Análise da multimodalidade em cenas com interações dialógicas do curta-metragem de animação “cuerdas” / Analysis of multimodality in scenes with dialogical interactions of the animated short film "cuerdas"

Texto

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Análise da multimodalidade em cenas com interações dialógicas do

curta-metragem de animação “cuerdas”

Analysis of multimodality in scenes with dialogical interactions of the

animated short film "cuerdas"

DOI:10.34117/bjdv6n7-686

Recebimento dos originais: 27/06/2020 Aceitação para publicação: 27/07/2020

Soraya Gonçalves Celestino da Silva

Doutoranda e Mestra em linguística pelo PROLING, da UFPB Email: sorayagcsilva@gmail.com

Fábia Sousa de Sena

Doutoranda e Mestra em linguística pelo PROLING, da UFPB Email: fabiasena1@gmail.com

Evangelina Maria Brito de Faria

Doutora em Linguística. Professora da UFPB. Membro da Pós-Graduação de Linguística (PROLING) da UFPB

Email: evangelinab.faria@gmail.com

RESUMO

Neste artigo, o conceito de multimodalidade toma a linguagem como uma manifestação comunicativa formada pela junção intrínseca de gesto e fala e se volta para a observação desses aspectos da língua, em modalidade oral em uso. O objetivo dessa pesquisa foi analisar as produções multimodais em cenas com interações dialógicas entre dois personagens do curta-metragem animado Cuerdas, para compreender a capacidade dialógica de crianças com Encefalopatia Crônica não Progressiva. Adotamos a perspectiva interacionista da linguagem enquanto movimento constitutivo de natureza dialógica, que se realiza entre dois ou mais falantes socialmente organizados. Metodologicamente, as análises foram realizadas a partir de quatro cenas em que ocorrem interações entre os personagens Maria e o menino Nicolás, este último acometido de encefalopatia crônica não progressiva ao nascer. As observações nos permitiram, primeiro, confirmar a relevância dos componentes multimodais ao favorecerem o estabelecimento de interações dialógicas entre os sujeitos, no contexto da animação, em que cada criança participa de trocas interativas com recursos multimodais que lhes são acessíveis; segundo, visualizar a língua em sua multimodalidade, que otimiza as potencialidades dessas crianças, possibilitando uma maior inclusão.

Palavras-chave: Multimodalidade, Encefalopatia Crônica não Progressiva, Interação dialógica.

ABSTRACT

In this article, the concept of multimodality takes language as a communicative manifestation formed by the intrinsic junction of gesture and speech and turns to the observation of these aspects of language, in oral mode in use. The objective of this research was to analyze multimodal productions in scenes with dialogical interactions between two personages in the animated short film Cuerdas, to understand the dialogic capacity of children with Chronic Non-Progressive Encephalopathy. We adopted the interactionist perspective of language as a constitutive movement of a dialogical nature, which takes place between two or more socially organized speakers. Methodologically, the analyses

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were performed from four scenes in which interactions occur between the characters Maria and the boy Nicolás, the latter suffering from chronic non-progressive encephalopathy at birth. The observations allowed us, first, to confirm the relevance of the multimodal components by favoring the establishment of dialogical interactions between the subjects, in the context of animation, in which each child participates in interactive exchanges with accessible multimodal resources; second, visualizing the language in their own language. multimodality, which optimizes the potential of these children, enabling greater inclusion.

Keywords: Multimodality, Chronic non-progressive encephalopathy, Dialogic interaction.

1 INTRODUÇÃO

Atualmente, a Multimodalidade recebe atenção de várias áreas do conhecimento, tais como: Linguística, Pedagogia, Psicologia, Semiótica. Cada uma, a sua maneira, procura compreender o que esse termo acrescenta aos seus objetos de estudo. Na fala de Dionísio (2005, 2011), a multimodalidade refere-se às mais distintas formas e modos de representações utilizados na construção linguística de uma dada mensagem, tais como: palavras, imagens cores, formatos, marcas/traços tipográficos, disposição da grafia, gestos, padrões de entonação, olhares etc.

Vendo por esse enfoque, a multimodalidade abrange, portanto, a escrita e a fala. Mas, o que isto traz de inovador para as práticas interativas? É o que tentaremos mostrar na discussão desse texto. A escolha do tema envolvendo a multimodalidade na interação dialógica em crianças cérebro-lesionados foi motivada pelo aumento da inclusão dessas crianças nas escolas regulares. Ao analisar as produções multimodais em cenas com interações dialógicas entre dois personagens do curta-metragem animado Cuerdas, nosso objetivo foi o de compreender a capacidade dialógica de crianças com Encefalopatia Crônica não Progressiva na ficção, para fazer analogias com crianças reais, em suas interações cotidianas.

O curta-metragem animado Cuerdas escrito e dirigido por Solís (2013) é baseado na vida dos seus filhos Nicolás, que tem ECNP, e Alejandra, que participa intensamente da vida do irmão. O filme narra a amizade entre Maria, uma garotinha muito especial, e Nicolás, seu novo colega de classe, que tem Encefalopatia Crônica não Progressiva. Na história, ao perceber algumas limitações da criança, a garota toma a atitude de estabelecer diálogo com ele. É o início de uma amizade. Reconfigurando e recriando jogos e atividades, Maria dá visibilidade a linguagem de Nicolás, até então oculta em seu diagnóstico.

A concepção de linguagem Bakhtiniana, entendida como processo de interação social, fundamenta o ponto de vista que conduz a observação de todos os elementos presentes na interação entre os dois personagens. Particularmente, em relação ao uso da língua, faz-se necessária a busca de informações adequadas das produções multimodais para explicar a interação de sujeitos

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cérebros-lesionados, uma vez que eles produzem enunciados que fogem aos padrões clássicos já conhecidos pela linguística.

Iniciamos com abordagem multimodal na linguagem na ECNP, em seguida tratamos a multimodalidade e a atenção conjunta, logo após o processo de interação, metodologia e os resultados e discussão com destaque para utilização das produções multimodais utilizados pela criança cérebro-lesionados.

2 ABORDAGEM MULTIMODAL DA LINGUAGEM NA ECNP

A encefalopatia crônica não progressiva, nomenclatura admitida no Simpósio de Oxford, realizado em 1959, foi definida como

sequela de uma agressão encefálica, que se caracteriza, primordialmente, por um transtorno persistente, mas não invariável, do tono, da postura e do movimento, que aparece na primeira infância e que não só é secundário a essa lesão não evolutiva do encéfalo, senão, devido também, a influência que tal lesão, exerce na maturação neurológica (ROTTA, 2002, p.48).

Na ECNP, as alterações no sistema nervoso central são decorrentes de fatores endógenos e exógenos, que, em diferentes dimensões, estão presentes em todas as pessoas que apresentam as sequelas (POLIA, 2019, p.40). Deve-se considerar, dentre os fatores endógenos, o potencial genético herdado, ou seja, a suscetibilidade maior ou menor do cérebro para se lesar.Entre os fatores exógenos, considera-se que o tipo de comprometimento cerebral depende do momento em que o agente atua, de sua duração e da sua intensidade. Para o Ministério da Saúde, é a deficiência mais comum na infância e é caracterizada por alterações neurológicas permanentes, que afetam o desenvolvimento motor e cognitivo, envolvendo o movimento e a postura do corpo. De acordo com Rosenbaum et al. (2007), a desordem motora na ECNP podeser acompanhada por distúrbios sensoriais, perceptivos, cognitivos, de comunicação e comportamental, por epilepsia e por problemas musculoesqueléticos secundários1.

Os problemas motores decorrentes da ECNP que mais interferem na linguagem estão relacionados à emissão vocal, as alterações na postura, no controle dos movimentos maxilares, lábios e língua e na respiração, implicam dificuldades na fonação, articulação e prosódia. O corpo como um todo também toma parte nesse processo, já que as dificuldades no controle da cabeça, tronco e membros também interferem na expressão oral, bem como outras formas de comunicação como a emissão de gestos.

Contudo, as crianças com ECNP podem apontar para o objeto de sua atenção seja com o direcionamento do olhar ou com uma parte do corpo que possui melhor controle, como a mão, o pé

1 Contraturas musculares e tendíneas, rigidez articular, deslocamento de quadril, deformidade na coluna podem se

desenvolver ao longo da vida e estão relacionados ao crescimento físico, à espasticidade muscular, entre outros (ROSENBAUM et al., 2007).

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ou a cabeça. O comportamento gestual dessas crianças, como o sorriso, o direcionamento do olhar, o apontamento e até a vocalização ininteligível, exerce um perfil fundamental em sua comunicação, como afirma Hanzlik (1990), pois elas podem exibir gestos diversos dos socialmente convencionados para expressar suas intenções comunicativas.

O mínimo de habilidade motora que resta é instituído pela linguagem permitindo que a limitação motora do quadro seja minimizada, ultrapassada. Vasconcelos (1999) evidencia que limitações motoras e ausência de fala não barram “olhares” e “gestos” plenos de significação e prontos a significar, eles convocam o outro incessantemente. Gestos e olhares endereçados, segundo ela, configuram “uma presença significada, significativa e significante na linguagem” (VASCONCELOS, 2010, p.2).

O que a multimodalidade pode acrescentar à linguagem de quem apresenta ECNP? Por que olhar a multimodalidade em cenas de atenção conjunta?

2.1 MULTIMODALIDADE E ATENÇÃO CONJUNTA

Neste trabalho, partirmos da concepção proposta por McNeill (1985), que afirma ser multimodal o funcionamento da linguagem, em que gesto e fala não podem ser dissociados. A relação entre gestos e fala foi abordada de forma especial por McNeill (1985/1992/2000) e de seu precursor Kendon (1982, 2000). Ambos afirmam que gestos e fala formam um sistema único, ou seja, eles são parte da mesma estrutura psicológica. Com isso, McNeill (1985) se posiciona contrário às análises linguísticas que consideram as estruturas da linguagem apenas em relação aos sons da fala, uma vez que os gestos aparecem como uma parte integrante da ação comunicativa do indivíduo: gesto e fala cooperam para apresentar uma única representação cognitiva. Para o autor,

temos a tendência de considerar linguístico aquilo que podemos escrever, e não linguísticos, todo o resto; no entanto essa divisão é um artefato cultural, uma limitação arbitrária derivada de uma evolução histórica particular. (McNeill, 1985, p. 350).

Em defesa dessa teoria, o autor argumenta que, em qualquer língua e em todas as circunstâncias, o movimento de mãos e braços aparece em conjunto com o discurso. Assim, nessa estreita conexão entre gesto e fala, as mãos funcionam como símbolos ligados ao canal da voz, tanto em termos de tempo quanto em função semântica e pragmática. E imputa à cultura a divisão histórica existente às duas categorias.

Ao defender gesto e fala numa única matriz de significação, McNeill (1985) parte da tipologia gestual proposta por Kendon (1982), a saber: a gesticulação, os emblemáticos, os gestos pantomímicos e a língua de sinais.

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Para Kendon (1982), a gesticulação são movimentos que incorporam significados relacionados à fala/discurso que o acompanha. Os emblemas são usados culturalmente, ocorrem com a presença opcional da fala, têm formas padrões e significados e variam de lugar para lugar. A pantomima é um gesto ou sequência de gestos que simulam objetos ou ações, que carregam uma linha narrativa, com uma história contada, sem a presença da fala/discurso. A língua de sinais são línguas gestuais, que têm as próprias estruturas linguísticas, incluindo padrões gramaticais, lexicais, morfológicos etc. Em relação à língua de sinais, mesmo que o autor a considere com propriedades linguísticas, totalmente convencional e com caráter segmental e analítico, ressaltamos que a nomenclatura gesto não é adequada, não se trata de gesto, mas de sinais convencionais. Para nossa análise, fixaremos nosso olhar apenas nos gestos emblemáticos de Kendon (1982).

Dando continuidade à tipologia gestual, McNeill (1985, 1992) acrescenta outras dimensões como:icônicos, dêiticos, metafóricos e ritmados ou beats. De acordo com o autor, gestos icônicos estão ligados ao discurso, servindo para ilustrar o que está sendo dito, delimitam formas de objetos e ações, e estabelecem como referente uma relação de metonímia. Gestos dêiticos são os demonstrativos ou direcionais e geralmente acompanham as palavras “aqui”, “lá”, “isto”, “eu” e “você”, podendo ser representados pelos movimentos de apontar. Gestos metafóricos são parceiros dos gestos dêiticos, contudo possuem a particularidade de referirem expressões abstratas. Gestos ritmados ou beats são nomeados assim porque parecem com o tempo musical; as mãos se movem no mesmo ritmo da pulsação da fala.Assim, podemos dizer que gesto e fala ocorrem na mesma sincronia de ritmos (MCNEILL, 1992, p. 15-18).

Hoje, é perceptível que os gestos, além de se ajustarem à fala, favorecem a explicitação de emoções e desejos, acrescentando significações ao discurso. Nesse sentido, podemos afirmar que há uma relação profunda entre gestos e fala. E como isso se dá na no processo da atenção conjunta?

Brunner (1983, 1995) foi um dos pioneiros a falar sobre cenas de Atenção conjunta. O impacto da atenção conjunta na cognição social infantil tem sido salientado por Tomasello (2003a).Para o autor (2003a), as cenas de atenção conjunta fornecem o contexto intersubjetivo em que se dá o processo de simbolização, não só de símbolos linguísticos, mas também de outras atividades simbólicas.

Tomasello (2003a, p. 135) define cenas de atenção conjunta como “interações nas quais a criança e o adulto prestam, conjuntamente, atenção a uma terceira coisa e à atenção um do outro à terceira coisa, por um período razoável. Para o autor (2003a), essas cenas fornecem o contexto para a aquisição de linguagem. Observaremos que, em um contexto de atenção conjunta, a criança em análise encontra o locus para a sustentação da linguagem.

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É importante mencionar que Vygotsky (1984, 2000) já havia destacado a atenção como uma das grandes funções da estrutura psicológica que embasa o uso de instrumentos num contexto social. Para ele, a habilidade para focalizar a própria atenção é decisiva para a efetivação de qualquer prática.

Em seus estudos, as cenas de atenção conjunta são explicitadas por Tomasello (2003a, p. 89) em três níveis: No primeiro, chamado atenção de verificação, que ocorre entre 9 a 12 meses, estabelece-se uma relação em que a criança realiza atividades que exige compartilhar/verificar a atenção do adulto, ou seja, olhar para onde o adulto está olhando. No segundo, atenção de acompanhamento, que acontece entre 11 a 14 meses, a criança acompanha a atenção que o adulto dirige a entidades distais externas. Aqui, surge o gesto de apontar acompanhado do gesto do olhar. Por fim, no terceiro, atenção direta, que se desenvolve entre 13 a 15 meses, também se observa o gesto de apontar (imperativo e declarativo) direcionando a atenção do adulto para uma entidade distal. Vejam, em todos esses níveis, a importância do olhar se apresenta como um elemento fundamental para a comunicação referencial humana.

Para a classificação do olhar, usaremos, como contribuição, a classificação de (TOMASELLO, 2003a, p.89) “atenção de verificação ou checagem, atenção de acompanhamento e atenção direta”. Ressaltamos que o autor usou essa classificação para as crianças de 9 meses, nós a utilizamos com as crianças do curta, muito além dos nove meses.

Naturalmente, tudo observado com a visão interacional da linguagem, assim resta-nos falar um pouco desse lugar de pesquisa.

2.2 O PROCESSO INTERACIONAL

Em relação ao tema proposto, o termo interação será referente à concepção de interação verbal na teoria de Bakhtin (2002), as reflexões fundamentam-se na natureza interativa da linguagem, enquanto forma de articulação, que organiza a dialogia dos sujeitos pelas produções multimodais, que se estabelecem nas cenas interativas de atenção conjunta.

Esta dimensão dialógica está presente em todas as esferas e manifestações da atividade humana em relação ao outro, dando sustentação à língua, na dinâmica da responsividade e das relações dialógicas, que abrangem uma língua concreta, fundamentada na enunciação. As particularidades enunciativas de uma dada situação dialógica situam-se no processo interativo, fazendo parte de um contexto maior com aspectos, que antecedem à situação imediata ou futura.

Defendendo a dialogicidade da língua, Bakhtin (1979) comenta que viver significa participar do diálogo ininterrupto: ouvir, responder, concordar etc. Nesse diálogo, o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, todo o corpo e os atos.

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No movimento dialógico, Bakhtin (1979) vê três tipos de relação: a) as relações entre os objetos (entre coisas, entre fenômenos físicos, químicos; relações causais, relações matemáticas, lógicas, relações linguísticas etc.; b) relações entre o sujeito e o objeto; c) relações entre sujeitos (relações pessoais, personalistas; relações dialógicas entre enunciados, relações éticas; relações entre consciências, verdades, influências mútuas, o amor, o ódio, a mentira, o respeito, a confiança, a desconfiança etc.).

A construção e os efeitos de sentido do discurso, a compreensão ativa e responsiva à resposta de cada ser humano se faz presentes no movimento construtivo da língua e de cada sujeito. Essa relação de respostas, que instituem e consolidam práticas sociais, influencia os modos de interações e molda a personalidade dos sujeitos participantes. A partir dessa ancoragem teórica expomos à metodologia.

3 METODOLOGIA

Para a realização desta pesquisa, selecionamos quatro cenas do curta-metragem Cuerdas na modalidade dublado. Como sujeitos, apresentamos a personagem principal Maria, uma menina que se sensibiliza com a situação de seu novo colega de classe, Nicolás, que ao nascer, teve ECNP e é cadeirante. Procuramos dar visibilidade à pluralidade de gestos, fala, olhar em atenção conjunta nas cenas de interações dialógicas.

Os dados da pesquisa são provenientes de situações dialógicas colhidas nas cenas pré-selecionadas com esses sujeitos, que estão inseridos num contexto escolar, no pátio da escola, e transcritas à medida que se apresentam os momentos em que gestos, produção vocal e olhar estão presentes na interação dos personagens.

Para nossa transcrição, utilizamos o software Eudico Linguistic Annotator – ELAN. Essa é uma ferramenta que possibilita a criação de anotações, edição, visualização e a busca de registros de vídeo e áudio simultaneamente. Para facilitar nosso entendimento, elegemos os sinais gráficos, no quadro 1, que são essenciais no processo de transcrição, para anotações dos trechos multimodais (gestos, produções vocais e olhar), que estão presentes durante as interações dos personagens. Essas anotações registradas no tempo exato e nomeadas de acordo com os pesquisadores são denominadas de trilhas, as quais proporcionam a elaboração de mesclas, permitindo a visualização de componentes multimodais de maneira concomitante.

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Quadro 1- Sinais Gráficos Sinais

Gráficos

Nomenclaturas Descrição

* * Asteriscos Foram utilizados para marcar a produção gestual no início e no final das crianças.

“ “ Aspas Foram utilizadas para marcar o início e o final da produção vocal/fala das crianças.

( ) Parênteses Foram utilizados para marcar o início e o final da descrição do olhar das crianças.

E Letra E Foram utilizados para marcar o lado esquerdo do corpo e de objetos que compõem a cena.

D Letra D Foram utilizados para marcar o lado direito do corpo e de objetos que compõem a cena.

Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

As cenas foram escolhidas por apresentar o maior números de situações interativas, que envolvem os personagens Maria e Nicolás, para descrever o contexto e relatar a expressão dos elementos multimodais que foram observados nos momentos de interação. Fixamos nosso olhar apenas nos gestos emblemáticos de Kendon (1982), bem como tipifica os gestos de acordo McNeill (1985, 1992) e usamos, como contribuição, a classificação da atenção conjunta de Tomasello (2003a, p.89), tudo observado com a visão interacional da linguagem de Bakhtin (1979, 2000). A seguir, passaremos aos resultados e discussão.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nesta análise do curta-metragem animado Cuerdas, foram selecionadas quatro cenas ocorridas no pátio da escola, no intervalo das aulas por apresentarem o maior número de interações entre os sujeitos. A primeira cena é o momento em que os dois personagens se conhecem e acontece a apresentação, denominamos: Cena da Apresentação. Na segunda, Maria utiliza cordas para inserir Nicolás na brincadeira, denominamos: Cena da Brincadeira. Na terceira, Maria lê para Nicolás um Conto de Fadas chamamos de: Cena do Cantinho da Leitura. Na quarta e última cena, acontece um fato novo: Nicolás toma a iniciativa e chutar a bola a esse momento chamamos: Cena da Iniciativa. Destacamos o fato de ser ortográfica a transcrição dos diálogos para melhor visualização. Agora, apresentamos as análises:

4.1 CENA DA APRESENTAÇÃO

As interações e as relações de amizade dentro do contexto escolar têm um papel importantes para o desenvolvimento cognitivo e no processo de aquisição de linguagem de qualquer criança, naturalmente também, daquelas que possuem algum distúrbio ou transtornos. O primeiro momento de interação ocorre quando Maria apresenta-se a Nicolás. Ela usa linguagem oral-auditiva e se surpreende ao perceber que Nicolás não pode falar, nem andar. Mas, ao invés de se afastar, ela se

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aproxima e tenta interagir com ele. Observemos as mesclas da transcrição de Maria (Quadro 2) e Nicolás (Quadro 3):

Quadro 2 - Mescla da Maria – Cena da Apresentação

Nº de linhas

Mescla de Maria – Cena da Apresentação

*cabeça baixa e braços atrás das costas * (direciona um olhar de checagem dos pés a cabeça de Nicolás )

2 *eleva a cabeça para frente e sorri* (olha diretamente para os olhos de Nicolás) olá! Como se chama? "Olá! Como se chama?"

3 (fixa o olhar e pisca duas vezes) - Olhar de checagem *mexe o joelho direito para trás e ao mesmo tempo o ombro esquerdo para cima e sua cabeça acompanha o movimento de um lado para outro discretamente* "meu nome é Maria!"

4 (olha alegremente e se aproxima de Nicolás) - Olhar de Checagem *joga o corpo para frente elevando *o braço e a mão direita em sinal de cumprimento* - Gesto Emblemático *bem-vindo à escola*

5 *abaixa a cabeça e olha para a mão D estendida, recolhe lentamente ficando de ombro baixo e cabeça um pouco baixa* (olhar tristemente, olha para baixo e fecha os olhos) - Olhar de checagem *eleva o corpo na ponta dos pés, elevando os ombros e a cabeça* "Não sabe andar?" (arregala os olhos e arqueia as sobrancelhas) - Olhar de checagem (olha de baixo para cima) - olhar de checagem volta a posição normal e eleva o braço E para trás para coçar a cabeça “E nem falar?”

6 *eleva as duas mãos espalmadas para cima e a cabeça acompanha o gesto movendo-se para frente * - Gesto Emblemático (olha para Nicolás checando) "Não sabe fazer nada?"

7 "O que aconteceu?" 8 "Você é estranho!"

9 (olha para ele) - Olhar direto "Olha! É bem fácil." *eleva-se na pontoa dos pés juntamente com os ombros* - Gesto emblemático

10 "se quer mexer uma mão, faz assim! olha para o lado D acompanhando o movimento da mão) *eleva o braço D a altura do rosto, direciona o rosto para o movimento da mão em concha virada para baixo abrindo e fechando* - Gesto Metafórico

11 *retorna o braço e o rosto para posição normal, fica novamente nas pontas dos pés e elevando e baixando os ombros* Gesto emblemático (volta o olhar diretamente para ele) "E aí! mexeu." "Se você quer falar? faz assim. Olá´!" * coloca a mão D aberta na altura da boca, faz movimento junta e afasta do rosto, movendo a cabeça e as sobrancelhas no mesmo ritmo, retornando a mão aberta no lado do corpo* - Gesto Metafórico e Emblemático (arregala os olhas e mexe levemente para D e E)- Olhar de acompanhamento "E então, falou."

Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

Maria, ao relacionar-se com Nicolás, lança um olhar de checagem e inicia a conversa, se apresenta, estende a mão para cumprimentá-lo e percebe que Nicolás nem fala e nem se movimenta. O olhar de Maria acompanha Nicolás durante toda a Cena, qualificamos esses momentos como atenção conjunta de acompanhamento, de acordo com a classificação de Tomasello (2003a).

Concomitante à presença de Maria, Nicolás arqueia as sobrancelhas e esboça um sorriso tímido, a essa resposta classificamos como gesto dêitico, juntamente com um olhar de checagem da mão ao rosto de Maria, na linha um do Quadro 3, Tomasello, (2003a). Conseguimos perceber, assim com o gesto dêitico, o funcionamento da língua enquanto instância multimodal, como defende McNeil (1992), no qual gesto e fala formam uma única matriz de significação.

Na continuação da cena, na linha seis no Quadro 2, da mescla de Maria, quando ela eleva as duas mãos espalmadas para cima e esse movimento é acompanhado com um leve movimento da

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cabeça, e ela pergunta: “Não sabe fazer nada?”, classificamos o gesto como emblemático, usado culturalmente. Confirma Kendon (2009), que a matriz gestual não ocorre sem objetivo discursivo e o estabelecimento de interação que se constrói a partir da percepção mútua das ações visíveis do outro.

Na sequência, ainda na mescla de Maria, identificamos o gesto metafórico, na linha onze no Quadro 2, que de acordo com McNeill (1992) ele possui configuração da mão aberta ao produzir expressão no discurso ao qual se quer dar ênfase, com veremos nessa transcrição "Se você quer falar? Faz assim. Olá!" * coloca a mão D aberta na altura da boca, faz movimento de juntar ao rosto e afastá-la, movendo a cabeça e as sobrancelhas no mesmo ritmo, retornando a mão aberta para o lado do corpo*, é também um gesto emblemático tal como propõe Tomasello (2003a).

Quadro 3 - Mescla do Nicolás – Cena da Apresentação

Nº de linhas

Mescla de Nicolás – Cena da Apresentação

1 *arqueia um pouco as sobrancelhas e esboça um sorriso tímido* - Gesto Dêitico (olha Maria de cima para baixo) - Olhar de Checagem

2 (olha diretamente e pisca duas vezes)

3 (olha do rosto de Maria para o movimento da mão, e retorna para o rosto) - Olhar de acompanhamento,

4 (olha diretamente para Maria, arqueando as sobrancelhas) - Olhar direto *ergue as sobrancelhas e o canto da boca do lado E* - Gesto Dêitico

5 *eleva olhos e sobrancelhas*- Gesto Emblemático (desvia o olhar dos olhos para boca de Maria) - olhar de acompanhamento

Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

Na mescla de Nicolás, percebemos que ele faz uso de recurso multimodal para conversar com Maria. Embora não pronuncie nenhuma palavra, ele compreende o enunciado de sua colega, e responde com o olhar. A linha quatro do Quadro 3, nos mostra o momento da atenção conjunta direta, nos termos de Tomasello, (2003a), no instante em que ele ergue a sobrancelha e move levemente o canto esquerdo da boca na tentativa de falar, identificamos de acordo com a com a dimensão gestual de McNeill (1992) como gesto dêitico por representar movimento de apontar.

No trecho a seguir, na linha cinco do Quadro 3, *eleva olhos e sobrancelhas* - gesto emblemático - (desvia o olhar dos olhos para boca de Maria) - o olhar de acompanhamento de Nicolás demostra compreender o discurso de Maria. Isso é possível entrever quando ele faz o gesto emblemático em resposta a Maria. Desse modo, movimentos faciais e direção do olhar, aspectos de orientação e de postura do comportamento interacional possibilitam, com uma extrema rapidez, a interação entre os pares.

Essas relações que estabelece e consolidam práticas sociais, influenciam os modos de interações e reflete a personalidade dos sujeitos participantes. O locutor é considerado um ser social, na visão de sociabilidade pensada por Bakhtin (2002). Logo, ao serem concebidos como seres sociais,

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os locutores são construídos ao mesmo tempo pela interação entre eles e pelas relações com o extralinguístico e a sociedade. Passemos à próxima cena.

4.2 CENA DA BRINCADEIRA

As brincadeiras e os jogos são utilizados como recurso de ensino, na escola, favorecem a imersão das crianças nas diferentes linguagens e o progressivo domínio por elas de vários gêneros e formas de expressão: gestual, verbal, plástica, dramática e musical, podendo ser utilizada também na situação de recreio.

Maria interage com Nicolás ao perceber que ele não pode se movimentar, ela tenta ensiná-lo e inseri-lo na brincadeira, primeiro utiliza uma corda, amarra os dois tornozelos dele, e depois amarra a corda dos punhos E e D e faz movimentos coordenados e ritmados. Ela resgata brincadeiras e jogos infantis na expectativa de conseguir que seu colega se movimente ou fale, vivenciando situações de descobertas e aprendizado. Analisemos, a seguir, as mesclas de Maria e Nicolás nos Quadros 4 e 5:

Quadro 4 - Mescla de Maria – Cena da Brincadeira

Nº de linhas

Mescla de Maria – Cena da Brincadeira

1 *segura a corda com a mão E que está amarrada ao pé D de Nicolás, ela puxa o braço para trás movimenta o corpo para acompanhar o ritmo sem sair do lugar* - Gesto ritmado e atenção de acompanhamento "um", “dois”, "um", “dois”, "um", “dois”, "um", “dois”.

2 *repete o movimento anterior, agora com a mão D e o pé E de Nicolás* Gesto ritmado e atenção de acompanhamento "dois". *Levanta seu braço D que está amarrado ao punho E de Nicolás, a altura da cabeça e seu corpo acompanha o movimento dobrando o joelho D* - Gesto ritmado (Maria em pé do lado D da cadeira de rodas, olha de lado para Nicolás) - Atenção de checagem (olha para o lado oposto) - Atenção de acompanhamento "um" *desce o braço em direção ao corpo* - Gesto ritmado (olha para frente) - Atenção de acompanhamento "dois", 3 *passa para o lado esquerdo da cadeira de roda e novamente com o punho E amarado ao punho

D de Nicolás, Maria levanta o braço D atrás da cabeça e inclina o corpo com o joelho E flexionado* - Gesto ritmados (Maria olha para cima e para o lado E) - Atenção de acompanhamento "um" (volta o olhar para os olhos de Nicolás do seu lado) - Atenção de checagem "dois" *baixa o braço e virar a cabeça para Nicolás* - Gesto de acampamento (olha para o lado D pelo canto dos olhos) _ atenção conjunta,

4 *Maria segura a corda e puxa*

5 *com a corda amarrada no pé D movimento de chute* - Gesto de Emblemático, Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

A ocorrência da atenção conjunta é bem justificável, devido à iniciativa de Maria iniciar uma nova brincadeira para ensinar ao Nicolás como se movimentar de forma coordenada, como podemos acompanhar na linha três do Quadro 4, (Maria olha para cima e par o lado E) - Atenção de acompanhamento - "um" (volta o olhar para os olhos de Nicolás do seu lado) - Atenção de checagem - "dois" *baixa o braço e virar a cabeça para Nicolás* - Gesto de acampamento - (olha para D pelo canto dos olhos) - atenção conjunta.

Assim, como na linha quatro do Quadro 5, podemos observar a atenção conjunta de Nicolás, *olha para Maria* - Gesto de checagem - olha para E pelo canto dos olhos* - atenção conjunta. Nessa

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análise, identificamos as interações nas quais as crianças prestam atenção, conjuntamente, com o objeto corda caracterizando atenção conjunta (TOMASELLO, 2003a).

Quadro 5 - Mescla de Nicolás – Cena da Brincadeira Nº de

linhas

Mescla de Nicolás – Cena da Brincadeira

1 *sentado mãos apoiada nos joelhos e Maria puxa sua perna E de pela corda *- Gesto de acompanhamento (olha diretamente para Maria e pisca os olhos uma vez) - Atenção direta *ao mesmo tempo que o pé E, volta para a cadeira de rodas, o pé D é esticado* - Atenção de acompanhamento e Gesto ritmado *há repetição dos movimento pé E, esticado e alternando com o pé D*

2 *seu braço D é elevado a altura da cabeça, sua mão E em concha para baixo, tronco e cabeça levemente inclinados acompanhando o movimento do braço* - Atenção de acompanhamento e Gesto ritmado (olha para o lado D em direção a Maria) - Atenção de checagem (continua olhando de lado, pisca e arregala os olhos) - Atenção de acompanhamento *seu braço volta para o apoio da cadeira de rodas, e seu tronco e cabeça para o encosto* - Atenção de acompanhamento e Gesto ritmado (olhar de acompanhamento no canto dos olhos)

3 (olha para o lado E com o canto dos olhos para acompanhar o movimento de Maria) - Olhar de acompanhamento *elevação do braço D amarrado pela corda, sua cabeça e seu tronco acompanha esse movimento* - Atenção de acompanhamento e Gesto ritmado *o braço retorna ao apoio da cadeira de roda, o tronco e a cabeça também* - Atenção de acompanhamento e Gesto ritmado (o seu olhar fixa em Maria) - Atenção direta

4 *olha para Maria* - Gesto de checagem - olha para o lado E pelo canto dos olhos* - atenção conjunta

5 *gesto de chutar* Gesto emblemático

Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

Percebemos a capacidade de Nicolás prestar atenção às ações de sua parceira de interação, o que pode ser configurado como atenção de acompanhamento de acordo com Tomasello (2003a), na linha um do Quadro 5, *ao mesmo tempo que o pé E, volta para a cadeira de rodas, o pé D é esticado* - Atenção de acompanhamento.

Nesse caso, percebe-se que o menino acompanha como o olhar todos os movimentos de Maria, principalmente quando há presença de gestos ritmados, “um, dois ... um, dois ... um, dois” durante toda a cena, quando as mãos se movimentam no mesmo ritmo da pulsação da fala de acordo com a dimensão gestual de McNeill (1992).

Assim sendo no movimento dialógico de Bakhtin (1979) verificamos as relações entre sujeitos. À medida que Nicolás interage com Maria, observando suas ações, atendendo ao seu chamado e procurando algo indicado por ela, na linha dois do Quadro 5, (olha para o lado D em direção a Maria) - Atenção de checagem - *seu braço volta para o apoio da cadeira de rodas, e seu tronco e cabeça para o encosto*, fica perceptível a atenção de acompanhamento de todos os engajados na cena, para se familiarizar com a ação do outro.

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4.3 CENA DO CANTINHO DA LEITURA

Contar histórias para crianças também contribui para o desenvolvimento da linguagem, amplia o universo de significados da criança e o desenvolvimento da criatividade e raciocínio lógico bem como o hábito de leitura.

Nessa cena do cantinho da leitura encontramos os sujeitos estão sentados num banco de cimento, com o livro aberto no colo e os punhos esquerdos de Maria e de Nicolas, juntos, amarrados por cordas. Suas mãos se movimentam sobre o livro enquanto Maria lê um conto de fadas, os dois interagem com o livro. Observemos as mesclas nos Quadros 6 e 7.

Quadro 6 - Mescla de Maria – Cena - Cantinho da leitura

Nº de linhas

Mescla de Maria – Cena - Cantinho da leitura

1 “Era uma vez um príncipe que tinha um castelo com uma bruxa” (olha diretamente para o livro) – Atenção direta – Atenção conjunta.

2 *mão espalmada no livro aberto, com o punho E amarrado com corda ao punho E de Nicolás, cabeça levemente inclinada à E – Gesto emblemático

3 (olha para o lado D para verificar a atenção de Nicolás) – Atenção de checagem * Levanta a mão E até a lateral D do livro, sua cabeça acompanha o movimento para frente* - Gesto emblemático

4 (retorna o olhar para o livro) – Atenção de acompanhamento *passa a folha do livro* - Gesto emblemático *pousa a mão no livro, voltando o corpo a posição inicial*

Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

Na terceira cena, podemos caracterizar como atenção conjunta direta de maneira triádica. Nela, Nicolás inicia apenas observando Maria e depois passa a dividir a atenção como ela e o livro, objeto que ele insere na interação. O mesmo acontece com Maria, só que de forma contrária, primeiro ela observa o livro para depois dividir sua atenção com Nicolas, o que configura o formato triangular da atenção conjunta proposto por Tomasello (2003a).

No decorrer da cena, os gestos emblemáticos continuam sucedendo na mescla de Maria, nas linhas dois, três e quatro do Quadro 6, por exemplo na linha dois: *mão espalmada no livro aberto, com o punho E amarrado com corda ao punho E de Nicolás, cabeça levemente inclinada à E – Gesto emblemático.

Quadro 7 - Mescla de Nicolás – Cena - Cantinho da leitura

Nº de linhas

Mescla de Nicolás – Cena - Cantinho da leitura

1 *mão E um pouco fechada com o dedo indicador estirado em cima do livro, seu punho E amarrado por uma corda ao punho E de Maria* - Gesto emblemático

2 (olha atentamente para o livro) – Atenção Direta (olha para o lado E para verificar Maria) – Atenção de checagem

3 (retorna o olhar para o livro para acompanhar a leitura) – Atenção direta * seu braço e mão acompanham o movimento do braço de Maria até o início da folha do livro) Gesto emblemático

4 *passa a folha* Gesto emblemático *sua mão volta a pousar no livro junto com a de Maria* Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

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O mesmo ocorre na mescla de Nicolás, nas linhas um, três, e quatro do Quadro 7, como exemplo a linha quatro *passa a folha* Gesto emblemático *sua mão volta a pousar no livro junto com a de Maria*. Compreende-se que há predominância do uso dos gestos emblemáticos que são usados culturalmente, ocorrem com a presença opcional da fala (KENDON, 1982).

Constatamos que essas características também se encaixam dentro da tipologia do gesto dêitico de acordo com McNeill (1992), uma vez que indicam o modo particular de apontar executado por Nicolás.

Durante todas as cenas, percebemos que ocorreram interações dialógicas entre os sujeitos. Esses episódios, nos reportam a dialogicidade de Bakhtin (1979) quando comenta que viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar etc. Nesse diálogo, o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Essas relações que estabelece e consolidam práticas sociais, influenciam os modos de interações e reflete a personalidade dos sujeitos participantes.

4.4 CENA DA INICIATIVA

É por meio das brincadeiras que as crianças se envolvem no jogo e sentem a necessidade de interagir com as outras ainda que em postura de adversário, a parceria é um estabelecimento de relação. Essa relação expõe as potencialidades dos participantes, afeta as emoções e põe à prova as aptidões testando limites.

Na quarta cena, é apresentado o momento em que acontece a interação dialógica dos dois personagens com o objeto (bola). Maria após várias tentativas de ensinar ao Nicolás a chutar a bola, com uma corda amarrada ao seu tornozelo, surpreende-se com o fato de ele chutar sozinho. Analisemos os quadros abaixo da mescla do olhar, fala e gestos de Maria (Quadro 8) e de Nicolás (Quadro 9):

Quadro 8 - Mescla de Maria – Cena da Iniciativa

Nº de linhas

Mescla de Maria – Cena da Iniciativa 1 *Coloca a bola com as duas mãos no meio dos pés de Nicolás*.

2 *sentada sobre as pernas e as mãos sobre os joelhos, a cabeça acompanha a corda amarrada na cadeira de rodas* - Gesto de Checagem (Maria olha fixamente para a bola) - Atenção direta (desvia o olhara para o lado D seguindo a corda). Atenção de acompanhamento *Acompanha o percurso da bola com a cabeça e admirada! * - Gesto de acompanhamento e atenção conjunta (Olhar a bola se deslocando e acompanha o percurso arregalando os olhos). - Atenção de acompanhamento e atenção conjunta (Olha de olhos arregalados e sobrancelhas arqueadas). Atenção direta.

3 *volta a cabeça para o lado D sorrindo* Gesto de Checagem "Isso!" (Desvia o olhar da bola para Nicolás) - Atenção de checagem *corre com os braços e mãos elevados e toca nos ombros de Nicolás* - Gesto de tocar (Aproxima-se do rosto Nicolás) - Atenção direta - "Você conseguiu!" ainda tocando seus ombros, seus olhos e sobrancelhas acompanham o ritma de

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sua fala* Gesto de tocar (Fixa nos olhos dele). - Atenção Direta a cabeça sobre e desce suavemente, e flexões suave nos cotovelos "você vai se recuperar, vai andar e então vai falar e aí vamos viajar para o mundo todo." *Seu rosto se aproxima e afasta-se do dele, durante seu discurso* - Gesto ritmado - (Elevação do olhar para o mesmo nível do menino) - Atenção direta (Desce um pouco o olhar, mas não o desvia). - Atenção direta - *Retira sua mão E do ombro dele, gira o corpo (sem sair do lugar) e a cabeça para o mesmo lado, apontando para o céu (andar de avião) * - Gesto emblemático – (Desvia o olhar de Nicolás para o céu do lado E). - Atenção de acompanhamento - (Retorna o olhar para Nicolás). - Atenção direta *Retorna o braço e toca no seu ombro novamente. * - Gesto de tocar (Segura o olhar enquanto fala). Atenção direta - "Sabia que tem lugares que se come formigas?" *Movimento ritmado acompanhando sua fala* - Gesto ritmado - *Retira a mão E, ao mesmo tempo gira o corpo e coloca a mão no queixo. * - Gesto emblemático - (Direciona o olhar para o lado E, e ao girar eleva os olhos para o céu). Atenção de checagem - "A gente não precisa comer formigas”. (Olhar preso no céu e as sobrancelhas franzidas). Atenção de checagem - (Retorna o olhar olhando para seu rosto). - Atenção de checagem - *Gira cabeça para o lado D buscando seu olhar* - Gesto de checagem - *toca novamente seu ombro e encosta sua cabeça no peito (um abraço) – Gesto emblemático - “Hum hum hum hum.” – Holófrases.

4 * De joelhos em frente a cadeira de rodas, pernas afastadas, Maria permanece abraçada a Nicolás* - Gesto emblemático - (Fecha os olhos).

Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

Nessas mesclas, é possível acompanhar todo o percurso do movimento dos personagens e do objeto (bola). Depois de tanto empenho de Maria, ela fica admirada ao constatar a iniciativa que Nicolás teve ao chutar a bola. Verifiquemos, no trecho da transcrição da mescla de Maria, na linha dois do Quadro 8, “[...]*Acompanha o percurso da bola com a cabeça e boquiaberta! * - atenção de acompanhamento e atenção conjunta. No trecho da mescla de Nicolás, na linha três do Quadro 9, (Pisca e olha espantado para a bola). - Atenção de Checagem”.

Quadro 9 - Mescla de Nicolás – Cena da Iniciativa

Nº de linhas

Mescla de Nicolás – Cena da Iniciativa 1 (Olha diretamente para Maria) - Atenção Direta.

2 (Olha para Maria enquanto ela coloca a bola). - Atenção de acompanhamento - *Chuta a bola* - Gesto emblemático - (Olhos arregalados direcionado para o movimento da bola) - Atenção de acompanhamento e atenção conjunta.

3 (Pisca e olha espantado para a bola) - Atenção de Checagem,

4 (Olhar de acompanhamento da corrida de Maria) - Atenção de acompanhamento - *sorriu! * (Olha diretamente para Maria) - Atenção Direta.

5 *Ergue a cabeça e encosta na cadeira de rodas, ainda sorrindo* - Gesto emblemático e Dêitico - (Eleva os olhos, mas não desvia o olhar e com sorriso nos lábios) - Atenção Direta. 6 (Olha acompanhando para o movimento do braço e mão (imitando avião)). - Atenção de

acompanhamento.

7 (Retorna o olhar para o rosto de Maria). Atenção direta *pisca* - Gesto emblemático olha para o céu juntamente com ela) - Atenção Acompanhamento e Atenção conjunta.

8 *pisca* - Gesto emblemático - (Pisca os olhos e olhar para o céu) - Atenção direta. Fonte: Elaborada pelas Autoras (2018)

Nos quadros de atenção conjunta, tanto a criança quanto o adulto definem intencionalmente os referenciais externos e as atividades que compõem esses contextos. Além disso, a criança compreende o papel que ela, o adulto e o referencial externo desempenham nesses contextos, assim

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como a intercambialidade desses papéis, o que lhe permitirá adotar uma perspectiva externa para formar um autoconceito (TOMASELLO, 1999/2003a).

No nosso caso, o adulto é outra criança (Maria). É importante ressaltar que em todas essas situações, a compreensão da intenção comunicativa somente ocorre dentro de um contexto estabelecido pelos quadros de atenção conjunta, como Tomasello (2003b) esclarece a seguir:

(...) Para entender que a intenção do outro é chutar uma bola, tenho apenas que determinar seu objetivo no que diz respeito à bola. Mas, para compreender o que outra pessoa pretende quando emite o som 'Bola' na minha direção, tenho de determinar seu objetivo no que diz respeito aos meus estados de atenção/intencionais em relação a uma terceira entidade (TOMASELLO, 2003b, p.143).

Depois da análise desta cena de atenção conjunta e da classificação dos tipos de gestos executados pelos personagens, nos momentos de interações, pode-se afirmar que, embora Nicolás apresente dificuldade com a produção vocal, ele consegue iniciar interações dialógicas e, em certos momentos, é capaz de mantê-las utilizando outros recursos mesmo sem produção vocal e sem movimentar o corpo, como virmos na cena da iniciativa, quando ele observa Maria colocar a bola, chuta a bola, acompanha seu percurso e volta a atenção para Maria.

A partir das análises apresentadas no presente estudo, consideramos que o curta-metragem estudado pode fornecer, de fato, pistas que contribuem para o estabelecimento das interações nas crianças com ECNP.

5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Tivemos por objetivo, neste estudo, analisar as produções multimodais em cenas com interações entre dois personagens do curta-metragem animado Cuerdas, para compreender a capacidade dialógica de crianças com Encefalopatia Crônica não Progressiva. Tivemos por base de investigação o gesto, o olhar e a produção vocal como canais para o estabelecimento e a manutenção do diálogo, segundo as teorias de Kendon e McNeill. Assim, entendemos que o fato de não oralizar não exclui esse sujeito de uma relação com a linguagem e de interagir dialogicamente, pois além de ouvir, esse sujeito se coloca no diálogo de diversas maneiras.

Concluímos que as análises das produções multimodais (olhar, gesto e produção vocal) nas cenas de interações evidenciaram a participação ativa na manutenção do diálogo. O modo como essa criança com ECNP se manifestou pelos gestos, olhares e movimentos corporais revelou uma construção dialógica plena de significação, revelando gostos e iniciativas de ações, que apontam para a construção de um sujeito.

Portanto, não se pode falar da linguagem dessas crianças cérebro-lesionados sem se fazer referência às suas singularidades, como pudemos observar nas cenas analisadas, o menino apresentou

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uma linguagem corpórea, que fala. E mesmo que essa fala não seja oralizada, ela exprime o sujeito que se coloca no discurso, que participa da interação.

Assim, esperamos que este estudo, que evidenciou um modo particular de fala, possa sensibilizar pais e educadores para a competência dessas crianças com ECNP e que sejam valorizadas as produções multimodais na sua linguagem expressiva. Precisamos compreender a língua em sua multimodalidade e usar estratégias adequadas, no sentido de otimizar as potencialidades dessas crianças e criar possibilidades de uma maior inclusão.

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Referências