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2.ª Edição, Guimarães, CMG/SMS, 1996, parte II, pp. 263/267 S. MIGUEL DO CASTELO

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Guimarães

Apontamentos para a sua História

Padre António José Ferreira Caldas

2.ª Edição, Guimarães, CMG/SMS, 1996, parte II, pp. 263/267

S. MIGUEL DO CASTELO

Este pequeno templo com arquitectura singela e fábrica humilde, que se levanta poucos metros a poente do velho alcáçar do conde D.

Henrique de Borgonha, é um dos monumentos mais venerandos de Portugal.

Se a arte o não fez um templo rico, nem belo nem grande, tornou-o ilustre o respeito dos séculos, e mais que este respeito as memórias históricas de alta valia, que o tornaram digno da atenção e do acatamento das gerações, que umas após outras se vão sucedendo.

Na opinião de algum dos nossos antiquários, pertencem a esta igreja as honras de primaz, entre todas as paróquias do arcebispado de Braga. Mas o que é certo - e isso lhe basta para documento da sua muita antiguidade - é ter sido paróquia da vila velha de Guimarães, anteriormente à fundação da monarquia. E outro é ainda o seu maior brasão de certo.

No século XII, gozando da preeminência de capela real do conde D. Henrique e de sua mulher D. Teresa, que viviam no vizinho castelo, forneceu esta igreja as águas do baptismo ao infante, que os portugueses mais tarde levantaram por seu primeiro rei.

Esta honrada memória vale bem mais que todas as grandezas e magnificências, que este memorável edifício pudesse ostentar. Vale muito mais, certamente, por comemorar, nas suas pedras toscas, o nascimento, para a graça cristã, dum verdadeiro herói, campeão da

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cruz, paladino da pátria e anjo da vitória, a quem o Criador armara o braço para expurgar dos agarenos esta terra, por eles vassalada, e por Deus lhe dar forças para fundar uma monarquia, não só em favor duma família, mas também em benefício da independência duma nação.

Apesar de ser Guimarães uma das terras que mais atenções tem merecido a abalizados arqueólogos, nenhum destes, ainda assim, nos dá notícia da fundação da igreja de S. Miguel do Castelo. Todavia, a singeleza da sua arquitectura está retratando, muito ao natural, o viver da geração que o levantara, assim como o cunho da sociedade portuguesa, no tempo em que ali fora baptizado D. Afonso Henriques.

Como documento ainda da sua muita antiguidade mostra o templo exteriormente, na parede voltada a norte, dois túmulos de pedra, metidos em arcos abertos no grosso da mesma parede; e também ali existem, dessa época remota, várias sepulturas no adro, e no pavimento interior do mesmo templo.

Em 1664 foi despojada esta igreja da sua maior preciosidade arqueológica. D. Diogo Lobo da Silveira, D. Prior da Colegiada, fez então transportar a pia, em que o nosso primeiro monarca recebera a graça do baptismo, para a sua igreja de Nossa Senhora de Oliveira.

Entre os privilégios, que desfrutou a igreja de S. Miguel, conta- se a grande prerrogativa de ser imediata ao Papa, e por conseguinte isenta da jurisdição dos arcebispos de Braga.

O sr. Vilhena Barbosa, tem para si que a porta principal deste templo é posterior à fundação primitiva; por isso que a sua forma ogival pertence a um estilo de arquitectura introduzido em Portugal anos depois da morte do conde D. Henrique, durante a regência da rainha D. Teresa, ou no governo de seu filho D. Afonso Henriques. Mas o ilustre arqueólogo viu de certo esta porta muito de passagem; e foi isto o que lhe fizera ver nela a forma ogival. Mas estudada detidamente, nega-se-lhe semelhante forma ogival e antes se vê nela um arco de volta imperfeita, e sem fecho regular e determinado: o que sem dúvida acusa a sua notável antiguidade, e dá licença de a julgarmos coeva da fundação primitiva.

Por várias reformas tem passado esta igreja, e citarei uma em 1664, empreendida pelo D. Prior da Colegiada, D. Diogo Lobo da Silveira, que por esta ocasião a despojara da sua maior preciosidade, como já vimos. Outra em 1795, realizada pelo seu abade Francisco José Ribeiro da Silva; e foi talvez nesta, não sei porque motivo ou

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depravado gosto, que se substituíra o arco cruzeiro primitivo por outro moderno de arquitectura clássica; e a última, a mais completa e a mais escrupulosa, a que se deu princípio a 17 de Agosto de 1874, empreendida por uma comissão composta pelo exmo. dr. Francisco Martins de Morais Sarmento, cónego José de Aquino Veloso de Sequeira, João Pinto de Queirós e padre António José Ferreira Caldas, custeando-se as obras por meio duma subscrição pública em Guimarães, a qual rendera perto de 700$000 réis, e de um subsídio do governo de 1:200$000 réis.

Nesta restauração, que em tudo seguira o mais que pode o antigo estilo, foi abatido o arco cruzeiro moderno, e levantado em seu lugar, a expensas do digno presidente da comissão, o exmo. dr.

Sarmento, o que hoje se vê nas dimensões e formas arquitectónicas do primitivo: o que tudo se conseguiu verificar, pelos vestígios da antiga emposta, que se descobriram nas paredes que serviam ao arco e pelas antigas aduelas do mesmo, que então se encontraram soterradas, umas nas escadas laterais do adro, e outras a fechar a porta travessa do lado norte.

Destas aduelas aproveitaram-se algumas no arco actual, e guardaram-se outras na parede de suporte do adro à direita de quem sobe as escadas laterais do mesmo, tendo por baixo esta inscrição: Do arco primitivo da capela-mor. Vê-se fronteiro a estas, encravado na parede do lado esquerdo, um brasão de armas portuguesas, que estava sobre uma das portas da muralha da vila, na torre de Nossa Senhora da Graça - vulgarmente de S. Bento - e que aqui foi colocado em 1876, durante a restauração.

Hoje está a igreja completamente isolada de quaisquer dependências ou anexos: todavia é certo que em alguma época as tinha, porque ali viveram por quatro anos os frades capuchos da Piedade, que para isso necessitavam de casas mais ou menos extensas. Pelo menos a existência de um claustro, em volta da igreja, é-nos afiançada pelos cachorros de pedra, que de espaço a espaço, ressaltam a meia altura, aproximadamente das paredes exteriores.

No interior da igreja nada há de notável a não ser a singeleza e humildade da sua arquitectura, além de ser o seu pavimento, na maior parte composto de grandes pedras, as quais serviram de lousas sepulcrais, em que se descobrem vestígios de antigas inscrições e emblemas, toscamente insculpidos, e hoje quase desfeitos pela lima dos tempos.

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Na última restauração apenas se lhe deixou o altar-mor, por se julgar isto mais próprio, inutilizando-se-lhe dois laterais, de época recente, que se levantavam logo abaixo do arco. Era um destes, o do lado do Evangelho, dedicado a Nossa Senhora da Graça; e o fronteiro, a Santa Margarida, de quem o povo se tornou tão devoto, que deu ao templo a sua invocação, esquecendo assim o título do seu legítimo padroeiro.

No ângulo formado pelo arco cruzeiro e parede do corpo da igreja, do lado da Epístola, guarda-se hoje uma pedra tosca com duas cavidades na superfície, que é o célebre padrão das teigas, medida usada na fundação da monarquia; ficando reservado o ângulo fronteiro, para nele se guardar a pia baptismal de D. Afonso Henriques, quando o cabido da Colegiada se resolver, ou for obrigado a restituí-la a esta antiga igreja.

Num caixilho de madeira, que existia na sacristia desta igreja, liam-se as seguintes notícias relativas à mesma: «Lembrança das Antiguidades desta Real Igreja de S. Miguel do Castelo e Santa Margarida».

«Nesta Real Igreja foi baptizado por S. Geraldo Arcebispo de Braga El-Rei D. Afonso Henriques primeiro de Portugal no ano de mil cento e oito».

«Esta Igreja foi sagrada pelo sr. Arcebispo de Braga D. Silvestre (no Ano 1236) e Rezasse da dedicação dela a 30 de Abril».

«Nesta Igreja assistiram os Padres Capuchos da Piedade enquanto não acabaram o seu convento e entraram nela a 12 de Novembro de 1664 e saíram em procissão solene acompanhada com o Ilmo. Rmo. Cabido e Comunidades e a Câmara, e mais povo da terra aos 29 de Julho de 1668».

«Foi renovada esta Igreja no Ano de 1795 por mandado do próprio Abade que nela existe. Francisco José Ribeiro da Silva».

No tempo do conde D. Henriques, gozava S. Miguel do Castelo dos foros de capela real - foros, que mais tarde, por mercê do mesmo conde, passaram para a igreja de Nossa Senhora da Oliveira.

Foi despojado este templo do título de paroquial, por portaria do arcebispo de Braga, D. José Joaquim de Azevedo e Moura, em atenção ao seu evidente estado de ruínas; e mandou anexar esta freguesia à de Nossa Senhora da Oliveira.

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Depois da última restauração, levantada a igreja do montão de ruínas, foi solenemente benzida pelo padre Abílio Augusto de Passos, cura da Oliveira, a 20 de Julho de 1880, havendo em seguida missa cantada pelo mesmo, e à noite iluminação, música e fogo, com grande concurso e satisfação dos fiéis.

Actualmente há ali erecta uma irmandade com a invocação de

Santa Margarida, com o fim de promover o culto a esta Santa Virgem,

e de velar pela conservação do templo, mantendo-o no gosto e no

estilo em que actualmente se acha.

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