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Euro-Latin American Parliamentary Assembly Assemblée Parlementaire Euro-Latino Américaine
Asamblea Parlamentaria Euro-Latinoamericana Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana
ASSEMBLEIA PARLAMENTAR EURO-LATINO-AMERICANA
Comissão dos Assuntos Políticos, da Segurança e dos Direitos Humanos
14.4.2008
DOCUMENTO DE TRABALHO
Uma Carta Euro-Latino-Americana para a Paz e a Segurança.AP100.229v01-00 2/11 DT\706122PT.doc
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Introdução: paz e segurança no contexto internacional
No sistema internacional contemporâneo, nenhum Estado pode enfrentar isoladamente as diferentes ameaças à própria segurança, que passaram a caracterizar-se pela sua natureza transnacional. As novas ameaças globais, quer resultem de novas realidades geoestratégicas ou de outras diferentes problemáticas de carácter social, estão fortemente relacionadas entre si, pelo que, para serem enfrentadas com êxito, devem ser tratadas a todos os níveis (local, nacional, regional e global). Não se pode, portanto, continuar, como no passado, a centrar o panorama de segurança da humanidade exclusivamente em torno do binómio paz-guerra, embora este continue a revestir-se, ainda hoje, de uma importância inegável. Com efeito, os problemas relativos à paz e à segurança no mundo actual requerem que se preste uma grande importância a outra grande série de questões importantes, entre as quais, sem ser excessivos, incluímos a distribuição desigual da riqueza, a fome generalizada entre os mais pobres, a violação dos direitos humanos, a exclusão das minorias na tomada de decisões, o esgotamento progressivo das fontes de energia e dos recursos naturais, as migrações maciças e imparáveis, os efeitos crescentes da degradação do meio ambiente, etc. Em síntese, a paz e a segurança internacionais estão intimamente ligadas entre si, tal como a solução ou, pelo menos, a atenuação dos problemas graves que enfrenta a sociedade internacional.
Consciente deste novo panorama multidimensional, a comunidade internacional aprovou, no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) uma série de convenções de alcance geral para travar ou, pelo menos, atenuar estas ameaças, e entre as quais destacamos o Tratado da Não Proliferação de Armas Nucleares, a Convenção contra o Crime Organizado Internacional e a Convenção sobre a Utilização, Detenção, Produção e Transferência de Minas Antipessoal e a sua destruição. Neste contexto, a fim de coadjuvar a acção das Nações Unidas com base na sua opção comum pelo multilateralismo, a Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana propôs, na sua Resolução de 20 de Dezembro de 2007, a elaboração de uma Carta Euro-Latino-Americana para a Paz e a Segurança. Com base na Carta das Nações Unidas e nos valores e posições comuns a ambas as regiões, consagrados na
Declaração da Cimeira UE-ALC de Madrid (2002) e reiterados nas Cimeiras subsequentes de Guadalajara (2004) e Viena (2006), a Carta Euro-Latino-Americana para a Paz e a Segurança deverá permitir elaborar conjuntamente propostas políticas estratégicas e de segurança sobre uma gama variada de temas e desafios comuns, mais adiante referidos, com o objectivo comum de reforçar a estabilidade política e social, assim como a governabilidade na área euro-latino-americana e, dessa forma, a paz e a segurança mundiais.
A Associação Estratégica enquanto base para a Carta Euro-Latino-Americana para a Paz e a Segurança
O estabelecimento da Associação Estratégica Bi-Regional remonta à primeira Cimeira UE-ALC, realizada no Rio de Janeiro, em 1999, e, desde então, concretizou-se numa relação forte nos mais diversos âmbitos. A razão para estabelecer a Associação foi a vontade de enfrentar em comum e da melhor forma possível os diversos problemas geopolíticos e de promover o desenvolvimento sustentável, a paz e a prosperidade em benefício mútuo das duas regiões e dos seus cidadãos. A Associação Estratégica baseia-se em três pilares fundamentais: a intensificação do diálogo político, o reforço da cooperação e a intensificação das relações comerciais. A Associação tem também o objectivo de aumentar o peso e a capacidade de negociação dos parceiros euro-latino-americanos na cena internacional a partir de uma
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perspectiva comum sobre muitos dos desafios que enfrentam devido aos laços comuns quetêm com o mundo ocidental. A UE e a ALC preconizam um sistema internacional baseado no princípio do multilateralismo e desejam um reforço real das Nações Unidas, especialmente em matéria da não proliferação de armas de destruição maciça, luta contra o crime organizado internacional e promoção dos valores comuns que são os direitos humanos, a democratização, o Estado de direito, o desenvolvimento sustentável e a coesão social. Neste contexto, a Carta Euro-Latino-Americana para a Paz e a Segurança vem reforçar e aprofundar a dimensão política da Associação Bi-Regional, identificando a situação real aquando da aprovação e aplicação pelos países dos instrumentos internacionais e regionais existentes em domínios relativos à paz e à segurança, e elaborando propostas e acções conjuntas sobre as referidas matérias.
As novas ameaças comuns para a UE-ALC
As transformações que ocorreram durante as últimas décadas esboçaram um cenário muito mais complexo de carácter multidimensional em matéria de paz e de segurança. Os Estados europeus e latino-americanos enfrentam, além das ameaças tradicionais, outras mais amplas, com ramificações políticas, económicas, sociais, sanitárias e ambientais complexas, perante as quais importa reagir de forma concertada. Isto implica criar novos mecanismos para aumentar os fluxos de informação entre ambas as regiões e possibilitar a acção comum. Estas novas ameaças, não tradicionais, nem sempre resultam de políticas governamentais: surgem de acontecimentos sociais, ambientais e outros, pelo que as políticas destinadas a contê-las são muito mais complexas. Incluem, sem exagero, a pobreza, as pandemias e as doenças infecciosas, a degradação do ambiente, a guerra e a violência interna, a proliferação e possível utilização de armas nucleares, químicas e biológicas, o terrorismo e a delinquência organizada internacional.
1.- O terrorismo
Apesar de a Cimeira Mundial das Nações Unidas de 2005 não ter podido cegar a acordo sobre uma definição concreta do terrorismo, e enquanto não se chegar a uma definição de terrorismo internacional que seja de aceitação geral, a co-relatora propõe que se mantenha a definição dada pelo antigo Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan1, que é de maior alcance que a definição proposta pela própria União Europeia2. Por outro lado, o terrorismo não só afecta directamente a segurança dos cidadãos nos lugares onde ocorrem os atentados, como também se caracteriza actualmente por enfraquecer e afectar a segurança humana e aumentar a incerteza dos cidadãos no mundo inteiro, banalizando assim a distinção tradicional entre terrorismo interno e internacional. Em maior ou menor escala, de forma mais ou menos directa, trata-se de uma ameaça que afecta o conjunto dos parceiros
1 "Além das acções já proibidas pelos convénios e convenções existentes, constitui terrorismo toda a
acção destinada a provocar a morte ou dano físico grave a civis ou a não combatentes, com o fim de intimidar a população ou obrigar um governo ou organização internacional a fazer ou não fazer alguma coisa". (Definição inicialmente proposta pelo Grupo de Alto Nível sobre as Ameaças, os Desafios e a mudança, no seu Relatório de 2 de Dezembro de 2004).
2 A Decisão-Quadro 2002/475/JAI do Conselho, de 13 de Junho de 2002, relativa à luta contra o terrorismo,
define este último como todos os actos cometidos com o fim de ameaçar a população inocente e destruir e afectar seriamente as estruturas políticas e económicas de um país, cometidos por um ou mais indivíduos contra um ou mais países.
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americanos.
Referindo apenas a União, basta recordar que 11 dos Estados-Membros foram alvo de um total de 498 ataques terroristas no ano de 2006, se bem que, apesar do seu elevado número a grande maioria apenas tenha provocado danos materiais1. Por outro lado, em matéria de luta antiterrorista, merece particular atenção o facto de organizações criminosas ou terroristas poderem adquirir armas nucleares através do mercado negro. Com efeito, o fim da guerra fria desmantelou armas nucleares e removeu os materiais necessários para as produzir sem que, em muitos casos, tenham sido respeitadas as medidas de segurança adequadas no que se refere ao controlo dos locais de armazenagem e dos reactores de investigação nuclear nos países que integravam a ex-URSS. Esboçou-se assim uma nova ameaça real que consiste na
possibilidade de certos componentes essenciais e armas nucleares completas escaparem ao controlo dos Estados e chegarem ao mercado negro, à disposição de Estados instáveis, grupos terroristas, narcotraficantes, grupos do crime organizado, etc.
2.- Delinquência e Crime Organizado
O peso do crime organizado na economia mundial é considerável. Gera lucros anuais estimados em 500.000 milhões de dólares2, o que forma um obstáculo à elaboração e à eficácia dos diferentes instrumentos internacionais criados para combater esta ameaça, que assim se converte num problema transnacional, e que, por conseguinte, afecta os parceiros euro-latino-americanos. Por outro lado, o crime organizado internacional, além de corroer a estabilidade e a prosperidade interna dos Estados, constitui o meio por excelência para facilitar a circulação transfronteiriça de outros abusos que afectam gravemente a paz e a segurança internacionais. Com efeito, a corrupção, o tráfico ilícito, o tráfico de seres humanos e o branqueamento de capitais são factores de instabilidade que contribuem para debilitar o Estado, impedem o crescimento económico e lesam a democracia, criando um ambiente que propicia inclusivamente um conflito civil. Enfim, o crime organizado prejudica igualmente as actividades de manutenção da paz e alimenta numerosas guerras civis devido ao tráfico ilícito de armas de todo o género e ao recurso aos seus conhecidos métodos de corrupção e de extorsão.
3.- Tráfico de Droga
O crescimento mundial da cocaína afecta a América Latina de forma muito importante. A maior parte da cocaína a nível mundial é produzida na Colômbia (50%), no Perú (32%) e na Bolívia (15%). Por outro lado, o consumo da cocaína está a aumentar na Europa, pelo que a União tem um interesse directo, e uma responsabilidade partilhada, em resolver os problemas da produção, do consumo e do tráfico de droga na América Latina. O tráfico de droga, uma das principais actividades dos grupos delinquentes internacionais, tem vastas repercussões sobre a segurança, o que seria longo examinar aqui. Basta lembrar que, em algumas regiões, os enormes lucros que esta actividade gera superam o PIB de certos
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Europol, TE-SAT, EU terrorism situation and trend report 2007, no sítio
http://www.europol.europa.eu/publications/EU_Terrorism_Situation_and_Trend_Report_TE-SAT/TESAT2007.pdf
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Relatório do Grupo de Alto Nível sobre as ameaças, os desafios e as mudanças, "Um Mundo mais seguro: a Responsabilidade que partilhamos". in: http://www.un.org/spanish/secureworld/report_sp.pdf.
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países, comprometendo deste modo a autoridade do Estado, o seu desenvolvimentoeconómico e o império da lei. Por outro lado, numerosos grupos terroristas encontram no tráfico de droga uma importante fonte de rendimentos, que lhes permite desenvolver as suas actividades.
4- Tráfico de Pessoas
O aumento da migração trouxe consigo de forma alarmante o incremento do delito do tráfico de pessoas, em virtude das difíceis condições de vida que imperam nos países menos desenvolvidos. Com efeito, a migração constitui hoje um tema cada vez mais importante na agenda Norte - Sul. No que diz respeito às relações UE - ALC, registou um acentuado aumento nesta última década, sendo os países do sul da Europa (Itália, Espanha, Portugal) os principais destinos dos latino-americanos. As vítimas do delito do tráfico de seres humanos ficam à mercê das redes criminosas internacionais e, por isso, numa situação de
vulnerabilidade e expostas a uma série de vexames e sevícias. O tráfico de seres humanos, ao violar os direitos humanos mais elementares e toda a legislação nacional e internacional aplicável, representa uma ameaça inaceitável, a que os parceiros euro-latino-americanos devem fazer face de forma conjunta e coordenada.
5.- Corrupção e Lavagem de Dinheiro
Como já foi dito, o narcotráfico e o crime organizado geram imensos efeitos
colaterais, incluindo a corrupção e a lavagem de dinheiro, que lesam a democracia, atrasam o desenvolvimento e contribuem para desestabilizar os governos. A corrupção prejudica
desproporcionadamente os pobres, ao desviar fundos destinados ao desenvolvimento,
minando assim a capacidade dos governos de proporcionar os serviços básicos, através do que se alimenta a desigualdade e a injustiça e se desincentiva o investimento estrangeiro. Enfim, a lavagem ou o branqueamento de dinheiro alimenta a corrupção, nutre a crime organizado e permite aos grupos terroristas obter os recursos necessários para a compra de armas.
6.- Pobreza Extrema e Desigualdade Social
O mundo actual caracteriza-se por uma desigualdade considerável e, pior ainda, crescente, o que origina reptos adicionais ao sistema internacional e aos governos nacionais. Desde 1990 que o rendimento per capita nos países em desenvolvimento aumentou cerca de 3%, mas, paralelamente, aumentou em mais de 100 milhões o número das pessoas que vivem em situação de extrema pobreza, e em pelo menos 54 países diminuiu o rendimento médio per capita1. A crescente pobreza vem a par com um aumento da desigualdade em geral, o que constitui um obstáculo importante para o desenvolvimento económico duradoiro e, em última instância, uma ameaça à estabilidade.
A distribuição desigual dos rendimentos tem sido desde há muito tempo um dos traços distintivos mais marcantes da América Latina e das Caraíbas, associada a taxas de pobreza elevadas. Com efeito, metade da riqueza concentra-se em 10% da população e mais de 200 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar de pobreza. Além disso, a precariedade e a
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Relatório do Grupo de Alto Nível sobre as ameaças, os desafios e as mudanças, "Um Mundo mais seguro: a Responsabilidade que partilhamos". in: http://www.un.org/spanish/secureworld/report_sp.pdf
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marginalização afectam amiúde as populações indígenas e as minorias étnicas1. Não é necessário recordar que os conflitos que levam à violência civil se agravam com frequência quando a pobreza se junta às desigualdades étnicas ou religiosas. E, mesmo que não alcancem a condição de conflito aberto, a explosão demográfica, a pobreza e o desemprego têm
originado também com frequência o aumento da violência de gangs em muitas cidades do mundo em desenvolvimento, o que, no que diz respeito à região da América Latina, é particularmente evidente no caso da América Central.
7. As alterações climáticas
As alterações climáticas constituem um dos desafios mais dramáticos que a humanidade deverá enfrentar nos próximos anos. A subida das temperaturas, a fusão dos glaciares e a multiplicação das secas e inundações podem ter consequências desastrosas para a segurança humana. A região latino-americana está particularmente dotada de riquezas naturais e de uma biodiversidade extraordinária. Infelizmente, o seu meio ambiente está também ameaçado, principalmente pela desflorestação e pela sobre-exploração dos recursos naturais com consequências nefastas e riscos naturais que afectam sobretudo as populações mais pobres. A segurança e a prosperidade dos países da UE, da América Latina e das Caraíbas depende, portanto, da boa gestão dos recursos naturais e da sua capacidade de assegurar o desenvolvimento sustentável das suas economias.
8. A segurança energética
Os países da União Europeia e os países da América Latina e das Caraíbas encontram-se em situações distintas em matéria energética. Com efeito, enquanto a UE é importadora líquida de energia e mais de 50% do seu consumo de energia provém das importações, os países latino-americanos, salvo excepções como o Chile, o Uruguai e o Paraguai têm reservas de gás e petróleo suficientes para abastecer os seus mercados internos. Tal não diminui, porém, a necessidade de uma acção conjunta e em moldes complementares. Por exemplo, tanto para os países latino-americanos como para os europeus é importante a estabilidade na América Latina, já que uma instabilidade regional prolongada poderia também afectar negativamente o preço e a produção internacional de gás e petróleo, dando origem a uma situação de instabilidade no mercado energético mundial. De igual modo, ambos partilham do interesse de que nunca, para além dos legítimos interesses económicos e comerciais, a energia e o abastecimento energético possam converter-se num instrumento de pressão política.
Conteúdo da carta Euro – Latino-Americana para a Paz e a Segurança
1.- Valores e princípios partilhados
A Carta aspira a ser um guia de comportamento no domínio da paz e da segurança e a fixar e reunir posições comuns, reforçando deste modo a cooperação e a solidariedade em ambos os lados do Atlântico. O respeito pela democracia, a promoção e a defesa dos direitos humanos e o multi-lateralismo são elementos presentes na política externa da União Europeia e na actuação das suas instituições, que encontram a sua correspondência, sob fórmulas próprias, na América Latina e nos diversos processos de integração desta região. Os parceiros
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Euro – Latino-Americanos partilham a convicção comum de que a democracia, a promoção ea protecção dos direitos humanos, o Estado de Direito e o respeito pelo direito internacional são essenciais para alcançar a paz e a segurança, já que valores ligados ao desenvolvimento económico susceptível de garantir o progresso social exigido pelos seus cidadãos. Uns e outros acreditam firmemente que a existência de regimes democráticos e a erradicação da pobreza em ambas as regiões reforçam as relações de paz, de amizade, de entendimento e de cooperação mútua entre os governos da Europa e da América Latina, em benefício dos seus povos. Por outro lado, contribuem para reforçar a estabilidade interna de certos Estados que, em muitos casos deveriam ser modernizados, bem como os seus partidos políticos e requerem a integração no processo de tomada de decisões de todos os sectores da população nacional, incluindo indígenas, mulheres e outros sectores marginalizados.
Os países Europeus e Latino-Americanos aderiram aos objectivos e princípios
enunciados na Carta das Nações Unidas e noutras Cartas à escala regional, tais como a Carta para a Segurança e Cooperação na Europa e a Carta da Organização dos Estados Americanos, que sustentam princípios comuns, designadamente: defesa do Estado de Direito e da
democracia como sistema de governo; aplicação do direito internacional humanitário;
abstenção do uso ou a ameaça de uso da força nas relações recíprocas; resolução pacífica dos conflitos; respeito do direito internacional e não ingerência nos assuntos internos. Por outro lado, ambos explicitaram o compromisso comum para com os valores e posições comuns a ambas as regiões, que constam da Declaração da Cimeira UE-ALC de Madrid 2002, reafirmados nas Cimeiras de Guadalajara (2004) e Viena (2006). Existe consequentemente uma base política e jurídica sólida para fundamentar os trabalhos da Assembleia no que respeita à Carta Euro – Latino-Americana para a Paz e a Segurança.
2.- Segurança e Defesa
Esta questão é tradicionalamente marginalizada nas relações UE-ALC, mas já deu origem a algumas posições comuns e realizações. Assim , por exemplo, as duas regiões entendem que a proliferação de armas de destruição massiva e dos seus vectores, assim como a disseminação das armas convencionais, constituem ameaças iniludíveis para a paz e para a segurança, pelo que adoptaram e lançaram um apelo à ratificação dos diversos instrumentos internacionais adoptados pela Comunidade Internacional. Entre as áreas prioritárias de cooperação, a Carta deveria, assim, incluir:
a promoção e a assinatura ou a ratificação dos instrumentos em matéria de desarmamento e proibição de determinadas armas, incluindo as Convenções para a Proibição de Armas Químicas e Biológicas, o Tratado de Não-Proliferação (TNP) e o Tratado de Interdição Completa dos Testes Nucleares;
a assinatura do Protocolo Contra o Fabrico e o Tráfico Ilícito de Armas de Fogo, suas partes, componentes e munições, que reforça a Convenção contra a Criminalidade Organizada Transnacional;
a ratificação e aplicação da Convenção de Otava sobre a Proibição das Minas Antipessoal e sua Destruição.
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a intensificação do diálogo político institucional (reuniões regulares dos ministros da defesa e de altos funcionários)
a prevenção de conflitos e as actividades do Centro Bi-Regional proposto medidas de fomento da confiança mútua
a cooperação nas operações de paz
o reforço das capacidades civis em caso de emergência a luta conjunta contra o tráfico de armas e de munições. 3.- Luta contra o terrorismo
Os Estados da UE e da ALC consideram o terrorismo uma das ameaças mais sérias para a paz e para a segurança internacionais, pelo que condenam todos os actos de terrorismo, independentemente da sua forma ou finalidade. Ambas as regiões estão igualmente de acordo qunto ao facto de que acções destinadas a eliminar este flagelo internacional devem ser levadas a cabo no quadro das leis internacionais e no respeito dos direitos humanos e do direito internacional humanitário. A Carta deveria abordar ainda questões como:
o respeito de todos os instrumentos internacionais acordados neste domínio no âmbito das Nações Unidas, bem como a assinatura, ratificação e cumprimento dos treze acordos internacionais e protocolos existentes relativos ao terrorismo e à luta contra o mesmo,
o reforço do diálogo político em matéria de terrorismo nos fora de diálogo bi-regional existentes, designadamente nas cimeiras UE-ALC,
a promoção e a elaboração de posições comuns, e eventualmente a adopção de acções comuns nos fora e organizações internacionais.
4.- Luta contra a delinquência e a criminalidade organizada
A Carta deve abordar impreterivelmente outras questões, tais como:
a ratificação e aplicação da Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade Organizada Transnacional e os três protocolos que a reforçam, como ponto de partida, a cooperação e coordenação em matéria de informação judiciária,
fórmulas de cooperação e programas de intercâmbio, acções conjuntas contra as “maras” (gangs juvenis), harmonização jurídica.
5.- Luta contra o tráfico de drogas
A cooperação em matéria de droga entre a América Latina e a UE intensificou-se a partir da criação do diálogo especializado no que respeita a luta contra a droga entre a UE e a região andina. Em1998, foi criado o Mecanismo de Coordenação e Cooperação para reforçar, de um modo geral, o diálogo sobre a UE e a ALC. As acções levadas a cabo já são conformes às convenções internacionais em vigor, incluindo a "Convenção Única de 1961 sobre
Estupefacientes", e "Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas" (1971), bem como "Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Estupefacientes e Substâncias Psicotrópicas" (1988)", com base nos seguintes princípios:
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- responsabilidade partilhada entre os países consumidores e produtores,- abordagem integrada, equilibrada e participativa, - desenvolvimento sustentável,
- conformidade com o directo internacional, designadamente, no pleno respeito da soberania e da integridade territorial dos Estados, da não ingerência nos assuntos internos e do conjunto de direitos humanos e liberdades fundamentais.
Por conseguinte, a Carta deve reflectir, neste âmbito, o apoio aos instrumentos das Nações Unidas, assim como aos princípios mencionados, dando particular destaque ao da responsabilidade partilhada entre os parceiros Euro – Latino-Americanos e, muito
particularmente:
à cooperação em matéria de precursores químicos
à cooperação e à coordenação em matéria de informação judiciária. 6.- Luta contra o tráfico de pessoas
A fim de lutar de forma coordenada contra o tráfico de pessoas é necessário reforçar a cooperação e a aplicação do princípio da responsabilidade partilhada entre os países de origem, trânsito e acolhimento. Assim, a Carta deveria incluir:
a adopção e a implementação, por ambas as regiões, da Convenção contra o Criminalidade Organizada e, em particular, dois dos seus protocolos complementares, relativos, por lado, à prevenção, repressão e punição do tráfico de seres humanos, particularmente mulheres e crianças e, por outro, ao tráfico ilícito de imigrantes por terra, mar e ar,
programas de apoio e atenção às vítimas, incluindo o programa AENEAS, específico à área da imigração e asilo, que já prevê assistência jurídica para às vítimas do tráfico de pessoas,
a cooperação e coordenação em matéria de informação judiciária. 7. – Luta contra a corrupção e a lavagem de dinheiro
Ambas as regiões partilham a convicção de que a corrupção e a lavagem de dinheiro atrasa o desenvolvimento económico, afectando muito em especial, a população mais carenciada. A Carta deve, pois, reflectir o apoio aos instrumentos das Nações Unidas e prever medidas adicionais adaptadas à realidade dos parceiros euro-latinoamericanos:
a adopção, aplicação e seguimento da Convenção de Mérida ou "Convenção das Nações Unidas contra a corrupção", como ponto de partida;
o intercâmbio de informações, a cooperação fiscal e a luta contra a evasão fiscal; a cooperação e a coordenação em matéria de inteligência policial e judicial. 8. – Acções conjuntas em prol da realização dos Objectivos do Milénio
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A Carta deve reflectir também a convicção comum dos parceiros de que a paz e a segurança estão intimamente ligadas ao desenvolvimento económico e social, pelo que só poderão ser alcançadas e mantidas se forem adoptadas todas as medidas necessárias para reduzir a pobreza, a desigualdade e a exclusão social. Do mesmo modo, a erradicação da pobreza e da exclusão reforçam o sistema democrático, a estabilidade e a prosperidade das sociedades euro-latinoamericanas. Consequentemente, a nova Estratégia de Programação 2007-2013 para a América Latina e as Caraíbas inspira-se na Declaração Conjunta do Conselho da União, da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu de 2005 "Consenso Europeu", que tem como eixos centrais a redução da pobreza, no âmbito do desenvolvimento sustentável, e os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. Assim, com base no referido Consenso e na experiência alcançada com o Programa EUROsocial para o fortalecimento da coesão social na América Latina e nas Caraíbas, a Carta Euro-Latinoamericana deveria incluir também uma referência a toda uma série de medidas positivas susceptíveis de contribuir para a realização dos Objectivos do Milénio, nomeadamente:
uma utilização do Instrumento de Financiamento da Cooperação para o Desenvolvimento da União ajustada às necessidades reais no terreno;
a utilização de recursos provenientes do Instrumento de Promoção da Democracia e dos Direitos Humanos da União para ajudas e programas destinados a melhorar a governabilidade, a institucionalidade democrática e a situação dos direitos humanos na América Latina;
a abertura aos países latino-americanos dos programas da UE nos domínios da formação, educação, cooperação científica e técnica, cultura, saúde e migração; o apoio a programas de reformas institucionais e fiscais;
o apoio à integração regional e a criação de um Fundo de Solidariedade Bi-regional; a afectação de recursos orçamentais suficientes.
9. – • Cooperação no domínio do meio ambiente e luta contra as alterações climáticas
Com base nos trabalhos das Nações Unidas e na aplicação das convenções sobre o ambiente, as alterações climáticas e a biodiversidade, a Carta deve reflectir claramente:
a prioridade concedida à cooperação em matéria de alterações climáticas e às políticas de prevenção do aquecimento global na agenda política UE-ALC;
o apoio mútuo às respectivas iniciativas ambientais no plano internacional, incluindo a adesão ao Protocolo de Quioto dos países que são grandes emissores e que ainda não são Parte do dito Protocolo, assim como o reforço e a coordenação de posições nas negociações dos instrumentos internacionais sobre o aquecimento global; dar um grande impulso ao comércio de emissões entre as duas regiões;
a criação de mecanismos partilhados no âmbito dos organismos internacionais da América Latina e das Caraíbas (como a Organização do Tratado de Cooperação Amazónica), a fim de decidir e financiar a protecção e o desenvolvimento sustentável das grandes reservas naturais do planeta;
o fomento de políticas ambientais e o reforço de cooperação, assim como o intercâmbio das melhores práticas adquiridas;
a elaboração de iniciativas conjuntas em domínios como as alterações climáticas, a desertificação, a energia (em particular, as energias renováveis e os biocarburantes), a
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água, a biodiversidade, as florestas e a gestão dos produtos químicos, com base noAcordo de Bali. 10. – Segurança energética
O tema energético é, sem dúvida, também, de vários de pontos de vista, um tema de extraordinário interesse para as relações UE-ALC, tal como evidenciado nos trabalhos e debates da Assembleia EuroLat que tiveram lugar por ocasião das suas duas sessões plenárias de Bruxelas (2007) e de Lima (2008). Tendo em consideração as suas implicações para a paz e a segurança dos parceiros, a Carta Euro-Latinoamericana deverá, pois, incluir toda uma série de referências ao tema da segurança do aprovisionamento energético, incluindo, pelo menos:
a rejeição da utilização da energia como instrumento de pressão política; o reforço da cooperação técnica em matéria energética, especialmente no
desenvolvimento de energias renováveis alternativas e ambientalmente sustentáveis; a identificação de outros princípios e acções comuns sobre esta matéria.
11. – Disposições gerais
A Carta Euro-Latinoamericana para a Paz e a Segurança deve manter um espírito integrador e de abertura. A sua elaboração, negociação e assinatura devem estar abertas a todos os
Estados-Membros da Associação Estratégica Bi-regional, assim como às Instituições da União Europeia, do Mercosul, da Comunidade Andina e do Sistema de Integração Centro-Americano.
A Carto Euro-Latinoamericana para a Paz e a Segurança deve ter um carácter vinculativo. A sua elaboração deve respeitar as Constituições dos Estados Partes, o Direito das instituições participantes, assim como a Carta das Nações Unidas, o Direito Internacional e as
Convenções Internacionais em vigor. Não deve conter nenhuma limitação dos direitos e liberdades fundamentais contidos nas referidas disposições.