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Acostumar : o trabalho do tempo, cuidado e adoecimento no corte de cana 1

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“Acostumar”: o trabalho do tempo, cuidado e adoecimento no

corte de cana

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Tainá Reis (UFSCar)

Os dados aqui apresentados são resultado da pesquisa de doutorado realizada no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, região marcada pelo expressivo movimento migratório para o corte de cana no estado de São Paulo (SILVA, 1999, RAMALHO, 2014) 2. A abordagem da pesquisa foi qualitativa, com a realização de entrevistas de roteiro semiestruturado com ex-cortadores de cana adoecidos, seus familiares (esposas, mães, filhas), médicos, assistentes sociais e psicólogas (responsáveis pelos laudos para o INSS), que ocorreram no município de Araçuaí. Além das entrevistas, foram realizadas inserções e conversas informais com outros ex-cortadores de cana e familiares em visitas posteriores à região, nos municípios de Minas Novas, Chapada do Norte, Berilo, Turmalina e Virgem da Lapa. A entrevista com os familiares teve o intuito de compreender os impactos do adoecimento nas relações familiares e a organização das relações de gênero; é essa discussão que será apresentada neste artigo.

Corte de cana, apropriação do afeto e adoecimento

O corte de cana de açúcar é desgastante para o corpo e mente dos trabalhadores. Apesar de grande parte da extração da cana no estado de São Paulo, maior produtor nacional, ser realizada de forma mecanizada, em outras regiões do país permanece o corte manual da matéria prima. Além disso, as décadas de colheita manual deixaram sequelas irreversíveis nos trabalhadores. O pagamento por produção é o principal responsável pelo adoecimento e morte de cortadores de cana, uma vez que o limite do ganho é o limite do próprio corpo (ALVES, 2006, 2008, GUANAIS, 2018, SILVA, 2006, 2008, VERÇOZA, 2018). Para compreender o impacto do adoecimento na organização familiar cabe uma descrição breve do corte de cana.

Para realizar o trabalho, o cortador de cana deve abraçar certa quantidade de cana e com o podão, golpear a cana ao rés do chão3, são realizados vários golpes até que o feixe de cana seja inteiramente cortado. Esse movimento exige total curvatura da coluna; Laat (2010)

1 44º Encontro Anual da ANPOCS, GT 20 – Gênero, família e a crise do cuidado.

2 Tese intitulada “Ceifando a cana... Tecendo a vida. Um estudo sobre o pós/trabalho nos canaviais”, defendida

em 2018 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos, sob orientação de Maria Aparecida de Moraes Silva, com financiamento do CNPq.

3 A parte da cana de açúcar que concentra mais sacarose está próxima ao chão, assim é necessário que o corte

seja feito com precisão ao rés do chão. Contudo, é preciso ter cuidado para que o podão não atinja a terra, podendo prejudicar a muda da cana.

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2 identificou que em um dia de trabalho em que são cortadas 12, 9 toneladas de cana, são realizadas 3080 flexões de coluna e 3498 golpes de facão. Depois de golpear a cana, o cortador deve caminhar carregando o feixe de cana cortado até a leira4. Em pesquisa realizada em Alagoas, Verçoza (2018) aponta que os cortadores chegam a caminhar até dez quilômetros em apenas um dia de trabalho.

Verçoza (2018) apresentou dados sobre a sobrecarga cardiovascular e capacidade cardiorrespiratória dos cortadores de cana alagoanos, coletados por meio de exames ao início e fim da safra. No começo da safra, os trabalhadores apresentavam índices equivalentes aos de um maratonista, ao fim, quase todos extrapolaram o valor limite de carga cardiovascular e frequência cardíaca5. Os trabalhadores que não ultrapassaram os limites cardíacos são aqueles que obtiveram menor produção em toneladas de cana cortada. É comprovado, assim, que a sobrecarga física está diretamente relacionada à produtividade. Para garantir a produção e, consequentemente, a manutenção do emprego, já que os que não cumprem os índices de produção mínimos são dispensados, os trabalhadores levam seus corpos ao limite.

A dor é cotidiana no corte de cana (câimbras, tonturas, machucados), após dez, no máximo quinze anos de trabalho, os trabalhadores de corte de cana têm os corpos degradados. Doenças de coluna, osteoarticulares, de coração e de pulmão são frequentes. Contudo, a sobrecarga física não deve ser entendida como desvinculada da dimensão subjetiva. A pressão do trabalho gera um estresse mental que afeta a psique dos trabalhadores, que podem desenvolver depressão, neuroses, psicoses, adicção em álcool e drogas e até manifestar esquizofrenia (REIS, 2018). A morbidez do trabalho tem atingido o psiquismo do trabalhador de diferentes áreas, sua vida social, afetiva e a própria condição subjetiva (RIBEIRO, 2017).

A partir desses dados, é possível dimensionar o grau de desgaste físico que resulta do trabalho no corte de cana. Mas, quem são os cortadores de cana? São homens e mulheres, com uma média de idade de 18 a 40 anos, negros e pardos, em maioria, migrantes, camponeses expropriados. A migração para essa atividade acontece desde os anos 1960/1970, como resultado de um modelo de modernização da agricultura que expropriou o campesinato de

4 A área do canavial que deve ser cortada por cada trabalhador é constituída por cinco ruas (fileiras paralelas). O

corte da cana é iniciado pela rua/linha central, onde conforme o corte é realizado, vão sendo depositadas as canas cortadas. Essa linha central é denominada leira, e é onde as canas das demais ruas deverão ser depositadas igualmente.

5 De acordo com a literatura, o limite da carga cardiovascular é de 33%. Os cortadores de cana apresentaram uma

média de 46%. Outro dado que demonstra a sobrecarga física a qual os trabalhadores da cana estão submetidos é a diferença entre a frequência cardíaca em repouso e a frequência cardíaca média da jornada de trabalho. Conforme a literatura, esse valor deve ser de no máximo 35 bpm; a média dos trabalhadores foi de 46 bpm, chegando a um caso extremo de uma diferença de 66 bpm entre repouso e trabalho. Ou seja, no caso desse trabalhador, o coração bateu mais de trinta vezes por minuto a mais do que o compreendido como saudável, 187 bpm durante a atividade.

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3 diversas regiões do país. Esse movimento de expulsão6 denotou uma segmentação do território voltada às necessidades do capital. A migração de milhares de homens e mulheres para o corte de cana no estado de São Paulo é resultado da modernização trágica (SILVA, 1999).

A safra da cana de açúcar pode durar até nove meses, o que faz com que os trabalhadores e trabalhadoras fiquem fora da região de origem por longos períodos. Os cortadores de cana são selecionados no local de origem, onde são arregimentados por gatos7. Na região pesquisada - Vale do Jequitinhonha/MG -, as mulheres dos cortadores de cana migrantes recebem a alcunha de viúvas de marido vivo, pois ficam sozinhas grande parte do ano. Enquanto os companheiros estão longe, essas mulheres são responsáveis pela criação dos filhos, cuidados com a casa e a subsistência (REIS, 2018), o que desfaz a falsa noção de que seriam incapazes de viver sem os maridos por haver uma dependência afetiva e material em relação aos mesmos (SILVA, 2015). Ocorria de alguns cortadores de cana levarem a família para a região de destino, homens casados levavam as esposas, ou esposas e filhos. Essas mulheres poderiam trabalhar no corte de cana ou não, ficando responsáveis pelos cuidados com a limpeza das roupas, preparo das refeições, etc. Em 2009 firmou-se o Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar, pacto de livre adesão entre as usinas sucroalcooleiras, os representantes dos trabalhadores rurais e o governo federal, que tinha o objetivo de garantir o que se chamou de trabalho decente nos canaviais, listando pontos de ajuste, como contrato de trabalho feito diretamente pela empresa, sem intermediários (os gatos), saúde e segurança do trabalho com uso de EPIs, remuneração e alimentação, entre outros8. Em relação aos migrantes, ficou estabelecido que o trabalhador deveria necessariamente retornar à sua região de origem para garantir a recontratação na safra seguinte. Desse modo, a mudança definitiva da família para as cidades canavieiras ficou impossibilitada, uma vez que era necessário ao final de toda a safra retornar à região de origem.

As condições precárias de trabalho e moradia, resultado de uma reprodução precária (MARINI, 1973)9, nem sempre permitiam a migração de toda a família, mesmo antes do

6 “Considera-se expulsão todo e qualquer fenômeno social, econômico, étnico-racial, religioso, político, natural

ou de gênero que comprometa, no sentido de impedir, as condições de reprodução do grupo social, colocando a busca por outro local como única alternativa para a sobrevivência” (ALVES, 2007, p.47).

7 São chamadas de “gato” as pessoas que fazem o contato entre usina e cortador de cana na região de origem do

trabalhador.

8 “A tentativa, na realidade, era de adequar a produção de etanol às condições requeridas no mercado internacional,

viabilizado a aquisição de certificações ambientais” (REIS, 2018, p. 48).

9 Para “Marini (1973), em países dependentes, o salário não corresponde às necessidades de reprodução do

trabalhador e sua família; o trabalho é pago abaixo de seu valor. A consequência dessa remuneração abaixo do real valor do trabalho é a reprodução precária do trabalhador, isto é, situação em que acessarão apenas os mínimos para garantir sua sobrevivência” (REIS, 2018, p. 126).

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4 Compromisso Nacional. Assim, os cortadores de cana iam e vinham do eito ano após ano, no que configura uma migração permanentemente temporária (SILVA, 1999). No caso dos homens casados, deixavam a esposa e filhos na região de origem, só retornando ao final da safra. Não são raros depoimentos sobre a perda do nascimento de filhos, ou de filhos pequenos que não reconhecem o pai quando regressa ao fim da safra. Para as mulheres cortadoras de cana, era comum que os filhos fossem deixados com outras mulheres da família ou mesmo vizinhas, ocorrendo de crianças viverem de casa em casa no decorrer de uma safra, sendo criadas por diversos vizinhos ao mesmo tempo. Esse processo foi denominado por Silva (2014) de apropriação do afeto. Ou seja, o capital transforma homens e mulheres em força de trabalho, reduzidos à labor (ARENDT, 2007), corpo-máquina (SILVA, VERÇOZA, REIS, 2019), retirando-os os laços afetivos.

Esse é o processo vivenciado pelos trabalhadores temporários, do corte de cana, mas pode ser observado entre outros tipos de trabalhadores migrantes. Contudo, as difíceis condições de trabalho vivenciadas são relevantes para compreender o momento posterior ao trabalho, já que podem produzir um adoecimento incapacitante, isto é, o próprio trabalho desgasta o corpo e a mente a tal ponto de retirar do ser a própria capacidade para o trabalho. Degradados, os cortadores de cana não são recontratados para as safras seguintes, são descartados. Essa condição traz novas demandas para aqueles que ficaram na região de origem. Se quando o homem parte para os canaviais, a mulher (esposa, mãe, filha, irmã) é responsável por toda a reprodução familiar – sozinha ou com a ajuda de uma rede de mulheres -, contando com os recursos materiais que o homem traz ao fim da safra, o que ocorre quando o homem retorna adoecido e sem capacidade para trabalhar?10 Recai sobre as mulheres o cuidado com esses homens.

Confrontadas com uma demanda de cuidado a mais, as mulheres vão desenvolver diferentes estratégias e narrativas. No discurso das mulheres entrevistadas aparecia com frequência o termo “acostumar”; “a gente acostuma”, foi o que disse uma mãe que viu seus quatro filhos partirem para os canaviais, desenvolverem alcoolismo e episódios psicóticos, e um suicidar-se. A história de três mulheres guiará o presente artigo, revelando o entrecruzamento de classe e gênero. A reflexão de Veena Das (1999) apoiará a análise das narrativas dessas mulheres que cuidam de maridos e filhos adoecidos e descartados pelo

10 Há ainda o questionamento do que ocorre com as mulheres cortadoras de cana que têm seus corpos degradados

pelo trabalho. Neste artigo não será aprofundada essa situação específica, mas é relevante dizer que, no caso estudado, observou-se que mesmo adoecidas e com dores cotidianas, recorrem à automedicação e buscam trabalho em outras atividades, como cuidadoras de idosos, por exemplo. As filhas são as responsáveis pelo cuidado com a casa (REIS, 2018).

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5 agronegócio canavieiro. O que “se acostumar” quer dizer? Antes da apresentação das trajetórias aqui colocadas, cabe uma breve retomada dos aspectos principais apresentados por Veena Das (1999), especialmente no que tange ao trabalho do tempo para a construção da narrativa, que é uma forma de lidar com a dor.

O trabalho do tempo e a (re)construção do cotidiano

A reflexão apresentada por Veena Das em sua conferência no XXII Encontro Anual da ANPOCS, em 1998 foi publicada em artigo pela Revista Brasileira de Ciências Sociais, em 1999. Em “Fronteiras, violência e o trabalho do tempo: alguns temas wittgensteinianos” a autora apresenta considerações sobre o ocorrido na Partição da Índia, em 1947 - processo de divisão territorial entre Paquistão e Índia que ocorreu pouco após a independência do império britânico e foi caracterizado pela violência entre diversos grupos étnicos (sikh, muçulmanos, hindus, entre outros). Foram vitimadas ao menos um milhão de pessoas, catorze milhões desalojadas, além da frequência de raptos e violações das mulheres.

Das (1999) parte de três casos etnográficos, famílias urbanas punjabí que tinham sido transferidas após a Partição da Índia. Os eventos do violento processo ecoavam nos registros familiares por meio de um enfrentamento que a autora denominou de conhecimento venenoso, um conhecimento pelo sofrimento, o testemunho da brutalidade. A violência sofrida pelas mulheres era silenciada, as mulheres não falavam sobre os episódios de violação, e quando falavam, recorriam a metáforas. Porém, o conhecimento venenoso não seguia um caminho de renúncia ou santidade – como queria construir certa narrativa heroica, em que as mulheres eram colocadas como seres mitológicos que preferiam a morte à desonra. O conhecimento venenoso, por meio do trabalho do tempo, encontrava sua saída na direção de uma construção narrativa de cotidiano diferente.

A violência sofrida no contexto da Partição é silenciada pela família, seriam, como chamou Das (1999), slides congelados. É o tempo - nas narrativas colhidas pela autora: o tempo foi cruel, o tempo ataca -, trabalhado pacientemente pelas mulheres no momento posterior à violência, que vai permitir-lhes serem agentes de sua própria narrativa. Em um dos casos analisados, a ação da entrevistada se assemelhava mais a de um caçador à espreita do que a de um rebelde, isto é, não se tratava de passividade, mas de uma luta sutil para narrar o próprio cotidiano. A mulher dizia: “tinha me acostumado a aguentar” (DAS, 1999, p. 36).

Das (1999) apresenta a ideia de trabalho do tempo, tempo não como algo imobilizado, mas como agente. Lidar com o tempo é operar sobre a reconstrução da vida, do cotidiano. “(...) o tempo não é algo simplesmente representado, mas um agente que trabalha nas relações,

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6 permitindo que sejam reinterpretadas e reescritas no embate dos agentes na construção de suas histórias.” (PEREIRA, 2010, p.361). O trabalho do tempo permite lidar com o conhecimento venenoso, com a dor, por que possibilita a reescrita do próprio cotidiano.

Essa brevíssima retomada da noção de trabalho do tempo como instrumento para a construção de uma narrativa para o cotidiano é relevante para a análise das trajetórias que serão apresentadas a seguir. Na construção da narrativa dessas mulheres os padrões culturais de gênero são manejados, pois a mãe ou esposa é aquela que, de fato, seria a responsável pelo cuidado. Depois do adoecimento, vai operar o tempo, é o momento de (re)construção do cotidiano.

O “acostumar”

Durante o período de trabalho as usinas, a lógica do agronegócio, se apropria da vida e afetos do trabalhador, e mais, como que com tentáculos, chegam até a região de origem afetando também as vidas dos que não migraram. As crianças também tinham que se adaptar à ausência dos pais durante os meses da safra da cana. “Vi pai de família chorar”, foi o que Antonio João, ex-cortador de cana de Turmalina disse sobre essa situação. As crianças, já crescidas, não reconheciam os pais. Antonio João relatou que conheceu a filha com seis meses de idade, quando retornou ao fim da safra seguinte, sua filha correu chorando por não o reconhecer. Ele afirmou ter sentido tanta raiva, que bateu severamente na filha, algo que se arrependeu posteriormente, diz que foi “bestagem”, mas que na hora só o que podia sentir era raiva. Antonio João foi privado da paternagem por necessitar migrar para o corte de cana.

A migração dos pais impactava os filhos de outra maneira, pois além de serem privados dos laços afetivos, em muitos casos as meninas assumiam também a responsabilidade pela reprodução doméstica, principalmente quando as mães também migravam. Esse foi o caso de Brenda, do município de Chapada do Norte. Torrava farinha aos sete anos, cuidava dos irmãos com dez, algo que encarava como uma brincadeira de casinha - fazer a comidinha e dar para o bebê. Desde criança Brenda foi socializada para o cuidado, sempre trabalhou, seja no serviço doméstico, seja na roça da família. A responsabilidade pela reprodução doméstica pertencia às mulheres, do mesmo modo às meninas, às garotas. Desde crianças, já cuidavam, cuidado que deve ser entendido como dedicação às demandas daqueles que serão cuidados. Não se trata apenas da garantia da reprodução social de outrem, mas de demandas afetivas que essas relações criam.

Para as mães, que ficam responsáveis sozinhas pela criação dos filhos, há uma sobrecarga imensa, não apenas do trabalho que essa criação exige, mas, sobretudo, emocional

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7 (HOCHSCHILD, 2003): vão lidar com os próprios sentimentos relacionados a essa ausência do marido e tudo que isso acarreta, e com os dos filhos, que convivem com o vazio deixado em suas vidas pela ausência dos pais. Teresa relatou sobre os filhos que sentiam saudades do pai:

Tinham saudade, tinham saudade. Esse Marcelo mesmo chorava, e eu não sei se ele teve trauma, porque ele adoeceu uma vez que ele ficou até... dando aquela crise, aquela epilepsia e ficava chamando o pai dele. Aí eu passei muito aperto com os meninos, chorava... a menina mais velha minha mesmo, que era muito apegada com o pai, era muito sofrimento pra nós.

Teresa, esposa e mãe de ex-cortador de cana (25 de fevereiro de 2015)

Recai sobre as mulheres o peso das sequelas do trabalho no corte de cana, apesar de muitas deles sequer terem pisado em um canavial. Suas vidas são organizadas a partir de relações de trabalho nas quais não estavam inseridas, em territórios desconhecidos. O homem que antes do adoecimento acompanhava a mulher na roça em períodos de entressafra, não pode mais fazê-lo, se o homem contraiu alguma Infecção Sexualmente Transmissível, a esposa certamente irá se contaminar, se tornou-se dependente químico, é a mulher que cuida, esposa ou mãe, e que vai lidar com as consequências dessa adicção, muitas vezes vivenciando violência doméstica.

Depois do adoecimento e descarte dos companheiros ou filhos, as mulheres reorganizam o cotidiano; as relações se organizam totalmente vinculadas, mas completamente fora do espaço-tempo de trabalho, o que se denominou de pós/trabalho.

Concebe-se o pós/trabalho como sendo o momento posterior ao espaço-tempo trabalho, mas diretamente vinculado a esse mesmo espaço-tempo, no qual a sociabilidade é reorganizada através do adoecimento. [...] O pós/trabalho não é apenas o período posterior ao trabalho, apesar de também sê-lo; é uma sociabilidade que está estritamente vinculada ao trabalho. Conjunto de relações que é, cronologicamente, posterior ao período de trabalho, mas, socialmente, são espaços-tempos e relações inteiramente entrelaçadas.

(REIS, 2018, p. 15-16).

O pós/trabalho não é um processo restrito ao indivíduo, mas se estende às suas relações sociais. Desse modo, a família é impactada - era durante o espaço-tempo de trabalho, permanece sendo no pós/trabalho, momento em que as relações de gênero vão se reorganizar11. Não há exatamente uma inversão nas relações de dominação-exploração (SAFFIOTTI, 1992), mas uma reorganização das relações em que as mulheres têm a função de cuidadora intensificada, e devem desempenhar um trabalho emocional (HOCHSCHILD, 2003) significativo para lidar com a nova situação. Se, por um lado, a noção de masculinidade socialmente constituída no

11 Entende-se, no esteio de Saffiotti (1992), as relações de gênero como relações de poder, em que não

necessariamente a dominação (e exploração) subjuga um lado da relação por completo. A dominação do homem sobre a mulher, claro, subjuga a mulher, mas esta não deixa de deter também algum poder na relação, mesmo que de modo extremamente desigual.

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8 bojo do patriarcado é fragmentada – o homem, de esteio de família, viril, passa a ser dependente da mulher, reconhecido como inválido, passível de dó -, o papel de cuidadora atribuído às mulheres é reforçado. Há uma naturalização, uma aceitação social de que as mulheres, mesmo com todas as dificuldades, devem ser boas companheiras e mães12.

Pode-se compreender essa naturalização como, a partir de Das (1999), uma maneira de os sujeitos se relacionarem com o cotidiano, uma vez que “o encontro com a dor não é algo que se possa enfrentar friamente” (DAS, 1999, p.39). A narrativa sobre os aspectos violentos da vida é controlada. É desse modo que se pode interpretar os relatos das mulheres a seguir. Serão apresentadas as trajetórias de três mulheres, Gil, Teresa e Berenice. Gil é esposa de um cortador de cana adoecido com problemas de coluna, Teresa é esposa de um cortador de cana adoecido que conseguiu acessar os direitos previdenciários, e mãe de dois filhos que desenvolveram o alcoolismo durante as safras, e Berenice, mãe de quatro cortadores de cana adoecidos.

Gil

Gil, 37 anos13, é natural do município de Ibitiúva, São Paulo, cortava cana desde os dez anos de idade junto com a família. Conheceu no corte de cana o marido Wagner, 50 anos, natural da comunidade rural Córrego Narciso, em Araçuaí, em 2001. No período, Wagner apresentava os maiores índices de produtividade da turma, o que lhe garantia o título de podão de ouro, ou pega da turma, ganhando por isso, em diferentes usinas, prêmios (cem reais e um rádio, por exemplo)14. É parte da experiência do casal a dificuldade do horário de trabalho, precariedade dos alojamentos, refeições de má qualidade, dificuldade no uso de EPIs, acidentes com o podão, roubo na contagem da quantidade de cana cortada e abuso por parte dos gatos. O casal tem dois filhos, uma menina de dez anos e um menino de três. Gil ainda tem outros dois filhos de um relacionamento anterior que são criados pela avó em Ibitiúva, um rapaz de dezoito anos e uma garota de dezesseis.

12Foi observado na pesquisa de capo que as mulheres que abandonam os maridos ou arranjam novos maridos são

vistas pela comunidade de modo negativo, algumas vezes até mesmo mudando de cidade para escapar do julgamento do grupo.

13 Os nomes utilizados são fictícios. A referência da idade é de 2015, ano em que foram realizadas as entrevistas. 14 “Em uma usina, a premiação era sorteada, mas o cortador de cana que tivesse faltas, mesmo justificadas com

atestados médicos, era impedido de participar do sorteio. Aqueles que não faltassem ganhavam também uma cesta básica. Essa era mais uma forma de domesticação dos corpos para o trabalho. Na possibilidade de poder ser selecionado em um sorteio para adquirir um prêmio, os trabalhadores também escondiam as dores e evitavam ir ao médico” (REIS, 2018, p. 137).

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9 Gil relatou acidentes durante todos os anos de trabalho, mas que não buscava médico, pois temia a necessidade de dar ponto nos machucados. Teve também um problema na mão que a deixou afastada pro quinze dias. “Era uma dor insuportável, eu não sei se era do melado da cana… Doía tanto que eu pegava uma água morna, passava na minha mão, coisava… abaixava doía, levantava doía, de todo jeito que ficava, doía”. Apesar da fisioterapia, Gil sentia até a época da entrevista formigamentos na mão, relatava inchaço e dificuldades esporádicas em realizar algumas tarefas, como pegar o filho no colo ou uma enxada. Atribuía as dores em parte ao trabalho desde muito jovem no corte de cana, mas mais ao envelhecimento.

Em 2013, Wagner teve um problema na coluna durante o trabalho em uma usina no município de Pitangueiras. No episódio, mal conseguia caminhar. Tomou uma injeção para dor no hospital e recebeu um atestado médico para não trabalhar no dia seguinte. Após a realização de raio-x, o médico constatou que ele não poderia mais trabalhar, deu um atestado de 15 dias, receitou medicações e fisioterapia na espera de alguma melhora. Wagner seguiu as indicações, diz ter sentido só uma pequena melhora. Depois dos quinze dias, voltou ao trabalho. O médico da usina reteve os exames apresentados, mas afirmou que era possível visualizar que a coluna estava torta. Indicou que Wagner trabalhasse devagar e sem muito esforço - como se não realizar esforço fosse possível na execução do corte de cana. Wagner sentia dor, mas automedicava-se com anti-inflamatórios e analgésicos. Antes de receber o resultado do laudo da usina, foi dispensado. A demissão de trabalhadores que recorrem a atestados médicos não é incomum, o que explica a omissão de muitos trabalhadores acidentados, ou a demora para a busca de médicos diante de fortes dores.

A situação de desemprego impeliu o casal a regressar para a comunidade rural de Córrego Narciso, onde Wagner era proprietário de um pequeno sítio. Anos antes, com a primeira filha, já havia passado alguns meses na propriedade em questão, em uma casa de barro, com apenas dois cômodos, sem água e luz. Gil relatou que a falta de água era muito difícil, pois era necessário caminhar longa distância até o rio e carregar a água numa lata na cabeça, o que a fazia preferir cortar cana. Com o tempo, conseguiram fazer uma cisterna de lona e começar a construção de uma casa maior, também de barro. Depois desse breve período de estadia em Araçuaí, regressaram para o corte de cana em São Paulo, onde permaneceram até a demissão de Wagner, em 2013. Sem meios para pagar aluguel e demais contas, voltaram para Araçuaí, onde não haveria tais gastos.

Wagner admite que não vivem em boas condições, mas pelo menos não estão tendo gastos. A casa em que moram ainda não tinha energia elétrica e a água é provida por uma cisterna construída por meio da política de convivência com o semiárido. Por conta do problema

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10 na coluna, Wagner quase não pode desempenhar atividades físicas, “Ele não aguenta pegar o balde assim”, diz Gil. Ela conta que, enquanto as construções da primeira cisterna (com lona) e de parte da casa foram realizadas em conjunto, a parte da cozinha da casa, por exemplo, ela fez sozinha. Cuida sozinha também da pequena roça com mandioca, milho, feijão, apesar da constantes dores nas mãos. Mais distante da casa há uma barragem onde plantam melancia. A roça é de subsistência, mas quando há algum excedente, se juntam com os vizinhos para vender na feira da cidade.

A necessidade de cuidar sozinha de toda reprodução familiar criou uma situação em que Gil recorria ao consumo excessivo de álcool “para aguentar”: “Minha filha, eu bebia... cheguei aqui nesse deserto e só eu trabalhando e passando necessidade. Entrei de cara pra trás na cachaça. Eram dois... já cheguei a beber dois litros de cachaça aqui nessa fazenda. […] E coisa, e emagrecendo, fiquei na pele e osso”. Na época, Wagner também bebia, mas em quantidade menor do que Gil. Quando Gil parou de beber, quatro meses antes da data da entrevista, o marido aumentou o consumo. Contudo, pouco tempo depois teve um episódio de forte dor na coluna e parou de beber.

[...] deu esse estralo nas costas dele, que ele estava mexendo não sei no que: “Gil do céu, ai, eu não estou aguentando, ai minhas costas quebrou e não sei o quê?”. Aí eu falei: “O que foi?”[...], eu falei: “Senta”, e ele falou: “Não dá sentado, não”. Aí ele ficava assim pra lá e para cá. Sem sentar, sem deitar, sem nada. Aí eu falei: “Uai Wagner, vai e estica o corpo de uma vez”. Aí ele falou: “Não dá, não dá, que sai uma coisa daqui”. Era um pontinho, parece um osso. Aí eu peguei e falei: “Respira fundo!” Ai eu peguei assim, e fiz assim! Aí fiz assim, aí ele coisou e falou: “Ai, Gil!!! Pelo amor de Deus!” Aí minha cunhada, Daiane15, tinha uma pomada, aí passei, fiz

massagem, pus na mão assim, aí foi coisando, foi coisando, ele ficou quinze dias, quinze dias! Sem pegar em um nada... só o prato de comida.

Gil, esposa de ex-cortador de cana (13 de março de 2015).

Gil, além de cuidar da casa e da roça, deve atender o esposo sempre que ocorrem episódios como esse relatado acima. Sempre que o marido tenta ajudar na roça, as costas doem e ele fica dias sem poder se movimentar direito. Apesar de Wagner afirmar que ainda podia fazer alguma atividade, Gil, de longe, gritou: “Não mente… você tem que falar: Eu não posso pegar peso”. Depois ela fez questão de mostrar o pedaço de pau que ele tentou carregar por alguns metros e que causou uma fisgada na coluna. Foi consenso entre os dois que a bebida na situação em que eles estavam vivendo só traria mais mal, já que brigavam bastante quando bebiam. Preocupados também com o cuidado com os filhos, deixaram de beber. A única renda

15 Daiane, irmã de Wagner, também é esposa de um cortador de cana adoecido, responsável pelo cuidado com a

casa, filhos, roça, marido com movimentação limitada, ainda trabalha como cuidadora de idosos para gerar alguma renda para a subsistência familiar. A trajetória de Daiane pode ser consultada em Reis (2018).

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11 fixa da casapara alimentar os quatro e mais um idoso que ocasionalmente ajudam era o Bolsa Família16.

Teresa

Nascida e residente na comunidade rural Setúbal, em Araçuaí, Teresa é casada com um cortador de cana adoecido e mãe de sete filhos, dentre os quais dois também trabalharam no corte de cana. Afirmou que o marido tinha três carteiras de trabalho assinadas só de trabalho na cana, não “falhava” nenhuma safra. Durante esse período, Teresa teve boa parte das gestações e partos sem o companheiro, cuidou dos filhos sozinha, tendo que ir e vir da cidade diariamente, já que um dos filhos frequentava a APAE. Relatou: “E eu fiquei nessa luta, indo e voltando. E ele na APAE e o pai dele no corte de cana”. Apenas um dos filhos nasceu em um hospital, todos os outros foram na comunidade rural.

Com a experiência atravessada pela apropriação do afeto, Teresa conta que o marido só foi conhecer um dos filhos depois de quatro meses do nascimento. Diz ter tido vontade de fazer uma brincadeira com o marido e trocar seu bebê com o da vizinha, para saber se ele reconheceria o próprio filho. Essa brincadeira traz consigo uma reflexão sobre as estratégias desenvolvidas para burlar a própria dor, transformando em brincadeira um drama pessoal. Relatou o adoecimento dos filhos por causa da saudade, dificuldades de locomoção da cidade à zona rural. [...] eu já caminhei muito... grávida e ainda carregando saco de feira na cabeça. [...] a gente pegava esses caminhão, não tinha ônibus não. A gente tinha que subir no caminhão pra poder vim, e ainda carregando a feira de Gravatá [comunidade rural] pra lá... ainda carreguei peso com o Luis no braço, ainda com coisa na cabeça, carregando coisa pra casa.

Teresa, esposa e mãe de ex-cortador de cana (25 de fevereiro de 2015).

O marido enviava quantias em dinheiro para contribuir com a reprodução familiar no local de origem, mas havia situações em que o dinheiro não era suficiente, ou o pagamento era atrasado. Nesses casos, Teresa ficava sem nada para alimentar as crianças, recorrendo a o que estava ao seu alcance, às vezes leite de cabra, raramente leite de vaca que conseguia pegar com algum vizinho da roça. Não tinha crédito na cidade para pode fazer a feira, usava só o que tinha na roça (mandioca, feijão, batata, arroz, pequena horta). Fazia a meia, sistema em que todos trabalham juntos e os resultados do trabalho são divididos. A ajuda mútua, assim como o

16 Wagner optou por não buscar nenhum direito previdenciário, principalmente pelo exemplo do cunhado Márcio

que, na mesma condição de mobilidade reduzida devido a problemas na coluna resultantes do trabalho no corte de cana, tem se desgastado com idas constantes ao INSS e frequentes negativas. O caso do cunhado está descrito em Reis (2018). Gil afirmou que por não ser da região, não sabe como proceder em busca do INSS.

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12 trabalho por mutirão ou a simples troca de dias de trabalho são práticas frequentes nas relações camponesas (CANDIDO, 1964, OLIVEIRA, 1986, SILVA, 1999).

A volta definitiva do marido de Teresa ocorreu devido ao glaucoma que desenvolveu. Não sabe ao certo a causa do glaucoma, somente que, durante o trabalho, o marido reclamava: “Diz ele que sentiu que ficava correndo uma água quente no olho dele e ele não aguentava. Aí inchava, avermelhava e ele tinha que tampar o olho, dizendo ele que no outro olho corria aquele suor, ardendo e ele não aguentava, de cortar cana”. Ao reclamar na usina, foi direcionado à consulta médica e depois regressou para fazer o acompanhamento em Araçuaí. O resultado dos exames mostrou que se tratava de um glaucoma e que a visão estava comprometida. O esposo perdeu totalmente a visão de um dos olhos e só tem a capacidade de 60% no outro olho. Recebeu auxílio-doença e, depois, aposentou-se por idade. Tentou aposentadoria por invalidez por meio do auxílio de um atravessador17, que reteve as carteiras de trabalho dele e depois nunca mais apareceu. Assim, só conseguiu se aposentar quando atingiu a idade necessária.

Dos sete filhos, três são homens e quatro mulheres. Luis e Marcelo cortaram cana. Marcelo partiu para o corte de cana aos dezoito anos. Apesar de ainda jovem ter tido contato com maconha, foi no período em que esteve no corte de cana que intensificou o uso de drogas e álcool. Casou-se e tem esposa e duas filhas em Araçuaí. Contudo, devido a alguns episódios de violência doméstica (um no qual chegou a ser preso), está separado da esposa. Em 2015 faria um tratamento pago em Belo Horizonte para a adicção em drogas e álcool. O outro filho, Luis, acidentou-se aos catorze anos e teve um traumatismo craniano, que o deixou em coma por quase um mês. Depois disso, passou a ter constantes convulsões e iniciou uma medicação para controlar o quadro. Aos dezoito anos, foi cortar cana em Goiás. Teresa não queria que o filho fosse, pois preocupava-se que não tomaria corretamente os remédios. Realmente, não tomou. A mãe acredita que devido ao baixo rendimento, Luis foi transferido para a vigilância de máquinas. Exerceu essa atividade por apenas 11 meses, período em que relatou ter ficado preso dentro da máquina para se proteger de onça de madrugada. Teresa insistiu que o filho voltasse. Regressou para partir novamente para o corte de cana depois de pouco tempo, dessa vez, em São Paulo.

17 Advogados “chamados de atravessadores podem reter a documentação dos beneficiários, carteiras de trabalho,

por exemplo. Pela região do Vale do Jequitinhonha há a ação de grupos organizados com o intuito de encaminhar os pedidos de auxílio-doença e/ou aposentadoria por invalidez. Via-de-regra, orientam erroneamente os trabalhadores, ocasionando a recusa do benefício. Com a recusa, podem iniciar o litígio contra o INSS e, em caso de vitória, apropriam-se inteira ou parcialmente do valor. Esse não é um quadro restrito ao Vale do Jequitinhonha, há casos de fraude espalhados pelo Brasil, algo já investigado pelo Ministério Público Federal” (REIS, 2018, p. 96).

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13 Depois do corte de cana, ainda trabalhou em Curitiba, na construção civil e como garçom. Em um desentendimento durante uma festa no alojamento em Curitiba, entrou em uma briga e foi fortemente agredido por outros homens, batendo a cabeça e sendo levado ao hospital. Depois do retorno à Araçuaí, Luis continuou bebendo muito. Esteve algum tempo em Belo Horizonte para tratamento médico. Nesse período, tentou se suicidar. O rapaz afirmava não gostar de Belo Horizonte. Reside em Araçuaí com a mãe, que diz estar na cidade apenas por causa do acompanhamento que o filho faz no CAPS-AD. Teresa diz que pretende voltar para a roça, que é onde ela gosta de estar, cuidando das suas plantas e longe da bagunça da cidade. Conta que Luis, em alguns momentos de embriaguez, fica agressivo: “Tem vezes que ele fica agressivo... ele já cortou o pulso dele três vezes. Tem que tá escondendo faca. Ele quebrou meu tanquinho, quebrou televisão minha”. Diz que o acompanhamento do CAPS-AD está ajudando, mas que o filho não aceita fazer outro tratamento, não aceita a ideia de ficar internado em Belo Horizonte, e mesmo as idas ao CAPS-AD às vezes são difíceis. Não quer nem ir ao neurologista em Belo Horizonte, para encaminhar uma possível operação. Teresa acredita que se o filho tomasse a medicação corretamente, não precisaria fazer nenhuma cirurgia.

Berenice

Berenice, advinda de uma comunidade rural de Araçuaí, reside já há muitos anos na zona urbana da cidade. Mãe de seis filhos, trabalhava como lavadeira para sustentar a casa, já que o esposo trabalhava apenas em roça própria, o que não era suficiente para a subsistência familiar. Lidou por muitos anos com a alcoolismo do marido: “Desatinou na cachaça que ninguém aguentava mais ele não”. Os dois filhos mais velhos, Leandro e Lucas, foram cortar cana ao completar dezoito anos, enquanto os mais novos (dois rapazes e duas garotas) permaneceram sob os cuidados da mãe. Os mais velhos chegaram a ficar 09 anos sem retornar à Araçuaí.

Em 2011, Leandro retorna definitivamente para Araçuaí, residindo com a mãe. Não era mais contratado para cortar cana devido ao alcoolismo e cirrose em estágio avançado. Na cidade natal, fazia pequenos serviços de servente de pedreiro – carregando consigo sempre uma pequena garrafa de pinga. Chegou a receber como pagamento a quantia de dois reais. Passava bastante mal, parava de beber e depois de pouco tempo, voltava ao consumo de álcool. Sempre que tinha vomitadeira muito forte, a mãe o acompanhava no hospital. “Aí chegou numa altura que... um dia ele não estava aguentando mais, eu levei ele pra consultar, de lá a médica mandou nós ir para o hospital para ele já... Aí ele já foi pra internar e não voltou mais. Mas nele deu

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14 aquela cirrose, aquele que cresce a barriga. E aí deu uma pneumonia nele também, ficou escarrando sangue”. Leandro era o filho mais velho, faleceu aos quarenta anos de idade.

O filho Lucas também bebia bastante, mas quando foi diagnosticado com HIV, reduziu o consumo. Contaminou-se durante o período em que trabalhou no corte de cana. Após o diagnóstico, passou a viver em cidade vizinha à Araçuaí, trabalhando como pedreiro. Berenice é quem pega os remédios para o filho em Araçuaí, que vai à cidade uma vez por mês pegar com a mãe os medicamentos. Ela frisa que no trabalho dele ninguém sabe de sua condição, pois, se soubessem, poderiam despedi-lo.

Os filhos mais novos, Naldo e Nêgo, foram cortar cana anos depois que os mais velhos. Passaram também os dois a consumir excessivamente bebidas alcoólicas e, depois que não podiam mais trabalhar, retornaram (em momentos diferentes) para Araçuaí e voltaram a residir com a mãe. Na data da entrevista, havia poucos dias que Nêgo havia voltado do hospital, por conta da vomitadeira e alucinações ficou por quatro dias internado, em dois, foi preciso amarrá-lo (por conta das alucinações). Por conta do quadro de saúde comprometido, resultado do alcoolismo, Berenice acredita que ele não será mais recontratado para o trabalho no corte de cana: “Porque ele, do jeito que ele tá aí, dá uma vomitadeira, passa mal... aí com um pouco em um delírio, aí eu levo pro hospital... e antigamente ele sentia até convulsão da bebida”. Nêgo esporadicamente trabalha capinando algum terreno ou outras atividades desse tipo. Apesar da vontade pessoal de trabalhar, mesmo quando faz trabalhos pequenos, acaba passando mal: “E ele tem muita vontade de trabalhar, ele tem. Tem hora que ele vai trabalhar o dia para os outros de servente, dá um pouco ele não aguenta... Vai bebendo água, bebendo água, suando e aí tem hora que dá aquela vomitadeira nele, aí não vai mais”. Berenice procura frisar no relato que o filho é trabalhador, mas que “a bebida tá acabando com ele”. Apesar dos vômitos diários, Nêgo não aceita ajuda, pelo contrário, “Sempre fala que ele é o bom, que ele é forte...”. Nêgo tinha, em 2015, trinta e quatro anos.

O filho Naldo, que retornou à Araçuaí antes de Nêgo, passou por situação semelhante – por conta do abuso no consumo de álcool, deixou de ser contratado para o corte de cana e passou a residir com a mãe, que o acompanhava nos frequentes episódios de vômito e alucinações e idas ao hospital. Moravam na casa de Berenice também a esposa e o filho de Naldo. Em entrevista, Berenice relatou a ocorrência de dias seguidos em que o filho alucinava, certo de que havia pessoas brigando na rua e de que queriam mata-lo. Apresentou alucinações na segunda, terça e quarta-feira. Na quinta, Berenice decide leva-lo ao hospital, onde é medicado com uma injeção e encaminhado para casa. As alucinações persistiram e no dia seguinte à noite Naldo pulou a janela de casa para se dirigir à ponte próxima da casa, mas foi interceptado pela

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15 mãe e levado mais uma vez ao hospital. Após novas injeções, voltou para casa, mas não adormecia.

Chegou aqui, falou: “Mãe, vai fazer um cafezinho pra nós?”, falei: “Vou”, mas aí eu falei: “Não tem açúcar, eu vou esperar a Mariela abrir a venda pra ir lá apanhar”. Aí ele pegou e falou assim: “A senhora está mentindo”, e era de vera [verdade], era pra ver se ele dormia. Aí esse moreninho [neto] ficava falando assim: “Vai painho, dormir”, ele abria a boca, mas não dormia. Aí quando eu cheguei aqui era quinze para as seis. Ainda falei assim: “Estela [nora], eu sonhei que ele entrou na sepultura essa noite”. Ele falou: “Ô mãe, o sonho é de vera, era a minha sepultura que a senhora visualizou”. […] Aí eu peguei e fui fazer café pra ele. Aí a mãe desse menino [neto] pegou, varrendo o quintal da porta de lá e ele querendo pular, correndo pra rua, pular da ponte. E eu com olho nele. Aí quando eu vim pra cá, ele veio pra cá eu também vim. Aí eu estava aí na porta, com a vassoura assim na mão, que eu tinha varrido o quintal. A mulher dele falou assim: “Dona Berenice, põe o café pra Diego, esse menino, que ele pediu um cafezinho”. Eu peguei, quando eu fui apanhar a garrafa, minha filha gritou: “Naldo correu, mãe”. Aí ele correu, era um dia de sábado, não tinha ninguém pra pegar ele, aí ele pulou da ponte. [choro].

Berenice, mãe de ex-cortadores de cana (11 de fevereiro de 2015)

Após o ocorrido, Naldo foi levado a uma cidade vizinha com melhor estrutura hospitalar, mas não resistiu aos ferimento, faleceu aos trinta e três anos de idade. Berenice, como que querendo se explicar, disse: “E não foi o fato de não cuidado, que a gente estava com cuidado com ele, mas um minutinho que eu distraí ele correu”. Em termos benjaminianos, Berenice narra o dia do suicídio do filho, tecendo a história como um trabalho manual. Há em sua fala um trabalho artesanal de retomar a memória para transmitir sua experiência, trazendo o passado para o presente. Em sua narrativa, mais do que a voz que comunica, há o trabalho das mãos (varrer, preparar o café), dos olhos (olhando e cuidando do filho) e especialmente da alma. “A alma, o olho e a mão estão inscritos no mesmo campo. Interagindo, eles definem uma prática” (BENJAMIN, 1987, p.220), a narração.

Sobre os cuidados com alcoólatras no decorrer da vida –marido e filhos -, dona Berenice afirmou: “Mas eu já acostumei... tem hora que eu falo... não sou só eu que estou nessa vida... são muitas mães”. O cuidado fazia parte do cotidiano de Berenice, algo a que ela se acostumou. Acostumar-se significa, acreditamos, a naturalização do sofrimento, reestruturação dos sentimentos. Esse processo traz um tipo de violência, não a da coerção física, mas contra a subjetividade, o ser se adequa às condições cotidianas da dor. O cotidiano de cuidados era carregado de dor, acostuma-se com a vomitadeira, acostuma-se com o hospital, acostuma-se com a constante possibilidade de morte.

Considerações finais

Os cortadores de cana são testemunhas da brutalidade do agronegócio e do capital. Durante o período de trabalho, houve um longo processo de apropriação do afeto. Contudo, os

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16 laços não são inteiramente rompidos, o constante ir e vir característico do trabalho permanentemente migratório (SILVA, 1999) permitiu recaptura das relações, apesar das fraturas. Para os homens que partiam e para as mulheres que ficavam, o trabalho no corte de cana cria fraturas na estrutura de sentimentos (SILVA, 2016). Contudo, esse processo não ocorre de maneira linear nem por completo, apesar da fragmentação, há a ação dos sujeitos, o tempo age, viabiliza a reescrita do cotidiano.

Grande parte do debate sobre cuidado se refere a uma articulação entre trabalho e afeto que ocorre na esfera produtiva (GEORGES; SANTOS, 2014) – são mulheres migrantes internacionais que cuidam de crianças ou idosos, ou agentes públicas que vão gerir na base políticas públicas socioassistencias. No caso das esposas, mães, filhas de ex-cortadores de cana, trata-se de articular também afeto, mas um que foi antes apropriado pelo próprio trabalho no regime capitalista. É a ação das mulheres na esfera reprodutiva que viabiliza a disponibilidade de força de trabalho na esfera produtiva. Isto quer dizer que são mulheres que garantem a reprodução da força de trabalho – e vivenciam por isso a apropriação do afeto, tendo que realizar imenso trabalho emocional. Depois que essa força de trabalho é descartada, que trilha o caminho para deixar de ser corpo-máquina e voltar ao corpo-ser (SILVA, VERÇOZA, REIS, 2019), são as mulheres também que estarão lá cuidando.

A migração e o trabalho no corte de cana produziram desenraizamento e quebraram os laços afetivos. O adoecimento refaz esses laços, e é por meio do cuidado que esses laços devem se recriar. Mas, as relações não podem simplesmente ser recriadas, elas foram num longo processo de reificação, fragmentadas, fraturadas; o tempo age nesse sentido, porque um cotidiano é reescrito nas narrativas, para a reconstrução de laços. Esse processo carrega em si, dor. Não é apenas o retorno do homem, mas, adoecido, a demanda do cuidado e, consequentemente, o trabalho emocional necessário para tanto. O testemunho da violência cotidiana é silenciado, trabalhada pelo tempo para a reescrita de outro cotidiano.

As depoentes estão “acostumadas” à violência da dor, pois é com esse tipo de narrativa que podem resistir. Resistir, como entendido por Das (1999), significa um movimento não calculado, mas realizado para a “manutenção da existência dos sujeitos no jogo social” (CARVALHO, 2008, p.16). Nesse sentido, os padrões culturais de gênero são manejados na construção dessas narrativas, pois a mãe ou esposa é aquela que, de fato, seria a responsável pelo cuidado. A reconstrução do cotidiano e o silêncio ou controle das narrativas são elaborados historicamente. A boa mulher é aquela que cuida do marido ou filho, que aguenta, que se acostuma. O cuidar é essencializado na figura feminina, e o adoecimento do homem reforça esse papel. A reconstrução do cotidiano e o silêncio ou controle das narrativas são elaborados

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17 historicamente. O pós/trabalho é o momento do trabalho do tempo, em que se vão reorganizar narrativas para um cotidiano dizível.

Referências

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