LABORO: vivemos para o trabalho ou trabalhamos para viver?
Aline Teles Nascimento1
Resumo: O presente artigo objetiva analisar como o homem está em relação ao trabalho, bem como, tenta avaliar as perspectivas de uma transformação social frente às constantes reestruturações capitalistas. Para esta pesquisa, a sociedade do trabalho e a “classe-que-vive-do-trabalho” tem não só centralidade, mas também muita responsabilidade na conquista de uma sociedade “para além do capital”. Além disso, esta pesquisa busca compreender se o trabalho está posto como algo indispensável ou como uma atividade básica e necessária para a sua sobrevivência, a partir da análise do conceito marxista. Traz, assim, algumas questões para este debate caloroso em torno da categoria trabalho.
Palavras-chave: Trabalho, capital, sociedade do trabalho.
Abstract: This article aims to examine how the man is in relation to work, and attempts to assess the prospects for social transformation in front of capitalist restructuring. For this research, the company's work and "class-who-lives-of-work" is not only central but also great responsibility in the achievement of a society beyond capital ". Furthermore, this research seeks to understand if the work is made as something essential or activity as a basic and necessary for their survival, from the Marxist analysis of the concept. Get thus some questions to the debate surrounding the hot work category.
Key words: Labor, capital, society's work.
1
1. INTRODUÇÃO.
O presente texto tem como proposta a analise, a partir do conceito de trabalho em Marx, a importância da Categoria Trabalho para uma mudança societária fora da lógica capitalista, buscando investigar se o trabalho está posto como algo indispensável ou como uma atividade básica e necessária para a sua sobrevivência.
Como contribuição ao entendimento da realidade vivida pela classe trabalhadora, este artigo procura analisar a dinâmica em que diferentes autores se referem acerca do trabalho, onde a maioria dos estudiosos recorre a Karl Marx, seja em forma de críticas ou reafirmando a centralidade da categoria trabalho.
O trabalho está organizado em três partes. A primeira parte aborda o conceito marxista da Categoria Trabalho. Na segunda parte, verificamos as relações estabelecidas entre a sociedade do trabalho e a atual crise capitalista para logo em seguida apontar algumas intenções de mudança para o futuro da classe trabalhadora.
2. UMA BREVE DISCUSSÃO SOBRE A CONCEPÇÃO DE TRABALHO.
Para compreender as relações sociais estabelecidas na sociedade contemporânea é necessário ter em mente um entendimento básico sobre a categoria Trabalho, pois é a partir dela que Marx desvenda as nuances e as peculiaridades da sociedade capitalista.
Não é possível entender por que vivemos crises periódicas; por que a estrutura produtiva muda sem, no entanto, mudarmos o modo de produção (capitalista), sem antes compreender: o que é trabalho? E porque trabalhamos?
Essa é uma discussão que nos últimos trinta anos tem se intensificado, seja porque autores como Offe
(1989)
e Harbemas (1987) defendem o fim da sociedade do trabalho, ou porque autores como Antunes (1998) não só defendem como reafirmam a centralidade da “classe-que-vive-do-trabalho” 2.2
O trabalho é, em Marx, a atividade através do qual o homem interage diretamente com a natureza, transformando-a para a constituição de produtos que satisfazem as suas necessidades, ao mesmo tempo em que se autotransforma.
[...] O trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. [...] Não se trata aqui das primeiras formas instintivas,animais, de trabalho. [...] Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem. (NETTO;BRAZ,p. 31, 2006).
Então o que diferencia o homem de um animal? A sua capacidade teleológica, onde suas objetivações antecipam pela prefiguração ideal o que se pretende formular. Como Marx esclarece:
Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto idealmente. Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria natural; realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural, o seu objetivo. (MARX, apud, NETTO;BRAZ,p. 31, 2006).
A humanidade é constituída, assim, pelo trabalho à medida que este faz com que o homem intervenha no meio natural e interaja com outros homens constituindo-se num ser social que a cada dia desenvolve novas necessidades e habilidades. Este caráter social atribui-se ao fato do trabalho ser sempre uma atividade desenvolvida coletivamente.
Desta forma, a sociedade surge também por intermédio dessa relação estabelecida entre a natureza e o trabalho que se modifica historicamente, expressando diferentes formas de produção material da vida social. Por isso “não há sociedade sem que estejam em interação os seus membros singulares, assim como não há seres sociais singulares (homens e mulheres) isolados, fora do sistema de relações que é a sociedade” (NETTO;BRAZ,p. 37, 2006). Decerto, a história aparece como a história do desenvolvimento do ser social, no seu processo de humanização e de suas relações sociais.
Com base nestas caracteristicas abordamos aqui o trabalho na concepção ontologica do termo em Marx. Sendo ele, um conceito central tanto para o entendimento das classes subalternas, como para a compreensão da sociedade burguesa e dos processos sociais por ela desencandeados.
No ententato, para Karl Marx o trabalho não possui uma só dimensão por tanto deve-se ditinguir as dimensões do que ele chama de trabalho abstrato e trabalho concreto. Assim,
Todo trabalho é, de um lado, dispêndio de força humana de trabalho, no sentido fisiológico, e, nessa qualidade de trabalho humano igual ou abstrato, cria o valor das mercadorias. Todo trabalho, por outro lado, é dispêndio de força humana de trabalho, sob forma especial, para um determinado fim, e, nessa qualidade de trabalho útil e concreto, produz valores-de-uso. (Marx,1971, apud, Antunes, 1998.p.76).
De um lado, temos dimensão concreta com o caráter útil do trabalho, relação de intercâmbio entre os homens e a natureza, o trabalho em sua dimensão qualitativa. E por outor lado na dimesão abstrata do trabalho temos apenas o desgate físico ou intelectual, da força de trabalho explorada ao máximo para a obetenção da mais-valia. Neste processo o que tem mais valor para o capital não é o seu carater útil e enriquecedor do homem, mas o tempo de sobretrabalho que aliena o homem. “A apropriação do objeto aparece como alienação a tal ponto que quanto mais objetos o trabalhador produz tanto menos pode possuir e tanto mais fica dominado pelo seu produto, o capital.” (MARX, , 2008).
Consoante não se deve confundir que o trabalho enquanto categoria fundante não significa ser cronologicamente anterior, mas sim ser portador das determinações essenciais do ser social (Lessa,2002). E para avaliar o exposto acima faz-se mister apontar as repercussões dessas distintas dimensões sobre a sociedade do trabalho – para entender se há crise e de qual crise estamos falando – e a sociedade capitalista – que vive numa “eterna “ crise estrutural.
3. A SOCIEDADE DO TRABALHO E AS DIFICULDADES DA CRISE DO CAPITALISMO.
Na sociedade capitalista regida pela lógica neoliberal a contraditoriedade é imanente e ao mesmo tempo em que, de um lado, o capital reduz o tempo de trabalho, por outro, converte o mesmo tempo de trabalho não só na única medida, mas na fonte de riqueza de onde retira a mais-valia. (Antunes, 1998).
Nestes termos, neste século XXI o trabalhador vem tentando acompanhar a dinâmica com que o capitalismo reestrutura a produção de mais-valia. Mesmo assim, a classe-que-vive-do-trabalho sofre com o crescente desemprego estrutural e a redução da
demanda de trabalhadores, ambos são reflexos do avanço tecnológico e em certa medida expressam os limites da sociedade burguesa3.
Portanto, há uma crise sim, mas é na sociedade do trabalho abstrato decorrente da redução do trabalho vivo e da ampliação do trabalho morto, fato que Antunes (1998) chama de processo de intelectualização. Pois na produção de mais-valia o trabalhador não está mais realizando trabalhos manuais, são agora, por exemplo, atividades de supervisão de máquinas computadorizadas geralmente mais de uma ao mesmo tempo.
Assim, a intelectualização do trabalho manual compatibiliza-se com a inovação tecnológica ao passo que a desqualificação de parcela destes trabalhadores se mostra coerente com a lógica de autodestruição capitalista. No entanto, como ainda estamos dentro do modo de produção capitalista o trabalho é a fonte produtora de valor e não as máquinas.
Pode-se, então, concluir que num processo de produção mais avançada tecnológica e qualitativamente falando, ainda assim a produção do valor de troca será uma junção dos trabalhos vivo e morto. Dentro desta dimensão do trabalho abstrato seja pelo trabalho produtivo (manual) ou improdutivo (intelectual) o trabalhador produz valor de troca, mesmo sendo direta ou indiretamente ele produz o principal para os capitalistas, a mais-valia, independente de causar qualquer incidência sobre a classe-que-vive-do-trabalho.
Como resultado das ações capitalistas Mészáros nos aponta:
Portanto, não estamos mais diante dos sub-produtos "normais" e voluntariamente aceitos do "crescimento e do desenvolvimento", mas "de seu movimento em direção a um colapso; nem tampouco diante de problemas periféricos dos "bolsões de subdesenvolvimento", mas diante de uma contradição fundamental do modo de produção capitalista como um todo, que transforma até mesmo as últimas conquistas do "desenvolvimento", da "racionalização” e da "modernização” em fardos paralizantes de sub-desenvolvimento crônico. E o mais importante de tudo é quem sofre todas as conseqüências desta situação" não é mais a multidão socialmmente impotente, apática e fraqmentada das pessoas "desprivilegiadas", mas todas as categorias de trabalhadores qualificados e não-qualificados: ou seja, objetivamente, a totalidade da força de trabalho da sociedade.(p.61, 1993, grifos do autor).
Essa crise capitalista atinge diretamente os trabalhadores que se encontram heterogeneizados e fragmentados, entre trabalhadores “centrais” e os de trabalhadores de tempo parcial. A individualidade social (a que permite uma diferenciação saudável entre si
3 Existem limites absolutos à expansão do capital de dimensão interna – seu caráter autodestrutivo, o motivo de
existirem as reestruturações – e de dimensão externa – a expectativa de um projeto socialista de fato e totalmente diferente daquele cuja ideologia dominante chamou de socialismo real. (Lessa, 1998)
homens) está desaparecendo devido ao fato de vivermos numa cultura alienada onde o homem perde sua característica de socialização4.
Destarte, a expectativa de consolidação de uma consciência de classe se perde no horizonte. Sobretudo, com a falta de atuação dos representantes políticos e sindicais dos trabalhadores cujas atividades resumem-se a ações defensivas dentro da agenda neoliberal. Com isso, vemos que a emancipação humana devera ser decorrente da luta social daqueles que se opõem a lógica de acumulação do capital num processo de emancipação pelo trabalho.
3.1. WORK5: uma perspectiva para o futuro?
Na atual crise da sociedade do trabalho abstrato, com a substituição do homem pela máquina o trabalho assumiu a forma de trabalho estranhado, feitichizado, desrealizador da atividade humana. Mas como pode isso acontecer se o trabalho é o ponto de partida do processo de humanização do ser social?6
A verdade é que o trabalho na forma em que é praticado na sociedade capitalista torna-se degradante, resumindo-se numa simples mercadoria através da venda da sua força de trabalho. Como o próprio Marx afirma:
O trabalhador torna-se uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais bens. A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de valor do mundo dos objetos. O trabalho não cria apenas objetos; ele também se produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e, deveras, na mesma proporção em que produz bens. [...] Esse fato simplesmente subentende que o objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, agora se lhe opõe como um ser estranho, como uma força independente do produtor. (MARX, Manuscritos econômico-filosóficos, 2008, grifos do autor).
O estranhamento refere-se, pois, a interposições de barreiras sociais que dificultam o desenvolvimento da personalidade humana. O homem passa a sentir prazer em
4
A sociedade capitalista coisifica as relações sociais impedindo o desenvolvimento da cooperação social (a socialização).
5
Marx, segundo A. Heller, serve-se de dois termos distintos para melhor caracterizar esta dimensão dupla do trabalho: work e labour. O primeiro (work) realiza-se como expressão do trabalho concreto, que cria valores socialmente úteis. O segundo (labour) expressa a execução cotidiana do trabalho, convertendo-se em sinónimo de trabalho alienado (1977, apud, ANTUNES,1998).
6
O trabalho é constitutivo do ser social, mas o ser social não se reduz ou se esgota nele. (NETTO; BRAZ, 2006).
suas atividades mais instintivas e animalescas, e, a se sentir preso ao laborar pela garantia dos mínimos necessários a sua sobrevivência.
[...] o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo em suas funções animais - comer, beber e procriar, ou no máximo também em sua residência e no seu próprio embelezamento - enquanto que em suas funções humanas se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal. (MARX, Manuscritos econômico-filosóficos, 2008).
O trabalho na sua dimensão abstrata engloba o trabalho concreto, desvirtuando o intercambio do homem com a natureza e assim a atividade vital “agora aparecem ao homem apenas como meios para a satisfação de uma necessidade” extremamente necessária,
pois esta deve privar-se de toda necessidade e se limitar somente a uma,
a s
ua sobrevivência.E não é só isso: o capital também manipula as necessidades dos trabalhadores fazendo-os crer que devem consumir além do que realmente lhe é necessário para sobreviver, isto é, acaba prendendo-lhes numa “onda” de consumismo passando a viver para o trabalho sem que possa ao mesmo tempo usufruir deste labor. O homem torna-se um escravo do trabalho.
No entanto, a classe-que-vive-do-trabalho não reconhece essa manipulação do sistema e passa a não só se identificar, mas também a incorporar como sendo suas as necessidades e os valores capitalistas7.
Nestes termos, precisamos refletir acerca das possibilidades de superação do capital através da revalidação do trabalho concreto e mesmo que pareça um clichê, esta tarefa requer uma conscientização dos trabalhadores, pois esta empreitada somente poderá resultar de uma articulação de todos os segmentos que constituem a fragmentada classe trabalhadora.
4. CONCLUSÃO.
7 Como diria Mészáros, é a relação entre a personificação do capital – onde as pessoas assumem como suas
finalidades, valores e fins que expressam as necessidades de reprodução ampliada do capital (Ideologia de dominação) – e a personificação do trabalho – onde o trabalhador, enquanto vendedor de sua força de trabalho assume como sua necessidade as condições indispensáveis para a reprodução do próprio capital. (apud, LESSA, 1998).
De acordo com o exposto no decorrer do trabalho, percebemos que compreender o trabalho não é fácil, afinal como seria possível dentro de um artigo desta natureza, examinar a complexa categoria do trabalho em Marx?
Tendemos pelo senso comum a ver o trabalho na sua maneira mais simplista e mecânica, simplesmente levantamos e seguimos a rotina de pegar uma condução e “bater o ponto”, iniciando nossa jornada alienante. Por isso, não percebemos e nem se quer paramos para pensar se o trabalho é algo indispensável ou é uma mera atividade básica e necessária a sobrevivência.
Somos diariamente expostos numa prateleira (como as de supermercados) enquanto produtos, mercadorias de fácil reposição. Ficamos aflitos se não conseguimos um emprego e quando conseguimos só queremos chegar em casa e fazer “nada”, descansar. No entanto, vem o capital nos dizer que ficar parado faz mal para a saúde e achamos legal a teoria do “ócio criativo”.
Somos assim “treinados” para trabalhar e não reclamar, não através da coerção como se fazia na época da escravidão, mas através da persuasão. Somos nós que procuramos essa escravidão do século XXI, em troca de roupas, alimentação, saúde, e o mais incrível para ter o padrão de vida de nossos patrões capitalistas, um feito que nunca alcançaremos. Mas eles nos dizem “Nunca desista de sonhar”, desde que seja o sonho Norte-Americano do consumismo.
Dito isto, tentamos aqui refletir e avaliar como o homem se coloca perante as determinações do capital, ao invés de supor como ele se sente. Por isso, chegamos à conclusão de que é um equívoco pensar no fim da sociedade do trabalho em suas duas dimensões, mas sim se deve avaliar e acompanhar a crise que vive a sociedade do trabalho abstrato, trabalho este concebido pelo capitalismo. Bem como, é mister promover a transformação da sociedade, buscado no lugar da lógica “pró” valores de troca, uma lógica posterior ao capital, pois somente o trabalho concreto, aquele que promove a realização das necessidades humanas e sociais, é capaz de construir uma nova sociabilidade.
Referências
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo : Cortez/UNICAMP, 1998.
LESSA, Sergio. Beyond Capital: Estado e Capital. In:Serviço Social e Sociedade, v. 56. p. 135-151, Ed. Cortez, São Paulo, 1998.
____________. Mundo Dos Homens: trabalho e ser social. São Paulo: Boitempo, 2002
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Disponível em: <http://www. marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm.>. Acesso em: 11mar. 2008.
MÉSZÁROS, István. A necessidade de controle social. 2.ed. São Paulo: Ensaio, 1993.
NETTO, José Paulo; BRAZ, Marcelo. Economia Política: uma introdução crítica. São Paulo: Cortez,2006.