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Interface (Botucatu) vol.6 número11

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Academic year: 2018

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DEBATES

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- Comunic, Saúde, Educ, v6, n11, p.117-32, ago 2002 Réplica - Eduardo Conte Póvoa

A capacidade de escutar constitui uma nova habilidade, que exige uma modificação considerável, embora limitada, da personalidade do médico (...) não existem perguntas absolutamente diretas capazes de trazer à superfície o tipo de informação que ele busca. Michael Balint

Referências

MORIN , E . Ciência com consciência . Lisboa: Publicações Europa – América LDA – Biblioteca Universitária, 1990. MARTY, P. A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1993.

Se o uso do termo “evidência” é inevitável, podemos inicialmente parafrasear Edgar Morin (1990) a partir do título de um de seus livros: “Ciência com Consciência”, falando de “evidência com consciência”. Semântica sempre tem sua importância, pois é pelas palavras que buscamos dar sentido àquilo que de fato pretendemos. Por esta razão não nos furtamos à utilização de termos, para tentar enfatizar nossos pressupostos. Vale sempre ressaltar a importância do significado conceitual que advém de nossas opções.

Nossa preocupação se relaciona com o possível uso desmesurado de determinadas ferramentas, que acabariam hipertrofiando ou pelo menos ratificando a postura cientificista da biomedicina, deixando pouco espaço para o fomento de outras habilidades que os médicos clínicos devem desenvolver. A epidemiologia sempre foi considerada importante pela medicina ocidental contemporânea – compõe o conjunto de dispositivos da racionalidade da biomedicina. Contudo tem sido muito mais difícil

implementar estratégias na formação médica e no contexto das práticas de cuidado e atenção em saúde, que levem em consideração a subjetividade, a capacidade empática e intuitiva que os médicos devem desenvolver. Podemos perceber que a complexidade da saúde exige muito mais que busca de “evidências” , pois lidar com o sofrimento humano em sua integralidade psicossomática, no contexto sócio-cultural, exige uma postura muito mais ampla e inevitavelmente dialógica.

A perplexidade que nos atinge a cada momento na esfera da assistência, não permite a expropriação da arte e da intuição médicas. Sabemos, por exemplo, que a maioria dos casos clínicos que se atende em unidades de pronto atendimento é da ordem dos Transtornos Somatoformes (quadros sintomatológicos, cuja lesão orgânica não existe para justificá-los). Logo, a arte de cuidar de um ser humano exige

conhecimento técnico, treinamento metodológico, mas sempre como meio e não como fim. A verdadeira arte consiste no manejo apropriado da técnica, considerando o respeito aos desejos e anseios dos pacientes.

Voltando a enfatizar a importância da semântica, faz-se pertinente comentarmos o termo “fantasia” utilizado por Attalah. No sentido em que foi considerado, implica uma ressalva: na racionalidade médica ocidental contemporânea predomina o pensamento concreto, a objetividade, entre outras características. Portanto não poderíamos generalizar que todos os grupos teriam a predominância de uma ou de outra tendência. Contudo a capacidade de fantasiar, no sentido psicanalítico, pode ser considerada como uma das manifestações saudáveis de um determinado indivíduo, pelo fato de expressar a capacidade de simbolização. Pierre Marty (1993) e colaboradores, representantes do Instituto de Psicossomática da França, consideram que indivíduos que possuem esta capacidade reduzida estariam mais vulneráveis às doenças psicossomáticas. Ainda sobre fantasia, é necessário que os médicos estejam mais preparados para compreender os devaneios, as metáforas, os anseios, os desejos, os conflitos psicológicos e/ou as dificuldades afetivas de seus pacientes. É desta consciência que nos parece que a biomedicina mais carece.

Enfim, talvez não devamos viver dicotomicamente. O pensamento cartesiano vem sendo a forma predominante pela qual a medicina ocidental vem norteando suas práticas. Os estudiosos do projeto “racionalidades médicas” (coordenado por Madel Luz) consideram que a doutrina da racionalidade médica ocidental vem sendo caracterizada pelo pensamento cartesiano. Desta forma, muitos médicos vêm exercendo suas práticas de forma dissociativa e reducionista. Não se pretende desconsiderar as ferramentas que a epidemiologia clínica e a informática médica nos traz, mas que possamos considerá-las no contexto do pensamento complexo (Morin, 1990), mantendo uma postura integral e reflexões filosóficas para que as diversas dimensões da vida sejam consideradas no processo saúde/doença. Assim nos permitiremos abrir mão eventualmente de “evidências”, e quando tivermos que levá-las em

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