UM GRITO PARADO NO AR
: A CRYPTO-ARGUMENTAÇÃO
SOB O ENFOQUE DA GRAMÁTICA SISTÊMICO-FUNCIONAL
MESTRADO EM
LINGUÍSTICA APLICADA E ESTUDOS DA LINGUAGEM
DEBORA RUIZ OMAKI
UM GRITO PARADO NO AR
: A CRYPTO-ARGUMENTAÇÃO
SOB O ENFOQUE DA GRAMÁTICA SISTÊMICO-FUNCIONAL
Dissertação apresentada à Banca Examinadora
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, em atendimento à exigência parcial para
obtenção do título de Mestre em Linguística
Aplicada e Estudos da Linguagem.
Orientadora: Profª. Dra. Sumiko Nishitani Ikeda
BANCA EXAMINADORA
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DEDICATÓRIA
À minha mãe,
que tornou mais um sonho possível.
Aos meus amores,
Mozer e Júlia, pela motivação em cada passo.
Às mulheres sempre presentes em minha vida,
Noriko, Kyoko, Izabel e Clara Omaki, que me ensinaram
AGRADECIMENTOS
À Profa Dra. Sumiko Nishitani Ikeda pela colaboração em meu
desenvolvimento pessoal e intelectual com muita paciência e sabedoria.
Às Professoras Dra Maria Antonieta Alba Celani e Dra. Leila Barbara pelo
incentivo e pela atenção dedicada.
Ao meu pai, pelo carinho e incentivo.
Aos meus colegas de palco, da peça Um Grito Parado No Ar, que me
auxiliaram na pesquisa para esse estudo.
A Adal Viviani que, por inúmeras vezes, indagou-me sobre o mestrado.
A Fernando Effori por valiosas conversas e sugestões.
À Janaína Martins, pelo companheirismo e auxílio para conclusão deste
"É ingênuo perguntar se depois de ver uma peça teatral, pode transformar-se a opinião solidamente estabelecida de uma pessoa. [...] Uma criatura que tem pontos de vista sólidos dificilmente se transformará por obra de uma peça teatral. Seria mais viável, naturalmente se se tratasse de jovens ou de alguém cujas tendências se harmonizassem com a predisposição da peça.
O teatro brechtiniano abre especulações ao espectador, o que já é muito, o máximo, para uma obra que quer comunicar-se com o público."
O objetivo desta pesquisa, de cunho crítico, é examinar, sob o enfoque da
Gramática Sistêmico-Funcional (GSF), a peça teatral Um grito parado no ar, de Gianfrancesco Guarnieri (1973). A peça está centrada nas tentativas de um grupo
teatral de levar a termo sua realização, oferecendo por meio de metáforas - como
afirmam vários autores - um retrato da situação de isolamento a que foi confinada a
sociedade brasileira nos anos sessenta. Nesta pesquisa, tento entender o modo
como o autor pôde traçar esse retrato, para transmitir uma mensagem que
contrariava a ordem vigente. Notemos que o texto de Um grito parado no ar, não traz, na sua superfície, esse tropo da linguagem figurativa, definido como uma
palavra ou frase que causa tensão semântica; e não há a ocorrência de metáforas
como as tratadas em Metaphors We Live By. Diante desse contexto, decidi-me a
seguir outro caminho, o da alegoria, uma "metáfora continuada". Uma alegoria é
uma figura de linguagem de uso retórico, que produz a virtualização do significado,
que consiste em transmitir um ou mais sentidos além da simples compreensão
literal. Esse processo tem sido chamado de "crypto-argumentação", a argumentação
secreta, construída por meio de instrumentos retóricos empregados no nível
interpessoal como veículos discretos para expressar um argumento do nível do "não
dito", o nível da coerência subjacente do texto. É nesse nível que estaria a meta do
texto de Guarnieri. A pesquisa deverá responder às seguintes perguntas: (a) Como é
construída essa alegoria em Um grito parado no ar? (b) Quais são as escolhas léxico-gramaticais feitas pelo autor para essa construção? A pesquisa, apoia-se na
Linguística Crítica, interessada no questionamento das relações entre signo,
significado e o contexto sócio-histórico, que governam a estrutura semiótica do
discurso, e tenta relacionar a noção macro da ideologia às noções micro dos
discursos e das práticas sociais de membros de grupo, estabelecendo um elo entre
o social e o individual, o macro e o micro, o social ao cognitivo, graças aos recursos
oferecidos pela GSF. Essa teoria, através das contribuições que tem recebido,
permite tratar das avaliações implícitas, por meio dos tokens de Atitude, que envolvem assuntos como 'o apito do cão' ou o 'contrabando de informação'.
The aim of this research is to critically evaluate Gianfrancesco Guarnieri's play “A Scream Holding in Mid-air” (“Um grito parado no ar”, 1973) in the light of Systemic Functional Grammar (SFG). The play centers in the efforts of a theater group of
accomplishing its goal, and offering - as many critics point out - a portrayal of the
isolation to which Brazilian society was confined to the sixties. In this research I tried
to understand how the author could sketch this portrait, and relay a message that
was against the ruling order. It should be noted that the text of “A Scream Holding in Mid-air”, does not contain, in the surface, a trope of figurative language, defined as a word or sentence to cause semantic tension; and there are no metaphors as
understood in 'Metaphors We Live By'. In this context, I decided to go another way, the way of the allegory, of an "extended metaphor”. An allegory is a rhetorical figure
of speech that produces meaning by virtually conveying one or more meanings
beyond the mere literal comprehension. This process has been called
“crypto-argumentation” or secret argumentation, established through rhetorical devices that
are employed at the interpersonal level as unobtrusive vehicles for conveying an
argument at the level of 'the unsaid', the level of the underlying coherence of the text.
It is in this level that the goal of Guarnieri's text lies. The research answers the
following questions: (a) How are the allegories constructed in “A Scream Holding in Mid-air”? (b) What are the lexico-grammatical choices made by the author in said constructions? The research is based on Critical Linguistics, interested in questioning
the relationship between sign, meaning and the social-historical context, which
govern the semiotic structure of discourse and attempts to relate the macro notion of
ideology to the micro notions of discourses and social practices of members of a
group, establishing links between the social and the individual, the macro and the
micro, the social and the cognitive, thanks to the resources provided by the SFG. This
theory, through the contributions it has received, allows dealing with implicit
evaluations through tokens of attitude that include subjects as 'dog whistle' or the
'smuggling of information'.
LISTA DE FIGURAS
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Componentes do sistema de transitividade... 27
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 13
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 21
2.1 A perspectiva da Gramática Sistêmico-Funcional ... 21
2.2 A Teoria de Gêneros e Registros ... 24
2.2.1 Campo ... 26
2.2.1.1 A transitividade... 26
2.2.1.2 A Seleção Lexical ... 28
2.2.2 Relações... 29
2.2.2.1 Os papéis sociais ... 29
2.2.3 Modo... 30
2.3 A Avaliatividade: sua realização prosódica e os tokens de Atitude ... 31
2.3.1 Atitude ... 32
2.3.1.1 O "apito do cão" - O "mundo textual" - O "contrabando de informação" ... 34
2.3.2 Compromisso ... 36
2.3.3 Graduação ... 37
2.4 A persuasão ... 38
2.5 O dialogismo e suas ramificações ... 39
2.6 A ambiguidade estratégica ... 42
2.7 A Linguística Crítica ... 44
3 METODOLOGIA ... 46
3.1 Dados ... 46
3.2 Procedimentos de Análise ... 47
4 A ANÁLISE CRÍTICA DE UM GRITO PARADO NO AR ... 52
4.1 A perspectiva histórica de Um grito parado no ar ... 52
4.2 O título: Um grito parado no ar ... 53
4.3 A primeira minialegoria: A dificuldade financeira como impedimento da encenação da peça ... 55
4.3.1 Análise da representação da realidade: transitividade e papéis sociais ... 55
4.3.2 Avaliação da realidade: Avaliatividade e recursos retóricos ... 61
4.4 A segunda minialegoria: Alienação como impedimento da encenação da peça ... 64 4.4.1 Análise da representação da realidade: transitividade e papéis
sociais ... 64 4.4.2 Análise da avaliação da realidade: Avaliatividade e recursos
retóricos ... 68
4.5 A terceira minialegoria: Dificuldades de relacionamento como
impedimento da encenação da peça ... 71 4.5.1 Análise da representação da realidade: transitividade e papéis
sociais ... 71 4.5.2 Análise da avaliação da realidade: Avaliatividade e recursos
retóricos ... 74
4.6 A quarta minialegoria: Dificuldades consecução da arte como
impedimento da encenação da peça ... 76 4.6.1 Análise da representação da realidade: transitividade e papéis
sociais ... 76 4.6.2 Análise da avaliação da realidade: Avaliatividade e recursos
retóricos ... 79
UM GRITO PARADO NO AR: A CRYPTO-ARGUMENTAÇÃO SOB O ENFOQUE DA GRAMÁTICA SISTÊMICO-FUNCIONAL
1 INTRODUÇÃO
A peça teatral Um grito parado no ar, de Gianfrancesco Guarnieri (1973), classificada pelo autor como "teatro de ocasião", evidencia, segundo Peixoto (2009),
a forte censura imperante no auge da ditadura militar, e está centrada nas tentativas
de um grupo teatral de levar a termo sua realização, oferecendo através de
metáforas (GUZIK, 2004; PRADO, 2001; MONTEIRO, 2007) um retrato da situação
de isolamento a que foi confinada a sociedade brasileira nos anos setenta.A peça
garantiu ao autor os prêmios de melhor autor da Associação Paulista dos Críticos de
Artes (APCA), o Molière e o Governador do Estado.
O caráter da expressão metafórica da peça é citado por vários autores.
Assim, Guzik (2004), crítico teatral, afirma que:
Entre os textos que produziu nessa década destacam-se em
especial, Castro Alves Pede Passagem, Um grito parado no ar e Ponto de Partida. São peças ímpares, que abriram caminhos de diálogo com a plateia através de metáforas, de história
figuradas que, no entanto, passavam mensagens claras de
resistência, de busca pela liberdade. (GUZIK, p. 204 apud
ROVERI, 2004).
Almeida Prado (2001), em O Melhor Teatro de Gianfrancesco Guarnieri, diz:
só restavam após 1968 duas alternativas, ambas insatisfatórias:
ou o silêncio, a peça guardada na gaveta, hipótese que não
sorria a Guarnieri por assemelhar-se a uma demissão, a um
ensarilhamento de armas, ou o emprego da metáfora,
trabalhada em dois sentidos, como obra de arte autônoma e
como índice, ainda que distante, daquilo que diria o autor se
E para Monteiro (2007):
Um grito parado no ar, a metáfora da resistência, discute no
palco a problemática do esmagamento da classe teatral, e do
teatro evidenciando, nas entrelinhas, a realidade objetiva de um
sistema social que tirou do povo o direito de manifestar-se
(MONTEIRO, 2007, p.24).
O que me leva a estudar essa peça, que foi apresentada no Teatro
Commune, de 20 de janeiro a 25 de fevereiro de 2011, e em que fiz parte do elenco,
é tentar entender, por meio da análise linguística do discurso, o modo como são
criadas as metáforas por meio das quais o autor pôde traçar esse retrato, para
transmitir uma mensagem que contrariava a ordem vigente. O autor teria recorrido à
metáfora, que é, segundo Charteris-Black, (2004), uma dessas escolhas linguísticas
que escondem processos sociais subjacentes, cuja análise pode ajudar a identificar
o conteúdo textual implícito. Desse modo, a metáfora é um conceito relativo e não
absoluto. É relativo porque os significados das palavras mudam no decorrer do
tempo, tanto que o que era metafórico pode tornar-se literal e também porque a
consciência da metáfora depende em parte dos usuários da língua, isto é, em sua
experiência de língua. O que é pretendido como metáfora pode não ser interpretado
como tal.
Dado que não há total consenso sobre o que seja ou não uma metáfora, ou
sobre quanto o uso de uma palavra ou frase possa ser uma metáfora, pode ser que
definições de metáfora precisem incorporar orientações linguísticas, pragmáticas e
cognitivas, segundo Charteris-Black. O termo 'metáfora' pode referir-se a um
conjunto de características linguísticas, cognitivas e pragmáticas, em que todas ou
qualquer delas estarão presentes em graus variados. A metáfora não é, então, um
fenômeno exclusivamente ou linguístico, ou pragmático, ou cognitivo.
Notemos, contudo, que o texto de Um grito parado no ar, não traz, na sua superfície, esse tropo da linguagem figurativa (VELASCO-SACRISTÁN, 2010),
definido como uma palavra ou frase que causa tensão semântica. Não há ocorrência
de metáforas como as tratadas em Metaphors We Live By, por Lakoff e Johnson (1980), tais como as metáforas estruturais, ontológicas, de orientação, em que, em
geral, um alvo abstrato é explicado por uma fonte concreta. Cabe aqui uma
metáforas citadas pelos dois autores, e que estariam "presentes na vida cotidiana"
(LAKOFF; JOHNSON, 1980, p. 3). Krennmayr verificou que, pelo contrário, a
maioria delas vinha de trabalhos relacionados aos próprios autores. Assim, continua
ele, "criamos uma classe de metáforas cujo aparecimento em 'dados de linguagem
natural' é devido ao uso da linguagem de linguistas" (KRENNMAYR, 2012, p. 116).
Diante desse contexto, decidi-me a seguir outro caminho, o da alegoria, uma
"metáfora continuada", segundo Lausberg, 1967, p. 283):
A alegoria é a metáfora continuada como tropo de pensamento,
e consiste na substituição do pensamento em causa por outro
pensamento, que está ligado, numa relação de semelhança, a
esse mesmo pensamento (LAUSBERG, 1967, p. 283)
OU:
[...] expressão alegórica, técnica metafórica de representar
abstrações (HANSEN, p. 7).
porém sem envolver a expressão de metáforas consagradas desde Metaphors we live by.
A alegoria (do grego , allos, "outro", e , agoreuein, "falar em
público") diz b para significar a, segundo Hansen (2006). Uma alegoria é uma figura
de linguagem, diz o autor, mais especificamente de uso retórico, que produz a
virtualização do significado, que consiste em transmitir um ou mais sentidos além da
simples compreensão literal. Assim, pode-se considerar que, por meio da alegoria,
Guarnieri denuncia, na peça, ou seja, a "micro" estrutura, nos termos de Li (2010), a
situação por que passava o povo brasileiro da época, a "macro" estrutura (LI, 2010),
do silêncio imposto pela ditadura militar, segundo os autores acima consultados.
A leitura de Kitis e Milapides (1997) pareceu-me indicar o caminho por onde
eu poderia apoiar minha análise. Dizem os autores que, embora possa ser afirmado
que a linguística crítica deve examinar a língua como discurso, i.e., como texto
inserido nas condições sociais de produção e interpretação (FAIRCLOUGH, 1992;
HODGE; KRESS, 1988), é possível também que, por meio de uma análise
linguística completa, com o emprego de todos os métodos e instrumentos que a
"leitura detida" (close reading) de um texto pode contribuir significativamente para a realização das condições sociais que governam os atos de produção, bem como da
interpretação e consumo de textos.
Mas, para conseguir esses resultados, i.e., continuam os autores, para
desenredar essas condições e sua contribuição para a geração de complexos
ideológicos, a análise linguística não pode restringir-se a examinar as unidades
gramaticais como sentenças isoladas ou estruturas menores do texto, como se tem
feito nas abordagens tradicionais, mas, sim, examinar essas estruturas gramaticais e
lexicais incorporadas na formação geral do texto. Mais ainda, o foco deve recair em
traços organizacionais de nível superior bem como nas estruturas retóricas, nas
relações semânticas e pragmáticas que contribuem para o estilo geral do texto,
produzindo assim versões da realidade e das ideologias.
Kitis e Milapides (1997), ao mesmo tempo em que prestam atenção às
estruturas léxico-gramaticais do texto, visualizam essas estruturas dentro da
estrutura de uma metáfora construída subjacentemente, que não somente permeia e
domina todo o texto, mas também forma o esqueleto da estrutura argumentativa. O
que é colocado em primeiro plano, nessa análise multi-nivelada é a preponderância
de certas hipóteses de natureza ideológica, que, embora não forme parte da
estrutura formal do texto, são aspectos de interpretações subrepticiamente inseridas
no subtexto do texto. A esse respeito, FlØttum cita Eisenberg (apud Leitch e Davenport 2007, p. 444), que fala em "ambiguidade estratégica", para quem, essa
estratégia serve para caracterizar situações nas quais a língua é "intencionalmente
expressa de maneira ambígua para exercer certas metas".
A esse processo, Kitis e Milapides chamam de "crypto-argumentação", a
argumentação secreta, construída por meio de instrumentos retóricos empregados
no nível interpessoal como veículos discretos para expressar um argumento do nível
do "não dito", o nível da coerência subjacente do texto. É nesse nível que estaria a
meta do texto de Guarnieri.
Assim, coloco-me no terreno do que Fowler (1991) chamou de Linguística
Crítica (LC), proposta interessada no questionamento das relações entre signo,
significado e o contexto sócio-histórico, que governam a estrutura semiótica do
discurso, usando um tipo de análise linguística, para a qual indicam a Gramática
há, sempre, valores implicados no uso da língua, deve ser justificável praticar um
tipo de linguística direcionada para a compreensão de tais valores. A LC procura,
estudando detalhes da estrutura linguística à luz da situação social e histórica de um
texto, trazer para o nível da consciência - de quem aceita o discurso como "natural"
os padrões de crenças e valores que estão codificados na língua – e que estão
subjacentes ao texto.
Nesse sentido, recorro a Li (2010), que, com apoio em Van Dijk (1993, 1997),
tenta relacionar a noção macro da ideologia às noções micro dos discursos e das
práticas sociais de membros de grupo, estabelecendo um elo entre o social e o
individual, o macro e o micro, o social ao cognitivo. Li, também, apoia-se a uma
metodologia que se apoia na gramática-da-oração - a Gramática
Sistêmico-Funcional, de Halliday (2004) - para explicar como os traços do texto na superfície e
a estrutura superficial comunica ideologias específicas e identidades de grupo no
nível profundo.
Para Halliday, a língua está estruturada para servir à função de construir
significados - três, para ele - experiencial, interpessoal e textual, distintos, porém simultâneos. Essa concomitância é possível porque a língua possui um nível
intermediário de codificação: a léxico-gramática. É esse nível que possibilita à língua
estruturar conjuntamente três significados, e que entram no texto através das
orações. Entendida assim, a teoria permite reunir a noção macro da ideologia com a
noção micro das estruturas linguísticas, das escolhas léxico-gramaticais. Daí a razão
de Halliday dizer que a descrição gramatical é essencial à análise do discurso. A
GSF, através das contribuições que tem recebido, permite tratar das avaliações
implícitas, por meio dos tokens de Atitude (Martin, 2000), que envolvem assuntos como 'o apito do cão' (COFFIN; O'HALLORAN, 2006) ou o 'contrabando de
informação' (LUCHJENBROERS; ALDRIDGE, 2007).
Por outro lado, como se trata de uma peça teatral, um texto multimodal, que
conjuga essencialmente dois meios de comunicação, a linguagem e o visual,
poder-se-ia argumentar que uma análise cabal de Um grito parado no ar teria início no elemento linguístico, mas só se completaria quando representada no palco. Porém
decidi-me a deixar a parte do exame da questão visual para uma etapa posterior ao
O objetivo desta pesquisa de cunho crítico, examina, sob enfoque da GSF, a
alegoria que retrata nas situações mostradas na peça teatral Um grito parado no ar, de Gianfrancesco Guarnieri (1973), as situações vividas pelo povo brasileiro, com a
qual o autor tenta conscientizar seu público a respeito da época da ditadura, nos
idos de 60. A pesquisa deverá responder às seguintes perguntas: (a) Como é
construída essa alegoria em Um grito parado no ar? (b) Quais são as escolhas léxico-gramaticais feitas pelo autor para essa construção?
Antes de passar a tratar das teorias que embasam a minha análise, faço um
parênteses para falar do contexto histórico da época da peça Um grito parado no ar e do autor, Guarnieri.
O CONTEXTO HISTÓRICO E O POSICIONAMENTO DE GUARNIERI
Para que possamos analisar a ideologia da época, faz-se necessário abordar
a ditadura instaurada de 1964 a 1985. Período crucial da história brasileira –
marcada pela tortura, coerção e extermínio - e que nos leva a entender a escolha
de Guarnieri em lutar através da arte e das palavras, utilizando como principal
recurso a mensagem implícita em seu texto.
O golpe militar teve início pelo receio das classes conservadoras de um golpe
comunista. Durante o governo de João Goulart as organizações sociais ganhavam
espaço. Isso fez com que a classe média organizasse uma manifestação – A
"Marcha da Família com Deus pela Liberdade" contra as intenções da Reforma de
Base de João Goulart.
Guarnieri denominava-se como um artista que entendia o homem,
principalmente o homem brasileiro – objeto de sua preocupação. Suas peças
seguiam um movimento histórico e acompanhavam a realidade que estava sendo
vivida no país. Assim, a partir de 1964 inicia-se também a sua luta contra a
opressão.
Em seu livro Ditadura Escancarada, Elio Gaspari (2002) analisa o período de 1969 a 1974 e caracteriza-o como o mais duro período da ditadura militar. Ao
aparecimento da TV em cores, das inéditas taxas de crescimento econômico e de
um regime de emprego – o milagre brasileiro.
O milagre brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos. Ambos reais,
coexistiram negando-se. Passados já há alguns anos, ainda continuam negando-se.
Quem acha que houve um, não acredita que houve o outro. Por essa razão, foram
inúmeras as tentativas de Guarnieri em evidenciar ao seu público a ditadura
dominante da época.
Em setembro de 69, o governo decreta a Lei de Segurança Nacional que
ordenava o exílio e a pena de morte em casos de “guerra psicológica adversa ou
revolucionária, ou subversiva”. Assim, neste mesmo ano, Marighella é morto pelas
forças de repressão em São Paulo.
Na arte, esse período também mostrou o lado mais terrível da ditadura.
Começaram as ameaças de bombas. Os grupos teatrais recebiam telefonemas
informando que o teatro continha bombas escondidas. Isso fazia com que a
companhia fosse obrigada a chamar o DOPS que jamais as encontrava, mas
provocavam os atores afirmando que mesmo assim o teatro ainda poderia explodir.
Guarnieri, no livro, Um Grito Solto no Ar, revela que as apresentações sempre continham quatro homens armados, com revólveres à mostra, encostados na
parede. Por vezes, obstruíam a passagem para que os atores esbarrassem e
notassem as armas carregadas. O elenco era obrigado a trabalhar em meio a
ameaças, via telefone, e policiais armados na plateia. Nesse ano, Guarnieri se vê
obrigado a fugir para Argentina, por três meses, com o amigo e ator Juca de
Oliveira. Em poucas semanas de volta a São Paulo é intimado a prestar audiência
no DOPS.
Em 1973, ano em que Um Grito Parado no Ar é escrito e encenado, o DOPS
paulista prepara uma cartilha em que a palavra “Torturadores” apresenta o seguinte
significado: “Expressão utilizada pela subversão para designar todos aqueles que se
empenham ou colaboram na prisão de subversivos terroristas”. Documento de
circulação interna que insinuava que os torturadores não seriam só aqueles que
espancavam presos, mas todos os que colaboravam no combate à subversão
(GASPARI, 2002 p.25). Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog á assassinado nas
Fiel Filho aparece morto em situação semelhante. Em 1978, Geisel acaba com o
AI-5, restaura o habeas-corpus e abre caminho para a volta da democracia no Brasil.
GIANFRANCESCO GUARNIERI
Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Martinenghi de Guarnieri (1934 a 2006) foi
um renomado ator, diretor e dramaturgo brasileiro. Nascido em Milão, filho de
músicos, chega os Brasil em 1936 para dar brilho ao teatro brasileiro na época da
ditadura.
Em seu livro Um grito solto no ar, Sérgio Roveri (2004) relata a história de Guarnieri. Nascido em 06 de agosto de 1934, Gianfrancesco Sigfrido Benedetto
Martinenghi de Guarnieri entrou para a história do teatro, após exibir a realidade de
um tipo de herói até aquele momento pouco afeito às encenações: o homem do
povo, com tudo aquilo que ele poderia reunir de mais sublime e mais mesquinho de
mais corajoso e mais covarde de mais divino e mais sorrateiramente humano. Um
herói que o público iria aprender a reconhecer num ponto de ônibus, na fila do
desemprego, nos piquetes, na casa ao lado, na quermesse da igreja e, acima de
tudo, no espelho.
Guarnieri escreveu mais de 20 peças e atuou em perto de 40 espetáculos e
igual número de novelas. Se tivesse de escolher entre as credenciais de autor, ator,
diretor ou músico para se apresentar, é muito provável que Guarnieri não ficasse
com nenhuma delas. Na certa optaria por outra atividade - a de sobrevivente. “Sou
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Apresento, aqui, as teorias que fundamentarão a minha análise de Um Grito Parado no Ar, de Guarnieri. A análise se apoia basicamente na Gramática Sistêmico-Funcional (GSF) (HALLIDAY, 1994), uma teoria e metodologia sugeridas
por analistas críticos do discurso como a mais indicada para essa finalidade, graças
à sua natureza multifuncional, abrangendo a informação, a interação e a construção
do texto. A GSF envolve a proposta da Linguística Crítica (FOWLER, 1991) e
também a noção de Avaliatividade (MARTIN, 2000; 2003), que trata das avaliações
explícitas e implícitas, importantes na realização da persuasão. Outros recursos
importantes na construção da retórica do texto também serão levados em
consideração, tais como, o dialogismo e a ambiguidade estratégica, que apoiam a
denúncia implícita da infra-estrutura repressiva que cercava a realização da peça de
Guarnieri.
2.1 A perspectiva da Gramática Sistêmico-Funcional
Há quatro pontos que caracterizam a abordagem da Gramática
Sistêmico-Funcional (GSF): (i) o uso da língua é funcional; (ii) a função da língua é construir
significados; (iii) a construção do significado é feita através de escolhas
léxico-gramaticais: a noção de escolha é cara à GSF, segundo nota Eggins (1994); (iv) os
significados sofrem a influência do contexto social em que são intercambiados.
A língua é vista na GSF como uma prática social, o resultado da interação
entre os seus dois aspectos fundamentais – a sistematicidade e a funcionalidade (MARTIN, 1997). Crucial para esse estudo, segundo Gales (2011), é a
funcionalidade, que se revela no discurso por meio da estrutura gramatical interna
da língua, entendendo-se, assim, que as funções da língua ditam a sua forma e a
sua estrutura (HALLIDAY, 1978).
A língua é considerada um recurso para fazer significado: o código como um recurso sistêmico, um potencial de significado; o comportamento como a realização
desse potencial de significado em situações da vida real. Nesse processo de
realização, a língua funciona para preencher uma série de necessidades humanas, e
língua, em sua organização como um sistema" (HALLIDAY, 1973, p. 20). Uma
descrição sistêmica tenta interpretar simultaneamente tanto o código quanto o
comportamento, para especificar os sistemas dos quais se deriva um item
linguístico, isto é, as escolhas incorporadas naquele item (HALLIDAY, 1994).
As funções da língua, que preenchem uma série de necessidades humanas,
estão categorizadas sob um guarda-chuva de três metafunções, a saber, a
ideacional, a interpessoal e a textual, que são realizadas simultaneamente, segundo Halliday (1994). A metafunção ideacional refere-se à habilidade para
construir experiências humanas, nomeando entidades e construindo categorias e
taxonomias; a metafunção interpessoal permite que as pessoas interajam em
relações pessoais e sociais; a metafunção textual refere-se à possibilidade da
construção do texto para facilitar as outras duas metafunções, dando textura ao
texto para fazê-lo operacionalmente relevante (HALLIDAY, 1973; HALLIDAY;
MATTHIESSEN, 2004).
Como faz a língua para manipular três tipos de significados simultaneamente?
A língua possui um nível intermediário de codificação: a léxico-gramática. É este nível que possibilita à língua construir três significados concomitantes, e eles entram
no texto através das orações. Daí porque Halliday dizer que a descrição gramatical é
essencial à análise textual.
Os diferentes aspectos de significado das três metafunções estão
organizados em níveis. O nível mais básico (ou o mais concreto) do significado
refere-se à realização fonológica; seguindo-se para uma camada mais abstrata,
chega-se ao nível é o da léxico-gramática; em seguida o da semântica; e,
finalmente, o do contexto como o nível mais abstrato (HALLIDAY; MATTHIESSEN,
2004). As escolhas feitas num nível mais básico realizam escolhas de um nível
superior. Reciprocamente, as escolhas feitas no nível superior são realizadas por
escolhas de nível inferior. A léxico-gramática é, literalmente, o contínuo do léxico e
da gramática. A gramática é vista como um instrumento linguístico para ligar
seleções feitas nos vários sub-sistemas da língua, realizando essas seleções em
uma forma estrutural unificada (HALLIDAY, 1973).
Portanto, o processo envolvido no uso da língua é semiótico: um processo de
adquire significado contra um fundo em que se encontram as escolhas que poderiam
ter sido feitas (escolhas potenciais).
Alguns fatos mostram que língua e contexto estão interrelacionados, diz Eggins (1994):
a) somos capazes de deduzir o contexto de um texto: um texto carrega aspectos
do contexto em que foi produzido;
b) somos capazes de predizer a língua através de um contexto (em uma receita
culinária, podemos predizer o tipo de estrutura sintática e as palavras que
ocorrerão na receita); e
c) sem um contexto não somos capazes, em geral, de dizer o significado que está
sendo construído.
Portanto, ao fazermos perguntas funcionais, não é suficiente enfocarmos
somente a língua, mas a língua usada em um contexto. Mas quais as feições desse
contexto afetam o uso da língua? Para responder a essa questão, os sistemicistas
lançam mão de dois conceitos: gênero (contexto cultural) e registro (contexto situacional, com suas variáveis de: campo, relações e modo), além do contexto
ideológico. Gênero e registro constituem o contexto social: gênero (contexto
cultural), registro (contexto situacional). Gênero, registro e língua são sistemas
semióticos.
O gênero - contexto cultural - é um processo social (realizado através de interações entre falantes ou entre escritores e leitores), em etapas (passos
funcionais interativos), orientado por metas, e realizado através de registros (Martin,
1992, p.505).
O registro - contexto situacional - é constituído por três variáveis contextuais: campo, relações e modo, que realizam as metafunções ideacional, interpessoal e textual. Por sua vez, as variáveis de registro são organizadas pelas metafunções ideacional, textual e interpessoal. Mais especificamente, o campo põe os
significados ideacionais em risco; as relações, os significados interpessoais; e o
modo, os significados textuais (MARTIN, 1991, p. 125). Veja esquema dessa
Gênero
Registro
Língua
Figura 1 - Estratificação de gênero, registro e língua Fonte: Martin (1992, p. 495)
Para um entendimento desses conceitos, trago, a seguir, a Teoria de Gêneros
e Registro, de Eggins e Martin (1997), que poderá ajudar a transposição da peça
teatral para a realidade nacional da época.
2.2 A Teoria de Gêneros e Registros
Eggins e Martin (1997) propõem a Teoria de Gêneros e Registros (TGR),
uma teoria da variação funcional. Uma TGR útil é aquela que permite tanto a
predição textual quanto a dedução contextual. Isto é, dada a descrição de um
contexto, deverá ser possível predizer os significados que estarão "em risco" (serão
os mais possíveis de acontecer) e os traços linguísticos mais prováveis de serem
usados para a sua codificação. Da mesma forma, dado um texto, deverá ser
possível deduzir o contexto em que ele foi produzido, já que os traços linguísticos
selecionados no texto estarão codificando as dimensões contextuais, tanto no seu
contexto imediato de produção (registro) quanto na sua identidade do contexto
cultural (gênero), ou seja, a tarefa que o texto está cumprindo em determinada
cultura.
Para predizer e deduzir, o analista precisa ser capaz de relacionar categorias
do contexto com uma especificação detalhada dos padrões linguísticos. Isto é, a
TGR precisa fornecer uma metodologia para a análise textual e também precisa
fornecer uma explicação de como os contextos tanto cultural quanto situacional são
expressos sistematicamente nas escolhas linguísticas. Assim, um desenvolvimento
completo da TGR envolve tanto uma explicação detalhada da linguagem quanto
uma teoria do contexto e da relação entre ambas.
Um outro item da abordagem sistêmica, que trata do reconhecimento de que
abstrata, é aquele que poderíamos chamar ideologia, isto é, posições de poder, de vieses políticos e de suposições sobre o que os interlocutores trazem para seus
textos, fato que julgo importante em Um grito parado no ar.
Segundo Eggins, dos traços contextuais, há três áreas principais a examinar
num texto: (i) o conhecimento prévio trazido para os textos (campo); (ii) a quantidade
de atitude/avaliação expressa pelo escritor (relações); (iii) e o grau de formalidade
na linguagem usada (modo). O conhecimento prévio é também realizado por meio
de outros contextos e outros textos aos quais o produtor pressupõe que a audiência
tenha acesso. (Veja item sobre dialogismo mais adiante.)
A seguir, vem a explicação dessas características o que, como consequência,
vai delinear o contexto social em que o texto foi escrito. Cada texto carrega consigo
algumas influências do contexto em que foi produzido. Pode-se dizer que o contexto
entra no texto influenciando as palavras e as estruturas que o produtor usa.
São essas noções de significado no texto e sua correlação com as dimensões
contextuais, que dá à abordagem da TGR dois temas comuns. O que se deve ter em
mente na análise de Um grito parado no ar, é que esse processo ocorre de maneira implícita, exigindo a atenção do leitor para a crypto-argumentação - a argumentação
secreta, segundo Kitis e Milapides (1997) [Veja mais abaixo] - que vai sendo
construída por meio de uma alegoria.
• Primeiro, o foco na análise detalhada da variação dos traços linguísticos do discurso: isto é, há especificações explícitas, idealmente quantificáveis de
padrões gramaticais e semânticos do texto.
• Segundo, a abordagem TGR procura explicar a variação linguística pela referência à variação contextual: isto é, há elos explícitos entre traços do
discurso e variáveis críticas do contexto social e cultural empregados para
explicar o significado e a função da variação entre textos.
Ao aplicar este modelo, os sistemicistas apoiam-se na descrição
sistêmico-funcional detalhada da gramática do inglês feita por de Halliday (1985, 1994) e
Halliday e Matthiessen (2004) e que, igualmente, pode ser feita para o português,
como veremos.
2.2.1 Campo
As diferenças no campo são realizadas através (i) tanto das seleções de
transitividade (ii) quanto das seleções lexicais, que são – como mencionamos acima
– organizadas pela metafunção ideacional. Essa parte constitui a primeira etapa da
análise.
2.2.1.1 A transitividade
A transitividade é um conceito semântico fundamental em Halliday (1994).
Segundo ele, quando olhamos para a metafunção ideacional, estamos olhando para
a gramática da oração-como-representação, a língua como representação do
mundo. Uma oração baseia-se num núcleo semântico constituído por um processo, além de papéis exercidos pelos participantes e pela circunstância na estrutura de transitividade de uma oração.
Para o autor, as línguas capacitam o ser humano a construir um quadro
mental da realidade, para entender o que acontece ao seu redor e no seu interior.
Nossa impressão mais poderosa da experiência é de que ela consiste de 'eventos' –
acontecer, fazer, sentir, significar, ser e tornar-se. Todos esses eventos estão envolvidos na gramática da oração, por meio do sistema da transitividade.
A gramática distingue bem claramente entre experiência externa - os
processos do mundo exterior - e a experiência interna - os processos da
consciência. As categorias gramaticais são as de processos materiais e processos mentais. Mas há um terceiro componente a considerar: os de classificação e identificação: são os chamados processos relacionais. Além desses processos, existem outras categorias localizadas nos limites entre os três. No limite entre
material e mental, estão os processos comportamentais: aqueles que representam manifestações exteriores de atividades internas, a externalização de processos da
consciência e dos estados fisiológicos. No limite entre mental e relacional, está a
categoria dos processos verbais: relações simbólicas construídas na consciência humana e efetivadas na forma de língua como: dizer e significar. No limite entre
relacional e material, estão os processos que se referem à existência, os
Os participantes e as circunstâncias relacionados a esses processos são:
Quadro 1 - Componentes do sistema de transitividade
Processo Participantes
MATERIAL Ator, Meta
COMPORTAMENTAL Comportante
MENTAL Experienciador, Fenômeno
EXISTENCIAL Existente
RELACIONAL Identificativo: Característica, Valor Atributivo: Portador, Atributo
VERBAL Dizente, Receptor, Verbiagem, Receptor, Alvo
Opcionais: Extensão, Beneficiário
C I r c u n s t â n c i a s Fonte: Halliday (1994)
A transitividade tem-se provado extremamente iluminadora na linguística
crítica. Ela é a base da representação: é o modo pelo qual a oração é usada para
analisar eventos e situações como sendo de certo tipo. A transitividade tem a
facilidade de analisar o mesmo evento sob ângulos diferentes, o que é de grande
interesse na análise de um texto. Veja exemplos:
(a) Ele está sorrindo porque Maria chegou. (material)
(b) Agrada-lhe que Maria tenha chegado. (mental)
(c) Ele está feliz porque Maria chegou. (relacional)
Quando vemos alguma coisa, diz Halliday (1994), percebêmo-la como uma
peça inteira, mas se formos falar dessa mesma coisa, precisaremos analisá-la como
uma configuração semântica – isto é, precisamos representá-la como uma estrutura
de significado. Já que a transitividade possibilita fazer escolhas, estaremos também
omitindo algumas delas, de tal forma que a escolha que fazemos, ou melhor, a
escolha feita pelo discurso – indica o nosso ponto de vista e é, portanto,
ideologicamente significativa.
Nesse processo, Halliday cita como importantes duas transformações:
Passiva: Para a abordagem funcional, interessa saber por que existem as duas construções – ativa e passiva – se elas se equivalem na transitividade e
no conteúdo proporcional. Por que é necessária a passiva? A passiva
enfoca o paciente e permite suprimir o agente, o que é de particular
interesse em relatos de natureza oficial ou burocrática, diz o autor.
Nominalização: Pela transformação de nominalização, verbos e adjetivos podem ser realizados sintaticamente como nomes; ao lado desses nominais
derivados, há os nomes não derivados que designam ações e processos
e, não, objetos. O uso tanto de um quanto de outro é endêmico em
linguagem formal, e tem consequências estruturais extensas oferecendo
oportunidades ideológicas substanciais. Em uma nominalização, pode-se:
omitir os participantes (quem fez o que para quem?); omitir a indicação de
tempo e de modalidade, como nome, o elemento resultante, pode ser
avaliado ('leitura enfadonha').
Em Language and Control (FOWLER, HODGE, KRESS, TREW, 1979), a
nominalização é considerada potencialmente mistificadora, permitindo o
ocultamento, especialmente nas relações de poder, bem como o posicionamento do
escritor, além da reificação, quando processos e qualidades tomam o status de coisa
impessoal, inanimada.
2.2.1.2 A Seleção Lexical
O vocabulário pode ser considerado como uma representação do mundo para
uma cultura: o mundo como é percebido de acordo com as necessidades
ideológicas de uma cultura. O uso de cada termo cristaliza e normatiza as fatias
essencialmente artificiais cortadas do bolo do mundo. Para o analista crítico, é uma
tarefa elementar, mas fundamental, que ele mantenha constante atenção, no
discurso que estuda, os termos que ocorrem mais frequentemente, além do
segmento da sociedade analisado. Mesmo as palavras mais gerais são coloridas
pelo contexto, de tal modo que, cumulativamente, elas contribuem para consolidar a
variável campo do registro. É parte do nosso conhecimento comunicativo reconhecer
um determinado registro, e ser consciente de que ele marca social e
vocabulário não somente classifica a nossa experiência em termos gerais, mas faz
uma distinção detalhada entre classes de conceitos. A categorização pelo
vocabulário é uma parte integral da reprodução da ideologia.
Dois processos devem ser considerados: (a) a re-lexicalização, ou a
promoção de um novo termo para um novo conceito; (b) a super-lexicalização, ou
excesso de termos para entidades e ideias que constituam preocupação no discurso
de uma cultura.
2.2.2 Relações
Segundo Halliday (1994), a oração, simultaneamente com sua organização
como informação, está também organizada como um evento interativo, envolvendo
falante, ou escritor, e a audiência. Os tipos fundamentais de papéis de fala, que
ficam subjacentes a todos os demais tipos mais específicos que possam existir, são
apenas dois: (i) dar, e (ii) pedir. Juntamente com essa distinção básica está uma
outra distinção, igualmente fundamental, que se relaciona com a natureza do
produto que está sendo permutado. Este pode ser (a) bens e serviços ou (b)
informação. A função semântica da oração como permuta de informação é uma
proposição; a função semântica da oração como permuta de bens & serviços é chamada de proposta.
2.2.2.1 Os papéis sociais
Thompson e Thetela (1995) examinam a metafunção interpessoal - que
organiza as relações - e propõem a divisão da metafunção interpessoal (que
organiza as variáveis relações, do registro) em duas funções: interacional e pessoal.
Thompson e Thetela enfocam a função interacional, distinguindo:
a) papéis desempenhados realizados pelo ato de fala por si ('papéis de fala') examinando as perguntas (perguntador e responder) e as ordens (mandante e
cumpridor).
É aqui, nos papéis projetados, notam os autores, que a metafunção
interpessoal se sobrepõe ao ideacional no modelo da GSF. Nesse sentido, verifico
em minha análise que, por exemplo, quando Euzébio, enfrentando os cobradores
que querem levar o gravador do elenco por falta de pagamento, diz: "Tirei o gravador
da mão deles", Euzébio tem para si atribuído o papel de Ator, no processo material 'tirar', aquele que faz a ação, mas no contexto humilhante em que se encontra, ele
seria nomeado de 'devedor'.
2.2.3 Modo
Segundo Eggins e Martin (1997), diferenças em modo são realizadas através
da escolha de Tema. Tema1 é, segundo Halliday (1985, p.38), "o elemento que
serve como ponto de partida da mensagem; é aquilo ao qual se refere a oração2. O
que for escolhido para Tema virá em primeiro lugar". O resto é o Rema. Uma
mensagem consiste em um Tema combinado com um Rema (estrutura temática).
Consideremos as seguintes possibilidades para uma mesma situação real:
(a) João beijou Maria.
(b) Maria foi beijada por João. (c) Foi João quem beijou Maria.
(d) Foi Maria a que foi beijada por João. (e) O que João fez foi beijar a Maria.
(f) Aquela que João beijou foi Maria. (g) A Maria, o João a beijou.
Se a estrutura sintática existisse apenas para expressar o conteúdo
proposicional (a informação), seria difícil entender a razão da existência dessa
variedade de formas. Há aí uma forma não-marcada: o exemplo (a), ativa
declarativa; e formas marcadas: os exemplos de (b) a (g) e elas devem ter alguma
razão de ser, segundo Halliday. Vejamos outra situação. Dada uma construção
como: O primeiro-ministro desceu do avião, a continuação preferida será (b) e não (a) (embora ambas estejam corretas do ponto de vista gramatical):
1
Também chamado sujeito psicológico.
2 Halliday é criticado por não distinguir o critério sintático (primeiro lugar na oração, uma metáfora de lugar) e o
(a) Os jornalistas o cercaram imediatamente. (b) Ele foi imediatamente cercado pelos jornalistas.
Nelas, interessa mais o modo como o conteúdo é expresso, a embalagem (packaging, segundo Halliday), do que o próprio conteúdo, a informação. Estaria em
jogo, por exemplo, a avaliação que o falante faz da capacidade de processamento
do ouvinte das coisas que lhe são ditas num dado contexto. Notemos a função
importante da construção passiva e da nominalização nesse processo.
2.3 A Avaliatividade: sua realização prosódica e os tokens de Atitude
Uma das funções básicas da língua é a criação de relações interpessoais
entre falante e ouvinte através do modo pelo qual um texto é expresso (escolhas
léxico-gramaticais). O que tendeu a ser omitido pelas abordagens da GSF, diz Martin
(2000), é a semântica da avaliação, que ele chama de Appraisal (doravante, Avaliatividade): o modo como os interlocutores estão sentindo, os julgamentos que
fazem e o valor que põem em vários fenômenos de sua experiência. Sabemos que
os atos de fala indicam se o falante está oferecendo, pedindo, ajudando ou
atacando, criando solidariedade ou distância social. Mas, qualquer coisa que
digamos sobre o mundo incluirá também o nosso ponto de vista sobre a coisa
declarada.
A Avaliatividade é uma estrutura analítica do discurso que permite a análise
das avaliações manifestadas linguisticamente, quando se desvenda o significado
prosódico ao longo de todo o texto (MARTIN; ROSE, 2003; MARTIN; WHITE, 2005).
Os sistemas de Avaliatividade abordam os recursos linguísticos nos textos como
construções sistemáticas de significado interpessoal, que, por meio de análise
cuidadosa do discurso, revelam muito sobre o significado subjacente posicional e
atitudinal do autor, isto é, o funcionamento da avaliação (MARTIN; WHITE, 2005).
Assim, Avaliatividade, segundo Bock (2011), não descreve simplesmente atitudes e
sentimentos, mas procura explorar como os textos negociam as relações de
solidariedade e poder com sua audiência e a posiciona como pró ou como contra as
O enquadre da Avaliatividade consiste de três sub-sistemas maiores, ou seja:
Atitude, Graduação e Compromisso, que são diferenciados na base de critérios semânticos mais do que traços gramaticais (MARTIN; WHITE, 2005). Em termos
dessa teoria, qualquer instância da Avaliatividade no discurso expressa
simultaneamente três tipos de significados: (i) tipos de Atitude (Afeto, Julgamento e Apreciação); (ii) intensidade das Atitudes (Graduação), e como é expressa (Compromisso). Veja Quadro 2, que resume o sistema.
Quadro 2 - Recursos de Avaliatividade
COMPROMISSO monoglóssico [sem negociação] heteroglóssico [com negociação]
ATITUDE
Afeto Julgamento
Apreciação (que envolve a Avaliação Social)
FORÇA aumenta [completamente devastado] diminui [um pouco chateado]
AVALIATIVIDADE
GRADUAÇÃO
FOCO aguça [um policial de verdade] suaviza [cerca de quatro pessoas]
Fonte: MARTIN (2000)
2.3.1 Atitude
O sistema de Atitude apresenta três sub-divisões ou tipos de Atitude: AFETO,
JULGAMENTO e APRECIAÇÃO. O Afeto refere-se aos recursos para a expressão
de sentimentos ou emoções, enquanto que o Julgamento e a Apreciação, sugerem
Martin e White (2005), referem-se à institucionalização dos sentimentos como
propostas ou normas sobre como as pessoas devem ou não comportar-se
(Julgamento), ou sobre como, produtos e performances são avaliados (Apreciação).
O AFETO envolve um conjunto de recursos linguísticos para avaliar a experiência
em termos afetivos, para indicar efeito emocional positivo ou negativo de um evento.
A AVALIAÇÃO SOCIAL- uma sub-categoria de APRECIAÇÃO, refere-se à
avaliação positiva ou negativa de produtos, atividades, processos ou fenômenos
sociais.
A GRADUAÇÃO envolve um conjunto de recursos para aumentar ou diminuir
O COMPROMISSO é um conjunto de recursos que capacita o escritor (ou o
falante) a tomar uma posição pela qual sua audiência é construída como partilhando
a mesma e única visão de mundo ou, por outro lado, a adotar uma posição que
explicitamente reconhece a diversidade entre várias vozes.
A Avaliatividade permite não somente expressões de significado avaliativo
direto ou indireto, mas também explica os modos pelos quais padrões de significado
avaliativo se acumulam dinamicamente através do texto. Assim, a Avaliatividade
pode apresentar-se de forma:
a) Inscrita (explícita).
As crianças estavam falando alto.
b) Evocada (implícita).
As crianças conversavam durante a aula.
c) Provocada (alguma linguagem avaliativa).
A professora já estava na sala, mas as crianças continuavam falando.
Martin explica que a avaliação evocada é feita através do que ele chama de
token de atitude em que um significado ideacional, portanto neutro em termos avaliativos, pode se investir de função interpessoal. Os tokens de atitude são também sujeitos à influência do contexto, continua o autor, e uma estratégia
importante no estabelecimento de posicionamento interpessoal num texto é colocar
avaliações inscritas e evocadas de tal modo que o leitor partilha da interpretação do
escritor sobre os tokens do texto. É assim que, evocado por uma descrição de um
token, um Julgamento, por exemplo, pode se tornar tão naturalizado numa dada situação cultural que é provável que seja considerado como Julgamento explícito em
vez de implícito.
A importância dos tokens de Atitude pode ser sentida na afirmação de
Hunston (1993a; 1993b; 1994). A autora, com base nos trabalhos de sociólogos da
ciência (i.e. LATOUR; WOOLGAR, 1979), mostra que é possível persuadir uma
comunidade a aceitar as afirmações de novos conhecimentos sem o uso de meios
Para ser convincente a persuasão deve parecer ser uma
reportagem. Segue-se que a avaliação, através da qual a
persuasão é realizada, deve ser altamente implícita e, assim,
evitará a linguagem atitudinal normalmente associada ao
significado interpessoal3.
Por outro lado, a Avaliatividade não somente permite expressões de
significado avaliativo direto ou indireto, mas também explica os modos pelos quais
padrões de significado avaliativo se acumulam dinamicamente através do texto, que
tem sido chamado de realização logogenética da Avaliatividade. Assim, os significados de Avaliatividade não agem isoladamente, mas sim "tendem a se
espalhar e colorir uma fase do discurso como falantes e escritores ocupam uma
posição" em relação ao tema da comunicação (MARTIN; WHITE, 2005, p. 43). Ao se
identificarem diferentes itens atitudinais, é necessário, por conseguinte, olhar para o
item no seu contexto textual, bem como para a consideração da 'prosódia' de
significados que se acumularam ao longo do texto.
Os recursos léxico-gramaticais permitem expressar a atitude do falante não
somente em relação ao interlocutor, mas também em relação ao conteúdo
ideacional de suas proposições e propostas, diz Lemke (1998). Lemke (1998) chama
de realização prosódica (também chamado logogenética) a esse significado
atitudinal que se estende pelo texto e sugere que esses significados avaliativos
tenham um papel importante na análise do discurso da heteroglossia social e da
identidade individual e coletiva.
Vejamos alguns modos de efetivar a avaliação implícita.
2.3.1.1 O "apito do cão" - O "mundo textual" - O "contrabando de informação"
Vejamos um exemplo de token de Atitude, ou seja, de avaliação implícita, num trecho de artigo publicado no The Sun (01/05/04):
(7) Setenta e um LETONESES sorriam enquanto embarcavam
num ônibus de dois andares, na capital Riga, para uma
viagem de 24 horas para o ocidente.
3
Nesse exemplo, de Coffin e O'Halloran (2006), nenhum termo indica que o
seu conteúdo seja avaliado de modo negativo, sendo, pois, uma informação neutra
em termos avaliativos (i.e., tem significado experiencial); porém, se se considerar
que o artigo foi escrito para uma Inglaterra, que não via com bons olhos hordas de
europeus orientais, entrando em seu país para competir no mercado de trabalho
aceitando baixos salários, então veremos que as escolhas léxico-gramaticais que
compõem o texto têm Avaliatividade (de Apreciação Social, segundo as autoras)
negativa. É o que as autoras chamam de política 'do apito do cão' ('dog whistle' politics), frase cunhada recentemente para capturar uma forma de avaliação implícita, que se refere ao uso de significados aparentemente neutros, mas que
serão ‘escutados/entendidos’ como uma mensagem negativa (ou positiva,
dependendo do contexto) apenas pela comunidade alvo, da mesma forma que
apenas os cães ouvem o referido apito, inaudível ao ser humano, devido a elevada
frequência desse objeto. Esse recurso tem alta incidência na comunicação política,
segundo as autoras.
Cabe aqui a menção do conceito de 'mundo textual', tal como apresentado
por Semino (1997: 1) que o defende assim: “Quando lemos, inferimos ativamente
um mundo textual ‘atrás’ do texto. Por ‘mundo textual’ ele se refere ao contexto, ao
cenário ou tipo de realidade que, evocado em nossas mentes durante a leitura, e
que é referido pelo texto.” O mundo textual não é uma entidade fixa que é percebida
da mesma maneira pelos leitores; de fato, nem há garantia de que os receptores
construirão o mundo textual pretendido pelo produtor.
Do ponto de vista da linguística cognitiva e da semântica cognitiva do
significado lexical, Luchjenbroers e Aldridge (2007) afirmam que o significado é
‘enciclopédico’ por natureza: o sentido de uma palavra não está divorciado do seu
contexto de uso. O significado linguístico está codificado na memória como um tipo
de rotina cognitiva que se apoia em experiências no mundo.
Os autores tratam da noção de frame. Os frames são conjuntos de informações aceitos culturalmente que envolvem qualquer termo lexical.
Componentes adicionais de significado são derivados dos frames de referência associados com cada escolha lexical, i.e., cada escolha desencadeia uma rede mais
interlocutor a essas associações é dependente de sua experiência e compreensão
das normas sociais das quais as escolhas lexicais são derivadas.
A adequação do frame escolhido é também muito importante para
‘contrabandear uma informação’, um termo usado quando uma informação
(negativa) é sub-repticiamente inserida no texto, com o óbvio intento de manipularo
modo como os ouvintes avaliam a informação que lhes é apresentada.
2.3.2 Compromisso
Diz White (2003) que para examinar e descrever adequadamente a
funcionalidade comunicativa desses recursos léxico-gramaticais é necessário vê-los
como fundamentalmente dialógicos ou interativos. Em termos amplos, o autor distingue entre enunciados monoglóssicos (afirmações não-dialogizadas e enunciados heteroglóssicos ou dialogísticos (nos quais se sinaliza algum compromisso com posições alternativas/voz). Além disso, o termo 'compromisso
heteroglóssico' envolve duas amplas categorias: dialogicamente expansivos (possibilitam alternativas) ou dialogicamente contráteis (restringem as possibilidades).
O sistema de Compromisso está preocupado com os recursos linguísticos
que falantes e escritores usam para adotar uma postura em relação não só às
proposições ou valores que eles expressam, mas também à sua audiência. Segundo
a noção de heteroglossia de Bakhtin e Voloshinov, toda comunicação verbal é vista
como dialógica e moldada por afirmações anteriores, pontos de vista alternativos e
respostas antecipadas. Esse sistema está interessado em como e em que extensão
falantes e escritores reconhecem essas vozes anteriores e se envolvem com elas.
Ele também está interessado nas maneiras pelas quais falantes ou escritores
sinalizam como eles esperam que seus públicos respondam às proposições que
elas expressam.
Conceitos importantes para uma exploração do Compromisso incluem
"alinhamento", "solidariedade" e "construção do leitor". Os analistas do
Compromisso estão interessados no modo como os textos alinham seus leitores ou
ouvintes nas relações de concordância ou de discordância. Quando os escritores ou
convidam o receptor a alinhar-se com uma série de valores e crenças
compartilhados . Essa negociação tem o efeito de construir um leitor imaginário ou
ideal, pois é com esse leitor ideal que o escritor se apresenta como mais ou menos
alinhado. Dessa forma, o escritor procura estabelecer uma solidariedade com o seu
público (MARTIN; WHITE 2005).
2.3.3 Graduação
A terceira e final dimensão da Avaliatividade é a Graduação, que se refere à
medida em que qualquer avaliação é graduada ao longo de uma escala de força ou
intensidade de baixo para o alto (por exemplo, como - o amor - adoro; conturbado -
com medo - aterrorizado). A Graduação refere-se aos recursos da linguagem, em
termos de Martin e Rose (2003, p. 38), aumentando o volume para cima ou para
baixo. O enquadre inclui duas categorias principais de graduação: 'foco' e 'força’:
‘foco’ se refere à classificação de significados como mais ou menos precisa ou
categórica (isto é, como protótipo de algo é) e ‘força’ refere-se à classificação de
significados de baixa a alta intensidade (por exemplo, muito magoada).
Martin e White (2005) exploram o modo como as configurações dos três
sub-sistemas de Avaliatividade constroem diferentes posições interpessoais e constroem
registros ou 'chaves'. Nessas análises, chamam a atenção para a forma como os
mesmos dizeres linguísticos podem, por exemplo, ao mesmo tempo, expressar
significados de Atitude e de Graduação; muitas vezes esses elementos podem ser
dialogicamente significativos - por exemplo, eles podem ser atribuídos a fontes
2.4 A persuasão
Em termos etimológicos, segundo Abreu (2002), argumentar significa ‘vencer
junto com o outro’ (com + vencer) e não ‘contra o outro’. Persuadir é saber
gerenciar uma relação, é falar à emoção do outro. A origem dessa palavra está
ligada à proposição ‘por’ (por meio de) e a ‘Suada’ (deusa romana da persuasão).
Significava ‘fazer algo por meio do auxílio divino’. Convencer é construir algo no
campo das ideias: quando convencemos alguém, esse alguém passa a pensar como
nós, esse alguém realiza algo que desejamos que ele realize.
A esse respeito, Kitis e Milapides (1997) propõem uma distinção envolvendo a
persuasão: a convicção e a sedução seriam processos incluídos numa relação de
espécie-para-gênero, no hiper-processo da persuasão. Não é preciso dizer que,
para persuadir, as reportagens de notícias e comentários sobre assuntos políticos
precisam ser mostradas como verdadeiras e plausíveis através da incorporação de
feições persuasivas (VAN DIJK, 1988).
A convicção envolve uma lista de passos argumentativos que – espera-se -
deverão ser aceitos pelo leitor. Pelo fato de incluir a ativação e a participação do
sistema cognitivo, essa recepção constitui-se num processo cognitivo. Mas,
frequentemente, a persuasão cerceia a participação cognitiva do leitor no processo
de aceitar a perspectiva do autor e, nesses casos, podemos falar de 'sedução' em
vez de convicção. Sornig (1988, p.97, apud KITIS e MILAPIDES,1997, p.560) nota
que:
“enquanto os mecanismos de convencimento e de convicção
trabalham obviamente ao longo de linhas
cognitivo-argumentativas, a sedução, em lugar de se apoiar na verdade
e/ou na credibilidade dos argumentos, explora a aparência
externa e a aparente confiabilidade daquele que persuade".
Pode-se conjecturar, continuam os autores, que os mecanismos de sedução
na relação entre o que persuasor e sua 'vítima' ou 'cúmplice' sejam identificáveis
tanto no nível do texto quanto no do sub-texto, i.e., não somente no nível do léxico,
estruturas e figuras de linguagem como componentes da estrutura local do texto,
mas também no nível de sua coerência geral. Os mecanismos de sedução, portanto,