UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GESTÃO DE RISCOS E
DESASTRES NATURAIS NA AMAZÔNIA
VULNERABILIDADE E PERCEPÇÃO DE RISCO DE ACIDENTES COM
BARRAGENS DE CAULIM EM BARCARENA
MARCIO DOS SANTOS AVELAR
Belém - PA 2019
MARCIO DOS SANTOS AVELAR
VULNERABILIDADE E PERCEPÇÃO DE RISCO DE ACIDENTES COM BARRAGENS DE CAULIM EM BARCARENA
Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Gestão de Risco e Desastres Naturais na Amazônia, da Universidade Federal do Pará como requisito para obtenção do título de Mestre em Gestão de Riscos e Desastres Naturais na Amazônia.
Área de Concentração: Minimização de riscos e mitigação de desastres naturais na Amazônia
Linha de pesquisa: Vulnerabilidade das populações em áreas de risco.
Orientadora: Prof. Dra. Milena Marília Nogueira de Andrade
Belém - PA 2019
MARCIO DOS SANTOS AVELAR
VULNERABILIDADE E PERCEPÇÃO DE RISCO DE ACIDENTES COM BARRAGENS DE CAULIM EM BARCARENA
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Gestão de Risco e Desastres Naturais na Amazônia, do Instituto de Geociências, Universidade Federal do Pará, como requisito a obtenção do Título de Mestre em Gestão de Riscos e Desastres Naturais.
Área de Concentração: Minimização de riscos e mitigação de desastres naturais na Amazônia.
Linha de Pesquisa: Vulnerabilidade das populações em áreas de risco.
Data de Aprovação: 27 /01/ 2019 Banca Examinadora
________________________________________________ Prof.ª Milena Marília Nogueira de Andrade – Orientadora Doutora em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido
Universidade Federal do Pará
________________________________________________ Prof.ª Maria de Fátima Vilhena da Silva - UFPA
Doutora em Tecnologia de Alimentos Universidade Estadual de Campinas
_______________________________________________ Prof. Claudio Fabian Szlafsztein - UFPA
Doutor em Ciências Naturais (Geografia). Christian-Albrechts-Universität zu Kiel, CAU, Alemanha
______________________________________________ Prof.ª. Dra. Suzana Araújo Romeiro - UFRA
Doutora em Solos e Nutrição de Plantas Universidade de São Paulo
AGRADECIMENTOS
A Deus, primeiramente, por permitir trilhar esse caminho.
A minha esposa Zenaide de Oliveira Costa Avelar pelo incentivo e principalmente pela paciência.
A minha mãe pela dedicação incentivo de ir em busca dos objetivos.
A minha orientadora Milena Marília Nogueira de Andrade pela compreensão, incentivo e paciência inesgotável.
Aos professores do programa PPGGRD por compartilhar conhecimento.
A Jamilly Rocha de Araújo e Eliana Costa Seabra que foram de fundamental importância realização das atividades para pesquisa de campo.
RESUMO
A sociedade utiliza os recursos naturais existentes e gera modificações na natureza com construções de estruturas artificiais tais como as barragens. Assim como outras intervenções antrópicas, a construção de barragens pode trazer benefícios sociais diversos, tais como a geração de energia elétrica, regulação das vazões para fins de abastecimento, irrigação, controle de enchentes ou prevenção de secas. Especificamente para a mineração, as barragens de rejeito são a forma mais comum de armazenamento de rejeito existentes. Porém, riscos associados acompanham obras desta envergadura e possíveis rompimentos de uma barragem podem desencadear desastres. Os impactos dependem da vulnerabilidade do meio ambiente, da sociedade, e podem afetar de maneira drástica todos os elementos de vida constituídos localmente, podendo causar perdas de ordens social e econômica em todo um modo de organização populacional. Dessa forma, obteve-se com este estudo uma análiobteve-se da vulnerabilidade e da percepção de riscos do bairro Industrial e da Vila do Conde, que estão no entorno da bacia de rejeitos de caulim nº3 (B3) localizada no município de Barcarena (PA). Para realização desta pesquisa foram utilizados dados secundários do município, de legislação e do Plano de Ação de Emergência da barragem; e dados primários obtidos em campo a partir da utilização de 143 questionários. Foram identificados elementos que caracterizam a vulnerabilidade das populações a jusante a bacia B3, tanto em Vila do conde como no bairro Industrial, como: a proximidade dessas áreas da bacia B3, renda familiar inferior a 1 (um) salário mínimo (71,33%), baixa escolaridade, (29,37% não possuem nem o ensino fundamental completo), 60,14% das residências possuem pelo menos 1 (uma) criança, tendo ainda 36,73% com idosos e 4,17% com portadores de necessidades especiais. Conclui-se que é importante que haja uma intervenção do poder público no sentido de realizar ações preventivas junto a população, bem como estabelecer bases para a atuação deste, caso ocorra um evento de desastres na área de estudo aqui apresentada.
ABSTRACT
The society uses the existing natural resources and generates modifications in the nature with constructions of artificial structures such as the dams. Like other anthropogenic interventions, the construction of dams can bring diverse social benefits, from the generation of electric power, regulation of the flow for the purpose of supply, irrigation, flood control or prevention of droughts. Specifically for mining, tailings dams are the most common form of existing tailings storage. However, associated risks accompany works of this magnitude and possible ruptures of a dam can trigger disasters. Impacts depend on the vulnerability of the environment and society and can drastically affect all locally constituted living elements and can cause loss of social and economic order throughout a mode of population organization. Thus, this study has the objective of conducting an analysis of the vulnerability and risk perception of the Industrial district and Vila do Conde, which are the neighborhoods around the kaolin reject basin nº3 (B3) located in the municipality of Barcarena (PA). To perform this research were used secondary data of the municipality, legislation and the Emergency Action Plan of the dam; and primary data obtained in the field from the use of 143 questionnaires. As results were identified elements that characterize the vulnerability of the populations downstream of the B3 basin, both in Vila do Conde and in the Industrial neighborhood, such as: the proximity of these areas of the B3 basin, family income less than one (1) minimum wage (71.33%), (29.37% do not have complete primary education), 60.14% of the households have at least one (1) child, and 36.73% have elderly and 4.17% with special needs. In this way it is concluded that it is important that there is an intervention of the public power in order to carry out preventive actions with the population, as well as to establish bases for its action in the event of a disaster event in the study area presented here.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1- Fluxograma para o licenciamento ambiental SEMAS... 19
Figura 2- Área da cava da Mina RCC em Ipixuna do Pará (A) e instalações do Porto privado da Ímerys em Barcarena (B)... 23
Figura 3- Diagrama simplificado de beneficiamento do caulim... 23
Figura 4- Mapa de localização das Minas e Planta de beneficiamento da Ímerys... 25
Figura 5- Mapa de localização da área de estudo... 27
Figura 6 - Simulação das áreas afetadas por rompimento da Bacia B3 realizado pela Ímerys.. 28
Figura 7 - Mapa de localização de aplicação de questionários... 31
Figura 8 - Linha do tempo com os eventos de acidentes com caulim em Barcarena... 33
Figura 9 - Precipitações Acumuladas Mensais Médias... 34
Gráfico 1- Distribuição populacional por bairro e faixa etária... 36
Gráfico 2- Distribuição por gênero e bairro... 36
Gráfico 3- Escolaridade... 37
Gráfico 4- Renda familiar... 39
Gráfico 5 - Tempo de residência em anos... 40
Gráfico 6 - Número de pessoas por residência... 41
Gráfico 7- Número de crianças por residência... 42
Gráfico 8 - Categorias especiais de vulnerabilidade... 43
Gráfico 9 - Riscos relatados pelos entrevistados... 44
Gráfico 10- Causas dos riscos informados pelos entrevistados... 45
Gráfico 11- Motivos pelos quais acredita estar em risco... 47
Gráfico 12 - Percepção do grau de risco dos entrevistados... 48
Gráfico 13- Local onde procuraria ajuda indicado pelos entrevistados... 49
Gráfico 14 - Que atitudes tomadas em caso de acidente com barragens... 50
Gráfico 15- Perdas indicadas pelos entrevistados... 51
Figura 10 - Presença de caulim no rio Curuperé por conta de vazamentos em 2014... 53
Gráfico 16- Tipos de acidentes com barragens relatados... 54
Gráfico 17- Ações realizadas pela Ímerys após acidentes... 55
Gráfico 18- Sugestões indicadas por moradores para prevenir riscos ambientais... 56
Figura 11 - Estrada de acesso à Pará Pigmentos limite entre à barragem B3 da Ímerys (ao fundo) e o bairro Industrial... 58
LISTA DE TABELAS
Tabela 1- Precipitação (PRP) total mensal e de dois dias referentes à data de ocorrência
dos incidentes e percentual correspondente ao mês... 35
Tabela 2- Tipos de riscos relatados pelos entrevistados... 44
Tabela 3- Impactos ocorridos em decorrência dos incidentes com barragens... 52
Tabela 4- Ações realizadas pelas Ímerys após ocorrências de acidentes... 55
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
ALBRAS Alumínio Brasileiro S.A ALUNORTE Alumina Norte Brasil S/A
ANA Agência Nacional de Águas
ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica
ANM Agência Nacional de Mineração
B3 Bacia nº 3
CBDB Comitê Brasileiro de Barragens
CEDEC Coordenadoria Estadual de Defesa Civil
CETEM Centro de Tecnologia Mineral
COMDEC Coordenadoria Municipal de Defesa Civil CNRH Conselho Nacional de Recursos Hídricos CPCRC Centro de Perícias Científicas Renato Chaves
CR Categoria de Risco
CRAS Centro de Referência em Assistência Social
DIEESE Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos
DNPM Departamento Nacional de Produção Mineral
DPA Dano Potencial Associado
EIRD/ONU Estratégia Internacional para Redução de Desastres da Organização das Nações Unidas
FIOCRUZ Fundação Oswaldo Cruz
IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IBRAM Instituto Brasileiro de Mineração
IG Instituto de Geociências
INMET Instituto Nacional de Meteorologia
MME Ministério de Minas e Energia
MPF Ministério Público Federal
OPAS Organização Pan-Americana da Saúde
PAE Plano de Ação Emergencial
PDDUB Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Barcarena PNSB Política Nacional de Segurança de Barragens
PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PPGGRD Programa de Pós-graduação em Gestão de Riscos e Desastres Naturais na Amazônia
PPSA Pará Pigmentos Sociedade Anônima
PRP Precipitações
PSB Plano de Segurança da Barragem
RCC Rio Capim Caulim
SEDEC Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil
SEDEME Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia SEMAS Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará SNISB Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens TJEPA Tribunal de Justiça do Estado do Pará
UNDP United Nations Development Programme
SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ... 122 2. JUSTIFICATIVA ... 155 3. OBJETIVOS ... 166 3.1 OBJETIVO GERAL ... 166 3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 166 4. REFERENCIAL TEÓRICO ... 177 4.1 LEGISLAÇÃO PERTINENTE ... 177 4.2 CONCEITOS FUNDAMENTAIS ... 20
4.3 CARACTERIZAÇÃO DA CADEIA PRODUTIVA DO CAULIM ... 222
5. MATERIAIS E MÉTODOS ... 266
5.1 ÁREA DE ESTUDO ... 266
5.2 MÉTODOS ... 277
6. RESULTADOS ... 322
6.1. LINHA DO TEMPO DOS EVENTOS ... 322
6.2. ANÁLISE DA VULNERABILIDADE ... 355
6.3 PERCEPÇÃO DE RISCO ... 433
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 599
REFERÊNCIAS ... 611
APÊNDICES ... 68
APÊNDICE A - QUESTIONÁRIO SOCIOECONÔMICO E TERMO DE CONSENTIMENTO ... 69
APÊNDICE B - PLANO DE AÇÃO EMERGENCIAL PARA ROMPIMENTO DE BARRAGENS E VAZAMENTOS DE REJEITOS DE CAULIM NO MUNICÍPIO DE BARCAREBA-PA ... 70
1. INTRODUÇÃO
As barragens são estruturas construídas em cursos d’água, sendo feitas na maioria das vezes com o intuito de armazenar água ou rejeitos. A sua utilização em controle de cheias, regularização de vazões para irrigação, abastecimento humano e geração de energia, entre outras funções, contribuiu de forma singular para o desenvolvimento das civilizações, sendo ainda responsável, inclusive, pela ascensão e queda de muitas delas (JANSEN, 1983). A construção de barragens no Brasil tem o seu início em virtude das grandes secas na Região Nordeste, em particular no ano de 1877 o que levou a construção dos primeiros açudes para armazenar água. Na região Sudeste do País, no mesmo período era iniciada a instalação das primeiras hidrelétricas (CBDB, 2011). E hoje, mais de 61% da matriz energética brasileira vem de aproveitamentos hidrelétricos (ANEEL, 2017), além de muitas outras destinadas a reserva de água para consumo, contenção de cheias e demais usos.
Nas atividades de mineração o uso de barragem é o método mais comum para destinação de rejeitos do processamento mineral. Rejeitos correspondem a fração economicamente não aproveitada do minério, após o mesmo ter sido submetido à redução de tamanho e de separação das espécies minerais (CETEM, 2010). Na disposição dos rejeitos, o reservatório formado para conter o material deve ser estanque para impedir a infiltração dos efluentes danosos à qualidade das águas. Portanto sua construção deve observar os aspectos específicos da construção e da segurança (IBRAM, 2016).
Os procedimentos de segurança consistem na condição de manter a integridade estrutural e operacional da barragem e a preservação da vida, da saúde, da propriedade e do meio ambiente nas áreas potenciais afetadas (BRASIL, 2010). Dinçergök (2007) afirma ainda que a segurança de barragem deve contemplar não apenas as boas condições estruturais do empreendimento, mas também mitigar os impactos que possam ocorrer a jusante em caso de ruptura.
A preocupação com a segurança destas estruturas teve início após a ocorrência de acidentes graves principalmente entre as décadas de 1960 e 1970 (VERÓL; MIGUEZ; MASCARENHAS, 2012) em que, a onda de cheia resultante da ruptura deste de tipo estrutura foi responsável por acidentes de grandes proporções vistos nos últimos séculos (CBDB, 2011;
XIONG, 2011). No Brasil o histórico recente de acidentes conta com o rompimento da barragem de minério de ferro no município de Mariana (MG) em 2015 e em janeiro de 2019 o rompimento da barragem de Brumadinho que até o momento contabiliza 214 mortos, e 125 pessoas desaparecidas (G1, 2019).
A repetição desse tipo de sinistro ocorreu mesmo com avanços na legislação. Nas últimas décadas foram estabelecidas legislações com o objetivo de regulamentar as etapas de construção e operação, bem como, definir planos de ação emergencial para esses empreendimentos (VERÓL; MIGUEZ; MASCARENHAS, 2012). Em 2010, foi sancionada a primeira lei relacionada ao tema, a Lei nº 12.334, que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens (BRASIL, 2010). Entre os instrumentos previstos pelo art. 6º, destacam-se a classificação de barragens por categoria de risco e por dano potencial associado. Caso o empreendimento se encaixe entre as categorias de dano médio ou alto, em termos econômicos, sociais, ambientais ou de perdas de vidas humanas, conforme a Resolução nº 143, de julho de 2012 do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, existe a necessidade da realização de um Plano de Segurança de Barragem.
O estado do Pará possui grandes reservas minerais e o processamento desses minérios incluem no seu fluxograma operacional a destinação do rejeito em barragens. O município de Barcarena, localizado nas proximidades da capital do estado, conta com um complexo industrial-portuário dentre as quais as empresas Hydro-Alunorte e Ímerys são as principais com beneficiamento de bauxita e caulim, respectivamente (FAPESPA, 2017).
Acidentes recentes envolvendo o vazamento da barragem de rejeito de bauxita da Hydro-Alunorte através de uma tubulação clandestina indicaram contaminação dos recursos hídricos com os índices de sódio, nitrato e alumínio e pH alterados (G1, 2018). Com relação a barragem de caulim, o principal acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2007, com o vazamento da bacia de rejeitos Nº. 3 (B3), que causou derramamento de grande quantidade de rejeitos de caulim nos igarapés Curuperé e Dendê, chegando até o rio Pará. A B3 apresentou um contínuo processo de infiltração e vindo a ter fissuras na barragem, vazando 450 mil m3 de caulim para a área próxima (O LIBERAL, 2007). A mesma é classificada de baixo risco, porém de alto dano potencial associado (ANA, 2018). Desse modo uma das principais consequências causadas pelo vazamento desses rejeitos foi a poluição hídrica em um curso d’água nas proximidades da fábrica, que ficaram impróprios para uso doméstico evidenciando a vulnerabilidade das comunidades locais
(NASCIMENTO, 2012). Apresentando esses fatos, e dada a proximidade barragem com áreas urbanas e ribeirinhas ocupadas, este estudo visa realizar uma análise da vulnerabilidade e da percepção de risco dessa população potencialmente atingida caso eventos de quebra de barragem venham a ocorrer nas barragens de caulim no município de Barcarena - PA.
2. JUSTIFICATIVA
Diante do histórico de acidentes com barragem do município de Barcarena este trabalho propõem o estudo sobre as áreas adjacentes à Bacia B3, pertencentes a empresa Ímerys Rio Capim Caulim S/A, que processa caulim no município de Barcarena – PA, considerada uma barragem de alto dano potencial associado e baixo risco pela ANA (Agência Nacional de Águas). A B3 já causou prejuízos ao meio ambiente, a população urbana de Barcarena como um todo e em particular ao modo de vida dos ribeirinhos que utilizam os recursos hídricos superficiais e subterrâneos locais. Desse modo avaliar os impactos causados pelo um eventual acidente com a quebra de barragem nas áreas urbanas a jusante das barragens com uma análise da vulnerabilidade e da percepção de risco faz parte do processo de gestão de desastres.
3. OBJETIVOS
3.1 OBJETIVO GERAL
O principal objetivo deste trabalho é avaliar a vulnerabilidade e a percepção de risco dos locais potencialmente atingidos em um cenário de ruptura da barragem de rejeito de caulim em Barcarena (B3) considerando o cenário de ruptura do Plano de Ação e Emergência existente.
3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Identificar a cronologia dos acidentes com barragem da Ímerys em Barcarena;
- Analisar a vulnerabilidade das comunidades das possíveis áreas atingidas em caso de ruptura barragem B3 em Barcarena;
- Analisar a percepção de risco das comunidades das áreas atingidas em caso de ruptura barragem B3 em Barcarena;
- Criar um plano emergencial para ser aplicado pela defesa civil municipal frente a um desastre
4. REFERENCIAL TEÓRICO
4.1 LEGISLAÇÃO PERTINENTE
Com o objetivo de embasar a questão sobre segurança de barragens no Brasil, foi sancionada em 2010, a Lei nº 12.334 que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB), destinada à acumulação de água para quaisquer usos, à disposição final ou temporária de rejeitos e à acumulação de resíduos industriais. Esta lei cria o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB). Este sistema tem como objetivo o registro informatizado das condições de segurança de barragens em todo o território nacional e compreende um sistema de coleta, tratamento, armazenamento e recuperação de suas informações, devendo contemplar barragens em construção, em operação e desativadas.
A Agência Nacional de Águas (ANA) é o órgão responsável por organizar, implantar e gerir o SNISB. Sendo regido pela Resolução nº 144, de 10 de julho de 2012, que: “estabelece diretrizes para implementação da Política Nacional de Segurança de Barragens, aplicação de seus instrumentos e atuação do Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens”. O Artigo nº 16 do mesmo dispositivo legal dispõe que “o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB) tem o objetivo de coletar, armazenar, tratar, gerir e disponibilizar para a sociedade as informações relacionadas à segurança de barragens em todo o território nacional”.
No que consiste a regulamentação da PNSB, os principais documentos existentes até o momento, além do dispositivo acima citado, são a Resolução Conselho Nacional de Recursos Hídricos, CNRH nº 143/12, que estabelece que as barragens são classificadas quanto a dois quesitos principais, a Categoria de Risco (CR) e o Dano Potencial Associado (DPA). Na Resolução citada, estão as tabelas que quantificam a nota de cada parâmetro a ser observado e com base no resultado da soma desses valores pode-se enquadrar um barramento com CR e DPA Baixo, Médio ou Alto. A resolução nº 742/11 da ANA utiliza a CR e o DPA para determinar periodicidades das inspeções, podendo ser estabelecidos em semestral, anual e bianual em função dos resultados das avaliações de risco. Esta agência publicou também a Resolução nº 91, de 02 de abril de 2012 que trata do Plano de Segurança da Barragem (PSB), previsto na lei federal que contém as diretrizes
que devem ser seguidas pelo empreendedor para gerenciar o risco de acidentes. Esta Resolução define a periodicidade de atualização, a qualificação do responsável técnico, o conteúdo mínimo e o nível de detalhamento do PSB e da revisão periódica de segurança da barragem.
As medidas em casos de emergência visam fornecer uma maior segurança ao vale a jusante da barragem e, para isso, é necessário que se tenha conhecimento da área afetada resultante da ruptura do barramento, definindo pela extensão da onda de cheia, assim como pelo seu tempo de chegada, vazões de pico e velocidades de escoamento (WILLINGHOEFER, 2015). Para que se obtenha estas informações, são utilizados modelos matemáticos que permitem simular a ruptura da barragem, o que torna possível avaliar a propagação da onda de cheia e seus efeitos nas regiões adjacentes (VERÓL, 2010). Esta simulação, aliada à classificação da área diretamente afetada quanto ao uso e ocupação do solo, possibilita avaliar o risco ao qual o vale está submetido no caso do rompimento da barragem.
Os projetos minerais existentes no estado do Pará apresentam grande importância socioeconômica, devido ao potencial dessa riqueza natural do solo paraense. Hoje, grande parte dos projetos licenciados pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS) são referentes à mineração, onde o município de Barcarena é inserido no ciclo da mineração a partir do beneficiamento primário de minérios como a bauxita e o caulim (SEMAS, 2018). Os projetos de mineração devem passar por um processo de licenciamento ambiental junto a SEMAS o qual segue o seguinte fluxograma (Figura 1).
Figura 1- Fluxograma para o licenciamento ambiental SEMAS.
Fonte: (SEMAS, 2018).
Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade
(SEMAS)
Secretaria Adjunta de Gestão e Regularidade Ambiental - SAGRA Diretoria de Licenciamento Ambiental - DLA Coordenadoria de Mineração - CMINA Gerência de projetos minerais metálicos - GEMIM Gerência de projetos minerais não metálicos - GEMINA
4.2 CONCEITOS FUNDAMENTAIS
Neste trabalho foram utilizados os conceitos de risco, vulnerabilidade e percepção de risco. Podemos entender o risco como sendo: a probabilidade de ocorrência de processos no tempo e no espaço, não constantes e não-determinados, e à maneira como estes processos afetam (direta ou indiretamente) a vida humana (CASTRO et al, 2005). Egler (1996) separa o risco em natural, risco tecnológico e risco social. O risco tecnológico refere-se ao potencial de ocorrência de eventos danosos à vida em curto ou longo prazo associados a acidentes que possam ocorrer em ambiente construído pelo homem.
Convencionalmente, o risco é expresso pela fórmula: Risco = Ameaça x
Vulnerabilidade (UNDP, 2004). De modo geral, essa fórmula apresenta o risco de desastre como
uma relação entre ameaças e vulnerabilidades. Assim, a gestão dos riscos para minimizar os impactos dos desastres depende de ações a serem desenvolvidas dentro dessa relação (SEDEC, 2012).
Sendo uma relação entre ameaças e vulnerabilidades, os riscos não são objetos, tampouco fixos ou estáveis, mas processos que se modificam com o tempo, com ou sem uma intervenção direta sobre eles. Assim, são processos que dependem, também, do sistema sociocultural e técnico, que determinam o que é exatamente risco (EGLER, 1996). O risco também é uma construção social, decorrendo de saberes, conhecimentos, sistemas de crença, modos de percepção de determinado contexto social (SEDEC, 2012).
A vulnerabilidade poder ser entendida como “a condição intrínseca ao corpo ou sistema receptor que, em interação com a magnitude do evento ou acidente, define os efeitos adversos, medidos em termos de intensidade dos danos previstos” (CASTRO, 1999). A Estratégia Internacional para Redução de Desastres da Organização das Nações Unidas (EIRD/ONU) define a vulnerabilidade como as condições determinadas por fatores ou processos físicos, sociais, econômicos e ambientais que aumentam a suscetibilidade e exposição de uma comunidade ao impacto de ameaças (EIRD, 2004). Portanto, ser vulnerável é estar fisicamente sensível a uma ameaça/perigo. A EIRD/ONU evidencia que a vulnerabilidade é uma condição relacionada a diferentes processos e fatores físicos, socioeconômica, ambientais. Cutter et al., (2003) indica que
a vulnerabilidade está vinculada a alguns aspectos socioeconômicos bem como à grupos de pessoas mais vulneráveis, dentre eles, as crianças, idosos e portadores de necessidades especiais.
Diante do exposto, Oliveira (2018) apud Kamath (2015) afirma que um terço das mortes são crianças, podendo até mesmo chegar à metade, que ocorrem em desastres, se dá devido a estas serem mais suscetíveis a serem feridas e terem maior dificuldades de conseguir ajuda ou cuidados a saúde.
Já para os idosos, a vulnerabilidade advém principalmente em decorrência do processo de envelhecimento natural, onde ocorrem declínios das capacidades funcionais, onde tornam-se reduzidas a percepção de risco, estado de alerta, atenção e mobilidade, aumentando assim a vulnerabilidade do indivíduo. (LACAS, 2012). Além disso, os portadores de necessidades especiais também podem apresentar capacidades funcionais ou cognitivas reduzidas os tornando também mais vulneráveis em ocorrências de desastres (OPAS, 2018).
A percepção de risco pode ser definida como “o processo de coletar, selecionar e interpretar sinais relativos a impactos incertos de eventos, atividades e tecnologias” (WACHINGER; RENN, 2010). Podendo assim ser considerado como um processo complexo, dinâmico com influência em diversos fatores que interferem na forma de pensar das pessoas sobre a seriedade e aceitabilidade dos riscos, os quais podem ser: conhecimento, experiência, atitudes e sentimentos, etc. (WACHINGER; RENN, 2010). Desta forma, podemos dizer que a percepção humana sobre riscos está sujeita a diversas variáveis, sendo a análise do contexto e seus condicionantes fator fundamental para a sua compreensão. Esta análise contribui para um planejamento de ações que sejam mais efetivas em seus resultados na gestão de riscos.
A informação sobre o risco é um importante fator para o aumento da preocupação das pessoas em adoção de medidas adaptativas e preventivas para o seu comportamento futuro. Porém, essa discussão envolve bem mais do que informações, sendo incluídos outros temas onde podemos considerar: poder, controle social, inclusão e valores pessoais (SEDEC, 2012). A percepção de risco é um elemento fundamental na gestão de riscos, pois há um facilitador para a realização de atividades preventivas quando uma coletividade passa a perceber a sua situação (BONZO et al., 2001). Assim sendo, quando uma população tem conhecimento de seus riscos, ela passa a ter mais
esclarecimento sobre a necessidade de se proteger, tendo, portanto, um caminho para a colaboração em ações de prevenção e proteção.
4.3 CARACTERIZAÇÃO DA CADEIA PRODUTIVA DO CAULIM
O caulim ou caulinita é um minério composto de silicatos hidratados de alumínio, de cor branca que ocorre de forma abundante na crosta terrestre (MME, 2009). A principal característica e que define a qualidade do caulim está relacionada ao grau de alvura, o que permite sua utilização na fabricação de papel, indústria de maior aplicação desse minério. Além de papéis, o caulim também tem sua aplicação na indústria de tintas, cerâmicas, cimentos, cosméticos, plásticos, pesticidas, rações, produtos alimentícios, farmacêuticos, fertilizantes, entre outros (SEDEME, 2016).
O estado do Pará é o maior produtor de caulim do Brasil, responsável por 72% da produção brasileira, 16,7% da reserva nacional distribuídas em duas minas de grande porte localizados no município de Ipixuna do Pará, e uma de médio porte no município de Aurora do Pará (SEDEME, 2016.) As minas que pertencem as empresas Ímerys Rio Capim Caulim– IRCC e Pará Pigmentos S.A. – PPSA estão localizadas em Ipixuna do Pará e são estratégicas para a cadeia produtiva caulim no estado. A IRCC, opera no Estado do Pará, com uma mina e uma instalação de pré-beneficiamento na região do Rio Capim, e uma planta de beneficiamento e um terminal privativo em Barcarena.
A empresa Ímerys é de origem francesa e iniciou sua operação no Estado Pará em 1996, em 2010 adquiriu a Pará Pigmentos S.A. (PPSA), que pertencia ao Grupo Vale (Figura 2 A e B). Com sua estrutura duplicada, a mineradora passou a ter a maior planta de beneficiamento de caulim do mundo e 71% de participação na produção de caulim no Brasil (ÍMERYS, 2018).
Figura 2– Área da cava da Mina RCC em Ipixuna do Pará (A) e instalações do Porto privado da Ímerys em Barcarena (B)
A B
Fonte: Ímerys (2018)
O caulim, lavrado nas minas do Pará, passa por diversas etapas de beneficiamento que incluem especialmente desareiamento e branqueamento (Figura 3). Essas etapas eliminam a areia e impurezas contidas no minério bruto, como o óxido de ferro, até atingir o limite técnico e economicamente viável. O produto é exportado em forma de pó, lump1, granulado e polpa e a
principal aplicação do caulim é na produção de papeis, mas também vem se destacando em outros setores industriais (CETEM, 2005).
Figura 3 - Diagrama simplificado de beneficiamento do caulim
O transporte da mina do caulim até a planta de beneficiamento é realizado por dois minerodutos de 160 km e 180km de extensão que sai da mina IRCC e PPSA, respectivamente. Esse percurso passa por Tomé-Açu, Acará, Mojú e Abaetetuba. No percurso, os dutos ainda atravessam os rios Acará Mirim, Acará e Mojú (Figura 4). A capacidade de produção de 1,6 milhões de toneladas por ano (ÍMERYS, 2018.).
Diante da proximidade de exaustão do mina capim I, em Ipixuna do Pará, a Ímerys desenvolveu a mina Oratório e Bacuri, em decorrência das sucessivas expansões na produção desde 1996. Entretanto, o setor ainda passa por uma crescente elevação dos custos de produção (DNPM, 2016).
As aplicações deste minério são diversas na indústria de tintas, papéis, cosméticos, cerâmicas. Considera que o amplo campo de aplicação industrial do caulim deve-se às suas características tecnológicas de ser: branco, quimicamente inerte e de grande intervalo de pH, fácil dispersão, baixa condutividade térmica e elétrica, pouca abrasividade, fácil dispersão e possuir capacidade de cobertura quando usado como pigmento e como reforçador para aplicações como carga (CETEM, 2005).
Figura 4 - Mapa de localização das Minas e Planta de beneficiamento da Ímerys.
5. MATERIAIS E MÉTODOS
5.1 - ÁREA DE ESTUDO
O município de Barcarena, no estado do Pará, está situado na latitude 1°31’08”S e longitude 48°37’01”W, possui 1.310,330 km² e 99.859 habitantes (IBGE, 2010). O município está dividido nas seguintes regiões administrativas: Distrito de Murucupi, Estradas e Região das Ilhas, Sede de Barcarena e Vila do Conde (BARCARENA, 2006).
Barcarena vivenciou sua maior transformação econômica com a implantação de projetos de beneficiamento de minérios: da bauxita (matéria prima do alumínio) e do caulim em seu território (BARROS, 2009), e pelas atividades portuárias. A instalação de empresas de transformação mineral em Vila do Conde (décadas de 1980 e 1990) ocasionou um o crescimento populacional de forma acelerada, devido a atrativos e empregabilidade de mão de obra, os quais vêm causando problemas socioambientais, interferindo diretamente na relação entre as populações e os recursos naturais existentes na região (SILVA; BORDALO, 2010).
Segundo informações do censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1970, 79,12% da população economicamente ativa estava ligada à atividade agropecuária, ao extrativismo vegetal e à pesca, concentrando a economia do município no meio rural, onde também estava assentada a maior parte da população. Em 2005, o perfil mudou para um perfil industrial, sediando empresas como a Alumínio Brasileiro S.A (Albrás), principal empresa produtora de alumínio do Brasil; Alumina Norte Brasil S/A (Alunorte), principal empresa do setor de alumina; Pará Pigmentos (PPSA); Ímerys Rio Capim Caulim (IRCC) (BARROS, 2009); e grupo Alubar.
Na área da Ímerys há cinco bacias de rejeitos para o processo de beneficiamento do caulim. Todas possuem um revestimento especial (geomembrana) impermeável de alta densidade usada na parte interna das bacias de contenção, que isola e protege o solo, prevenindo eventuais infiltrações. E o revestimento externo possui uma cobertura com manta de fibra de coco, com cobertura vegetal, com a função de estabilizar o terreno, evitar erosões e o proteger do calor (ÍMERYS, 2017). A bacia de rejeito B3 é utilizada na disposição de efluentes gerados na filtragem do processo de beneficiamento, onde esses efluentes passam por procedimentos visando a
clarificação e controle de pH, apresentando assim uma lâmina d’água constante. O seu extravasamento é feito por bombeamento, tendo um volume de 721.515m3 (ÍMERYS, 2018). De acordo com o Plano de Segurança de Barragens (PSB) da Ímerys, as características técnicas incluem na crista uma elevação de 22m e taludes a montante de até 16m (ÍMERIS, 2016). A área de estudo corresponde ao Bairro Industrial e a Vila do Conde que se encontram nas proximidades da bacia de rejeito B3 da empresa Ímerys (Figura 5).
Figura 5- Mapa de localização da área de estudo.
Fonte: O autor (Imagem base do Google Earth Pro, 2018).
5.2 MÉTODOS
A metodologia inclui pesquisa bibliográfica, atividades de campo e análise estatística. A pesquisa bibliográfica incluiu a caracterização da área de estudo e do processo produtivo do caulim a partir de artigos e órgãos oficiais do governo, o levantamento de informações pretéritas
sobre acidentes com vazamento da barragem de rejeito de caulim em Barcarena. Os dados meteorológicos foram analisados a partir de do proposto por Lemos (2018) sendo feito um comparativo com o histórico de acidentes com caulim na região e levantamento da legislação pertinente.
As atividades de campo ocorreram nos bairros Industrial e Vila do Conde com base na simulação do rompimento hipotético da barragem, realizado pela Ímerys, onde é possível identificar as áreas possivelmente atingidas pela onda de cheia resultante em condições extremas (Figura 6). A simulação do rompimento da Bacia B3 aponta que as áreas em até 2,8km são afetadas, caso haja, valores de vazão de pico de 251m³/s, havendo overtopping2 (ÍMERYS, 2016).
Figura 6 - Simulação das áreas afetadas por rompimento da Bacia B3 realizado pela Ímerys.
Fonte: Ímerys - Plano de Segurança de Barragens, 2016.
Foram realizadas 143 entrevistas, em maio de 2018, aplicadas pelo pesquisador, em um universo de 2.871 domicílios existentes nos dois bairros de acordo com o Censo 2010 (IBGE, 2010), para qual foi verificada uma confiabilidade de 90% com margem de erro de 6,5 %. O cálculo da amostra foi realizado de acordo com o tamanho da população fórmula (1).
Fórmula (1)
Onde: N = tamanho da população; e = margem de erro; z = escore z
Fonte: Levin (1987)
Os pontos das entrevistas foram distribuídos de forma a abranger uma maior dispersão dentro da área de estudos (Figura 7). No Bairro Industrial foram realizadas 73 entrevistas, e na Vila do Conde, foram realizadas 70 entrevistas. O questionário foi divido em perfil socioeconômico/vulnerabilidade e percepção de risco totalizando em 20 itens, no qual há um termo de consentimento informando para fins que se destina a pesquisa (APÊNDICE A). São 10 itens referentes aos aspectos socioeconômicos e 10 perguntas voltadas para a percepção de risco.
Para caracterizar a vulnerabilidade foi levado em consideração, o gênero, a renda mensal, a escolaridade, o tempo de residência no local, o número de pessoas na residência, a localização e a condição da residência baseado nas variáveis de vulnerabilidade já utilizadas pelos autores Cutter et al., (2003) e Andrade e Szlafsztein, (2018). A vulnerabilidade socioeconômica destina-se a entender o perfil das populações vulneráveis (CUTTER, 2011). Adger et al., (2004) e Cutter, (2003; 2010) apontam que fatores como como idade, gênero, classe social, escolaridade, renda familiar; emprego formal ou informal; acesso a benefícios federal compõem a análise da vulnerabilidade. Enquanto que a condição estrutural da residência indica a suscetibilidade dos mesmos sofrerem o impacto decorrente a risco de desastres (WILCHES-CHAUX, 1986).
A percepção de risco pode contribuir em um planejamento de ações que sejam mais efetivas em seus resultados na gestão. Para tanto, esta análise foi feita a partir da divisão do questionário nas seções de: riscos ambientais, situação de risco, danos pretéritos, conhecimento sobre risco e ação tomada. Esta divisão levou em conta adaptações de Andrade e Szlafsztein (2015; 2018). A primeira pergunta “você acha, sente ou percebe que há riscos no lugar onde mora, quais? E qual a causa?” foi feita no intuito de deixar o entrevistado a vontade pra apontar riscos diversos. As questões relacionando risco às barragens especificamente foram inseridas posteriormente. Foi possibilitado aos entrevistados fornecer mais de uma resposta por item do questionário, ou ainda podendo citar respostas que não estavam elencadas nos itens apresentados, sendo os resultados posteriormente agrupados em categorias de análise, assim, frequentemente são apresentados resultados superiores a 100%, quando relacionados ao total da amostra, como exemplo questões sobre tipos de impactos ocorridos a partir de acidentes pretéritos com a barragem da Imerys (questão 8) (APÊNDICE A). As questões sobre perdas (questão 5) e sobre sugestões para prevenir situações de risco (questão 10) foram apresentadas nos resultados a partir de categorias escolhidas pelo autor após a finalização de obtenção dos dados. Esses dados foram analisados em gráficos gerados no programa Libre Office-Calc 6 e para a produção dos mapas foi utilizado o programa Q-Gis 3.
Como produto gerado foi um Plano Emergencial para rompimento de barragens e vazamentos de rejeitos de caulim no município de Barcarena-PA. Este produto tem a finalidade de padronizar procedimentos operacionais diante de acidentes com barragens rejeitos de caulim e foi produzido partir dos resultados desta dissertação de mestrado. Seu conteúdo foi organizado a partir de um resumo histórico de acidentes com barragens na área, evolução e possibilidade de monitoramento e alerta e operações necessárias. O documento produzido em meio digital é de importância para a sociedade e para a Defesa Civil no município de Barcarena.
Figura 7 - Mapa de localização de aplicação de questionários.
6. RESULTADOS E DISCUSSÃO
6.1. LINHA DO TEMPO DOS EVENTOS
Desde a sua implantação até os dias atuais da indústria mineral em Barcarena, vem vários acontecimentos decorrentes do processo produtivo do beneficiamento do caulim foram registrados, sendo registrados um total de nove (9) acidentes, eventos esses que tiveram implicações ambientais, sociais e econômicas para as populações locais. Segue abaixo a linha do tempo com os principais eventos ocorridos a partir da implantação indústria mineral no município (Figura 8).
A Pará Pigmentos SA (PPSA) inicia a lavra do caulim no município de Ipixuna do Pará e passa a ser transportado por mineroduto até as instalações em Barcarena que utilizam barragem em parte do processo (ÍMERYS, 2018). A partir de 2004 acontecem sucessivos problemas relacionados com contaminação dos recursos hídricos por caulim, seja por vazamentos na bacia de rejeito ou por rompimento no mineroduto que liga a mina em Ipixuna do Pará ao distrito industrial em Barcarena (CPC RENATO CHAVES, 2017).
O principal acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2007, após o vazamento na bacia de rejeitos B3, que causou derramamento de grande quantidade de rejeitos de caulim nos igarapés Curuperé e Dendê, atingindo também o rio Pará (CPC RENATO CHAVES, 2017). Este foi um acidente de grandes proporções, ocasionado pelo aumento da capacidade produtiva inicial da fábrica, que era de 300 mil toneladas e foi expandida para mais de um milhão de toneladas, passando a ser a maior beneficiadora de caulim do mundo. No entanto, umas preparações adequadas dos locais de destinação dos rejeitos industriais não acompanharam esse crescimento da produção, nem na área física escavada no solo para receber essa massa líquida, como também nos métodos de tratamento (CPC RENATO CHAVES, 2017).
A B3 apresentou um contínuo processo de infiltração através de fissuras, vazando 450 mil metros cúbicos de caulim para a área próxima, ocorrendo o maior acidente industrial com impacto ambiental já documentado no Pará até então. Um dos principais problemas causados pelo vazamento desses rejeitos foi a poluição hídrica, pois os cursos d’água naturais sob a influência da fábrica, ficaram impróprios para uso doméstico consumando a vulnerabilidade das comunidades locais (IBAMA, 2008).
Como agravante as áreas de deposição de rejeitos dessa empresa não se mostraram suficientemente impermeáveis, sendo constatada a infiltração de material para a água subterrânea, contaminando os poços que a população do bairro industrial construiu para se abastecer tornando a mesma inviável para consumo humano e de criações de animais devido a contaminação da água (CPC RENATO CHAVES, 2017).
Os problemas relacionados ao mineroduto foram solucionados pela empresa com a sua substituição em 2013, porém em 2016 houve novamente vazamento do caulim afetando a praia da Vila do Conde (G1, 2016a). Com o desencadeamento desses eventos os Ministério Público Federal e Estadual acionaram a justiça pedindo providências para acesso à água potável uma vez que o acesso à água foi prejudicado e contaminado (G1, 2016b). As populações afetadas foram principalmente as que moram no Bairro Industrial e na Vila do Conde que se encontram nas proximidades das instalações da mina. Os órgãos ambientais foram acionados incluído o Centro de Perícia Renato Chaves que conduziu perícia no local (CPC RENATO CHAVES, 2017).
Figura 8 – Linha do tempo com os eventos de acidentes com caulim em Barcarena
Fonte: Autor, com base nos dados do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves (2017)
Comparando o período dos acidentes com as precipitações acumuladas mensais verificamos que a ocorrência dos mesmos foi durante o período menos chuvoso de acordo com
Lemos (2018). Nos meses de dezembro a maio as precipitações estão acima de 280 mm, considerando-se este o período mais chuvoso, enquanto que nos meses de junho a novembro, as precipitações estão entre 100 e 200 mm, sendo este o período menos chuvoso (Figura 9).
Figura 9 - Precipitações Acumuladas Mensais Médias.
Fonte: Lemos (2018).
Quando analisados os acidentes que ocasionaram danos ambientais com a precipitação diária acumulada em 48 horas, em apenas 2 (dois) dois acidentes dos 8 (oito) eventos foi possível correlacionar com altos índices de PRP, os ocorridos em 02/07/2012 e 05/08/2013. Já quando se considera a variação mensal da PRP em junho de 2004, junho de 2007 e maio de 2014, foram registradas as chuvas totais abaixo da média. Entretanto, nos demais eventos ocorridos em agosto de 2006, novembro de 2011, julho de 2012, agosto de 2013 e outubro de 2016, os totais mensais de chuvas foram acima da média mensais registradas (Tabela 1) (Lemos, 2018).
Assim, PRP mensal pode ter tido impacto direto para a ocorrência dos acidentes poluidores, uma vez que as chuvas contínuas aumentam a possibilidade de saturação das bacias de rejeitos e o risco de vazamento, onde segundo a tabela 1, demonstra que nos acidentes registrados
em: 15 de agosto de 2016, 25 de novembro de 2011, 2 de julho de 2012, 5 de agosto de 2013, e 29 de outubro de 2016, houve médias PRP acumuladas no mês superiores a média mensal. fato esse constatado em acidente ambiental com bacia de rejeito industrial relatado pelo IBAMA na cidade de Barcarena - PA (IBAMA, 2009) e (LEMOS, 2018).
Tabela 1 – Precipitação (PRP) total mensal e de dois dias referentes à data de ocorrência dos incidentes e percentual correspondente ao mês. Meses PRP Total do Mês PRP acumulada de 48h de ocorrência de evento. Data do evento. % de PRP JUN/2004 180,1 3,8 27/06/2004 2,1 AGO/2006 236,1 0,4 15/08/2006 0,2 JUN/2007 219,9 7,2 11/06/2007 3,3 NOV/2011 174,6 1,8 25/11/2011 1,0 JUL/2012 313,2 34,1 02/07/2012 10,9 AGO/2013 245,5 48,5 05/08/2013 19,8 MAI/2014 332,9 6,6 06/05/2014 2,0 OUT/2016 173,9 12,2 29/10/2016 7,0 Fonte: (INMET, 2018). 6.2. ANÁLISE DA VULNERABILIDADE
Os resultados da vulnerabilidade apresentados foram a análise estatística sobre gênero, escolaridade, tempo de residência, faixa etária dos ocupantes da residência e renda, fatores da população local. Foram entrevistadas 54 (cinquenta e quatro) pessoas do sexo masculino e 89 (oitenta e nove) pessoas do sexo feminino. A média de idade dos entrevistados é de 43 anos, sendo faixa etária com maior número de pessoas é a que está representada entre 20 e 30 anos de idade, com o correspondente a 24,5% dos entrevistados. No bairro industrial a presença de jovens até 30 anos é maior representando 25,17% do total de entrevistados e em Vila do Conde 11,19% corresponde à idosos (Gráfico 1). Dos entrevistados há uma maior presença do sexo feminino em ambos os bairros, representando 62,24%, da totalidade da a amostra da pesquisa (Gráfico 2).
A importância a variável social não é apenas pela exposição aos riscos, mas também a propensão da população para os impactos negativos dos perigos e desastres, capacidade de resiliência (ADGER et al. 2004) e (CUTTER 2003; 2010). Assim, a vulnerabilidade social está relacionada com a capacidade de resistência e resiliência das sociedades e territórios com potencialidades de serem afetados por processos perigosos (CUNHA et al. 2011).
Gráfico 1- Distribuição populacional por bairro e faixa etária
Fonte: O autor.
Gráfico 2- Distribuição por gênero e bairro.
Fonte: O autor. 18,88 32,17 18,88 30,07 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 30,00 35,00 Masc Fem % d e en trev is ta s
Bairro Industrial Vila do Conde
8,39 16,78 8,39 8,39 5,59 3,50 0,70 7,69 11,89 10,49 6,99 11,19 1 6 - 2 0 2 0 - 3 0 3 0 - 4 0 4 0 - 5 0 5 0 - 6 0 6 0 O U M A I S % DE ENTREVISTADOS FA IXA ET A R IA
No que diz respeito a escolaridade, o ensino fundamental incompleto é grau de estudos que apresenta a maior frequência entre os entrevistados, correspondendo a 35%, tendo concentrada aqui a faixa etária acima dos 50 anos de idade corresponde a 51,92% dos que possuem esse nível de escolaridade. Já entre os que possuem o ensino médio completo representam 31% do total da amostra, sendo a maior parte jovens até 30 anos de idade, correspondendo a 37,5% (Gráfico 3). Para Torres (2000) uma escolaridade baixa implica em dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e bons empregos, muitas vezes tendo a informalidade como a única opção ou mesmo o sendo esses indivíduos sendo submetidos ao desemprego, apresentando assim baixos salários, o que impossibilita na maioria das vezes de se estabelecerem em locais menos vulneráveis a desastres.
Entre esse grupo de baixa escolaridade (sem escolaridade e fundamental incompleto) é representado em sua maioria por mulheres, sendo 42 entrevistadas repassaram essa informação correspondendo a 29,37% do total dos entrevistados, e quando comparado apenas com as mulheres que participaram da pesquisa chegamos ao percentual de 47,19%. De acordo com Silva e Gama (2018), essa estatística reflete o fato das quais muitas vezes começam a estudar mais tarde ou ainda engravidam cedo tendo que assim abandonar os estudos, sendo observado que entre muitas entrevistadas sendo mais jovens e com uma ou mais crianças.
Gráfico 3- Escolaridade Fonte: O autor. 2,80 16,08 3,50 10,49 15,38 1,40 1,40 0,00 4,20 18,88 4,20 2,10 15,38 0,70 2,10 1,40 0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 12,00 14,00 16,00 18,00 20,00 SEM ESCOLARIDADE
EFI EFC EMI EMC ESI ESC Não
Responderam % d e e n tr e vi stad o s
Em relação aos rendimentos familiares observa-se que a maior parte dos entrevistados, 86, o que corresponde à 60,14% dos moradores, possui renda familiar de até um salário mínimo, e levando em consideração que 11,19% dos entrevistados afirmam não terem qualquer fonte de renda o percentual de famílias com renda até 1 salário mínimo chegaria a 71,33% (Gráfico 4). Entre os entrevistados que informaram possuir renda entre 1 e 3 salários mínimos foi de 27 (vinte e sete) famílias, correspondendo a 18,88% e somente 8 (oito) famílias apresentaram renda superior a três salários mínimos cujo percentual corresponde a 5,59%. Com essa renda, de acordo com os dados levantados, as famílias precisam sustentar uma média de quatro pessoas. Assim, a renda informada de forma predominante na pesquisa é insuficiente para a manutenção adequada de uma família com 4 membros que seria de R$ 3.960,57 (três mil, novecentos e sessenta reais e cinquenta e sete centavos) em 2018 (DIEESE 2018).
A baixa renda é um fator importante nas questões referentes à exposição dessa população às condições de risco ambiental. Isso porque, as áreas de risco ambiental, muitas vezes, são as únicas acessíveis às populações de baixa renda (TORRES, 2000). Considerando que os diferentes grupos sociais possuem acesso diferenciado a bens de qualidade ambiental, a exposição aos riscos evidencia uma situação de desigualdade ambiental agravada pela desigualdade social. Dessa forma, em regiões pobres, onde a renda da maioria das famílias é de até 1 salário mínimo, a proporção de pessoas vivendo em áreas de risco é bem maior que em regiões de classe média e alta (ALVES, 2007).
Os riscos ambientais são distribuídos desigualmente entre os grupos sociais, pois aqueles grupos com menores rendas tenderiam a estar mais expostos e ter menos condições de tornarem medidas que possam prevenir, ou ainda maior dificuldade em retomar a sua normalidade após um acidente, tendo assim um maior grau de vulnerabilidade (ALVES, 2007). Adicionalmente, quanto maior o número de pessoas por domicílio, maior será a necessidade de partilhar os recursos comuns, como consequências ocorrem dificuldades para assegurar a saúde, nutrição e educação (DIEESE, 2018).
Gráfico 4- Renda familiar
Fonte: O autor.
Com relação ao tempo de moradia da população entrevistada, foi possível verificar que 40 entrevistados (27,97%) já se encontram residindo na área há mais de 30 anos nos seus respectivos bairros e apenas 20 famílias (13,99%) encontram-se na localidade há menos de 5 anos (Gráfico 5). Ribas et al. (2010) afirmam que o tempo de residência num dado local é um fator importante que contribui para a formação de identidade da população com o lugar. Esta identificação tem como principais influências a qualidade ambiental frente as necessidades do indivíduo e a transformação dos locais indiferentes em lugares singulares. Estes aspectos podem gerar dificuldades na implementação de políticas públicas as quais possam visar o remanejamento dessa população para outras áreas,visando assim a formulação de propostas centradas nas pessoas que consideram a importância da interação dos sistemas socioculturais e ambientais (PERICO, 2009).
Muitos moradores em Vila do Conde relatam que residem na localidade desde o seu nascimento, e que seus pais e seus avós também residiram ou residem lá. Ou ainda, no caso do bairro Industrial, se estabeleceram no mesmo desde o seu início, na década de 1990, com o início das atividades industriais na região. No entanto, a expansão da urbanização continua,
6,99 32,87 8,39 2,80 0,00 4,20 27,27 10,49 2,80 4,20 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 30,00 35,00
Nenhuma renda Até 1 salário mínimo De 1 a 3 salários mínimos De 3 a 6 salários mínimos Não Responderam % d e e n tr e vi stad o s
principalmente no bairro Industrial, que fica mais próximo a barragem desse estudo. Fato bastante relatado pelos entrevistados é que já nasceram no local e acabaram herdando a moradia dos pais, ou até mesmo, ter vindo para a comunidade quando ainda criança.
Gráfico 5 - Tempo de residência em anos.
Fonte: O autor.
Os resultados para o número de ocupantes por residência mostraram uma predominância com 3 ou 4 habitantes por moradia, correspondendo a 40,56% das residências visitadas, sendo 4 o número médio de pessoas por habitação (Gráfico 6). No entanto, também foram observados casos de que em uma única residência havia 10 ou mais pessoas coabitando, trazendo assim uma maior vulnerabilidade a essas habitações, tanto pela divisão da renda como pela própria condição em que as pessoas ocupam as acomodações.
11,19 4,90 18,88 9,79 3,50 1,40 2,80 2,10 3,50 4,20 4,20 3,50 26,57 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 30,00 0 - 5 5 - 10 10 - 15 15 - 20 20 - 25 25 - 30 30 OU MAIS % d e e n tr e vi stas
Gráfico 6 - Número de pessoas por residência.
Fonte: O autor.
Com relação ao número de crianças por residência, de modo geral, as residências apresentam um número de moradores entre 3 e 4 pessoas, na sua maior parte composta por 2 adultos e 1 ou 2 crianças (Gráfico 7). Observa-se uma maior concentração de crianças no bairro industrial onde 71,2% das residências deste bairro possuem crianças correspondendo a 36,36% do total de entrevistados e em Vila do Conde temos 52,9% das residências com crianças correspondendo a 23,78% do total de entrevistados, assim temos 60,14% das residências da área de estudo com pelo menos uma criança.
0,70 6,99 13,99 12,59 6,29 4,90 2,10 2,10 0,70 0,70 4,90 5,59 5,59 8,39 9,09 4,90 4,20 1,40 0,70 4,20 0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 12,00 14,00 16,00 % d e en trev is ta s
Gráfico 7- Número de crianças por residência.
Fonte: O autor.
Além do elevado número de crianças por residência, as pessoas portadoras de necessidades especiais (PNE) representam 2,74% das entrevistas do bairro Industrial e 1,43% na Vila do Conde (Gráfico 8). Esta estatística representa uma maior preocupação para as autoridades pelo aumento da vulnerabilidade de um grupo que necessita de uma maior atenção do poder público para o atendimento, tal como definido na Lei 12.608, de abril de 2012 e no Glossário de Defesa Civil (1998). 26,57 4,20 2,80 2,80 14,69 16,78 4,90 1,40 0,70 25,17 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 30,00 1 2 3 4 não possui crianças % d e r es id ên cias com vrian ças
Gráfico 8 - Categorias especiais de vulnerabilidade
Fonte: O autor.
6.3 PERCEPÇÃO DE RISCO
Ao analisar a percepção de risco são apresentados os resultados a seguir:
Sobre o seguinte questionamento “Você acha, sente, ou percebe que há riscos no lugar onde mora? Se sim, quais? E qual a causa?” foram enquadrados em “tipos de risco” que envolvem, dentro outros, a segurança, barragem de mineração, poluição ambiental e risco à saúde (Gráfico 9, Tabela 2). Como resposta 15 entrevistados disseram não perceber ou achar que estão expostos a qualquer tipo de risco. No entanto 127 dos entrevistados, o que corresponde a 88,81%, afirmam que estão vivendo sob algum tipo de risco, e destes 23% apontam problemas com barragens no bairro Industrial e 6% na Vila do Conde.
71,23 9,59 2,74 52,86 27,14 1,43 0,00 10,00 20,00 30,00 40,00 50,00 60,00 70,00 80,00
Crianças Idosos PNE
% d e en trev is ta s
Tabela 2 - Tipos de riscos relatados pelos entrevistados.
Quais os riscos a que está exposto? Bairro Tipo do risco Nº % Citações
Bairro Industrial
Criminalidade 2 1,40 "Aqui tem aumentado os crimes e os assaltos"
Problemas
com barragens 33 23,08
"A gente ficou com medo da bacia de rejeitos transbordar para o igarapé no inverno"
Poluição
Ambiental 7 4,90 "O risco maior é a poluição decorrente das indústrias"
Risco a saúde 1 0,70 "Risco a saúde, o que me preocupa mais é o olho
inflamado e a sinusite"
Poluição da
água 11 7,69
"Risco de contaminação da água pelo rompimento da barragem"
Poluição do ar 19 13,29 " A poluição do ar causada pelo pó branco, tem dias que já
amanhece tudo branco nas plantas"
Não identifica
nenhum risco 4 2,8
“Não acho que tem perigo de explodir caldeira ou de quebra de barragem”
Vila do Conde
Criminalidade 3 2,10 "Agora a gente vê muito o consumo de drogas"
Problemas
com barragens 9 6,29
"A bacia da Hydro é uma bomba relógio e já teve vários problemas com a bacia da Ímerys causando a poluição do ar e da água."
Poluição
Ambiental 12 8,39
"Aqui tem a poluição ambiental que é causada pelas empresas"
Risco a saúde 1 0,70 "Risco a saúde humana por conta das doenças
respiratórias pela poluição do ar que vem das empresas"
Poluição da
água 35 24,48
"A poluição da água por causa do acidente com os bois e do vazamento de caulim"
Poluição do ar 26 18,18 "O risco são as empresas, ontem amanheceu tudo branco
de caulim, mas depois que chove desaparece"
Não identifica
nenhum risco 12 8,39
“O pessoal fala que o Conde é poluído, mas ‘o pessoal pesca’, então no momento não tem contaminação”
Os riscos relacionados a barragem também foram bastante expressivos com 29,37%, assim como a poluição ambiental de modo geral sendo citada aproximadamente por 15% os entrevistados. É interessante a indicação da barragem como o principal risco no bairro Industrial, a qual provavelmente se deve ao fato de acontecimentos de acidentes diversos (CPC RENATO CHAVES, 2017) com essas estruturas na proximidade desta localidade. Podemos destacar o acidente ocorrido em junho de 2007, onde foram constatadas fissuras na Bacia B3 e mais recentemente em outubro de 2016 onde observou-se o vazamento de caulim na baia do Marajó (CPC RENATO CHAVES, 2017)
Um pequeno grupo se referiu a riscos relacionados à criminalidade, correspondendo a apenas 3,6%. Jacobi (2006) afirma que as áreas periféricas comportam situações de risco diversas, inclusive a problemática da violência relacionada à homicídios, tráfico de drogas, policiamento insuficiente é alta nas áreas com população de baixa renda.
Gráfico 9 - Riscos relatados pelos entrevistados.
Fonte: O autor. 7,69 13,29 23,08 4,90 1,40 0,70 2,80 24,48 18,18 6,29 8,39 2,10 0,70 8,39 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 30,00 Poluição da água
Poluição do ar Problemas com barragens
Poluição Ambiental
Criminalidade RIsco a saúde Não Identificam nenhum risco % d e en trev ista d o s
Quando perguntado a Causa dos Riscos, entre os entrevistados que responderam afirmativamente, 48% relaciona os mesmos às atividades industriais no bairro Industrial e 8% na Vila do Conde. Foi expressivo a quantidade de entrevistados que afirmaram não saber identificar a causa dos riscos na Vila do Conde, 40% dos entrevistados (Gráfico 10). Pode-se explicar a diferença nos resultados pelo fato do bairro Industrial está muito próximo das barragens e o bairro da Vila do Conde ter sido afetado por outros tipos de riscos tecnológicos como derramamento de óleo e afundamento de balsas (SCOLESE, 2000). De acordo com Cutter (2011) à exposição e a proximidade aos riscos está associado com aumento da vulnerabilidade e da percepção de risco.
Gráfico 10- Causas dos riscos informados pelos entrevistados.
Fonte: O autor.
A percepção dos moradores da área de estudo aponta para a compreensão de que estão sob riscos ambientais. Aproximadamente 27,27% dos entrevistados relacionam esses riscos às barragens (Gráfico 12). Considera-se que a percepção de risco, relacionada as barragens no bairro Industrial, é maior que em Vila do Conde, pois, este bairro foi diretamente impactado devido à proximidade da Bacia B3. 48,82 0,79 1,57 8,66 40,16 0 0,00 10,00 20,00 30,00 40,00 50,00 60,00
Industrias Não sabem Outros
% d e en trev is ta d o s
Já as atividades industriais, são citadas por 26 entrevistados (18,18%), quando associadas ao risco ambiental, aqui prevalecendo as citações nas entrevistas realizadas em Vila do Conde. Quando somados, os dois itens alcançam um elevado percentual, chegando a 45,45% dos entrevistados. Portanto a percepção dos riscos pela população está diretamente ligada a alguma atividade industrial. No entanto, é interessante ressaltar que 4 entrevistados (2,80%) acreditam que não estão expostos a nenhum tipo risco ambiental.
Durante a atividade de campo menções indicando o motivo pelo qual se acredita estas em risco, variavam em temas ambientais, mas sempre relaciona à atividade industrial, tais como:
“O risco aqui é devido a poluição das indústrias”, “[riscos com] o rompimento da bacia, pois atingiu os ribeirinhos”, “com o vazamento do caulim e com o cloro os peixes aparecem tudo boiando na água branca” e “Me sinto em risco devido a contaminação por produtos químicos das empresas”. Menções com preocupação relaciona à saúde também apontam problemas com a
qualidade do ar e da água em ambos os bairros. Problemas na pele, respiratório e oftalmológicos também são relatados nos seguintes depoimentos do bairro Industrial: “[temos] Riscos com relação
a saúde, aqui tem doenças respiratórias e da pele”, “O pessoal diz que tem coceira na praia e no igarapé, tem problema que vem da fábrica” e “O risco é por conta da poeira branca e preta” e “O que me preocupa mais é a saúde, os olhos inflamados e a sinusite” na Vila do Conde.
Gráfico 11- Motivos pelos quais acredita estar em risco.
Fonte: O autor. 21,68 4,90 6,99 7,69 6,99 8,39 3,50 0,70 5,59 13,29 9,79 8,39 8,39 6,99 4,90 2,10 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 Riscos relacionados a barragem Atividade Industrial Polioção do ar
Risco à saúde Poluição da água Poluição ambiental Não soube responder Não se sente em risco % d e r es p o sta s
O grau de risco foi investigado a partir de uma escala de intensidade de muito alto a baixo do ponto de vista do entrevistado. No bairro Industrial 32% se reconhecem em situação de muito alto e alto risco, enquanto que na Vila do Conde 27,34 se identificam nesta escala de intensidade de risco. Ambos os bairros se identificam em 28% em risco com intensidade média e 12% da área de estudo apontam o risco baixo para o local que moram.
O fato de o bairro industrial estar mais próximo a barragens e sofrer mais intensamente com os problemas pretéritos com as barragens de caulim é possível compreender que a esta população se vê sob maior tensão, principalmente quando se encontra no período chuvoso, sendo superior a 50% do número de entrevistados que acreditam estar em um nível de risco alto ou muito alto, fato este que remete aos vários desastres já ocorridos anteriormente aqui relatados.
Gráfico 12 - Percepção do grau de risco dos entrevistados.
Fonte: O autor.
Acerca das atitudes que seriam tomadas pelos entrevistados em caso de evento de risco foi possível ao entrevistado indicar mais de uma resposta (Gráfico 13). Os resultados em ambos os bairros foram solicitar ajuda aos vizinhos já que 43 pessoas informaram esta resposta. Buscar ajuda junto aos Corpo de Bombeiros figura em 24% dos entrevistados em ambos os bairros, seguido de
4,32 15,11 18,71 13,67 7,91 12,95 23,02 4,32
Grau de risco
Baixo Médio Alto Muito Alto Vila do Conde Bairro IndustrialDefesa Civil, 5% das pessoas no bairro Industrial e 11% na Vila do Conde. A busca pelo Centro Comunitário, Centro de Referência em Assistência Social (CRAS), outros órgãos governamentais e parente não era mencionada como primeira opção e não correspondem a menos de 7% em cada bairro. Apenas entrevistados no bairro Industrial (5%) disseram que procurariam a empresa.
No entanto, ficou evidente a descrença para com a rapidez e eficiência das ações dos órgãos do poder público em relação a uma resposta a um possível acidente ambiental proveniente da barragem, assim sendo teriam como primeira atitude buscar apoio junto aos vizinhos, demonstrando uma relação de confiança entre os membros da comunidade e apoio mutuo, podendo estar aí uma possível abordagem para as ações de prevenção e ação e que atitudes tomar em caso de desastres. Como no caso citado a seguir em um relato ocorrido no bairro Industrial: “O governo
não dá apoio pra gente e os bombeiros ficam longe, então é mais fácil pedir ajuda pros vizinhos”
Gráfico 13- Local onde procuraria ajuda indicado pelos entrevistados.
Fonte: O autor. 16,08 14,69 5,59 3,50 0,00 0,00 5,59 4,20 0,00 0,00 13,99 9,79 11,19 6,99 6,99 1,40 0,00 3,50 0,70 0,70 0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 12,00 14,00 16,00 18,00 % d e en trev is ta d o s