As diferentes construções discursivas do poder: Análise crítica dos
discursos políticos de Mário Soares e de Cavaco Silva
Marta Santos Vieira1 Manuela Correia-de-Brito2 Cláudia Álvares3
Resumo
O presente artigo pretende analisar as relações entre o discurso político e o poder, aqui entendido como carismático e hegemónico, de modo a compreender as linhas estratégicas de construção do poder do Primeiro-Ministro e do Presidente da República.
Iremos analisar o poder weberiano (carismático) e gramsciano (hegemónico) para perceber como se evidencia (nestas dimensões) a construção discursiva dos protagonistas políticos e caracterizar as lideranças do Presidente da República e do Primeiro-Ministro.
A metodologia Análise Critica do Discurso (ACD) investiga como é constituída a diferenciação das lideranças no discurso político (Wodak, 2009).
O nosso corpora são quatro discursos de tomada de posse referentes ao Presidente da República de Portugal, Mário Soares e ao Primeiro-Ministro de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, no período de coabitação (1986-1996) onde se pretende fazer ressaltar elementos que caracterizem as diferentes formas de liderança com vista à sua comparação quanto à estratégia discursividade e à sua contextualização
Key-words: discurso, Presidente da República, Primeiro-Ministro, hegemonia, carisma e ACD
1 Doutoranda, CICANT/Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Portugal 2 Doutoranda, CICANT/Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Portugal 3 Doutorada, CICANT/Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Portugal
Abstract
This article intents to analyze the relations between political discourse and power, here assumed as charismatic and hegemonic, aiming to understand the strategical points of construtions of the power of the Prime Minister and the President of the Republic in Portugal.
Our analysis will concern Weberian (charismatic) and Gramsci (hegemonic) power so those dimensions could be outlined, as well as the discursive construction of the political actors characterizing the President of Republic and the Prime Minister leadership.
The methodology of Critical Discourse Analysis (CDA) analyses how the different leaders in political discourse are consisted (Wodak, 2009).
Our corpora are four discourses of nomination referring to the president Mario Soares and the Prime Minister, Cavaco Silva, in there coexistence period (1986-1996) aim to underline the characteristics of the different ways of leadership comparing strategies and its contextualization
Key-words: Discourse, President of Republic, Prime Minister, hegemony, charisma, ACD
1. Introdução – Enquadramento sociopolítico
As características particulares do sistema semipresidencialista português foram marcadas pelo tipo de transição para a democracia alicerçada num movimento democratizante militar de rotura, o movimento dos capitães.
A cultura política do anterior regime sustentada por um cariz de autoridade pessoal e carismática é um dos fatores determinantes para a escolha de um Presidente da República (PR), eleito pelo voto popular e com significativos poderes presidenciais (Freire, 2010).
O nosso objetivo é, partindo da análise e comparação dos discursos de tomada de posse de Cavaco Silva como Primeiro-Ministro (PM), entre 1985-1996, e de Mário Soares como PR, entre 1986-1996, estabelecer linhas estratégicas discursivas de
construção do poder, entendido como carismático e hegemónico, no período da sua coabitação.
Há, nos casos em análise, uma tendência para a bipolarização, quer pela diferente proveniência política e ideológica dos seus atores, quer pela defesa e interpretação que cada um faz dos poderes que, constitucionalmente, lhes estão atribuídos.
Com este artigo pretendemos saber como se manifesta a hegemonia e carisma do líder político, que estratégias prefiguram, e quais as diferenças e semelhanças discursivas entre o PM e o PR?
2. O carisma e a hegemonia no poder político
O artigo pretende desenvolver um enquadramento conceptual que lhe confira carácter científico e lhe dê uma sustentação epistemológica, equilíbrio que encontrámos no conceito de poder. Porém, o vasto conjunto de definições terminológicas do ‘poder’, assente nos mais diversos pressupostos, acabou por levantar um problema metodológico que, simultaneamente, nos impôs a procura imprescindível de um conceito que cientificamente sustentasse a nossa pesquisa.
Pretende-se interpretar o conceito de poder sob duas perspectivas distintas:
carismática e hegemónica pois na essência, o que procuramos quando nos propomos
investigar na discursividade de construção do poder (e da liderança).
A abordagem do ‘poder carismático’ seguirá o conceito weberiano. Para Max Weber o poder político desempenha uma função social e é o canal pelo qual se dá a tomada de decisões na sociedade civil, razão que implica a articulação de dois modelos: um, de autoridade, justificado pela prestação de serviço aos subordinados, que aceitam obedecer por reconhecerem essa vantagem e sentirem o dever moral de o fazer: e, outro, de poder e força, que impõe a obrigação de todos se subordinarem às decisões que envolvem o conjunto do coletivo. Por isso, o poder político pode assumir diferentes configurações, que vão desde o maximamente legitimado, sem necessidade de recurso à coerção, até ao outro extremo, em que o poder político, por não ter o suporte de
legitimidade, só pode existir por recurso à ‘força bruta’. Mário Soares (1991) enquanto PR refere “ …estarei atento aos abusos do poder e denunciá-los-ei sem hesitação… ”.
Efetivamente apesar de exercer forte influência sobre o pensamento sociológico (Friendland,1964) o conceito de poder carismático não tem sido tão útil à Sociologia –– quanto para a ciência política, onde assume diferentes papéis nos processos de mudanças sociais, indo desde um carisma genuíno –– e para o compreender devemos ter em atenção quer os protagonistas, quer as circunstâncias sociais em que a mensagem é passada –– até um carisma recorrente, o qual se manifesta sob um determinado tipo de liderança em todas e as condições históricas.
Para Weber o carisma é uma qualidade altamente individual, significando isso que o sentido de missão vem de um impulso interior e não de uma ordem externa, trata-se de um poder já edificado. Nesta medida, o vínculo que liga os trata-seguidores ao líder é tanto emocional como frágil, suscitando-lhes um comportamento que está em consonância com o que imaginam ser as expectativas quem exerce autoridade.
O líder carismático é dotado de um conjunto de poderes excecionais, qualidades sobrenaturais e sobre-humanas, com base na inacessibilidade, exemplaridade e origem divina. E são esses poderes mágicos que lhe permitem exercer influência sobre os demais e, simultaneamente, justificam a sua liderança. O líder reflete ideais culturais, é o herói. No sentido weberiano carisma é um elemento promotor e permanente das relações de poder, ele é uma forma pura de dominação legítima, o que nos permite equipará-lo ao conceito de poder, quase como que um sinónimo. De facto, o que os liga não é tanto o facto de ambos se basearem na crença, no profeta ou no reconhecimento pessoal do herói/guerreiro mas antes o terem um carácter eminentemente autoritário e dominador (Ghislandi, 2007).
Numa outra vertente analisamos o ‘poder hegemónico’ subjacente à teoria política de Antonio Gramsci, assente numa teoria marxista não-ortodoxa, que contribuiu para uma filosofia política abrangente e lúcida, em consonância com o seu tempo e ainda atual.
O conceito central na teoria política gramsciana é o conceito de hegemonia que se encontra nos antípodas do poder carismático, quer pela visão ideológica do mundo, quer pela ligação da teoria política à praxis. Os contornos do poder hegemónico definem-se pela capacidade de criar consensos e alianças durante o processo revolucionário e durante a governação de um Estado (Neves, 2012).
Para Negrão a hegemonia em Gramsci carateriza-se pela capacidade de uma classe dominante, ou aspirante ao domínio, construir o consenso e/ou obter a passividade da maioria da população, constituindo-se, então, em classe dirigente, com capacidade de direção intelectual e moral (Negrão, 2009). Negrão considera ainda que a hegemonia articula dois momentos: o do ‘consenso’ que, colocado na instância da sociedade civil, cria a base do consentimento, ativo ou passivo, com vista a alcançar uma certa ordem social; e, o do “domínio” que, na instância da sociedade política, ou do Estado, Weber chama monopólio legítimo da força.
Seguindo uma visão pragmática gramsciana a hegemonia pode ainda alimentar o conceito de democracia tendo em conta que “no sistema hegemónico, existe democracia
entre o grupo dirigente e os grupos dirigidos, na medida em que (o desenvolvimento da economia e portanto) a legislação (que expressa este desenvolvimento) favorecem a passagem (molecular) dos grupos dirigidos para os grupos dirigentes” (Neves, 2012).
A manutenção do poder decorre da capacidade de os líderes estabelecerem pactos consensuais com adversários, franjas políticas, sindicatos, agentes culturais entre outros, que consubstanciem o poder hegemónico, alargando, horizontalmente, a sua plataforma política, bem como incorporando vozes, tendencialmente, contra-hegemónicas para os silenciar e domesticar, com vista à sua eternização no poder. Cavaco (1991) utiliza essa estratégia gramsciana de alargamento da sua base de apoio quando refere explicitamente “… o contributo de cada um e de todos os homens e
mulheres: empresários, trabalhadores, cientistas, artistas, autarcas, funcionários, profissões liberais e jovens…”.
A Escola de Birmingham incorporou a fórmula gramsciana de poder hegemónico contextualizando-a no seu tempo (anos 60 e 70). Os Cultural Studies, nomeadamente sob a égide de Stuart Hall, contemplam uma dominação hegemónica, que aspira a que os significados e valores dominantes sobre os quais assentam o poder sejam disseminados de modo persuasivo, por forma a possibilitar uma aceitação pacífica por parte de grupos subordinados. Tais valores hegemónicos não são reconhecidos como uma imposição problemática, mas antes como parte integrante do senso comum. Efectivamente, o processo de dominação hegemónica acima descrito, o qual se apoia na criação de condições propícias ao consentimento e consenso social por parte dos subordinados, traduz a máxima gramsciana de que ‘o povo aceita um sistema que o aliena e lhe retira poder’ (Neves, 2012).
O conceito hegemónico de Gramsci não ficou confinado nem à época, nem ao espaço geográfico em que viveu, mas adquiriu, por força da sua intemporalidade, uma dimensão universal, que confirma a contemporaneidade da sua visão do mundo atestado pelo interesse que a comunidade científica, quer na área da ciência politica quer na da sociologia, tem dedicado ao conceito e ao seu autor e que se reflecte nos mais variados discursos políticos, nomeadamente nos discursos de Cavaco Silva.
3. Conceptualização metodológica da ACD
A Análise Crítica do Discurso (ACD) é a metodologia aplicada aos discursos políticos aqui estudados por nos permitir investigar como é constituída a diferenciação das lideranças e por assentar na dialética “Linguagem/Sociedade”, explorada através da análise micro, texto, linguística semiótica e análise textual, mas também da análise macro, formações sociais, as Instituições e as inerentes relações de poder (Wodak, 2009).
Pretende-se neste artigo tornar visível a natureza interligada das coisas (Wodak, 2001) e a ACD, ao ser uma metodologia multi e interdisciplinar, permite estudar fenómenos sociais complexos, bem como os contextos em que emergem e as relações que eles envolvem. A análise da linguagem, bem como a sua interpretação, permite perceber como é que ela funciona no exercício do poder, sobretudo se tivermos em conta como se constitui enquanto meio articulado, mas também preciso, de construção de diferenças de poder nas estruturas sociais hierárquicas pela forma como classifica, expressa e está presente onde há disputa e desafio ao poder (Wodak, 2001). Efetivamente, a ACD ao ter como característica a ‘desconstrução’ do discurso, contribui para decifrar as falácias argumentativas do poder carismático e hegemónico, presentes nos discursos de tomada de posse. Isto apesar do discurso, muitas vezes, resultar do amalgamado de diversas condições de práticas sociais, políticas e linguísticas (Wodak, 2008) – ao contrário do ‘texto’ que é uma realização única e específica do discurso (Wodak, 2009).
A ACD permite interpretar o texto (discurso) no seu entrelaçado de significados, ou seja, na ligação cruzada de parágrafos conferindo-lhe significados e
leitura apropriados. Se o fizermos de outra forma, designadamente através de descontextualizações ou frases soltas, o seu significado é verdadeiramente distorcido. A necessidade de ter presente a intertextualidade dos textos, ou seja, o modo como eles se relacionam entre si, é essencial para a compreensão da posição que um discurso específico tem relativamente a outros discursos sobre um tema em particular, num processo de contínua recontextualização.
Pelas características que acabamos de apresentar entendemos ser a ACD a metodologia mais adequada para o estudo do discurso político sobretudo se tivermos em atenção os enquadramentos sociopolíticos e o contexto social em que os mesmos ocorrem. Assim, a ACD permite, entre outros, identificar características linguísticas dos textos tais como atributos e qualidades definidores dos in-group e do out-group, como são enunciados, que denominadores do senso comum (topoi) e que falácias prefiguram o estilo retórico.
O nosso corpora são quatro discursos referentes ao empossamento do PR, Mário Soares e do PM de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, no período em que coabitam (1986-1996) onde pretendemos encontrar elementos caracterizadores das diferentes lideranças.
4. Análise crítica dos discursos de posse – perspetiva sincrónica e diacrónica
O presente artigo analisa os discursos políticos de tomada de posse do PR Mário Soares e do PM Cavaco Silva, no período da sua coabitação (1986-1996), época da história portuguesa que deriva de uma conjuntura sociopolítica de crise política e crispada (cf. Anexo 1)
Pela análise dos discursos políticos percebe-se que são eventos formais solenizados onde a mensagem e destinatários são cuidadosamente estudados, assim como a forma – muitas vezes mais que o conteúdo –, o lugar e o momento onde ocorrem (Wodak, 2004).
O discurso político é um subgénero discursivo estratégico que contribui para a formação da opinião pública, nomeadamente no que diz respeito a atitudes, opiniões, vontades e desejos.
Os políticos utilizam o confronto, o antagonismo de posições, por um lado, para sublinhar as diferenças que os separam dos seus adversários, por outro, porque ao enfatizar as suas qualidades e a bondade das suas propostas estão a dramatizar, alertando para os riscos empolados que uma hipotética escolha dos seus adversários acarretaria.
No caso das tomadas de posse do Presidente Mário Soares (9/3/1986 e 9/3/1991) o discurso é um cerimonial de investidura, altamente ritualizado, assim como vigilante quanto aos fatores externos e internos, envolvência e suas dimensões, onde tudo se intercepta.
Os seus discursos recorrem a um registo que deambula entre o formal (protocolar), eloquente e persuasivo, apelando à memória dos portugueses para referenciais temporais passados e para as ligações históricas e linguísticas a outros continentes falantes da língua portuguesa, embora tendo sempre como cenário de fundo a democracia.
Ambos os discursos de Mário Soares assumem explicitamente o Povo português como o seu grupo interno (in-group) e é este coletivo personificado o fundamento para o exercício da sua influência/poder.
O seu grupo externo (out-group) são todos aqueles que são opositores ao Presidente mas que no texto nunca surgem explicitamente identificados ou definidos, apenas os admitimos pelo seu oposto, isto é, reconhecemo-los implicitamente.
Seguem-se alguns exemplos:
Discursos de Tomada de Posse do PR Mário Soares (1986 e 1991):
In-group (Povo português): “garante da perenidade da Pátria…
tradicionalmente pacífico e tolerante… honram Portugal… A tudo resistimos. E resistimos sem nunca pôr em causa os interesses nacionais…” (1986); “fundamento primeiro e último da soberania nacional… em plena liberdade… a Igreja Católica portuguesa (…) que representa a religião da maioria do Povo Português” (1991).
Out-group (Os ‘outros’): por oposição ao in-group explícito são “os que não
são democráticos”, “os que não são amantes da liberdade e da solidariedade”, “os que não fazem parte da tradição liberal” (1986); “os que não conhecem as
populações porque não as contactavam com proximidade… certo tipo de discursos radicalizados (…) encontram-se hoje definitivamente ultrapassados… ninguém está acima da lei… todos os assuntos são suscetíveis de ser discutido… alguns (…) têm-se interrogado, de diferentes e imaginativas formas, sobre as minhas intenções e propósitos”(1991).
Verifica-se que o in-group é caracterizado com indivíduos profissionalmente capazes, com espirito empreendedor por contraponto com o out-group que parcamente definido surge essencialmente como um obstáculo à atuação do Presidente e da democracia
Ainda, quanto à análise dos discursos denota-se que Mário Soares utiliza a ‘Democracia’ como topos central, tal como é visível no seguinte excerto:
“…o ciclo da transição da Ditadura para a Democracia, que vivemos…nas décadas passadas, está completo e encerrado Não, que a nossa democracia não comporte aperfeiçoamentos ou não possa ser aprofundada, mediante uma maior participação e um mais amplo pluralismo” (1991).
No entanto, este topos é desenvolvido de forma contextualmente distinta: enquanto em 1986 recorre à problemática da estabilidade e do equilíbrio/isenção de poderes das instituições democráticas, em 1991, enfatiza a mudança que se impunha fruto do novo ciclo politico e da consolidação da democracia. Pretendemos abaixo demonstrar como a evolução desse topos nos diferentes discursos de Soares:
Discurso de 1986
Mário Soares justifica a sua legitimidade democrática “sou o primeiro
Presidente civil eleito” por oposição ao seu antecessor escolhido do seio da
estrutura militar. Ele entende ser o garante do equilíbrio entre as diferentes instituições democráticas “factor essencial de estabilidade, o natural mediador
dos consensos possíveis”, patenteando um certo pendor presidencialista que ele
quer trazer ao sistema.
Estamos diante de uma nova realidade política e com a consolidação da democracia, é imperioso o envolvimento de todos. Com este propósito, evoca a identidade cultural portuguesa baseada, tradicionalmente, no cristianismo, e
unindo-se aqui ao socialismo “Queremos fazer de Portugal uma terra de gente
livre e solidária. Uma terra de progresso, de prosperidade e de cultura (…) Façamos confiança à inteligência portuguesa — aos nossos professores, cientistas, técnicos, escritores, artistas.
Discurso de 1991
Mário Soares demarca a área de atuação do Presidente “garante que sou, por
imperativo constitucional, do regular funcionamento das instituições democráticas, legitimadas pelo voto popular” contrapondo-a à atuação do
governo “…o poder político, como qualquer poder, deve ser suscetível de
contestação e de crítica…”
A democracia também passa por uma clara separação de poderes e pela independência dos órgãos, mas quando tal não é possível “é aos Tribunais,
independentes do poder político e do poder económico, que cumpre aplicar a lei e dirimir os conflitos”, o que denota a preocupação em consolidar a democracia
portuguesa, sobretudo por via da CEE/Europa.
Mário Soares descreve a sua visão de Portugal: “A modernização de Portugal —
com todas as alterações profundíssimas que implica nas estruturas da Sociedade Civil e do Estado — é o nosso próximo objetivo (…) apesar do que em contrário disseram os velhos do Restelo — mas que implica sacrifícios e gera contradições, desequilíbrios sociais e mesmo conflitos” (1991). Aqui a
palavra de ordem é a mudança onde Mário Soares ideológico defensor da Europa pretende assumir o ‘leme’. Nessa medida, contraria o que anteriormente defendia relativamente à isenção de poderes.
Parece-nos, pois, que “Portugal” ganha vários sentidos: metaforicamente enquanto sistema democrático é moldável e construível pelos portugueses (nós) e pelos políticos; territorialmente os ‘emigrantes’ e a ‘pátria’ podem ser vistos como metonímicos dos portugueses, reforçado pelo topoi da ‘língua’ (para a pátria) que alarga exponencialmente a escala política nacional a todos os países africanos lusófonos e Brasil.
Mário Soares considera-se o arauto da democracia por ter estado, desde o primeiro momento, envolvido no processo de democratização de Portugal, e agora ainda
mais depois de ter sido reconduzido: “fui eleito para o desempenho do alto cargo de PR nos próximos cinco anos que considero decisivos para assegurar um futuro de
desenvolvimento a Portugal, no quadro da Comunidade Europeia, a que agora pertencemos por direito” onde, por via da Europa, a democracia se consolidará.
Os discursos de tomada de posse de Cavaco Silva como Primeiro-Ministro do XI (Outubro 1987) e XII (Outubro 1991) Governos Constitucionais são momentos de legitimação e de apresentação mas também de propostas, planos de intenções que, embrionariamente, são as bases fundadoras de futuros programas de governo.
O XI Governo emerge de eleições antecipadas decididas pelo PR Ramalho Eanes e que termina um período de 20 meses de Governo minoritário de Cavaco Silva, que consegue nestas eleições a primeira maioria absoluta de um só partido.
O discurso do XI Governo, este tem um maior pendor político, colocando a tónica na confiança e na estabilidade, premissas básicas para o desenvolvimento de um projeto nacional sustentado, enquanto o do XII Governo faz um balanço enunciando o que executou na anterior legislatura e apresentando as linhas programáticas do novo governo.
Em ambos os discursos é implícita e explícita a presença do adversário, ainda que nunca lhe seja atribuído uma denominação precisa.
Os grupos que, polarmente, estão em confronto são o in-group Governo/ PSD/ povo português, (a sigla do partido nunca é expressa), aparecendo de uma forma sistemática o povo como colaborador voluntário do Governo e como out-group as forças de oposição ao Governo, assim caracterizados:
Discursos de Tomada de Posse do PM Cavaco Silva (1987 e 1991):
XI Governo (1987):
In-group – Os que avançam no caminho do progresso económico-social e
cultural (18º)…os que apontam o rumo, traçam o enquadramento… criam riqueza e têm um projeto nacional.
Out-group – Mentalidades desajustadas à inovação ao risco e à competição…
os que têm teses miserabilistas que ignoram as nossas realizações, que subestimam as capacidades do nosso povo, que condenam à inferioridade tudo o que é português.
XII Governo (1991):
In-group – Progresso e desenvolvimento…com o nosso trabalho, a nossa
inteligência, a nossa capacidade…estamos na política para servir o País, nunca para nos instalarmos à sombra do poder alcançado… reafirmamos o nosso respeito pelas competências dos outros órgãos de soberania… anima-nos a vontade de servir… se orientará por uma concepção de interesse nacional… e não se subordinará a meros interesses de classes, grupos ou corporações… diálogo sério e em boa-fé…seremos firmes…não discriminaremos ninguém pelas suas convicções políticas…
Out-group – Soluções governativas portadoras do gérmen de instabilidade
política…
A análise da tipologia de informação veiculada nos dois discursos sobre o
in-group desenha um quadro de perfeição que se opõe à perspectiva pobre (até em
volume de referências) e negativa do out group.
Relativamente aos referenciais comuns, os Topoi que se encontram nos dois discursos referem-se aos feitos históricos dos portugueses, nomeadamente os Descobrimentos: Cavaco Silva recorre ao passado glorioso dos feitos seiscentistas para, falaciosamente, assumir que o povo é o mesmo e, como tal, capaz de os repetir, só necessitando de objetivos bem definidos (papel que Cavaco Silva assume ser o do governo e portanto o seu próprio).
XI Governo:
… lugar destacado que temos na história universal… sentido nacional que afirmamos noutras horas determinantes da nossa história… prestígio da sua história, experiência secular… na gesta que enriqueceu a história da humanidade…
XII Governo:
… povo que foi historicamente capaz de vencer e aproveitar as oportunidades… a gesta dos descobrimentos…
O tom de ambos os discursos é solene (tomada de posse do governo) ainda que utilizando uma linguagem acessível com parágrafos curtos, nomeadamente no discurso de 1991, onde as expressões de precisão temporal cristalizam o tempo de atuação governativa aprisionando-o com o duplo objetivo de sublinhar o ‘meu tempo’ e fazer esquecer ‘outros tempos’ – a exatidão temporal é um dado objetivo incontestável e que
serve estilisticamente para demostrar a eficácia da políticas de governação – balizando
e fazendo a ponte entre o passado e o futuro sempre enquadrado e limitado pela atuação de Cavaco Silva (“… vinte meses…quatro anos…, 6 de Outubro… Julho 1987…”)
Estes dois discursos podem ser caracterizados como mais eficazes que ornamentais, mais úteis que rebuscados, próximo de uma linguagem empresarial a que Wodak chama marketização da política.
Elaboradas as análises particulares vamos identificar as diferenças discursivas entre Mário Soares e Cavaco Silva numa perspetiva comparativa.
A escolha dos discursos recaiu no ano 1991, período em que ocorrem duas eleições, a presidencial e a legislativa, levando a primeira à reeleição direta de Mário Soares (9-3-1991), por ausência de candidato à direita e a segunda à reeleição de Cavaco Silva (31-10-1991), alargando a sua votação referente a 1987.
A análise comparativa foca-se na abertura e no fecho dos discursos, os dois primeiros e dois últimos parágrafos (cf. Figura 1, 2, 3 e 4).
5. Discussão
Pretendemos aqui estabelecer uma ligação entre o nosso enquadramento conceptual e os resultados da nossa Análise Crítica do Discurso. Lembramos que se adoptaram duas perspectivas distintas para se reflectir sobre a liderança política, nomeadamente a do poder carismática e a do poder hegemónico. A aceção carismática parte do weberiano de que o poder consiste na capacidade de um líder impor a sua própria vontade contra toda a resistência, por se fundamentar na autoridade que legitimamente lhe foi conferida por via da relação de dominação. A aceção hegemónica, por seu turno, parte do pressuposto gramsciano de que a persuasão, apesar de habitualmente considerada como sendo exercida de modo linear, se baseia em estratégias vocacionadas para a criação de consentimento e de consenso.
Na forma mais pura, a dominação carismática é aquela que mais oposição oferece à autoridade estabelecida (tanto tradicional como racional), uma vez que esta representa regularidade, rotina, previsibilidade, enquanto o seu homólogo carismático representa exatamente a antítese. O envolvimento do líder carismático com os seus governados, através de um discurso onde partilha e reforça algums elementos identitários fundamentais ao sentimento de pertença a um grupo, denota, por um lado, preocupação na sua adequação às conjunturas locais, nacionais e até regionais e, por outro, o interesse em manter mas, sobretudo, aumentar o número de governados/audiência porque é isso que lhe garante o poder (Bord, 2011). Tal é visível no seguinte excerto retirado ao discurso de Mário Soares, proferido em 1991.
“Não vamos navegar, como nos anos que passaram... Sem prejuízo de novos quadros de apoio que venham a ser negociados, temos de nos habituar a viver dos recursos próprios e da criatividade e força de trabalho dos portugueses.”
O carisma político assenta no reconhecimento, dedicação, seguidores, devoção ao inaudito, glorificação ao extraordinário, implicando muita vocação já que o líder carismático nasce essencialmente em momentos de crise (Camurça, Z., 1986). Em tempos de relativa estabilidade, a presença de múltiplas perspectivas alternativas limita a influência de qualquer potencial líder (Bord, 2011). JA influência carismática weberiana contempla assim várias determinantes sociais diferenciadas a afetar o líder, desde logo, as alterações às condições prévias, como sejam uma crise social ou mudança social rápida. No caso de Mário Soares a vitória de Cavaco Silva no XII
Congresso do Partido Popular Democrático/Partido Social Democrata (PPD/PSD) levou à sua demissão de Primeiro-Ministro do X Governo, e precipitou a sua candidatura a PR. Foi esta a crise que fez emergir Mário Soares como PR em 1986.
Quando observamos os discursos de Mário Soares verificamos que reúnem características de um discurso formal, próprio do momento, proferido por um PR. Todavia ele utiliza catalisadores de ação “…a modernização de Portugal — com todas
as alterações profundíssimas que implica nas estruturas da Sociedade Civil e do Estado — é o nosso próximo objetivo”.
As extensas funções presidenciais estão definidas na Constituição da República (cfr. Fig. 2) consubstanciam o seu perfil constitucional como órgão de regulação e moderação no âmbito do sistema de governo hibrido, em que o governo depende não apenas do parlamento mas também do PR. Ele dispõe de importantes poderes constitucionais efetivos e não apenas nominais, dos quais se destacam o direito de veto (o que demonstra que o acto de promulgação não se limita a assinatura, assumindo mesmo uma dupla dimensão: garante de autenticidade do diploma e exprime e pressupõe o direito de controlo ‘material’ exercido pelo PR), o poder de dissolução parlamentar, o poder de demissão do governo. E não sendo sua competência dirigir o executivo (é essa a diferença do papel do PR no regime presidencial) ou intrometer-se na ação governativa, Mário Soares interfere argumentando ser no máximo interesse da Nação, colidindo com aquilo que proclama sobre a separação e isenção de poderes.
Além disso Mário Soares conhece os atributos simbólicos do seu cargo e os importantes poderes informais do mesmo levando ate ao seu público “… conheço bem
as dificuldades de governar e sei, portanto, medir a importância que tem, para a ação governativa, a compreensão e o estímulo do Presidente da República… conheço e compreendo os problemas dos partidos, quer estejam no Governo, quer na Oposição”
com vista a demonstrar-lhes que ele sabe porque já foi um dos ‘outros’ e participou em momentos de decisão.
O pensamento de Gramsci elabora-se nos dois tempos de poder: a conquista do poder e a sua manutenção, através de uma noção alicerçada num coletivo a que chama ‘partido coletivo’ e não no sujeito messiânico, preconizado por Weber. Para Gramsci, o poder não é um impulso interior, como na teoria do carisma weberiano, mas consiste num elo de reciprocidade que liga dominantes a subordinados: apenas se pode exercer
verdadeiro poder com base no consentimento dos governados; tal consentimento é conseguido através da utilização de meios persuasivos.
Partindo do pressuposto gramsciano de que todos os políticos têm dois grandes objetivos: a conquistar o poder e a sua manutenção “ad eternum”, esta perpetuação que em sistemas ditatoriais não é questionável, em democracia exige um escrutínio periódico, consubstanciado em eleições, implicando estratégias, cuidadosamente planeadas, quer do ponto de vista da execução dos timings da governação, quer da estratégia discursiva.
O XI (1987/1991) e XII (1991/1995) Governos de Cavaco Silva, apesar de alicerçados em confortáveis maiorias absolutas na Assembleia da República, não são, por si só um poder único e absoluto, mas balizados por outros poderes formais e informais, nomeadamente os constitucionalmente estabelecidos, mas também os que decorrem do maior ou menor descontentamento dos eleitores e que se manifestam de formas explícitas e implícitas. Daí a necessidade de alargar, consensualmente, a sua base de apoio através de estratégias de inclusão “… o país precisa de todos … qualquer
que sejam as suas convicções, qualquer que tenha sido o seu sentido de voto” (1987).
Cavaco convoca todos, sem exceção, mas delimita o seu esforço de inclusão e consenso
“…não se confunda o nosso espírito de diálogo com renúncia ao nosso programa nem com menor exigência no ritmo da sua execução…(nem) para desvirtuar as promessas que fizemos ao eleitorado…” (1987). Estes limites à base consensual só são possíveis à
luz do contexto em que são produzidas e que remetem para uma maioria sólida na Assembleia da República que permite a não necessidade de estabelecer plataformas negociadas para aprovação quer do Programa de Governo quer da legislação na Assembleia da República.
6. Conclusões
Este trajeto ao longo dos discursos de tomada de posse do PR Mário Soares e do PM Cavaco Silva assentou no cruzamento da análise do discurso per se numa contextualização sociopolítica.
Os dois protagonistas refletem nas estratégias discursivas características vincadas de poder hegemónico e carismático
A conquista e manutenção do poder depende, por um lado, da capacidade dos políticos negociarem com franjas políticas, oposição e demais agentes, a forma de alargamento da sua plataforma, e, por outro de agregarem posições contra-hegemónicas para os emudecer e refrear visando a entronização no poder.
A abordagem discursiva de Cavaco Silva segue a linha gramsciana, isto é, num contexto de permanente de inclusão, explícita e dirigida, sem excluir ninguém, mesmo aqueles que não são da sua família política. A ideia de consenso é consubstanciada pelo conceito inclusivo e de senso comum de ‘portugalidade’.
A conservação do poder assenta na capacidade dos políticos imporem a sua própria vontade, contra toda a oposição/resistência, alicerçada no reconhecimento da autoridade legítima, que advém da sua dominação, e que assim lhe permite engrossar o número de governados/audiências.
A abordagem discursiva de Mário Soares enquadra-se na perspetiva weberiana na medida em que vai alimentando situações de confronto e conflitos que lhe permitam ciclicamente emergir como líder messiânico.
É lícito concluir que Cavaco Silva configura o perfil de um político hegemónico e Mário Soares configura o perfil de um político carismático, ambos tendo como a finalidade da manutenção do poder, embora o primeiro recorra a estratégias persuasivas para atingir o consenso, como tal o poder, e o segundo recorra a estratégias autoritárias para legitimar o seu domínio.
7. Bibliografia
1. Bord, Richard J. (2011) Toward a Social-Psychological Theory of Charismatic
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DOI: 10.4185/RLCS-65-2010-920-572-594-EN, acedido a 30 de Março de 2012. 16. Weber, M. (2000) A Política como Profissão. Lisboa. Edições Universitárias
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18. Weber, M. in Cruz, M. Braga (1995) Teorias Sociológicas. Vol I. Lisboa: Ed. Fundação Calouste Gulbenkian.
19. Wodak, Ruth (1989) ‘Introduction’ in Language, power, and ideology: Studies in
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Philadelphia: John Benjamins Publishing Co, pp. i-ix.
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Social Interaction. London: Sage: pp. 258-284.
21. Wodak, R., Meyer, M. (2008) ‘Critical Discourse Analysis: History, Agenda, Theory and Methodology’, in Methods of Critical Discourse Analysis. Londres: Sage, pp. 1-33.
22. Wodak, Ruth (2009) ‘The (Ir)rationality of politics’, in The Discourse of Politics in Action – Politics as Usual. Londres: Macmillan, pp. 28-56.
23. Wodak, Ruth (2009a) ‘Doing politics’, in The Discourse of Politics in Action –
ANEXO 1
Breve sumula cronológica da evolução histórica e política – 1986/1996
Em 1983 Mário Soares é Primeiro-Ministro do governo do Bloco Central (PS/PSD), teve a seu cargo a preparação da adesão de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE), conduz as últimas negociações e assina o Tratado de Adesão, em Junho de 1985.
Em 19/5/1985 Cavaco Silva ganha o XII Congresso do Partido Social
Democrata (PPD/PSD), e decide romper a coligação governamental, comunicando isso ao Partido Socialista (PS) e à Presidência da República. Todos os membros do PS que integram a coligação apresentam a demissão, inclusive Mário Soares ao Presidente Ramalho Eanes que nessa sequência dissolve a Assembleia, acabando desta forma o Bloco Central.
Em 1985 ocorrem as eleições legislativas que Cavaco Silva (PSD) ganha com 29,8% dos votos contra 20,8% do PS. Ainda que com uma bancada minoritária Cavaco decide formar Governo (6/11/1985). Nesse ano Mário Soares suspende-se do cargo de secretário-geral do PS e candidata-se à Presidência da República em Novembro,
ganhando as eleições (16/2/1986) e sendo o primeiro Presidente civil eleito diretamente pelo povo na história portuguesa.
Em 1987, devido à conjuntura desfavorável, é apresentada uma moção de censura pelo Partido Renovador Democrático, com os votos a favor do PS, que derruba o governo de Cavaco de minoria parlamentar. Dão-se as eleições legislativas, Cavaco Silva (PSD) volta a vencer com maioria absoluta contra Victor Constâncio (PS).
Em 1991 ocorrem duas eleições: as presidenciais que, com o voto passivo do PSD, reelegem Mário Soares PR à 1ª volta com 70,40% dos votos (13/1/1991) e as legislativas que Cavaco Silva (PSD) ganha novamente, com maioria absoluta, contra o principal candidato Jorge Sampaio (PS).
Nas eleições de 1995 Cavaco Silva (PSD) não se recandidata e António Guterres (PS) vence as legislativas com maioria relativa contra o principal adversário Fernando Nogueira (PSD). É empossado Primeiro-Ministro pelo Presidente Mário Soares.