OBAN – DOI-CODI
Sediada na Rua Tutóia, no bairro da Vila Mariana a Operação Bandeirantes (Oban)
serviu de modelo para a criação dos Departamentos de Operações de Informações -
Centros de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) aparato repressivo do Estado
cuja finalidade era reprimir organizações clandestinas de esquerda.
“Casa da vovó”, “Hotel Tutóia”, “Inferno” e “Hospital” foram nomes dados sarcasticamente pelos agentes do governo militar que trabalhavam no prédio da Rua Tutóia número 921, localizado no bairro da Vila Mariana. Neste prédio ficou sediada a Operação Bandeirante e, seu desdobramento, o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna de São Paulo (DOI-CODI/SP).
Em 1969, como resposta ao crescimento de ações contra o Estado repressivo militar, e seguindo as Diretrizes para a Política de Segurança Interna vindas de Brasília, deu-se início a Operação Bandeirante (OBAN). O lançamento oficial do projeto OBAN aconteceu no dia 01 de julho de 1969; contou com a presença do Governador do Estado, Roberto Costa de Abreu Sodré, do
Secretário de Segurança Pública Paulista, Professor Hely Lopes Meirelles, de representantes das Forças Armadas e de empresários e personalidades civis que apoiavam a iniciativa. A operação ficou sediada no prédio da 36ª Delegacia de Polícia de São Paulo.
A partir da coordenação, três eixos de ação: a Central de Informações (oficiais responsáveis pela coleta e análise de informações), a Central de
Memorial da Resistência de São Paulo
PROGRAMA
LUGARES DA MEMÓRIA
PRIORIDADE
A deserção do Capitão Carlos Lamarca do 4° regimento de Infantaria, em Quitaúna, e o subsequente roubo de armas e munições do quartel, no dia 25 de janeiro de 1969, alertou a cúpula do exército de que eles precisavam de ações mais eficientes contra os “subversivos” à ordem. Dias antes do evento eles haviam prendido integrantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), grupo responsável pela ação em Quitaúna, contudo, mesmo sob tortura, os integrantes aprisionados não revelaram informações que impedissem o roubo. O exército então priorizou uma ação que conseguisse colher informações sobre as diferentes organizações de esquerda e que conseguisse de forma ágil desmantelá-las uma a uma.
Filme - Documentário
15 Filhos (dir. Maria Oliveira e Marta
Nehring)
Ano: 1996
Duração: 19 minutos
Produtora Independente
Operações (oficiais responsáveis pelas ações de combate) e a Central de Difusão (oficiais responsáveis pela ação psicológica e pelo controle de notícias vinculadas à segurança interna). Por fim, a Coordenação de Execução, que para muitos era o centro do projeto, pois eram responsáveis pelo combate, captura averiguação e interrogatórios. Seria um plano piloto para uma política nacional de segurança pública. Uma proposta inovadora, com
atividades integradas entre as forças repressivas, era uma mobilização que envolvia ação e coleta de informações.
Na sede da OBAN ocorriam os interrogatórios preliminares, permeados por abusos de poder, torturas e mortes, à margem da legalidade. Foi determinado que todo e qualquer indivíduo relacionado a atividades políticas suspeitas deveria ser encaminhado a Operação Bandeirante, assim, o órgão seria responsável por centralizar as informações e encaminhar as ações apropriadas. O projeto piloto foi um sucesso, a Operação Bandeirante em 1969 desmantelou diversas organizações de esquerda e o projeto então virou política de segurança pública nacional em 1970.
Em 1970, o exército consolidou sua presença em São Paulo quando substituiu a OBAN pelo sistema Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI); e expandiu suas ações pelo Brasil quando inaugurou centros por capitais do país, foram instituídos os DOI-CODI do Rio de Janeiro (1970 - RJ), Recife (1970 - PE), Brasília (1970 - DF), Curitiba (1971 - PR), Belém (1971 - PA),
Figura 1. Sede do DOI-Codi de São Paulo. Foto. Veja 21 de fevereiro de 1979.
"A criação da Operação Bandeirante e, posteriormente, do
sistema DOI-CODI significou a vitória de determinada visão
de como deveria ser implantado o projeto autoritário que
assumiu o poder em 1964. Esse processo acabou por fazer
com que o órgão, mesmo depois de extinto, permanecesse
como símbolo de uma das fazes mais sombrias do regime.
(...)" JOFFILY, Mariana. No Centro da Engrenagem –
Os interrogatórios na Operação Bandeirante e no DOI
de São Paulo (1969-1975). Tese de Doutorado, História
Social da Universidade de São Paulo, 2008, p. 306.
ENDEREÇOS
Antes de adquirir o espaço junto a 36° Distrito Policial a Operação Bandeirantes (Oban), funcionou nos quartéis da Polícia do Exército e do Regimento de Cavalaria Mecanizado, na Rua Abílio Soares, em área do então II Exército.
Salvador (1971 - BA) e Fortaleza (1971 - CE) e Porto Alegre (1974 - RS).
Os CODIs (Centros de Operações de Defesa Interna) eram responsáveis pelo planejamento e organização das ações, e os DOIs (Destacamentos de Operações de Informações) eram responsáveis pelas capturas, averiguações e interrogatórios; atuavam conjuntamente e eram subordinadas a Secretaria Nacional de Informação (SNI). O efetivo do aparelho dispunha cerca de 250 homens sob o comando do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra.
O sistema DOI-CODI seguiu com o padrão dos interrogatórios, dezenas de presos morreram em decorrência das torturas físicas e psicológicas; por meio da montagem de cenários, elaboração de falsos laudos periciais e certidões de óbito os agentes buscavam ocultar a causa da morte dos corpos dilacerados.
Existe uma vasta bibliografia que faz referência ao DOI-CODI/SP, principalmente aos inúmeros relatos de tortura e abusos ocorridos em seu interior, nos documentos pertencentes ao II Exército, OBAN e DOI-CODI/SP, e nos relatos, experiências de vida, de ex-funcionários da casa e/ou ex-detentos, militantes presos nos anos de ditadura militar. De qualquer maneira, entre os diferentes
pontos de vista, relatos e registros sobre o tema são unânimes que a política de repressão.
A prática institucionalizada de torturas nos interrogatórios foi a causa da morte de muitos militantes políticos nas dependências do DOI-Codi. Durante o governo de Ernesto Geisel dá-se inicio a um processo de desativação do aparato repressivo montado pelo Estado. No caso do DOI-Codi de São Paulo o grande marco desse processo é a saída do comandante do II Exército, o general Ednardo d’Ávilla Mello, removido pelo presidente após os casos de assassinato do jornalista Vladmir Herzog e do metalúrgico Manuel Fiel Filho, respectivamente nos meses de outubro de 1975 e janeiro de 1976. A renomeação do DOI-Codi, para Setor de Operações (SOP), fez parte desse processo que se estendeu por toda a década de 1980.
Atualmente o espaço ocupado pela Operação Bandeirantes e, posteriormente pelo DOI-Codi em São Paulo foi novamente apropriado pelo 36° Distrito Policial da Vila Mariana.
Em 9 de outubro de 2008, o juiz
Gustavo Santini Teodoro proferiu uma
sentença que declarou o coronel Carlos
Alberto Brilhante, comandante do
DOI-CODI/SP entre 1970 e 1974,
torturador. Ao reconhecê-lo como
culpado e definir o DOI-CODI como
centro de tortura, tomou-se uma
decisão histórica para o Brasil.
Filme - Documentário
Vlado – 30 anos depois
“A pessoa é para o que nasce” (dir
João
Batista de Andrade)
Ano: 2006
Duração: 86 minutos
Produtora: Oeste Filmes
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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COELHO, Marco Antônio Tavares. Herança de um sonho: as memórias de um comunista. Rio de Janeiro: Record, 2000.
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FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001
Filho, João Roberto Martins. Movimento Estudantil e Ditadura Militar (1964-1968). Campinas-SP: Papirus editora, 1987.
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GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
HUGGINS, Martha K. Polícia e Política: relações Estados. Unidos/América Latina. São Paulo: Cortez, 1998.
JOFFILY, Mariana. No Centro da Engrenagem – Os interrogatórios na Operação Bandeirante e no DOI de São Paulo (1969-1975). Tese de Doutorado, História Social da Universidade de São Paulo, 2008.
LAQUE, João Roberto. Pedro e os Lobos – Os Anos de Chumbo na trajetória de um guerrilheiro urbano. São Paulo: Ava Editorial, 2009.
MIRANDA, Nilmário; TIBÚRCIO, Carlos. Dos filhos deste solo. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999.
SALINAS, Luiz Roberto. Retrato calado. São Paulo: Marco Zero, 1988.
SOUZA, Percival de Souza. Autópsia do medo: vida e morte do delegado Sergio Paranhos Fleury: São Paulo: Globo, 2000.
USTRA, Carlos Alberto Brilhante. Rompendo o silêncio. Brasília: Editerra, 1987.
Internet
Site do Movimento de Mobilização em Defesa da Cidadania - MMDC
http://www.mmdc.com.br/doi-codi-nunca-mais.html. Acesso em 24/11/2011
Revista Adusp. Pedro Estevam da Rocha Pomar. ESTATÍSTICAS DO DOI-CODI
http://www.adusp.org.br/revista/34/r34a10.pdf. Acesso em 08/11/2011.
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http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/vladimir-herzog-mataram-vlado-434343.shtml. Acesso em 18/11/2011
Site Info Escola
http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/doi-codi/. Acesso em 09/11/2011.
Acervos Digitais
Jornal Folha de São Paulo:
“DOI-Codi muda nome mas mantém sua atividade” – 27/09/1987 - 1° Caderno – Política – p. 9 “Dilermando assumirá esta semana” – 20/01/1976 – 1° Caderno – Nacional – p. 3
Revista Veja:
Edição 546, 21/02/1979. ESPECIAL “Descendo aos Porões” Edição 567, 18/07/1979. LITERATURA “Mapa do Inferno” Edição 590, 18/07/1979. BRASIL “A década da abertura” Edição 967, 18/03/1987. TORTURA “Grito do Porão”