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julho 2013
issn 0004-2730
Volume 57 | Número 5 | julho 2013
sumário
revisão
333 Deficiência da STAT5B: uma nova síndrome de insensibilidade ao hormônio de crescimento associada a acometimento imunológico
Renata C. Scalco, Patrícia N. Pugliese-Pires, Alexander A. L. Jorge
artigos originais
339 Modelo de obesidade induzida por dieta hiperlipídica e associada à resistência à ação da insulina e intolerância à glicose Pollyanna A. S. White, Luana M. Cercato, Jéssica M. D. Araújo, Lucas A. Souza, Andréa F. Soares, Ana Paula O. Barbosa, José M. de R. Neto, Anderson C. Marçal, Ubiratan F. Machado, Enilton A. Camargo, Márcio R. V. Santos, Luciana C. Brito 346 Organochlorine compound levels in fertile and infertile women from Rio de Janeiro, Brazil
Ana Marcia Xavier Bastos, Maria do Carmo Borges de Souza, Gutemberg Leão de Almeida Filho, Thomas Manfred Krauss, Thelma Pavesi, Licínio Esmeraldo da Silva
354 Valores elevados de leptina e LDL-colesterol em pacientes com hiperplasia adrenal congênita bem controlados Luciana Mattos Barros Oliveira, José Antônio Diniz Faria Junior, Daniela Nunes-Silva,Renata Lago, Maria Betânia Pereira Toralles
360 Prevalência de patologias detectadas pela triagem neonatal em Santa Catarina
Adriana Kleist Clark Nunes, Regiane Gutjahr Wachholz, Marina R. M. Rover, Liliete Canes Souza
368 Modulation of thyroid hormone receptors, TRα and TRβ, by using different doses of triiodothyronine (T3) at different times Miriane de Oliveira, Renata de Azevedo Melo Luvizotto, Regiane Marques Castro Olimpio, Maria Teresa de Sibio, Carolina Biz Rodrigues Silva, Sandro José Conde, Carlos Roberto Padovani, Célia Regina Nogueira
375 Estudo da prevalência da doença celíaca em crianças e adolescentes com diabetes melito tipo 1: resultado de 10 anos de acompanhamento
Cristina Borim Codo Dias Gonçalves, Ivani Novato Silva, Mariella Guarino Tanure, Magda Bahia 381 Correlação entre MCP-1, HbA1c e a filtração glomerular em pacientes não diabéticos
Verônica Alcoforado de Miranda, Maria Luiza Garcia Rosa, Jocemir Ronaldo Lugon, Rubens Antunes Cruz Filho, Talita Sposito de Oliveira, Adriana Neves Ladeira da Silva, Hye Chung Kang, Denizar Vianna Araújo
apresentação de caso
388 Specific use of CSII during enteral nocturnal nutrition in a child with type 1 diabetes, Hashimoto’s thyroiditis, and Down syndrome Barbara Piccini, Sonia Toni, Lorenzo Lenzi, Federica Barni, Monica Guasti, Fina Belli, Maurizio de Martino
cartas ao editor
393 Perspectives in isolation of microRNA from thyroid fine-needle aspiration: reply to the letter “Nucleic acid recovery from thyroid fine-needle cytology slides”
Marina M. L. Kizys, Mirian G. Cardoso, Susan C. Lindsey, Maria Clara C. Melo, Magnus R. Dias-da-Silva
395 Assessment of the elasticity properties of the ascending aorta in patients with subclinical hypothyroidism by tissue Doppler imaging
Mustafa Yurtdaş, Türkay Özcan, Ramazan Gen, Mehmet Kasım Aydın
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Sociedade Brasileira de endocrinologia e metabologia. – São Paulo, SP: Sociedade Brasileira de endocrinologia e metabologia, v. 5, 1955-
Nove edições/ano
Continuação de: Arquivos Brasileiros de endocrinologia (v. 1-4), 1951-1955 Título em inglês: Brazilian Archives of endocrinology and metabolism ISSN 0004-2730 (versões impressas)
ISSN 1677-9487 (versões on-line)
1. endocrinologia – Periódicos 2. metabolismo-Periódicos I. Sociedade Brasileira de endocrinologia e metabologia II. Associação médica Brasileira.
CDu 612.43 endocrinologia CDu 612.015.3 metabolismo Tiragem desta edição: 2.800 exemplares
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Diretoria NacioNal Da SBeM 2013-2014
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Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
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Marisa Coral, Valéria Guimarães
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coMuNicação Social
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neuroendocrinologia Antônio Ribeiro de oliveira Júnior
obesidade Mario Khedi Carra
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título De eSpecialiSta eM eNDocriNologia
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Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
SBD – SocieDaDe BraSileira De DiaBeteS
DIRETORIa naCIOnal Da SBD (2012/2013)
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Vice-Presidentes Hermelinda Cordeiro Pedrosa Lenita Zajdenverg
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DIRETORIa naCIOnal Da aBESO (2013-2014)
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2o secretário Nilson Roberto de Melo
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2a tesoureira Ana Patricia de Paula
conselHo Fiscal Marise Lazaretti-Castro, Dalisbor Macerlo Weber Silva, Francisco Alfredo Bandeira e Farias Av. Angélica, 1757, cj. 103, Higienópolis
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Sociedades e Associações Brasileiras
na Área de Endocrinologia e Metabologia
PIOGLIT (pioglitazona). Uso Adulto. Registro MS: nº 1.0525.0047. Forma farmacêutica, Apresentações e Composições: PIOGLIT 15 mg: cada comprimido contém 15 mg de pioglitazona base;
embalagem com 30 comprimidos; PIOGLIT 30 mg: cada comprimido contém 30 mg de pioglitazona base; embalagem com 15 ou 30 comprimidos. PIOGLIT 45 mg: cada comprimido contém 45 mg de pioglitazona base; embalagem com 30 comprimidos. Indicações: coadjuvante de dieta e exercícios em pacientes com diabetes tipo 2. Indicado em monoterapia ou em combinação com sulfoniluréia, metformina ou insulina. Contraindicações: em pacientes com antecedentes de hipersensibilidade à pioglitazona ou a qualquer dos componentes da fórmula. Contraindicado o início de PIOGLIT em pacientes com insuficiência cardíaca estabelecidos nas Classes III ou IV (NYHA). Precauções e advertências: não é recomendado em pacientes com sintomas de insuficiência cardíaca. Deve ser descontinuado se ocorrer qualquer disfunção cardíaca. Não utilizar em pacientes com diabetes tipo 1 ou para tratar cetoacidose diabética. Em pacientes na pré-menopausa pode resultar em reinício da ovulação. Pode causar diminuição da hemoglobina e do hematócrito. Deve-se ter cautela em pacientes com edema. Quando usado em combinação com insulina em pacientes com antecedentes de doença cardíaca, pode ocasionar ICC. Foi observado ganho de peso. Recomenda-se monitorações periódicas das enzimas hepáticas. Gravidez: só deverá ser usada na gravidez se os potenciais benefícios justificarem o risco potencial para o feto. Lactação: a pioglitazona não deve ser usada durante a amamentação. Pediatria: a segurança e eficácia nesta faixa etária não foram estabelecidas. Idosos: não foi observada nenhuma diferença na eficácia e segurança entre estes pacientes e outros mais jovens. Interações medicamentosas: reduz as concentrações plasmáticas de contraceptivos orais. In vitro o cetoconazol parece inibir significativamente o metabolismo da pioglitazona. Reações adversas/colaterais: as mais comuns foram: cefaleia, sinusite, mialgia, distúrbios dentários, faringite. Outros: edema, ganho de peso, hipoglicemia (quando associada à sulfoniluréia ou insulina), anemia, ICC, redução de hemoglobina e hematócrito, elevação de ALAT e elevações esporádicas de CPK. Posologia: deve ser utilizado 1 vez ao dia, independente da alimentação. Monoterapia: iniciar com 15 ou 30 mg/dia, podendo ser aumentada para 45 mg/dia para aqueles pacientes que não responderem adequadamente. Associado com sulfoniluréia: iniciar com 15 ou 30 mg/dia; se o paciente tiver hipoglicemia, a dose da sulfoniluréia deverá ser reduzida. Associado com metformina: iniciar com 15 ou 30 mg/dia. A dose da metformina usada pode ser continuada. Associado com insulina: iniciar com 15 ou 30 mg/dia. A dose da insulina usada pode ser continuada. Caso o paciente apresente hipoglicemia ou se as concentrações de glicose plasmática reduzirem para valores inferiores a 100 mg/dL em jejum, a dose de insulina pode ser reduzida em aproximadamente 10 a 25%. Dose máxima recomendada: não deve exceder 45 mg/dia. O tratamento não deve ser iniciado se o paciente tiver evidências de doença hepática ativa ou aumento de ALAT ≥ 2,5 vezes o limite da normalidade. Crianças: não é recomendado
seu uso em pacientes abaixo de 18 anos. (Set 11). VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA. “AO PERSISTIREM OS SINTOMAS, O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO.”
Referências: 1) Derosa G, et al. “Metabolic Effects of Pioglitazone and Rosiglitazone in Patients with Diabetes and Metabolic Syndrome Treated with Metformin”. Internal Medicine Journal 2007; 37 (2): 79-86. 2) Miyazaki Y, et al. “Effect of pioglitazone on abdominal fat distribution and insulin sensitivity in type 2 diabetic patients.” J Clin Endocrinol Metab 2002; 87(6): 2784-91. 3) Aronoff S, et al. “Pioglitazone Hydrochrolide Monotherapy Improves Glycemic Control in the Treatment of Patients with Type 2 Diabetes: a 6-month randomized placebo-controlled dose-response study. The Pioglitazone 001 Study Group”. Diabetes Care 2000; 23 (11): 1605-11.
4) Pioglit® - Bula do produto.
CHEGOU
Muito no tratamento do Diabetes tipo 2
Contraindicação: pacientes com insuficiência cardíaca classe funcional III e IV (NYHA).
Interação Medicamentosa: Pioglit pode interagir com anticoncepcional oral.
APresenTAções DIsPOníveIs
15 mg: 30 comprimidos I 30 mg: 30 comprimidos sulcados I 45 mg: 30 comprimidos
Melhora significativa do perfil lipídico
1Redução da gordura abdominal
2Controle glicêmico eficaz e sustentado
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Reg. MS: 1.0525.0047
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revisão
1 Unidade de Endocrinologia Genética, LIM-25, Disciplina de Endocrinologia, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), São Paulo, SP, Brasil
Correspondência para:
Alexander A. L. Jorge
Unidade de Endocrinologia Genética, LIM-25, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo Av. Dr. Arnaldo, 455, 5o andar, sala 5340
01246-903 – São Paulo, SP, Brasil [email protected]
Recebido em 19/Ago/2012 Aceito em 12/Nov/2012
Deficiência da STAT5B: uma nova síndrome de insensibilidade ao
hormônio de crescimento associada a acometimento imunológico
STAT5B deficiency: a new growth hormone insensitivity syndrome associated to immunological dysfunction
Renata C. Scalco1, Patrícia N. Pugliese-Pires1, Alexander A. L. Jorge1
Sumário
Uma nova apresentação da insensibilidade ao hormônio de crescimento (IGH), causada por mutações em homozigose no gene STAT5B (transdutor de sinal e ativador de transcrição tipo 5B), foi caracterizada nos últimos anos. Sua particularidade é a associação com quadros de dis- função imunológica grave, sendo o mais característico a pneumonite intersticial linfocítica. A presença concomitante de doenças crônicas imunológicas pode fazer com que a baixa estatura seja erroneamente considerada uma consequência do quadro clínico, levando ao subdiagnós- tico dessa forma de IGH. O objetivo desta revisão é divulgar o conhecimento atual sobre essa rara patologia, facilitando o reconhecimento de pacientes com IGH secundária a mutações no gene STAT5B em ambulatórios de endocrinologia e de outras especialidades. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(5):333-8
Descritores
STAT5B; baixa estatura; insensibilidade ao hormônio de crescimento; disfunção imunológica; autoimunidade
SummArY
A new presentation of growth hormone insensitivity (GHI) caused by homozygous mutations in STAT5B (signal transducer and activator of transcription 5B) gene has been characterized in the last years. Its particularity is the association with severe immune dysfunction, especially with lymphocytic interstitial pneumonitis. This may mislead physicians into considering short stature as secondary to chronic immunological disease and consequently into underdiagnosing this form of GHI. The objective of this review is to propagate current knowledge about this rare pathology, facilitating the diagnosis of patients with GHI due to STAT5B mutations in endocri- nology and other specialties clinics. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(5):333-8
Keywords
STAT5B; short stature; growth hormone insensitivity; immune dysfunction; autoimmunity
iNTroDuÇÃo
O sistema hormônio de crescimento (growth hor-
mone – GH)/fator de crescimento insulina-sí-
mile tipo 1 (insulin-like growth factor 1 – IGF-1) é o principal determinante e regulador do crescimento li- near. Um dos defeitos descritos no eixo GH/IGF-1 é a insensibilidade ao hormônio de crescimento (IGH, OMIM: #262500), definida como a inabilidade dos te- cidos-alvo em responder normalmente à ação do GH (1).
A apresentação clássica da IGH, conhecida como sín-
drome de Laron, é caracterizada pela presença do fe-
nótipo de deficiência de GH congênita (baixa estatura
importante, fronte olímpica, hipoplasia de face, obesi-
dade centrípeta, micropênis, hipoglicemia na infância)
com dosagem de IGF-1 baixa e de GH alta ou inapro-
priadamente normal. No entanto, o quadro clínico e la-
boratorial da IGH varia dentro de um espectro que vai
da síndrome de Laron a apresentações mais leves que
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podem ser confundidas com a baixa estatura idiopática (1). As causas mais comuns de IGH são mutações no gene do receptor de GH (GHR; OMIM: *600946), sendo que mais de setenta já foram descritas até o mo- mento (2,3), a maioria herdada de maneira autossômica recessiva (3,4).
Em 2003, foi descrito o primeiro paciente com IGH causada por uma mutação inativadora em homozigose no gene da STAT5b (signal transducer and activator of
transcription-5b gene – STAT5B; OMIM: *604260),uma molécula-chave na transdução do sinal via GHR (5). Desde então, nove outros casos foram descritos e foi observado que, além das características clínicas seme- lhantes às dos indivíduos com síndrome de Laron, pa- cientes com defeitos em homozigose no gene STAT5B também apresentam disfunção imunológica grave, que se manifesta tanto com quadros secundários à imuno- deficiência, como infecções de repetição, quanto com eventos autoimunes como a pneumonite intersticial lin- focítica. A disfunção imunológica parece ser justificada pelo defeito na ação da interleucina 2 (IL-2), envolvida na ativação dos linfócitos T e no desenvolvimento dos linfócitos T reguladores (Treg), e cuja sinalização intra- celular também é dependente da STAT5b (6).
Pelo possível acometimento de diversos órgãos e sistemas, esses pacientes podem procurar serviços de múltiplas especialidades (Pneumologia, Infectologia, Imunologia, Dermatologia etc.). Assim, o objetivo des- ta revisão é divulgar esse diagnóstico ainda recente e pouco conhecido, facilitando o reconhecimento desses pacientes em ambulatórios de endocrinologia e de ou- tras especialidades.
PAPel DA STAT5b NA SiNAlizAÇÃo Do GH e iNTerleuciNAS
O GH realiza suas ações por meio da ligação ao GHR, um receptor de membrana pertencente à família dos receptores de citocinas classe I (7) (Figura 1). O GHR possui um único domínio transmembrânico e não apre- senta atividade enzimática intrínseca, devendo estar as- sociado na sua porção intracitoplasmática a uma proteí- na com atividade de tirosina quinase conhecida como Janus quinase 2 (JAK2) para que ocorra a transdução do sinal intracelular. A ligação do GH a dois GHR que se encontram pré-dimerizados na superfície celular (8) promove uma alteração na conformação espacial da porção intracitoplasmática dos GHR, permitindo a fos- forilação das JAK2. Uma vez fosforiladas, as JAK2 pas-
sam a fosforilar múltiplos resíduos de tirosina presentes nos GHR, gerando sítios de acoplamento para outras moléculas sinalizadoras (8). Os GHR e as JAK2 ativam assim vias de sinalização comuns a vários receptores, como a via das quinases proteicas ativadas por mitóge- nos (MAPK) e a via do fosfatidilinositol 3-quinase (IP -3K), importantes para os efeitos metabólicos e para al- guns efeitos proliferativos do GH. Além dessas vias, os receptores de citocinas possuem uma via de sinalização própria que utiliza proteínas citoplasmáticas conhecidas como STATs (7). Entre as sete STATs conhecidas até o momento, a que exerce papel principal na transdução do sinal do GHR em humanos é a STAT5b. Esta, quan- do fosforilada, forma um dímero e se transloca para o núcleo, onde sua ligação aos elementos responsivos aos dímeros da STAT5b no DNA leva à expressão de di- versos genes como o da IGF1, de sua proteína ligadora (IGFBP-3) e da subunidade ácido-lábil (ALS) (9).
Outras moléculas que utilizam os receptores de citocina e consequentemente a via de sinalização das STATs incluem a prolactina, a eritropoetina, a trom- bopoetina, o fator estimulador de colônias de granuló- citos (GCSF), o interferon gama e várias interleucinas, entre elas a IL-2 (10) (Figura 1). A ligação da IL-2 ao seu receptor leva à expressão via STAT5b de genes que incluem o FOXP3, que promove o desenvolvimento e função dos Treg, o IL2RA, que favorece a ativação de linfócitos T, e genes que codificam os fatores antiapop- tóticos Bcl-2 e Bcl-xL (6). Os Treg são essenciais no controle da resposta imune e na prevenção da autoimu- nidade (11) e a redução em seu número e função, vista em pacientes com mutações em homozigose no gene
STAT5B (12), explica os quadros autoimunes encon-trados. Já a maior suscetibilidade a infecções poderia ser justificada tanto por um aumento na apoptose de células T quanto por um defeito na ativação dos linfócitos T citotóxicos (6).
muTAÇõeS No GeNe STAT5B
O gene STAT5B está localizado no cromossomo 17q11.2 e é formado por dezenove éxons. Sua ex- pressão é ubíqua e ele dá origem à proteína STAT5b, composta por 787 aminoácidos que se dividem em seis domínios: os domínios N-terminal e coiled-coil, respon- sáveis pelas interações proteína-proteína, um domínio de ligação ao DNA, uma região de ligação entre domí- nios sem função definida, um domínio de homologia a Src 2 (SH2), que permite a ligação das proteínas STAT
STAT5B: baixa estatura e imunodisfunção
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STAT5B: baixa estatura e imunodisfunção
Figura 1. Papel da STAT5b na transdução do sinal do hormônio de crescimento (GH) e da interleucina-2 (IL-2). JAK 2 = janus quinase 2; STAT = signal transducer and activator of transcription; ALS = subunidade ácido-lábil; GH = hormônio de crescimento; IGF-1 = fator de crescimento insulina-símile tipo 1;
IGFBP-3 = proteína 3 de ligação ao IGF; Il-2R = receptor de IL-2.
a tirosinas fosforiladas de receptores ativados ou de ou- tros peptídeos e a dimerização entre proteínas STATs, e um domínio C-terminal de transativação, crítico para a interação com outros fatores de transcrição (9).
As sete mutações descritas até o momento dis- tribuem-se de forma relativamente uniforme en- tre os éxons 5 e 17 (Figura 2). São duas deleções (c.424_427del/p.Leu142ArgfsX19 e c.1680delG/p.
Arg560ArgfsX16) e duas inserções (c.1102insC/p.
Gln368ProfsX9 e c.1191insG/p.Asn398GlufsX16), levando a uma alteração do quadro de leitura (mutação tipo frameshift), uma mutação tipo nonsense (c.454C>- T/p.Arg152X) e duas mutações do tipo missense (c.
1888G>C/p.Ala630Pro e c.1937T>C/p.Phe646Ser).
Dos dez pacientes descritos até o momento, dois são irmãos nascidos na cidade de Criciúma – Santa Catarina (13). Os pais dos meninos, heterozigotos para a mutação identificada nos filhos (c.424_427del), ne- gam consanguinidade e, mesmo após revisão da genea- logia de ambas as famílias por três gerações, não foram
observados laços entre as famílias materna e paterna.
Esse fato sugere que a mutação encontrada possa ser prevalente em heterozigose na região, possivelmente por um efeito fundador.
cArAcTerizAÇÃo DoS PAcieNTeS com muTAÇõeS No GeNe STAT5B
Quadro clínico
A herança é autossômica recessiva e houve confirmação de consanguinidade em três famílias. O comprimento e peso ao nascimento dos pacientes quando descritos foram normais ou pouco diminuídos para a idade ges- tacional, o que pode ser explicado pela relativa indepen- dência do crescimento pré-natal em relação ao GH. No entanto, o crescimento pós-natal foi muito comprome- tido, com padrão semelhante ao observado em pacien- tes com síndrome de Laron, e os escores Z de altura ao diagnóstico variaram entre -3,0 e -9,9 (Tabela 1).
Extracelular
Intracelular
GHR GH
JAK2
IL-2
STAT5b
IL-2R GHR
2 STATs dimerizadas
Núcleo
Transcrição!
GH / GHR
• IGF-1 / IGFBP-3 / ALS
• Outras proteínas reguladas pelo GH
IL-2 / IL-2R
• Ativação de linfócitos T
• Desenvolvimento de linfócitos T reguladores
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Tabela 1. Resumo dos principais achados clínicos dos pacientes com defeitos em homozigose no gene STAT5B descritos na literatura
Paciente 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Mutações c.1888G>C c.1191insG c.454C>T c.454C>T c.1102insC c.1680delG c.1937T>C c.424_427del
Referência (5) (17) (14) (18) (19) (20) (21) (13)
Sexo F F F F M F F F M M
País de origem Argentina Turquia Argentina Argentina Caribe Kuwait Argentina Brasil
Altura mãe (cm) 155,8 160 142,3 ND 165,6 160,2 160,2 ND 156 156
Altura pai (cm) 173,6 169 160 ND 164,3 167,7 167,7 ND 165 165
Consanguinidade Sim Sim Não Adotada Não Sim Sim Adotada Não Não
Idade ao diagnóstico (anos) 16,5 16,4 15,3 12 31 4 2 14,8 10,0 3,0
Z da altura ao diagnóstico -7,5 -7,8 -9,9 -5,3 -5,9 -5,6 -5,8 -6,0 5,6 -3,0
Comprometimento pulmonar Sim Sim Sim Sim Não Sim Não Não Sim Sim
Varicela grave Sim ND Sim Sim Sim ND ND Sim Sim Não
Eczema grave ND Sim Sim Sim Sim ND ND Sim Sim Sim
Outras manifestações Sim1 Sim2 Sim3 Sim4 Não Sim5 Sim6 Sim7 Não Sim8
ND: não disponível. As pacientes 6 e 7 são irmãs e os pacientes 9 e 10 são irmãos. Outras manifestações: 1. Herpes zoster recorrente; 2. Infecções pulmonares de repetição, diátese hemorrágica;
3. Infecções de repetição em pele, trato respiratório e trato gastrointestinal, ceratite e uveíte recorrentes por herpes zoster; 4. Sepse neonatal, diarreia crônica, ceratite, herpes zoster, tireoidite autoimune, displasia ectodérmica disidrótica, infecções pulmonares de repetição; 5. Infecções pulmonares de repetição, bronquiectasia; 6. Artrite reumatoide juvenil; 7. Infecções de repetição, tireoidite autoimune; 8. Púrpura trombocitopênica idiopática.
Figura 2. Representação dos 19 éxons do gene STAT5B, dos domínios da proteína STAT5b e das mutações descritas até o momento. DN: domínio N-terminal; DCC: domínio coiled-coil; DLD: domínio de ligação ao DNA; L: região ligante; SH2: domínio de homologia a Src 2; Y699: resíduo de tirosina fosforilado na ativação das STATs; DT: domínio C-terminal de transativação.
Na maioria dos casos foram relatadas características fenotípicas de IGH, como fronte olímpica, hipoplasia de face e voz aguda. A puberdade foi atrasada em sete dos oito pacientes que atingiram idade para seu início, provavelmente pelo IGF-1 baixo e estado de doença crônica. A idade óssea também estava atrasada em to- dos os casos em que foi relatada. O desenvolvimento cognitivo foi normal nos pacientes em que foi descrito.
Alterações imunológicas
Sete dos dez pacientes apresentaram quadro de doen- ça pulmonar crônica grave e de início precoce (Tabela 1). O diagnóstico (confirmado por biópsia pulmonar em alguns pacientes e presuntivo em outros) foi de
pneumonite intersticial linfocítica, uma patologia de etiologia desconhecida, rara em crianças e frequente- mente associada a doenças autoimunes. Essa doença causa fibrose pulmonar progressiva, sendo que duas pacientes faleceram por insuficiência respiratória e um foi submetido a transplante pulmonar, até o momento com boa evolução (13). Outras manifestações relatadas foram varicela grave/hemorrágica em seis pacientes e eczema grave em outros sete. Além disso, a maioria dos pacientes tem história de infecções de repetição. Foram descritos também dois casos de tireoidite autoimune, um caso de artrite reumatoide juvenil de início precoce (diagnóstico aos dois anos de idade) e um caso de púr- pura trombocitopênica (Tabela 1).
STAT5B: baixa estatura e imunodisfunção
DN
c.454C>T
c.424_427del c.1102insC c.1680delG
c.1888G>C
c.1191insG c.1937T>C
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19
DCC DLD L SH2 Y699 DT
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Alterações laboratoriais
Os pacientes apresentaram GH basal normal ou eleva- do, em geral com aumento importante durante teste de estímulo. Dosagens de IGF-1, IGFBP-3 e ALS foram invariavelmente baixas e não houve aumento nos casos em que se fez teste de geração com rhGH (Tabela 2). A proteína de ligação ao GH (GHBP) foi sempre normal, ao contrário do que acontece na maioria dos pacientes com mutação do GHR. A prolactina foi elevada em seis dos sete pacientes em que foi dosada, provavelmente por uma interferência com seu mecanismo de retroali- mentação negativa pela mutação no gene STAT5B (13).
Em relação à avaliação imunológica não existe um padrão tão claro como no perfil hormonal. Dos seis pacientes avaliados, quatro apresentaram hipergama- globulinemia e cinco tinham linfopenia de células T.
Quatro dos pacientes também apresentavam redução dos linfócitos natural killer (NK). Em uma das pa- cientes, foi realizado estudo in vitro que mostrou baixa proliferação dos linfócitos T em resposta a mitógenos e antígenos, documentando uma disfunção generali- zada nessas células (14). Foi sugerido também que a hipergamaglobulinemia poderia ser resultado de uma desregulação das células B secundária a um controle inadequado destas pelas células T disfuncionais (14).
Tratamento
Em relação à baixa estatura, não houve resposta à terapia com GH recombinante humano (rhGH) em pacientes com mutações no gene STAT5B, assim como ocor- re nos indivíduos com IGH secundária a mutações no
GHR. O tratamento com IGF-1 recombinante humano(rhIGF-1) é aprovado para crianças com deficiência pri- mária grave de IGF-1, o que inclui pacientes com IGH (15). Em pessoas com IGH causada por mutações no
GHR, essa terapia já foi avaliada e um dos estudos, en-volvendo 76 indivíduos tratados, mostrou um incremen- to mediano na velocidade de crescimento do primeiro ano de tratamento de 5,3 cm/ano (16). No entanto, nos dois irmãos brasileiros foi tentada a terapia com rhI- GF-1 e não se notou melhora do padrão de crescimento, possivelmente pelo estado de doença crônica (13).
Também não existe um tratamento específico para a disfunção imunológica até o momento. Foi sugeri- da a possibilidade de transplante de medula óssea para corrigir a deficiência de células T nos pacientes com mutações no gene STAT5B, porém este ainda não foi realizado em nenhum dos pacientes descritos.
coNSiDerAÇõeS FiNAiS
O diagnóstico de IGH secundária a mutações no gene
STAT5B deve ser suspeitado em pacientes com qua-dro de IGH e alterações imunológicas, especialmente quando há linfopenia de células T e/ou hiperprolacti- nemia. O estudo molecular do gene STAT5B permite a confirmação dessa condição. Como os pacientes com mutações na STAT5B têm doenças imunológicas graves e de início precoce, sua baixa estatura pode ser erronea- mente considerada consequência do processo inflamató- rio crônico, levando ao subdiagnóstico dessa patologia.
Diagnosticar adequadamente esses pacientes é o primei- ro passo para a ampliação do conhecimento sobre essa forma mais rara de IGH, permitindo no futuro a desco- berta de um tratamento específico para essa síndrome.
Agradecimentos: este trabalho obteve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp): processos 2011/15078-0 para Renata C. Scalco e 2010/19809-6 para Ale- xander A. L. Jorge; e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq): nº 304678/2012-0 para Ale- xander A. L. Jorge.
Declaração: os autores declaram não haver conflitos de interesse científico neste estudo.
Tabela 2. Resumo dos principais achados laboratoriais dos pacientes com defeitos em homozigose no gene STAT5B descritos na literatura
Paciente 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Mutações c.1888G>C c.1191insG c.454C>T c.454C>T c.1102insC c.1680delG c.1937T>C c.424_427del
Referência (5) (17) (14) (18) (19) (20) (21) (13)
GH basal (ng/ml) 9,4 14,2 4,2 1,8 0,1 5,7 17,7 ND 1,7 1,0
Escore Z IGF-1 < -3 < -3 Indetectável < -3 -8,2 < -3 < -3 Indetectável < -3 < -3
PRL (ng/ml) 102 ND 169 15 110 ND ND 83 61 77
IgG Aumentada Aumentada Aumentada ND ND ND ND Aumentada Aumentada Normal
Linfócitos T Reduzidos Normais Reduzidos ND ND ND ND Reduzidos Reduzidos Reduzidos
Linfócitos NK Normais Normais Reduzidos ND ND ND ND Reduzidos Reduzidos Reduzidos
ND: não disponível. Linfócitos NK: linfócitos natural killer. As pacientes 6 e 7 são irmãs e os pacientes 9 e 10 são irmãos.
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STAT5B: baixa estatura e imunodisfunção
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artigo original
Modelo de obesidade induzida
por dieta hiperlipídica e associada à resistência à ação da insulina e intolerância à glicose
Model of high-fat diet-induced obesity associated to insulin resistance and glucose intolerance
Pollyanna A. S. White1, Luana M. Cercato2, Jéssica M. D. Araújo2, Lucas A. Souza2, Andréa F. Soares2, Ana Paula O. Barbosa1, José M. de R. Neto3, Anderson C. Marçal4, Ubiratan F. Machado5, Enilton A. Camargo1, Márcio R. V. Santos1, Luciana C. Brito2
reSumo
Objetivo: Validar um modelo de obesidade induzida por dieta hiperlipídica, de baixo custo, fácil reprodutibilidade, que mimetizasse características observadas no humano e viabilizasse poste- riores proposições terapêuticas. Materiais e métodos: Dezesseis camundongos Swiss recebe- ram dieta padrão (DP) ou dieta hiperlipídica (DH), durante 10 semanas. Resultados: Embora o grupo DP tenha apresentado maior consumo de água (p < 0,01) e ração (p < 0,001), o grupo DH apresentou maior ganho de peso corpóreo (p < 0,5) e aumento de coxins adiposos (p < 0,001), favorecendo maior índice de adiposidade (p < 0,001), glicemia (p < 0,01) e área sob a curva nos testes de tolerância à insulina (p < 0,001) e à glicose (p < 0,01). Conclusão: Validou-se um modelo de obesidade induzida por dieta hiperlipídica associada à resistência à ação da insulina e à intolerância à glicose, em um período de 10 semanas. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(5):339-45 Descritores
Obesidade; dieta hiperlipídica; resistência à insulina; intolerância à glicose; camundongos
ABSTrAcT
Objective: Validate a model of high-fat diet-induced obesity, of low cost, easy reproducibility, that could express characteristics observed in human, and would enable subsequent therapy proposals. Materials and methods: Sixteen Swiss mice received a standard diet (DP) or high- -fat diet (DH) for 10 weeks. Results: Although the DP group had greater water (p < 0.01) and feed (p < 0.001) consumption, the DH group had greater body weight (p < 0.5) and adipose tissue gain (p < 0.001), favoring higher adiposity index (p < 0.001), glucose (p < 0.01), and area under the curve in the insulin (p < 0.001) and glucose (p < 0.01) tolerance tests. Conclusion: A high-fat diet-induced obesity model has been validated, which was also associated with insulin resis- tance and glucose intolerance after a period of 10 weeks. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(5):339-45 Keywords
Obesity; high-fat diet; insulin resistance; glucose intolerance; mice
1 Departamento de Fisiologia, Universidade Federal de Sergipe (UFS), São Cristóvão, SE, Brasil
2 Núcleo de Nutrição, UFS, São Cristóvão, SE, Brasil
3 Núcleo de Biomedicina, Universidade Tiradentes (Unit), Aracaju, SE, Brasil
4 Departamento de Morfologia, UFS, São Cristóvão, SE, Brasil
5 Departamento de Fisiologia, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil Trabalho desenvolvido no Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Sergipe
Correspondência para:
Luciana C. Brito Núcleo de Nutrição,
Universidade Federal de Sergipe 49100-000 – São Cristóvão, SE, Brasil [email protected]
Recebido em 20/Mar/2012 Aceito em 20/Jan/2013