21/03/2017 a 16/09/2017
BR-163/364-MT
Trecho: Divisa MS/MT – Divisa MT/PA
1º RELATÓRIO SEMESTRAL DO
PROGRAMA DE ARQUEOLOGIA
-
Subprograma de Monitoramento Arqueológico
- Subprograma de Educação Patrimonial
Portaria nº 230/2002
Processo Iphan nº 01425.000322/2010-19
SUMÁRIO 1 APRESENTAÇÃO ... 1 2 EQUIPE DE PESQUISA ... 1 2.1 Coordenador da Pesquisa ... 1 2.2 Equipe Técnica ... 2 2.3 Identificação do Empreendedor ... 2 3 Caracterização do Empreendimento ... 2 3.1 Projeto Geométrico ... 3 3.2 Tipo de Revestimento ... 4 3.3 Volume de Terraplanagem ... 5
3.4 Localização de Áreas de Apoio ... 6
3.5 Ações Previstas para Implantação e Operação do Empreendimento ... 7
4 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E ETNO-HISTÓRICA ... 13
4.1 Contexto Etnográfico ... 13 4.2 Contexto Histórico ... 17 4.3 Guerra do Paraguai ... 21 4.4 Contextualização Arqueológica ... 21 4.5 Os Caçadores-Coletores ... 22 4.6 A Tradição Itaparica ... 23 4.7 As Tradições Ceramistas ... 25 4.8 A Tradição Una ... 25 4.9 A Tradição Aratu ... 26 4.10 A Tradição Uru ... 28 4.11 A Tradição Tupiguarani ... 28 4.12 Registros Rupestres ... 29 4.13 A Tradição Geométrica ... 30
4.14 A Tradição São Francisco ... 31
4.15 Sítios Arqueológicos Registrados ... 31
5 PLANO DE TRABALHO CIENTÍFICO ... 46
5.1 OBJETIVOS ... 46 5.1.1 Objetivo Geral ... 46 5.1.2 Objetivos Específicos ... 47 5.2 CONCEITUAÇÃO ... 47 6 MONITORAMENTO ARQUEOLÓGICO ... 49 6.1 Objetivos... 49 6.2 Justificativa ... 49 6.3 Metodologia ... 50 7 EDUCAÇÃO PATRIMONIAL ... 50 7.1 Objetivos... 52
7.2 Objetivo Geral ... 52
7.3 Objetivos Específicos ... 52
7.4 Justificativa ... 52
7.5 Aplicação ... 53
7.6 Aspectos Metodológicos ... 53
7.7 Estudantes de Ensino Fundamental e Ensino Médio ... 53
7.8 Oficinas Temáticas ... 54
7.9 Material de Apoio ... 54
7.10 Exposição Itinerante ... 55
7.11 Oficinas ... 55
7.11.1 Oficina 1. Observando e descobrindo um objeto ... 55
7.11.2 Oficina 2. Oficina de Confecção de Cerâmica ... 56
7.11.3 Oficina 3. Pintura – Arte Rupestre ... 57
7.12 Educação Patrimonial com a Comunidade ... 59
8 UTILIZAÇÃO FUTURA DO MATERIAL PRODUZIDO PARA FINS CIENTÍFICOS, CULTURAIS E EDUCACIONAIS. ... 61
9 DIVULGAÇÃO DAS INFORMAÇÕES CIENTÍFICAS OBTIDAS ... 61
10 ENDOSSO FINANCEIRO ... 61
11 CRONOGRAMAS ... 62
12 REFERÊNCIAS ... 63
INDICE DE ANEXOS Anexo 1 – Endossos (em providência). ... 68
Anexo 2 – Declarações ... 69
Anexo 3 – CVs... 70
Anexo 4 – Cartilha Educação Patrimonial ... 71
Anexo 5 – Mapa dos subtrechos da BR163/364 MT ... 72
Anexo 6 – Shapefiles (Meio Digital) ... 73
Anexo 7 – Documentos Empreendimento ... 74
ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1 – Detalhes das características geométricas e operacionais gerais. Fonte: ECOPLAN, Plano de Controle Ambiental, 2012, pg. 25 ... 3
ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1 – Mapa dos subtrechos da BR163/364 MT, alvo deste projeto. A versão impressa encontra-se em anexo ... 12
Figura 2 – Dados do Quilombo do Piolho. Fonte: Machado, 2006 ... 13
Figura 3 - Aldeia Bororo. Fonte: Lévi-Strauss, 1988 ... 15
Figura 4 – Pintura Bororo. Fonte: Lévi-Strauss, 1988 ... 16
Figura 5 - Adorno de orelha, Bororo da Campanha (Mato Grosso). Coletado por Johann Natterer in 1826. Fonte: Da Silva, 2013 ... 16
Figura 6 - Mapa de distribuição das tradições de arte rupestre. Reproduzido de Prous (1992) em Madu Gaspar (2006) ... 30
Figura 7 - Tradição Geométrica (Meridional), Mato Grosso, morro da Rapadura, município de Coronel Ponce ... 31 Figura 8 - Exemplo de ficha de registro ... 56 Figura 9 – Técnica de Modelagem com rolete contínuo. Fonte: Dorta, Manifestações Socioculturais Indígenas, MAE/USP, pg.16 ... 57 Figura 10 - Ficha de identificação para celebrações na comunidade ... 61
1 APRESENTAÇÃO
Atendendo as orientações da Portaria IPHAN n° 230/02, que discorre sobre as Pesquisas Arqueológicas em áreas de empreendimentos potencialmente causadores de impactos negativos ao Patrimônio Cultural, no âmbito do Licenciamento Ambiental, bem como a Lei Federal n° 3.924/61, que dispõe sobre os monumentos Arqueológicos e Pré-históricos Brasileiros, e seguindo as orientações da Portaria nº 07/1988, a Habitus Assessoria e Consultoria Ltda. está encaminhando à Superintendência Estadual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Mato Grosso o Projeto de Monitoramento Arqueológico e Programa de Educação Patrimonial nas obras de restauro e duplicação da BR-163/364-MT, Trecho Rondonópolis à Cuiabá, estado do Mato Grosso, em um total de 174,1 km de extensão.
O monitoramento e as ações de Educação Patrimonial serão distribuídos entre os 20 meses previstos para a instalação do empreendimento e terão como campo os 07 municípios afetados pelo empreendimento. São eles Rondonópolis, Juscimera, Jaciara, Campo Verde, São Pedro da Cipa, Santo Antônio do Leverger e Cuiabá.
2 EQUIPE DE PESQUISA
2.1 Coordenador da Pesquisa
Dr. Everson Paulo Fogolari – Registro IBAMA: 574843
Carteira de identidade: 6039088684 / SSP / RS / 26/11/2001 CPF: 49382322000
Endereço: Av. Tiradentes, 150 Sala A, CEP 99700-424 Centro - Erechim, RS – Brasil
Telefone: (54) 3522 5856 Fax: (54) 3522 5856 E-mail: [email protected]
2003 – 2008 Doutorado em Arqueologia.
Universidade de São Paulo, USP, São Paulo, Brasil. Título: Gestão em Arqueologia de Projeto.
Orientador: José Luiz de Morais. 1994 – 1997 Mestrado em Sociologia.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Rio Grande do Sul, Brasil. 1990 – 1992 Especialização em Sociologia da Educação. (Carga horária: 360h) Universidade do Oeste de Santa Catarina, UNOESC, Santa Catarina, Brasil. 1985 – 1989 Graduação em Filosofia.
2.2 Equipe Técnica
Dr. Everson Paulo Fogolari
Coordenador Geral e Arqueólogo Responsável Alejandra Toriz de la Rosa Antropóloga Social/Técnica em Geoprocessamento Licenciada em Antropologia Social e Mestre em Migrações
e Mediação Social Carlos Fabiano Marques
de Lima
Historiador e Arqueólogo
Bacharel em História e Mestre em Arqueologia
Cleonice Dariva Fogolari Pedagoga Licenciada em Letras Bacharel em Direito Mestre em Educação Fernando Oscar da
Veiga Biólogo/ Técnico em Arqueologia
Licenciado em Ciências Biológicas e Especialista em
Licenciamento Ambiental Luiz Alberto Silveira da
Rosa Arqueólogo
Bacharel em Arqueologia e Mestre em Antropologia com
área de concentração em Arqueologia
Rodrigo Junghans Arqueólogo/Gerente Técnico Licenciado em Arqueologia e Mestrando em Arqueologia Auxiliares de Campo Serão contratados na região de atuação do projeto
2.3 Identificação do Empreendedor
Nome ou razão social: Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes - DNIT /
Superintendência Regional do DNIT de Mato Grosso Número do CNPJ: 04.892.707/0001-00
Endereço: Rua 13 de Junho, 1.296, CEP 78.020-900, Bairro Porto, Cuiabá/MT. Telefone: (65) 3315-4101
Fax: (65) 3315-4170
Representantes legais/pessoa de contato: Nome: Luiz Antônio Ehret Garcia
Endereço: Rua 13 de Junho, 1296 - Cuiabá/MT. CEP 78020-900 Fone: (65) 3315-4101
Endereço eletrônico: [email protected]
3 CARACTERIZAÇÃO DO EMPREENDIMENTO
O segmento em estudo intercepta a porção centro-sul do Estado de Mato Grosso, ao longo da BR-163/364/MT, no trecho compreendido entre os municípios Rondonópolis e Cuiabá, no sentido sudeste-noroeste, finalizando na capital Cuiabá.
O Lote 1 consiste no Subtrecho 1: Entroncamento da MT-483 (Anel Rodoviário Rondonópolis) ao Entroncamento da MT- 457 (P/ Jaciara). Segmento: Km 130,2 ao km 190,3. Extensão: 60,1 km.
O Lote 2 consiste no Subtrecho 2: Entroncamento da MT-457 (P/ Jaciara) ao Início Variante I, Serra de São Vicente. Segmento: Km 190,3 ao km 261,9. Extensão: 71,6 km.
O Lote 3 consiste no Subtrecho 3: Fim Variante II, Serra de São Vicente ao Entroncamento da MT- 407 em Cuiabá. Segmento: Km 278,9 ao km 321,3. Extensão: 42,4 km.
A região interceptada pela rodovia caracteriza-se por apresentar uma diversidade de usos e coberturas do solo, com um mosaico fragmentado de feições antrópicas e coberturas naturais. Ao todo a rodovia atravessa três importantes sub-bacias do Estado: a sub-bacia do São Lourenço, do Alto Cuiabá e do rio das Mortes.
3.1 Projeto Geométrico
O projeto geométrico da rodovia nos subtrechos em pauta foi desenvolvido embasado nos levantamentos topográficos, estudos hidrológicos, geológicos e geotécnicos realizados.
Foram observadas ainda as considerações constantes da IS-204 e IS-205, do “Manual de Diretrizes Básicas para Elaboração de Estudos e Projetos Rodoviários” do DNIT, antigo DNER, edição de 1999, as recomendações constantes do Termo de Referência do Edital nº.152/09, buscando dotar o trecho com o padrão técnico requerido. As características geométricas e operacionais gerais para a BR-163/364/MT são apresentadas a seguir.
Quadro 1 – Detalhes das características geométricas e operacionais gerais. Fonte: ECOPLAN, Plano de Controle Ambiental, 2012, pg. 25
Seções Transversais-tipos
Para o 1º subtrecho (Projeto Direção Consultoria e Engenharia), foram definidas três seções-tipo:
- Seção-tipo com canteiro central padrão nas regiões onde o greide da pista nova está no mesmo nível que o da pista existente;
- Seção-tipo com canteiro central variável nas regiões onde o greide da pista nova é diferente da pista existente, devido as alterações feitas para manter rampa máxima de 4,5% na pista nova;
- Seção-tipo com rua lateral e passeio para travessia urbana do distrito de Boa Vista.
Para o 1º subtrecho (Projeto Strata Engenharia), definiu-se a seguinte seção-tipo: - Seção-tipo I - Trata-se de segmento em pista dupla, com características próximas àquelas recomendadas para a Classe “I” – DNIT, com pista de rolamento de 7,20 m de largura, acostamento de 3,00 m, largura para dispositivo de drenagem de 1,00 m e mais faixa de segurança interna de 1,00 m.
No 2º subtrecho (Projeto JBS Consultoria, Projetos e Construções Ltda.) definiu-se a seguinte seção-tipo:
- O projeto adotou uma largura de 3,6 m de pista de rolamento, 3,5 m acostamento externo e 1,0 m acostamento interno.
Para o 3º subtrecho (Projeto Consol Engenheiros Consultores), definiram-se as seguintes seções-tipo:
- Seção transversal tipo I - Os segmentos entre estacas 5.219 e 6.600, 6.600 e 7.500, 7.520 e 7.826, 8.161 e 8.350, 8.350 a 8.414 + 2,520 = 10.000 a 11.923 + 6,670, contam com seção transversal em pista dupla, largura total igual a 34,8m, canteiro central com largura de 12,0 m.
- Seção transversal tipo II - O segmento entre estacas 5.012 e 5.219 – Travessia urbana de Lagarto, conta com seção transversal em pista dupla, largura total igual a 43,41m, separador físico do tipo New Jersey e passeios.
- Seção transversal tipo IV - Os segmentos entre estacas 7.500 e 7.520, 7.826 e 8.187 + 4,5 = 8.161, contam com seção transversal em pista dupla, representando a implantação de variante à direita de Jangada, em largura total igual a 34,8m, canteiro central com largura de 12,0 m.
3.2 Tipo de Revestimento
1º subtrecho
O revestimento para a pista nova será do tipo Concreto Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ) com polímero, seguido por Binder com polímero e TSD com polímero. A base será de brita graduada, a sub-base de solo estabilizado granulometricamente sem mistura, dispostos sobre as camadas finais de terraplanagem e de regularização de subleito. Para a pista existente, o revestimento terá a mesma composição (CBUQ, Binder, TSD) sobre a base reciclada mais revestimento com adição de brita graduada e cimento.
O revestimento da pista nova terá a base e a sub-base estabilizadas granulometricamente de cascalho laterítico, dispostas em subleito regularizado. Sobre a base, segue o CBUQ faixa C com polímero e camada de desgaste em do tio SMA (Stone Matrix Asphalt).
O revestimento da pista existente será composto por uma camada de desgaste em SMA, seguido de CBUQ faixa C com polímeros e de camada antirreflexão de trincas de retração, constituída de Tratamento Superficial Monogranular com emulsão modificada por polímeros, dispostos sobre a base reciclada com incorporação do revestimento atual e adição de 3% de cimento.
2º subtrecho
Neste subtrecho foi projetado um pavimento constituído por sub-base com solo estabilizado granulometricamente com mistura; base com o solo melhorado com cimento; e revestimento da pista com CBUQ melhorado com polímeros com espessura de 6,0 cm, blinder e TSD para as trincas que podem surgir da base. O cimento asfáltico será modificado por polímero SBS, com ponto de amolecimento mínimo de 70°C. A base de solo melhorado com cimento é uma camada proveniente de uma mistura íntima e compactada de solo selecionado, cimento e água.
3º subtrecho
Na pista nova, o revestimento será do tipo CBUQ faixa C com polímeros, blinder e TSD, sobre base de brita graduada tratada com cimento e sub-base estabilizada granulometricamente. Para a pista existente, a restauração contará com substituição parcial do revestimento betuminoso existente por um novo revestimento, mantendo-se a base e sub-base em cascalho laterítico já existentes. O novo revestimento será do tipo CBUQ em diferentes espessuras de reforço, conforme a situação do pavimento existente e necessidades de intervenção.
3.3 Volume de Terraplanagem
1º subtrecho
Para o cálculo dos volumes de movimentação de terras foram obedecidas as diversas condições de implantação tais como: largura da plataforma para segmentos em curvas e tangente, inclinação dos taludes de corte e aterro e espessura do pavimento. Estes elementos são os seguintes:
- Largura da plataforma de pavimento acabado: - Seção em tangente: 13,20 m;
- Seção em curva: 13,20 m + superlargura (variável); - Inclinação dos taludes:
- Corte em solo 1,0H : 1,1V; - Cortes em rocha 1H : 8V; - Aterro 1,5 H : 1,0V.
Assim, foram determinados os seguintes volumes totais: - Aterro – 789.425,00 m³
- Corte – 795.704,00 m³ - Bota-fora – 45.891,00 m³ - Empréstimo – 306.296,00 m³
As larguras da plataforma utilizadas no projeto geométrico e a inclinação dos taludes levaram em consideração sua estabilidade e possíveis interferências. Foram adotados basicamente: corte: 2(H) : 3(V); aterro: 3(H) : 2(V); corte em rocha: 1(H) : 8(V). Para este trecho foram determinados os seguintes volumes: - Aterro – 1.837.455,13 m³ (Lote 1) e 937.169,00 m³ (Lote 2)
- Corte – 1.837.455,13 m³ (Lote 1) e 472.988 m³ (Lote 2) - Bota-fora – 217.630,00 m³ (Lote 1) e 67.141 (Lote 2) - Empréstimo – 0,00 m³ (Lote 1) e 433.040 m³ (Lote 2)
2º subtrecho
O projeto de terraplanagem neste subtrecho adotou para os taludes as seguintes inclinações: corte: 1(V)/1(H); aterro: 1(V)/1,5(H). Assim, foram determinados os seguintes volumes: - Aterro – 1.295.001,451 m³ - Corte – 1.622.049,085 m³ - Bota-fora – 3.297,271 m³ - Empréstimo – 1.137.400,00 m³ 3º subtrecho
As inclinações adotadas no projeto de terraplanagem compreendem: corte: 1 (H) :1 (V); aterro: 1,5 (H): 1 (V). Para este trecho são determinados os seguintes volumes:
- Aterro – 695.943 m³ (Lote 1), 783.734 m³ (Lote 2), 875.932 m³ (Lote 3) - Corte – 535.568 m³ (Lote 1), 869.210 m³ (Lote 2), 572.018 m³ (Lote 3) - Bota-fora – 14.259 m³ (Lote 1), 183.399 m³ (Lote 2), 20.078 m³ (Lote 3) - Empréstimo – 113.915 m³ (Lote 1), 787.731 m³ (Lote 3)
3.4 Localização de Áreas de Apoio
Canteiro de obras 1º subtrecho
Os canteiros de obras situam-se, na estaca 1553, junto à localidade de Santa Elvira e na estaca 1422, próximo a Jaciara. Os canteiros ocuparão uma área de 4.000 m² e serão equipados com as seguintes instalações:
- Guarita de controle de acesso - Escritório de fiscalização - Escritório administrativo - Almoxarifado - Oficina mecânica - Castelo d¶água - Central de carpintaria
- Lavagem Lubrificação e borracharia - Ambulatório médico
- CIPA
- Posto de abastecimento - Refeitório
2º e 3º subtrechos
O canteiro de obras do 2º e do 3º subtrecho será localizado na estaca 1280, entre Serra de São Vicente e Cuiabá. A área destinada ao canteiro é de 585,83 m². Este canteiro terá a infraestrutura a seguir:
- Laboratório
- Depósito de cimento - Almoxarifado
- Oficina
- Área de estocagem - Usina para CBUQ
- Tanques para material betuminoso - Guaritas - Carpintaria - Armação - Vestiário/sanitário - Refeitório - Escritório/empreiteira - Escritório/fiscalização - Ambulatório - Alojamentos
Informações detalhadas sobre as jazidas, botaforas e pedreiras a serem utilizadas em cada um dos subtrechos da rodovia BR-163/364/MT podem ser consultadas no Plano de Controle Ambiental1.
3.5 Ações Previstas para Implantação e Operação do Empreendimento
As atividades que contemplam as tarefas e serviços (ações) considerados necessários à instalação e operação do empreendimento são descritas a seguir. Fase de planejamento
Aquisição/desapropriação de áreas
Esta atividade compreende o levantamento, cadastramento, contatos com proprietários e negociações para aquisição e desapropriação de áreas necessárias à implantação do empreendimento.
Fase de instalação
Mobilização da mão de obra
Esta atividade envolve tanto a seleção quanto a contratação de funcionários (mão de obra direta) para a obra. Tal aspecto é considerado de maneira isolada em virtude de sua relevância como vetor de impacto consistente, no caso, a geração de empregos e volume salarial correspondente.
Implantação de canteiros, instalações industriais e de apoio às obras
Consiste na instalação de estruturas de alojamentos, escritórios, canteiros de obra, pátios de vigas, usinas industriais provisórias (de asfalto e concreto), oficinas de manutenção e abastecimento, e outras instalações destinadas a servir de apoio à execução das obras. Sua ação impactante refere-se às alterações no relevo e interferências com cursos d¶água e/ou cobertura vegetal nos locais de implantação.
Desvios de tráfego
Inserem-se nesta atividade todas as intervenções envolvendo remanejamento do trânsito local no entorno da AID, incluindo a implantação de desvios e estradas provisórias se houver necessidade, a relocação de pontos de ônibus e eventuais adequações de rotas e alterações nos fluxos de pedestres, a fim de liberar o acesso de trabalhadores e maquinário às áreas de intervenção para o início dos trabalhos. Alguns desvios serão implantados na fase inicial e outros deverão ser implantados em etapas intermediárias, como atividade preparatória a uma determinada frente de trabalho na obra. Esta atividade poderá gerar transtornos ao usuário e moradores do entorno da rodovia.
Movimentação de maquinários e veículos de transporte
Esta atividade está relacionada a todos os deslocamentos de maquinários para as frentes de trabalho, nas áreas de intervenção e nos canteiros de obras, além do trânsito de veículos de carga responsáveis pelo fornecimento de materiais de construção (para as frentes de trabalho e canteiros) e veículos de transporte de trabalhadores e ferramentas necessários para a execução das obras. Os principais impactos decorrentes desta atividade estão associados à exposição dos trabalhadores, população do entorno e usuários da rodovia à alteração da qualidade do ar e ao aumento dos níveis de ruídos e vibrações.
Remoção da vegetação e limpeza do terreno
Esta atividade refere-se à raspagem e remoção do horizonte orgânico do solo nas áreas de intervenção, incluindo a supressão da vegetação existente (corte e destocamento), e a demolição/remoção de edificações, pavimentos, cercas e outros elementos físicos pré-existentes nas áreas de intervenção. Constituem atividades também englobadas neste item a estocagem provisória do horizonte orgânico do solo para posterior aproveitamento e o transporte e disposição de resíduos florestais em local específico.
É a principal causa dos impactos sobre o meio biótico (alteração da cobertura vegetal na faixa de domínio, perda de hábitats da fauna, alteração de corredores ecológicos, afugentamento da fauna) e fator desencadeante de alguns impactos no meio físico, como o surgimento de processos erosivos e assoreamento de recursos hídricos.
Obtenção de materiais de construção
Este aspecto envolve as atividades relacionadas à obtenção (extração) de fontes de materiais in natura ou de jazidas, como argila, rocha, areia etc. Os materiais serão transportados dos locais de fornecimento até as obras através de caminhões de carga. Esta atividade gera impactos positivos, entre os quais o aumento da demanda no setor terciário da área de influência e, em consequência, o incremento da receita tributária.
Operação das instalações nos canteiros de obra
Trata-se da operação ou utilização das instalações nos canteiros de obra: oficinas, almoxarifado, refeitórios, sanitários, escritórios, ambulatório, etc., por parte do pessoal envolvido diretamente com a implantação do empreendimento. Os principais impactos oriundos da operação dos canteiros de obra estão relacionados à emissão de ruídos, geração de resíduos sólidos e de efluentes sanitários, domésticos e industriais (oriundos da limpeza de equipamentos e veículos) e potencial alteração na qualidade das águas superficiais.
Operação das instalações industriais
Envolve todas as atividades para o funcionamento das instalações industriais, tais como usinas de concreto, de asfalto e de solo. Dentro deste aspecto estão incluídas as atividades de alimentação destas instalações com a matéria-prima necessária à produção (carga e descarga de materiais). Os principais aspectos envolvidos nesta atividade serão a emissão fugitiva de poeira e gases e a geração de ruídos, além da possibilidade de geração de efluentes industriais, dependendo do tipo de instalação.
Construção de obras de arte especiais
Consiste na construção de pontes, passarelas e outras obras que envolvem o uso extensivo de elementos estruturais de concreto, inclusive elementos pré-moldados em pátios de vigas ou outras áreas de apoio. As principais atividades envolvidas incluem:
- Definição do método de fundação a ser utilizado: cravação de estacas (metálicas ou pré-moldadas) e/ou colocação de tubulões e realização de escavações (com ou sem ar comprimido);
- Fôrmas e desformas; - Colocação de armaduras;
- Produção, transporte, adensamento e cura de concreto; - Concretagem;
- Montagem de elementos pré-moldados.
Sua ação impactante está relacionada ao aumento de descontinuidades já identificadas em corredores ecológicos existentes e à exposição dos ecossistemas terrestres e aquáticos a emissões aéreas, resíduos sólidos e efluentes líquidos.
Implantação do corpo estradal
A etapa de implantação do corpo estradal inclui os serviços de movimentação de terras, com o emprego de escavadeiras, pás-carregadeira e caminhões para a execução de cortes e aterros, de modo a atingir a linha do greide projetado. Assim, envolvem operações de escavação do terreno natural até a cota da plataforma de terraplanagem ou a formação dos corpos de aterros pela justaposição de camadas consecutivas sob constante horizontalização, abrangendo a largura total das seções de trabalho. Engloba também os serviços complementares necessários à formação das saias de aterro e taludes de corte com as respectivas bermas de alívio.
A terraplanagem contribuirá fortemente para a emissão atmosférica de poeira, tanto pela movimentação de solo quanto pelo próprio trânsito de maquinário, e para a geração de ruídos, em função do maquinário empregado. É a principal causa de alteração do relevo, desencadeamento de processos erosivos e perda de sítios arqueológicos.
Execução do sistema de drenagem
O projeto de drenagem e obras de arte correntes consiste na definição e posicionamento dos dispositivos responsáveis pela captação e condução ao deságue seguro das águas que, de uma forma ou de outra, possam atingir o corpo estradal, causando danos à sua estrutura. Os dispositivos a serem utilizados se agrupam em:
- Drenagem de talvegue (bueiro de grota); - Drenagem superficial (bueiro de greide); - Drenagem profunda;
- Fundações obras de arte correntes; - Drenagem de obra de arte especial.
As escavações que serão executadas para a instalação do sistema de drenagem ocasionam o surgimento de processos erosivos, potencializando o aumento da turbidez e assoreamento dos recursos hídricos.
Execução da plataforma de pavimentação e do revestimento
Consiste na conformação da plataforma de pavimento de acordo com o greide de projeto e na estruturação das diversas camadas que compõem o pavimento de uma rodovia, envolvendo atividades de reforço do subleito, estruturação da sub-base e da sub-base com o emprego dos materiais adequados em função de suas características de resistência e granulometria, limpeza da base para execução das etapas subsequentes, execução da imprimação (procedimento de pintura asfáltica) e, finalmente, do revestimento (mistura asfáltica).
Execução de paisagismo. Esta atividade compreende a revegetação de taludes e aterros por meio de hidrossemeadura em toda a extensão da rodovia. Compreende uma medida que visa evitar impactos no solo e na obra implantada, em especial os processos erosivos.
Obras complementares
As obras complementares englobam as seguintes atividades:
- Execução da pintura de sinalização rodoviária horizontal, que consiste no conjunto de marcas, símbolos e legendas aplicados sobre o revestimento de uma rodovia obedecendo a um projeto desenvolvido para atender às condições de segurança e conforto dos usuários;
- Instalação das sinalizações verticais, placas de sinalização e painéis;
- Implantação de dispositivos de segurança lateral: guarda-rodas, guarda-corpos e barreiras, etc.
Durante estas atividades, o transporte e eventual derramamento de produtos utilizados na pintura de sinalização rodoviária pode ocasionar a contaminação do solo e de águas superficiais.
Desmobilização das estruturas e instalações
Os procedimentos de desativação de obra referem-se às atividades de desmobilização das áreas diretamente afetadas pelas obras, sejam vias urbanas utilizadas ou acessos abertos para utilização das áreas de apoio. Também haverá desativação e/ou interdição dos acessos de serviço, dos desvios provisórios e restituição das condições normais de trafegabilidade nas vias afetadas, incluindo remoção de toda a sinalização provisória. Esta ação também inclui as atividades necessárias à remoção de canteiros de obra e demais instalações provisórias que tenham sido implantadas durante as obras, incluindo-se a limpeza geral das áreas afetadas e restituição/recuperação dos acessos.
Durante os procedimentos de remoção de instalações provisórias, a movimentação de máquinas e equipamentos deverá gerar emissões aéreas e aumento do nível e ruídos. Também serão gerados resíduos sólidos constituídos por materiais de construção não reaproveitáveis.
Fase de operação
Operação da rodovia (liberação para o tráfego)
A ação de operação refere-se genericamente ao uso do empreendimento para a circulação de veículos de carga e de passageiros, de acordo com o padrão viário estabelecido (velocidade diretriz). A liberação para o tráfego está associada a impactos positivos como a melhoria da trafegabilidade e segurança da rodovia e a dinamização da economia.
Planejamento e controle operacional
O planejamento e controle operacional abrangem todas as atividades de gestão necessárias ao normal funcionamento de uma rodovia. Incluem-se entre as atividades de planejamento o detalhamento das rotinas de operação normal, rotinas especiais para feriados e eventos específicos, procedimentos para circulação de cargas excepcionais e aspectos similares.
Também se inclui como ação de planejamento e controle operacional a programação de serviços de apoio à fiscalização do trânsito, a guarda e vigilância patrimonial, a operação dos sistemas de pesagem, sistemas de arrecadação de pedágio e sistemas de sinalização variável. Estas atividades irão contribuir para a melhoria da trafegabilidade e segurança na rodovia.
Manutenção da rodovia (preventiva, corretiva e de rotina)
A manutenção da rodovia inclui um conjunto de obras e serviços a serem executados periodicamente de forma preventiva, ou emergencialmente, de forma corretiva. Entre as atividades de conservação preventiva, merecem destaque a restauração do pavimento, envolvendo principalmente atividades de fresagem e recapeamento, a substituição periódica de componentes do sistema de sinalização vertical, os serviços de recuperação em obras de arte especiais, e similares. As atividades de conservação emergencial poderão incluir a correção de erosões e/ou escorregamentos, trabalhos de desassoreamento, serviços especiais de estabilização de terraplenos e estruturas de contenção, e outros. A ação de manutenção rodoviária de rotina engloba um conjunto de serviços executados de forma permanente, incluindo as atividades de limpeza das pistas e acostamentos, correções pontuais do pavimento, capina e manutenção da forração vegetal na faixa de domínio, reparos menores em obras de arte especiais, reparos e/ou substituição de barreiras e dispositivos de segurança, pintura periódica de faixas e outros dispositivos de sinalização, limpeza e desassoreamento do sistema de drenagem e obras de arte correntes, manutenção dos sistemas de iluminação e instalações elétricas em perfeito estado de funcionamento, e outras atividades afins. Da mesma forma que o planejamento e controle operacional, a manutenção da rodovia irá contribuir para a melhoria da trafegabilidade e segurança na rodovia.
4 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E ETNO-HISTÓRICA
4.1 Contexto Etnográfico
A porção territorial ocupada atualmente pelo Estado de Mato Grosso, historicamente tem origem num espaço físico bem mais vasto que o atual. Abrangia, no começo, o que hoje são os territórios dos Estados de Rondônia e Mato Grosso do Sul. O antigo Mato Grosso media aproximadamente 1.477.041 km². Os atuais territórios de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Bolívia e Paraguai foram explorados por Álvar Núñez Cabeza de Vaca, espanhol que realizou uma expedição no Caribe, na Florida (Estados Unidos) e no México. Em uma segunda viagem na década de 1540 desembarcou no Brasil, onde atravessou os estados de Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso até chegar à Bolívia e ao Paraguai. Além de Cabeza de Vaca, houveram outros exploradores que realizaram expedições no Mato Grosso, sobretudo no Mato Grosso do Sul, tais como Aleixo Garcia, em 1524 e 1525, Juan Ayolas em 1537.
Os registros etnográficos nos séculos XVI e XVII são poucos, mas dados dos grupos indígenas que habitavam a região foram coletados e registrados, sobretudo, a partir do século XVII e XVIII, com a chegada dos bandeirantes que estavam em busca do ouro na região de Mato Grosso. Os registros indicam a existência dos grupos indígenas Nambiquara (ou Nambikwara), dos Pareci, dos Bororo.
Os primeiros registros da região ocupada pelos Nambiquara datam de 1770, quando se organiza uma expedição para construir uma estrada que ligava o Forte Bragança e Villa Bela e também na busca de ouro. Os documentos da expedição descrevem a presença de “índios” entre os quais estão os Cabixi, localizados nos rios Cabixi, Iquê e o curso inferior do rio Juruena (provavelmente este grupo eram os Sabanê que habitavam no extremo norte do território Nambiquara) (Costa, 2014).
Além do termo Cabixi, outros termos foram utilizados para designar aos grupos hoje conhecidos como os Nambiquara. Um subgrupo dos Pareci também era chamado Cabixi neste mesmo período. E em alguns registros históricos se estabelece uma distinção entre os Cabixis “bravos” e “mansos” designando aos Pareci e aos Nambiquara (Idem).
Em 1781 surge a primeira tentativa de aldear os Cabixi que viviam na região do Vale do Sararé, com aproximadamente 56 indígenas classificados como Pareci e Cabixi. Porém esta redução é abandonada em 1783.
Em 1795 foi empreendida uma busca de escravos negros fugitivos na serra dos Pareci. Na busca encontraram 3 quilombos onde moravam indígenas, negros e caborés (mestiço de indígena com negro) (Idem).
Ao final do século XIX, as minas de São Francisco Xavier estavam esgotadas e muitas cidades que tinham surgido na região foram abandonadas. Registros descrevem os ataques dos Cabixis às cidades e povoados da região durante esse mesmo período. Os Cabixis ameaçavam aos trabalhadores que se dedicavam a extração de poaia (Cephaelis Ipecacuanha).
Por outro lado, existem descrições do Bandeirante Antônio Pires de Campos, que em 1718 esteve às margens do Rio Coxipó, em local denominado São Gonçalo Velho, onde combateu e aprisionou centenas de índios Coxiponés e Bororos. Aos inicios do século XX (1900) foram registrados mais de 6.000 Nambiquara. Porém, as doenças acabaram com a maior parte dos indígenas, reduzindo a aproximadamente 600 pessoas para a década de 19602 (OLSON, 1991). O The Indians of Central and South America: An Ethnohistorical Dictionary explica que para a década de 1990 os Nambiquara viviam aldeados em terras dos Pareci, espalhados em aldeias onde habitavam entre 30 ou 40 pessoas. Até essa década (1990) havia ao redor de 750 Nambiquara no Vale do Guaporé (Idem).
No ano de 1912, o médico e antropólogo Edgar Roquette-Pinto realiza um importante registro dos cantos e músicas dos Parecis e Nambiquaras na Serra do Norte3, que naquela altura viviam completamente isolados, sem jamais terem visto um homem branco.
Por outro lado, outro grupo étnico, talvez o mais estudado no estado do Mato Grosso foi o Bororo, já que viveram momentos críticos de mortalidade no século XX. O que levou ao governo brasileiro realizar estudos antropológicos e etnográficos do grupo:
“Mediante os contatos com a população não-índia vinda principalmente de São Paulo alguns grupos Bororo enfrentaram, fugiram e testemunharam a extinção acelerada de suas aldeias e de sua população. O primeiro massacre de Bororo, em conflito com os não- índios, remonta ao ano de 1718, e, a partir desse momento, outras chacinas aconteceram. O número de índios mortos não ficou registrado na documentação da época. Os documentos geralmente apontam o número de bandeirantes, os homens, os brancos, distinguindo-os de negros e índios. O reflexo de tanta violência aparece mais claramente na dizimação de aldeias dos Bororo Ocidentais, alvos de muitos massacres” (ZAGO, 2005).
Nos registros mais antigos, se descreve que na fazenda Jacobina, ao Sul de Cáceres, pelos anos de 1810 e 1816, foram mortos mais de 450 Bororo em guerra declarada. Para o ano de 1886, segundo Caldas (1887), os Bororo Orientais somavam 3.595 indivíduos, distribuídos em 34 aldeias. Já para o ano de 1910, um recenseamento realizado em aldeias dos Bororo Orientais apresentou um total de 1.500 indivíduos (OCHOA, 2001 apud Idem).
2 Tradução livre do inglês.
3 Estes estão hoje no acervo do Setor de Etnologia do Museu Nacional e parte das
Figura 3 - Aldeia Bororo. Fonte: Lévi-Strauss, 1988
Entre os pesquisadores que dedicaram publicações aos Bororo estão Lévi-Strauss (em diversas publicações dedica seus estudos aos Bororo), Antônio Colbacchini e César Albisetti. Existe uma compilação dos estudos Bororo na Enciclopédia Bororo, realizada por César Albisetti e Ângelo Jaime Venturelli, em 1969 e 1976. Lévi-Strauss descreve os Bororo como um grupo forte, para ele os mais fortes e altos que conheceu no Brasil.
Su cabeza redonda, su rostro alargado, de rasgos regulares y vigorosos, su torso de atletas, recuerdan ciertos tipos patagónicos a los cuales quizás habría que vincularlos desde el punto de vista racial. Este tipo armonioso rara vez se encuentra entre las mujeres, en general más pequeñas, enclenques y de rasgos irregulares. Desde el princípio la jovialidad masculina formaba singular contraste con la actitud áspera del otro sexo. A pesar de las epidemias que devastaban la región, la población tenía un asombroso aspecto de salud. Sin embargo, había un leproso en la aldeã (LÉVI-STRAUSS, 1988, pg. 231).
Da Silva (2013) descreve que os Bororo ocuparam a posição central no planalto em ambos os lados do divisor de águas entre o rio Amazonas, no norte do Paraná e no sul. Enquanto seu território estendia-se por uma grande área, algumas outras regiões como o Alto Xingu foram caracterizadas por muitos grupos menores, pertencentes a diferentes grupos linguísticos que vivem uns ao lado do outro. No ano de 1880, os Bororos Orientais foram finalmente pacificados pela ação militar e colocados em colônias controladas pelo governo. Seus parentes distantes, os Bororos do Cabaçal, foram extintos, enquanto alguns grupos na região do Alto Xingu foram capazes de manter a sua independência (pg. 32-33). Atualmente o Museu Dom Bosco, em Campo Grande, resguarda o acervo mais completo de objetos e artefatos dos Bororo.
Figura 4 – Pintura Bororo. Fonte: Lévi-Strauss, 1988
Entre os naturalistas que registraram etnograficamente a região de Mato Grosso no século XX está o Barão de Langsdorf (KOMISSAROV, 1984) e a realizada por Hércules Florence (FLORENCE, 1941). Também está o naturalista português Alexandre Rodrigues Ferreira, realizou uma estancia curta em Mato Grosso em 1791, registrando etnograficamente, especialmente a etnia Kadiwéu, mas também obteve material relacionado aos índios Bororo, Guató e Kinikinao (“Guanaãs”) (DA SILVA, 2013, pg. 38).
Figura 5 - Adorno de orelha, Bororo da Campanha (Mato Grosso). Coletado por Johann Natterer in 1826. Fonte: Da Silva, 2013
Da Silva (2013) na sua Dissertação descreve que houve ao redor de 76 viajantes e pesquisadores que visitaram a região centro do Brasil (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e D.F.), cujas profissões iam de naturalistas (zoólogos, botânicos, geólogos), médicos (antropólogos, físicos), geógrafos, exploradores, aventureiros, artistas, missionários a fotógrafos. Os exploradores eram de origem
alemã, francês, ingleses, norte americanos, suíços, austríacos, italianos, entre outros.
Os povos indígenas encontrados pelos viajantes no Brasil Central, entre o final do século XVIII até meados do século XX, eram de origem heterogênea e pertenciam a quatro troncos linguísticos principais (Aruak, Jê, Karib, Tupi-Guarani), cuja distribuição maior estendeu-se para o norte e leste; um menor grupo linguístico (Guaikurú), cujos outros 32 membros foram viver para o sul; e um número de famílias de línguas isoladas, que só foram encontrados no Brasil Central como: Bororo, Karajá, Nambikwara, Trumai” (Idem, pg. 33). Entre os viajantes na região de Mato Grosso também estava o naturalista francês, Francis de La Porte de Castelnau. Que nos anos de 1843 e 1844, além de visitar Mato Grosso também visitou Goiás, em sua narrativa de viagem inclui descrições referentes aos povos indígenas: Xavante, Xerente, Kadiwéu, Karajá, Bororo do Cabaçal e Terena. Os volumes de geografia Castelnau (1853-1854) contêm mapas extremamente detalhados que mostram as localizações dos grupos indígenas e as suas aldeias.
4.2 Contexto Histórico
Nos limites fronteiriços dos domínios portugueses com a América espanhola no território das Províncias de Moxos e Chiquitos, a Capitania de Mato Grosso era habitada por uma diversidade de sociedades indígenas, e tinha a mineração como atividade produtiva decisiva. Segundo DE JESUS (2012, pg. 94) "Mato Grosso teve seu espaço colonizado na primeira metade do século XVIII, sendo o arraial e depois Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá o ponto mais avançado até 1734".
O movimento expansionista com base na mineração, bem como a descoberta e exploração do ouro em Coxipó-Mirim, em 1719, através dos paulistas e reinóis, irá intensificar a interiorização dessa exploração, que foi aprofundada com a expansão da mineração para a região do Rio Guaporé, estabelecendo novos limites de ocupação e disputas territoriais que irão acompanhar a construção da Capitania e posterior Província de Mato Grosso, até o final do século XIX.
No ano de 1727 o Arraial do Senhor Bom Jesus do Cuiabá (1722) foi elevado à condição de Vila e, nesse momento, pertencia à jurisdição da capitania de São Paulo. Um processo de reorganização política dos limites das capitanias desmembrou desta as recém-criadas Capitanias de Mato Grosso e Goiás. Mesmo com uma espacialidade superdimensionada, totalizando 48 mil léguas, a Capitania de Mato Grosso era constituída apenas por dois distritos, o do Cuiabá e o do Mato Grosso, e suas respectivas vilas: Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá (1727) e Vila Bela da Santíssima Trindade (1752), esta fundada para ser sede de governo (DE JESUS, 2012).
Se observa em parcela da produção bibliográfica que, mesmo com a maior antiguidade da Vila do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, a administração portuguesa buscava implementar e fortalecer seu projeto de ocupação e domínio na fronteira Oeste, com a fundação da Vila Bela da Santíssima Trindade já em território castelhano, com base nos acordos territoriais (Tratado de Madri).
Originários de Cuiabá as ações de exploração para escravização de índios e busca do ouro se expandiram para o Oeste:
Saiu da Vila do Cuiabá Fernando Paes de Barros com seu irmão Artur Pais, naturais de Sorocaba e, sendo o gentio Pareci naquele tempo o mais procurado e já quase extinto, depois de conquistarem alguns nas suas vastas campanhas, cursaram mais ao poente delas, com o mesmo instinto; e arrancharam-se em ribeirão que deságua no rio Galera - o qual corre do nascente a buscar o rio Guaporé -, e aquele nasce das fraldas da serra chamada hoje chapada de São Francisco Xavier de Mato Grosso, da parte oriental. Fazendo experiência de ouro, tiraram nela três quartos de uma oitava, na era de 1734 (DIAS BLAU, 2007).
Vila Bela da Santíssima Trindade localizava-se às margens do rio Guaporé, em ponto estratégico para a consolidação do poder luso, em razão de sua localização às margens de um rio navegável para a comunicação interiorana com o Grão-Pará via os rios Guaporé-Marmoré-Madeira. Segundo a argumentação de Dias Blau (2007) a proximidade geográfica com as missões religiosas de Chiquitos e Moxos, com a possibilidade de mão-de-obra para os exploradores, bem como a conquista da região de fronteira pode ser reconhecida pela Instrução Real enviada ao capitão general Rolim de Moura:
Por se ter entendido que Mato Grosso é a chave e o propugnáculo do sertão do Brasil pela parte do Peru, e quanto é importante por essa causa que naquele distrito se faça população numerosa, e haja forças bastantes a conservar os confinantes em respeito, ordenei se fundasse naquela paragem uma vila, e concedi diversos privilégios e isenções para convidar a gente que ali quisesse ir estabelecer-se, e que para decência do governo e pronta execução das ordens se levantasse uma companhia de dragões, e ultimamente determinei se erigisse juiz-de-força no mesmo distrito.
A necessidade de estabelecer um mecanismo de ocupação sob controle ibérico, num contexto de desigualdade demográfica dos exploradores portugueses e africanos frente às etnias indígenas, resultou na criação do "Diretório dos Índios", de 1757, com base em três pilares fundamentais: 1. Tutela dos Povos Indígenas; 2. Regime de trabalho índio/branco; 3. Plano de Povoamento. "O Diretório tornou-se uma carta de orientação que determinava os procedimentos a tornou-serem tomados para a implantação e sustentação de novas aldeias, por meio do qual os índios deveriam ser retirados de sua condição original, transformados em associados portugueses, vassalos, tornariam efetivo o direito português às terras que ocupavam" (DIAS BLAU, 2007).
Entretanto, a análise histórica reconhece que, um dos maiores impactos do "Diretório" no processo de ocupação da fronteira Oeste foi o processo de miscigenação dos novos exploradores com as diferentes etnias indígenas. Como mencionado acima, a ocupação do Oeste, paulatinamente em direção ao norte, se fortalece no período da União Ibérica e criação do Estado do Grão-Pará e Maranhão, bem como através da Companhia de Comércio homônima. A interiorização da conquista elevou a demanda por mão de obra indígena, com os colonos fazendo uso do casamento e concubinatos, assim além da subordinação por meio das armas, nas guerras justas, essa subordinação passou a envolver também negociações, as alianças ocorriam sempre que os índios percebiam vantagens na ligação com os portugueses contra grupos rivais.
Em 1755, a Vila Bela da Santíssima Trindade já contava com 47 fogos, 538 pessoas de confissão e comunhão, bastantes sítios de lavoura e algumas de fazenda de criação de gado.
A agricultura florescia e já iam estabelecendo gado vacum onde também se criavam carneiros. Do cacau que espontaneamente cresceu pelas margens do Guaporé se fazia chocolate para o consumo: além de todos esses recursos locais conseguiu o general que os comerciantes de Arariguaba (mais tarde Porto Feliz, às margens do Tietê) viessem com suas canoas até Vila Bela (DA SILVA, 2006). A fundação da Vila-Capital não foi o único movimento de ocupação do espaço territorial da administração portuguesa. Povoados e Arraiais mais antigos foram preteridos para a implantação da administração da capitania. Entretanto, representavam os interesses de fortalecimento da conquista, a exemplo da Aldeia Lamego (Antigo São João), Destacamento Palmell (Antigo Pedras) Leonial (Antigo Lugar de São José) e Guimarães (Antigo Santa Ana da Chapada), assim demonstrando o intenso e paulatino movimento de ocupação de parcela do território americano castelhano de forma deliberada e com o aval da Corte portuguesa.
Ainda durante os 17 anos de administração de Luís de Albuquerque em Vila Bela, implementando o projeto português de ocupação da fronteira Oeste com a América espanhola, o governador:
Exerceu uma política agressiva, com vista ao processo de demarcação de limites entre as duas Américas Ibéricas, cuja tônica principal era a dilatação e consolidação das fronteiras lusitanas no sentido oeste. Para tanto, sempre seguiu instruções régias, pôs em prática a fundação de núcleos colonizados quase sempre localizados em terras nominalmente espanholas, ou em áreas que levassem à efetiva expansão de fronteiras lusas. Dessa forma foram fundados neste governo, o Presídio de Nova Coimbra (1775), o Forte Príncipe da Beira (1783), a Povoação de Viseu (1776), Vila Maria do Paraguai (1778), a Povoação de Albuquerque (1778) e a Povoação Regular de Casal Vasco (1783), entre outros núcleos (DA SILVA, 2006).
Entre as dificuldades encontradas para a efetiva instalação da presença da administração portuguesa na região estava a manutenção da população que ali se instalava e que estava intrinsecamente ligada a produção econômica de consumo alimentar. A exploração aurífera e escravista foram os elementos impulsionadores da exploração, bem como a ampliação e controle dos domínios, mas era necessário abastecer essa estrutura numa região de completa ausência de produção de bens de consumo em larga escala.
A produção das vilas e fortificações era meramente de produtos básicos tais como farinha de mandioca, feijão, milho e toucinho. As demais mercadorias eram transportadas e adquiridas nas denominadas "Monções", como a monção do norte oriunda do Pará com direção ao Mato Grosso, pela via fluvial Rio Guaporé, e a monção do sul oriunda de Cuiabá, mas que iniciava o transporte das mercadorias em São Paulo (produtos do Rio de Janeiro e Bahia), utilizava o rio Tietê ou bacia do Alto Rio Paraguai, e chegando por terra através de Goiás seguia para Cuiabá.
O comercio entre as Vilas e Fortificações era intenso e necessário para o fluxo das mercadorias básicas, com os produtos mais elaborados entregues pelas moções. O transporte de produtos entre as vilas pode ser observado nas comunicações abaixo:
- "Chegaram a esta vila os cavalos, éguas e burros na relação junta a portaria de V. Excia. de 18 do corrente mês (...) da Fazenda de Gado de Vila Maria"
- "Foi V. Excia. servido fazer-me a distinta honra participar que as cinco éguas que se acham no pasto vindas do Presídio de Nova Coimbra para esta Capital (...)"
- "Em execução das últimas ordens de V. Excia. fica suspensa a encomenda da farinha, feijão e toucinho que em outra lavra mandou a pronto e fiz na diligencia fazer expedir para essa Capital (...). Parece-me que a frasqueira de sal e mais gêneros não poderá ainda ir com a encomenda sobretida (...)"(Da Silva, 2006). Gêneros de primeira ordem o feijão, farinha de mandioca e o toucinho, bem como o sal eram produtos fundamentais no cotidiano da população da fronteira do Oeste.
Entretanto, no caso da Vila-Capital, mesmo com as reiteradas ações de urbanização das vias públicas e a orientação para que as expansões das edificações, na vila, ocorressem na direção contrária ao rio Guaporé não evitou modo qualitativo à diminuição rápida das condições insalubres que acometiam a área urbana na época das cheias e vazantes do rio. Seu próprio desenvolvimento foi retardado pelo reconhecimento de suas condições sanitárias precárias.
Em 1820, Cuiabá volta a ser sede política e administrativa de Mato Grosso e a antiga capital entra em processo de declínio. Nesse período se desenvolve uma exploração extrativista que irá complementar a economia dos produtos da terra como farinha de mandioca, feijão, açúcar, azeite de mamona e algodão.
Inicia-se a extração da ipecacuanha ou poaia. Com a intensificação da extração da planta, que era abundante principalmente na região de Barra do Bugre e Cáceres, registra-se um acréscimo na economia da região. Entretanto, a ação extrativista agressiva resultou no decréscimo da planta, também intensificada pelo desmatamento das matas úmidas que contribuíam com o equilíbrio do ecossistema de desenvolvimento da planta.
Ainda no século XIX, temos o desenvolvimento de outros nichos econômicos na Província de Mato Grosso, como a exploração na borracha, com maior desenvolvimento após a Guerra do Paraguai, com o centro urbano de Cuiabá se tornando o referencial da comercialização do látex da borracha mato-grossense. Os diferentes momentos econômicos da Província, aurífero e extrativista serão impulsionadores de movimentos de expansão, ocupação e desenvolvimento do território, que pode ser registrado, também com o advento da pecuária e seu pleno desenvolvimento em Livramento, Santo Antônio do Rio Abaixo e Chapada dos Guimarães.
Esse cenário de desenvolvimento econômico social esteve por um longo período suas bases na pratica escravocrata sobre os indígenas e africanos. Como mecanismo fundamental das práticas cotidianas na sociedade brasileira, essa relação de controle ultrapassou as fronteiras das relações econômicas e permeou as práticas sociais em todos os níveis e em particular na formação das famílias. Essa tríplice participação cultural irá resultar no melhor enriquecimento cultural que uma região e um continente poderia receber como substrato de sua sociedade.
4.3 Guerra do Paraguai
No contexto histórico/social de formação da territorialidade do estado de Mato Grosso, de sua construção cultural e do reconhecimento de sua identidade, não podemos deixar de mencionar os conflitos advindos da Guerra da Tríplice Aliança, como um dos momentos de questionamento de embates para consolidação dos limites territoriais.
Entretanto, como palco de envolvimento de diversos atores e de inúmeras variáveis históricas que podem ser abordadas, não é objeto deste projeto de diagnóstico arqueológico proceder de uma análise profunda e explicativa para o cenário que se apresentou na segunda metade do século XIX, e que inseriu o estado do Mato Grosso como um dos palcos principais de acontecimentos de vários eventos. Uma abordagem mais pormenorizada será realizada no desenvolvimento do relatório advindo deste projeto, buscando identificar os acontecimentos deste momento histórico nos registros historiográficos da área a ser analisada.
Os registros históricos da administração pública4 do estado do Mato Grosso indicam que os acontecimentos marcantes no contexto da guerra foram: 1. O início da invasão de Mato Grosso pelas tropas paraguaias; 2. O conflito entre tropas mato-grossenses e paraguaias no Forte de Coimbra; 3. A defesa do Posto Militar de Dourados; 4. A evacuação e Retomada de Corumbá; 5. A retirada de Laguna.
Um dos objetivos do governo paraguaio era finalizar problemas de fronteira com a Província do Mato Grosso, efetivando a invasão com um exército dividido em duas colunas. O Coronel Francisco Isidoro Resquin, com uma força de 3.200 soldados ataca o Forte de Nova Coimbra defendido por dois dias pelas forças brasileiras, mas abandonando-o e seguindo para Corumbá. Outras forças seguem na direção para a colônia militar de Dourados. A Vila de Albuquerque é tomada em 01.01.1865, e Corumbá em 04.01 do mesmo ano. Após a reação da Corte brasileira, bem como dos mato-grossenses as áreas ocupadas pelas forças paraguaias foram reconquistadas e os limites territoriais foram estabelecidos em sua configuração contemporânea.
4.4 Contextualização Arqueológica
Em relação ao período de ocupação pré-colonial da região utilizou-se como base de dados e informações as pesquisas arqueológicas referentes ao Centro-Oeste do Brasil, dando especial atenção ao Estado de Mato Grosso.
Além disso, considerou-se também sua estreita relação com os estados de Goiás e Mato Grosso do Sul, buscando traçar um possível modelo de ocupação, já que no passado arqueológico as atuais divisões político-territoriais inexistiam, possibilitando maior mobilidade e dispersão de grupos no espaço.
Conforme Funari & Oliveira (2000), o estudo arqueológico no estado de Mato Grosso deu seus primeiros passos no final do século XIX, pelas mãos da pesquisadora Maria do Carmo de Melo Rego, por volta de 1880, que escavou algumas urnas cerâmicas nas proximidades de Porto Tucum, ao sul do rio Jauru. Posteriormente, entre os anos de 1890 e 1920, outros pesquisadores de origem alemã, a serviço do Museu Etnográfico de Berlim, passaram a realizar pesquisas arqueológicas na região, tanto ao norte quanto ao sul do Estado, através dos
trabalhos de Max Schmidt entre os anos de 1920 e 1940, Baldus em 1937 e Petrullo em 1932, com o retorno as pesquisas de campos com Simões em 1967 na região do Alto Xingu.
Na década de 1970 e em meados dos anos 1980, conforme Oliveira & Viana (2000), as pesquisas arqueológicas reiniciaram no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, intensificando-se com projetos específicos a partir dos anos 90 até o presente.
As pesquisas realizadas na década de 1970 buscavam uma reconstituição do passado arqueológico a partir de uma visão linear de cultura, centradas nas teorias de difusão e migração, sem grandes preocupações de cunho interpretativo e sem implicações inerentes aos processos culturais envolvidos em seus objetos de pesquisa.
Este quadro processualista passou a sofrer mudanças a partir do desenvolvimento de projetos de pesquisa com investigações voltadas ao conhecimento da pré-história do Centro-Oeste.
4.5 Os Caçadores-Coletores
Acredita-se que os grupos de caçadores-coletores pré-coloniais se estabeleceram em regiões de planalto ou em faixas de transição entre a zona do planalto e a do alto Tocantins, geralmente em altitudes entre 700 e 800 m, apresentando uma preferência por vegetações abertas, entre as quais se inclui o complexo sistema de áreas de Cerrado. Estas ocupações humanas da região do Centro-Oeste por caçadores-coletores deram-se num período de transição entre o final do Pleistoceno e o início do Holoceno, por volta de 12.000 e 10.000 AP (OLIVEIRA & VIANA, 2000).
As primeiras datações, no estado de Mato Grosso, para os caçadores-coletores que ocuparam o vale do Guaporé estavam em torno de 8.930 e 10.600 AP, ocupando os sítios arqueológicos Santa Elina (em Jangada) e Morro da Janela (em Rondonópolis) por volta de 10.120 AP e 10.080 AP (VILHENA-VIALOU &VIALOU, 1989; WÜST & VAZ, 1998 apud OLIVEIRA & VIANA, 2000).
Entretanto, os dados mais recentes indicam uma cronologia mais recuada com datações de 23.320±1000 anos A.P., com base em material coletado no Sítio Santa Elina, onde foram coletados material orgânico em níveis Pleistocênicos. SOUZA (2014) apresenta dados coletados em publicações de Vilhena-Vialou (2005a, 2005b), que discorre sobre os trabalhos realizados na região da Cidade de Pedra “situada entre as recentes explorações agrícolas no platô e as antigas aldeias Bororos no Rio Vermelho”, com datações para o sítio Ferraz Egreja datado em 4.600±60 A.P.
As pesquisas realizadas por Irmhid Wüst nos anos de 1990 apresentam dados para o sítio Morro da Janela com datação de 10.080±80 A.P., como representante de ocupação de caçadores-coletores na sub-bacia do rio São Lourenço.
Para o vale do Guaporé temos o complexo Dourado que apresenta materiais líticos encontros no Abrigo Sol, com lascas com retoques de pressão, lâminas bifaciais com entalhes laterais, raspadores altos com retoques laterais, percutores e raspadores baixos, com datações entre 14.470±140 A.P. e 19.400±1.100 A.P. Segundo Souza (2014) Miller realizou escavações sistemáticas e de níveis controlados nos anos de 1974, 1975 e 1977 no âmbito do Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica - PRONAPA.
4.6 A Tradição Itaparica
Segundo Oliveira & Viana (2000), em fins da década de 1960 foi definida a Tradição. Itaparica que se encontra distribuída espacialmente da região Nordeste do Brasil até o sudeste do Estado de Mato Grosso, em especial os municípios de Ponte Branca, Guaratinga, Rondonópolis e Poxoréu.
De acordo com as análises de Schmitz (1999), os grupos humanos filiados à produção dos plano-convexos, ou seja, à Tradição Itaparica, teriam vivido nessa extensa área da América do Sul, nos biomas de cerrado e caatinga, a partir do final do Pleistoceno, em ambientes com infinitas possibilidades, no que tange à exploração de recursos energéticos (SCHIMTZ, 1999).
O maior marcador cultural são os artefatos plano-convexos, ferramentas muito bem elaboradas, porém com quase ausência de ferramentas bifaciais, como pontas de projétil, por exemplo.
Nas palavras de Fogaça, a caracterização geral dos grupos humanos detentores da tecnologia filiada à Tradição Itaparica (1995, pg. 146):
Destacando a raridade das pontas de projétil líticas (que começam a surgir em torno de 9 mil e 8500 anos A.P.), levanta a hipótese de que existiria no Brasil um horizonte Paleo-índio sem pontas (Centro-Nordeste) e um horizonte com pontas (Planalto Meridional). No Centro-Nordeste tratar-se-iam de culturas – ligadas às áreas de cerrado e caatinga – de caçadores coletores generalizados. Servem igualmente como argumentos para essas hipóteses o desconhecimento de sítios de matança e, em Goiás, a presença de vestígios alimentares indicadores da utilização dos abrigos como habitações ocupadas durante todo o ciclo anual.
Muitos autores apontam que a Tradição Itaparica teve sua origem, ou seja, sua discussão acadêmica, marcada pelas escavações da famosa Gruta do Padre, submédio vale do rio São Francisco, em Pernambuco (MARTIN, 1998; FOGAÇA, 1995; LOUDEAU, 2006; MARQUES & HILBERT, 2009; RODET et al., 2011), onde o arqueólogo Valentin Calderón, foi quem primeiro estabeleceu um horizonte lítico de grupos de caçadores coletores que ocuparam a área a partir de 11 mil anos A.P. (MARTIN, 1998).
Com a divulgação dos resultados da pesquisa de Valentin Calderón, a Gruta do Padre passou a ser referência para identificação das indústrias líticas pré-históricas evidenciadas no vale médio do São Francisco, e de uma vasta região do Nordeste e do Planalto Central, incluindo territórios dos atuais estados de Goiás, Mato Grosso Tocantins, Bahia, Pernambuco, Piauí e Minas Gerais (PROUS, 1992; MARTIN, 1998).
Segundo essas pesquisas, os primeiros grupos humanos a ocupar a macrorregião possuíam um modo de vida semelhante e uma tecnologia lítica muito homogênea. A caracterização dessa indústria foi baseada em descrições tipológicas sobre conjuntos líticos, guiados principalmente e pela presença de instrumentos unifaciais denominados “lesmas” e pela ausência ou raridade de peças bifaciais. Devido a essas semelhanças, e dentro da perspectiva pronapista, os pesquisadores atribuíram os vestígios líticos correspondentes a esse período a uma Tradição, denominado Itaparica (RODET et al., 2011, pg. 82).
Em Goiás, coube a Schmitz (1999), a classificação das indústrias líticas regionais, divididas em três fases: Paranaíba e Serranópolis (associada às ocupações de caçadores-coletores) e Jataí (ceramistas).
Segundo Schmitz (1999, pg.90), a indústria lítica da Fase Paranaíba é muito característica, sendo utilizada como matéria-prima, preferencialmente, rochas da família dos quartzitos e das calcedônias, onde:
As bases buscadas são grandes e grossas lascas produzidas por lascamento unipolar, formadas por sucessivas reduções para fabricar longos raspadores terminais, semelhantes a lesmas, ou então raspadores em pata de cavalo, raspadores laterais ou raspadeiras; lascas de gume natural cortante e resistente podiam ser usadas diretamente, às vezes com pequena acomodação para retirar arestas ou endireitar o gume (SCHMITZ, 1999, pg.90).
Em Goiás, como já dito, a Fase Paranaíba (Tradição Itaparica), está caracterizada por lascas de pequenas dimensões obtidas de seixos de quartzito (98%) e calcedônia, tendo como artefato majoritário os raspadores unifaciais plano-convexos.
Esta indústria, de acordo com Prous (1992), apesar de ter como fósseis-guia as lesmas, também apresenta:
(...) instrumentos menos característicos, como facas com retoque em ambos os bordos (ou com dorso natural) que se unem na extremidade distal. Uma particularidade dessa indústria é que os instrumentos sofreram de uma ablação, por retoque, do talão; foram três peças com retoques bifaciais, um pequeno furador de calcedônia, uma ponta e uma grande peça sub-retangular com grandes retoques periféricos (PROUS, 1992, pg. 179).
O abrigo de referência foi o GOJA 01, onde, de acordo com Prous (1992, pg.179), há ausência de núcleos e lascas, fato que demonstra que o local não fora utilizado para o lascamento, contudo não foram evidenciados até então, sítio a céu aberto.
A matéria-prima destes instrumentos líticos é geralmente o arenito silicificado e o quartzito, tendo a peculiaridade de terem sido encontradas poucas pontas de projétil. Existem também artefatos confeccionados em material ósseo, representados por espátulas elaboradas a partir de restos de cervídeos e de outros animais (OLIVEIRA & VIANA, 2000).
Por volta de 9.000 e 7.000 AP encontram-se registros arqueológicos de novos grupos de caçadores-coletores, provavelmente em função de mudanças climáticas que possibilitaram a expansão da vegetação florestal.
A Tradição Serranópolis, das quais, em Mato Grosso, encontram-se evidências na região da Chapada dos Parecis. A subsistência destes grupos está baseada em atividades de caça e coleta, mas também está voltada para o consumo de moluscos terrestres (SCHMITZ, 1984; OLIVEIRA & VIANA, 2000).
Quanto à tecnologia deste grupo observa-se o predomínio de instrumentos líticos, em menor representatividade instrumentos ósseos, madeira, penas de aves, entre outros. Os instrumentos líticos são de morfologia simples, destacando-se os seguintes artefatos: goivas, bicos raspadores, pequenos laterais e terminais, perfuradores, pontas de entalhe, cunhas, plainas, buris, talhadores, formões e quebra-cocos (OLIVEIRA & VIANA, 2000). Confeccionados
em osso foram encontrados anzóis e artefatos feitos com carapaças de moluscos (BARBOSA, 1981-1984).
Algumas características gerais podem ser atribuídas a estes grupos de caçadores-coletores. A maioria dos sítios arqueológicos estudados até o presente momento apontam para a ocupação de ambientes fechados, em especial abrigos sob rocha e grutas. Sua organização social era provavelmente composta por algumas famílias, com grande mobilidade espacial (SCHMITZ, 1984).
4.7 As Tradições Ceramistas
Em relação aos grupos agricultores e ceramistas, até o presente momento, foram identificadas seis tradições, denominadas: Una, Aratu, Uru, Tupiguarani, Bororo e Inciso ponteada. Dar-se-á atenção às quatro primeiras Tradições com base na densidade de pesquisas realizadas, bem como no contexto arqueológico densamente apresentado nas publicações.
4.8 A Tradição Una
A Tradição Una surge num período posterior a outros grupos de caçadores-coletores. Traz inovações em termos tecnológicos, principalmente uso da cerâmica, e está relacionada a um grupo de horticultores, de tecnologia lito-cerâmica, que se espalhou por grandes espaços, com uma duração de aproximadamente dois milênios, apresentando manifestações culturais pouco homogêneas (PROUS, 1992; OLIVEIRA & VIANA, 2000), relacionadas a grupos Proto-Jês.
A cerâmica mais antiga relacionada a este grupo foi escavada na Lapa do Gentio, perto de Unaí, Minas Gerais (PROUS, 1992), datada de 3490 anos A.P., tendo como característica principal o uso de antiplástico vegetal. Ainda segundo Prous (1992, pg. 334), no estado de Goiás, Schmitz evidenciou cacos isolados com antiplástico de cariapé, datados de 3800 anos A.P., no município de Carmo de Goiás. No Mato Grosso, a ocupação ceramista mais antiga é datada em torno de 2000 AP, em sítio localizado em Rondonópolis (VILHENA-VIALOU & VIALOU, 1994
apud OLIVEIRA & VIANA, 2000).
De acordo com Prous et al. (1994, pg.75-76), a cerâmica filiada à tradição Una, pode ser caracterizada por fragmentos com ausência de decoração, com paredes finas (geralmente entre 4 e 22 mm, mas com espessura média de 7 mm), a pasta geralmente dura, porém porosa e as vezes heterogênea.
No que tange a constituição da pasta, o antiplástico é muito variável, havendo fragmentos com presença de argila, carvão vegetal (apenas em vasos de paredes mais finas), calcário moído, areia rolada de rio. A superfície apresenta tonalidade marrom, algumas vezes alaranjada, mas muito raro. Geralmente a superfície dos fragmentos apresentam alisamento e uma brunidura (PROUS et al., 1994, pg. 76).
A técnica de confecção, segundo os autores supracitados, parece ter sido a modelagem, em contraste ao usual uso dos roletes, resultando em vasilhames exclusivamente fechados e globulares, com lábios arredondados ou apontados e base curva (côncava).
Os vasilhames parecem ter sido feitos geralmente por modelagem e não por roletes. As formas são quase exclusivamente fechadas e globulares; os lábios são arredondados e apontados; os fundos, curvos. Excepcionalmente, a borda pode ser levemente ondulada, ou acompanhada por uma incisão fina, mas nunca é