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1 Espa¸ cos vetoriais

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Academic year: 2022

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Bibliografia b´asica do curso: [3,2,1,4]

Autor: Leandro Fiorini Aurichi - [email protected] Vers˜ao: 2008

1 Espa¸ cos vetoriais

Comecemos com a defini¸c˜ao de espa¸co vetorial.

Defini¸c˜ao 1.1. (V,⊕,) ´e dito um espa¸co vetorial1 se V ´e um conjunto que cont´em um elemento que denotaremos por 0 e se ⊕ : V ×V −→ V e : R×V −→ V s˜ao fun¸c˜oes que satisfazem as seguintes propriedades:

(A1) ∀u, v, w∈V (u⊕v)⊕w=u⊕(v⊕w) (A2) ∀u, v∈V u⊕v=v⊕u

(A3) ∀u∈V u⊕0 =u

(A4) ∀v∈V ∃u∈V v⊕u= 0

(M1) ∀α∈R∀u, v∈V α(u⊕v) = (αu)⊕(αv) (M2) ∀α, β ∈R∀v ∈V (αβ)v=α(βv)

(M3) ∀α, β ∈R∀v ∈V (α+β)v= (αv)⊕(βv) (M4) ∀v∈V 1v=v

Cada elemento de V ´e chamado de vetor. ⊕ ´e chamada de soma e ´e chamada de multi- plica¸c˜ao por escalar.

Vamos ver alguns exemplos de espa¸cos vetoriais. Note que, para isso, precisamos exibir um conjunto, determinar duas opera¸c˜oes e mais um elemento que far´a o papel do elemento 0 destacado acima. Tudo isso de forma que sejam satisfeitas as propriedades da defini¸c˜ao.

No que se segue, quando aparecer = quer dizer que a igualdade vale pela defini¸ c˜ao de ⊕ que for dada no exemplo. Analogamente, quando aparecer = a justificativa ´ e a defini¸c˜ao de . Quando aparecer =, a igualdade se d´R a por propriedades dos n´umeros reais. Quando aparecer

A1= a justificativa ´e a propriedade (A1) da defini¸c˜ao de espa¸co vetorial. Analogamente para as propriedades (A2), ..., (A4) e (M1), ..., (M4).

1na verdade a defini¸ao apresentada aqui ´e a de um espa¸co vetorial sobreR, mas, como s´o trabalharemos com espa¸cos desta forma, omitiremos o “sobreR

(2)

Exemplo 1.2. Considere (R2,⊕,) onde R2 := {(a, b) :a, b ∈ R} e, dados (a, b),(c, d) ∈ R2 e α ∈ R, definimos (a, b)⊕(c, d) := (a+c, b+d) e α(a, b) := (αa, αb). Considere como 0 o elemento (0,0). ´E poss´ıvel mostrar que (R2,⊕,) satisfaz todas as propriedades de um espa¸co vetorial. Como exemplo, vamos mostrar que satisfaz as propriedades (A3) e (A4), deixando as outras como exerc´ıcio:

(A3) Note que, dado (a, b)∈R2 temos (a, b)⊕(0,0)= (a + 0, b+ 0)= (a, b) e, portanto, temosR (A3).

(A4) Seja (a, b) ∈ R2. Considere (−a,−b) que, de fato, pertence a R2. Note que (a, b) ⊕ (−a,−b)= (a −a, b−b)= (0,R 0) = 0 e, portanto, temos (A4).

Apesar do nome vetor ter um certo apelo geom´etrico, os elementos de um espa¸co vetorial n˜ao precisam estar num plano, nem mesmo em qualquer outra figura geom´etrica. O pr´oximo exemplo mostra exatamente isso.

Exemplo 1.3. Considere (F,⊕,) onde F :={f :f ´e fun¸c˜ao de RemR}e ⊕:F × F −→ F e :R× F −→ F s˜ao fun¸c˜oes dadas por (f⊕g)(x) =f(x) +g(x) e (αf)(x) =αf(x). Para quem n˜ao est´a acostumado, esta nota¸c˜ao pode parecer confusa. Uma maneira de se ler a defini¸c˜ao de⊕

´

e a seguinte: dadasf, g∈ F queremos quef⊕g seja uma fun¸c˜ao deRemRde forma que, para cadax∈R, seu valor neste ponto seja o mesmo quef(x) +g(x). Como o elemento 0, considere a fun¸c˜ao z:R−→Rdada por z(x) := 0 para qualquer x∈R. Novamente, pode-se mostrar que (F,⊕,) satisfaz a defini¸c˜ao de espa¸co vetorial. Como exemplo, verifiquemos as propriedades (M3) e (M4) deixando as outras como exerc´ıcio.

(M3) Sejam α, β, x∈R ef ∈ F. Temos

((α+β)f)(x) = (α+β)f(x)

=R αf(x) +βf(x)

= (αf)(x)⊕(βf)(x) (M4) Sejam f ∈ F e x∈R. Temos (1f)(x)= 1f (x)=R f(x).

As opera¸c˜oes assim definidas s˜ao as usuais deF.

Note que, no exemplo 1.2, poder´ıamos ter considerado, em vez do R2, Rn := {(x1, ..., xn) : x1, ..., xn ∈ R} com ⊕ e an´alogos, isto ´e, (x1, ..., xn)⊕(y1, ..., yn) := (x1 +y1, ..., xn+yn) e α(x1, ..., xn) := (αx1, ..., αxn) para (x1, ..., xn),(y1, ..., yn)∈Rneα∈R. Essas opera¸c˜oes assim definidas s˜ao as usuais no Rn. Desta maneira, em particular, temos que (R,⊕,) ´e um espa¸co vetorial onde⊕e s˜ao a soma e o produto usuais respectivamente.

O que nos impede de tentar fazer o mesmo e obter que (Z,⊕,), onde Z ´e o conjunto dos n´umeros inteiros e⊕es˜ao, respectivamente, a soma e o produto usuais, ´e um espa¸co vetorial?

Pode-se verificar que as propriedades (A1), ..., (A4) e (M1), ..., (M4) s˜ao satisfeitas. O problema

(3)

exemploz:= 1 eα:= 12). Assim, n˜ao temos que ⊕assim definida ´e uma fun¸c˜ao de R×Z−→Z e, portanto, (Z,⊕,) n˜ao ´e um espa¸co vetorial.

Vamos ver outro exemplo que n˜ao ´e um espa¸co vetorial.

Exemplo 1.4. Considere (R2,⊕,) onde⊕´e o mesmo de1.2e´e dada porα(a, b) := (αa, b), ondeα∈Re (a, b)∈R2. Note que, pela defini¸c˜ao de, temos que 2(1,2) = (2,2). Suponha por absurdo que (R2,⊕,) ´e um espa¸co vetorial. Ou seja, temos que valem todas as propriedades da defini¸c˜ao de espa¸co vetorial. Ent˜ao, temos 2(1,2)= (1+1)R (1,2)M3= (1(1,2))⊕(1(1,2))= (1,2)⊕(1,2)= (1 + 1, 2 + 2)= (2,R 4). Como (2,2)6= (2,4) temos uma contradi¸c˜ao e, portanto, (R2,⊕,) n˜ao ´e um espa¸co vetorial.

Por comodidade, dado (V,⊕,) um espa¸co vetorial, denotaremos o s´ımbolo ⊕por + (assim, v⊕u = v+u) e por · (assim, α v = α ·v). Na verdade, o mais usual (e que tamb´em adotaremos aqui) ´e simplesmente omitir o s´ımbolo . Por exemplo, αv ficaαv. Quando ⊕e estiverem claros no contexto, chamaremos deV o espa¸co vetorial (V,⊕,).

J´a vimos alguns exemplos de espa¸cos vetoriais e alguns exemplos de coisas que n˜ao s˜ao espa¸cos vetoriais. Vamos agora come¸car a ver o que pode ser deduzido a partir da defini¸c˜ao de um espa¸co vetorial. Ou seja, vamos ver algumas propriedades que todos os espa¸cos vetoriais tˆem, independente de sua defini¸c˜ao particular.

Defini¸c˜ao 1.5. SejaV um espa¸co vetorial. Dizemos quev∈V ´e umelemento neutrose, para qualqueru∈V, temosu+v=u.

Note que o elemento 0 que aparece em (A3) da defini¸c˜ao de espa¸co vetorial ´e um elemento neutro. Ser´a que podem haver outros? O pr´oximo resultado diz que n˜ao.

Proposi¸c˜ao 1.6. Seja V um espa¸co vetorial e seja v elemento neutro de V. Ent˜aov= 0.

Dem.: Como v ´e elemento neutro de V, temos que 0 +v = 0. Por outro lado, temos 0 +v A2= v+ 0A3= v. Logo, 0 =v como quer´ıamos.

J´a que num espa¸co vetorial temos que existe um ´unico elemento neutro, ´e freq¨uˆente, ao se definir um espa¸co vetorial, se omitir quem ´e o elemento 0. Mas o leitor pode facilmente determinar quem ´e tal elemento. Uma maneira simples ´e dada pelo pr´oximo resultado:

Proposi¸c˜ao 1.7. Seja V um espa¸co vetorial e sejav∈V. Temos que0v= 0 (Aten¸c˜ao: o 0 que aparece `a esquerda da igualdade ´e o n´umero real zero. J´a o 0que aparece `a direita, ´e o elemento neutro de V).

(4)

Dem.: Sejau∈V tal que 0v+u= 0. Taluexiste por (A4). Temos que 0v= (0 +0)vR M= 0v3 +0v.

Assim, temos que 0 = 0v+u= (0v+ 0v) +uA1= 0v+ (0v+u) = 0v+ 0A3= 0v.

Defini¸c˜ao 1.8. Sejam V um espa¸co vetorial e v ∈ V. Dizemos que u ∈ V ´e um elemento opostoa v sev+u= 0.

Pela propriedade (A4) da defini¸c˜ao de espa¸co vetorial, temos que todo elemento v tem um oposto. O pr´oximo resultado diz que existe apenas um ´unico oposto para cada elemento.

Proposi¸c˜ao 1.9. Sejam V um espa¸co vetorial e v ∈ V. Suponha que u, w ∈ V s˜ao elementos opostos a v. Ent˜ao u=w.

Dem.: Temos

u A3= u+ 0

= u+ (v+w)

A1= (u+v) +w

A2= (v+u) +w

= 0 +w

A2= w+ 0

A3= w

Vamos agora ver que, dado um elementov, para encontrarmos seu oposto, basta multiplic´a-lo pelo escalar −1.

Proposi¸c˜ao 1.10. Sejam V um espa¸co vetorial e seja v∈V um elemento qualquer. Ent˜ao−1v

´

e oposto a v (e, por1.9, ´e o ´unico elemento oposto a v).

Dem.: Temos v+ (−1v)M= 1v4 + (−1v)M3= (1−1)v= 0vR 1.7= 0. Logo,−1v´e o oposto dev.

Por comodidade, quando tivermos v, u ∈ V e α ∈ V, denotaremos v+ (−αu) simplesmente por v−αu. Analogamente, o oposto dev ser´a denotado simplesmente por−v.

Vamos agora a algumas propriedades elementares:

Proposi¸c˜ao 1.11. Sejam V um espa¸co vetorial, v∈V e α∈R. Temos:

(i) α(−v) =−αv;

(ii) α0 = 0.

(5)

(iii) Se αv= 0 ent˜aoα= 0 ou v= 0;

Dem.: (i) α(−v) =α(−1v)M2= (α·(−1))v=R −αv.

(ii) α0A3= α(0 + 0)M=1α0 +α0. Somando-se−α0 em ambos os lados da igualdade, temos, pela parte (i), 0 =α0.

(iii) Suponha α 6= 0. Vamos ent˜ao mostrar que v = 0. Considere α−1 ∈ R tal que α−1α = 1.

Deα0 = 0 temos α−1(αv) =α−10. Aplicando (ii) ao lado direito da igualdade, temos que α−1(αv) = 0. Assim, temos que 0 =α−1(αv)M2= (α−1α)v= 1vM=4v.

1.1 Exerc´ıcios

Exerc´ıcio 1.1. Considere M2:=

a b c d

:a, b, c, d∈R

,⊕:M2×M2 −→M2 dada por a1 b1

c1 d1

a2 b2

c2 d2

:=

a1+a2 b1+b2

c1+c2 d1+d2

e :R×M2−→M2 dada por α

a b c d

:=

αa αb αc αd

Mostre que (M2,⊕,) ´e um espa¸co vetorial. As opera¸c˜oes assim definidas s˜ao as usuais para M2.

Exerc´ıcio 1.2. ConsidereQo conjunto dos n´umeros racionais,⊕ea soma e o produto usuais de n´umeros reais. (Q,⊕,) ´e um espa¸co vetorial? Justifique.

Exerc´ıcio 1.3. Exiba os elementos neutros dos seguintes espa¸cos vetoriais: R3 e M2 (cada um com a soma e a multiplica¸c˜ao por escalar usuais).

Exerc´ıcio 1.4. Sejaf ∈ F. Determine qual ´e a fun¸c˜ao representada por−f.

Exerc´ıcio 1.5. Seja V := {r ∈ R : r > 0}. Considere sobre V as seguintes opera¸c˜oes ⊕ : V ×V −→ V e :R×V −→ V dadas por r⊕s := rs e αr := rα onde r, s∈ V e α ∈ R. Mostre que (V,⊕,) ´e um espa¸co vetorial e exiba o elemento neutro de V.

(6)

Exerc´ıcio 1.6. Considere C ={a+bi :a, b ∈ R} o conjunto dos n´umeros complexos. Mostre queC com as opera¸c˜oes usuais ´e um espa¸co vetorial.

Exerc´ıcio 1.7. SejaP :={a+bx+cx2 :a, b, c∈R} o conjunto dos polinˆomios de grau menor ou igual a 2. Mostre que P ´e um espa¸co vetorial e exiba seu elemento neutro.

Exerc´ıcio 1.8. Seja A, B, C ∈M2, onde A :=

1 2 2 1

, B :=

0 3 1 0

e C :=

7 −4

1 0

. Calcule, com as opera¸c˜oes usuais de M2, os seguintes elementos:

(a) A+B (b) B+12C

(c) A−B+ 4C

Exerc´ıcio 1.9. Sejam V um espa¸co vetorial e v, u, w∈V. Mostre as seguintes afirma¸c˜oes:

(a) −(−v) =v;

(b) Se u+v=w+v ent˜ao u=w.

(c) Seu+u= 0 ent˜ao u= 0.

Exerc´ıcio 1.10. Sejam V um espa¸co vetorial e u, v ∈ V. Mostre que existe um ´unico vetor w∈V tal queu+w=v.

Exerc´ıcio 1.11. Considere (R,⊕,) onde, dados a, b ∈ R e α ∈ R, definimos a⊕b = a−b e αa=αa. (R,⊕,) ´e um espa¸co vetorial?

Exerc´ıcio 1.12. Sejam (U,⊕U,U) e (V,⊕V,V) espa¸cos vetoriais. ConsidereU×V :={(u, v) : u∈U, v ∈V} com as seguintes opera¸c˜oes:

(u1, v1) + (u2, v2) := (u1U u2, v1V v2) α·(u, v) := (αUu, αV v)

ondeu, u1, u2∈U,v, v1, v2 ∈V eα∈R. Mostre que (U×V,+,·) ´e um espa¸co vetorial.

(7)

2 Subespa¸ cos vetoriais

Vejamos agora um modo de obter espa¸cos vetoriais “novos” a partir de “velhos”. Dado (V,+,·) um espa¸co vetorial, podemos tentar criar um novo espa¸co (S,⊕,) simplesmente tomandoS ⊂V e fazendo com que⊕e sejam as restri¸c˜oes de + e ·respectivamente. E, ´e claro, queremos que (S,⊕,) satisfa¸ca as propriedades da defini¸c˜ao de espa¸co vetorial. Ou seja, temos a seguinte defini¸c˜ao:

Defini¸c˜ao 2.1. Seja (V,+,·) um espa¸co vetorial. Dizemos que (S,⊕,) ´e um subespa¸co ve- torial de V se (S,⊕,) ´e um espa¸co vetorial, S ⊂ V e, dados u, v ∈ S e α ∈ R temos que u⊕v = u+v e αv = α·v. Dizemos que ⊕ e s˜ao as opera¸c˜oes induzidas por + e · respectivamente.

Por comodidade, normalmente usaremos os mesmos s´ımbolos para as opera¸c˜oes no espa¸co ori- ginal e no subespa¸co. E, quando as opera¸c˜oes estiverem claras no contexto, diremos simplesmente queS ´e subespa¸co deV.

O pr´oximo resultado ´e simples, mas ´e importante tˆe-lo em mente.

Proposi¸c˜ao 2.2. Se (S,⊕,) ´e subsespa¸co vetorial de (V,+,·), ent˜ao, dados u, v∈S e α∈R, temos que u+v∈S eαv ∈S.

Dem.: Como S ´e espa¸co vetorial, temos que ⊕:S×S −→S. Logo, dados u, v∈S, temos que u⊕v ∈ S. Como u+v = u⊕v, temos que u+v ∈ S. Analogamente, temos o resultado para αv.

Vamos agora a um exemplo de subespa¸co.

Exemplo 2.3. Seja (D,+,·) onde D :=

a 0 0 b

:a, b∈R

e + e · s˜ao as restri¸c˜oes das opera¸c˜oes emM2. Vamos ver queD´e subespa¸co deM2. Para isso, precisamos ver, primeiramente, que as opera¸c˜oes + e ·, que s˜ao as restri¸c˜oes da opera¸c˜oes deM2, de fato s˜ao fun¸c˜oes deD×D emDeR×DemDrespectivamente. Ou seja, precisamos mostrar que, dadosA, B ∈Deα∈R, temos que A+B ∈D e αA∈ D. SejamA :=

a1 0 0 a2

, B :=

b1 0 0 b2

∈D. Temos que

a1 0 0 a2

+

b1 0 0 b2

+

=

a1+b1 0 0 a2+b2

∈ D. Para mostrar que αA ∈ D ´e an´alogo (exerc´ıcio). Observe tamb´em que o elemento

0 0 0 0

∈D faz o papel de elemento neutro em D. Assim, para concluirmos que D ´e de fato um espa¸co vetorial, s´o resta mostrar que valem as propriedades (A1), ..., (A4), (M1), ..., (M4) da defini¸c˜ao de espa¸co vetorial. Como exemplo,

(8)

vamos mostrar a propriedade (A2) deixando as outras como exerc´ıcio: SejamA:=

a1 0 0 a2

, B :=

b1 0 0 b2

∈D. Temos

A+B =

a1 0 0 a2

+

b1 0 0 b2

=

a1+b1 0 0 a2+b2

=

b1 0 0 b2

+

a1 0 0 a2

= B+A

O pr´oximo exemplo mostra que podemos ter (V,+,·), (S,⊕,) ambos espa¸cos vetoriais e com S ⊂V mas sem queS seja subespa¸co de V.

Exemplo 2.4. Considere (R,+,·), onde + e·s˜ao as opera¸c˜oes usuais. Considere (P,⊕,), onde P :={r ∈R:r >0} e⊕e s˜ao as opera¸c˜oes definidas no exerc´ıcio1.5, isto ´e, dadosr, s∈P e α∈R, temos que r⊕s=rse αr =rα. Pelo exerc´ıcio 1.5, temos que (P,⊕,) ´e um espa¸co vetorial. Mas, apesar de P ⊂ R, n˜ao ´e verdade que (P,⊕,) ´e subespa¸co vetorial de (R,+,·).

Isso se d´a porque as opera¸c˜oes em P n˜ao s˜ao as opera¸c˜oes induzidas porR. De fato, considere 1,2∈P. Por um lado, tomando as opera¸c˜oes emP, temos que 1⊕2 = 1·2 = 2. Por outro lado, tomando as opera¸c˜oes em R, temos que 1 + 2 = 3.

O pr´oximo exemplo mostra que podemos ter (S,+,·), comS ⊂V, “definir”as opera¸c˜oes em S como as de V e, ainda assim,S n˜ao ser subespa¸co de V.

Exemplo 2.5. Considere [0,1] ⊂ R. Temos que ([0,1],+,·), onde + e · s˜ao as restri¸c˜oes das opera¸c˜oes usuais deR, n˜ao ´e um subespa¸co vetorial deR. Para ver isso, suponha que seja. Ent˜ao, dadosa, b∈[0,1] temos, por2.2, quea+b∈[0,1]. Como 1∈[0,1], temos que 1 + 1 = 2∈[0,1], contradi¸c˜ao. Logo, [0,1] n˜ao ´e subespa¸co vetorial de R.

Vimos que, dado um subconjunto S de um espa¸co vetorial V ´e necess´ario fazer muitas veri- fica¸c˜oes para decidir se ele ´e um subespa¸co vetorial ou n˜ao. Temos que verificar as oito propri- edades de espa¸co vetorial, a existˆencia de um elemento neutro e ainda verificar se as restri¸c˜oes das duas opera¸c˜oes tˆem contra dom´ınio S. O pr´oximo resultado mostra uma maneira mais f´acil de fazer tal decis˜ao.

Proposi¸c˜ao 2.6. Seja (V,⊕,) um espa¸co vetorial. Seja S ⊂ V. Ent˜ao (S,+,·), onde + e · s˜ao as restri¸c˜oes das opera¸c˜oes deV, ´e um subespa¸co vetorial se, e somente se, s˜ao satisfeitas as seguintes condi¸c˜oes:

(9)

(b) Dados u, v∈S temos que u⊕v∈S;

(c) Dados v∈S e α∈R temos que αv ∈S.

Dem.:

⇒): Suponha que S ´e um subespa¸co vetorial. Ent˜ao, por 2.2, temos (b) e (c). Em particular, temos queS ´e um espa¸co vetorial e, portanto, S6=∅. Sejav∈S. Temos 0 = 0v= 0·v∈S e, portanto, temos (a).

⇐): Suponha queS satisfa¸ca (a), (b) e (c). Por (a) temos queS´e n˜ao vazio. Por (b) temos que +

´

e uma fun¸c˜ao deS×S emS e, por (c), temos que·´e uma fun¸c˜ao de R×S emS. Assim, resta verificarmos as propriedades (A1), ..., (A4), (B1), ..., (B4). Vamos verificar as propriedades (A2) e (M1) deixando as outras como exerc´ıcio.

(A2) Sejam u, v ∈ S. Temos que u+v = u⊕v = v⊕u = v+u, onde ∗ vale por que vale a propriedade (A2) emV.

(M1) Sejam u, v∈ S e α∈R. Temos α(u+v) = α(u⊕v)∗∗= (αu)⊕(αv) =αu+αv, onde∗∗ vale pois (M1) vale emV.

Vamos aproveitar o resultado anterior e dar mais alguns exemplos de subespa¸cos vetoriais, agora fazendo as verifica¸c˜oes de maneira bem mais simples.

Exemplo 2.7. Considere C := {f : f ´e fun¸c˜ao cont´ınua de R em R}. Temos que C, com as opera¸c˜oes usuais de fun¸c˜oes, ´e um espa¸co vetorial. De fato, podemos mostrar que C ´e subespa¸co vetorial de F (ver exemplo 1.3). Para isso, vamos aplicar 2.6. Note que o elemento neutro de F ´e a fun¸c˜ao identicamente nula que ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua. Logo, 0∈ C. Se f e g s˜ao fun¸c˜oes cont´ınuas, temos que f +g tamb´em ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua. Finalmente, se f ´e um fun¸c˜ao cont´ınua eα∈R, temos que αf ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua.

Exemplo 2.8. Considere R2 com as opera¸c˜oes usuais. Considere S := {(a,−a)∈ R2 :a∈R}.

Vamos mostrar que S´e um subespa¸co vetorial deR2 com as opera¸c˜oes induzidas. Pela defini¸c˜ao de S, temos que 0 = (0,0) ∈ S (basta tomarmos a = 0). Agora sejam (a,−a),(b,−b) ∈ R2. Temos (a,−a) + (b,−b) = (a+b,−a−b) = (a+b,−(a+b)) ∈ S. Agora sejam (a,−a) ∈ S e α∈R. Temos α(a,−a) = (αa,−αa)∈S.

(10)

2.1 Exerc´ıcios

Exerc´ıcio 2.1. Sejam V um espa¸co vetorial e S ⊂V. Suponha que, dados u, v ∈ S e α ∈ R temos que u+v∈S e αv∈S. Mostre que 0∈S se, e somente se,S ´e n˜ao vazio.

Exerc´ıcio 2.2. SejaV espa¸co vetorial eS ⊂V. Mostre queS com as opera¸c˜oes restritas deV

´

e um subespa¸co vetorial de V se, e somente se, S ´e n˜ao vazio e, dados α ∈ R e u, v ∈S temos αu+v∈S.

Exerc´ıcio 2.3. Seja V um espa¸co vetorial. Considere S := {0} ⊂ V. S com as opera¸c˜oes induzidas porV ´e um subespa¸co vetorial?

Exerc´ıcio 2.4. Decida se os conjuntos abaixo s˜ao subespa¸cos vetoriais deR3 com as opera¸c˜oes induzidas pelas opera¸c˜oes usuais de R3. Justifique suas afirma¸c˜oes.

(a) A:={(x, y, z)∈R3 :z= 0}

(b) B :={(x, y, z)∈R3 :x+y=z}

(c) C :={(x, y, z)∈R3 :xy= 0}

(d) D:={(x, y, z)∈R3 :x+z= 0}

(e) E :={(x, y, z)∈R3 :x2+z2= 1})

Exerc´ıcio 2.5. SejamV um espa¸co vetorial eA, B⊂V subespa¸cos vetoriais deV. As seguintes afirma¸c˜oes s˜ao verdadeiras? Justifique suas respostas.

(a) A∩B ´e um subespa¸co vetorial de V. (b) A∪B ´e um subespa¸co vetorial de V.

(c) {a+b:a∈A e b∈B}´e um subespa¸co vetorial deV. (d) Se A⊂B ent˜ao A´e subespa¸co vetorial de B.

Exerc´ıcio 2.6. SejaS subespa¸co vetorial deV. Seja 0V o elemento neutro deV e 0S o elemento neutro de S. Mostre que 0V = 0S.

Exerc´ıcio 2.7. Considere S := {A ∈ M2 : detA 6= 0} ∪

0 0 0 0

. S com as opera¸c˜oes induzidas porM2 ´e subespa¸co vetorial de M2?

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3 Combina¸ c˜ oes lineares e subespa¸ cos gerados

Segue imediatamente das propriedades de espa¸cos vetoriais que podemos sempre somar dois elementos e que podemos multiplicarmos qualquer elemento por um n´umero real sempre tendo como resultado outro elemento do espa¸co. O pr´oximo resultado simplesmente diz que podemos, na verdade, somar qualquer quantidade (finita) de elementos do espa¸co e sempre obteremos outro elemento do espa¸co. Al´em disso, cada elemento desta soma pode ser multiplicado por um escalar sem preju´ızo algum. Antes de mostrar tal resultado, vamos demonstrar uma importante ferramenta matem´atica que nos ser´a ´util:

Teorema 3.1 (Princ´ıpio da indu¸c˜ao). Seja P uma propriedade. Suponha que sabemos que tal propriedade vale para o n´umero0 e que, sempre que ela vale para um n´umero n∈Nela tamb´em vale para o n´umero n+ 1. Ent˜ao a propriedade P vale para todos os n´umeros1 m∈N.

Dem.: Suponha que existe um n´umero para o qual a propriedade P n˜ao vale. Seja n o menor n´umero para o qual n˜ao vale P. Por hip´otese, temos que n6= 0. Assim, temos que n−1 ∈ N e, como n−1 < n, temos que a propriedade P vale para n−1. Por hip´otese, temos que a propriedadeP vale para (n−1) + 1 =n, contradi¸c˜ao.

Corol´ario 3.2. SejaP uma propriedade que vale para um n´umero m∈Ne que se ela vale para um n´umero n ∈N ela tamb´em vale para n+ 1. Ent˜ao a propriedade P vale para todo n´umero k∈N com k≥m.

Dem.: Considere a propriedade P0 tal que P0 vale para um n´umero nse, e somente se, P vale paran+m. Aplicamos o teorema paraP0 e obtemos o resultado.

Proposi¸c˜ao 3.3. Seja V um espa¸co vetorial. Sejam α1, ..., αn∈Re v1, ..., vn∈V. Ent˜ao

n

X

i=1

αivi∈V

Dem.: Por indu¸c˜ao2 sobren. Cason= 1, temos queα1v1∈V pela defini¸c˜ao de espa¸co vetorial.

Agora suponha que vale o resultado parane vamos mostrar paran+ 1. Por hip´otese, temos que Pn

i=1αivi∈V. Assim

n+1

X

i=1

αivi = (

n

X

i=1

αivi)

| {z }

∈V

n+1vn+1

| {z }

∈V

∈V

1Uma vers˜ao “informal”deste resultado que talvez ajude a entendˆe-lo melhor: se h´a uma fila infinita de bolas e sabemos que a primeira est´a pintada e que, se alguma est´a pintada, ent˜ao a pr´oxima tamb´em est´a pintada, podemos concluir que toda a fila est´a pintada.

2ou seja, a propriedade aqui considerada ´e que dadosα1, ..., αnRev1, ..., vntemos quePn

i=1αiviV.

(12)

Este tipo de opera¸c˜ao vai ser importante para o restante do texto.

Defini¸c˜ao 3.4. Seja V espa¸co vetorial. Sejam u, v1, ..., vn ∈ V. Dizemos que u ´e uma com- bina¸c˜ao linearde v1, ..., vn se existem α1, ..., αn∈Rtais queu=Pn

i=1αivi.

Exemplo 3.5. ConsidereR3com a soma e multiplica¸c˜ao usuais. Temos que (1,1,1) ´e combina¸c˜ao linear de (1,0,0), (0,12,1) e (0,0,1) pois

1(1,0,0) + 2(0,1

2,1)−1(0,0,1) = (1,1,1)

Por outro lado, temos que (1,1,1) n˜ao ´e combina¸c˜ao linear de (1,0,0) e (0,1,0). Pois, suponha que seja. Ent˜ao existem α, β∈Rtais que α(1,0,0) +β(0,1,0) = (1,1,1). Com isso, olhando as equa¸c˜oes dadas pelas terceiras coordenadas, temos que 1 =α·0 +β·0 = 0, contradi¸c˜ao.

Exemplo 3.6. SejaV espa¸co vetorial. Sejamu, v∈V. Temos queu+v´e combina¸c˜ao linear de u−v e v. De fato, temos que 1(u−v) + 2v=u+v.

Suponha que temos um espa¸co vetorial V e A ⊂ V um conjunto qualquer n˜ao vazio. Pelo resultado3.3temos que seA´e um subespa¸co vetorial deV, ent˜ao qualquer combina¸c˜ao linear de elementos deAtamb´em ´e um elemento deA1. E seAn˜ao for um subespa¸co? Ser´a que ´e suficiente acrescentarmos as combina¸c˜oes lineares deApara obtermos um subespa¸co? O resultado seguinte afirma que sim.

Proposi¸c˜ao 3.7. Seja V um espa¸co vetorial. Seja A ⊂ V um conjunto n˜ao vazio. Ent˜ao S :={v ∈V :∃n≥1, v1, ..., vn∈A eα1, ..., αn∈R Pn

i=1α1vi =v} ´e um subespa¸co vetorial de V. Al´em disso,A⊂S.

Dem.: Vamos usar 2.6 para mostrar que A ´e subespa¸co. Como A ´e n˜ao vazio, podemos to- mar v ∈ A. Ent˜ao 0v = 0 ∈ S. Sejam u, v ∈ S. Ent˜ao existem u1, ..., un, v1, ...., vm ∈ A e α1, ..., αn, β1, ..., βm∈Rtais queu=Pn

i=1αiui e v=Pm

i=1βivi. Note que u+v=

n

X

i=1

αiui+

m

X

i=1

βivi

Logo, u+v∈S. Sejaα ∈R. Temos que αv=α

m

X

i=1

βivi=

m

X

i=1

αβivi

Logo, αv∈S e, portanto,S ´e subespa¸co vetorial de V.

Para mostrar que A⊂S, basta notar que para cadaa∈A, temos que a= 1a∈S.

(13)

Com esse resultado, fazemos a seguinte defini¸c˜ao:

Defini¸c˜ao 3.8. Sejam V um espa¸co vetorial e A ⊂ V um subconjunto n˜ao vazio. Denotamos por [A] :={v∈V :∃n≥1, v1, ..., vn∈A eα1, ..., αn∈R Pn

i=1α1vi=v}osubespa¸co vetorial geradoporA. E, neste caso, dizemos queA´e umconjunto geradorpara [A]. Por conven¸c˜ao, dizemos que [∅] = 0.

Por comodidade, quando exibirmos os elementos de um conjunto A, omitiremos as chaves.

Por exemplo, em vez de denotar por [{u, v, w}], usaremos [u, v, w].

Exemplo 3.9. Considere o espa¸co vetorialR3com as opera¸c˜oes usuais. Temos que [(0,1,2),(1,0,0)] = {(a, b,2b) :a, b∈R}. De fato, considere (a, b,2b) e vamos mostrar que (a, b,2b)∈[(0,1,2),(1,0,0)].

Para isso, basta notar que (a, b,2b) =b(0,1,2) +a(1,0,0). Assim, temos que {(a, b,2b) :a, b ∈ R} ⊂[(0,1,2),(1,0,0)]. Para o outro lado, considereα(0,1,2) +β(1,0,0) = (β, α,2α). Tomando- sea=β eb=α, temos queα(0,1,2)+β(1,0,0)∈ {(a, b,2b) :a, b∈R}. Logo, temos a igualdade.

J´a o subespa¸co S := {(x, y, z) : z = 0} ´e gerado por {(1,0,0),(0,1,0)}. De fato, seja (x, y,0)∈ S. Ent˜ao (x, y,0) = x(1,0,0) +y(0,1,0). E, dados α, β ∈ R, temos que α(1,0,0) + β(0,1,0) = (α, β,0) tem a terceira coordenada 0 e, portanto, pertence a S.

Exemplo 3.10. ConsidereS⊂M2 dado por

a 0 0 b

:a, b∈R

. Temos queS ´e gerado por 1 0

0 0

,

1 0 0 2

De fato, seja

a 0 0 b

∈S. Temos que

a 0 0 b

= (a− b 2)

1 0 0 0

+ b

2

1 0 0 2

Por outro lado, ´e f´acil ver que qualquer combina¸c˜ao linear de

1 0 0 0

e

1 0 0 2

´

e da forma a 0

0 b

.

(14)

3.1 Exerc´ıcios

Exerc´ıcio 3.1. Considere R2 com as opera¸c˜oes usuais. Escreva (1,2) como combina¸c˜ao linear de {(1,1),(0,4)}.

Exerc´ıcio 3.2. Considere R3 com as opera¸c˜oes usuais. Considere S := [(1,0,0),(1,1,0)]. Dˆe uma interpreta¸c˜ao geom´etrica para S.

Exerc´ıcio 3.3. SejaV um espa¸co vetorial. Mostre as seguintes afirma¸c˜oes:

(a) SejaS ⊂V. Ent˜ao S⊂[S];

(b) Sejam S1⊂S2⊂V. Ent˜ao [S1]⊂[S2];

(c) SejaS ⊂V. Ent˜ao [S] = [[S]].

Exerc´ıcio 3.4. ConsidereR3 com as opera¸c˜oes usuais. ConsidereS :={(a, b, a+ 2b) :a, b∈R}.

(a) Mostre que S ´e subespa¸co de R3 com as opera¸c˜oes usuais.

(b) Encontre um conjunto com exatamente 2 elementos que seja um gerador paraS.

(c) Encontre um conjunto com exatamente 3 elementos que seja um gerador paraS.

(d) Encontre A, B⊂R3 tais queA∩B =∅e [A] = [B] =S.

Exerc´ıcio 3.5. Sejam V um espa¸co vetorial e v∈V. Mostre que [V r{v}] =V.

Exerc´ıcio 3.6. SejaV um espa¸co vetorial e seja S ⊂V um subconjunto qualquer. Mostre que S = [S] se, e somente se, S ´e um subespa¸co vetorial de V.

Exerc´ıcio 3.7. Considere M2 com as opera¸c˜oes usuais. Considere S :=

a b c d

∈M2:a=c

A:=

0 1 0 0

,

0 0 0 1

,

1 0 1 0

(a) S ´e um subespa¸co vetorial deM2? Justifique.

(b) Relacione S com [A], justificando suas afirma¸c˜oes.

Exerc´ıcio 3.8. Sejam V um espa¸co vetorial e A ⊂V um conjunto n˜ao vazio. Suponha queS seja um subespa¸co deV tal queA⊂S. Mostre que [A]⊂S.

Exerc´ıcio 3.9. Sejam V um espa¸co vetorial e A ⊂ V um conjunto n˜ao vazio. Mostre que [A] =T

{S ⊂V :S⊃A e S ´e subespa¸co de V}.

(15)

4 Dependˆ encia linear

Vimos na se¸c˜ao anterior que um subespa¸co pode ter v´arios conjuntos geradores. Inclusive, pode- mos ter A ⊂B distintos que gerem o mesmo subespa¸co. Os conceitos que aprentamos a seguir servem para podermos tomar conjuntos geradores que sejam, de alguma forma, minimais.

Defini¸c˜ao 4.1. Sejam V um espa¸co vetorial e v1, ..., vn ∈ V distintos. Dizemos que v1, ..., vn s˜ao linearmente dependentesse existemα1, ..., αn ∈R, com pelo menos um αi 6= 0, tais que Pn

i=1αivi = 0. Dizemos que v1, ..., vn s˜ao linearmente independentes caso contr´ario, isto ´e, se dados α1, ..., αn ∈ R temos Pn

i=1αivi = 0, ent˜ao α1 =· · · =αn = 0. Dizemos que A⊂ V ´e linearmente dependente se existemv1, ..., vn∈Adistintos linearmente dependentes. Dizemos que A ´e linearmente independente caso contr´ario, isto ´e, se dados quaisquer v1, ..., vn ∈ A distintos temos que v1, ..., vn s˜ao linearmente independentes. Por conven¸c˜ao, dizemos que o conjunto ∅ ´e linearmente independente.

Este primeiro exemplo, ilustra uma rela¸c˜ao entre dependˆencia linear e combina¸c˜ao linear.

Exemplo 4.2. Sejam V um espa¸co vetorial e u, v, w∈V. Suponha quew ´e combina¸c˜ao linear deu, v. Ent˜ao u, v, ws˜ao linearmente dependentes. De fato, comow´e combina¸c˜ao linear deu, v, existem α, β∈Rtais queαu+βv=w. Assim,αu+βv−1w= 0.

Mais adiante, veremos que vale uma esp´ecie de rec´ıproca para este exemplo. Mas antes, vejamos mais alguns exemplos simples.

Exemplo 4.3. ConsidereR4com as opera¸c˜oes usuais. Temos que (0,1,0,1), (4,6,2,6) e (2,0,1,0) s˜ao linearmente dependendentes. De fato, temos que

3(0,1,0,1)−1

2(4,6,2,6) + 1(2,0,1,0) = 0

Exemplo 4.4. Considere M2 com as opera¸c˜oes usuais. Ent˜ao A:=

1 1 0 1

,B :=

1 1 0 0

, C :=

0 0 2 2

s˜ao linearmente independentes. De fato, sejamα, β, γ ∈R tais que αA+βB+ γC = 0. Ent˜ao, temos o seguinte sistema de equa¸c˜oes:





α+β = 0 α+β = 0 2γ = 0 α+ 2γ = 0 De onde obtemos queα=β=γ = 0

(16)

Exemplo 4.5. ConsidereF com as opera¸c˜oes usuais. Temos que que as fun¸c˜oessen(x) ecos(x) s˜ao linearmente independentes. De fato, sejam α, β ∈ R tais que, para todo x ∈ R, temos que αsen(x) +βcos(x) = 0. Fazendo x = 0, temos que 0 = αcos0 +βsen0 = α. E, fazendo x = π2, temos que 0 = βsenπ2 = β. Logo, α = β = 0. Por outro lado, temos que as fun¸c˜oes f(x) := 2sen(x),g(x) :=sen(x)−cos(x) eh(x) :=sen(x)+2cos(x) s˜ao linearmente dependentes.

De fato, temos que

−3

2f(x) + 2g(x) +h(x) = 0 para qualquer x∈R.

Agora vamos ao resultado da “rec´ıproca” do primeiro exemplo desta se¸c˜ao. Sua afirma¸c˜ao ´e a de que se n vetores s˜ao linearmente dependentes, ´e porque um deles ´e combina¸c˜ao linear dos outros.

Proposi¸c˜ao 4.6. Sejam V um espa¸co vetorial e v1, ..., vn ∈ V. Suponha que v1, ..., vn s˜ao li- nearmente dependentes. Ent˜ao existe k tal que 1 ≤ k ≤ n tal que vk ´e combina¸c˜ao linear de {vi : 1≤i≤n ei6=k}, isto ´e, existem αi ∈R tais que

vk=

n

X

i= 1 i6=k

αivi

Dem.: Comov1, ..., vn s˜ao linearmente dependentes, existemα1, ..., αn∈R, com pelo menos um βi 6= 0, tais que Pn

i=1βivi = 0. Sejak tal queβk6= 0. Temos vk=

n

X

i= 1 i6=k

−βi βkvi

O pr´oximo resultado ser´a ´util para quando formos cuidar da minimalidade de conjuntos geradores. Ele simplesmente diz que, se um conjunto gerador finito ´e linearmente dependente, ent˜ao existe um elemento dele que podemos “descartar”.

Corol´ario 4.7. Seja V um espa¸co vetorial. SejaA⊂V finito1 e linearmente dependente. Ent˜ao existe v∈A tal que [A] = [Ar{v}].

Dem.: Escreva A={v1, ..., vn}. Pelo resultado anterior, existem ke αi∈Rtais que vk= X

i= 1 i6=k

αivi

(17)

Vamos mostrar que [A] = [Ar{vk}]. ´E claro que [Ar{vk}]⊂[A] (ver exercicio 3.3). Assim, resta mostrar que [A]⊂ [Ar{vk}]. Seja u ∈[A]. Sejam β1, ..., βn ∈R tais que v =Pn

i=1βivi. Temos

v = Pn i=iβivi

= βkvk+Pn

i= 1 i6=k

βivi

= βkPn i= 1 i6=k

αivi+Pn i= 1 i6=k

βivi

Logo, v∈[Ar{vk}].

O pr´oximo resultado diz que podemos aumentar um conjunto linearmente independente com elementos que n˜ao sejam combina¸c˜ao linear dele.

Proposi¸c˜ao 4.8. Sejam V um espa¸co vetorial e A ⊂ V um subconjunto linearmente indepen- dente. Seja v∈V tal que v /∈[A]. Ent˜aoA∪ {v}´e linearmente independente.

Dem.: Suponha que n˜ao. Ent˜ao existemv1, ..., vn ∈A e α, α1, ..., αn ∈R n˜ao todos nulos tais queαv+Pn

i=1αivi = 0. Note queα6= 0 pois, caso contr´ario, ter´ıamosPn

i=1αivi = 0 com algum αi 6= 0 o que contraria o fato deA ser linearmente independente.

Assim, temos que v=−Pn

i=1 αi

αvi o que contraria o fato dev /∈[A].

4.1 Exerc´ıcios

Exerc´ıcio 4.1. Sejam V um espa¸co vetorial e A ⊂ V. Mostre que, se 0 ∈ A, ent˜ao A ´e linearmente dependente.

Exerc´ıcio 4.2. Considere R4 com as opera¸c˜oes usuais. Decida se cada conjunto de vetores ´e linearmente dependente ou n˜ao. Justifique suas respostas:

(a) {(1,0,0,0),(0,1,0,0),(0,0,1,0),(0,0,0,1)}

(b) {(1,1,0,0),(2,2,4,4),(0,0,1,1)}

(c) {(x, y, z, w) :x+y+z+w= 0}

(d) {(0,0,0,2),(0,0,−1,3),(0,4,2,1),(1,2,3,4)}

(e) {(0,2,2,4),(1,0,2,2),(1,2,2,0)}

Exerc´ıcio 4.3. SejaV um espa¸co vetorial. Sejam A, B ⊂V. Decida se as seguintes afirma¸c˜oes s˜ao verdadeiras ou falsas e justifique suas respostas:

(18)

(a) Se A´e linearmente independente eB ⊂A, ent˜ao B ´e linearmente independente.

(b) Se A´e linearmente dependente eB ⊃A, ent˜ao B ´e linearmente dependente.

(c) SeA´e linearmente independente eB ⊃A, ent˜ao B ´e linearmente independente.

(d) Se A´e linearmente dependente eB ⊂A, ent˜ao B ´e linearmente dependente.

Exerc´ıcio 4.4. SejaV um espa¸co vetorial tal que V 6={0}. Mostre queV r{0} ´e linearmente dependente.

Exerc´ıcio 4.5. Sejam V um espa¸co vetorial e u, v, w ∈ V. Suponha que v ∈ [w] e u ∈ [w].

Mostre que {u, v}´e linearmente dependente.

Exerc´ıcio 4.6. Sejam V um espa¸co vetorial eu, v, w ∈V. Suponha que{u, v, w}´e linearmente independente. Mostre que {u+v, u+w, v+w}´e linearmente independente.

Exerc´ıcio 4.7. SejamV um espa¸co vetorial eu1, ..., un, v1, ..., vm∈V. Suponha que{u1, ..., un, v1, ..., vm} seja linearmente independente. Mostre que [u1, ..., un]∩[v1, ..., vm] ={0}.

Exerc´ıcio 4.8. ConsidereP2 :={a+bx+cx2 :a, b, c ∈R} o conjuntos dos polinˆomios de grau menor ou igual a 2 com as opera¸c˜oes usuais. Verifique se os seguintes elementos s˜ao linearmente independentes ou n˜ao, justificando suas respostas.

(a) f(x) := 1 +x+x2,g(x) := 2 + 2x+ 2x2. (b) f(x) :=x+x2,g(x) := 2, h(x) := 1 + 2x2.

(c) f(x) := 1 +x,g(x) := 2 +x,h(x) :=x2.

Exerc´ıcio 4.9. Mostre que podemos retirar a hip´otese deA ser finito em 4.7. Dica: ComoA ´e linearmente dependente, temos que existemv1, ..., vn∈Alinearmente dependentes. Comece com isso e procure fazer algo parecido com a demonstra¸c˜ao de 4.7.

(19)

5 Bases

Agora temos material suficiente para tomarmos conjuntos geradores minimais.

Defini¸c˜ao 5.1. SejamV um espa¸co vetorial e B⊂V. Dizemos queB ´e uma baseparaV seB

´

e linearmente independente e [B] =V. Vejamos alguns exemplos.

Exemplo 5.2. Considere R4 com as opera¸c˜oes usuais. Temos que B :={(1,0,1,0), (0,1,0,1), (1,0,0,1), (0,0,1,1)}´e uma base paraR4. De fato, seja (a, b, c, d)∈R4. Considereα, β, γ, δ∈R tais queα(1,0,1,0) +β(0,1,0,1) +γ(1,0,0,1) +δ(0,0,1,1) = (a, b, c, d). Temos





α+γ =a β =b α+δ=c β+γ+δ=d

De onde, temosα=a−d+b+c−a+d−b2 , β=b, γ=d−b−c−a+d−b2 , δ= c−a+d−b2 . Assim, temos que [B] =R4. Vamos agora mostrar queB ´e linearmente independente. Sejamα, β, γ, δ ∈Rtais queα(1,0,1,0) +β(0,1,0,1) +γ(1,0,0,1) +δ(0,0,1,1) = (0,0,0,0). Temos





α+γ = 0 β = 0 α+δ= 0 β+γ+δ= 0 De onde temos queα=β =γ =δ= 0.

Exemplo 5.3. Para cada k ∈ N, considere pk : R −→ R dada por pk(x) = xk. Seja n ∈ N. Chamamos de polinˆomios de grau menor ou igual a n o subespa¸co vetorial de F gerado por p0, ..., pn. Denotamos tal espa¸co por Pn. Temos que B := {p0, ..., pn} ´e uma base para Pn. De fato, pela pr´opria defini¸c˜ao, j´a temos que [B] = Pn. Resta mostrar que B ´e linearmente independente. Sejam α0, ..., αn ∈Rtais que Pn

i=0αipi = 0. Isto ´e, dado qualquer y∈R, temos que

0p0+· · ·αnpn)(y) =α0y0+· · ·+αnyn= 0 (1) Mas temos que um polinˆomio identicamente nulo tem todos os seus coeficientes nulos. Logo, α0 =· · ·αn= 0.

N˜ao apresentaremos aqui a demonstra¸c˜ao do pr´oximo resultado pois ela precisa de um pouco de material que foge do nosso escopo. Al´em disso, para os principais exemplos tratados aqui, apresentaremos uma vers˜ao mais fraca (mas suficiente) deste resultado na pr´oxima se¸c˜ao.

Teorema 5.4. Seja V um espa¸co vetorial. Ent˜ao existe B ⊂V base para V. Dem.: Ver [3], p. 76.

(20)

5.1 Exerc´ıcios

Exerc´ıcio 5.1. Exiba uma base para cada espa¸co vetorial e demonstre que a mesma de fato ´e uma base. Considere para cada conjunto as opera¸c˜oes usuais.

(a) M2 (b) R3

(c) R

Exerc´ıcio 5.2. SejamV um espa¸co vetorial eB uma base paraV. ConsidereC, D⊂V tais que C(B e D)B. Mostre que C e Dn˜ao s˜ao bases de V.

Exerc´ıcio 5.3. Sejam V um espa¸co vetorial e B uma base para V. Seja α ∈ R com α 6= 0.

Mostre que C:={αv :v∈B} ´e uma base para V.

Exerc´ıcio 5.4. Sejam V um espa¸co vetorial e S⊂V um subespa¸co tal que S 6={0}. Considere B base paraV. ´E verdade que, necessariamente, B∩S6=∅?

Exerc´ıcio 5.5. SejamU, V espa¸cos vetoriais. SejamA base paraU eB base paraV. Considere U ×V (veja o exercicio 1.12). O conjunto C:={(a, b) :a∈A, b∈B}´e uma base para U ×V?

6 Sistemas lineares

Antes de prosseguirmos com os espa¸cos vetoriais, vamos ver uma aplica¸c˜ao no estudo de sistemas lineares homogˆeneos. Vamos fazer essa aplica¸c˜ao agora pois um dos resultados ser´a utilizado na seq¨uˆencia de nosso trabalho.

Defini¸c˜ao 6.1. Dizemos que um sistema comnequa¸c˜oes nas inc´ognitasx1, ..., xk´e umsistema linear homogˆeneo se cada uma das suas equa¸c˜oes ´e da forma α1x12x2+· · ·+αkxk = 0 com α1, ..., αk ∈ R. Dizemos que v = (v1, ..., vk) ∈ Rk ´e uma solu¸c˜ao para o sistema se, para cada equa¸c˜ao α1x1+· · ·αkxk = 0 temos que α1v1+· · ·+αkvk = 0. Dado um sistema linear homogˆeneo E com k inc´ognitas, denotamos porSol(E) o conjunto {v∈Rk :v ´e solu¸c˜ao de E}.

Chamamos Sol(E) de espa¸co solu¸c˜aode E.

(21)

Exemplo 6.2.

x1+ 2x2 = 0 x2−x3 = 0

´

e um sistema linear homogˆeneo1. Uma solu¸c˜ao para tal sistema ´e (−2,1,−1)∈R3.

Nosso primeiro resultado j´a mostra uma liga¸c˜ao entre os sistemas lineares e ´algebra linear: o conjunto solu¸c˜ao ´e um espa¸co vetorial.

Proposi¸c˜ao 6.3. Seja E um sistema linear homogˆeneo com k inc´ognitas. Ent˜ao Sol(E) ´e um subespa¸co vetorial de Rk.

Dem.: Comecemos mostrando que 0 ∈ Sol(E). Dada Pk

i=1αixi = 0 equa¸c˜ao de E, temos que Pk

i=1αi0 = 0, logo, 0 ´e solu¸c˜ao.

Agora sejam (v1, ..., vk),(u1, ..., uk) solu¸c˜oes deE. Vamos mostrar que (v1, ..., vk)+(u1, ..., uk) = (v1+u1, ..., v1+uk) ´e solu¸c˜ao de E. Seja Pk

i=1αixi= 0 uma equa¸c˜ao de E. Temos:

Pk

i=1αi(vi+ui) = Pk

i=1αivi+Pk

i=1αiui

= 0 + 0

= 0

Agora sejam (v1, ..., vk) ∈ Sol(E) e γ ∈ R. Vamos mostrar que γ(v1, ..., vk) = (γv1, ..., γvk) ∈ Sol(E). SejaPk

i=1αixi= 0 uma equa¸c˜ao de E. Temos:

Pk

i=1αi(γvi) = γPk i=1αivi

= γ0

= 0

O que vamos fazer agora ´e determinar uma condi¸c˜ao para que um sistema linear homogˆeneo tenha solu¸c˜oes n˜ao triviais:

Lema 6.4. Considere E uma equa¸c˜ao da forma Pk

i=1αixi = 0. Sejam u, v∈Rk onde v n˜ao ´e solu¸c˜ao paraE. Ent˜ao existe γ ∈R tal queu−γv ´e solu¸c˜ao para E.

Dem.: Escrevemos u = (u1, ..., uk) e v = (v1, ..., vk). Sejam a := Pk

i=1αui e b := Pk i=1αvi. Comov n˜ao ´e solu¸c˜ao para E, temos queb6= 0. Assim, podemos tomar γ := ab. Vejamos que tal γ satisfaz o enunciado. Temos queu−γv= (u1−γv1, ..., uk−γvk). Assim

Pk

i=1αi(ui−γvi) = Pk

i=1αiui−γPk i=1vi

= a−abb

= 0

1repare que h´a inc´ognitas que n˜ao aparecem em todas as equa¸oes, o que seria exigido pela nossa defini¸ao.

Mas isso pode ser facilmente contornado, notando-se, por exemplo, que a primeira equa¸ao ´e equivalente ax1+ 2x2+ 0x3= 0.

(22)

Proposi¸c˜ao 6.5. SejaEum sistema linear homogˆeneo comnequa¸c˜oes ekinc´ognitas comk≥n.

Ent˜ao existe um conjunto linearmente independente emSol(E) com pelo menosk−n elementos.

Dem.: Vamos fazer por indu¸c˜ao sobren. Cason= 0 temos queSol(E) =Rke temos o resultado.

Vamos fazer o caso n+ 1, supondo que o casonvale. Ou seja, temos que mostrar que se E tem n+ 1 equa¸c˜oes, Sol(E) tem um subconjuto linearmente independente comk−n−1 elementos.

Sen+ 1 =k, terminamos porque{0} ⊂Sol(E). Ent˜ao podemos suporn+ 1< k, logo,k−n >0.

ConsidereE0 ⊂E ondeE0 temnequa¸c˜oes. SejaF a equa¸c˜ao restante. Por hip´otese de indu¸c˜ao, temos que Sol(E0) tem um subconjunto A linearmente independente com k−n elementos. Se todos os elemetos de A forem solu¸c˜ao para F, temos que todos os elementos de A s˜ao solu¸c˜ao para E e temos o resultado. Se n˜ao, ent˜ao existe v ∈A tal que v n˜ao ´e solu¸c˜ao de F. Escreva Ar{v} = {a1, ..., ak−n−1}. Para cada i = 1, ..., k−n−1, seja γi ∈ R tal que ai −γiv seja solu¸c˜ao para F (existe pelo lema). Como a1, ..., ak−n−1 e v s˜ao solu¸c˜oes para E0, temos que cada ai−γiv ´e solu¸c˜ao para E0. Logo, {a1−γ1v, ..., ak−n−1−γk−n−1v} ⊂ Sol(E). Logo, para concluirmos o resultado, basta mostrarmos que tal conjunto ´e linearmente independente. Sejam α1, ..., αk−n−1∈Rtais quePk−n−1

i=1 αi(ai−γiv) = 0. Temos:

0 = Pk−n−1

i=1 αi(ai−γiv)

= Pk−n−1

i=1 αiai−Pk−n−1 i=1 γiv

= Pk−n−1

i=1 αiai−(Pk−n−1 i=1 γi)v

Como{a1, ..., ak−n−1, v}=A´e um conjunto linearmente independente, temos que queα1=...= αk−n−1 = 0 como quer´ıamos.

Corol´ario 6.6. Seja E um sistema linear homogˆeneo com mais inc´ognitas do que equa¸c˜oes.

Ent˜aoE tem uma solu¸c˜ao n˜ao trivial, isto ´e, existe v∈Sol(E) com v6= 0.

6.1 Exerc´ıcios

Exerc´ıcio 6.1. Determine o espa¸co solu¸c˜ao de cada um dos sistemas a seguir, determinando tamb´em uma base para cada um deles.

(a)

x1+x2= 0 x2−x3= 0 (b)

x1+x2+ 3x3−x4 = 0 x1+x5 = 0

x5+x2−x3 = 0

(23)

7 Espa¸ cos finitamente gerados e dimens˜ ao

Vamos definir agora o tipo de espa¸co com o qual mais trabalharemos.

Defini¸c˜ao 7.1. Seja V um espa¸co vetorial. Dizemos que V ´e finitamente gerado se existe A⊂V finito tal que [A] =V.

Uma propriedade de espa¸cos finitamente gerados ´e que existe um limitante para o tamanho dos conjuntos linearmente independentes.

Proposi¸c˜ao 7.2. SejamV um espa¸co vetorial finitamente gerado e suponha que{v1, ..., vn} ⊂V seja um gerador de V. Ent˜ao todo subconjunto de V com mais de n elementos ´e linearmente dependente.

Dem.: Seja A := {u1, ..., um} com m > n. Vamos mostrar que A ´e linearmente dependente (note que isso implica o resultado). Como {v1, ..., vn} ´e gerador de V, para cada uk existem βk,1, ..., βk,n ∈Rtais que

n

X

i=1

βk,ivi =uk

Considere o seguinte sistema linear, nas inc´ognitasa1, ..., am:





β1,1a1+· · ·+βm,1am = 0 ...

β1,na1+· · ·+βm,nam= 0

Como esse sistema ´e homogˆeneo, tem m inc´ognitas, n equa¸c˜oes e n < m, temos que existe α1, ..., αm, com algum αi 6= 0, que ´e solu¸c˜ao. Isto ´e, para cada i = 1, ..., n, temos que β1,iα1 +

· · ·+βm,iαm= 0. Temos:

0 = Pn i=1

Pm

k=1βk,iαkvi

= Pm k=1

Pn

i=1αkβk,ivi

= Pm

k=1αkuk Logo, u1, ..., um s˜ao linearmente dependentes.

Corol´ario 7.3. Seja V um espa¸co vetorial finitamente gerado. Dadas B, B0 ⊂ V bases de V, temos que B eB0 tˆem a mesma quantidade de elementos.

Dem.: Como B gera V e B0 ´e linearmente independente, temos que|B0| ≤ |B|. Por outro lado, como B0 geraV eB ´e linearmente independente, temos que |B| ≤ |B0|.

Dada a unicidade garantida pelo ´ultimo resultado, podemos fazer a seguinte defini¸c˜ao:

(24)

Defini¸c˜ao 7.4. SejaV um espa¸co vetorial. Se V ´e finitamente gerado e B ´e uma base para V, dizemos queV temdimens˜ao|B|e denotamos por dimV :=|B|. SeV n˜ao ´e finitamente gerado, simplesmente dizemos queV temdimens˜ao infinita. Neste caso, denotamos dimV =∞.

Exemplo 7.5. Considere C = {a+bi : a, b ∈ R} o conjunto do n´umeros complexos com as opera¸c˜oes usuais. Note que (C,+,·) ´e um espa¸co vetorial (exerc´ıcio). Temos que B := {1, i} ´e uma base paraC. De fato, dadoa+bi∈C, temos quea+bi= (a·1) + (b·i) e, portanto,B gera C. Resta mostrar que B ´e linearmente independente. Sejam α, β ∈R tais que α·1 +β·i= 0.

Ent˜ao α =β = 0 e, portanto, B ´e base. Assim, temos que dimC = 2. Esta ´e chamada a base canˆonica deC.

Vejamos um exemplo de um espa¸co que n˜ao tem dimens˜ao finita.

Exemplo 7.6. ConsidereP :={a0+a1x1+· · ·+anxn:ai∈R, n∈N} o espa¸co dos polinˆomios com as opera¸c˜oes usuais. Suponha que a dimens˜ao de P seja finita. Ent˜ao existe B ⊂P finito tal que [B] = P. Seja p ∈ B o polinˆomio com o maior grau em B. Seja k o grau de p. Note queq(x) :=xk+1 ´e tal que q ∈P mas q n˜ao ´e combina¸c˜ao linear dos elementos deB (exerc´ıcio).

Logo, B n˜ao geraP.

A id´eia do pr´oximo resultado ´e que, num espa¸co finitamente gerado, podemos ir “aumentando”

um conjunto linearmente independente at´e obtermos uma base.

Teorema 7.7 (do completamento de base). Sejam V um espa¸co vetorial finitamente gerado e A⊂V um conjunto linearmente independente. Ent˜ao existe B base de V tal que B ⊃A.

Dem.: Se [A] = V, n˜ao h´a nada a mostrar. Caso contr´ario, existe v1 ∈ V r[A]. Por 4.8, temos que B1 := A∪ {v1} ´e linearmente independente. Se [B1] =V, acabamos. Se n˜ao, existe v2 ∈ V r[B1]. Novamente por 4.8, temos que B2 := B1 ∪ {v2} ´e linearmente independente.

Continuamos tal processo at´e que [Bn] = V. Observe que, de fato, isso ocorre, pois, caso contr´ario, ter´ıamos conjuntos linearmente independentes arbitrariamente grandes o que n˜ao pode ocorrer j´a queV ´e finitamente gerado e por 7.2

Corol´ario 7.8. SejaV um espa¸co vetorial de dimens˜aon. Seja B⊂V um conjunto linearmente independente tal que |B|=n. Ent˜ao B ´e base paraV.

Dem.: Seja C ⊃B base para V. Pela defini¸c˜ao de dimens˜ao, temos que existe Dbase para V tal que|D|=n. Pelo resultado 7.3, temos que|C|=n. Logo, como |B|=n, temos queC =B e, portanto,B ´e base deV.

J´a o pr´oximo resultado diz que, em espa¸cos finitamente gerados, podemos “diminuir” conjun- tos geradores linearmente dependentes at´e obtermos uma base.

(25)

Proposi¸c˜ao 7.9. Seja V um espa¸co vetorial. Seja A ⊂V finito tal que [A] =V. Ent˜ao existe B ⊂A base para V.

Dem.: Se A ´e linearmente independente, acabamos. Se n˜ao, pelo resultado 4.7, existe v1 ∈A tal queA1 :=Ar{v1}´e tal que [A1] = [A] =V. SeA1 ´e linearmente independente, acabamos.

Se n˜ao, novamente por 4.7, existe v2 ∈ A1 tal que A2 := A1r{v2} = Ar{v1, v2} ´e tal que [A2] = [A1] = [A] =V. E podemos repetir tal processo at´e que se encontre An ⊂A linearmente independente tal que [An] = V (note que tal processo de fato termina j´a que A tem finitos elementos).

Corol´ario 7.10. Seja V um espa¸co vetorial de dimens˜ao n. Seja B ⊂ V tal que |B| = n e [B] =V. Ent˜aoB ´e base para V.

Dem.: Pelo resultado anterior, existeC⊂Btal queC´e base paraV. Pela defini¸c˜ao de dimens˜ao, existe D base para V tal que |D| = n. Por 7.3, temos que |C| = |D| = n. Assim, C = B e, portanto, B ´e base paraV.

Observe que pelos resultados 7.8 e 7.10 temos que, num espa¸co vetorial de dimens˜ao n, se temos um conjunto comnelementos, para decidirmos se ele ´e uma base, basta uma s´o verifica¸c˜ao:

se ele ´e linearmente independente ou se ele ´e gerador.

7.1 Exerc´ıcios

Exerc´ıcio 7.1. Considerando as opera¸c˜oes usuais de cada espa¸co, exiba uma base e calcule a dimens˜ao de cada um dos espa¸cos abaixo:

(a) R2 (b) M2

(c) Pn

(d) R

Exerc´ıcio 7.2. Considerando as opera¸c˜oes usuais deP3, mostre que o conjunto{q1, q2, q3, q4, q5}

´

e linearmente dependente, ondeq1(x) :=x+ 1, q2(x) :=x2−2x,q3(x) :=x3+ 5x,q4(x) =x2+ 9 e q5 :=x3+x2−x+ 1.

Dica: Use o exerc´ıcio 7.1

Exerc´ıcio 7.3. Considere R4 com as opera¸c˜oes usuais. Defina bases para R4 que contenham os seguintes vetores

(26)

(a) (1,1,0,0) e (1,1,1,1).

(b) (0,0,0,1)

(c) (2,0,0,2), (2,0,0,1), (1,1,2,1).

Exerc´ıcio 7.4. SejamV um espa¸co vetorial eS um subespa¸co seu. Mostre que dimS≤dimV.

Exerc´ıcio 7.5. Seja V espa¸co vetorial de dimens˜ao n. Seja S ⊂ V subespa¸co. Suponha que dimS =n. Mostre queS =V.

Exerc´ıcio 7.6. Sejam U e V espa¸cos vetoriais de dimens˜ao m e n respectivamente. Qual a dimens˜ao de U×V?

Exerc´ıcio 7.7. SejaV um espa¸co vetorial. Considere A, B⊂V conjuntos n˜ao vazios tais que a dimens˜ao de [A] ´em, de [B] ´e ne a de [A∪B] =k.

(a) Dˆe um exemplo ondem < n < k.

(b) Dˆe um exemplo ondem=n < k.

(c) Dˆe um exemplo ondem=n=k.

(d) ´E poss´ıvel acontecer k <max{m, n}?

(e) O que podemos afirmar sobre [A],[B] e [A∪B] sem=n=k?

(f) Suponha [A]⊂[B]. Calculek em fun¸c˜ao dem e n.

(g) Suponha [A]∩[B] ={0}. Calculek em fun¸c˜ao de m e n.

Exerc´ıcio 7.8. Seja V um espa¸co vetorial. Considere A, B ⊂ V conjuntos n˜ao vazios tais que [A] e [B] tˆem dimens˜ao finita. Mostre que

dim[A∪B] = dim[A] + dim[B]−dim([A]∩[B]) Dica: Use o exerc´ıcio anterior.

(27)

8 Sistemas de coordenadas

O que vamos fazer nesta se¸c˜ao ´e construir um jeito de se descrever os elementos de um espa¸co vetorial.

Defini¸c˜ao 8.1. SejaV um espa¸co vetorial finitamente gerado. Um sistema de coordenadas, ou base ordenada, emV ´e uma baseB :={v1, ..., vn} ⊂V em que a ordem dos elementos est´a fixada1.

O pr´oximo resultado nos d´a uma grande utilidade para os sistemas de coordenadas:

Proposi¸c˜ao 8.2. Sejam V um espa¸co vetorial finitamente gerado e B := {v1, ..., vn} uma base ordenada para V. Ent˜ao, para cada elemento v ∈ V, existem a1, ..., an ∈ Rn tais que v = Pn

i=1aivi. Al´em disso, tais ai’s s˜ao ´unicos com tal propriedade.

Dem.: A existˆencia de a1, ..., an se d´a simplesmente pelo fato de B ser base. Vamos mostrar ent˜ao a unicidade. Sejamb1, ..., bn∈Rtais que v=Pn

i=1bivi. Temos 0 = v−v

= Pn

i=1aivi−Pn i=1bivi

= Pn

i=1(ai−bi)vi

Logo, comov1, ..., vn s˜ao linearmente independentes, (ai−bi) = 0 para todo i= 1, ..., n.

O resultado anterior nos permite fazer a seguinte defini¸c˜ao:

Defini¸c˜ao 8.3. Sejam V um espa¸co vetorial finitamente gerado e B := {v1, ..., vn} uma base ordenada para V. Dado v ∈ V, denotamos por [v]B := (a1, ..., an)B a ´unica n-upla tal que Pn

i=1aivi =v.

Exemplo 8.4. ConsidereR3com as seguintes bases ordenadas: B1 :={(1,0,0),(0,1,0),(0,0,1)}, B2 := {(1,1,0),(0,1,1),(0,2,0)} e B3 := {(0,1,0),(1,0,0),(0,0,1)}. Seja v := (1,2,3) ∈ R3. Temos

• [v]B1 = (1,2,3)B1

• [v]B2 = (1,3,−1)B2

• [v]B3 = (2,1,3)B3

Note que o processo de se mudar as coordenadas de um vetor de uma base para outra muitas vezes ´e trabalhoso. Mais adiante, veremos uma maneira bem mais simples de se fazer isso. Mas, para isso, precisamos do conceito de transforma¸c˜oes lineares e de alguma teoria sobre elas. Como as transforma¸c˜oes lineares s˜ao ´uteis em diversos outros problemas, faremos um apanhado geral de sua teoria antes de voltarmos `a aplica¸c˜ao de mudan¸ca de bases.

1ou seja, um sistema de coordenadas ´e uman-upla (v1, ..., vn) cujas coordenadas formam uma base deV. Mas, por comodidade, utilizaremos o mesmo s´ımbolo de conjunto.

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