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O Lugar dos Sistemas: reflexões sobre o bilinguismo e a mente

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Academic year: 2020

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Paulo Sérgio Reis de Abreu

O LUGAR DOS SISTEMAS: REFLEXÕES SOBRE O BILINGUISMO

E A MENTE

Resumo: este trabalho analisa o bilingüismo, questionando a forma com que o bilíngue operaria as línguas que é capaz de falar: se haveria, na mente do falante, um ‘sistema’ apartado para cada língua, ou se essas línguas funcionariam por meio de um único e abrangente ‘sistema’ de armazenamento e organização de dados linguísticos. Opinando pela existência de um sistema único, procura-se também apresentar hipóteses para a descrição de seu funcionamento e para a relação entre linguagem e mente.

Palavras-chave: Bilinguismo, mente, linguagem

O BILInGuISMO E A QuESTÃO DOS ‘SISTEMAS’

C

onforme sugere Grosjean (1982), grande parte da população mun-dial – ou a maior parte, segundo Romaine (1995) – seria bilíngüe, ou mesmo multilíngüe, e o bilinguismo seria um fenômeno que atinge populações de praticamente todas as áreas do mundo, com um maior ou menor grau de tensão entre os diversos grupos de linguagem, e políticas diferenciadas em cada país, que vão desde o apoio e a tentativa de integração das minorias linguísticas à negligência oficial e à repressão.

Devido à abrangência e à relevância dessa situação, uma série de questões tem sido levantada, ocupando profissionais e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, como sociólogos, assistentes sociais, cientistas políticos, técnicos ligados ao planejamento educacional e, obviamente, linguistas.

Estes últimos têm dedicado ao assunto um grande número de publi-cações, muitas delas concentradas na tentativa de compreensão e explicação

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do bilinguismo sob o ponto de vista psicológico ou psicolinguístico, isto é, quanto ao que efetivamente ocorre na mente de um falante que se utiliza de mais de uma língua.

nessa perspectiva, dentre uma série de indagações que podem se apre-sentar ao linguista, ressalta-se a da forma com a qual o bilíngüe operaria essas duas ou mais línguas que é capaz de falar (ROMAInE, 1995; GROSJEAn, 1982): elas estariam absolutamente estanques na mente do falante, consti-tuindo assim um ‘sistema’ apartado para cada língua, que seriam acionados alternativa e excludentemente; ou pertenceriam a um único e abrangente ‘sistema’ de armazenamento e organização de dados linguísticos?

‘SISTEMAS’ E SISTEMAS

Observe-se que o termo ‘sistema’ foi até aqui marcado com aspas, o que se fez para diferenciá-lo de sua utilização por Saussure (1916), em que o termo sistema serve para designar o acervo abstrato de itens lexicais e sua organização fonológica, morfológica e sintática, que constituiria o que conhecemos como língua. Saussure sustentou que a língua ou langue (o português, por exemplo), além de abstrata, pré-existente e independente do falante, seria um todo estritamente articulado e organizado, logo, um sistema. Estabelecida a definição de língua como uma estrutura abstrata de que faz uso a comunidade de falantes, Saussure delineia ainda a noção de fala ou parole, como um recorte daquele amplo construto, resultado das escolhas e da habilidade do falante em utilizar a língua a seu modo e segundo as circunstâncias, no ato concreto da comunicação.

Muito embora a definição saussuriana de sistema não esteja em conflito com a acepção de sistema que se tem adotado aqui, é importante salientar que o termo ‘sistema’ (entre aspas) está sendo utilizado para definir a operação mental responsável pela organização, produção e decodificação da linguagem, ou, melhor dizendo, ‘sistema’ no sentido de instrumento, mecanismo ou atividade da mente responsável pelo processamento de uma, duas ou mais línguas em um mesmo falante.

na verdade, pretende-se assumir que haveria um sistema operacio-nal na mente do falante, ao qual caberia a utilização do sistema abstrato língua. Assim, a questão colocada é se para cada língua utilizada pelo fa-lante corresponderia um ‘sistema’ em separado, que se desligaria, quando o falante bilíngüe utilizasse outra língua (que por sua vez acionasse o seu próprio ‘sistema’), ou se essas mudanças de código acontecem dentro de um ‘sistema’ único.

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‘SISTEMAS’ Ou ‘SISTEMA’?

Ao questionarmos a existência de um ou mais ‘sistemas’ para operar mais de uma língua em um mesmo falante, devemos reconhecer a grande dificuldade que envolve o estabelecimento do conceito de língua, que se torna bastante complexo e fluido, quando se consideram observações relacionadas com o fenômeno da variação, próprio da perspectiva da Sociolinguística.

De fato, mesmo dentro de uma comunidade de falantes reconhecida-mente monolíngüe, como ocorre, por exemplo, na maior parte do território brasileiro, pode-se verificar uma série de variantes relacionadas com a idade, ocupação, classe social, sexo, procedência geográfica (ALKMIM, 2003). Tais variantes ostentam diferenças às vezes notáveis em muitos níveis da organização linguística, sejam fonológicas, morfológicas, sintáticas e lexi-cais, o que leva a questionar até que ponto poderemos considerá-las como meras variantes dialetais, ou até mesmo como outra língua. Veja-se, por exemplo, uma frase que colhemos à porta de um supermercado. A situação é a seguinte: um casal acaba de sair, empurrando um carrinho de compras, daqueles estilizados como miniaturas de automóveis. Dentro do carrinho, está, sob a capota do automóvel, onde são postas as mercadorias, a filha do casal. De repente, começa a chover e o homem se dirige à mulher nos seguintes termos: “Vã vê sissaí tampéla”.

Essa frase, aqui registrada de forma absolutamente arbitrária (já que não existe convenção ortográfica para tal variedade), poderia ser vertida para o português padrão como “Vejamos se essa cobertura vai protegê-la (da chuva)”.

note-se que essas duas expressões, sob o ponto de vista sintático e mesmo lexical, estão mais distantes entre si do que estariam as seguintes frases, respectivamente do espanhol e do português padrão, retiradas de Berlitz (1998, p. 2, 3, 19, 108):

– Sí, señor. Siéntese, por favor. – Sim, senhor. Sente-se, por favor. – No es nada, señor.

– Não é nada, senhor. – Este café está bueno. – Este café está bom.

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– Estamos aqui por uma semana. – !Qué vida de aventuras! – Que vida de aventuras!

Trata-se, contudo, de frases deliberadamente pinçadas dentro das duas línguas, que possuem para além de suas semelhanças, muitas peculiaridades que as distinguem. Essas diferenças linguísticas têm servido para justificar a definição do espanhol e do português como línguas independentes, o que deve colocar tal classificação em relação com uma mensuração estatística, ou seja, haveria uma quantidade tal de diferenças entre dois sistemas que os tornaria línguas diferentes.

Da mesma forma, seria possível, a partir da observação do número de raízes que compartilham, de identidades sintáticas e morfológicas, considerar o ‘parentesco’ e o nível de proximidade em que se encontram duas línguas.

Ocorre que, muito embora se possam assinalar certas relações ‘ge-nealógicas’ entre as línguas, não existem critérios objetivos e precisos para medir o grau de semelhança e diferença entre elas.

Além disso, tão-somente as diferenças linguísticas não são suficientes para apartar variedades dentro de um mesmo território ou dar a cada uma delas o status de língua (ROMAInE, 1995). Ao contrário, o que muitas vezes se vê é que certas variedades, exatamente as que são praticadas pelas comunidades de prestígio social e poder econômico, são eleitas como o padrão a ser seguido, enquanto as outras passam a ser marginalizadas, na maior parte das vezes sem contar ao menos com a denominação de “variantes dialetais”, sendo tratadas como indesejáveis “desvios” ou “erros” (CAMA-CHO, 2003, p. 56-61).

Por outro lado, a existência de uma variedade padrão consistente e uniforme é bastante questionável: a utilização sistemática da gramática nor-mativa, considerada a referência da língua “culta” ou “correta”, restringe-se praticamente ao texto escrito e sua aplicação intensiva à comunicação diária seria artificial e pedante, mesmo para os falantes mais instruídos.

É que, além de a gramática normativa constituir um registro pouco realista da descrição da variedade que se quer como referência (a gramática normativa sempre apresentou considerações de natureza prescritiva, com aspi-rações de estabelecer, com base nas obras literárias, um pretenso ‘bom-gosto’, bem como cultivou preocupações de cunho racionalista (WEEDWOOD, 2002; LABOV, 1978); ela procura perpetuar modelos verificados em um

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ponto muitas vezes superado da transformação inexorável a que estão ex-postas todas as línguas.

na verdade, o que existe é um uso dosado da gramática normativa, mesmo pelos falantes instruídos, de forma que se podem perceber usos perfeitamente sintonizados com o registro formal, ao lado de outros con-denados pelos manuais, seja pela utilização de alterações gramaticais que poderiam ser creditadas a processos engendrados dentro da própria estrutura da variedade, seja pela pressão dos outros ‘falares’ marginalizados, a depender das circunstâncias e do interlocutor.

O conhecido exemplo das expressões “Dê-me um cigarro” e “Me dá um cigarro”, em que a primeira, perfeitamente ajustada ao registro padrão, é absolutamente inconcebível numa situação real de comunica-ção, ilustra bem essa pressão. A interação socioeconômica das diversas camadas sociais e comunidades linguísticas opera uma série de exigências e concessões entre as diversas variedades, que obriga, em maior ou menor grau, o domínio e conhecimento de cada uma delas, sob pena de que haja uma mutilação das potencialidades pragmáticas do falante em uma série de lugares e situações.

Essas breves considerações nos levam a refletir sobre quão arbitrária pode ser a definição de língua, dialeto ou variedade linguística, eis que não existe uma regularidade absoluta dos padrões linguísticos praticados por uma ou outra comunidade de fala, bem como não há critérios científicos precisos para estabelecer os limites de tais domínios. Além disso, razões de ordem social, histórica e política influem decisivamente no estabelecimento e oficialização dessas classificações (ROMAInE, 1995).

Assim, a idéia saussuriana de sistema fica situada mais no plano da idealização ou mesmo de uma simplificação epistemológica, já que não existe uma conformação, por assim dizer, ‘pura’ de um dado sistema linguístico (TARALLO, 1990). Pode-se admitir talvez certo contorno de maior ou menor nitidez, neste ou naquele passo, que consubstancie variações em tal número e grau que ainda deixem entrever a demarcação de uma forma, como ocorre numa representação ‘impressionista’, se lançarmos mão de uma comparação com essa tendência estética dentro das artes plásticas, especificamente na pintura.

Essa visão difusa e ‘esfumaçada’ daquele sistema desvelado por Saussure pressupõe a existência de variedades que guardam entre si grande número de semelhanças, razão pela qual todas seriam virtualmente inteligíveis para os falantes de qualquer variedade de uma mesma língua, e ainda seu acervo de especificidades, aquelas constituindo o contorno do sistema, estas a ‘névoa’

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que envolve o seu desenho. Em outras palavras, haveria uma superposição de variantes dialetais com um número suficiente de coincidências em suas estruturas capaz de manter ainda um nível de comunicação e um ‘contorno’ geral a conferir uma ‘identidade’ de conjunto.

nessa ordem de idéias, arriscaríamos dizer que além de a língua ser o produto de uma superposição de variações dialetais, também essas diversas variedades que a compõem seriam, por sua vez, a reunião ou superposição dos diversos falares individuais (‘idioletos’), ou ‘falas’, na acepção saussuriana.

Logo, a fala não seria simplesmente o recorte idiossincrático de um ‘sistema’ pré-existente, como a apresentou Saussure, mas uma partícula con-formadora dessa estrutura difusa, múltipla (cada falante, de forma pessoal e particular, pratica preponderantemente uma das variedades que integram o conjunto) e em permanente mutação.

A chamada língua seria, portanto, o resultado de uma superposição de múltiplas práticas linguísticas, consubstanciada por certa interinteligi-bilidade, de que são causa as suas coincidências estruturais.

Então se ultrapassarmos as razões sociais, históricas, geográficas e políticas que levam ao estabelecimento oficial de línguas em particular e considerarmos implicações puramente linguísticas, deveremos admitir também que o mesmo se verifica de certo modo entre línguas aproximadas historicamente, como é caso do português e do espanhol.

O fato é que o castelhano compartilha com o português de um nú-mero abundante de características, mesmo fonéticas, o que torna possível considerá-los sistemas de contornos muito semelhantes (em alguns aspectos seguramente mais semelhantes do que entre certas variedades encontráveis dentro da ampla comunidade considerada de língua portuguesa no mundo), de forma que a definição de língua para esses dois sistemas e de dialetos (ou variedades) para, por exemplo, certos falares do norte de Minas Gerais, pode estar fundamentada em razões outras, que não as linguísticas, e não seria simples justificá-la cientificamente.

De qualquer modo, na hipótese de o cérebro trabalhar com um ‘sis-tema’ para cada língua, ele precisaria antes identificar concretamente o que seria uma língua, ou melhor, onde acaba uma língua e começa outra, ou onde teríamos uma língua ou uma simples variação dialetal, ou onde haveria duas línguas ou duas variedades de uma mesma língua, entre outras distinções, para que ele pudesse armazenar os dados considerados pertencentes a cada língua e pudesse operá-los a partir de seus respectivos compartimentos.

Ocorre que tais distinções e delimitações nunca foram fundamentadas linguisticamente (ROMAInE, 1995) e, de fato, não há uma orientação

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científica a estabelecer, quantitativa e qualitativamente, as semelhanças ou diferenças que, identificadas em dois sistemas linguísticos em comparação, levariam a considerá-los como duas línguas distintas ou simples variedades de uma única língua.

Além disso, para efetivamente fundamentar a hipótese de uma di-visão de ‘sistemas’, esses critérios, se fossem estabelecidos, teriam que ter uma implicação psicolinguística, ou seja, uma vez que dois sistemas, já considerados como línguas diferentes, podem compartilhar de uma série de coincidências estruturais (e, portanto, aquela distinção teria, como já se disse, base meramente estatística, e não taxativa) deveria haver um critério científico ou psicológico vinculando um patamar ou nível de diferenciação a uma correspondência mental de divisão de ‘sistemas’.

no entanto, parece não existirem tais critérios, seja do ponto de vista linguístico, seja do psicológico, e a distinção de uma língua em separado, ainda que justificada por certa identidade ou especificidade estrutural (assim mesmo de forma intuitiva), tem sido fundamentada mais por razões históricas e principalmente políticas, que são obviamente externas à linguística ou à psicolinguística e não podem, por isso, ser determinantes sobre a compleição funcional da mente humana.

Realmente, se a definição ou delimitação de uma língua é arbitrária e não-científica, tal definição também não é cientificamente relevante para explicar o funcionamento da mente do falante, não podendo fundamentar a suposição da existência de um ‘sistema’ para cada língua. Mais que isso, tal hipótese estaria refutada em face de que para a mente, considerada tão-somente em seu aspecto funcional e biológico, a distinção (ou delimitação) de uma língua não existe.

Por outro lado, ainda analisando as semelhanças entre as línguas, como, por exemplo, o português e o espanhol, que têm, conforme já apontamos, muitas identidades lexicais, morfológicas e sintáticas, poderíamos também pensá-los como sistemas que compartilham (ou emergem) de uma série de infra-estruturas que as duas línguas utilizam simultaneamente.

Por esse olhar, em vez de estarem se utilizando de configurações idên-ticas (réplicas), essas duas línguas estariam apoiadas numa única e indivisível conformação histórica (léxico, raízes, padrões sintáticos e morfológicos) e não poderiam ser consideradas apenas como línguas aparentadas (primas ou irmãs), mas como verdadeiras ‘siamesas’.

Assim, poderíamos dizer que as línguas, em face de sua relação histórica, estariam não superpostas, como vimos sugerindo até aqui, mas interpenetradas na base da qual emergem as suas conformações de

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superfí-cie, as quais são produtos de uma efetiva transformação diacrônica de algo real e indivisível.

nesse sentido, a procura pelos universais linguísticos, presente na pesquisa do linguista americano noam Chomsky, poderia ser também enfocada como a tentativa de atravessar essa amálgama abstrata e histórica que integraria todas as línguas do mundo (mesmo as extintas), na direção de suas mais profundas e recônditas identidades, ou seja, do ‘organismo’ histórico e original do qual todas se utilizam e que deveria estar presente nas primeiras manifestações linguísticas da humanidade.

Essas considerações procuram demonstrar que, muito embora sistemas linguísticos estejam entre si distanciados a ponto de serem consideradas línguas diferentes, muito do que existe em ambos será necessariamente compartilhado e único, de forma que ao se aprender uma segunda língua “não se parte do zero”: apreendem-se somente as diferenças, enquanto as identidades são aproveitadas, exatamente como ocorre com a assimilação dos diversos registros e variedades linguísticas que compõem o que se con-vencionou chamar de língua.

Da mesma forma, se considerássemos, em vez de um ‘sistema’ para cada língua, mais que isso, a hipótese um ‘sistema’ para cada variedade linguística (eis que, como já afirmamos, a definição ou delimitação de uma língua não é científica ou psicolinguística), a existência de dois ‘sistemas operacionais’ ou de apenas um na mente do falante bilíngüe (ou do fa-lante competente em mais de uma variedade de uma língua qualquer) vai depender de considerarmos tais semelhanças ou coincidências como algo compartilhado e indivisível, ou como réplicas que compõem o repertório de cada sistema linguístico.

Se as estruturas idênticas, verificadas nas línguas ou variedades envol-vidas, estiverem efetivamente replicadas e fechadas dentro de cada acervo linguístico, então poderíamos imaginar a possibilidade de que teríamos em nossa mente ‘caixas’ estanques para cada língua ou variedade linguística (que se abririam ou fechariam, conforme o código utilizado), constituídas em boa parte de material repetido e redundante.

A primeira pressuposição que trabalha contra tal hipótese é a da ‘economia’, eis que seríamos obrigados a ‘reescrever’ uma gigantesca quan-tidade de dados toda vez que nos dispuséssemos a apreender uma simples variação dialetal.

Com efeito, conforme se procurou demonstrar, malgrado uma variação dialetal guarde com outras variedades ou outras línguas uma dife-renciação fluida, arbitrária e puramente estatística, ao aceitar-se a hipótese

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de sistemas operacionais separados, deve-se pressupor que para cada uma das variedades deveria corresponder um armazenamento e um acesso em separado. não é muito plausível que nossa inteligência tenha seguido um caminho tão copioso e difícil.

Além do mais, como já se afirmou, supormos a existência de meras replicações de entidades lexicais e processos de organização sintática e mor-fológica seria, de certa forma, ignorar a realidade, a substância e a identidade ontológica das estruturas linguísticas, que nos chegaram não como construtos aleatórios e artificiais, mas como resultado de efetivas mantenças e trans-formações, verificadas no âmbito de seu uso concreto e cotidiano. Trata-se de ‘habitantes’ profundos, de ‘verdades’ que impregnaram e atravessaram as vidas de inúmeras gerações.

As estruturas linguísticas seriam, portanto, reais, únicas e irreplicáveis, e comporiam o tecido de uma série de variedades e línguas, que simultane-amente delas se utilizam e a elas se ligam, seja diretsimultane-amente, quando com-partilham de sua conformação original, seja indiretamente, ao sobreporem alterações a essas entidades, ou melhor, a certas porções dessas entidades.

no campo lexical, os metaplasmos exemplificam essas utilizações indire-tas do item lexical mais antigo, que continua pulsando sob a conformação mais recente. Por isso, é mais rápido e fácil assimilar de outras línguas itens que são cognatos dos correspondentes em nossa própria língua: não se acrescenta um novo item, mas apenas uma alteração, uma interferência sobre um elemento mais remoto e também subjacente ao de nosso próprio código.

Assim ocorre, por exemplo, com a palavra escola (do latim schola), em espanhol escola, em francês école; com a palavra esposo (do latim sponsu), em espanhol esposo, em francês époux (GABAS JR., 2003, p. 82). Para a palavra noite, em espanhol noche, em francês nuit, em italiano notte, Webster (1969, p. 1212) indica ainda, no verbete em inglês night, nott (islandês), natt (sueco), nat (dinamarquês), nahts (gótico), nacht (holandês e alemão), naktis (lituano), nox, noctis (latim), nyx, nyktos (grego), nakti, nakta (sâncrito).

O mesmo acontecerá com as estruturas sintáticas: o aprendizado, por exemplo, de línguas com desinências especiais para os casos, dará uma maior facilidade ao aprendiz para assimilar outras como o mesmo tipo de sintaxe, como ocorre com os estudantes de latim, que passam a ter mais facilidade para aprender o grego, que também marca os casos por meio de desinências, eis que tal estrutura já fora apreendida, no corpo da já conhecida e estudada língua latina.

Temos, por conseguinte, indícios muito fortes de que as línguas (ou mesmo as variedades dialetais) não estão separadas ou seccionadas na mente

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do falante, do que concluímos que existe apenas um sistema de operação da linguagem.

Mas, de que forma então funcionaria tal ‘sistema’, de modo que possa operar de modo uniforme e coerente cada uma dessas línguas ou variedades? O ‘SISTEMA’ E OS VÁRIOS SISTEMAS

O ‘Vazio’ Linguístico

Mesmo que para descrever uma situação aproximada, é imperativo abster-se de considerar a mente de um recém-nascido como o espaço vazio, no qual serão inseridos os elementos constituintes da linguagem. Durante todo o processo de formação do cérebro, o feto está exposto a uma gama considerável de informações térmicas, acústicas e táteis que de forma ine-vitável deixarão suas marcas e influências.

Além disso, também não se pode ignorar a possibilidade de que um grande número de dados, virtualmente já inseridos nos genes do bebê, acabe por integrar profundas regiões de seu ‘inconsciente’, dentre eles certas predisposições para o desenvolvimento linguístico em específico e da inteligência em geral, e até mesmo das formas e limitações com que tal desenvolvimento ocorrerá.

Por outro lado, muitos relatos científicos dão conta de que o aprendi-zado da linguagem (ou especificamente da primeira língua, também referida aqui como L1), só será possível com a exposição ou integração da criança ao ambiente em que a linguagem é praticada, o que deverá ocorrer nos primeiros meses de vida, e de que não resultarão frutos satisfatórios, caso só venha a acontecer a partir de certa idade (SCARPA, 2003).

Sem dúvida, muito embora não haja consenso quanto à natureza dos processos envolvidos no aprendizado da L1, a imersão da criança no ambiente de fala é condição indispensável para que ela se torne capaz de desenvolver suas habilidades para linguagem, o que ocorrerá com o apren-dizado da língua (ou línguas) a que está exposta.

A controvérsia se estabelece no momento em que se procura explicar de que forma tal exposição contribui para a capacitação linguística da crian-ça: se haveria uma assimilação total e exclusivamente externa, operada pela repetição, como a descrevem muitos teóricos alcunhados de “behavioristas”, entre os quais o linguista estadunidense Bloomfield (1979); ou, de acordo com a visão de noam Chomsky (1973), se a exposição ao contexto de fala seria meramente um elemento detonador de potencialidades intrinsecamente

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linguísticas, que já estariam presentes no cérebro do recém-nascido por disposição genética: Chomsky assume que nascemos com uma “gramática” (entendida aqui como um conjunto de regras e habilidades operacionais de organização linguística) latente e universal, que seria simplesmente moldada e reduzida à forma peculiar da língua do ambiente de fala da criança.

A essa hipótese de uma ‘gramática’ inata e universal (portadora das generalidades – ou princípios – comuns e suficientes ao desenvolvimento de qualquer língua humana), que é então plasmada pelas especificidades ou ‘parâmetros’ da língua de exposição, Chomsky (1973, p. 35) acrescenta a postulação de que o ser humano teria mecanismos mentais para, a partir daquela ‘gramática’, construir ou ‘gerar’ as frases de uma língua.

Haveria então em nossa mente uma ‘gramática gerativa’, responsá-vel por nossa ‘competência’ para, com relação a uma língua em específico, produzir frases ‘gramaticais’, e ainda reconhecer a gramaticalidade ou não-gramaticalidade de quaisquer frases com que nos depararmos.

Chomsky (1973) opôs a sua ‘teoria gerativa’ à concepção ‘behavio-rista’, tendo como um de seus mais destacados argumentos a afirmação de que a quantidade de estímulos linguísticos dirigidos à criança não é rica o suficiente para sustentar a prodigiosa eficiência com que ela, num curto espaço de tempo, passa a operar a língua, produzindo frases de considerável complexidade e nunca ouvidas antes: a criança não poderia estar respon-dendo a um processo de repetição de modelos acabados, mas efetivamente ‘gerando’ as frases da língua a partir de potencialidades inatas.

no entanto, pode-se assinalar, quanto a esse ponto da argumentação de Chomsky, a dificuldade metodológica e teórica que envolveria a mensu-ração das variáveis quantitativas do estímulo linguístico dirigido à criança, e ainda indagar se a quantidade de informação é tão pequena assim, ou mesmo insuficiente para inviabilizar uma teoria do desenvolvimento da linguagem que prescindisse das postulações gerativistas.

Por outro lado, não há constatações irrefutáveis de que o desenvol-vimento da linguagem no homem deva ser um produto exclusivamente derivado de predisposições genéticas especificamente vinculadas ao potencial linguístico: a apreensão da linguagem e seu exercício podem muito bem integrar habilidades fundadas no campo amplo da inteligência humana.

Logo, a competência linguística poderia ser resultado da aplicação de faculdades (também inatas) da inteligência, diretamente aplicadas à atividade linguística, como, por exemplo, as capacidades de associação e abstração.

Com efeito, o aprendizado da linguagem poderia ser considerado um processo de assimilação da realidade exterior, pela utilização de

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capacida-des intrínsecas da mente, que, muito embora não possa ser tomada como um “espaço vazio”, eis que, como já se assinalou, atravessa o seu lapso de formação já mergulhada em um contexto de informações e provavelmente contenha predisposições genéticas e atávicas para o desenvolvimento de certas capacidades, encontra-se ainda ‘desnutrida’ dos dados que ensejarão o aprendizado linguístico.

CORPO, MEnTE E LInGuAGEM

A hipótese de que a apreensão de conceitos se faz originariamente por intermédio de experiências corporais, defendida, no âmbito da Semântica Cog-nitiva, por Lakoff e Johnson (apud OLIVEIRA, 2003), apresenta a constituição de certos ‘esquemas imagéticos’, que nascem da interação sensório-motora da criança com o ambiente e são depois codificados pela língua: a vivência de uma atividade de deslocamento, por exemplo, ou a percepção de que uma coisa, inclusive o próprio corpo, pode estar dentro ou fora de outra, ou do próprio corpo, estabelece respectivamente os ‘esquemas’ de caminho e recipiente.

Essas noções, apreendidas diretamente pelo corpo, subjazem a ex-pressões como “Fui da cozinha para a sala (caminho)” ou “Estou no meu quarto (recipiente)”, e serão depois estendidas para instâncias mais abstratas através de operações metafóricas: “A festa foi de 25 a 29 de outubro” ou “O fato aconteceu em outubro”, em que os esquemas de caminho e recipiente, relacionados a ‘espaço’, são transplantados para o contexto ‘tempo’. Assim, a linguagem ou a língua em sua totalidade poderia ser constituída de noções que derivam direta ou indiretamente das relações corporais.

nessa ordem de idéias, a conformação do significado (pelo menos em suas instâncias mais básicas e originais), ancorada em relações diretas entre o corpo e a exterioridade física, apresenta-se como anterior e independente de sua codificação pela linguagem verbal, e as sucessões de símbolos acústicos (‘palavras’ e sentenças) que irão representá-lo tenderiam a se colocar no nível mais superficial de rótulos, afixados pela associação.

Além disso, tal associação estaria em grande parte comprometida com expedientes de repetição e efetivamente ocorreria um esforço contí-nuo dos pais (ou daqueles que cuidam do bebê) de vinculação de objetos, características e ações a estímulos verbais que a criança acaba imitando, e depois reproduzindo, em situações idênticas ou similares àquelas em que tais estímulos foram apresentados (SCARPA, 2003).

nesse processo, ocorrerá uma transmissão à criança da estrutura da L1, sobre a qual estariam incidindo específicas expansões conceituais daqueles

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‘esquemas’ imagéticos, por meio de certas operações metafóricas praticadas por um povo ao longo do tempo, e que refletirão muito da experiência e da sensibilidade daquele agrupamento humano.

De fato, essa representação simbólica da cognição humana, além de ser uma herança do trabalho da humanidade para o estabelecimento da linguagem, estará carregada das versões peculiares que cada povo em sua história encontrou para expandir aqueles ‘esquemas’ sinestésicos, que são a base da cadeia de significados que é codificada por qualquer língua, e configuraria, nos termos da chamada “hipótese de Sapir-Worf“ (WORF, 1988), um ‘recorte’ idiossincrático da realidade.

Disso decorre que haveria um nível básico e universal de representação linguística e um nível secundário e peculiar, consubstanciado na configuração de cada língua em específico, ou seja, o nível secundário se constituiria de arranjos ou estruturas derivados do encaminhamento metafórico empregado nas ampliações dos “esquemas” básicos e configurados e refinados historica-mente por cada agrupamento humano sobre as possibilidades, características e limitações da linguagem verbal, na forma de uma língua.

A ‘PALAVRA’ CHEGA À MEnTE

O contato da criança com a primeira língua é o contato com o pró-prio fenômeno da linguagem: pela primeira vez objetos, criaturas e ainda sensações serão rotulados acusticamente.

Trata-se do momento em que a criança começa a perceber que as coisas que estão ao seu redor podem ser referidas, o que vai levar à descoberta de que a imagem do objeto vem a sua mente pela simples audição de uma seqüência de ruídos.

Estabelece-se assim uma ligação entre aquela seqüência de sons e uma imagem, obtida por ‘expedientes’ de repetitiva apresentação da coisa (estímulo visual), simultaneamente a um estímulo acústico.

no entanto, a repetição desse processo nunca é idêntica: não se trata de uma reprodução em mínimos detalhes, como um videoteipe: os “ins-trutores” podem ser diferentes, o local pode ser outro, outra a localização do objeto representado, bem como variadas e diferentes muitas de suas características. Além disso, a própria elocução do símbolo acústico sofre, num nível mais sutil, consideráveis mudanças (de timbre, altura, volume etc.) entre outras variações fonéticas, já que nesse âmbito um mesmo item lexical jamais será pronunciado de forma efetivamente idêntica, ainda que pelo mesmo falante.

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O reconhecimento do símbolo acústico, bem como do objeto representado, dependerá, portanto, de uma notável capacidade de abstração da criança, que perceberá, na inevitabilidade da variação, os traços gerais da recorrência, ou seja, o comum observável numa série de situações diferentes.

Assinale-se, portanto, que a operação mental de associação está interpenetrada pelos exercícios de abstração e as repetições são necessárias, não para fixar tal associação no intelecto da criança, mas para que ela possa, mediante certa quantidade de situações comparáveis, refinar o que essen-cialmente deve ser associado.

Essas duas faculdades, que integrariam o conjunto de habilidades inatas da inteligência humana, serão fundamentais e onipresentes em todo o processo de aprendizagem linguística, desde as etapas iniciais, em que ocorre a assimilação de itens lexicais isolados e frases curtas, até a interiorização de padrões morfológicos e sintáticos.

A ‘palavra’, sem embargo de facilitar o acesso aos significados já expe-rimentados, é apenas o rótulo, ou a duplicação, de uma imagem bem mais abstrata (e por isso pouco manipulável), deixada pelas experiências sensórias. nesse sentido, a ‘palavra’ é a materialização da memória, da lembrança da experiência, ao mesmo tempo em que é uma redução (que até poderia ser considerada arbitrária, se não fosse social e histórica) de uma rica intersecção de imagens e sensações que ainda não haviam sido delimitadas.

Provavelmente é a esse recorte a que se referiu a já citada “hipótese de Sapir-Worf”, segundo a qual cada língua implica uma forma diferente de ver a “realidade”: Worf (1988), em seu artigo, chega a sugerir uma nova Física, baseada na então presumida ausência de noção de linearidade e objetividade temporal na língua Hopi, que ele considerou uma língua “sem tempo”.

Dessa forma, o aprendizado da primeira língua (ou L1) consistiria de uma verdadeira operação de fracionamento (e mesmo mutilação) sobre a amálgama da experiência sensório-motora, que é a totalidade da percepção.

A ‘palavra’ e também as demais estruturas linguísticas são possivelmen-te ‘recorpossivelmen-tes’ realizados dentre uma imensa gama de possibilidades, responsáveis pelas diferenças observáveis nas diversas línguas humanas: Grosjean (1982) afirma que haveria hoje entre 3.000 e 4.000 línguas, e Jensen (1990, p. 1) apresenta uma estimativa de 6.170 línguas.

O aprendizado da L1, portanto, será o primeiro recorte da percepção e estabelecerá as primeiras ligações entre certas áreas do campo das significa-ções interiorizadas e representasignifica-ções simbólicas acústicas, sendo, por isso, o

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tipo de ligação mais primária e profunda estabelecida pela linguagem, qual seja a ligação direta entre significado e símbolo.

O JOGO DAS ‘PALAVRAS’

uma vez estabelecida a primeira relação simbólica entre o campo interno dos sentidos e os signos, têm início outras instâncias de significa-ção produzidas a partir da relasignifica-ção entre tais itens simbólicos, e a partir das alterações sistemáticas (em especial as morfológicas) que cada item pode sofrer no âmbito dessas inter-relações.

Tais arranjos, no entanto, não se fazem livremente. Suas possibilidades já estão previstas na língua que a criança recebe de seu meio, na forma de arquétipos sintáticos.

Com efeito, uma estrutura sintática deverá ser utilizada para um tipo determinado de relação entre as idéias representadas pelos signos que a constituem. Trata-se da assimilação de um mecanismo manipulador de signos, ou melhor, de certos subconjuntos de signos que, por suas características intrínsecas, podem se encaixar num determinado ponto daquela estrutura.

O arquétipo sintático responsável pela ligação de um ser a um atri-buto, por exemplo, muito provavelmente está presente em todas as línguas, muitas vezes com uma conformação idêntica:

El es viejo (espanhol). Il est vieux (francês). He is old (inglês).

Esse fato nos permite considerar, entre outras coisas, que a estrutura observável nos três exemplos deve ter integrado um sistema linguístico mais antigo, do qual essas línguas descendem. Logo, essa estrutura não é, nem precisa ser ‘gerada’ pelo falante, eis que foi recebida pelos que lhe ensinaram a língua, que a receberam após sucessivas ‘heranças’ linguísticas.

Da mesma forma que os signos mais simples, a criança também irá assimilar arquétipos para certas relações específicas entre eles, podendo construir um número formidável de frases com a mesma estrutura, por meio do preenchimento de seus ‘espaços’ com itens que seriam aceitáveis ou ‘encaixáveis’, por uma compatibilidade semântica (no sentido mais am-plo do termo: considerando inclusive feições de sentido que redundam em classificações morfológicas ou morfossintáticas).

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O conjunto desses itens será identificado, como já se mencionou, pelo exercício da faculdade de abstração, que irá perceber entre o arquétipo abstrato e o item lexical uma possibilidade de acomodação, em face de uma “sintonia” semântica. Essa possibilidade está inscrita na carga significativa do próprio signo e no tipo de relação operada pela estrutura sintática, cujos traços de compatibilidade serão isolados pela inteligência.

Assim, uma criança dirá em português: “João é mau”; “João é pedrei-ro”; “João é contra”; “João é nosso”; “João é de briga”; ocupando o ‘espaço’ com itens e expressões cujas características comuns a sua mente delimitou, ao longo de seu contato com uma considerável quantidade de variações sobre a base prototípica. Ela não diria, por exemplo, “João é embora”; “João é porém”; “João é lavava-se”, porquanto tais itens escapariam àquela categorização (ou categorizações, já que poderiam ser de vários tipos os traços de compatibilidade) que os inseriria no subconjunto do léxico capaz de preencher tal espaço.

Somente a instituição do uso, com a fossilização de padrões irre-gulares, poderia excepcionar o emprego sistemático da categorização. Isso acontece, por exemplo, no plano morfológico, com os verbos irregulares, que as crianças tendem a conjugar com as desinências dos regulares (mais numerosos e, portanto, mais recorrentes), como é o caso da expressão “eu fazi”, que será aos poucos substituída pela forma, mesmo incoerente, mas sedimentada pelo uso, “eu fiz”.

Outras ocorrências improváveis seriam as produzidas por certos deslocamentos dos itens, como, por exemplo, “É João mau”; “É mau João”; que produziriam um inevitável estranhamento nos falantes da lín-gua, justamente por não se inserirem no conjunto de estruturas comuns do cotidiano linguístico.

Outra observação importante a fazer com relação ao arquétipo em análise e sua utilização em diversas línguas é que, ao aprendermos uma nova língua que o contenha, como é o caso do alemão (Er ist alt), já partimos de um ponto em que seu funcionamento e grande parte de seu significado e possibilidades combinatórias nessa língua já nos são conhecidos.

Assim, uma série de expressões de significado idêntico ou aproximado em duas ou mais línguas estaria conectada ao mesmo arquétipo sintático, apreendido durante o contato da criança com a primeira língua, isto é, com a própria linguagem.

Ocorre, portanto, um efetivo aproveitamento das coincidências ar-quetípicas no aprendizado de uma nova língua, eis que itens de diferentes línguas se integram à mente do falante já ligados a campos significativos

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idênticos ou aproximados aos dos itens correspondentes da L1. Esses novos itens serão então mobilizados, no caso das identidades sintáticas, por um paralelismo com a operação sintática que a primeira língua faz com seus próprios itens.

Com efeito, a utilização de um paralelismo lexical no aproveita-mento dos arquétipos sintáticos comuns, ou identidades estruturais, seria um dos processos de racionalidade e economia de que a mente deve se utilizar para operar sistemas diferentes, o que fortalece a hipótese de um único sistema operacional para as várias línguas ou variedades presentes na mente do falante.

O ‘Sistema’

Os símbolos estariam então superpostos em tantas camadas quantos forem os sistemas linguísticos assimilados pelo falante, guardando todos eles relações (ligações) com os protótipos sintáticos (‘ligações verticais’), ao mesmo tempo em que estabeleceriam ‘ligações horizontais’, dirigidas ao estabelecimento de subconjuntos lexicais, organizados, através de contínuos processos de abstração e associação, por suas possibilidades de ‘encaixe’ nos arquétipos subjacentes.

Haveria, na verdade, uma superposição de camadas, ou melhor, um agrupamento de dimensões (para fugir às limitações de uma visão geométri-ca), nas quais cada língua ou variedade se situa, ao mesmo tempo em que se liga ao nível mais profundo dos significados e, acima destes, aos arquétipos gramaticais que manipulam os itens das línguas ou variedades envolvidas.

Essas dimensões seriam construídas com um grande índice de inter-secção dos subconjuntos, isto é, um elemento de um subconjunto pertencerá virtualmente a muitos outros, a depender da teia de relações que se espraia dele em direção a outros itens e arquétipos estruturais, com os quais ele vem cooperando ao longo de sua história dentro dos sistemas linguísticos, o que redunda, portanto, em ligações que recobrem um amplo espectro de finalidades, seja para o apartamento lexical de sistemas distintos, seja para estabelecer as subdivisões determinadas pela conformação estrutural do sistema, ou para seleções de ordem pragmática.

Detalhando ainda mais, existiria um ‘chão semântico’ subjacente a um complexo arranjo de ligações de itens e estruturas, dispostos em dimen-sões e subdimendimen-sões. Tanto os itens isolados quanto os arquétipos de sua organização sintática e morfológica estariam ligados em incidência vertical ao ‘campo semântico’ de onde retiram sua significação primária. O ‘jogo’

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entre essas realidades semânticas primárias (itens e sua organização sintá-tica e morfológica) vai criar um segundo nível de acomodação semânsintá-tica, que é produto das potencialidades significativas primárias em atrito, numa incessante cadeia de reorganização dos significados.

Como já foi assumido, nesse panorama os itens e estruturas não serão replicados. Arquétipos sintáticos ou morfológicos, erigidos numa dimensão, estarão conectados e serão utilizados, total ou parcialmente, por diversas línguas ou variedades, bem como estarão interpenetrados por protótipos semelhantes, cujas peculiaridades lhe serão agregadas para funcionarem com o subconjunto próprio.

Além disso, tais estruturas, que estariam diretamente ligadas ao conteúdo semântico, não seriam produto de transformações, como pretende Chomsky (1973), para quem frases como, por exemplo, “o homem matou o leão” e “o leão foi morto pelo homem”, que têm signi-ficados idênticos, teriam uma estrutura profunda e subjacente comum a ambas, e seriam apenas manifestações de superfície, às quais se chegou por uma série de operações mentais, que ele denominou de “transfor-mações gramaticais”.

Chomsky textualmente apresenta as frases “I expeted the doctor to examine John” (Esperei que o doutor examinasse João) e “I persuaded the doctor to examine John” (Persuadi o doutor a examinar João), que ostentam, “em superfície”, estruturas sintáticas idênticas (obviamente em inglês), mas que, submetidas ao processo de apassivização, uma delas, a segunda, não teria o seu significado original preservado: “I expected John to be examined by the doctor” (Eu esperei que João fosse examinado pelo doutor) – sentido preservado, mas “I persuaded John to be examined by the doctor” (Persuadi João a ser examinado pelo doutor) – sentido alterado.

Chomsky afirma então que as estruturas superficiais daquelas frases, na voz ativa, são idênticas, mas que a diferença de desdobramentos semân-ticos de ambas em face do processo de apassivização demonstra que têm estruturas profundas distintas, a que é preciso chegar pela investigação das transformações gramaticais.

no entanto, embora não seja possível chegar a detalhes sobre esse assunto neste trabalho, se observarmos com atenção certos matizes signi-ficativos de cada um dos verbos (to expect e to persuade), poderíamos, com certeza, identificar diretamente nesses itens nuances semânticas responsáveis pela manutenção ou alteração dos sentidos nas respectivas frases apassivadas: esperar é uma ação que se dirige ao evento; persuadir dirige-se ao ser, por isso a passagem para a voz passiva não aconteceu de forma simétrica. Se em

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vez de persuadir tivéssemos, por exemplo, o verbo aguardar, ou presenciar, o significado seria preservado.

O que se assume aqui é que as estruturas sintáticas não são produtos de construções mentais, mas heranças históricas que nos chegaram com um significado já determinado para funcionarem de uma forma ou de outra. Por isso, a verificação de seu sentido estaria no ‘jogo’ semântico estabelecido na própria superfície da estrutura sintática, isto é, a viabilidade de convivência entre um item e uma estrutura gramatical, bem como as conseqüências se-mânticas desse relacionamento, seriam verificadas na própria carga semântica dessas entidades, a qual estará diretamente ligada a uma significação que precede tanto à estrutura sintática, quanto aos símbolos lexicais.

Diferentemente de Chomsky (1973, p. 34), que vê a sintaxe como um nível subjacente ao da semântica, quando diz que “Dois aspectos cons-tituem a estrutura sintática. Ela consiste de uma superfície diretamente relacionada com a forma fonética, e uma estrutura profunda que subjaz à interpretação semântica”, afirma-se aqui que um significado pré-existente foi recortado, num nível primário, pelo léxico e pela estrutura sintática, e, por isso, a própria estrutura de superfície, se suficiente e profundamente identificada quanto à natureza de suas significações, é capaz de explicar os desdobramentos dessa relação entre léxico e sintaxe, a que já chamamos de nível secundário da significação.

Retornando à descrição das ligações dentro do ‘sistema’, deve-se acrescentar que ao lado dos arquétipos sintáticos e morfológicos, que deve-rão ser compartilhados por diversas línguas e variedades, existe a formação de um ‘campo etimológico’, pelo agrupamento dos itens cognatos, que ficarão superpostos numa amálgama difusa e translúcida, onde se insinua a ‘palavra’ original. Essas massas fonéticas estarão direta e conjuntamente ligadas a uma dada fração do ‘campo semântico’, eis que se trata de mani-festações diversas de uma mesma realidade diacrônica. O mesmo princípio deve conectar as estruturas sintáticas semelhantes, que derivariam de uma mesma conformação histórica.

Realmente, o campo aberto do sistema operacional estaria profusa-mente atravessado por ‘fios’ destinados a estabelecer muitos tipos de ligações entre os itens lexicais (que seriam irrigadas pelo uso e deterioradas pelo desuso) e que criariam uma série de dimensões e subdimensões do acervo linguístico sob a ‘cúpula’ do ‘sistema’.

Enredados nas coincidências etimológicas e morfossintáticas, um enor-me encadeaenor-mento de ligações deverá ser desenvolvido, tanto para conectar itens de uma mesma língua ou variedade, quanto para ordená-los dentro das

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estruturas próprias, bem ainda para organizá-los nas conformações peculia-res que cada língua inaugura na mente do falante: novas línguas trarão, ao lado das coincidências, também novas estruturas, novos arquétipos, novas abordagens semânticas, que atuarão de forma primária (tal como ocorreu com a L1) sobre a amálgama disforme e interior das significações.

Se a experiência sensório-motora já produziu, como já postulamos, um caudal de sentidos, que será ‘recortado’ pela língua, deverá haver, a cada aquisição de uma nova língua (ou variedade), novas formas de significar e de se apropriar de certas parcelas do significado, ou até mesmo ‘iluminar’ porções não ainda observadas (ou priorizadas) pela língua ou línguas já dominadas pelo falante.

O FALAnTE E O ‘SISTEMA’

O fato de o falante bilíngüe sustentar de forma uniforme a conversação em mais de um sistema considerado ‘língua’ nada tem a ver, portanto, com a existência de ‘sistemas’ para cada uma delas. na verdade, o cérebro (ou a mente) identificaria ‘cadeias’, que são sedimentadas pelo uso, na forma de ligações lexicais.

Assim, muito embora tenhamos consciência de que determinado acervo lexical pertença a uma língua e não a outra, por nossa capacidade de perceber as características fonológicas e estruturais de cada uma (além de seus ‘dicionários’ de lexemas e morfemas), para a mente tais características não implicam uma necessária subdivisão. É o monitoramento da atividade de elocução que coloca a fala dentro de uma trilha fonológica, fonética, fonotática e lexical já batida pela experiência, dentro da qual o falante de-sencadeará, conformando-se às possibilidades e limitações daquele sistema, suas capacidades linguísticas.

Essa ‘trilha’, que é, para o falante bilíngüe, uma das vias que sua atividade comunicativa pode percorrer para exprimir os significados, estará conectada a condicionantes externas, tais como o lugar, o interlocutor, o momento, o assunto (GROSJEAn, 1982), podendo ser abandonada pelo bilíngüe diante da alteração dos mesmos fatores, que o obrigará a colher ou atingir os significados por meio de outra trilha de associação lexical, isto é, por meio de outra língua.

A constância e a reiteração dessa necessidade de mudança de có-digo farão com que o bilíngüe assimile grande desenvoltura para mudar de língua diante de certos interlocutores e circunstâncias, a ponto de tal alternância tornar-se, de certo modo, automática e inconsciente

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(GROSJEAn, 1982), pela associação contínua de tais fatores à utilização da língua adequada.

no entanto, lapsos ou a pressão de algum fator associativo, como, por exemplo, o assunto, podem desencadear alternâncias de código involuntárias durante a conversação (GROSJEAn, 1982, p. 114).

Essas oscilações inopinadas entre os sistemas conhecidos pelo falante, com interferências e inserções de um código sobre outro, mesmo no nível da frase, poderiam indicar o grau de proximidade com que os elementos do acervo de cada língua ‘convivem’ dentro do ‘sistema’, bem como quanto de sua separação, durante o exercício da fala, depende de um efetivo mo-nitoramento do falante (MACnAMARA, apud ROMAInE, 1995) e de fatores externos à mente.

COnCLuSÃO

Indícios da proximidade com que as línguas estão armazenadas na mente do bilíngüe podem ser verificados no fenômeno da interferência, quando uma língua projeta suas características sobre outra, em bases fo-néticas, pela intervenção de certos traços sonoros ou “sotaque” (PARADIS apud ROMAInE, 1995); fonológicas (FAnTInI apud ROMAInE, 1995), pela substituição de certos fonemas peculiares de uma língua, ainda não perfeitamente adquiridos, por outros melhor assimilados e compartilhados pelas duas línguas (por exemplo: os itens think e that do inglês sendo pro-nunciados por uma criança de fala espanhola como sink e dat); morfológicas (BuRLInG apud ROMAInE, 1995), com a fusão de lexemas de uma língua com afixos de outra; e sintáticas (SAunDERS apud ROMAInE, 1995), como, por exemplo, a acomodação do léxico de uma língua em padrões de colocação de uma outra (crianças bilíngües em inglês e alemão tendem a utilizar, nos primeiros anos de aprendizagem, a ordem Sujeito-Verbo-Ob-jeto, própria do inglês, em orações subordinadas do alemão, que exigem o verbo na última posição).

Além disso, Romaine (1995) assinala que, em casos mais extremos, as interferências ou convergências entre duas ou mais línguas praticadas em uma comunidade podem inclusive transformá-las em uma língua dife-rente com a assimilação de vocabulário e padrões morfológicos e sintáticos umas das outras, dando origem ao que se chamou de línguas “híbridas” ou “misturadas”.

A autora (ROMAInE 1995) indica, ainda, dentro de uma conver-sação bilíngue recortada por interferências de uma língua sobre outra, as

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dificuldades teóricas para se determinar qual seria a língua base no âmbito daquela mudança de código ou code switching: não haveria critérios satisfa-tórios para estabelecer qual língua estaria interferindo sobre a outra, isto é, qual seria a estrutura linguística dominante sobre a qual elementos de outra estrutura estariam incidindo; e afirma que os esforços teóricos para analisar tal questão insistem equivocadamente em que as estruturas das línguas envolvidas estariam determinando os tipos de ‘mistura’ possível, mas, na verdade, o que ocorreria é que a convivência entre as línguas ensejaria um sistema próprio (um terceiro sistema) de organização e fusão das estruturas e do léxico das línguas em contato.

Tudo isso efetivamente sugere um compartilhamento, por parte de vários sistemas linguísticos, de um único sistema operacional, e tais fenômenos poderiam ser explicados como o resultado histórico, social e linguístico da interação e do atrito de vários sistemas gramaticais alojados num único e aberto sistema de operação linguística, cujas características e regras de relação e geração de novas estruturas, entretanto, ainda nos seriam completamente desconhecidas.

Todavia, Romaine (1995) afirma que, em face das diversas abordagens e posicionamentos teóricos, as interferências e ‘misturas’ entre as línguas não são justificativas incontestes de que haja um único ‘sistema’, e os pesquisadores divergem em muitos pontos, sendo “difícil decidir o que conta como evidência para a diferenciação ou fusão [...] Diferentes estudos levam em consideração diferentes fenômenos como evidência” (ROMAInE, 1995, p. 206).

De qualquer modo, se, em consonância com muitas postulações teóricas (PARADIS, GuMPERZ, LABOV, GOFFMAn e LYOnS apud ROMAInE, 1995), considerarmos as mudanças dialetais e mesmo de estilo dos indivíduos considerados monolíngües, como fenômenos de mudança de código equivalentes aos que ocorrem com as mudanças entre variedades oficialmente consideradas línguas, temos realmente que admitir, como já se afirmou, que o aproveitamento, em um único sistema, de estruturas comuns entre as variedades (e entre as línguas) se impõe por uma questão de racionalidade e economia.

A perspectiva gerativista de Chomsky estaria então inviabilizada pela assunção de uma hipótese de utilização de estruturas históricas e sociais da linguagem. O falante não “geraria” as frases que enuncia, eis que opera com uma liberdade de composição relativa e atada a uma previsível e historica-mente determinada estrutura de organização gramatical.

Somente o distanciamento, a consciência linguística e a criatividade do poeta ou de qualquer falante, no uso da “função poética da linguagem”,

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pode efetivamente gerar enunciados que escapam à rotina linguista praticada por um agrupamento humano. O homem fala a língua de seu clã, tentando permanentemente ser aceito e atingir metas pragmáticas na interação com o grupo. Por isso, o motor primeiro da atividade linguística deve ser procu-rado nas instâncias emocionais que levam o homem a harmonizar a sua fala com a de seu interlocutor, mediada pela busca do ‘sucesso’ de sua atividade linguística, bem como pela necessidade de evitar os efeitos dolorosos que podem resultar de uma atividade de comunicação desastrada e imperfeita.

nesse sentido, a substância acústica (ou fonética) produzida no ato da comunicação é uma síntese material de um complexo feixe de vivências e lutas entre o ser humano e a realidade física e social que o envolve, e nela estão exteriorizados o pulso e o movimento de profundas conformações da sensibilidade de um povo.

Com efeito, o estabelecimento das ligações lexicais e os seus vínculos com as estruturas morfossintáticas e resultantes semânticas é produto da mediação entre o exercício da inteligência, as imposições estruturais do sis-tema linguístico e as instâncias do mundo exterior; mediação esta presidida por um ‘monitoramento emocional’ que visa a orientar e determinar as operações linguísticas na direção de um equilíbrio e de um êxito dialógico, isto é, com vistas à eleição de formas de arranjo linguístico que venham a obter o melhor, e emocionalmente aceitável, do ato da comunicação.

A consideração de todos esses fatores pode esclarecer, ou pelo menos deixar entrever, como as pressões históricas, sociais e culturais influenciam a linguagem em suas instâncias mais íntimas e sutis, de modo que é a partir dessas variáveis que o falante efetivamente gera as suas frases e a sociedade a sua gramática. Somente levando-se em conta a realidade sensitiva do ho-mem, as complexas interações sociais e as estruturas históricas que subjazem e preexistem à atividade linguística é que podemos ter uma dimensão das possibilidades criativas do falante e suas limitações.

Além disso, a consideração da existência de arquétipos sintáticos, historicamente determinados, e da habilidade humana de perceber as pos-sibilidades que têm esses arquétipos de manipular e ordenar os itens lexicais poderia sugerir outros desenhos para o mecanismo de geração de frases.

A língua é o resultado de um trabalho contínuo e ininterrupto de um povo e a assimilação de uma nova língua é a interiorização de uma experiência milenar e coletiva, que dará ao falante uma maior consciência do mundo (porque o verá a partir de um outro “recorte”), da atividade linguística e de sua própria língua. Por outro lado, o fato de o bilinguismo desencadear relações e tensões entre sistemas gestados em circunstâncias históricas e

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sociais distintas, torna o seu estudo muito importante e promissor para a compreensão, por meio da investigação dos processos de organização e acomodação das línguas ou variedades linguísticas na mente humana, do próprio fenômeno da linguagem, da relação que esta tem com o homem e a realidade psíquica dos povos, com o mundo e os significados.

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Abstract: this work analyses bilingualism questioning the form in wish the bilingual would operate the languages that they can speak: if there would be, in the mind of speaker, a separate “system” to each language, or if these languages would work by means of a single and broad “system” of storage and organization of linguistic data. Defending the existence of a single “system”, this work also tries to raise hypotheses to the description of its operation and to the relation between language and mind.

Keywords: Bilingualism, mind and language PAuLO SÉRGIO REIS DE ABREu

Mestrando em Linguística pelo Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos e Literários da universidade Federal de Goiás. E-mail: [email protected]

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