
1835 à 1947. ... 19
FIGURA 6 – Resumo da cronologia dos principais acontecimentos históricos da DF de
1949 à 1978. ... 20
FIGURA 7 – Eletroforese de hemoglobina em ph alcalino (acetato de celulose -
esquerda) e ph ácido (ágar citrato - direita) ... 22
LISTA DE QUADRO
QUADRO 1 – Manifestações em decorrência da hemólise... 18 QUADRO 2 – Proporção de nascidos vivos com doença falciforme nos estados que
realizam o teste do pezinho ... 21
ÍNDICE 1 INTRODUÇÃO ... 11 2. OBJETIVOS ... 14 2.1GERAL ... 14 2.2ESPECÍFICOS ... 14 3. MATERIAIS E MÉTODOS ... 15 3.1TIPODEESTUDO ... 15
3.2OBTENÇÃODOSDADOS ... 15
4. RESULTADOS ... 16
4.1CONCEITO E FISIOPATOLOGIA DA DOENÇA FALCIFORME... 16
4.2ASPECTOS HISTÓRICOS E INCIDÊNCIA DA DOENÇA FALCIFORME ... 19
4.3MÉTODOS DIAGNÓSTICOS E PRINCIPAIS TRATAMENTOS UTILIZADOS ... 21
4.4FATORES SOCIAIS E QUALIDADE DE VIDA DE PACIENTES COM DOENÇA FALCIFORME ... 25
4.5POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL XDOENÇA FALCIFORME ... 26
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 31
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1 INTRODUÇÃO
As hemoglobinopatias são alterações autossômicas, geralmente recessivas, que afetam os genes das cadeias globínicas da hemoglobina (Hb) e podem ser classificadas em três grupos: hemoglobinas estruturalmente anormais (variantes da hemoglobina), alterações quantitativas na síntese das cadeias globínicas (talassemias) e a persistência hereditária da hemoglobina fetal (PHHF) (SONATI; COSTA, 2008).
A hemoglobina é uma proteína tetramérica presente no interior das hemácias e que é responsável pelo transporte de oxigênio no organismo. É composta por uma parte não protéica, o grupo heme e uma parte protéica, constituída de dois polipeptídeos do tipo α-globina e dois polipeptídeos do tipo β-globina, sendo a Hb A (α2β2), a principal
Hb do indivíduo adulto, correspondendo a aproximadamente 96% da quantidade de hemoglobina, seguida da Hb A2 (α2δ2), e Hb Fetal (α22) (SANTOS; CHIN, 2012).
Além das hemoglobinas anteriormente citadas, pode ocorrer a formação de hemoglobinas variantes, que são hemoglobinas com estrutura diferente das demais, não comumente produzidas. Estas são resultantes, em sua maior parte, da troca de aminoácidos nas cadeias globínicas, como o que ocorre com as hemoglobinas S e C, resultantes de alterações na cadeia beta da hemoglobina (SCHECHTER, 2008; TOLEDO et al., 2019).
De acordo com o supracitado, a hemoglobina S (α2βs2), uma variante estrutural
da hemoglobina A, apresenta a substituição de uma base nitrogenada no sexto códon da cadeia β (β6 GAG→GTG) levando à troca do ácido glutâmico pela valina (β6 Glu→Val
) (KATO et al., 2018). Esta Hb alterada, quando em alta concentração – superior a 50% - após trocas sucessivas de conformação entre o estado oxigenado e o desoxigenado, polimeriza, tornando a hemácia rígida e não deformável, adquirindo a forma de foice, os chamados drepanócitos (eritrócito falciforme) (Figura 1) (TOLEDO et al., 2019).
Figura 1 – Aspecto morfológico de eritrócito normal e falciforme
12 As doenças falciformes (DF) referem-se à interação da HbS com outros tipos de hemoglobinas variantes ou talassemias, como por exemplo, na forma homozigota (Hb SS) e associações como hemoglobinopatia SC (Hb SC), Sβ talassemia (Hb Sβ), entre outras. Entretanto, quando em forma de heterozigose com a hemoglobina normal A, os indivíduos apresentam o chamado traço falciforme (Hb AS), o qual não se configura como uma doença (TOLEDO et al., 2019; SCHECHTER, 2008).
A homozigose da Hb S (Hb SS), chamada anemia falciforme (AF), tem caráter autossômico recessivo e é uma das doenças hereditárias do tecido sanguíneo mais comum em todo o mundo, atingindo de modo expressivo a população de diversos países (KATO, et al., 2018). É classificada como uma anemia hemolítica, causando destruição dos eritrócitos, provocando sintomas diversos, sendo o mais comum a dor crônica. Como as hemácias contendo Hb S alteram sua conformação para um formato mais rígido, em forma de foice, elas tendem a se acumular na circulação, além de contribuírem para a formação de agregados multicelulares, induzidos pelas alterações vasculares e inflamações, levando à vaso oclusão e gerando as dores nos pacientes (Figura 2) (KATO et al., 2018; TOLEDO et al., 2019; ZAGO; PINTO, 2007).
Figura 2 – Vaso oclusão dos eritrócitos
Fonte: Adaptado de LOBO et al., 2007.
A DF é encontrada mundialmente, sendo mais comum em países africanos, região em que sua incidência aumentou devido a movimentos populacionais, com o predomínio da escravidão e em virtude de ser uma área endêmica para a malária, com uma suposição de que a hemoglobina S na forma de traço (HbAS) protege indivíduos desta infecção causada pelo Plasmodium falciparum, o que justificaria que as pessoas com HbAS teriam 10% menos chance de evoluir o quadro da malária do que as pessoas com Hb normais (PIEL; STEINBERG; REES, 2017).
13 No Brasil, a doença falciforme teve a sua importância reconhecida pelo governo através da militância do Movimento Negro, em que eram reivindicadas políticas públicas para assistir aos portadores das doenças mais frequentes em negros. Em 1995 foi criado o grupo de trabalho interministerial para valorização da população, e a partir dele surgiram subgrupos, sendo um deles o da saúde, que era responsável por organizar discussões sobre as doenças de maior frequência na raça negra, sendo a DF uma destas. Após o sucesso do movimento, foi criada a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobinopatias, através da Portaria nº 1.391, de 16/08/2005 do Ministério da Saúde (MÁXIMO, 2009).
O interesse pela DF surgiu durante as aulas da disciplina Fundamentos de Hematologia e a vontade de conhecer mais sobre o assunto e do que era feito pelos pacientes, motivaram a escolha do tema deste trabalho de conclusão de curso.
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2. OBJETIVOS
2.1 GERAL
Este trabalho teve como objetivo realizar uma revisão bibliográfica em bases de dados científicas sobre doença falciforme com ênfase nas políticas públicas no Brasil.
2.2 ESPECÍFICOS
Abordar a fisiopatologia da doença;
Abordar os aspectos históricos e a incidência da DF no mundo e no Brasil; Mencionar os métodos diagnósticos e os principais tratamentos utilizados para a
doença falciforme;
Abordar aspectos de qualidade de vida de pacientes com doença falciforme; Contextualizar as políticas públicas desenvolvidas no Brasil para os doentes
falciformes;
Listar as principais politicas públicas instituídas no Brasil;
Elencar as principais dificuldades e necessidades de saúde dos pacientes com doença falciforme.
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3. MATERIAIS E MÉTODOS
3.1 TIPO DE ESTUDO
Este trabalho baseou-se em revisão de literatura científica sobre doença falciforme, com ênfase nas políticas públicas no Brasil.
3.2 OBTENÇÃO DOS DADOS
Para a realização deste trabalho acadêmico, foram feitas pesquisas nas bases de dados científicas: Pubmed, Google acadêmico e Scientific Electronic Library Online (Scielo), priorizando os artigos escritos na língua portuguesa, entre os meses de março a novembro de 2019, fazendo a utilização de palavras-chave em português e em inglês.
Na busca em português foram utilizados termos como: doença falciforme, políticas públicas, qualidade de vida, fisiopatologia, tratamento, diagnóstico e direitos dos pacientes e as suas correspondentes em inglês.
Para este trabalho de conclusão foram selecionadas publicações entre 2000 e 2019, com prioridade às mais recentes, a fim de obter informações atualizadas. A escolha dos artigos foi realizada por meio de uma análise sequencial dos mesmos, a começar pela observação dos títulos e ano de publicação e posterior leitura dos resumos. Em caso de haver concordância entre o trabalho e a proposta de elaboração deste, o artigo foi acessado na íntegra e as principais informações foram extraídas.
Além disso, foram também utilizadas como referência informações contidas em Portarias, Leis e Cartilhas do Ministério da Saúde, tendo sido utilizados 32 artigos científicos, 3 cartilhas, 1 tese de mestrado, 9 portarias, 5 leis e 3 sites, totalizando 53 fontes de referência bibliográficas.
Após a leitura das referências selecionadas, as informações foram organizadas e compiladas na forma desta revisão.
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4. RESULTADOS
4.1 Conceito e Fisiopatologia da Doença Falciforme
A hematopoese tem início nas primeiras semanas de gestação e prolonga-se durante toda a vida do indivíduo, ocorrendo em diferentes órgãos ao longo de todo o processo (PORTILHO; PELAJO-MACHADO, 2018). Após o nascimento, as células sanguíneas são produzidas na medula óssea e compreendem os leucócitos, plaquetas e as hemácias, também denominadas de eritrócitos ou glóbulos vermelhos. Essas têm formato bicôncavo, são anucleadas e possuem internamente uma proteína tetramérica denominada hemoglobina, responsável por realizar o transporte de gases no organismo (SANTOS; CHIN, 2012).
De acordo com a constituição das cadeias globínicas, as hemoglobinas normais são denominadas: hemoglobina A (α2β2), hemoglobina A2 (α2δ2) e hemoglobina fetal
(α22). A HbA é a mais predominante, no período pós -natal, correspondendo a cerca de 96% do total de hemoglobina (Figura 3), seguida pela HbA2, com uma média de 2,5% e
Hb F, correspondendo a aproximadamente 1% do total de Hb de um indivíduo sadio (SCHECHTER, 2008).
Figura 3 – Estrutura da hemoglobina A, complexo tetraédrico com duas
α-globina em azul e duas β-α-globina em vermelho
Fonte: Brasil, 2015.
Quando ocorrem mutações que alteram as sequências das cadeias globínicas, surgem as chamadas hemoglobinas variantes, que são estruturalmente diferentes das normais e podem ocasionar doenças de gravidade variável nos indivíduos que as
17 possuem e têm as hemoglobinas S e C como as principais representantes no Brasil (SONATI; COSTA, 2008).
A doença falciforme representa um grupo de doenças genéticas caracterizadas por mutações no gene da globina beta, resultando na produção da hemoglobina S, e inclui a interação desta com outras variantes, como a Hb SC, com talassemias, como HbS-talassemia β, e a homozigose da Hb S, denominada anemia falciforme (Hb SS), sendo essa uma alteração genética autossômica recessiva (KATO et al., 2018; PIEL; STEINBERG; REES, 2017; TOLEDO et al., 2019).
A hemoglobina S é a principal Hb variante encontrada no Brasil e é resultante de uma mutação pontual (GTG → GAG), no sexto códon do gene da β- globina, levando à substituição de um ácido glutâmico pela valina. Devido a essa alteração, as hemácias contendo essa hemoglobina em seu interior, quando desoxigenadas, tendem a adquirir o formato de foice, devido à insolubilidade de Hb S e da formação de polímeros intraeritrocitários (TOLEDO et al., 2019; SANTOS, CHIN, 2012).
A polimerização ocorre quando fibras compostas de HbS são formadas e este fenômeno é dependente da concentração de HbS, temperatura, pressão parcial de oxigênio, pH, concentração de 2,3-DPG e da diversidade de tipos de Hb. A desidratação celular gerada devido a homeostase catiônica anormal causa um aumento na contração de HbS e a consequente polimerização. Quando as fibras dos polímeros expandem, ocasionam a deformação dos eritrócitos, que adquirem o aspecto de foice, provocando anemia hemolítica, além de dificultar a flexibilidade das hemácias, levando à vaso-oclusão (Figura 4) (KATO et al., 2018; PIEL; STEINBERG; REES, 2017; TOLEDO et al., 2019).
A hemólise ocorre quando há o rompimento da membrana eritrocitária devido às constantes mudanças de estado desoxigenado e oxigenado, e à consequente polimerização da Hb S. A hemoglobina liberada em consequência da hemólise, consome o óxido nítrico, o qual tendo sua biodisponibilidade prejudicada leva o paciente a ter hipertensão pulmonar, úlceras nas pernas em pacientes mais graves e priapismo (ereção peniana persistente dolorosa). Outras sintomatologias também podem ser encontradas como a dismotilidade esofágica, dor abdominal, disfunção renal, pressão alta e derrame isquêmico (Quadro 1) (KATO; MACKA, 2006).
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Figura 4 – Alterações nas propriedades físico-químicas da molécula de Hb S no
interior dos eritrócitos
Fonte: BRASIL, 2015.
Quadro 1 – Manifestações clínicas em decorrência da hemólise
Fonte: KATO; MACKA, 2006.
Além disso, também contribuindo com a fisiopatologia da doença, as hemácias falciformes expressam um grande número de moléculas de adesão na sua membrana em comparação com os eritrócitos normais, as quais auxiliam na interação destes com o endotélio e com outras moléculas, favorecendo o processo de vaso oclusão. Acredita-se, inclusive, que esta adesão endotelial possivelmente representa o mecanismo primário onde ocorrem as alterações moleculares (ZAGO; PINTO, 2007).
Concomitante há também disfunção vascular-endotelial, deficiência funcional de óxido nítrico, inflamação, estresse oxidativo, hipercoagulabilidade, aumento da
19 adesividade de neutrófilos e ativação plaquetária (PIEL; STEINBERG; REES, 2017; KATO et al., 2018).
4.2 Aspectos históricos e incidência da doença falciforme
Em 1835 apareceram os primeiros relatos de observações científicas relacionadas à anemia falciforme no Brasil, a partir de pesquisas do médico José Martins da Cruz Jobim, o qual descreveu a associação entre opilação e anemia, e a suspeita da maior resistência às febres intermitentes pelos escravos provenientes da África, posteriormente descrito como efeito protetor da HbS contra a malária. Em 1910 foi publicado o primeiro artigo científico sobre a DF, intitulado como Peculiar elongated and sickle-shaped red blood corpuscles in a case of severe anemia, na revista americana Archives of Internal Medicine, escrito pelo médico James Bryan Herrick, o qual demonstrou no artigo a presença de eritrócitos em formato de foice em um jovem negro com uma grave anemia, icterícia e com dores fortes nas articulações (BRASIL, 2015).
Em 1947 o médico e pesquisador brasileiro Jessé Accioly propôs a hipótese da hereditariedade da doença falciforme e James Van Gundia Neel em 1949 comprovou experimentalmente. Nesse mesmo ano, Linus Pauling, Harvey Itano, Seymour Jonathan Singer e Ibert C. Wells, através da técnica de eletroforese, separaram a Hb anormal, denominada de Sickle Hemoglobin (Hb falcizante), que causava a mudança no formato da hemácia (Figura 5) (BRASIL, 2015).
Figura 5 – Resumo da cronologia dos principais acontecimentos históricos da
DF de 1835 à 1947.
20 Em 1954 Anthony Cliford Allison, associou o efeito protetor da HbS contra a malária, corroborando as observações de 1835, do médico José Martins da Cruz Jobim. Yuet Wai Kan e Andree M. Dozy, utilizando a biologia molecular demonstraram a diferença na sequência de bases nitrogenadas no gene que codificava a cadeia estrutural beta da Hb, em 1978. Através da genética clássica houve o descobrimento da DF, sendo ela a primeira doença molecular humana a ser descrita (Figura 6) (BRASIL, 2015).
Figura 6 – Resumo da cronologia dos principais acontecimentos históricos da
DF de 1949 à 1978.
Fonte: Elaborado pela autora
A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a doença falciforme como a doença hereditária de maior gravidade para saúde pública mundial, com atenção à morbimortalidade daqueles que são acometidos por ela. A DF tem sua origem na África, e devido à escravidão chegou ao continente americano no período colonial. Com a miscigenação da população, mais de cinquenta por cento dos brasileiros apresentam traços da descendência africana, sendo assim, levando a DF ser a doença hereditária mais comum no Brasil. Até meados da década de 1990 a prevalência média era de 2% de traço falciforme, sendo 6% a 10% entre pretos e pardos, observado nesta estatística a predominância da população negra no Brasil (BRASIL, 2015).
Estimativas indicam que em 2050 o número anual de nascidos vivos com AF no mundo será em torno de 400.000 (PIEL, et al., 2017; BRAGA, et al.,2016). De acordo com o Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), estima-se que no Brasil nascem, por ano, 3.500 crianças com DF e 200.000 com traço falciforme. Além disso, os dados sugerem que existam no país 7.200.000 pessoas com traço falciforme e entre 25.000 a 30.000 com doença falciforme (FELIX, SOUZA, RIBEIRO, 2010).
21 As regiões Norte e Nordeste apresentam as maiores taxas de incidência e prevalência (6% a 10%), uma vez que nestas regiões está concentrado o predomínio da população afrodescendente, seguido da região Sul e Sudeste (2% a 3%) (BRASIL, 2015). Dados do PNTN mostram que a Bahia possui a maior proporção de nascidos vivos com DF, de acordo com o resultado do teste do pezinho (Quadro 2) (JESUS, 2010).
Quadro 2 – Proporção de nascidos vivos com doença falciforme nos Estados que
realizam o teste do pezinho
Fonte: BRASIL, 2015.
A nível de mundo, no continente africano, a Nigéria tem cerca de 150 milhões de pessoas e aproximadamente 5 milhões possuem o genótipo SS, 40 milhões, o genótipo AS e 66 a 72% têm o genótipo AA. Devido ao quantitativo da população, ela ocupa o primeiro lugar como país endêmico da África, com 100.000 mortes por ano, em torno de 8% da mortalidade infantil. Pode-se dizer que estatisticamente a Nigéria corresponde à ¾ das pessoas que vivem com DF no mundo (AKANBI, EDEKI, AGBOLADE, 2017).
4.3 Métodos diagnósticos e principais tratamentos utilizados
Os exames laboratoriais que auxiliam no diagnóstico da anemia falciforme são o hemograma, a eletroforese de hemoglobina alcalina e ácida, os testes de falcização e de solubilidade, a cromatografia líquida de alta performance (HPLC) e a focalização isoelétrica (IEF) (ALMEIDA; BERETTA, 2017).
No hemograma, exame em que são analisados os parâmetros hematológicos e a morfologia das células, é possível observar na distensão sanguínea as hemácias falciformes. O eritrograma se apresenta com anemia normocítica e normocrômica ou
22 macrocítica, com alto grau de anisocitose e poiquilocitose, com o RDW podendo se apresentar elevado chegando a 19,5%. A concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM) é normal, as plaquetas podem estar altas em decorrência da atrofia do baço, os leucócitos elevados, pois há crises de hemólise ou devido a infecções. Por ser um exame de rotina, ele se torna o primeiro para o auxílio no diagnóstico da AF (NOGUEIRA; SILVA; PAIVA, 2013).
O teste de falcização, exame para verificar a presença dos drepanócitos, possui algumas limitações técnicas, pois pode haver falsos positivos e falsos negativos uma vez que há muitas variáveis para serem analisadas como: a técnica correta e a exata interpretação do teste, além da viabilidade dos reagentes utilizados (ALMEIDA; BERETTA, 2017).
O teste de solubilidade tem seu princípio de acordo com a insolubilidade da HbS em estado reduzido, e é utilizado para detectar a presença da HbS, com exceção dos neonatos, pois não há ainda a transição da HbF para a Hb do adulto. Em baixas concentrações de oxigênio, a HbS é 100 vezes menos solúvel que na sua forma oxigenada e precipita quando a amostra e reagente são adicionados ao papel de filtro (ZANATTA; MANFERDINI, 2009).
A eletroforese de hemoglobina alcalina é qualitativa e realizada em acetato de celulose em pH de 7 a 8, pois a Hb é carregada negativamente e na corrida eletroforética ela migra para o polo positivo. Quando há um defeito estrutural, causado por substituição de aminoácido com diferentes pontos isoelétricos, ocorrerá mudanças em suas cargas elétricas, obtendo como resultado diferentes mobilidades (Figura 7) (ZANATTA; MANFERDINI, 2009).
Figura 7 – Eletroforese de hemoglobina em pH alcalino (acetato de celulose -
esquerda) e pH ácido (ágar citrato - direita)
1. Controles: A, F, S e C; 2. Hb AA; 3 e 4. Hb AS; 5. Hb SS; 6. Hb SC; 7. Hb AE Fonte: FERRAZ; MURAO, 2007.
23 A eletroforese ácida também pode ser utilizada para o diagnóstico na confirmação da presença de Hb entre elas a HbS, porém esse método não é preciso, pois há o processo de có-migração das formas semelhantes de Hb, dessa forma é necessário métodos complementares, para um diagnóstico correto. A HPLC é realizado pelo sistema automatizado por troca catiônica onde permite a quantificação da HbS e de outras variantes de Hb, é um sistema com alta reprodutibilidade e tecnologia, frequentemente usado no diagnóstico pré -natal e em neonatos (ZANATTA; MANFERDINI, 2009).
A IEF é a técnica com maior sensibilidade e especificidade, identificando pequenas frações de Hb anormais em uma pequena amostra de sangue. Esse método permite que a Hb seja fracionada através de seu ponto isoelétrico ao longo de um gradiente de pH, na qual a separação é dos peptídeos da Hb em gel constituído de uréia permite fracionar as duas cadeias gama além da alfa e da beta. É uma técnica de fácil realização e também interpretação (ZANATTA; MANFERDINI, 2009).
No Brasil, o diagnóstico da anemia falciforme e de outras variantes estruturais da hemoglobina foi introduzido em duas estratégias de saúde públicas nacionais: o Programa Nacional de Triagem Neonatal e na Rede Cegonha. No primeiro, através da realização do teste do pezinho, um teste de triagem em recém-nascidos, é possível estabelecer um diagnóstico precoce e, na Rede Cegonha, houve a inserção do diagnóstico dessas alterações na rotina pré-natal das gestantes (BRASIL, 2015).
Os pacientes portadores de anemia falciforme sofrem de diferentes complicações clínicas dentre elas estão a crise vaso-oclusiva que causa dor crônica no paciente, a anemia, infecções, acidente vascular cerebral, priapismo, úlceras nas pernas, necrose avascular (da cabeça do fêmur ou da cabeça do úmero), retinopatia, alterações hepáticas, eventos tromboembólicos, entre outras. Dessa forma alguns fármacos auxiliam na diminuição dessa sintomatologia (INUSA et al., 2019).
No que diz respeito aos tratamentos utilizados na DF, para a prevenção de crises álgicas e das complicações que podem surgir com a doença, um dos medicamentos de escolha é a hidroxiureia (HU), que leva ao aumento da produção de HbF, da hidratação do glóbulo vermelho e da taxa hemoglobínica, atuando também na diminuição da hemólise, aumentando a produção de óxido nítrico e diminuindo a expressão de moléculas de adesão (BRASIL, 2018; SILVA-PINTO et al., 2013).
O seu uso supera os riscos, reduzindo em 40% a ocorrência de óbito e diminuindo anualmente episódios álgicos agudos em adultos, além de reduzir também
24 cerca de 50% das necessidades de transfusão e os episódios de síndrome torácica aguda. Em crianças pode prevenir infarto esplênico e as manifestações neurológicas como: convulsões, paralisias, distúrbios da fala, cegueira transitória e alterações de consciência (BRASIL, 2018).
A HU foi aprovada em 1967 pelo Food and Drugs Administration (FDA), inicialmente usada no tratamento de doenças neoplásicas, e agora participa no tratamento dos pacientes com DF até os dias de hoje. A HU pode levar a reações adversas, porém estas são reversíveis como a neutropenia, plaquetopenia, anemia, erupção cutânea, cefaléia, náuseas, efeitos genotóxicos e a longo prazo, efeitos na fertilidade e reprodução (OLIVEIRA et al., 2019).
A L-glutamina, um aminoácido essencial, também tem sido utilizado concomitante à HU, no auxílio à redução de complicações agudas, porém, o resultado desse tratamento tem variado de paciente para paciente. Outra terapia aplicada aos doentes falciformes é a transfusão de sangue, no intuito de aumentar as concentrações de Hb, consequentemente melhorando a oxigenação e reduzindo a proporção de HbS, sendo administrado como uma transfusão para reposição ou como transfusão de troca (INUSA et al., 2019).
O ácido fólico, analgésicos, anti-inflamatórios e quelantes de ferro são usados para tratamento adjuvante, auxiliando na prevenção de complicações e no tratamento de intercorrências. O transplante de células tronco hematopoéticas (TCTH), até o presente momento é o único tratamento curativo da DF (BRASIL, 2018).
O primeiro transplante de medula óssea para o tratamento de DF, foi publicado em 1984, no caso, a criança também apresentava leucemia mielóide aguda e o transplante proporcionou a cura de ambas as patologias, permanecendo viva até quase três décadas mais tarde. No Brasil, o MS estabeleceu a indicação do TCTH alogênico aparentado mieloablativo de sangue de cordão umbilical, de sangue periférico ou de medula óssea para o tratamento da DF (BRASIL, 2018; FITZHUGH et al., 2014).
Alguns novos alvos terapêuticos estão em estudo como a análise da célula natural killer (NK) invariante T, as quais estão aumentadas tanto em número como em ativação na anemia falciforme em comparação com pessoas sem AF. Foi observado que estas células são um dos principais contribuintes para a resposta inflamatória através do interferon gama e produção de quimiocinas, induzindo a vaso-oclusão. Os testes foram realizados para avaliar o efeito de bloqueadores e de anticorpos contra a NK para gerar a diminuição dessas células (ABRAHAM, JACOBSOHN, BOLLARD, 2016).
25 O medicamento Niprisan, fitoterápico extraído de plantas, foi avaliado por seis meses, gerou a redução das crises dolorosas, sem causar efeitos adversos graves. Outra terapia em estudo é a técnica da edição do genoma, usado também para a edição de células do cordão umbilical da própria criança, nascida com AF, o que possibilitaria a cura logo após o nascimento (FERREIRA, GOUVÊA, 2018; ABRAHAM, JACOBSOHN, BOLLARD, 2016).
4.4 Fatores sociais e qualidade de vida de pacientes com doença falciforme
Os aspectos psicossociais afetam a adaptação emocional, social e acadêmica dos pacientes com doença falciforme, podendo estes apresentarem problemas como: dificuldade no relacionamento familiar, interação com colegas, no rendimento acadêmico, além de geralmente apresentarem baixo auto estima. A ansiedade, depressão, comportamento agressivo e medo, por se tratar de uma doença crônica e fatal são manifestações constantes (FELIX, SOUZA, RIBEIRO, 2010).
As crianças são as mais susceptíveis a terem dificuldades acadêmicas e por muitas vezes o comparecimento às aulas se torna problemático, sendo provável que essas crianças tenham até 50% a mais de faltas do que as demais (DIAS et al., 2013).
Os problemas psicossociais são decorrentes principalmente da imprevisibilidade das crises de dor, do medo da morte, do tempo perdido e do isolamento social na escola e no trabalho. As complicações neurológicas incidem sobre as habilidades cognitivas e podem acarretar diversas dificuldades no âmbito intelectual (DIAS et al., 2013).
Além da cronicidade da doença, há uma analogia da DF com a população negra, havendo um caráter estigmatizante decorrente da associação entre a clínica e a prevalência nos afrodescendentes. Essas seriam pessoas marginalizadas socialmente, gerando uma perda significativa da qualidade de vida, uma vez que a frequência do gene S varia de 6% a 10% entre negros e pardos (ROBERTI et al., 2010).
O baixo conhecimento dos profissionais de saúde e dos pacientes acompanhados em centros de referência sobre AF, pode gerar uma baixa qualidade de vida, uma vez que o melhor entendimento sobre a própria doença pode contribuir para a diminuição das crises álgicas e consequentemente melhoria da qualidade e aumento da expectativa de vida (BRASIL, 2013).
A maioria das pessoas com DF em idade reprodutiva e que não tiveram acesso ao diagnóstico precoce ou a uma assistência médica, encontram dificuldades para
26 ocupar postos de trabalho, principalmente devido às sequelas adquiridas o que as tornam incapacitadas para o trabalho. Quanto mais cedo se tem o diagnóstico, mais precocemente há a construção de medidas que visem diminuir a morbimortalidade e prevenir agravos que interfiram diretamente na qualidade de vida (BRASIL, 2013).
4.5 Políticas públicas no Brasil X Doença falciforme
O direito à saúde no país foi inserido na Constituição Federal de 1988, que em seu Artigo 196 a define como sendo direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1988).
Em obediência à norma constitucional, no ano de 1990 foi publicada a Lei Federal n. 8080/90, que trata da organização do Sistema Único de Saúde, bem como a Lei Federal 8142/90, que dispõe sobre a participação da comunidade na gestão desse sistema e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde, ambas formando a Lei Orgânica da Saúde (MOURA, 2013).
Em seu Artigo 2º, a Lei Federal 8080/90, reconhece a saúde como direito fundamental do ser humano, sendo do Estado o dever de prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício (BRASIL, 1990).
No Brasil, a doença falciforme teve a sua importância reconhecida pelo governo através da militância do Movimento Negro, em que eram reivindicadas políticas públicas para assistir aos portadores das doenças mais frequentes em negros. Nesse sentido, em 1995 foi criado o grupo de trabalho interministerial para valorização da população, e a partir dele surgiram subgrupos, sendo um deles o da saúde, que era responsável por organizar discussões sobre as doenças de maior frequência na raça negra, sendo a DF uma destas (MÁXIMO, 2009).
Como resultado da movimentação política, no dia 6 de junho de 2001 foi publicada a Portaria nº 822 do MS a qual ampliou o Programa Nacional de Triagem Neonatal, previamente implantado pela Portaria do MS nº 22 de janeiro de 1992, no âmbito do SUS (CARVALHO et al., 2014; BRASIL, 2001).
O atual programa tem a intenção de executar de forma articulada entre o MS e as secretarias de saúde dos estados e municípios, ações de triagem neonatal voltadas para o
27 diagnóstico da doença falciforme e/ou outras hemoglobinopatias, além das demais doenças congênitas previstas na Portaria (BRASIL, 2001).
De acordo com o PNTN, todo recém-nascido (RN) tem direito ao acesso da realização dos testes de triagem neonatal, devendo estes serem feitos até o 30º dia de vida, preferencialmente entre o 2º e o 7º dia. O RN suspeito de ter DF deverá ser reconvocado para a realização dos exames complementares confirmatórios e caso seja confirmado, o bebê deverá receber acompanhamento, tratamento adequado e a família, orientada quanto à doença. Além dos serviços mencionados, os pacientes têm garantido o acesso a serviços complementares, como os dos hemocentros para o acompanhamento e tratamento (BRASIL, 2001).
Em relação à cobertura do PNTN no Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam um crescimento do Programa entre os anos de 2004 a 2017 (Figura 8). Entretanto, é importante ressaltar que o gráfico possui algumas limitações, pois no ano de 2004 há ausência de dados para o cálculo da cobertura para os estados do Amapá, Roraima e Piauí (BRASIL, 2018c).
Figura 8 – Percentual de corbetura do PNTN no Brasil de 2004 a 2017
Fonte: BRASIL,2018c.
Em relação aos exames de triagem e confirmação diagnóstica, estes devem ser realizados em laboratórios especializados, próprios ou terceirizados, os quais devem estar aptos para realizar exames confirmatórios por biologia molecular, quando necessário. Quanto aos exames diagnósticos, se o HPLC for a metodologia de escolha, os casos alterados devem ser confirmados por focalização isoelétrica (BRASIL, 2001).
28 No ano de 2005, foi dado outro importante passo para assegurar a assistência e qualidade de vida aos pacientes com doença falciforme, com a publicação de duas Portarias do Ministério da Saúde. Em 1º de julho foi publicada a Portaria nº 1.018 que instituiu, no âmbito do SUS, o Programa Nacional de Atenção Integral as Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobinopatias, o qual incluiu, dentre outras, ações de promoção de saúde, educação aos pacientes, aconselhamento genético, assistência multidisciplinar e acesso a todos os níveis de atenção à saúde (BRASIL, 2005a).
Em 16 de agosto do mesmo ano, a Portaria nº 1.391 assegurou as diretrizes para o cumprimento do referido Programa, destacando-se a garantia do acompanhamento das pessoas diagnosticadas com hemoglobinopatias pelo PNTN, preferencialmente na hemorede pública, além da promoção da assistência às pessoas com diagnóstico tardio da DF e outras hemoglobinopatias, através da criação de um cadastro nacional (BRASIL, 2005b).
Em 2008, na cidade de Salvador/BA foi estabelecido o decreto de número 18.857 de 30 de setembro, regulamentando a lei 5.395 de 1998, que instituía o programa e assistência as pessoas portadoras do traço ou anemia falciforme na referida cidade. Este decreto garantia condições necessárias para a implantação e desenvolvimento do programa de Atenção á Saúde das pessoas com DF, assegurando o diagnóstico, assistência médica integral, orientação ao profissional de saúde e a população, além do projeto de criação de uma Câmara Técnica com representantes de hemocentros, Universidade, profissionais especializados e da Associação de Portadores, garantindo um apoio técnico (BRASIL, 2008).
Considerando a necessidade de se melhorar os parâmetros sobre a Doença Falciforme no Brasil e de atualizar as diretrizes nacionais para diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos indivíduos com esta doença, em 29 de janeiro de 2010, através da Portaria do MS, nº 55, foi aprovado o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a DF, o qual foi atualmente substituído por novo Protocolo, vigente através da Portaria conjunta de nº5, de 19 de fevereiro de 2018 (BRASIL, 2010; BRASIL, 2018).
Dentre as condutas previstas no Protocolo em vigor estão a análise do uso do medicamento hidroxiuréia, uso profilático da penicilina V, avaliação para realização do transplante de células-tronco hematopoiéticas e do exame de doppler transcraniano nos pacientes com doença falciforme (BRASIL, 2018).
Outra conquista recente para os pacientes com doença falciforme no âmbito do cuidado à saúde no país foi a criação, em 2015, de uma Comissão de Assessoramento
29 Técnico à Política Nacional de Atenção integral às Pessoas com DF, denominada CAT-Doença Falciforme. A comissão surgiu através da Portaria nº158, diante da necessidade de assessoramento técnico especializado em DF, visando contribuir com o aperfeiçoamento do gerenciamento de ações de tratamento e atenção à saúde dos pacientes (BRASIL, 2015b).
No Quadro 3 encontram-se resumidas as principais políticas públicas instituídas aos pacientes com DF no país.
Quadro 3 – Resumo das principais portarias relacionadas à DF no Brasil
Ano de
Publicação PORTARIAS
2001 Portaria nº 822 - ampliou o Programa Nacional de Triagem
Neonatal. 2005
Portaria nº 1.018 - instituiu o Programa Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme e outras
Hemoglobinopatias. 2005
Portaria nº 1.391 - assegurou as diretrizes para o cumprimento do Programa Nacional de Atenção Integral as Pessoas com Doença
Falciforme e outras Hemoglobinopatias.
2010 Portaria nº 55 - aprovado o Protocolo Clínico e Diretrizes
Terapêuticas para a doença falciforme.
2012 Portaria nº 2.829 - institui a fase IV do PNTN.
2015
Portaria nº 158 - Criação da Comissão de Assessoramento Técnico à Política Nacional de Atenção integral às Pessoas com
DF a CAT-Doença Falciforme. Fonte: Elaborado pela autora
No que diz respeito a benefícios remunerados garantidos aos pacientes, em 1993 foi consolidada a lei de nº 8.742 de 7 de dezembro, denominada Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), a qual dispõe sobre a organização da assistência social e outras providências, para conceder benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso com 65 anos ou mais (BRASIL, 1993).
Os portadores de AF têm direito a esse benefício, desde que comprovem que ele mesmo e nem a família têm renda suficiente para suprir as necessidades e comprovar que o portador não tem condições de exercer atividade remunerada. De acordo com a
30 LOAS, para ter direito ao benefício, a renda por pessoa deve ser de ¼ do salário mínimo. Se aprovado o benefício, o portador recebe um salário mínimo por mês (BRASIL, 1993).
Mais recentemente, a DF poderá ser considerada uma deficiência para todos os efeitos legais se o Projeto de Lei 9982/18 for aprovado pelo congresso. Se aceita, a lei garantirá alguns benefícios como a isenção sobre o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a autorização para Saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), além de acréscimo de 25% no caso de aposentadoria por invalidez. Entretanto, o projeto está arquivado desde janeiro de 2019 (BRASIL, 2018b; SOUZA, 2018).
Ademais, assim como mencionaram Weis et al (2013), é importante enfatizar que apesar de existirem as políticas públicas e os programas criados para organizar práticas de gestão e de atenção às pessoas com anemia falciforme, se estes forem isolados, não fornecem certeza de um atendimento eficaz e integral conforme se preconiza, uma vez que compete também aos profissionais da saúde a necessidade de se engajarem e se responsabilizarem para que esses programas e políticas sejam praticados, e assim, concretamente, garantir o direito à saúde dos pacientes e de suas famílias.
31
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho teve a intenção de realizar uma revisão bibliográfica acerca da doença falciforme e das políticas públicas existentes no Brasil, abordando também a fisiopatologia, os fatores de qualidade de vida, métodos de tratamento e diagnóstico e seu aspecto histórico. De forma geral, os objetivos foram alcançados, constatando- se que:
A doença falciforme engloba um grupo de anemias hemolíticas hereditárias caracterizadas pela interação da hemoglobina alterada S com outras variantes estruturais da Hb e/ou talassemias e tem a sua forma homozigótica (HbSS) – anemia falciforme, como a de maior gravidade clínica;
A fisiopatologia da DF é bem definida e estabelecida e tem como ponto central a polimerização das moléculas de hemoglobina S, quando desoxigenadas, o que leva a uma alteração conformacional das hemácias que as possuem e que adquirem o formato de foice, resultando na destruição precoce dessas células bem como contribuindo para as oclusões vasculares, características da doença;
A DF é uma das enfermidades genéticas mais comuns no mundo, havendo uma estimativa mundial de que em 2050, o número anual de nascidos vivos com anemia falciforme seja de 400.000. Os primeiros dados do seu descobrimento surgiram no início do século XIX, decorrente de relatos provenientes dos escravos da África;
No Brasil as regiões que apresentam as maiores taxas de incidência e prevalência são as Norte e Nordeste, variando de 6 a 10%, pelo fato de que nessas regiões há um maior predomínio da população afrodescendente;
A hidroxiureia é o medicamento de escolha para o tratamento, a qual previne as crises álgicas, proporciona o aumento da produção de hemoglobina F, hidrata os eritrócitos, diminui a hemólise, aumenta a produção de óxido nítrico e reduz a expressão de moléculas de adesão. Além desse medicamento, outros como analgésicos e anti-inflamatórios ajudam na prevenção da sintomatologia. O transplante de medula óssea, porém, é o único tratamento curativo, mas não está indicado para todos os pacientes;
O principal método de escolha para o diagnóstico é a HPLC, que permite quantificar a hemoglobina S e demais variantes pelo sistema automatizado Variant (Bio-rad), bem como a eletroforese de hemoglobina em pH alcalino,
32 que através de diferentes padrões de migração confere a possibilidade de identificação do genótipo do paciente. Além desses, outros exames como o hemograma, contagem de reticulócitos e dosagens bioquímicas auxiliam também na investigação diagnóstica;
A cronicidade da doença, com fortes crises álgicas, afeta diretamente na rotina e na vida social do paciente com doença falciforme. Nas crianças há uma perda na qualidade da vida e no rendimento escolar, uma vez que as constantes consultas e internamentos devido aos fortes sintomas acarretam nas ausências às aulas, com a estimativa de que existam 50% a mais de faltas para essas crianças em comparação com aquelas que são saudáveis;
Uma das principais conquistas para os pacientes com doença falciforme no Brasil foi o reconhecimento dessa enfermidade como um importante problema de saúde pública e a ampliação do Programa Nacional de Triagem Neonatal, através da Portaria n° 822 de 2001, que instituiu a pesquisa de hemoglobinas variantes nos recém nascidos. Além de outras medidas, em 2005 foi criado o Programa Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobinopatias, através da Portaria 1.018 de 1º de julho e no mesmo ano foi publicada a de nº 1.391 em 16 de agosto que assegurou as diretrizes para cumprimento do referido programa, com a garantia do acompanhamento das pessoas diagnosticadas com hemoglobinopatias.
Vê-se, portanto, que as portarias e as leis fornecem uma cobertura ao indivíduo diagnosticado com a doença, embora estes ainda tenham que lutar e buscar pelos direitos, uma vez que a doença falciforme ainda não é classificada como deficiência, o que dificulta a conquista de benefícios.
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