Sérgio Roberto Moraes Corrêa Doutorando em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande (PPGCS-UFCG) Professor do Deptº. de Educação Especializada da Universidade do Estado do Pará E-mail: s

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Sérgio Roberto Moraes Corrêa

Doutorando em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande (PPGCS-UFCG)

Professor do Deptº. de Educação Especializada da Universidade do Estado do Pará E-mail: sergiorcm2001@yahoo.com.br

Salomão Antônio Mufarrej Hage

Doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Professor do Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Pará

E-mail: salomao_hage@yahoo.com.br

Resumo

O artigo analisa a realidade educacional e social mais ampla do campo no estado do Pará, relacionando e considerando os processos e dinâmicas sociais, políticos, econômicos, culturais e ambientais da multiterritorialidade rural amazônica. Seu conteúdo evidencia singularidades produtivas, ambientais e socioculturais da Amazônia, e apresenta referências para a elaboração e implementação de políticas e práticas educacionais pautadas pela convivência e o diálogo entre as diferentes culturas, buscando enfrentar as hierarquias e desigualdades de classe, gênero, raça, etnia existentes na região e na sociedade.

Palavras-chave: Educação do campo, educação na Amazônia, políticas educacionais, diversidade cultural, desenvolvimento social.

Resumen

Amazonia: la urgencia y necesidad de construcción de políticas y

prácticas inter/multiculturales

El artículo analiza la realidad educacional y social más amplia del campo en el estado de Pará, relacionando y considerando los procesos y dinámicas sociales políticas, económicas, culturales y ambientales de la multiterritorialidad rural amazónica. Su contenido evidencia singularidades productivas, ambientales y socio culturales de la Amazonia, y presenta referencias para la elaboración e implementación de políticas y prácticas educacionales pautadas por la convivencia y el diálogo entre las diferentes culturas, buscando enfrentar las jerarquías y desigualdades de clase, género, raza, etnia existentes en la región y en la sociedad.

Palabras claves: Educación del campo, educación en la Amazonia, políticas educacionales, diversidad cultural, desarrollo social.

Abstract

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By considering the dynamic processes of relations among social, political, economic, cultural and environmental aspects of multi-territoriality, this article analyzes rural educational and social reality in the state of Pará, Brazil. It analyzes the singularities of productive, environmental and socio-cultural relationships in the Amazon and it presents references to the development and implementation of educational policies and practices guided by coexistence and dialogue between different cultures. The study seeks to confront the hierarchies and inequalities of class, gender, race, ethnicity that exist in the region, not to mention wider society.

Keywords: Rural education, education in Amazon, educational policy, cultural diversity, social development.

Introdução

Como pensar a educação e a escola do campo de nosso próprio lugar, da Amazônia? Que políticas e práticas educacionais formular e efetivar que tenham a nossa cara, o nosso jeito de ser, de sentir, de agir e de viver Amazônico? E como considerar o contexto nacional e internacional e ao mesmo tempo afirmar as identidades culturais da Amazônia?

Esse artigo se coloca a ousadia de problematizar esses questionamentos, fundamentando sua argumentação nos resultados dos estudos que temos realizado no âmbito do «Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia - GEPERUAZ», vinculado ao Instituto de Ciências da Educação da UFPA; que focam a realidade educacional e social mais ampla e complexa das populações do campo no Pará/Amazônia. Esses estudos têm fortalecido os nossos compromissos com a construção e efetivação de políticas e práticas educacionais que busquem a melhoria da qualidade da educação, numa perspectiva emancipatória, garantindo o direito de aprender das crianças, adolescentes, jovens e adultos do campo da Amazônia Paraense e a permanecer no próprio local em que vivem com dignidade humana e social.

Para iniciar o debate sobre a elaboração e implementação de políticas e práticas educacionais que afirmem as identidades culturais próprias de nossa região, consideramos oportuno, num primeiro momento, uma reflexão sobre a Amazônia no contexto atual, focalizando os aspectos significativos da heterogeneidade produtiva, ambiental e sócio-cultural e territorial da Amazônia; num segundo momento, apresentamos algumas proposições para repensar as políticas e práticas educacionais na região e, por fim, tecemos as palavras finais.

Amazônia e suas multifaces: a necessidade de um outro olhar teórico e de novas

políticas sociais/educação

A Amazônica brasileira, tomando como referência a Amazônia Legal1, é constituída pelos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e o ocidente do Estado do Maranhão e o norte do Estado do Mato Grosso, abarcando e totalizando, assim, aproximadamente, 60% do território brasileiro, 5,1 milhões de Km² (MEIRELES FILHO, 2004). Vale destacar que essa Amazônia possuí mais de 11.000 km de fronteiras internacionais e 1.482 km de costa, aproximadamente, cerca de 1/5 da costa brasileira e 150 km de largura no território brasileiro (BECKER, 2006).

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É importante considerar que essa região se situa no espaço amazônico Sul-Americano ou Amazônia Internacional, ou ainda, Pan-Amazônia, que representa 1/20 da superfície terrestre do planeta, 2/5 da América do Sul e 3/5 do Brasil. Essa Amazônia sul-americana compreende: Brasil, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Bolívia, Guina, Guina Francesa e Suriname, sendo sua área total de 6,5 milhões de Km². Essa porção contém 1/5 da disponibilidade de água doce do mundo, mais de 1/3 das reservas mundiais de florestas tropicais e 3,5 milésimo da população mundial.

Na Amazônia brasileira, sua demografia populacional, consoante ao último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2000), é da ordem de mais de 21 milhões de habitantes, apresentando no espaço rural um número de 6.712.137 e no urbano 14.344,343 habitantes. Com isso, o espaço urbano dessa região beira os 70%.

No tocante a esse processo de explosão demográfica, dois aspectos devem ser registrados. Primeiro, isso se deveu, não se pode deixar de considerar, a um contexto histórico particular, expresso durante o governo do regime militar (1964-1985), por meio dos grandes projetos para região, alavancado e expandido, desordenadamente a ocupação socioespacial e o fenômeno de urbanização precária ou excludente, assumindo o processo imigratório e migratório papel importante nesse processo de desenvolvimento de modernização conservadora.

Num segundo aspecto, o órgão de pesquisa do IBGE, com base na antiga premissa do «perímetro urbano», leva em consideração como espaço urbano as sedes municipais (cidades) e distritos (vilas) que, em sua grande parte, apresentam fortes características rurais e interações com o mundo rural, principalmente em se tratando da região amazônica.

A despeito disso, Veiga (2003, p. 31) assina e adverte que,

O entendimento do processo de urbanização do Brasil é atrapalhado por uma regra muito peculiar, que é única no mundo. Este País considera urbana toda sede de município (cidade) e de distrito (vila), seja quais forem suas característica. [...] De um total de 5.507 sedes de município existentes em 2000, havia 1.176 com menos de 2 mil habitantes, 3.887 com menos de 10 mil, e 4.642 com menos de 20 mil, todas com estatuto legal de cidade idêntico ao que é atribuído aos inconfundíveis núcleos que formam as regiões metropolitanas, ou que constituem em evidentes centros urbanos regionais. E todas as pessoas que residem em sedes, inclusive em ínfimas sedes distritais, são oficialmente contadas como urbanas, alimentando esse disparate segundo o qual o grau de urbanização do Brasil teria atingido 81,2% em 2000.

A despeito desse segundo aspecto, é relevante considerar que essa premissa do «perímetro urbano» se constituiu como uma idéia imaginária e autoritária criada durante o

Estado-Novo do governo Getúlio Vargas, através do Decreto Lei 311 de 1938, segundo o qual

cria e legitima uma dicotomia entre espaço urbano e rural, concebendo o primeiro como horizonte de modernidade e de desenvolvimento, ao passo que o segundo, um espaço de atraso e de inferioridade, conformando, assim, uma relação desigual e de exclusão, que vai se somar às outras formas de desigualdade e de exclusão, como as regionais (CORRÊA, 2007; VEIGA, 2003).

Esse decreto institucionalizava, de forma, jurídico-político e ideologicamente o ordenamento territorial brasileiro com base na onda industrialista-urbana de desenvolvimento e de modernização do mundo ocidental, reforçando e ampliando, portanto, a lógica colonialista de reprodução e de subjugação ao receituário eurocêntrico de relação de produção capitalista e de produção de conhecimento ocidental (CORRÊA, 2007).

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urbanização extensiva, e de um ufanismo urbanocêntrico da Amazônia, considerando-a, apressadamente, como «floresta urbana» (BECKER, 2006). Na análise de algumas entidades (CONDRAF, 2006) e de alguns estudiosos (VEIGA, 2003), a sociedade brasileira é «mais rural do que se imagina».

A Amazônia apresenta como uma de suas características fundamentais a

heterogeneidade. No âmbito desse artigo, na impossibilidade de tratar de todos os aspectos que configuram essa heterogeneidade, focalizamos apenas as singularidades relacionadas ao terreno ambiental, sociocultural, produtivo e territorial da região, com a expectativa de que essas especificidades sejam apresentadas e problematizadas nos processos e espaços de elaboração e implementação de políticas e propostas educacionais para a região, particularmente para o tempo-socioespacial do campo na sua bio e socioculturaldiversidade.

Tempo-e-espaço são entendidos aqui como

construções socioculturais e mentais pelo ser humano em contextos históricos particulares, que envolvem relações de poder. Com essa compreensão, é importante considerar a existência de uma temporalidade hegemônica forjada pelas relações de produção capitalistas, que, ao modificarem o espaço, produzem a territorialização do capital na sua forma material e simbólica. Todavia, existem outras temporalidades e territorialidades, que são produzidas por diversos sujeitos como forma de expressar e manifestar seus modos de vida próprios em resistência a essa lógica hegemônica. Por isso, é importante reconhecer e afirmar a existência na região amazônica, no campo, no terreno dessa diversidade, temporalidades e territorialidades ou multiterritorialidades. (CORRÊA, 2007, p. 18).

A biodiversidade amazônica

No tocante à heterogeneidade ambiental, a Amazônia é constituída por um conjunto de ecossistemas, que vão dos florestais aos não-florestais, tecendo complexas e ricas teias de biodiversidade (MEIRELES, 2004). A região possui a maior área preservada de floresta tropical do planeta e de diversidade biológica, com 250 milhões de hectares de floresta, onde estão estocadas, aproximadamente, 14 bilhões de m³ de madeira comercializável2 e é possível encontrar cerca de 30 milhões de espécies vegetais e animais do país. A existência de plantas medicinais, aromáticas, alimentícias, corantes, oleaginosas e fibrosas; e de 67% dos mamíferos, 59% das aves e 32% dos anfíbios registrados no país, são destaques marcantes de sua biodiversidade; e quando consideramos os primatas (macacos e micos), nela podemos encontrar 76% das espécies do Brasil.

Parte significativa de toda essa biodiversidade é desconhecida de grande parte da comunidade cientifica e da humanidade, contudo, muitas das plantas medicinais, já são milenarmente usadas pelas populações tradicionais da Amazônia e graças a estas populações, as instituições de pesquisa ética ou levianamente vem descobrindo esse diverso e grandioso potencial do patrimônio natural amazônico.

No tocante a essa biodiversidade amazônica, há três questões a serem destacadas. No limiar dessa nova revolução científico-tecnológica e com ela a corrida pelo mapeamento genético e pela biotecnologia, as florestas amazônicas assumem papel estratégico na geopolítica econômica e cultural mundial, posto seu potencial de gás carbônico e de diversidade biológica, que se constituem num imenso mapa genético entre flora e fauna, ainda,

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em grande medida, por ser descoberto, para o estudo, aprofundamento e desenvolvimento da biotecnologia.

Carlos Gonçalves, ao fazer estudo na sociedade brasileira sobre a questão agrária na atualidade, assinala que vivemos um novo momento ideológico da revolução verde. Ela está, agora, sob o manto da nova biotecnologia, que «é laboratorialmente produzida pelos laboratórios que, cada vez mais são menos públicos», pois seguem os padrões do mercado. Para ele, isso vai na contramão das «biotecnologias que foram e são tecidas no campo pelos diferentes povos», que se constituem como públicas. Esse vem sendo o modelo de expropriar essas populações originárias do campo da região amazônica e os saberes de seus recursos naturais, através das várias empresas internacionais farmacológicas.

Isso está diretamente associado ao que vem se denominando de mercado da vida que vê na biodiversidade da floresta amazônica a mais recente e sutil forma de «territorializar o

território do capital3e emplacar e fortalecer esse novo discurso de desenvolvimento sustentável de forma conservadora, que reserva a diversidade biológica para ciência e tecnologia do mercado, excluindo as populações que vêm convivendo a milênios com ela» (CORRÊA, 2007, p. 220). Daí a necessidade de se erigir um espírito crítico sobre os discursos de responsabilidade social e ambiental do grande capital.

Diretamente relacionada a essa questão, está a biopirataria que atravessa fronteiras, usando tecnologias fortemente sofisticadas, para desbravá-la e conquistá-la no sentido (neo)colonizador, patenteando o conhecimento e fortalecendo e enriquecendo esses megaconglomerados laboratoriais e farmacêuticos multinacionais e empresas de cosméticos, por meio da privatização e comercialização do conhecimento.

José Arbex Jr. (2005), em seu artigo intitulado «Terra sem povo, crime sem castigo: Pouco ou nada sabemos de concreto sobre a Amazônia», identifica a biopirataria como uma das cinco grandes áreas de atuação do crime organizado na Amazônia brasileira. Ela envolve doleiros, banqueiros, políticos, empresários e comerciantes respeitados, em suas comunidades, em todo o Brasil no atendimento ou transferência de recurso genético e/ou conhecimento tradicional associado à biodiversidade sem a expressa autorização do Estado de onde foi extraído o recurso, ou da comunidade tradicional que desenvolveu e manteve determinado conhecimento ao longo dos tempos. Por isso, se falar, também, no mercado do conhecimento

das populações tradicionais presente nessa geopolítica cultural e econômica do mercado

globalizado (CORRÊA, 2007).

A biopirataria, indicada por Arbex Jr. como o terceiro negócio ilegal mais lucrativo do mundo, perdendo somente para o de armas e o de drogas, movimenta, anualmente, algo em torno de 60 bilhões de dólares. Somente em 2003, ela teria faturado cerca de 16 milhões de dólares por dia na Amazônia, por intermédio do tráfico de animais e de outros tipos de material. Inusitadamente, a biopirataria de forma eventual, conta com a participação de instituições oficiais de pesquisas e universidades, como concluiu, em 2003, o relatório de 161 páginas de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados sobre tráfico de plantas e animais silvestres.4

Na mira dessa floresta está, ainda, o mercado do ar ou crédito de carbono ou, ainda, o que se chama de «seqüestro de carbono» (BECKER, 2006), que é colocado na agenda global como questão vital. Esse mercado do carbono é o financiamento pelos países desenvolvidos e pelos organismos internacionais de projetos de conservação e preservação de florestas tropicais na Amazônia brasileira, para se controlar e reduzir o aquecimento global.

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Território é concebido, aqui, numa perspectiva relacional e integradora. Essa abordagem permite conceber o território nas suas várias dimensões (política, econômica, social e simbólico-cultural) e nas suas várias escalas (local, regional, nacional e global). (CORRÊA, 2007).

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Essa política do mercado do ar precisa ser vista com cautela, posto a força do mercado, dos países desenvolvidos e dos organismos de fomento internacionais que se impõem sobre essas regiões. Ai pode residir um mecanismo dissimulador para que esses países desenvolvidos continuem produzindo em larga escala e usem essas regiões como válvula de escape, a fim de amenizar a crise de seu modelo de desenvolvimento e passar a imagem do capitalismo para o mundo como possível de desenvolver atividades produtivas ecologias. Isto é o discurso do ‘capitalismo limpo ou ecológico’, que traz consigo a revigoração da revolução verde sob o manto de um discurso ecológico conservador. (CORRÊA, 2007, p. 221).

A região amazônica possui, ainda, a maior bacia hidrográfica do mundo. O maior reservatório de água doce existente no planeta Terra, com uma extensão de 4,8 milhões de Km², que representa cerca de 17% de toda a água líquida e 70% da água doce do planeta. A grande maioria dos rios amazônicos é navegável, são vinte mil quilômetros de via fluvial que pode servir ao transporte em qualquer época do ano, e, além disso, abrigam cerca de 1.700 espécies de peixes5, além de outras espécies que compõem a diversidade biológica marinha da chamada Amazônia Azul, ainda, também pouco conhecida, mas já cobiçada e em constante exploração.

Aqui, reside outra questão de suma importância, o chamado mercado da água ou

Hidronegócio. Esse mercado vem ganhando cada vez mais força na Amazônia, haja vista seu

potencial e a geopolítica da guerra pela água que é um novo aspecto que toma relevância no mundo contemporâneo. «Os conflitos de uso pelos recursos naturais inscrevem bem esse novo mapa dos conflitos de uso e de significação do território» (CORRÊA, 2007).

Esse potencial hídrico é visto pelo grande capital como um enorme potencial energético para alimentar a exploração, a extração e produção da cadeia diversa de minérios pelas indústrias de eletrointensivos. Aqui, os projetos das grandes barragens são colocados na ordem do dia pelo grande capital local, regional, nacional e global. Mas, esse mercado é, também, cobiçado por outras atividades produtivas, como as grandes empresas de água mineral e de abastecimento de água e de tratamento de esgoto, criadas com a privatização. (CORRÊA, 2007, 222).

A Amazônia apresenta um grande potencial de riquezas minerais. No Estado do Pará, encontra-se a maior província mineralógica do planeta, com uma quantidade e diversidade grandiosas e riquíssimas de minérios (Ferro, cobre, bauxita, caulim, cassiterita, manganês etc). Dados oficiais do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) sobre os Processos de

Mineração na Amazônia, informam um total de 41.681 processos de mineração; 527

concessões de lavra em vigor; 6.478 autorizações de pesquisa em andamento; e 432 concessões de lavra garimpeira (DNPM, 2006). As empresas Multinacionais são detentoras de quase todas as concessões de exploração mineral na região e existe a possibilidade de que a exploração mineral de ferro em Carajás pela Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), prevista para 800 anos, reduza para 100 anos (PINTO, 2007).

A diversidade sociocultural

No que concerne à heterogeneidade sociocultural, a Amazônia é marcada por uma ampla diversidade sociocultural, composta por populações que vivem no espaço urbano e rural,

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habitando um elevado número de povoados, pequenas e médias cidades e algumas metrópoles, que, em sua maioria, possuem poucas condições para atender às necessidades dessas populações, por apresentarem infra-estrutura precária e não dispor de serviços essenciais e direitos básicos, sobretudo na territorialidade do campo.

Entre essas populações, que habitam a região, encontram-se indígenas, quilombolas, caboclas ribeirinhas e da floresta, sem-terra, assentadas, pescadores, camponesas, posseiras, migrantes, oriundas, especialmente, das regiões nordeste e do centro-sul do país, entre outras populações.

A população indígena da Amazônia é estimada em 226 mil habitantes, sendo que ainda

há cinqüenta grupos de índios que não foram contactados; e em toda a Amazônia o número de idiomas chega a 250, enquanto que no trecho brasileiro da mata, sobrevivem 140 línguas. No Brasil, de acordo com os estudos de Arbex Jr. (2005), a população indígena é pouco mais de 1% da população brasileira, no entanto, este 1% dispõe de 11% do território nacional. No Amazonas, 21% do Estado são de terras indígenas; no Pará, 20%, e em Roraima, 58%. Essas áreas indígenas constituem na Amazônia um conjunto maior que Portugal, Espanha, Alemanha, Bélgica e Majorca. É importante registrar que só recentemente esses povos conseguiram e conquistaram o direito à demarcação e reconhecimento de seus territórios, por meio da Constituição Brasileira de 1988. No entanto, a materialização dessa conquista e reconhecimento legal esbarra na arcaica e dramática burocratização do Estado e na questão fundiária brasileira e regional, particularmente, no Estado do Pará.

Como parte fundante e integrante dessa diversidade e matriz cultural amazônica, estão e encontram-se os povos africanos. Eles contribuíram com a formação cultural da Amazônia ao disseminar suas danças, culinária, manifestações religiosas, entre outras. Eles vieram para a região provindos de Guiné-bissau, Cachéu e Angola, na condição de escravos para o cultivo da cana-de-açúcar e de outras atividades produtivas. Sua vinda oportunizou a povoação de muitas vilas e lugarejos ao longo da bacia amazônica.

Apesar de não existirem dados conclusivos sobre o tráfico de africanos para o Grão-Pará, Guzmán (2006) ajuda a evidenciar a importância da contribuição desses povos para a Amazônia, ao apresentar dados em seus estudos que são reveladores das proporções da população escrava trazida para a região, na segunda metade e final do século XVIII, era pombalina, os quais nos informam que no Maranhão, de um total de 78.860 pessoas, havia 34.680 escravos(as), e no Grão-Pará, do total de 80.000 pessoas, 18.944 eram negros e negras africanos e seus descendentes também escravos e escravas.

Na atualidade, no tocante às populações quilombolas, segundo dados da Coordenação Nacional das Comunidades Rurais Quilombolas (Conaq), estima-se que existam, aproximadamente cerca de mil comunidades quilombolas na Amazônia. Destas, 335 no Estado do Pará e 535 no Maranhão.

No que se refere às populações caboclas ribeirinhas, Gonçalves (2006, p. 154), assinala:

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Samuel Benchimol (1985)6, ao abordar as contribuições dos vários grupos sociais no processo de formação cultural da Amazônia Brasileira, revela que a formação das identidades culturais da Amazônia é muito complexa, pois aos saberes, valores e modos de vida indígenas, inicialmente predominantes na região, foram impostos outros padrões de referências advindos dos colonizadores europeus, dentre os quais destacam-se: portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, ingleses. Essa matriz cultural amazônica é constituída, ainda, por raízes das populações asiáticas, japonesas, populações orientais, os judeus e sírio-libaneses, e imigrantes nordestinos e de outras regiões brasileiras, além da matriz, mais recente, norte-americana.

É relevante, todavia, assinalar que esse processo de formação cultural da Amazônica revela uma forte hibridização «na constituição e conformação das suas populações e de suas identidades político-culturais, a qual se deu (e vem-se dando), desde o processo colonial, de forma conflitual e desigual, fundando uma matriz cultural hibrida» (CORRÊA, 2007, p. 180), sendo o paradigma de racionalidade eurocêntrico e de produção capitalista hegemônicos, produtor e difusor de uma política cultural conservadora, fundamentalmente excludente.

A cultura, como produção humana e social e como modo de existir de um povo/grupo social, faz-se e refaz-se num campo conflitual, no qual as relações de poder expressam as forças sócio-políticas em disputa. Essas relações se dão de forma desigual, onde determinados grupos/classes têm mais poder para impor e levar a frente seus interesses. Nesse sentido, o processo de

hibridização não pode ser entendido, ipso facto, como algo harmônico, mas sim

conflitual, pois quem hibrida quem? Quais os interesses nesse processo de hibridação? Como dizia o velho Marx, as idéias dominantes de uma época são, ainda, as idéias da classe dominante de uma sociedade, que não podem ser entendidas como meras reproduções mecânicas, mas forjadas no conflito e nos confrontos de interesses (CORRÊA, 2007, p. 180).

Isso possibilita reafirmar a luta contra o mito da Amazônia como natureza imaginária, segundo o qual a Amazônia não passa de uma selva, despida e apartada da cultura, no qual reside e impera a representação e imaginário social de confundir suas populações com a natureza, isto é, selvagens que, portanto, precisam ser civilizadas, por meio do mundo racionalista europeu e do ideário teológico-político. Esse foi um dos estratagemas de dominação desse paradigma racionalista eurocêntrico e, também, teológico. Esse mito é redefinido e revigorado com a nova onda conservadora da revolução verde, que defende o desenvolvimento sustentável excluindo as populações originárias de seus seculares territórios e de sua relação histórico-cultural com a natureza, por meio do discurso e do paradigma de áreas

protegidas (DIEGUES, 2000).

Toda essa dádiva da natureza amazônica, segundo Arbex Jr. (2005), tem moldado a atitude da comunidade internacional e a dos próprios brasileiros em relação à região, suscitando dois modos distintos e complementares de agir na contemporaneidade: de um lado, o maravilhamento em face do paraíso, do celeiro do mundo, que tem como exemplo emblemático o radicalismo de determinadas entidades ambientalistas de defesa da Amazônia, que lutam pela preservação intocada de um santuário natural; e de outro, a ação colonizadora, que numa perspectiva extremada, se materializa através da fúria das madeireiras e exploradores das riquezas naturais, que pouco se importam com os impactos ecológicos e culturais resultantes de suas atividades predatórias (Idem, p. 24-25)

Interpretações dessa natureza encontravam-se na base do processo de colonização da região, empreendido por portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses, que desde os séculos XVII e XVIII, vêm transplantando e impondo os valores e símbolos da cultura européia às sociedades originárias da Amazônia, levando a um processo de hibridização que

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se concretiza pela via da submissão e do conflito, sobrepondo ou integrando esses valores e símbolos eurocêntricos à cultura de origem.

De fato, a visão que os colonizadores tinham de que «o Brasil era um grande sistema ecológico natural, um território maravilhoso, região de riquezas infindáveis», «uma ordem natural que expressava a vontade de Deus»; mas também, um país «habitado por canibais e bestas indomáveis», «seres primitivos que corporificam a força da natureza em oposição à civilização»; continua a moldar a visão de uma grande parcela de brasileiros/as e de outras nações sobre a Amazônia, constituindo-se num dos principais obstáculos à compreensão dos principais conflitos e desafios que envolvem essa região na atualidade, sobretudo aqueles que envolvem a questão sócio-cultural, educacional e econômica de seu desenvolvimento (ARBEX, 2005, p. 18).

Por isso, a necessidade de construções de concepções, práticas e políticas educacionais inter/multiculturais, que recoloquem e reconheçam o valor dessas populações amazônicas como protagonistas, na conjugação e diálogo com outros povos, para edificação de novos paradigmas de educação e de desenvolvimento do campo e de sociedade no Pará, na região e no Brasil.

Nessa linha de horizonte, Boaventura de Sousa Santos (2003, p. 12), ao fazer alusão à perspectiva do Multiculturalismo Emancipatório, faz referência a duas questões centrais: a relação entre igualdade e diferenças, que denomina de política de igualdade e política de

diferença, que apontam tanto para emergência e reconhecimento dessas populações como

sujeitos do processo emancipatório, quanto para a contraposição ao Multiculturalismo

Conservador.

A diversidade produtiva

No que concerne à sua heterogeneidade produtiva, a Amazônia apresenta uma estrutura bastante complexa e muito diferente de outras regiões do país, uma vez que existem, em um mesmo espaço, de forma contraditória e conflitual, atividades econômicas de base familiar, cooperadas e solidárias, que envolvem tecnologias simples7, e processos de produção capitalistas, em larga escala, caracterizados por médios e grandes empreendimentos que usam sofisticadas e complexas tecnologias, desenhando, assim, uma matriz geográfica conflitual de uso e de significado do território e dos recursos naturais, expressa em lógicas e práticas diferentes e opostas.

Toda essa complexidade se materializa, envolvendo, numa perspectiva específica do grande capital, Grandes Projetos de exploração e exportação mineral por grandes empresas nacionais e multinacionais, dentre elas a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a ALBRAS/ALUNORTE, a Mineração Rio do Norte, a Camargo Corrêa, e ALUMAR do Maranhão, etc8. Assentadas numa plataforma científico-tecnológica, essas as atividades produtivas, em larga escala, vêm ampliando o seu potencial de produção, de mercado, sobretudo externo, e de astronômico volume de lucros, como a CVRD, que recentemente comprou a multinacional canadense Inco, segunda maior mineradora do mundo. Essas empresas contam, ainda, com volumosos incentivos ficais do Estado.

Exemplo disso é que esses megaempreendimentos minerais exploram, além desse potencial mineral da região, o seu potencial energético e hídrico. Maior ilustração disso e, também, Grande Projeto, é a Usina Hidrelétrica de Tucuruí (UHT), no município de Tucuruí,

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CASTRO, M. da C. A, 2002.

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Estado Pará, planejada geopolítica e economicamente para atender, principalmente, esses megaempreendimentos minero-metalúrgicos.9

Cabe registrar aqui os impactos grandiosos e danosos socioculturais, econômicos e ambientais que esses megaprojetos já causaram, poluindo rios e comprometendo a vida e a sobrevivência das populações locais. A barragem de Tucuruí, por exemplo, causou impactos alarmantes, «desestruturando os modos de vida de populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, camponesas, precarizando mais ainda suas condições de produzir e reproduzir sua existência material e simbólico-cultural» (CORRÊA, 2007).

Essa situação deve ser tomada como aprendizado para que não sejam cometidas atrocidades dessa natureza movidas pela insensatez e insensibilidade, haja vista o plano, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de construção de várias barragens ao longo dos rios Araguaia, Tocantins e Xingú, dentre elas a construção de Belo Monte, que é bem maior do que a de Tucuruí e, se construída, será a segunda maior do mundo. Como parte, ainda, do PAC e dentro da política dos Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento

(ENIDs) do governo federal, existe o projeto da hidrovia Araguaia-Tocantins, cujos estudos, segundo Novaes (2002), mostram sérios problemas sócio-ambientais. Isso expressa bem a territorialização do capital para/na e sobre a região amazônica.

No seio dessa matriz e lógica produtiva, encontram-se três Eixos Produtivos

concêntricos: a extração e exploração madeireira, a pecuária extensiva, e, mais

recentemente, a existência do agronegócio, com a produção de grãos, especialmente a soja, que expandem a fronteira agropecuarista na região amazônica.

Nesse contexto recente de expansão dessas fronteiras produtivas para região amazônica, a extração predatória de espécies de madeira de alto valor comercial, como mogno, cedro entre outras espécies, pelas indústrias madeireiras, têm aumentado a pressão sobre a floresta e sobre as populações que nela vivem. Mais de 90% dessas atividades de extração madeireira na região se fazem de forma predatória e ilegal, figuradas em empresas não reconhecidas e falsificadoras de documentos de exploração florestal e da força humana de trabalho. Essa exploração predatória está diretamente articulada, também, a siderurgia, uma vez que grande quantidade de madeira é extraída, como apontam os dados, para alimentar de energia essas empresas, por meio do carvão vegetal, extremamente poluidor do meio ambiente e prejudicial socialmente, pois submete as populações locais a condições exploratórias e indignas de vida e de trabalho, inclusive crianças e jovens, que se inscrevem dentro do trabalho escravo (CORRÊA, 2007).

As madeireiras, para Arbex Jr (2005, p, 36-37), constituem uma outra grande área de atuação do crime organizado na Amazônia brasileira, envolvendo praticantes de extração e do comércio ilegal de madeira nativa. Esse autor identifica além das madeireiras e da

biopirataria, como áreas de atuação do crime organizado na Amazônia brasileira mais três: a

financeira, que envolve grupos locais, associados às redes e operações de fraudes financeiras e práticas lesivas ao Tesouro Nacional, incluindo a evasão de divisas; Narcotráfico, que envolve máfias que promovem o tráfico de drogas proibidas por lei, como maconha e cocaína, muito mais como transportadores do que como centros produtores (caso de Colômbia, Bolívia e Peru); e Atividades Associadas, que envolve formas de comércio ilegal que vive do e para o crime organizado, eventualmente praticado por bandos locais: tráfico de armas, pedras preciosas, material destinado à indústria de alta tecnologia (incluindo nuclear), exploração da prostituição, trabalho escravo, comércio de carros roubados, roubo de carga de caminhões. (ARBEX, 2005, p. 36- 37).

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Nessa mesma perspectiva, sob o ponto de vista daqueles que vêem na Amazônia apenas como uma grande oportunidade de ganhar bilhões de dólares, 82% do total da madeira extraída da região e comercializada no mundo são ilegais, provocando um prejuízo à floresta incomensurável, que ocorre de forma gradativa e cada vez mais destrutiva. Entre agosto de 2001 e agosto de 2002, foram desmatados 25.500 km² de floresta (o equivalente a 5 milhões de campos de futebol, ou à área ocupada pelo Estado de Sergipe). No ano seguinte, o ritmo caiu um pouco, para 23.000 km². Grande parte do estrago é causada pela ação de pelo menos 3.000 madeireiras, cerca de 80% ilegais (principalmente no comércio do mogno)10, e agravado pela ação de pecuaristas, no processo de grilagem das terras para confirmar suas posses.

É curioso notar e ao mesmo tempo deveria incitar a nossa reflexão, o fato de que tem ocorrido um aprimoramento no conjunto de técnicas de desmatamento à medida que o tempo vai passando, contribuindo significativamente para o aceleramento do processo de devastação predatória da floresta, pois os estudos de Valverde (1980) nos indicam, que à machado e foice, seis lenhadores levam de seis a oito dias para derrubar 1 ha da mata de terra firme (conforme o porte da mesma), mas, com motosserra, um homem derruba 1 ha em dois dias. Com o correntão, uma equipe de cinco homens pode derrubar de 40 a 50 ha de mata em um só dia. E, usando desfolhante químico, um piloto de avião (do tipo Ipanema) pode destruir cerca de 100 ha de floresta em meio dia de trabalho (VALVERDE, 1980, p. 41).

Como prática produtiva interligada, nessa rede predatória e criminosa, apresenta-se a pecuária extensiva. Geralmente, após a área desmatada, essa área se transforma em pastagem de grande propriedade, que serve para aumentar o latifúndio e se tornar em imóvel especulativo. Dados do IBGE apontam o município de São Felix do Xingu, no Pará, como o terceiro maior rebanho de gado do país, com 1,2 milhão de cabeças de gado. Esse mesmo Instituto aponta que o rebanho bovino, no período de 1990-2004, cresceu 169,2%. Cabe, ainda, considerar a grande quantidade de água usada para o tratamento da carne. Para cada kg de carne, gasta-se, aproximadamente 115 litros de água. Alem disso, nesse tratamento, é despejada uma grande quantidade de gás tóxico que contribui decisivamente para aumento do aquecimento global.

No que concerne à expansão da soja, a área de plantação dela nos estados de Roraima, Rondônia, Amazonas, Pará e Tocantins aumentou em 65% na safra de 2003/2004 em comparação à safra anterior (GREENPEACE, 2004). Os Movimentos Sociais Populares do Campo (DOCUMENTO, 2006) identificam e evidenciam como medida de derrota do governo federal a «liberação do plantio e comercialização da soja transgênica, por medida provisória, atravessando todo o processo de estudos ambientais». Uma outra medida de derrota infere: «O governo não teve nenhum controle sobre o avanço da lavoura de soja e algodão para áreas da Amazônia e do Cerrado, que podem trazer graves conseqüências ambientais para o futuro».

Esses eixos produtivos são apontados pelos estudiosos como os principais causadores do desflorestamento acelerado e predatório na Amazônia. Dados mais recentes do Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente) apontam um percentual da perda da cobertura vegetal de 20%, alcançando uma área de 700 mil km² (IMAZON, 2006). As queimadas têm se ampliado assustadoramente. Segundo estudos da Embrapa através de Monitoramento por Satélites, que tomam como base os dados fornecidos pelo Satélite NOAA-AVHRR, captados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no período de 2005, foram detectados na região um número de 161.374 mil focos de queimadas, 80% do total brasileiro. Não é por acaso, que o Pará e Mato Grosso, junto com outros estados, constituem o chamado arco do fogo e do desmatamento na região.

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Isso tem reduzido e comprometido, demasiadamente, a diversidade biológica, o equilíbrio dos ecossistemas e os modos de vida e de trabalho, a sobrevivência e permanência das populações do campo, como indígenas, quilombolas, camponesas, ribeirinhas, posseiras, povos da floresta etc. Ao desmatar, queimar e depredar uma dada e larga área de floresta, deixando-a esgotada para alimentar o puro e mero interesse econômico, o consumo do mercado, essas frentes de expansão se deslocam, rápida e vorazmente, para outros territórios, onde, ainda, existam espécies lucrativas, fazendo o movimento de

territorialização, desterritorialização e reterritorialização, conforme a

temporalidade do capital, do lucro. (CORRÊA, 2007, p. 233).

Uma outra medida apontada como problemática pelos Movimentos Sociais do Campo em relação à política ambiental do governo federal foi: «a iniciativa tomada pelo governo de criar uma lei que arrenda florestas nacionais em áreas públicas para as empresas explorarem a madeira» (DOCUMENTO, 2006).

Esses eixos de atividades produtivas têm como um dos seus mecanismos fundamentais, de um lado, a prática da grilagem, falsificação de documentos de terras públicas, devolutas; de outro, a invasão de terras das populações mencionadas, levando ao aumento da concentração de terras nas mãos desses grandes grupos econômicos e políticos dominantes e a intensificação dos conflitos agrários, da depredação dos recursos naturais, da exclusão e da desigualdade.

Como conseqüência, expande-se e redefini-se a cartografia da territorialidade dos

conflitos agrários na região (CORRÊA, 2007). Dados mais recente sobre o Conflito no Campo

no Brasil e na Amazônia, conforme Relatório Anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2005), apresentam a seguinte cartografia:

CONFLITOS NO CAMPO: AMAZÔNIA, 2001-2005

Ocorrência 2001 2002 2003 2004 2005

Conflitos 315 431 770 658 868

Assassinatos 14 26 57 20 24

Pessoas envolvidas

96.170 198.591 452.300 243.854 386.358

Hectares 1.851.433 2.640.997 2.846.251 3.805.533 10.505.813 A partir desse quadro, temos a oportunidade de visualizar a dramaticidade da problemática do conflito agrário que se perpetua na sociedade brasileira e, em particular e acentuadamente, na territorialidade do campo da Amazônia. De 2002-2005, tem-se um tempo em ascendência na escala do conflito, exceto no ano de 2004 com uma leve redução, encontrando nos anos de 2003 e 2005 seu ápice. No tocante ao número de assassinatos e de pessoas envolvidas em conflitos, o ano de 2003 alcançou o topo. A quantidade de terras em 2005, em litígio, vai para mais de 90% do nível nacional.

Ao analisar esses conflitos, Ariovaldo Umbelino de Oliveira (2006) destaca a triste cartografia agrária da região Amazônica, especialmente no Estado do Pará, denominando-o como território do centro nacional da barbárie no campo. Desde 2003, o Ministério Público Federal elaborou um relatório que evidencia uma rede de crimes no Pará, na qual estão envolvidos políticos e empresários. Este relatório revela o nível de organização, que comprova as relações entre empresários da indústria madeireira, grileiros e fazendeiros na formação do triunvirato da grilagem de terras e de disseminação da violência no Estado do Pará, os quais vêm sendo denominados pelo Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo de

agro-banditismo.

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competitivo, racionalista, produtivista e consumista capitalista; amplia as desigualdades sociais e os impactos ambientais em larga escala na região amazônica, levando à desestruturação de modos de vida e de trabalho das populações tradicionais, de suas formas de produção e desenvolvimento próprios de seus territórios.

Esses três eixos produtivos desse modelo de desenvolvimento territorial hegemônico, portanto, funcionam e formam juntos uma grande frente de articulação de expansão político-econômica e sociocultural que, junto com as demais atividades citadas, anteriormente, como o mercado de carbono, o mercado da vida, o mercado do conhecimento, o mercado da água e o mercado do minério, expressam essa territorialização do capital feita a custa da

desterritorialização das populações locais do campo na região, como os povos

atingidos por barragem, e da mercadorização e da destruição da natureza. Essa cartografia dramática da Amazônia faz recolocar a atualidade da grande música-poética Saga da Amazônia de Vital Farias como horizonte problemático e imperioso para construção de formas de sociabilidades alternativas para Amazônia. É urgente a construção de novos caminhos, paradigmas, posto que a crise é de modelo de sociedade e de conhecimento. (CORRÊA, 2007, p. 235). Esse modelo de desenvolvimento é o grande responsável pelo quadro social de exclusão e desigualdade na região amazônica e no Estado do Pará. Conforme indicadores socioeconômicos do Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), datados de 1997, afirmam que «a região Norte é considerada a mais pobre do País, os pobres representam 42% de toda população Norte» (Inae/Ipea, 1997 apud PINTO, 1997, p. 07). O Relatório de Desenvolvimento Humano, divulgado pela Organização das Nações Unidas no ano de 2003, destaca que: «a região Norte do país foi a única área onde a pobreza aumentou desde o início da década de 1990». Isso é bem referenciado no campo, haja vista as condições básicas e direitos elementares para vida que são negados a essas populações.

Numa perspectiva contraditória, a agricultura familiar também se faz efetivamente presente na Amazônia, representada no período mais recente por um contingente de 750 mil pequenos agricultores, que no cultivo da roça envolvem todos os componentes da família na garantia da subsistência. Esse segmento representa 85,4% do total de estabelecimentos rurais da região, os quais ocupam 37,5% do total da área regional, produzindo 58,3% do valor bruto da produção agropecuária na região, mesmo recebendo somente 38,6% do financiamento aplicado na Amazônia, tomando como referência a safra do ano 1995/96.11

Esses dados de produtividade explicitados contrapõem-se às interpretações tendenciosas e bastante divulgadas sobre os sistemas de produção agrícola dos pequenos(as) produtores(as) amazônidas, que se assentam, sob uma ótica preconceituosa e depreciativa das identidades desses grupos sociais e de suas contribuições para a economia regional.

Brondízio (2006), em seus estudos sobre os sistemas produtivos de caboclos e colonos, nos ajuda a entender que os produtores de pequena escala na Amazônia compartilham de uma condição de invisibilidade econômica e social, alimentada em parte, por essas formas preconceituosas utilizadas pelas agências de desenvolvimento nacionais e internacionais e a própria academia na interpretação de seus sistemas de produção. Tais interpretações negligenciam o entendimento de que os padrões de uso da terra desses grupos baseiam-se na co-existência de atividades intensivas e extensivas que, simultaneamente, minimizam risco, garantindo a consolidação das propriedades rurais, bem como a expansão das atividades voltadas para o mercado. Elas ocultam que os caboclos e os colonos desenvolvem uma agricultura ativamente engajada na economia regional, responsabilizando-se pelo fornecimento

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de alimentos às populações urbanas e rurais, mesmo compartilhando da falta de suporte econômico, político e infra-estrutural, que tem sido proporcionado ao agronegócio, voltado para a exportação.

As populações tradicionais amazônidas12 desenvolveram as suas matrizes histórico-culturais em íntimo contato com o meio ambiente, com a natureza, adequando os seus modos de vida às peculiaridades regionais e oportunidades econômicas oferecidas pela floresta, várzea e rio, deles retirando através de atividades extrativistas, da roça, da caça e da pesca, os recursos materiais de sua subsistência. As práticas de cultivo desses grupos não impedem o funcionamento do sistema regenerativo da floresta e o impacto dos mesmos não ultrapassam os impactos provocados pelos distúrbios naturais de pequena escala em tamanho, duração e freqüência.

No bojo dessas múltiplas atividades desenvolvidas por essas populações, é notória a forte relação entre o tempo social e o tempo individual entrecruzados com o tempo da natureza (CASTRO, 1999), ou seja, essas populações sustentam-se nos saberes sobre o tempo, as marés, os igarapés, a terra, a mata, o período de desova das espécies e o período de chuva e sol, para explicar suas práticas sociais, técnicas e racionalidade produtiva.

A respeito disso, Diegues (2003 apud CASTRO, 1999, p. 137) explica que:

Um aspecto relevante na definição de culturas tradicionais é a existência de sistemas de manejo dos recursos naturais, marcado pelo respeito aos ciclos da natureza e pela sua exploração, observando-se a capacidade de reprodução das espécies de animais e plantas utilizadas. Esse sistema não visa somente à exploração econômica dos recursos naturais, mas revela a existência de um conjunto complexo de conhecimentos adquiridos pela tradição herdada dos mais velhos.

Cabe, nesse sentido, assinalar que, parte grande dessas populações do campo da Amazônia, «acumula e desenvolve saberes e práticas sobre os variados ecossistemas, fato que lhes confere conhecimentos e habilidades diversos e plurais acerca do complexo

roça-mata-rio-igarapé-quintal. Isto implica dizer que as relações sociais de produção se desdobram de modo

complementar ou combinado», ou seja, as atividades produtivas da agricultura, da pesca, do extrativismo, da caça e da criação são desenvolvidas combinadas ciclicamente, e estão diretamente relacionadas ao tempo-espaço da natureza, objetivando ampliar as condições sociais produtivas de subsistência dessas comunidades (CORRÊA, 2007, p. 200).

Vemos assim a urgência de se reconhecer a existência desses múltiplos processos de trabalho na região amazônica, porque esta é diversa e multicultural, Isto é, não existe uma Amazônia e uma única lógica de trabalho mercadológica hegemônica, mas diversas amazônias

e diversas lógicas de relações sociais de produção, como é o caso expresso pelos modos de vida dessas populações, que estão na invisibilidade e que gestam uma economia invisível pautada por outros valores. Isso coloca o desafio de visibilizar essas populações invisíveis, que estão no abismo-oprimido-invisível para construção de novos paradigmas (CORRÊA, 2007).

(...) Se reconhecermos essa fantástica diversidade empírica de sociedades (tradicionais) e, portanto, de processos de trabalho, constituídas diferentemente em épocas diversas, teremos de constatar o quanto a noção trabalho deve incorporar esse múltiplo, complexo da ação humana sobre o território. (...) Ainda que existam representações simbólicas e míticas que perpassem as diferentes formas de organizar o trabalho, cada uma delas defronta-se com as capacidades e os limites dos saberes e dos interesses de cada grupo, de suas

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formas de agir sobre o território e de se apropriar de recursos de acordo com padrões de seletividade pertinentes a cada grupo (CASTRO, 1999 apud CORRÊA , 2005 p. 136).

Consideramos ético, portanto, de um lado, reconhecer a importância dessas populações para a preservação da sociobiodiversidade e para construção de um modelo de desenvolvimento territorial sustentável e solidário da Amazônia; de outro, denunciar as condições de exclusão a que estão submetidas essas populações pelo poder público. Elas em si, não são, de modo algum, a causa dos impactos, mas, as vitimas mais afetadas pela ação predatória de grandes empresas capitalistas, que, em larga escala e sob o poderio científico-tecnológico e econômico-político, vêm provocando a desestruturação social, cultural, econômica dessas populações e a destruição dos recursos naturais.

De fato, o processo de (neo)colonização em curso tem sido marcado pela apropriação privada da terra e dos recursos naturais e pela violência contra as populações indígenas, caboclas, quilombolas, posseiras, sem-terra, assentadas etc, mediante a exclusão do trabalho e do direito de produzir a vida, a cultura, identidade e a história dessas populações, ou seja, mediante a exclusão de sua humanidade intrínseca, que, segundo Arbex Jr (2005), ocorre exatamente aos moldes como, séculos antes, portugueses e espanhóis ignoraram os direitos dos povos originários da Amazônia, ou como ocorreu no século XIX por ocasião da instalação de um Estado judeu na Palestina. Pode-se dizer que se perpetua uma diáspora amazônica (Idem, p. 31).

De fato, ainda no início de século XXI, segundo Francisco Oliveira (2005), são essas complexidades evidenciadas, que envolvem a grandeza e a abundância com que a natureza dotou essa região, que fazem com que a Amazônia continue sendo importante tema de debates em escala nacional e mundial, onde a modernidade, expressa por uma Zona Franca de Manaus, contrasta com a presença de civilizações indígenas (em geral, violentadas); com a grilagem dos maiores latifúndios que a história da humanidade já presenciou; com a luta – muitas vezes mortal – dos posseiros, colonos e retirantes pela terra; com a beleza das matas e a sua destruição criminosa; com a guerra entre as empresas de mineração e os garimpeiros, indígenas, quilombolas. A história desses contrastes marca profundamente a formação territorial da Amazônia e eles têm entre si um elo comum: a rapidez com que os grupos econômicos se apoderam das riquezas naturais dessa imensa região (Idem, p. 60-61)

No entanto, é interessante ressaltar que esse mesmo processo de (neo)colonização, contraditoriamente, tem engendrado e fortalecido a utopia camponesa da conquista da terra liberta, encontrando-se, portanto, na raiz histórica tanto da implantação e expansão do agronegócio na fronteira, como do surgimento e fortalecimento dos movimentos populares de luta pelo acesso à terra que a história lhes tinha negado. Isso fortalece a tese de que: «Há uma Amazônia da mata e há uma Amazônia desmatada. (...) Há uma Amazônia que mata. Há uma Amazônia que resiste, que “r-existe”» (GONÇALVES, 2005, p. 10).

No dizer de Oliveira (2005), o processo de colonização em questão ao mesmo tempo, enquanto uma estratégia utilizada pelas elites para evitar a reforma agrária nas regiões de ocupação antiga e suprir de mão-de-obra seus projetos econômicos na fronteira; incita os trabalhadores do campo a romper com o processo de expropriação a que estão submetidos, buscado, a todo custo, a reconquista da terra para o trabalho da família.

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Nesse cenário, emergem os embates entre várias forças que disputam o controle sobre a Amazônia e acreditam ter o que dizer sobre o seu destino, entre as quais, Arbex Jr (2005) identifica mais facilmente:

As nações originárias, grupos de pressão e ONGs a elas associados (incluindo missionários religiosos, brasileiros e estrangeiros), que reclamam os seus direitos e a demarcação de suas terras;

Ambientalistas genuínos, que de fato se preocupam com a preservação do equilíbrio ambiental e amam a região por aquilo que ela é, e não por aquilo que pode representar em termos de rapina e investimentos;

Setores nacionalistas das Forças Armadas brasileiras, que denunciam as pressões pela internacionalização da Amazônia, incluindo as missões religiosas que se colocam ao lado dos indígenas na reivindicação pela demarcação de terras e territórios;

Empresas transnacionais e nacionais, incluindo madeireiras, farmacêuticas, mineradoras etc., que enxergam na Amazônia um espaço a ser explorado;

Empresas vinculadas ao agronegócio, em particular à exploração da soja e outras monoculturas de exportação;

Governos internacionais, particularmente dos Estados Unidos, Japão e europeus, que já manifestaram publicamente sua vontade de ver a Amazônia internacionalizada, seja pela eventual venda do território em troca da dívida externa, seja por ocupação militar;

Governo brasileiro, que proclama sua vontade de combater as queimadas e as atividades predatórias, mas se prova incapaz de aplicar uma estratégia realista.

Para Arbex Jr (Ibid., 2005), o locus onde as disputas intensas entre essas forças acabam adquirindo os seus contornos e conteúdos mais visíveis na atualidade, é a mídia, que no entendimento desse autor, tem se configurado no campo de batalha por excelência, onde um jogo muito sofisticado e elaborado se desencadeia, no qual muitas vezes é difícil até mesmo identificar o articulador de determinado discurso, e mais ainda, seus propósitos reais. Esse jogo tem imposto à Amazônia o desafio de encontrar-se numa encruzilhada histórica, num momento singular que pode decidir o seu futuro, e que de certa forma, sintetiza o drama colocado para toda a nação: ou bem reafirma a sua soberania e volta-se para as necessidades reais das populações locais, integradas a um projeto de desenvolvimento nacional sustentável, ou bem reafirma a prioridade dos interesses das elites associadas ao capital estrangeiro, e alienada em relação à própria nação (Idem, 50-57).

Se, de um lado, esse é um território de luta, o das mídias, de que não se pode prescindir, visto sua importância para se construir uma hegemonia, contudo, novos horizontes alternativos de sociabilidade não podem ser desconsiderados, como as experiências que vêm se dando concretamente na territorialidade do campo da Amazônia, protagonizada por diversos sujeitos coletivos, como os movimentos sociais populares do campo, dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, da floreta, das quebradeiras de coco-babaçú, que se recolocam num cenário amazônico para lutar pelo reconhecimento de seus territórios e pela afirmação material e simbólica dos seus modos de vida, demarcando uma cartografia de novas territorialidades de esperança e de contestação ao modelo de desenvolvimento dominante.

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Na sua luta pela terra, pela água, pela floresta, pela direito ao trabalho e à vida, esses sujeitos constroem e põe em ação uma pedagogia do movimento, onde residem as raízes da esperança de novos horizontes e novos paradigmas de sociabilidade. Esses mesmos sujeitos ajudam a entrelaçar e fortalecer os fios da grande rede que vem sendo formada através do

Movimento Por uma Educação do Campo, que tem no Fórum Paraense de educação do

Campo sua expressão mais significativa de organização e mobilização pela construção de um

projeto popular de desenvolvimento e de sociedade.

O Fórum Paraense de Educação do Campo aglutina entidades da sociedade civil,

movimentos sociais, instituições de ensino, pesquisa, órgãos governamentais de fomento ao desenvolvimento e da área educacional da sociedade paraense, que compartilhando princípios, valores e concepções político-pedagógicas buscam defender, implementar, apoiar e fortalecer políticas públicas, estratégias e experiências de educação do campo e desenvolvimento rural com qualidade sócio-ambiental para todos/as os/as cidadãos/ãs paraenses, sobretudo para as populações do campo, aqui entendidas como: agricultores/as familiares, indígenas, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos e pescadores. (FPECDR, 2004)

Entre os marcos importantes da caminhada do Fórum, com vistas à consolidação do

Movimento Paraense por uma Educação do Campo, são destaques o I, o II e o III Seminário Estadual de Educação do Campo e I Seminário Estadual de Juventude do Campo, realizados respectivamente, na UFRA em fevereiro de 2004, no Seminário Pio X, em junho de 2005, e os dois últimos também no Seminário Pio X, em junho de 2007, reunindo cada um desses eventos mais de 600 participantes envolvidos com a Educação do Campo em nosso Estado.

A realização desses eventos tem reunido e mobilizado um número cada vez mais abrangente de sujeitos, instituições públicas, movimentos sociais e entidades não-governamentais nos processos de definição e implementação de políticas e práticas educacionais sintonizadas com a realidade do campo, constituindo-se em espaços em que se manifestam depoimentos, insatisfações, aspirações e reivindicações com relação à educação que se deseja ver concretizada nas escolas do campo; e se evidencia o protagonismo de educadores e educandos, gestores, líderes de comunidades rurais, sindicalistas, assentados, agricultores e agricultoras, ribeirinhos, quilombolas e indígenas de nosso Estado.

Amazônia e suas singularidades: matrizes referenciais para construção de

políticas e práticas educacionais

A encruzilhada histórica que tem sido imposta à Amazônia requer de todos nós um posicionamento explicito a favor da construção de políticas e práticas educacionais pautadas pelos interesses e necessidades reais das populações que vivem na região, vinculadas a um projeto de desenvolvimento territorial sustentável que reafirme a soberania da região e do país. Em nosso entendimento, essa é uma condição básica para que as populações da Amazônia tenham garantido o direito a uma educação pública de qualidade e a presença do Estado na garantia desse direito é absolutamente indispensável.

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Diante de situações existenciais tão ricas que compõem o manancial de saberes, experiências e tecnologias produzidas pelas populações da região e, em especial do meio rural, é inadmissível que as políticas e práticas educacionais vigentes continuem a ser planejadas e materializadas desconsiderando essas especificidades existenciais que constituem os modos de existir próprios da Amazônia.

No cotidiano de suas relações sociais de existência, as populações da Amazônia vivenciam situações peculiares nas relações produtivas; enfrentam singularidades nos diversos ambientes em que vivem; e possuem um conjunto de crenças, valores, símbolos, e saberes que se constroem/reconstroem nas práticas de formação pessoal e coletiva, na vivência e convivência nos vários espaços sociais em que participam. Por esse motivo, todos, sem exceção: professores, estudantes, pais e mães, membros das comunidades e representantes de movimentos e organizações sociais, podem e devem ser envolvidos na construção coletiva das políticas e práticas educacionais a serem efetivadas na região. Eles, definitivamente, têm muito a dizer, a ensinar e aprender nesse processo que deve ser materializado com e pela a participação dos sujeitos, das populações e movimentos sociais e não para eles, como tradicionalmente tem ocorrido.

Assim, destacamos a necessidade de que os processos e espaços de construção dessas políticas e práticas se pautem por uma perspectiva de educação emancipatória que inter-relacione os diversos sujeitos, saberes e intencionalidades, superando a predominância de uma educação bancária e afirmando seu caráter inter/multicultural, ao oportunizar a convivência e o diálogo entre as diferentes culturas, etnias, raças, gêneros, gerações, territórios, e particular, entre o campo e a cidade.

Isso só será possível, se forem reconhecidas e legitimadas na sociedade e nos espaços educativos as experiências sócio-culturais, produtivas e educativas que vêm sendo produzidas e efetivadas na territorialidade do campo da Amazônia, protagonizadas pelos diversos sujeitos, populações, movimentos e organizações sociais da região. Na agenda desses sujeitos coletivos, algumas questões têm sido pautadas:

- a inclusão da educação do campo no âmbito dos direitos sociais, ressaltando que o direito à educação não se separa da pluralidade de direitos humanos que precisam ser garantidos e ampliados: o direito á terra, à vida, à cultura, à identidade, à alimentação, à moradia, etc., o que implica dizer, que o direito à educação não se materializa apenas no campo da consciência política, mas se atrela com a produção/ reprodução mais elementar da vida.

- a ampliação da esfera pública com o objetivo de fortalecer o espaço de interação entre Estado e Sociedade na perspectiva de democratização do Estado e da própria sociedade. Nesse processo, a participação social se torna mais efetiva na construção de políticas públicas e o controle social tem mais chances de se materializar e enfrentar a vulnerabilidade das escolas e das populações do campo, que muitas vezes encontram-se à mercê das conveniências dos grupos dominantes de poder local. A democratização dos espaços públicos se coloca como desafio para garantia e ampliação dos direitos e da efetividade de uma cidadania ativa e democracia participativa.

- o fortalecimento da consciência coletiva e cidadã, seja no Estado, na academia, nas organizações e movimentos sociais ou no campo educacional, em favor da construção de políticas e práticas educativas que sejam capazes de enfrentar as desigualdades históricas sofridas pelos povos do campo e subverter o padrão universalista e generalista que inspira predominantemente as políticas educacionais vigentes e não tem dado conta de universalizar o direito à educação dos povos do campo.

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trabalho e de novas relações com a natureza, de produção e reprodução da existência social e humana com dignidade e sustentabilidade.

Essas questões nos remetem à necessidade de redimensionar os indicadores de referência que têm hegemonicamente orientado as políticas e práticas educacionais vigentes, e determinam os rumos de implementação dessas políticas e práticas sob a égide da relação

custo/benefício, inspirados em parâmetros mercadológicos, competitivos, empreendedores e de

excelência com vistas à empregabilidade e aquisição do capital cultural que assegure lugar de destaque nos Rankings nacionais e internacionais existentes.

Os índices estatísticos, matéria prima que alimenta esses rankings, resultantes de avaliações de caráter quantitativistas e generalizantes que têm (in)vadido o sistema educacional brasileiro e mundial no período mais recente, não têm produzido outro resultado, senão atestar o estado de falência que enfrenta a educação pública no país, ao evidenciar que milhares de crianças, adolescentes, jovens e adultos têm acesso à escola, mas, por sua própria incapacidade, fracassam, são reprovados, “abandonam” a escola porque supostamente “não aprendem” e, por isso, não terão acesso a um patrimônio cultural que pode fazer muita diferença em suas trajetórias pessoais.

Esses exames, em última instância, terminam por ratificar as desigualdades sócio-educacionais, através de pretensas assimetrias cognitivas, atribuindo às classes populares, e dentre elas, às populações do campo da Amazônia, seu lugar de subalterno no mundo trabalho e nas relações sociais; acirrando ainda mais o histórico apartheid cultural que mantém no país um profundo fosso entre os que têm, podem, sabem, são e os que não têm, não podem, não sabem, não são.

A compreensão desse processo tem motivado diversos atores institucionais e não-institucionais de diferentes esferas, incluindo aqueles que atuam no campo educacional, a apresentar intervenções propositivas que permitam vislumbrar a sua desconstrução e nos permitam ver a escola pública brasileira do lugar da produção de saberes, da inclusão social e da construção identitária; em outros termos, a realizar uma leitura que permita identificar, mapear, analisar e socializar experiências de instituições escolares e/ou educacionais que estão no contraponto da imagem sombria que os dados estatísticos insistem em refletir e difundir.

No âmbito dessas intervenções propositivas, outros referenciais são requeridos para orientar indicadores de políticas e práticas educacionais, que oportunizem a compreensão da complexidade dos fenômenos educacionais e escolares e a reinvenção das concepções, práticas e processos educativos, especialmente da instituição escolar, capazes de transgredir à homogeneização, à (re)produção de modelos, à hierarquização, ressignificando a qualidade da escola pública sob outras bases.

Para fortalecer o debate sobre a elaboração desses novos referenciais, apresentamos a seguir, algumas idéias-mestra propositivas que julgamos relevantes, e, por conseguinte necessárias a serem consideradas nos processos de elaboração e efetivação de políticas e práticas educacionais, quando assumimos a intenção de construir uma cultura política democrática participante, reconhecer e afirmar diversidades e pluralidades nas escolas da territorialidade do campo da Amazônia paraense.

1. Matriz ético-política: As políticas e as práticas educativas devem assumir um papel político e sociocultural no horizonte da formação humana em seu sentido integral e complexo e da construção de novas formas de sociabilidades, que apontem para reconstrução de valores e de relações sociais assentadas e orientadas pela autonomia, liberdade, igualdade, solidariedade, justiça, respeito e reconhecimento às diferenças, responsabilidade e preservação ambiental.

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