T em coi sas rui ns hoje e

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(1)

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~Zé Pinto é artista aferro efogo

E n tre vista co m o a rtista p lá stico

Z é P in to , d ia 2 5 /1 1 /9 3 . P ro d u çã o :

A n a M a ria X a vie r, D ja n e N o g u e ira e K a rin e R o d rig u e s A b e rtu ra : E le u d a d e

C a rva lh o R e d a çã o , e d içã o e te xto fin a l:

A n a M a ria X a vie r, D ja n e N o g u e ira e K a rin e R o d rig u e s P a rticip a çã o : A n a

M a ria X a vie r. A n a P a u la F a ria s, C a rla S o ra ya F lo rê n cio , C h ristin e M e ire le s, C ristia n e P a re n te , D ja n e N o g u e ira , E le u d a d e C a rva lh o , K a rin e R o d rig u e s, L e o n a rd o P in to , L u cia n a R a b e lo , L u zia n ia X a vie r, M a u ricio L im a , M a u ro C o sta e R o b e rta M a n u e la F o to : Ja rb a s O live ira

:A

rte foi definida pelos gregos, há mais de • cinco milênios, como "expressão do belo". : . Até chegar ao conceito de aura da obra de • arte, elaborada pelos frankfurtianos, ou à afirmação : da técnica na pós-modernidade, mudaram-se os • tempos, mudaram-se as vontades, como diria um : poeta barroco caolho.

• A pergunta bizantina se impõe: afinal, o que é : obra de arte? Irrespondível, podemos no entanto • deduzir que arte e seu conceito adquirem configu-: rações coerentes com uma época, uma cultura, um • pensamento.

: Alheio às discussões, mas parabolizado ao seu • contexto, o artista plástico Zé Pinto vai extraindo da : sucata, à solda e maçarico, originalidade, unidade • e essência concretizada em sua arte.

: Como Chico da Silva ou Aldemir Martins, • recria do ferro velho um ser animal, com penas, : crista e canto, chamado na Língua Portuguesa • "galo" . Chico da Silva fazendo escola e seguidores

• na imensa categoria da arte popular. Aldernir, sem • mecenas renascentistas, enfeitando latas de

biscoi-•

• tos. E Zé Pinto, entre a arte eo artesanato, espalhan-• do padres cíceros pelo mundo.

baZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Àp r i m e i r a v i s t a . Z éP i n t o p o d e p a r e c e r d i s p e r s o . M a s n e s t a E n t r e v i s t a m o s t r o u e s t a r m u i t o a t e n t o a t o d a s a s f o r m a s d o m u n d o .

Na sua velha bicicleta, vai Zé Pinto esperto pela cidade, atento às formas das nuvens e à pouca roupa das mulheres. Cheio de filosofias de pára-choques ou de portas de banheiro, parindo

pintismos na molecagem da Fortaleza.

Sem possuir verniz que seja de intelectualidade, o artista cobre-se da densa graxa da inventividade, polindo-a com o fogo criativo da imaginação. Zé Pinto, mordaz, devolve triplicando o desdém de mármore dos seus colegas de arte.

Falando baixo, mastigando as palavras, inter-calando-as por observações fugazes, Zé Pinto con-fessou, durante o papo, não ser um grande apreci-ador de banhos, que combina com sua assumida desorganização.

Ele fez jus à fama de mulherengo, que cultiva com mais vigor ao avançar da idade. Não deixou de observar e comentar com todas da turma, com bom humor, o descarado machismo latino.

Sua aguçada percepção para as formas tam-bém foi observada ao comparar uma, até então anônima, mancha de mofo na parede a um viadinho pulando. Zé Pinto tem o sentido das formas.

Comeu pouco e bebeu menos ainda. Falou de seu trabalho, iniciado aos 50 anos, dos filhos, da mulher, que ele definiu como uma chata, da paixão pelas bicicletas, da urbanidade de Fortaleza, sua inspiração natural.

E, principalmente, de sua arte, suas descober-tas, do seu modo materialista de amar e realizar seu trabalho. A arte é como um filho: você concebe, e lança ao mundo. Não é para dormir sob colchões, é para a satisfação das necessidades do artista.

(2)

e v i s t a - P r a c o m e ç a r , a g e n t e d ú v i d a s . S e u n o m e d e r e -s t r o é F r a n c i s c o M a g a l h ã e s

5 0 . Q u a l a o r i g e m d o a p e l i d o

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7 P i n t o ?

Zé Pinto - Minha filha, meu nome é

Zé Pinto. Porque o Zé Pinto émais elho do que eu. Minha mãe é de Canindé, da fanúliaPinto Magalhães. Chamavam-na Maria Pinto

Maga-ães. Aí, ela ganhou um Pinto e perdeu o outro. Ela casou com meu pai, ganhou um Pinto, perdeu outro. Pinto, do pai dela. Eu tinha uma tia, irmã do meu pai, tia Bibi. Era muito inteligente, muito cavilosa. Ela que pôs esse em nome em mim, de Zé Pinto. Depois, a minha mãe fez uma promessa ao santo de Canindé, não sei por que, e botaram meu nome de Francisco. Eu acho errado se pôrnome nos outros. Ninguém quer saber se a pessoa vai gostar ou não vai. Aí taca Raimunda. A pessoa vai arrastar aque-le nome, morre e ainda bota lá: "Aqui jaz Raimunda". Eu sou Francisco Magalhães Barbosa, é um nome até bonito, mas eu não gosto. Zé Pinto me caiu melhor. Eu comecei a fazer arte com 50 anos. E o Zé Pinto deu certi-nho comigo. Eu sou dois, porque o Francisco Magalhães Barbosa ... Eu sou funcionário da Universidade (F e-deral do Ceará, aposentado). E o Zé Pinto éum cara desligado. Pois bem, no casamento tá Francisco Magalhães Barbosa. A minha mulher pensou que era casada com o Zé Pinto, mas não é. A fanúlia do meu pai, Barbosa, no São Gerardo, Alagadiço, era uma fa-rrúlia tradicional. Houve dois times de futebol, na fanúlia do meu pai, o Maguary e o Peãarol. E meus tios fre-qüentavam a sociedade, desfrutavam.

"Não tenho hora pra

nada. Eu não tive hora

pra nascer, não vou ter

pra morrer. Nunca usei

relógio. Estou só

to-d

"

can o ...

Mas meu pai, não. Meu pai era um homem muito trabalhador, marce-neiro, fazia móvel. Era um grande artista em móveis. Trabalhava que

SÓ, um doido, morria de trabalhar. unca passeou, nunca tomou uma cerveja, nunca. E eu procuro fazer o que ele não fez. Meu pai era um cara muito agarrado nas coisas. Eu não, não vou levar nada, não é? Não tenho hora pra nada. Eu não tive hora pra

nascer, não vou ter pra morrer. Nunca usei relógio. Estou só tocando ...

E n t r e v i s t a - V o c ê d i s s e q u e s e u p a i e r a u m h o m e m m u i t o t r a b a l h a d o r . E s u a m ã e ?

Zé Pinto - Minha mãe ainda é viva, tá lá, doentinha ... A minha mãe era uma dona de casa, uma pessoa traba-lhadora. Só tomava conta da casa, dos filhos. Não é tomo as mulheres de hoje, que só pensam em emprego, mil coisas ... Mamãe não, só fazia aquilo. Fazia menino e cuidava.

" Mas eu não sou

desses caras, 'bom era

o meu tempo ... ' O meu

tempo ainda é hoje ( ...)

Tem coisas ruins hoje e

tem coisas boas."

E n t r e v i s t a -

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Os e n h o r . . .

Zé Pinto - Quem é senhor?

E n t r e v i s t a - V o c ê . Q u a n d o e r a m e

-nino.já t i n h a a l g u m p e n d o r a r t í s t i c o ?

Zé Pinto - Não, meu pendor ainda ... (risos), inda tá, né?

E n t r e v i s t a - - T á d e p é ?

Zé Pinto - Tá.

E n t r e v i s t a F a l a u m p o u c o p r a g e n -t e c o m o e r a om e n i n o Z é P i n t o . V o c ê n a s c e u a q u i m e s m o e m F o r t a l e z a . . .

Zé Pinto - Ali, no Alagadiço. De Alagadiço foi pra São Gerardo e hoje

éavenida Bezerra de Menezes. Ali era uma beleza, ainda é. Só que hoje em dia tem muito carro, barulho. No tempo que eu era menino, passava um carro de manhã, outro de tarde. Em 1938, passou um carro alemão, era o "carro misterioso". Tinha esse vidro fumê, que tem hoje. Na Alema-nha já tiAlema-nha ... Aí ninguém via o cara. Tudo era o fim do mundo, o fim do mundo ia ser tal dia... Diziam que negro ia virar macaco ... Era tão en-graçado, Fortaleza. Tinhas as coisas folclóricas. Tinha os ditados. Hoje a televisão castrou todo o mundo, só repete o que eles dizem. Fortaleza tinha umas coisas ingênuas, mas eram boas. Tinha o "ai da Base", já ouvi-ram falar?

E n t r e v i s t a - Oq u e e r a e s s e " a i d a

B a s e " ?

Zé Pinto --Éporque quando criaram os soldados da Base, eles andavam com uma farda bonita e as mocinhas

eram todas doidas por eles. E eles, aqui acolá tavam imprensando uma no muro. Uma gritou "ai, da Base", e ficou. Tinha uma "vai ver Doquinha do Oião" ... Tinha um pre-to que tinha uma bodega, na (rua) 24 de Maio, era o Chico da Mãe Isa. Era 24 de Maio com Pedro Pereira. Hoje agora é uma farmácia. Passou muito tempo fechada. A Praça do Ferreira era o coração da cidade. Tudo se resol via na Praça do F erreira. Tinha os alunos do Liceu. Qualquer coisa eles quebravam ônibus, era uma coi-sadanada. Tinha muita força, o aluno de Liceu. Hoje não tem mais. Mas eu não sou desses caras, "bom era o meu tempo" ... O meu tempo ainda é hoje. Pra mim todo tempo é bom, é

ruim. Tem coisas ruins hoje e tem coisas boas, como tinha coisas ru-ins ... Antigamente, as coisas eram mais dificeis. Por exemplo, na casa. Não conhecia liqüidificador. Tinha um pote d 'água e uma quartinha, pra esfriar. O ferro de engomar era de brasa. Aí o americano empurrou e disse que é progresso. A mulher hoje tem tudo na casa, num instante re-solve uma comida. E antigamente, fazer comida era na lenha. As meni-nas andavam com umas rouponas, mal se via nada. Hoje é bom (risos). Sabe como era o banho de mar? Eu vim falar de Fortaleza? (risos) Bom, o rapaz ia pra praia todo pronto: paletó, gravata. Chegava lá, tinha umas casinhas, uns quartos, que alu-gavam calção. Um calção de mescla. O cara deixava a roupa, o dinheiro, tudo lá, e ia tomar banho. Voltava, toma va banho de água doce - não era salgada, como a do Ciro Gomes, né? Aí ia pra missa.

" Com 50 anos de

idade, comecei a fazer

arte. Puxei aos filhos.

Começaram

desde

pequenos

e notei que.

eles tinham muito

talento.' ,

E n t r e v i s t a - - V o c ê c h e g o u a j a z e r i s s o ?

Zé Pinto -- Lá na Igreja do Carmo. Era assim que era a cidade de Forta-leza.

E n t r e v i s t a - - I a p r a m i s s a p r a r e z a r o u p r a v e r a s m e n i n a s ?

Zé Pinto - As duas, né?

E n t r e v i s t a - E r a n a m o r a d o r ?

Q u a n d o c o n v id a d o p e la e q u ip e d e p ro d u -ç ã o p a ra p a rtic ip a r d a e n tre v is ta , Z é P in to re s p o n d e u q u e n ã o s a b ia s e e s ta ria v iv o a té lá .

Z é P in to re v e lo u q u e g o s ta ria d e c o m e r b o -lin h o s d e b a c a lh a u d u ra n te a e n tre v is ta . M a s fic o u b a s ta n te p re o c u p a d o c o m o p re ç o .

C a lç a d e v e lu d o p re ta , c a m is a b e g e , s a -p a to s o c ia l -p re to e m e ia s c o m b in a n d o c o m a c a m is a . E s te e ra o tra je d e Z é P in to n o d ia .

GFEDCBA

(3)

Ae q u ip e d e p ro d u çã o

e o p ro fe sso r R o n a ld o a p a n h a ra m Z é P in to n o C e n tro d e C o n ve n -çõ e s. E le e sta va e x-p o n d o n u m a fe ira d e ca rro s.

Z é P in to n ã o ca lo u o 'b ico ' u m só m in u to d u ra n te o tra je to d o C e n tro d e C o n ve n -çõ e s a té o C u rso d e C o m u n ica çã o S o cia l d a U F C .

N o d ia d obriefing, Z é P in to ia tira r a ca rte ira d e p a sse -livre p a ra id o so s. M a s só u sa ô n ib u s q u a n d o a d is-tâ n cia é g ra n d e .

42

baZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

c e r t n t o

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Zé Pinto -- Sou mais hoje.

E n t r e v i s t a - - P o r q u ê ?

Zé Pinto -- Porque é bom.

E n t r e v i s t a - - F a l e m a i s u m p o u

-q u i n h o d a s u a f a m í l i a . V o c ê f a l o u

q u e s u a m ã e g o s t a v a d e f a z e r m e n i

-n o . Q u a -n t o s i r m ã o s v o c ê t e m ?

Zé Pinto -- Eles fizeram, ela mais meu pai, uns cinco ou seis meninos. Eu fiz mais, fiz dez. Morreram dois, tem oito. Eu tenho W1Sirmãos, um tá no Piauí, os outros tão por aqui. Tenho duas irmãs e três ou quatro irmãos, comigo. Eu sou o mais ve-lho, primogênito. Bonito, né, esse nome! Apesar de tudo eu sou louco por essa cidade "véia". Primeiro, meu povo, meu povo me quer bem.

E n t r e v i s t a S e u p a i e r a m a r c e n e i

-r o . V o c ê c h e g o u a t -r a b a l h a -r c o m e l e

t a m b é m ?

Zé Pinto -- Ele não deixou. Eu fiz tanta coisa ... E depois, com 50 anos de idade, comecei a fazer arte. Eu puxei aos filhos. Os filhos começa-ram desde pequenos, e eu notei que eles tinham muito talento. E eles escondiam, botavam debaixo do col-chão da cama. E eu comecei a levar pra faculdade - eu trabalhava na Faculdade de Medicina e tinha mui-tos amigos médicos, e eles gostavam. Eu me considero um Pelé. Porque a imprensa, a televisão ... As pessoas falam da televisão, eu não falo. A televisão é um negócio bom. Ela lhe joga lá, no ar, em órbita. Você tem que se agüentar... E essa menina, • quem é?

E n t r e v i s t a - C h e g o u a g o r a .

É

a A n a

P a u l a .

E n t r e v i s t a - - V o c ê c o m e ç o u s u a a r t e

c o m c i n q u e n t a a n o s . P r i m e i r o , v o c ê

m o s t r o u o s t r a b a l h o s d o s s e u s f i

-l h o s , d e p o i s c o m e ç o u a f a z e r

t a m b é m ?

Zé Pinto -- Foi. Aí os meninos foram embora e me puxou o tapete ... Quem é o dono dessa menina? Tem não? Mais vai ter. .. Sim, "vumbora".

E n t r e v i s t a - - V o c ê e s t u d o u ? C h e g o u

a e s t u d a r a t é q u e s é r i e ? V o c ê g o s t a

-v a d e e s t u d a r ?

Zé Pinto -- Não. Não estudava, não. Eu gostava muito de estudar Inglês. Louco por Inglês. Já estudei um ano no Ibeu (Instituto Brasil-Estados Unidos), mas papagaio véio não aprende a falar. Eu queria ter nasci-do num lugar que falasse Inglês, acho bonito. "The beautiful girl" . (risos) Eu estudei em tanto colégio . O primeiro colégío, São Luiz, que era do governador Pimentel, ali, na

rua do Imperador com Liberato Bar-roso. De Francisco Menezes Pirnentel. Estudei na Fênix Caixeiral, fiz um curso lá. Fiz o tiro-de-guerra (serviço militar). Sempre gostei de ler e de estar ligado no Inglês. Não gosto de Francês, não ... Como é o nome dela?

E n t r e v i s t a - - Z é P i n t o , q u a n d o a

g e n t e é a d o l e s c e n t e , o u e s t á e s t u d a n

-d o m u i t o o u e s t á b a t a l h a n d o u m a

p r o f i s s ã o . V o c ê e x e r c e u a l g u m a p r o

-f i s s ã o q u a n d o c r i a n ç a ?

Zé Pinto -- Não, queria era brincar. Brincava de caminhãozinho, fazia os meus brinquedos. Não tinha de plás-tico. No tempo da guerra não vinha brinquedo e eu tinha um tio que tinha umá loja, "Casa Cristal", ali, na Floriano Peixoto. Aí meu tio mandou eu fazer brinquedo, pra vender na loja. Porque o alemão botava o navio a pique e não tinha estrada daqui pra Rio, São Paulo. E eu fazia cami-nhãozinho, fazia uma porção de brinquedo pra vender na loja do meu tio. Mas não era muito ligado a traba-lhar, não. Gostava de fazer as coisas.

" Aí eu falei pra Deus

que queria que Ele me

ajudasse, me desse

uma arte, uma coisa

diferente. Aí lembrei

das coisas do meu

pai. "

E n t r e v i s t a - O p r i m e i r o t r a b a l h o q u e v o c ê f e z , q u a l f o i ?

Zé Pinto -- O primeiro trabalho da minha vida foi nessa loja, "Cristal", do meu tio. Ganhava 50 mil réis por mês. Toda vida tive horror a acordar cedo, sempre fui muito desligado. Meu pai não era rico, mas dava pra ... Depois, me meti com bicicleta, alu-gar bicicleta. No tempo da guerra, não tinham bicicletas novas. O pesso-al tava brigando lá na Europa e nós aqui sofríamos, faltava as coisas. Ti-nha blecaute. Black-out, o primeiro nome em inglês que eu aprendi. De-pois, me apeguei muito à bicicleta, consertar bicicleta, alugar. Tinha pou-cos carros e as pessoas alugavam. Ali, no Otávio Bonfim, na Igreja do São Gerardo, pra ir no Monte Castelo. Porque só tinha um ônibus, pela Be-zerra de Menezes. E as pessoas desciam daquele ônibus pra ir pros bairros. Hoje é muito bom, ônibus pra tudo que é lado! Pro interior só tinha caminhão. E hoje é ônibus de luxo. Hoje tem muita coisa boa.

E n t r e v i s t a - - V o c ê d i s s e q u e s e m p r e g o s t o u m u i t o d e b i c i c l e t a . E s t a s u a .

b i c i c l e t a a i n d a é a m e s m a , v e l h o n a ?

Zé Pinto --É .A mulher é a mesma ... Mas mulher, de vez em quando arru-mo uma mais novinha. Mas bicicleta, não.

E n t r e v i s t a - - V o c ê é m a i s f i e l à

b i c i c l e t a d o q u e a s u a m u l h e r ?

Zé Pinto -- Sou, mas não é pra dizer, não.

E n t r e v i s t a - - M a s v o c ê j á d i s s e !

Zé Pinto -- (Ri).

E n t r e v i s t a - C o m o f o i q u e v o c ê

c o n h e c e u s u a e s p o s a ?

Zé Pinto -- Faz muito tempo. Nós namoramos não sei quantos anos. Mas hoje a mulher tá chata, briga demais, reclama (Neste momento, Zé Pinto interrompe aE n t r e v i s t a e observa os gravadores, curioso).

E n t r e v i s t a - - E s s a c u r i o s i d a d e f o i o

q u e l h e l e v o u à a r t e ?

Zé Pinto -- Sei não ... Essa menina não falou ainda. Écalada, é? Tu é calada?

E n t r e v i s t a S o u n ã o . E s t o u s ó e s p e

-r a n d o a o p o -r t u n i d a d e .

(4)

acha-Z é P i n t o

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Até que, quando foi lá pelo dia te e tantos de janeiro, eu vou ixar um trabalho de prego num amigo e ele -- tinha vindo não sei de onde, lá da firma J. Macedo - vou

fazero comercial aqui, eles

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& 1 0 mui-to meus amigos. Aí ele disse: "Por

que você não trabalha com ferro?"

" Nova York

é

maravi-lhoso, wonderful,

linda. Mas tem muita

esculhambação, muito

nêgo drogado no meio

da rua, tudo que não

presta.' ,

Eu nunca trabalhei com ferro, a não ser o prego. Quando ele disse isso, me lembrei da resposta. Me arrepiei lodo, o santo baixou. Outra coisa que não sei explicar. Fui num ferro-ve-lho, peguei enxada, foice, fiz um galo. Fiz, não. Comprei as coisas, fui numa oficina, eu nunca tinha solda-do. Mandei o cara: "Solda aqui. Solda ali". E formei um galo. E botei o nome do galo o nome do cara que deu a idéia, Odilon. Ele élU11 cara bom,

modesto. Não aceitou. Eu levei o galo pra ele: "Você foi o enviado (ri), o enviado de Deus". Porque ele disse isso e eu captei a mensagem. Comecei a ver coisas. No ferro, as formas. E comecei a trabalhar. Em março, eu participei da Exanor. Foi um espetáculo.

E n t r e v i s t a - -E a reação da impren-sa?

Zé Pinto -- A imprensa me ajudou muito. Eu gosto muito de futebol e acompanho a seleção brasileira. O primeiro jogo da seleção brasileira eu ouvi num rádio velho, em 1938. E tinha um jogador lá, que era melhor do que Pelé, Leônidas da Silva. Mas não tinha televisão, e o pobre do nêgo trabalhava como o diabo, mas não aparecia. Mas oPelé também é bom. E é bom em outras coisas, não é só em bola. Ele se preocupa com o Brasil. Agora tá descobrindo na CBF um João da Silva por lá. João o quê?

E n t r e v i s t a - - João Alves (deputado

federal baiano envolvido no escân-dalo de corrupção no Orçamento da União).

Zé Pinto -- João Alves ... Isso é nome de cabrasem-vergonharnesmo ... (ri).

E n t r e v i s t a - - E o s c o n v i t e s p a r a e x -p o r n o e x t e r i o r p a r t i r a m d e q u e m ?

Zé Pinto -- Quem ... Foi um america-no. Veio aqui, mister Davis, em 89, 88 -- não sou muito ligado em núme-ros. Ele viu meu trabalho, levaram ele lá, ele viu. Quando foi uma cria-tura daqui, da universidade, uma moça velha, diretora depois daquela faculdade de Economia: "Zé Pinto, vem cá. Vão te levar pros Estados Unidos". Fiquei esperando. Aí eles me levaram. Passeei um mês lá, em New Hampshire. Lugar bom. Tem umas galinhas hampshire. Élá. Nova York é maravilhoso, é wonderful, é linda. Mas tem muita esculhamba-ção, muito nêgo drogado no meio da rua, tudo que não presta. Mas New Hampshire é um paraíso. É urna coisa tão linda ... As pessoas deixam os carros do lado de fora, não fecham nem as casas. Ladrão pobre lá não tem não.

E n t r e v i s t a - - V o l t a n d o p r o i n í c i o d a s u a carreira, a q u i m e s m o , e m F o r t a -l e z a . V o c ê c o m e ç o u s e u t r a b a l h o c o m u m a i d a d e b e m a v a n ç a d a . . .

Zé Pinto -- Com 50 anos.

E n t r e v i s t a - -E v o c ê a c h a q u e e s s e s u c e s s o r e p e l i t i n o q u e v o c ê t e v e i n

-fluenciou n a c o n t i n u i d a d e d e s u a

o b r a ?

Zé Pinto -- Ora, influenciou, senão ...

E n t r e v i s t a - - A c o l e t a d o m a t e r i a l d o s e u t r a b a l h o , v o c ê v a i a t r á s o u a l g u -m a p e s s o a c h e g a l i a o f i c i n a e l e v a ?

Zé Pinto -- Tem pessoas que levam. Quando mandam consertar o carro: "Zé Pinto, sobrou umas peças", e levam. Levam e eu agradeço. Mas eu tenho que ir, eu mesmo, pra encon-trar.

"A censura era

pesa-da. Deixei a exposição

e fui pra casa almoçar.

Quando voltei, tinha

nadinha. Os milicos

tinham levado

tudinho. "

E n t r e v i s t a - -Q u a n d o v o c ê v a i n u m a

s u c a t a . ] á v a i c o m u m a i d é i a j i x a ?

Zé Pinto-Às vezes, vou atrás de uma pecinha e acabo trazendo 40, 50 qui-los.

E n t r e v i s t a - Z é P i n t o , v o c ê u s a t e x -t o s e n g r a ç a d o s n o s e u t r a b a l h o . V o c ê t e m u m t r a b a l h o s ó d o s t e x t o s , e s s e s d i t o s e n g r a ç a d o s ?

Zé Pinto -- Deixa a lourinha pergun-tar, depois eu volto pra essa ...

E n t r e v i s t a - - Q u a n d o v o c ê e r a c r i -a n ç -a e f -a z i -a s e u s c a m i n h õ e z i n h o s j á t r a n s f o r m a v a a l g u m a c o i s a . O a r -t i s -t a é a q u e l e q u e -t r a n s f o r m a a l g u m a c o i s a e m a r t e . Os e n h o r j á e r a a r t i s -t a e n ã o s a b i a ?

Zé Pinto -- Mas não era senhor, não. Eu sei lá! Acabe com esse negócio de senhor! Onde é que eu estou? Caminhãozinho em tábua, sobra de tábuas do meu pai,já aproveitava as sobras ... Fazia de flandre, de lata ... Eu quis ser carpinteiro, marceneiro, e meu pai não deixou.

E n t r e v i s t a - - V o l t a n d o , o s t e x t o s q u e v o c ê e s c r e v e , a s p i a d i n h a s . . .

Zé Pinto -- O que eu tenho daria um livro. Tem uns muito esculhamba-dos ...

E n t r e v i s t a - -E s s a e s c u l h a m b a ç ã o q u e v o c ê f a l a s e r e f l e t e e m UIISt r a -b a l h o s s e u s : t e m o c a c h o r r o m e t e d o r . . . O q u e é m a i s g o s t o s o d e f a z e r ?

Zé Pinto -- Os dois. Mais gostoso de fazer é foder. Fiz muitas denúnci-as ... Uma vez, tava expondo ali, ndenúnci-as Culturas (Casas de Cultura, centros de línguas da UFC). Tava expondo e tinhas umas coisas pesadas.. E a censura era pesada. Eu deixei a ex-posição e fui pra casa almoçar. Quando voltei, tinha nadinha. Os milicos tinham levado tudinho, pra censurar.

E n t r e v i s t a - - C o m o e r a m a s p e ç a s ?

Zé Pinto -- Eu não me lembro. Mas eu mexia ... Dava umas "tacadas" neles.

E n t r e v i s t a - - S e u r e l a c i o n a m e n t o c o m s u a s o b r a s . V o c ê d i s s e u m a v e z q u e u m a o b r a d e s s a s e r a c o m o u m f i l h o p r a v o c ê . Q u e r i a q u e v o c ê f a

-l a s s e d a r e -l a ç ã o c o m s u a s p e ç a s .

Zé Pinto -- Me perguntam qual é a que eu gosto mais. Eu gosto de fazer muito Chaplin. Porque acho Chaplin um cara que fez muita coisa no mun-do. Um Vinícius de Moraes, um Chaplin, são pessoas que vieram ao mundo ... Se eu fosse Deus, as pesso-as que fizessem coisa boa eu botava pra viver duzentos anos, não mata-va. Pixinguinha ... Eu sou louco por esse povo, que diz alguma coisa.

Luiz Assunção, um Lauro Maia ...

E n t r e v i s t a - - E a s p e s s o a s q u e p r e s t i g i a m s u a a r t e . T e m a q u e l e p e s -s o a l q u e e n t r o u e m c o n t a t o n a é p o c a q u e v o c ê t r a b a l h a v a l i a u n i v e r s i d a -d e . . .

L o g o q u a n d o a e n tre v is ta c o m e ç o u , q u a n -d o o s g ra v a -d o re s fo -ra m lig a d o s , c h a m a -ra m a a te n ç ã o d e Z é P in to : "É m u ito b o m is s o , n é ? "

D u ra n te a e n tre v is ta , Z é P in to fe z a lg u m a s p e rg u n ta s . A s m e n in a s e ra m o a lv o p riin -c ip a l. Q u is s a b e r o n o m e d e la s e s e ti-n h a m d o ti-n o .

A o s a b e r q u e Z é T a rc i-s io i-s e ria e n tre v is ta -d o .le m b ro u -s e d o "x a rá " e c o lo g is ta s o l-ta n d o p a s s a rin h o d a g a io la d o v e n d e d o r.

(5)

O s tra b a lh o s d e Z é P in to tê m u m a ó tim a re ce p tivid a d e . N o e n ta n -to , e le co n fe ssa q u e a s o b ra s q u e m a is ve n -d e m sã o a s sa ca n a s.

Z é P in to g e sticu la m u i-to e n q u a n i-to fa la .A vo z

d e le

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ém u ito b a ixa . À s ve ze s, in a u d ive l. Isso

d ificu lto u a e d içã o d a "E n tre vista ".

B a irrista . U m a d a s ca ra cte ristica s d e Z é P in -to . "S e r ce a re n seétã o fo rte q u e a ca p ita l é

u m a F o rta le za ", d isse a o sa ir.

44

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Z é P i n t o E n t r e v i s t a

Zé Pinto - É, na universidade teve pessoas que me ajudaram, reitores. O primeiro que começou a me ajudar foi o doutor Newton Gonçalves, um cara muito bom, muito culto, muito direito, uma pessoa formidável. Ele me trouxe para cá. Eu trabalhava na Faculdade de Medicina, trabalhei 20 anos lá. E aqui eu fiquei um tempo, aí jogado. Lá eu tinha uns camaradas que me perseguiam, tinham inveja. Não, eles não eram camaradas. Eram uns sacanas. Aí o Paulo Elpídio (ex-reitor da UFC), não, o (ex-reitor antes ... Era Pedro Barroso ... (Neste momen-to, Zé Pinto olha para o teto e vê uma mancha de mofo: "Parece um vea-dinho pulando ... Sujo de parede, eu vejo formas"), Sim, o Pedro Barro-so. Morreu. Foi muito bom.me trouxe.

" Euzélio no começo

não foi muito legal

comigo ( ... ) Eu não era

artista, com cinquenta

anos passei a ser, nem

todo mundo aceitava. ' ,

o

Newton Gonçalves era vice-reitor dele. Houve até uma coisa engraça-da ... o Pedro Barroso era dentista. O Newton Gonçalves era médico, mui-to culto. Botaram o Pedro Barroso pra ser reitor. Dizem que o Newton Gonçalves disse assim: "Era só o que faltava! Um dentista ser rei-tor. .. " E o Pedro Barroso convidou o Newton pra ser o vice. Foi engraça-do, né? E ele me trouxe, e me botou na Casa Amarela (Núcleo de cinema e vídeo da UFC). O Eusélio (Olivei-ra, ex-diretor da Casa Amarela, já falecido) que Deus o guarde lá -ele, no começo, não foi muito legal comigo. Porque houve uma mudança muito grande. Até dou razão a algu-mas pessoas. Eu não era artista, com cinquenta anos passei a ser artista, nem todo mundo aceitava. Ele dizia assim: "Uma terra em que um ho-mem desse é artista ... " (ri). Ele me perseguiu. Mas graças a Deus, já pelo último ano antes dele morrer, era meu amigo.

E n t r e v i s t a - Ele reconheceu sua arte? Zé Pinto -- Reconheceu, depois, mas reconheceu.

E n t r e v i s t a - - E hoje, existe alguém que não aceite seu trabalho como arte?

Zé Pinto -- Tem alguém, mas azar deles.

E n t r e v i s t a - - V o c ê r e c e b e p e s s o a s . n a s u a o f i c i n a , c o m e n c o m e n d a . e q u e p e d e m a l g u m t i p o d e t r a b a l h o ?

Zé Pinto -- Quando chega, eu fico doente. A essa altura, tem que agra-dar aquela pessoa. Aí eu digo: "Eu não sou ferreiro, sou artista. Tenho que criar". Mas o ferreiro é que a pessoa chega e diz: "Entorta esse ferro, faça isso aqui".

E n t r e v i s t a - C o m ofois u a e x p e r i ê n -c i a n a C e n t r a l d e A r t e s a n a t o L u i z a T á v o r a ? V o c ê t e v e u m b o x a l i , c o m o u t r o s a r t i s t a s , c o m o u t r o s a r t e s ã o s . C o m é q u e v o c ê f o i p r a l á ?

Zé Pinto -- Me convidaram, eu fui, era bom. Mas os artistas tinham que cumprir um tempo e, depois, essa coisa de governo, entra e sai, não sei quem, as panelinhas ... Aí vou ficar no meu cantinho, na minha base ..

E n t r e v i s t a - - P r a v o c ê t e m a l g u m a d i f e r e n ç a e n t r e a r t e e a r t e s a n a t o ?

Zé Pinto -- Não. Tô preocupado com isso, não. Eu quero fazer alguma coisa, faço, e quem quiser comprar, adquirir. .. Não vou abrigar. Eu gosto de fazer, eu faço. Gosto de fazer Charles Chaplin, adoro fazer. Fiz até um poeminha pra ele, que é assim: "Sem falar, Carlitosl Alegrou mais o mundo/ Do que muita gente! Dando gritos". Carlitos era fantástico' Era inglês, foi pros Estados Unidos, lá, naquela época contra o comunismo, tacharam-no de comunista. Eu pe-guei uma reverência muito grande a Carlitos. Como a Lampião, Padre Cícero. Pra mim, tudo é do mesmo time. Lampião era um cara que fez muitas maldades no mundo, mas fez muita bondade e sofreu muito. Por-que Lampião corria pelo mato. Andou o Nordeste todinho, Aracaju, esse meio de mundo, Bahia, Pernambuco, tudinho até o Rio Grande do Norte ele andou. E por dentro do mato, se escondendo. Porque a pessoa andar numa estrada, num asfalto, hoje em dia, só andar a pé, é ruim. E o cara andar por dentro de mato? Ele fez muita estripulia. Mas no Ceará ele não fez muita, não.

E n t r e v i s t a - V e m m u i t a g e n t e d e f o r a c o m p r a r s e u s t r a b a l h o s ?

Zé Pinto -- Muita não. Se viesse muito eu tava rico (ri). Mas vem.

E n t r e v i s t a - - D e t o d o c a n t o ? D a q u i m e s m o ?

Zé Pinto -- Daqui mesmo. Bom, o Airton Angelim (advogado, presi-dente da Junta Comercial do Ceará) me adquiria muita peça, me ajudava muito. E o Tasso (Jereissati, ex-go-vernador do Ceará, presidente nacional do PSDB) tinha um prazer

muito grande de dar presente aos embaixadores, que vinham aí, não sei de onde. O Tasso me ajudava muito, por isso, porque comprava minhas peças. O Ciro é bom, mas tem um irmão dele que é meio chati-nho... Quer saber o nome dele? Não-sei-o-quê Gomes.

E n t r e v i s t a - - F a l e m a i s u m p o u q u i n h o d e s s a m a n e i r a q u e v o c ê c r i a s u a s p e ç a s . P o r e x e m p l o , a q u e -l a e x p o s i ç ã o e r ó t i c a d o E s p a ç o C u l t u r a l d a T e l e c e a r á . C o m o é q u e

você p e n s a n a q u e l e t i p o d e p e ç a ?

Zé Pinto -- Eu só penso nisso! (risos)

" T

ô

ficando assim

meio chateado

com

negócio

de Igreja ( ... )

A religião católica

acha que a gente tem

que sofrer pra ir pro

céu.' ,

E n t r e v i s t a - - N ã o , n ã o e x a t a m e n t e s o b r e e s s e t i p o d e p e ç a . . . P o r e x e m -p l o , a q u e l a p e ç a d o p r e s é p i o , q u e t e m l á n a ( a v . ) B e z e r r a d e M e n e z e s .

Zé Pinto -- Ali foi em 1978, o presé-pio foi pra Praça do Ferreira. Vocês eram meninos, em 78 ... O Luiz Mar-ques (deputado federal pelo PFL, ex-superintendente do DNOCS) foi o prefeito de Fortaleza na época. Aí ele chamou vários artistas pra cada um criar um tipo de presépio. Aí fiz o meu. Aí botei o nome dos três reis magos: era Be\chior, Fagner e Ednardo, porque tinha um dos três reis magos que o nome dele era Be\chior. O judeu.

E n t r e v i s t a - - V o c ê p a r e c e s e r m u i t o r e l i g i o s o , t e m s e m p r e a l g u m a s p e -ç a s . . .

(6)

Eu vou na igreja falar com Como eu vou na casa de qual-pessoa, vou na casa Dele sim. - essa coisa da gente sofrer pra ir o éu, não quero não. Eu quero é

ssar bem aqui (ri).

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E n t r e v i s t a - - V o l t a n d o p r o p r o c e s s o d e c r i a ç ã o d a o b r a . V o c e d i s s e , a g o

-h á p o u c o , q u e n e l a e r a u m f e r r e i r o , e r a u m a r t i s t a . C o m o v o c ê t e m e s s a i n s p i r a ç ã o , d e p e g a r u m c a p o d e F u s c a , u m p e d a ç o d e s u c a t a ? C o m é q u e s a i e s s a c o i s a ?

Zé Pinto --

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É ...Eu vejo a forma no capô do carro, na peça do carro. Eu

vejo uma forma. Nessa época que eu comecei a trabalhar com a peça, co-mecei a ver a forma do carro que eu não via. Eu vejo a forma, aí digo: "aquela dali dá isso". Eu fiz um Lampião de capô. Fiz um Padre Cícero. Lá em Brasília, na Casa do Ceará, tive em Brasília há um mês e pouco, ~ ela (a presidente da Casa do Ceará) me disse que o pessoal acen-de vela pro meu Padre Cícero de capô de carro! Acho que cearense que tem lá, devoto, vão e acendem vela pro Padre Cícero.

E n t r e v i s t a - - I 'o c e t e v e a l g u m a p e ç a q u e n ã o T e \ 'e c o r a g e m d e v e n d e r , q u e

ficoup r a v o c e ?

Zé Pinto -- Eu não! Eu só vivo liso (ri). Eu pelejo pra ficar com uma, mas as pessoas querem. Sempre tô precisando de vender. As pessoas me perguntam: "Z~ Pinto, tá vendendo bem?" Eu digo: .. Eu tô, as pessoas é que não estão comprando bem" (ri-sos).

E n t r e v i s t a - - T e v e é p o c a s m e l h o r e s ?

Zé Pinto -- Teve não.

E n t r e v i s t a - -

r

'o c e d i s s e q u e não g O S T a q u e a s p e s s o a s c h e g u e m e p e -ç a m .

Zé Pinto -- Fico doente!

E n t r e v i s t a - - A l a s s e c h e g a r e m d i -z e n d o q u e v o c e f a ç a u m C h a p l i u , v o c ê f a z ?

Zé Pinto -- Um Chaplin, vai. Mas se uma pessoa chegar e disser assim: "Zé Pinto; eu quero que você faça assim, assim, assim". Eu fico preo-cupado, aí eu não vou me agradar. Vou agradar àquela pessoa. Mas será que ela vai gostar do que eu vou fazer? Eu gosto de fazer. Eu faço uma coisa, no meu pensamento, do jeito que eu gosto. A arte, pra mim, eu comparo a arte com as pessoas. É

como um pai. Um pai faz uma filha. Ele não tá preocupado em fazer uma mulher bonita pra não sei pra quem. Fez você, criou. E aparece um cabôco gostoso e ataca. Assim é a arte.

A mesma coisa da vida, do amor. Pois bem, se eu sou um criador de arte, o cara olha, olha, gosta de uma. Como tem um bocado de mulher, o cara chega, escolhe uma. Éa mesma coisa.

" Obra de arte

é

como

um filho. Só digo que a

obra de arte

é

minha

quando eu faço. Só

digo que o filho

é

meu

se eu comi a mulher. "

E n t r e v i s t a - - T e m a l g u m a p e ç a q u e c o m e ç o u afazer, nãog o s t o u e c o l o -c o u n o l i x o ?

Zé Pinto -- Não. Graças a Deus, não. Às vezes demora, mas eu fico falan-do: "Se agüente aí".

E n t r e v i s t a - - Q u a l o m a t e r i a l q u e v o c ê m a i s g O S T a d e t r a b a l h a r ?

Zé Pinto --Écom a sucata mesmo. Sucata é que é o forte, que dá mais força.

E n t r e v i s t a - - P o r q u e v o c ê n ã o t r a -b a l h a c o m m a t e r i a i s c o n v e n c i o n a i s ?

V o c ê n ã o T i r a i n s p i r a ç ã o d e l e s ? V o c ê v ê u m c a p o d e F u s c a e i m a g i n a o o b j e t o . E v e n d o , p o r e x e m p l o . u m a p e d r a d e mármore, v o c e n e l a i m a g i -n a oo b j e t o ?

Zé Pinto -- Eu não sei esculpir, esculpir a pedra eu não sei. Vejo coisas em qualquer coisa. Agora eu vendi uma peça, era um homem e uma mulher, nessa "Erótica". Dois

" '" Dinheiro é como

mulher. Se a gente não

comer, os outros

co-mem. A gente tem que

usar. Desculpa

aí, mas

a história

é

assim

mes-lTIO,"

troncos, que o cara cortou uma plan-ta,jogou. Eu ia passando de bicicleta e vi, uma mulher perfeita, com a vagina, com as pernas da mulher assim, as pernas abcrtinhas. Só o tronco, só do melhor pra baixo ... E o homem era um cara com o negócio bem grande. Botei o nome assim:

"Piedade, Senhor". Não tinha a

Pietà? A mulher pedindo piedade, o cara com aquela ignorância ... Eu já fiz Cristo de osso de galinha, de osso de boi. Eu vejo no osso a forma. Às vezes, a pessoa encosta o pé na pare-de e o sapato sujo dá as formas. As nuvcns.. O mundo é cheio de for-mas.

E n t r e v i s t a - - V o c ê v i v e s e m p r e p r o -c u r a n d o e s s a s f o r m a s ?

Zé Pinto -- Não. Eu ando sempre ligado. Mas procurando essas for-mas, não.

E n t r e v i s t a - - D a s e x p o s i ç õ e s q u e v o c ê p a r t i c i p o u , m a i s r e c e n t e s , t e v e a m o s t r a p a r a a s E s c u l t u r a s E f ê m e r a s . V o c ê p a r t i c i p o u d e u m a e d i ç ã o , m a s d e s s a n ã o . P o r q u ê ?

Zé Pinto -- Nunca houve nada. Sabe, tem uma coisa aqui. O Sérvulo Esmeraldo, dizem que ele é escultor. O Aleijadinho era escultor, as mão-zinhas todas feridas, na corcunda do escravo, as mãozinhas amarradas, esculpindo a pedra. Aí sim, tenho a obrigação de falar bem. Mas o Sérvulo Esmera Ido vai na FundiçãoCearense, manda o operário soldar., Obra de arte é como um filho. Eu só digo que a obra de arte é minha quando eu faço. Eu só digo qu~ o filho é meu se eu comi a mulher.

E n t r e v i s t a - M a s 110i n i c i o v o c é n ã o s o l d a v a a s s u a s p e ç a s . . .

Zé Pinto - Ah, sim. No começo. Mas ..

E n t r e v i s t a - . . . A l a s e s s a s o b r a s e r a m c o m o f i I I / O s t a m b é m ?

Zé Pinto - Eram, mas eram filhos rejeitados, né? Não era um filho

as-sIm ..

E n t r e v i s t a P o r c a u s a d e s s a s e n s a -ç ã o , q u e a c o i s a n ã o e r a b e m s u a , q u e v o c ê a p r e n d e u a m e x e r c o m a s o l d a ?

Zé Pinto --É .Fui soldar. Porque eu mentia, dizia 'que tinha sido eu que tinha feito. Fui comprar uma pistola, no seu Ivan de Castro AI ves (empre-sário). Disse: "Seu Ivan, me aj ude a não mentir". "Em quê?" "M~ ven-da uma máquina de solven-da." Eu não souU I11bom soldador, exímio solda-dor, mas eu aprego as peças. Os soldadores profissionais fazem uma solda bem feita. Eu não sei ainda. Aprendi comigo mesmo, ninguém me ensinou. Acho bom trabalhar, trabalho mais à noite, vou até 11 horas da noite. Não tenho hora pra nada. Tô lá em casa, me levanto, vou trabalhar, depois vou dormir. Durmo qualquer hora do dia, trabalho qual-quer hora. Graças a Deus que já tô

A sa la d a ca sa d e Z é P in to éd e co ra d a co m vá rio s q u a d ro s d o fi-lh o m a is ve fi-lh o , G e ra r-d o , fa le cid o a o s 3 6 a n o s, n o R io d e Ja n e i-ro .

Q u a n d o d o p rim e iro co n ta to p e sso a l co m Z é P in to , A n a M a ria e D ja n e , d a e q u ip e d e p ro d u çã o , fica ra m e s-p e ra n d o m e ia h o ra s-p o r e le .

Z é P in to ch e g o u n a ve -lh a b icicle ta , co m ce -lim fo rra d o d e cu ch im . E le e sta va to d o su jo d e g ra xa , d e ca lça , ca -m isa e sa n d á lia s h a

-va ia n a s.

GFEDCBA

(7)

N o b a t e - p a p o n a c a s a d e le , Z é P in t o d e c la -r o u - s e f ã d e M a d o n n a . C o m p a r o u - a c o m M a r y lin M o n r o e , m a s p a r a e le a p o p s t a r n ã o

t e m

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o m e sm o " t c h a n " .

Z é P in t o p e r c e b e u a a lia n ç a d e n o iv a d o n o d e d o d e u m a d a s a lu -n a s . P e r g u -n t o u s e e la

ia ca sa re a c o n s e lh o u : " F a ç a is s o n ã o .; "

Q u a n d o f o i s e r v id o d e s a lg a d in h o s e r e f r ig e -r a n t e , Z é P in t o in t e r -r o m p e u u m a r e s p o s t a e b r in c o u : " O h , p r o -f e s s o r b o m , n ã o é?"

46

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c e r m t o E n t r e v i s t a

aposentado, não sou mais funcioná-rio pra obedecer relógio.

E n t r e v i s t a - - D e p o i s q u e v o c ê c o m e -ç o u a t r a b a l h a r c o m a s o l d a n o t o u a l g u m t i p o d e m u d a n ç a , d e e v o l u ç ã o n o s e u t r a b a l h o ?

Zé Pinto --É, só dá certo eu fazer.

E n t r e v i s t a - - C o m t o d o e s s e t e m p o , e x p e r i ê n c i a d e t a n t o s a n o s d e v i d a , v i a g e n s a o e x t e r i o r . . . H á a l g u m t i p o d e e v o l u ç ã o n a e s s ê n c i a d e s u a o b r a ? Zé Pinto --Éclaro. Quando vejo as primeiras peças que eu fiz e as de hoje, as de hoje têm muito aprimora-mento.

E n t r e v i s t a - - V o c i t e m a l g u m t e m a p r e f e r i d o p a r a . . .

Zé Pinto --Muié, muié, muié!

E n t r e v i s t a - - V o c ê p e n s a e m u m d i a s e a p o s e n t a r d a a r t e ?

Zé Pinto --Hum, só quando eu mor-rer! Deus me livre! Ave-Maria! Eu tenho um prazer tão grande na minha arte! Eu não ganhei ainda dinheiro na minha arte. Ganho, mas ... Não sei se é porque eu gasto, mas dinheiro é como mulher. Se a gente não comer, os outros comem. A gente tem que usar. Desculpa aí, mas a história é assim mesmo.

Elltrevista-

V a m o s f a l a r d i s s o : v o c ê g o s t a d e m u l h e r , d e n a m o r a r . E d i s s e q u e t e m d e z f i l h o s . D e z q u e v o c ê s a b e o u t e m c e r t e z a ?

Zé Pinto -- Tenho certeza. Porque quem faz menino na mulher dos ou-tros perde o menino. E aí é chato como todo. Eu fiz dez meninos em casa, sete homens e três mulheres. E criei-os. Ontem nasceu minha "ônzima" neta, lá em Brasília.

E n t r e v i s t a - - N e s s a s s u a s a n d a n ç a s p o r a í . . .

Zé Pinto -- Não, não. Pelejei pra comer uma americana. Lá é muito cheio de frescura, pro cara pegar uma mulher. Eu só passei um mês. Agora, tenho muita vontade de ir á Alemanha. Se pegasse uma louri-nha, daqueles cabelinhos ... Eu quero ir. Ontem vendi uma peça a uma alemã e pedi que ela arranjasse uma exposição pra mim. Eu quero ir en-quanto eu tô em forma, quero ir bem bacana, e andar e conhecer e fazer um bocado de coisa.

E n t r e v i s t a - - O s a r t i s t a s p l á s t i c o s d a q u i d o C e a r á , t e m a l g u m q u e s e j a s e u a m i g o , q u e t e n h a l h e a j u d a d o ? E n t r e v i s t a - - N ã o . S ó a m i g o , m a s e s s e n e g ó c i o d e a j u d a r . . . S ó c o n t o c o m i g o m e s m o , c o m a m i n h a f o r ç a d e v o n t a d e , c o m D e u s . T e n h o m a i s

nas pessoas que me ajudaram com-prando peças, adquirindo. Por exemplo, na firma J. Macedo: as pessoas do grupo são boas pra mim, me compram peças. Quando eu tô precisando vou lá e vendo peças a eles. Eu vivo muito trabalhando. Não tenho tempo assim de andar no meio. Acho que eles me separam, mas tam-bém não faço questão. Gosto muito de trabalhar, porque dignifica as pes-soas. E o que eu tenho pra mostrar é o meu trabalho. Eu devia ter trazido alguma peça, nera?

E n t r e v i s t a - - T e m a l g u m a c o i s a q u e n ã o f e z e g o s t a r i a d e f a z e r ?

Z éPinto --Éir à Alemanha, comer uma alemãzinha. Sabe, eu quero ir à Europa. Tenho muita vontade de ir á

Alemanha. Ainda vou.

E n t r e v i s t a - - V o c ê p e n s a e m m o r a r e m a l g u m o u t r o l o c a l ?

Zé Pinto --Não tenho mais preparo fisico pra mudar, não. É se acabar aqui mesmo. Mas, passear. .. Passe-ar, não. Ir lá, fazer uma exposição. E voltar, porque aqui é a minha terra. Por exemplo, fiquei louco por New Hampshire. A gente vê aqui tanta miséria, tantorneninopassando fome, tanto ladrão, as pessoas não têm o que comer. Lá nos Estados Unidos eu vi uma coisa ... Eu tava numa exposi-ção, num lugar lá. E mandaram pra mim um velocípede enorme, usado. Pra eu transformar, Eu mandei cha-mar mister Davis, fala bem português, é louco pelo Ceará. Eu disse: "Mis-ter Davis, vamos dar o velocípede pra um menino pobre?" Ele se abai-xou e disse: "Aqui não tem menino pobre". Pois é ... Eu fiquei morrendo de inveja. Eu tinha vontade de morar lá. Mas não dava mais. Étão bom que os americanos não querem ninguém lá, tão é botando pra fora. O Maurício Albano (fotógrafo cearense) foi co-migo. A gente foi, mas é assim: a passagem, havia tal hora, tal dia pra vir. Pra ir pra Nova York, não podia antecipar. Passamos uma noite e um dia, na hora tal tem que pegar o vôo. Levam lá, mas é pro sujeito vir, marcam a hora pra voltar.

E n t r e v i s t a - - V o c ê f o i c o n v i d a d o a s e r v e r e a d o r d o s e u b a i r r o e n ã o a c e i t o u . P o r q u ê ?

Zé Pinto --A minha arte é tão subli-me, tão bom. Se eu fosse vereador não tava aqui com vocês. Tô aqui por causa da arte. Os governadores pas-sam e os artistas ficam.

E n t r e v i s t a N a s u a c a s a , n a B e z e r -r a d e M e n e z e s , t i n h a u m a g a l e r i a d e a r t e e u m r e s t a u r a n t e . . .

Z éPinto --A galeriazinha tá lá. Mas

o restaurante papocou. Era bonzi-nho, mas nós fizemos uma reformae demoramos seis meses. O restauran-te ficou lá dentro, num salão enorme. As pessoas passavam, pensavam que não tinha mais. A freqüência caiu e meu filho disse: "Pai, vou acabar com o restaurante". E botou uma oficina de carro. Ébom, eu consigo as sobras das peças. Vocês não estão enjoados, não?

E n t r e v i s t a - - V o c ê f a l o u q u e e r a l i s o . . .

Zé Pinto -- Liso, liso, liso, não. É

porque eu sou um pai besta, tenho um bocado de filho. E o filho não tá numa situação boa, eu chego junto.

E n t r e v i s t a - - E s s e s s e u s j i l h o s , q u e f a z e m t r a b a l h o s d e a r t e , e l e s c o n t i

-n u a m ?

Z éPinto --O mais velho era um bom artista, arquiteto. Morreu lá no Rio, teve um derrame com 36 anos. O mais velho. O outro tá na Bahia, Salvador. Andou em São Paulo, An-dou na Itália. Tem outro que faz um trabalho de pedras, muito bonito. Hoje ele é veterinário, casou, tem três filhos. Éum grande artista, mas preferiu se formar, tá até no Maranhão. O meu jeito de ser artista é trabalhar. Pra mim tudo se resume no trabalho. "O valor do homem é o trabalho, o caralho e a desgraça é o baralho."

E n t r e v i s t a - - N o s e u t r a b a l h o , o q u e l h e d á m a i s s a t i s f a ç ã o ?

Z é Pinto --Étrabalhar. Quando es-tou trabalhando eu tô em órbita, num estado de graça.

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