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Cidade partilhada, cidade participada

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Academic year: 2021

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FACULDADE DE ARQUITETURA Universidade de Lisboa

Mónica Silva Soares (Licenciada)

Dissertação de Natureza Científica para a obtenção de Grau em Mestre em Arquitetura

Orientação científica:

Professor Doutor José Luís Crespo Professora Doutora Teresa Sá Júri:

Presidente: Professor Doutor Mário Say Ming Kong

Vogal: Professora Doutora Maria da Graça Santos Antunes Moreira Vogal: Professor Doutor José Luís Crespo

Documento definitivo

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“Para além da sua preparação especializada – e porque ele é homem antes de arquitecto – que ele procure conhecer não apenas os problemas dos seus mais diretos colaboradores, mas os do homem em geral. Que a par de um intenso e necessário especialismo ele coloque um profundo e indispensável humanismo. Que seja assim o arquitecto – homem entre os homens – organizador do espaço – criador de felicidade.”

Fernando Távora, Da Organização do Espaço Porto, FAUP Publicações, 1962, p.75.

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I

Resumo

A cidade de Lisboa, fruto da industrialização, do êxodo rural e da vinda dos portugueses regressados das antigas colónias em África, viu a sua densidade populacional aumentar em valores para os quais não estava preparada. Um grande número de trabalhadores que chegou à cidade viveu durante largas décadas em bairros de lata sem o mínimo de condições de salubridade. Os bairros sociais foram, depois de algumas iniciativas estatais, uma solução encontrada para garantir uma habitação digna aos cidadãos.

A participação em arquitetura corresponde ao envolvimento do futuro utilizador em todas ou em algumas das fases do processo de projeto. Acredita-se que uma arquitetura participada, em situação de qualificação de bairro social, possa resultar como forma de atribuir ao beneficiário um certo sentimento de identidade, pertença e familiaridade, por ter sido incluído como uma peça chave no processo.

O Bairro da Boavista, alvo de análise deste trabalho, é um bairro de habitação social, localizado numa das fronteiras da cidade de Lisboa. Neste território acontecem experiências participativas, sob a forma do Programa BIP/ZIP. No âmbito desse programa, faz-se uma análise à participação dos moradores relativamente às propostas apresentadas no bairro e formula-se um conjunto de iniciativas futuras que o possam qualificar.

PALAVRAS-CHAVE: Bairro Social, Participação, SAAL, Bairro da Boavista

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III

Abstract

The city of Lisbon, due to the industrialization, the rural exodus, and the return of the Portuguese that came from the former colonies in Africa, saw its population density increase in values for which it was not prepared. The population lived during some decades in slums without the minimum of health conditions. The social neighbourhoods were, after some state initiatives, a solution found to guarantee decent housing for the citizens. Participation in architecture corresponds to the involvement of the future user in any of the phases of the design process. It is understood that a participated architecture, in a social housing neighbourhood qualification situation, can result in a way of giving the beneficiary a certain sense of identity, belonging and familiarity, because it has been included as a key piece in the process.

The Bairro da Boavista, the object of this work, is a social housing neighbourhood, located at one of the borders of the city of Lisbon. In this territory, participatory experiences take place, in the form of the BIP / ZIP Program. In this sense, an analysis is made of the existing participation in the neighbourhood, and the hypothesis of future initiatives that may qualify it, are formulated.

KEY WORDS: Social neighbourhood, Participation, SAAL, Bairro da Boavista

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V

Agradecimentos

Ao professor José Luís Crespo, a confiança, a disponibilidade e o conhecimento.

À professora Maria Teresa Sá, a exigência e o rigor.

Ao meu irmão, o exemplo e a companhia.

Aos meus pais, o investimento e a paciência.

À D. Fina, o carinho e a sabedoria que não vem nos livros.

À Alexandra, Bruna, Cristiana e Sónia, a amizade.

À AHEAD Bairros - Boavista, em particular à voluntária Joana, o acolhimento.

Ao Bairro da Boavista, à ARMAAB, e em especial à moradora Joana Oliveira,

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VII

Índice geral

Resumo I Abstract III Agradecimentos V Índice geral VII Índice de figuras IX Lista de abreviaturas e acrónimos XIII

1. Introdução 1

1.1. Justificação do tema 2

1.2. Objetivos 3

1.3. Questões de trabalho e hipóteses 3

1.4. Metodologia de investigação 5

1.5. Estrutura do trabalho 6

2. Enquadramento temático 9

2.1. O bairro social: surgimento e evolução na cidade de Lisboa 9

3. A Participação 35

3.1. Participação e democracia 35

3.2. A participação e o envolvimento dos atores 41

3.3. O SAAL enquanto símbolo da participação em Portugal 46

3.4. O Orçamento Participativo como mecanismo de participação 61

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VIII

3.5. Os projetos participados em Lisboa 67

3.6. Projeto de referência enquanto estratégia 77

3.7. Os videojogos como ferramenta de participação informal 92

4. Caso de Estudo: o Bairro da Boavista 101

4.1. Caracterização do bairro 101 4.2. O GABIP Boavista 124 4.3. A participação da população 133 4.4. Propostas de intervenção 152 5. Considerações finais 155 Bibliografia 157 Anexos 167

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IX

Índice de figuras

Fig. 1. Localização da indústria e habitação 18

Fig. 2. Casa bifamiliar 18

Fig. 3. Construção do tipo vila 19

Fig. 4. Vila Santos 19

Fig. 5. Vila constituída por dois corpos paralelos: o primeiro, marginando a rua e com entrada própria, e o segundo formando pátio com entrada pelo lado e galeria de acesso ao 2º piso 20

Fig. 6. Vila Dias 20

Fig. 7. Vila Almeida 20

Fig. 8. Grande correnteza construída pela Fábrica de Tecidos Lisbonense 21

Fig. 9. Bairro Operário dos Barbadinhos 21

Fig. 10. Vila Cândida 23

Fig. 11. Bairro Grandella 23

Fig. 12. Bairro Clemente Vicente 24

Fig. 13. Bairro Social da Ajuda 26

Fig. 14. Bairro Social do Arco do Cego 26

Fig. 15. Siza Vieira a dialogar com moradores no Porto 52

Fig. 16. Autoconstrução no Algarve 58

Fig. 17. Exemplo de ideia apresentada no portal LisBOAideia 70

Fig. 18. Explicação gráfica do LisBOAideia 71

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X

Fig. 20. Participação de crianças num Fórum Territorial 76

Fig. 21. Entrega da Carta de Lisboa à Presidente da Assembleia Municipal, Helena Roseta 77

Fig. 22. Half a good house ≠ one small house 81

Fig. 23. Meia casa em Dezembro de 2004 82

Fig. 24. Casa ampliada em Junho de 2006 82

Fig. 25. Solução 1 casa = 1 lote 82

Fig. 26. Solução casa geminada com dois pisos 83

Fig. 27. Solução em bloco 83

Fig. 28. Espaços comuns 88

Fig. 29. Espaços comuns 88

Fig. 30. Modelação de espaço público em Lima, no Perú, em Minecraft 97

Fig. 31. Modelação de espaço público em Lima, no Perú, em Minecraft, com proposta dos participantes 97

Fig. 32. Participante a redesenhar um espaço público na Cidade do México 98

Fig. 33. Utilização do Minecraft como ferramenta de participação, em Nairobi 100

Fig. 34. Identificação do Bairro da Boavista, na freguesia de Benfica, em Lisboa. Adaptado graficamente pelo autor 101

Fig. 35. Zonas de intervenção da GEBALIS, com a Zona Sul em destaque 102

Fig. 36. Inauguração do Bairro da Boavista, a 25 de Outubro de 1941) 105

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XI Fig. 37. Planta de implantação da 1ª fase de construção (1938 – 1944) do Bairro da Boavista 107 Fig. 38. Casas de “Lusalite” 108 Fig. 39. Bairro da Boavista em 1940. Fotografia de Domingos Alvão 108 Fig. 40. Interior de casa no Bairro da Boavista 109 Fig. 41. Posto Médico do Bairro da Boavista 110 Fig. 42. Planta de implantação da 2ª fase de construção (1945 – 1960) do Bairro da Boavista 113 Fig. 43. 3ª fase de construção (1961 – 1970) do

Bairro da Boavista 114 Fig. 44. Vista sobre o rio Tejo antes da construção da Ponte 115 Fig. 45. 4ª fase de construção (1971 – 1975) do

Bairro da Boavista 116 Fig. 46. João Soares, Presidente da CML (1995 – 2002), a conversar com populares descontentes aquando da demolição das últimas barracas do Bairro da Boavista, em 1996 119 Fig. 47. Demolição de barracas no Bairro da Boavista 119 Fig. 48. “Bairro novo”, demarcado a azul e “Bairro de alvenaria” demarcado a laranja. Adaptado graficamente pelo autor 120 Fig. 49. Serviços previstos no projeto Comunidade

de Partilha 135 Fig. 50. Cartaz de formação promovida pelo projeto

Gerações 136 Fig. 51. Cartaz informativo do serviço Benfica Bus do projeto Gerações 136

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XII

Fig. 52. Passeio de bicicleta promovido pelo projeto bike.POP no Bairro da Boavista 136 Fig. 53. Turma do curso de Técnico de Cozinha e Pastelaria 138 Fig. 54. Presidente da Junta de Freguesia de Benfica com moradores do Bairro da Boavista 149 Fig. 55. Bairro da Boavista no PDM 153 Fig. 56. Espaços de Uso Especial de Equipamentos do Bairro da Boavista no PDM 154 Fig. 57. Siza Vieira, Carlos Magno e Souto Moura, na conferência “Museu Nadir Afonso: Dois ícones que o caracterizam - Nadir e Siza”, em Chaves 169 Fig. 58. Mónica Soares a questionar Souto Moura, na conferência “Museu Nadir Afonso: Dois ícones que o caracterizam - Nadir e Siza”, em Chaves. Fotograma da conferência 173 Fig. 59. Nuno Grande, Siza Vieira e Carlos Magno, na conferência “Museu Nadir Afonso: Dois ícones que o caracterizam - Nadir e Siza”, em Chaves 175 Fig. 60. Carta indicadora de todos os territórios

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XIII

Lista de abreviaturas e acrónimos

AC – Antes de Cristo

ARMABB – Associação de Moradores e Amigos do Bairro da Boavista

AUGI - Área Urbana de Génese Ilegal

BIP/ZIP – Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária CML – Câmara Municipal de Lisboa

CRIL – Circular Regional Interna de Lisboa

FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional FFH – Fundo de Fomento da Habitação

GABIP – Gabinete de Apoio ao Bairro de Intervenção Prioritária GEBALIS – Gestão do Arrendamento Social em Bairros

Municipais de Lisboa

INE – Instituto Nacional de Estatística JFB – Junta de Freguesia de Benfica OP – Orçamento Participativo PDM – Plano Diretor Municipal

PER - Programa Especial de Realojamento PIMP - Plano de Intervenção a Médio Prazo PLH – Programa Local de Habitação

PSP – Polícia de Segurança Pública

QREN – Quadro de Referência Estratégica Nacional SAAL - Serviço de Apoio Ambulatório Local

SWOT - Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats TSF – Telefonia Sem Fios

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1. Introdução

Durante muitos anos, décadas até, a cidade de Lisboa, à semelhança de muitas outras cidades europeias, presenciou uma crise habitacional. A população na capital portuguesa, em números cada vez maiores, vivia em bairros de lata sem o mínimo de condições. Só há poucos anos, após algumas políticas estatais, que diluíam o problema mas sem lhe conseguir por termo, é que se conseguiu pôr fim a tal flagelo. A construção de bairros sociais, feitos para um cliente genérico, que em nada opina nem participa acerca do projeto do seu bairro, acabou por ser a solução.

A participação em arquitetura é nada mais do que o envolvimento do futuro utilizador em todas ou em alguma das fases do processo de projeto. Acredita-se que o recurso à participação, em contexto de bairro social, possa funcionar como forma de atribuir ao utilizador um certo sentimento de identidade, pertença e familiaridade, por ter feito parte do processo.

O Bairro da Boavista, cuja construção se iniciou em 1940, objeto de estudo deste trabalho, é um bairro de habitação social, localizado num dos limites da cidade de Lisboa. Neste território acontecem experiências participativas, sob a forma do Programa BIP/ZIP. Nesse sentido, faz-se uma análise à participação no bairro e propõe-se novas iniciativas que o possam qualificar.

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1.1. Justificação do tema

O trabalho desenvolvido segundo o tema “Cidade partilhada, cidade participada. Proposta participada de qualificação. O Bairro da Boavista em Lisboa” tem por base a análise de dois grandes temas. Por um lado, o estudo da origem dos bairros sociais na cidade de Lisboa, e por outro, analisar as iniciativas participativas tanto em Portugal como no estrangeiro. Em ambos os casos procura-se analisar a aplicabilidade de métodos participativos em contexto de qualificação de bairro social, especificamente no Bairro da Boavista, em Lisboa.

O interesse pelo bairro social enquanto objeto de estudo surgiu na disciplina de Laboratório de Projeto do quinto ano, do Mestrado Integrado em Arquitetura, que incidiu precisamente nessa área. Durante esse ano tive oportunidade de visitar e conhecer três bairros sociais: a Quinta do Mocho, em Loures; o Bairro do Zambujal, na Amadora; e o Bairro da Cova da Moura, também na Amadora.

Ainda durante esse ano letivo, frequentei a disciplina optativa de Projetos Participados, na qual me inscrevi sem saber ao certo de que tratava. Foi no cursar dessa cadeira que me apercebi que a prática arquitetónica, por vezes tão distanciada do seu destinatário, pode recorrer ao mesmo para se enriquecer. Quando nos foi dada a oportunidade de pensarmos livremente num tema para o nosso trabalho final de mestrado, foi a conjugação de participação com intervenção em bairro social que me veio à mente. A escolha do Bairro da Boavista assenta simplesmente em motivos de curiosidade e simpatia. Não pela sua qualidade arquitetónica, que é pouca ou nenhuma; nem pela minha familiaridade para com esse bairro pelo qual passo nas deslocações casa-escola, até porque, antes, nunca lá tinha

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3 entrado; mas pela sensação de ser um bairro que, apesar de ser um dos mais antigos bairros sociais de Lisboa, se encontra um pouco isolado e esquecido pelo resto da cidade.

1.2. Objetivos

Esta tese visa, num contexto geral, tentar compreender através do estudo e da reflexão, como se desenvolvem os processos de participação das populações, e como pode a intervenção arquitetónica participada ajudar à qualificação de um bairro. Como resultado da reflexão, pretende-se uma proposta de intervenção que passe pela qualificação e dinamização do bairro. Uma das principais intenções é questionar a população do bairro quanto a usos e funções que efetivamente fazem falta para uma coexistência social e espacial de pessoas nos espaços públicos do bairro. A proposta de intervenção tem como intuito a inclusão de uma estratégia participativa, na qualificação do bairro, para que este ganhe identidade e sentimento de pertença conseguindo assim um melhor usufruto e vivência da população.

1.3. Questões de trabalho e hipóteses

O estudo a desenvolver nesta Dissertação pretende responder às questões que a seguir se colocam. No entanto, apresentam-se algumas hipóteapresentam-ses provisórias.

Questão principal:

- De que forma se pode intervir e qualificar um bairro social com o envolvimento dos moradores?

Intervir sem consultar os destinatários é correr o risco de estar a interceder de forma errada ou pouco eficiente. Dessa forma,

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convocar os moradores para participarem poderia ser uma hipótese. Existem mecanismos mais ou menos formais, que poderão ser escolhidos mediante o público-alvo.

Outras questões:

- Desde quando e por que motivo surgiram os bairros sociais em Lisboa?

Os bairros sociais são parte integrante da cidade contemporânea, no entanto, são uma realidade relativamente recente. Revela-se necessário aprofundar as raízes desta tipologia habitacional.

- Que tipo de participação acontece no panorama da arquitetura portuguesa?

O tema da participação em arquitetura é ainda pouco divulgado, não só para a generalidade das pessoas, mas também na formação académica em arquitetura. Contudo, ferramentas como o Orçamento Participativo são cada vez mais populares e do conhecimento do público em geral. Afigura-se necessário explorar que outros métodos participativos se encontram ao serviço da arquitetura e da população portuguesa.

- Será legítimo recorrer a mecanismos de participação que não sejam os formais?

A participação está, em parte, associada a países em desenvolvimento, onde os métodos de participação, por questões de baixa escolaridade, são à partida dotados de uma certa informalidade. Pretende-se então perceber que veículos mais informais podem ser utilizados para facilitar a participação.

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5 1.4. Metodologia de investigação

A metodologia adotada para a realização desta dissertação mobilizou uma diversidade de técnicas de recolha e análise de informação. A estrutura do trabalho encontra-se dividida em capítulos tematicamente distintos mas relacionados entre si. Uma primeira fase recaiu na procura, leitura e estudo de bibliografia e de documentos que permitiram estruturar o trabalho por temas e também na definição dos casos de estudo. A definição e a análise de casos de referência nacionais e internacionais foram elementos essenciais na exemplificação da discussão teórica das temáticas e problemáticas abordadas. Numa segunda fase executou-se o enquadramento, a contextualização e a análise da área de estudo. As técnicas a utilizar foram a observação direta observando as interações da população no bairro, assim como conversas informais com a Associação de Moradores.

Numa terceira fase deu-se lugar à realização de inquéritos por questionário aos moradores e utilizadores do Bairro da Boavista; a uma entrevista ao GABIP, e à recolha de testemunho dos arquitetos Eduardo Souto Moura e Nuno Grande.

Por fim, a fase final implicou a análise de todos os elementos recolhidos, a reflexão acerca da proposta de intervenção participada, para a qual se apresentam as intervenções que os moradores e utilizadores do bairro ambicionam, e a redação deste documento.

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1.5. Estrutura do trabalho

O trabalho está organizado em três capítulos: o enquadramento temático (Bairro Social), o enquadramento teórico (Participação em arquitetura) e o caso de estudo (Bairro da Boavista).

No primeiro capítulo faz-se um enquadramento teórico, onde se procura explorar em que contexto e por que motivos surgiram os bairros sociais em Lisboa. Nesse sentido, inicia-se com um acontecimento que abalou toda a Europa, a Revolução Industrial, que levou ao crescimento descontrolado da população de Lisboa e ao surgimento de novas formas de habitar durante a Primeira República. Daí passa-se ao aparecimento dos primeiros bairros sociais, e consequentemente, dos primeiros programas habitacionais sob a alçada do Estado Novo. Depois, refere-se a Revolução de Abril, que deu origem a um importante instrumento de intervenção política urbana, o SAAL. Por fim, visita-se os programas PIMP e PER que reduziram o problema da falta de habitação em Lisboa.

No segundo explora-se a temática da participação desde a origem da democracia, o sistema político que permite que os cidadãos tenham uma palavra a dizer. Depois introduz-se o tema da participação em moldes gerais, explorando-se a seguir aquele que é o símbolo da participação em Portugal, o processo SAAL, e todos os principais pontos do país onde marcou presença: Porto, Lisboa, Algarve e Setúbal. Sonda-se ainda a opinião de arquitetos portugueses de renome relativamente ao SAAL e à participação. Passa-se então para um caso de escala mundial, onde se introduz o popular jogo Minecraft como ferramenta de participação. No seguimento das ferramentas de participação, apresenta-se o Orçamento Participativo nas suas diferentes escalas (do país, da cidade e da freguesia). Avança-se para as ferramentas de participação à disposição na cidade de Lisboa, desde o BIP/ZIP

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7 até ao Fórum da Cidadania. Por fim, explora-se um projeto do atelier Elemental que é referência de participação a nível mundial, pela sua estratégia adotada.

No terceiro capítulo, trabalha-se o caso de estudo, o Bairro da Boavista. Para uma melhor compreensão do território, faz-se um enquadramento geral e histórico onde se conta a sua história até à atualidade. Realiza-se ainda a análise de fatores como a habitação, equipamentos, serviços e mobilidade. Explora-se a existência de um gabinete técnico ao serviço do bairro, assim como um projeto de construção de novas moradias. De seguida entra-se no tema da participação no bairro, onde se mostram as iniciativas de participação que acontecem no bairro sob o Programa BIP/ZIP. Por fim, chega-se à parte mais prática do trabalho, onde se apresenta o estudo realizado no território sob a forma de inquéritos, assim como os seus resultados e respetiva análise. Para terminar, faz-se a reflexão final acerca das possíveis intervenções resultantes da participação dos moradores.

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2. Enquadramento temático

O Bairro da Boavista, objeto de estudo deste trabalho, é um bairro de habitação social, localizado num dos limites da cidade de Lisboa. A sua origem remonta ao programa das “Casas Desmontáveis”, de 1938, instituído pela política habitacional do Estado Novo.

O surgimento deste e de todos os bairros sociais da cidade prende-se com a necessidade de resolver a crise habitacional que, durante décadas, assolou a capital portuguesa. Contudo, este problema não era exclusivo a Lisboa. Neste capítulo, pretende-se perceber não só os motivos que levaram ao aparecimento dos bairros sociais de Lisboa, mas também entender como e quando surgiu o problema da carência habitacional, e que soluções foram colocadas em prática.

2.1. O bairro social: surgimento e evolução na cidade de Lisboa

Enquadramento histórico-social

A Revolução Industrial, iniciada por volta de 1760 em Inglaterra, foi um momento da história mundial com repercussão em muitos aspetos do quotidiano e da vida em sociedade na Europa Ocidental e nos Estados Unidos da América. Para além da indústria, esta revolução abrangeu a agricultura, os meios de transporte e de comunicação (Goitia, 1982). Uma forma de percecionar o impacte que a industrialização teve nas cidades é através da observação das transformações ocorridas na arquitetura e na imagem das cidades (Tietz, 2008).

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“Ao lado de catedrais góticas erguem-se arranha-céus de aço e vidro, ou com fachadas de granito polido. Estimulantes edifícios de museus, que lembram gigantescas esculturas visitáveis, convivem espacialmente com funcionais e austeras fábricas (…).” (Tietz, 2008: 6).

Segundo Benevolo (1999), os fatores que mais influência tiveram na organização das cidades e do território foram: o crescimento da população, o aumento de bens e serviços, e a redistribuição dos habitantes no território.

Com o crescimento do número de habitantes nas cidades a estrutura da população sofre alterações.

O aumento de bens e serviços produzidos pela agricultura, pela indústria e pelas atividades terciárias, deve-se ao desenvolvimento tecnológico e económico. O aumento da população está diretamente relacionado com o aumento da produção. Maior número de pessoas exige disponibilização de mais bens e serviços. Subsequentemente, o aumento de bens e serviços gera aumento da população e aumenta a qualidade de vida das classes.

A redistribuição dos habitantes no território surge na sequência do aumento populacional e das mudanças na produção. Os trabalhadores agrícolas tornaram-se operários na indústria, e para tal veem-se forçados a mudar-se para onde se situam as unidades fabris, primeiro para a proximidade de cursos de água e depois, com a invenção da máquina a vapor, para onde existam minas de carvão. Com isto, as cidades industriais crescem mais rapidamente do que o resto do país porque recebem a população proveniente do êxodo rural.

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11 O desenvolvimento dos meios de comunicação, o crescimento da linha de caminhos-de-ferro e os navios a vapor revolucionam a mobilidade, permitindo o transporte de mercadorias e a movimentação de passageiros de forma fácil, rápida e eficaz. A rapidez e o carácter aberto das transformações que ocorrem em poucas décadas levam a um certo desequilíbrio, o que faz antever transformações futuras cada vez mais profundas e velozes (Benevolo, 1999).

O final do século XVIII ficou marcado pelo progresso e pelo desenvolvimento técnico, proporcionados tanto pela introdução da divisão do trabalho de Adam Smith, como pela invenção, em 1775, da máquina a vapor de James Watt. A divisão do trabalho consiste na atribuição de uma única tarefa mecânica a cada trabalhador em vez da produção na íntegra de um produto, permitindo assim o fabrico em quantidade. (Goitia, 1982).

“ (…) dez pessoas reunidas numa oficina para a manufactura de alfinetes, se dividirem entre si as diferentes operações deste trabalho, são capazes de produzir 48 000 alfinetes num dia. Por conseguinte, cabendo a cada pessoa a décima parte desse trabalho, pode considerar-se que fabrica 4800 alfinetes por dia. Por outro lado, se um único indivíduo tivesse que realizar, e isoladamente, todas as operações, com certeza, diz Smith, que não conseguiria fabricar vinte, e possivelmente nem um alfinete por dia”. (Goitia, 1982: 145).

A máquina a vapor foi introduzida como ferramenta de trabalho nas fábricas, fundições e oficinas que se multiplicavam em grande número nas cidades, favoreceu a produção em massa e adquiriu o estatuto de símbolo da mecanização. A mecanização

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dos meios de produção levou ao surgimento de novos materiais, novos métodos de construção e à possibilidade de explorar novas formas, o que permitiu o desenvolvimento da arquitetura do ponto de vista técnico e formal (Tietz, 2008).

Se até então as indústrias se localizavam maioritariamente nas margens de rios e em cidades com porto por serem acessíveis por via marítima e fluvial, a exploração da máquina a vapor permitiu a concentração das indústrias em outros pontos alcançáveis por via terrestre, isto é, por comboio a vapor. O comboio, também ele um símbolo da Revolução Industrial, por ser fundamental para o transporte de matérias-primas e das mercadorias produzidas nas fábricas, levou à expansão da rede de caminhos-de-ferro, e por conseguinte, ao crescimento e desenvolvimento das cidades. As cidades portuárias como Liverpool, que já antes eram cidades comerciais, ao juntarem o caminho-de-ferro, cresceram, desenvolveram-se e tornaram-se importantes pontos de comércio (Goitia, 1982).

“Manchester, que tinha em 1760 entre 30 e 40 mil habitantes, cresceu em 1800, graças à utilização da máquina a vapor, até alcançar 70 000 habitantes, 10 000 dos quais eram emigrantes irlandeses atraídos pelo desenvolvimento industrial da grande cidade. Em 1830, a inauguração do «Manchester and Liverpool Railway» originou outro considerável crescimento urbano. À volta de 1850, a população já era de cerca de 400 000 habitantes. Foi assim que cresceu uma das primeiras grandes cidades industriais.” (Goitia, 1982: 146).

Na indústria, a força mecânica da máquina a vapor tomou o lugar da energia física e do trabalho manual com recurso a ferramentas. O vidro moldado substituiu a técnica artesanal do vidro trabalhado e polido, o ferro fundido tomou o lugar do ferro

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13 trabalhado na forja, e o produto repetido e massificado tirou a vez à peça única. Este avanço tecnológico gerou o aumento da produção de bens de consumo, fomentou o crescimento da economia e revelou-se num significativo aumento da população. No entanto, a industrialização, em detrimento da manufatura, levou à desvalorização não só do trabalho do homem como do próprio ser humano, que se viu forçado a abandonar o campo e a oficina para se tornar operário nas fábricas das grandes cidades (Tietz, 2008). Com este novo método de produção mecânico e massificado o trabalho humano era visto como um material descartável, onde o patrão dispunha de um excedente número de pessoas que contratava a baixo custo. Os operários, desprotegidos e a viver na miséria, eram mal pagos para reduzir os custos de produção, e em alguns casos recorria-se à mão-de-obra de mulheres e crianças, por ser ainda mais barata (Goitia, 1982).

Outra consequência da industrialização foi o êxodo rural em grande escala que se manifestou em desmedidas concentrações urbanas, para as quais as cidades não estavam preparadas (Tietz, 2008). À medida que as fábricas surgiam nas cidades industriais, também os bairros operários tomavam forma. Construídos para albergar os trabalhadores migrantes, estes bairros, com forma e características a variar consoante o país, tinham em comum as condições desumanas de habitabilidade, tais como fraca ventilação, iluminação e saneamento. Característicos pela utilização dos terrenos ao máximo, sob uma lógica utilitarista, os bairros operários não possuíam pátios ou qualquer tipo de espaços livres. Por estes motivos, os bairros operários representam um dos lados nefastos que a Revolução Industrial trouxe.

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No decurso da Revolução Industrial, tanto a arquitetura como o desenvolvimento urbano das grandes cidades, isto é, das cidades com mais de 100 000 habitantes, sofreram um grande impacto (Goitia, 1982). Com a expansão da rede de caminhos-de-ferro foi necessária a construção de túneis, pontes e novas estações de comboio. Para além disso, a exploração de novos materiais como o vidro, o ferro, o aço, o zinco e o betão, permitiu a introdução de novas tipologias nas quais se incluem os edifícios de exposições em ferro e vidro (Tietz, 2008).

A Revolução Industrial e o crescimento de Lisboa

A evolução das tipologias arquitetónicas e habitacionais da cidade de Lisboa está relacionada com todo um processo de transformações tecnológicas, sociais e políticas decorrentes do processo de industrialização da Europa.

A Revolução Industrial em Portugal foi mais tardia e não se fez sentir de forma tão acentuada como em Inglaterra, França e na Alemanha. Dessa forma é mais sensato considerar que em Portugal ocorreu não uma revolução industrial, mas sim um desenvolvimento industrial, uma vez que a indústria não ocupou o lugar de atividade dominante na economia do país (Teixeira, 1992).

A este período de progresso e desenvolvimento repentino do país, iniciado em 1851 e impulsionado por Fontes Pereira de Melo, deu-se o nome de Regeneração ou Fontismo. Foi então que a máquina a vapor entrou em força nas fábricas portuguesas e substituiu a máquina movida a energia hidráulica, permitindo a introdução de novas indústrias como a do cimento e das porcelanas, e a modernização de fábricas como as que produziam cerâmica e vidro.

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15 Apesar de todo o avanço na indústria, foi nos transportes e consequentemente, nas comunicações, que o progresso foi mais significativo. O crescimento da rede de transportes facilitava as comunicações e favorecia a interligação entre o setor agrícola, industrial e comercial. Deste modo, o desenvolvimento dos transportes e das comunicações estava na base de toda a economia, sem os quais a indústria não sobreviveria. Construíram-se novas estradas um pouco por todo o país, criaram-se caminhos-de-ferro e edificaram-se pontes, de forma a tornar as ligações mais curtas e eficientes. Exemplo disso é a ponte ferroviária sobre o rio Douro, que concluiu a ligação entre Porto e Lisboa.(Infopédia, 2003-2017).

“A primeira linha de caminho-de-ferro, numa extensão de 36 km, foi inaugurada em 1856. Em 1884 havia 1685 km de caminhos-de-ferro construídos, 2071 km em 1890 e 2356 km em 1900. No que respeita à rede de estradas, enquanto em 1852 havia apenas 218 km de estradas modernas, em 1884 a rede de estradas tinha 9155 km, em 1890 11125 km e 14230 km em 1900. Também nas últimas décadas do século foi instalado um grande número de máquinas a vapor ao serviço da indústria. Em 1852 havia apenas 70 máquinas a vapor em todo o país.” (Teixeira, 1992: 66).

Contudo, em meados do século XIX, fruto do desenvolvimento repentino, Lisboa deparava-se com o mesmo problema que as restantes cidades industrializadas: elevado crescimento demográfico e número insuficiente de habitação que satisfizesse a procura (Teixeira, 1992). A classe operária de Lisboa, mas também dos centros industriais como Porto, Covilhã e Setúbal, vivia em condições miseráveis, tal como denunciou aquele que foi o primeiro trabalho de estatística industrial realizado em

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Portugal, o “Inquérito Industrial de 1881” (Pereira, 1994). Este inquérito evidenciou a necessidade de intervenção por parte dos poderes públicos, no entanto, as propostas de lei apresentadas não foram discutidas (Ferreira, 1994).

Em 1890 cerca de um terço da população de Lisboa correspondia a pessoas de origem rural que se tinham mudado para a cidade, para trabalhar na indústria e na construção civil (sobretudo nas obras públicas), na esperança de melhores condições de vida. A falta de correspondência entre o aumento demográfico e as condições de habitação colocavam a cidade perante uma crise habitacional, tornando-se necessária e urgente a construção de habitação destinada à classe trabalhadora (Teixeira, 1992). Todavia, o parque habitacional de Lisboa continuava a aumentar, com o surgimento de novas avenidas e novos bairros tais como: Estefânia, Campo de Ourique, Bairro Camões, Almirante Reis e Avenidas Novas. A questão é que o operariado não tinha possibilidade económica para viver nesses bairros, que estavam só ao alcance da burguesia (Pereira, 1994).

De acordo com o arquiteto Nuno Teotónio Pereira (1993), a classe operária começou por ocupar os bairros populares lisboetas, como Alfama e o Barredo, até ficarem sobrepovoados, e depois improvisaram alojamento em pátios e em ruinas de palácios, solares e quintas. Face a esta situação, alguns construtores e promotores aproveitaram-se da precaridade da situação e da falta de regulamentação para criar um novo mercado de arrendamento, através do subaluguer às famílias dos trabalhadores, do qual retiravam bons rendimentos (Pereira, 1993).

“Alojadas da maneira mais lucrativa e rendosa para uns tantos, mas não da mais adequada, humana e aprazível; e aí é que está o busílis.” (Amaral, 1969: 80).

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17 Construía-se no interior de quarteirões nos espaços que sobravam, e em terrenos livres de pouco valor, transformando-os em alojamenttransformando-os coletivtransformando-os de elevada densidade. As rendas destas habitações eram muito baratas uma vez que os operários recebiam salários baixos. Desse modo, as edificações eram de dimensões ínfimas, de baixa qualidade e sem as mínimas condições de higiene e salubridade. Estes alojamentos de recurso foram denominados pátios e vilas de Lisboa (Pereira, 1993).

Pátio, seguindo a definição de Teotónio Pereira (1994), na sua forma mais comum corresponde a um espaço descoberto no interior de um edifício ou a um terreno murado anexo a um edifício. Neste contexto, refere-se a uma forma construtiva que aproveita espaços desocupados e que não obedece a qualquer tipologia, em edificações em ruína e até mesmo em caves, para criar habitação improvisada e sob o pagamento de uma renda ao proprietário (Pereira, 1994).

“ (…) de más arrecadações ou armazéns, se transformaram em apetecidas habitações daqueles que infelizmente as não podem encontrar melhores.” (Fontoura, 1937: 58).

A sua localização nas imediações de zonas industriais, em bairros antigos e na periferia (fig. 1), é maioritariamente térrea, não reunindo as condições mínimas de salubridade por não ter nem instalações sanitárias nem fornecimento de água. Para além disso, devido à localização precária, não beneficiam de incidência solar, estando assim propícios a humidades e ao desenvolvimento de epidemias.

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Os pátios, enquanto modelo construtivo, por serem uma edificação informal, são muito diversos, não existindo uma descrição formal ou tipológica comum a todos (Pereira, 1994). No entanto, em todos os casos são alojamentos coletivos de elevada densidade e mínima qualidade (Ferreira, 1994). O aumento da procura por esta modalidade de habitação levou ao aparecimento de pequenas edificações, construídas de raiz, em terrenos apertados situados em bairros pobres da periferia, o que resultou na tipologia intitulada de casa bifamiliar (fig. 2). De certa forma, estas construções são uma forma embrionária de uma outra nova tipologia, a vila. A casa bifamiliar corresponde a uma pequena construção de apenas um piso, com dois fogos e um programa mínimo. Por ter um baixo custo, é adequada às famílias de poucos rendimentos. A crescente procura resultou na construção de novos pisos sobrepostos ao inicial, na edificação de exemplares com três e quatro fogos, e ainda na replicação do modelo em banda, o que originou a denominação de correnteza.

Fig. 2. Casa bifamiliar (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-2-1f.jpg) Fig. 1. Localização da indústria e habitação (Fonte: Fontainhas, 2015)

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19 As vilas (fig. 3) são edifícios construídos com uma finalidade bem definida, alojar as famílias operárias, constituindo assim uma nova modalidade de habitação. Apesar de poder assumir tipologias diversas, a definição camarária presente no regulamento de 1930 adequa-se à sua generalidade: conjuntos de edificações erguidas em recintos que tenham comunicação, direta ou indireta, com a via pública por intermédio de serventia, isto é, edifícios construídos no interior de quarteirões.

À semelhança do que aconteceu com os pátios, também as vilas sofreram variações relativamente ao modelo inicial. Sendo assim, surgem vilas cuja fachada acompanha a via pública, no entanto o seu propósito não sai desvirtuado, uma vez que, são fruto da iniciativa privada e se destinam a múltiplas famílias de baixos rendimentos. Nascem também edifícios longos, à semelhança da já mencionada correnteza e ainda edifícios em bloco, com as quatro fachadas livres, à semelhança das vilas da burguesia.

Sob o ponto de vista da rentabilidade, a organização espacial das habitações é realizada maioritariamente pelo perímetro do terreno, possibilitando a construção do maior número possível de fogos numa dada área. Assim, sobra um espaço no interior, que toma a forma alongada, de corredor ou de pátio. Num contexto de exceções, surgem vilas que transpõem a fraca qualidade associada às vilas, possuindo um desenho cuidado e alcançando até algum nível de ostentação. Neste contexto inserem-se a Vila Berta, na Graça; a Vila Santos, no Campo Pequeno (fig. 4); e a Vila Luz Pereira, na Mouraria, onde o cuidado com a simetria, com a ornamentação e com o emprego de tecnologias modernas como as estruturas de ferro que compõem as galerias de acesso e distribuição. A Vila Berta tem Fig. 3. Construção do tipo

vila (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-3-4f.jpg)

Fig. 4. Vila Santos (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-4-9f.jpg)

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ainda a particularidade de ser um conjunto interclassista, isto é, com construções para camadas sociais distintas.

Outra modalidade que as vilas assumem é a de serem construídas atrás de prédios correntes da pequena burguesia (fig. 5). Nestes casos, o prédio da burguesia partilha o mesmo lote e assume a fachada principal, enquanto o edifício destinado às famílias operárias fica nas traseiras, tornando clara a diferenciação de classes. O acesso aos dois edifícios é completamente diferenciado, localizando-se o acesso à vila à ilharga do prédio, a eixo do lote ou através de uma passagem sob o prédio.

A localização das fábricas determina, na maioria dos casos, o posicionamento das vilas operárias. De forma a fixar os trabalhadores, as vilas eram construídas na proximidade das fábricas, o que levou a concentrações de vilas ao longo de eixos que formavam ruas entre elas. Um exemplo que demonstra bem esta organização é a Vila Dias (fig. 6), em Xabregas, que por ter sido construída paralelamente à linha do comboio configurou novos arruamentos.

Há ainda casos em que a proximidade entre a vila e a fábrica é tal, que se encontram integradas no mesmo edifício, constituindo uma tipologia de construção compacta mas a uma escala urbana. Na grande maioria dos casos, esta tipologia foi aplicada em indústrias como a do tratamento e distribuição de vinhos, onde um mesmo edifício tinha armazéns na base e habitações nos pisos superiores. Também o ramo da metalurgia adotou este modelo construtivo, por exemplo na Vila Almeida, localizada no Jardim José Fontana (fig. 7), um edifício onde a oficina fica no piso térreo e a habitação se distribui por três pisos, acessíveis por galerias na fachada posterior. O setor têxtil é outro adepto desta modalidade e tem como exemplares a

Fig. 5.

Vila constituída por dois corpos paralelos: o primeiro, marginando a rua e com entrada própria, e o segundo formando pátio com entrada pelo lado e galeria de acesso ao 2º piso. (Fonte:

http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-5-4f.jpg)

Fig. 6. Vila Dias (Fonte: http://paixaoporlisboa.blogs.s apo.pt/vilas-operarias-de-lisboa-54582)

Fig. 7. Vila Almeida (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-7-6f.jpg)

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21 grande correnteza construída pela Fábrica de Tecidos Lisbonense (fig. 8), a Vila Cabrinha construída pela Fábrica de Estamparia e Tinturaria de Algodão, ambas em Alcântara, e a Vila Flamiano, edificada para os funcionários da Companhia de Fabrico de Algodão de Xabregas (Pereira, 1994).

“Trabalhando várias pessoas, foi por iniciativa dos proprietários da fábrica que foram edificadas, em 1867 e 1877, as primeiras vilas operárias em Xabregas. Em 1888, foram construídas mais duas vilas, de maiores dimensões, a Vila Flamiano (inicialmente destinadas aos mestres e contramestres) e a Vila Dias (para os operários). Ao todo foram construídas 106 casas no bairro operário da Companhia do Fabrico de Algodões.” (Camarinhas, 2001) .

Paralelamente à construção de iniciativa privada, a partir de 1840, surge então um surto de cooperativismo e associativismo resultante do movimento operário, que pretendia resolver os seus problemas habitacionais. Três décadas depois, o movimento sindicalista fortalece-se e torna-se uma força política importante no país (Teixeira, 1992). É neste âmbito que são criadas sociedades cooperativas de construção e habitação. Uma das construções realizadas foi o Bairro Operário dos Barbadinhos, situado na Graça (fig. 9), em 1890, um bairro de arquitetura simples e rígida, de acordo com os recursos disponíveis (Pereira, 1994).

No início do século XX, o problema da falta de habitações para a classe operária persistia, a falta de condições dos bairros operários era preocupante, e a construção informal surgia, com as primeiras barracas e os primeiros bairros de lata a aparecerem na periferia de Lisboa (Pereira, 1993). Segundo o Engenheiro Álvaro da Fontoura, no perímetro da cidade, à semelhança de Fig. 9. Bairro Operário dos

Barbadinhos (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-9-1f.jpg)

Fig. 8. Grande correnteza construída pela Fábrica de Tecidos Lisbonense (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-7-1f.jpg)

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todas as grandes cidades, existiam milhares de barracas clandestinas, isto é, sem licença da Câmara, construídas com materiais como latas e madeiras e localizadas em locais sem sistema de esgotos (CML, 1937).

“Problema de humanidade e solidariedade social deve ser resolvido pela colaboração de todas as entidades interessadas, representantes duma sociedade civilizada que não deve permitir a degradação duma parte dos seus semelhantes.” (CML, 1937: 66).

Apesar da falta de condições das habitações operárias e das barracas que se começaram a construir, a Câmara Municipal de Lisboa mantinha-se alheia aos problemas habitacionais da cidade (Teixeira, 1992).

“A transformação incongruente começa pelo facto de se ir acumulando na cidade uma população composta de imigrantes que se vão distribuindo ao acaso pelas franjas mais miseráveis e abandonadas, invadindo propriedades alheias ou zonas com condições urbanas inadequadas.” (Goitia, 1982: 171).

A este fenómeno de crescimento da cidade a um passo acelerado e agressivo, para o qual as autoridades não conseguem dar resposta em tempo útil, e que foi comum a todas as grandes cidades, Goitia (1982) considera uma “transformação incongruente”. É no crescimento incongruente que se inserem os bairros de lata nascidos sob a clandestinidade e que se espalham pela cidade, aproveitando-se da lentidão das previsões e realizações dos urbanistas (Goitia, 1982).

“Apenas a iniciativa particular, desajudada de qualquer auxílio, tem realizado algumas tentativas modestas, mas

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23 suficientes para se reconhecer que o problema não é insolúvel.” (Decreto-lei no 4137, 1918).

Tanto o governo como a câmara municipal se distanciavam do problema ao não assumir a construção de habitação de baixo custo como seu encargo. A sua atividade nesta área limitava-se a incentivar e controlar os promotores privados na construção de casas de baixo custo para os necessitados. A questão sobre quem devia construir habitação nem sequer era colocada, a única discussão era sobre o tipo de incentivos a atribuir aos investidores privados e o tipo de habitação a erigir (Teixeira, 1992).

Na falta de resposta por parte das autoridades competentes, a habitação de baixo custo destinada à classe operária surge, até então, maioritariamente por investimento privado e alguma por iniciativas de caráter filantrópico. Destacam-se a Vila Cândida, na Penha de França (fig. 10), e o Bairro Grandella, em Benfica (fig. 11), mandados edificar pelos donos das fábricas, para os empregados e suas famílias, pelo banqueiro Cândido Sotto Mayor e pelo empresário Francisco de Almeida Grandella, respetivamente (Pereira, 1993). Este tipo de prédios, por se afastarem da tipologia inicial das vilas, pela sua organização complexa e dimensão volumosa e imponente, são classificados por Teotónio Pereira (1994) como vilas de escala urbana. A Vila Cândida foi construída, em 1912, com uma entrada larga, uma organização espacial geométrica e à semelhança de uma aldeia, que por possuir valências de uso coletivo, estabelecimentos comerciais, espaços de convívio, equipamentos escolares e uma esquadra da polícia, lhe confere uma certa autonomia.

Fig. 11. Bairro Grandella (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-8-1f.jpg)

Fig. 10. Vila Cândida (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-8-4f.jpg)

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A construção do Bairro Grandella, em 1910, foi realizada nas imediações de uma fábrica têxtil, numa lógica de ruas paralelas e com as habitações a variar tipologicamente de acordo com a hierarquização dos funcionários da empresa. No lado principal do bairro foram erigidos dois pavilhões à semelhança de templos gregos e com função de uso comum.

Ainda nesta tipologia de empreendimentos construídos em prol do bem-estar dos funcionários e da harmonia social, registam-se, em Lisboa, o Bairro Estrela de Ouro, na freguesia de São Vicente, e o Bairro Clemente Vicente, no Dafundo (fig. 12). Em 1930, o regulamento camarário proíbe a construção de novas vilas (Pereira, 1994).

A Primeira República e os primeiros bairros sociais

“Nas últimas décadas de Oitocentos, (…), começaram a ouvir-se vozes que afirmavam competir também ao Estado um contributo para a solução de tão magno problema.” (Pereira, 1994: 522).

Com a Implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, era expectável a intervenção do governo na questão da falta de habitação, contudo, o país enfrentava dificuldades económicas, políticas e sociais, agravadas pela participação na Primeira Guerra Mundial, que adiavam a sua ação (Tiago, 2010). Também a Câmara Municipal de Lisboa fechava os olhos às condições em que a classe operária vivia na cidade, uma vez que, no período entre 1910 e 1926 não construiu qualquer habitação (Teixeira, 1992).

Em 1918, o problema habitacional na cidade de Lisboa intensificava-se devido à crescente procura, e à falta de condições de higiene provocada pela sobrelotação e degradação

Fig. 12. Bairro Clemente Vicente (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-8-6f.jpg)

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25 dos bairros operários. A agravar a situação, o país atravessava uma grave crise agrícola que se manifestou na falta de bens de primeira necessidade, e ainda um surto de tifo e uma vaga de gripe pneumónica com maior incidência nos bairros operários por serem insalubres (Tiago, 2010).

“Para remediar (…) tem-se recorrido aos remédios mais contraproducentes e contrários à higiene social. A junção de duas e três famílias em verdadeiros antros, sem as menores condições de asseio ou de conforto, a instalação de muitas pessoas em pequenos cubículos, ou até mesmo num único compartimento, por vezes numa promiscuidade de sexos que destrói todas as noções da moral, e isto sem que um raio de sol ou uma lufada de ar aí entre, porque essas habitações da miséria são, em geral, subterrâneas, ou levantam-se à beira de vielas húmidas e estreitas, onde escorrem os mais nauseantes detritos. (…) Em Portugal já há muito se vem falando na necessidade de fazer desaparecer, principalmente das nossas duas cidades mais populosas, os bairros infectos em que facilmente se aclimatam todas as epidemias.” (Decreto-lei no 4137, 1918).

Neste contexto de preocupações higienistas, o Estado, que até então não tinha quaisquer experiência de políticas públicas, reconhece a necessidade de substituir esses bairros e vê-se forçado a intervir (Decreto-lei no 4137, 1918). O Decreto formulou um documento que lamentava a ausência de intervenção estatal, referiu propostas legislativas de outros países. Foi então, em 1918, que o governo declarou a intenção de extinguir os bairros insalubres de Lisboa através da construção de habitação barata para a população mais desfavorecida. A construção das casas, com incentivos

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concedidos, ficava então à responsabilidade de investidores privados, de sociedades, de cooperativas, da câmara municipal ou ainda do Estado (Teixeira, 1992). Apesar da conjuntura desfavorável do ponto de vista económico, político e social, as preocupações higienistas foram determinantes na implementação de medidas de proteção social e estatal (Tiago, 2010). Para além disso, o governo republicano por ter na classe operária a sua falange de apoio, viu-se forçado a ceder aos movimentos sociais e às greves, colocando a questão da habitação como prioritária (Teixeira, 1992).

A resposta estatal ao problema da habitação teve por base modelos de outros países, tais como França, Inglaterra, Alemanha, Espanha, entre outros, que por terem experienciado a industrialização mais cedo, já possuíam leis que visavam a resolução do mesmo problema, através da construção de casas baratas para aluguer ou venda. Deste modo surgem as medidas de proteção à construção de casas económicas, que dão origem aos primeiros bairros sociais de Lisboa (Decreto-lei no 4137, 1918).

“ (…) nenhuma das providências legislativas até hoje promulgadas conseguiu atacar o problema da habitação da população dos bairros clandestinos, vulgarmente conhecidos pela designação de bairros da lata.” (CML, 1937: 61).

Os primeiros bairros sociais de iniciativa oficial são o Bairro Social da Ajuda/Boa Hora (fig. 13) cuja construção iniciou em 1918, e o Bairro Social do Arco do Cego (fig. 14) que começou a ser edificado em 1919. A partir deste momento, são já escassas as construções de promoção privada, e na década de 20 são edificadas as últimas vilas (Pereira, 1994). Foi então que os

Fig. 13. Bairro Social da Ajuda (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-9-2f.jpg)

Fig. 14. Bairro Social do Arco do Cego (Fonte: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-9-3f.jpg)

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27 reformadores sociais foram rever as propostas realizadas no século anterior (Teixeira, 1992).

“ (…) o plano dos bairros e a forma das habitações - habitações unifamiliares, independentes sempre que possível, geminadas ou em bandas que não excedessem os 100 m, cada uma com um quintal independente (…).” (Teixeira, 1992: 77).

Tanto no Bairro Social da Ajuda como no Bairro Social do Arco do Cego, foi empregue uma solução que conjugava habitações individuais com blocos de habitação. A construção apenas de habitações unifamiliares e isoladas não era compatível com o centro da cidade, devido à falta de terrenos e ao seu custo, e a habitação em zonas periféricas obrigava a deslocações casa-trabalho (Teixeira, 1992). Entretanto, em 1922, devido a questões financeiras, a atrasos e à falta de projetos, as obras de ambos os bairros foram interrompidas. Este novo modelo de bairro que pretendia ser a introdução à cidade para os mais desfavorecidos ficava então mais longe da realidade, uma vez que o Estado não podia pôr termo às obras (Ferreira, 1994).

O Estado Novo e os programas habitacionais

Com a queda do regime republicano e com a instauração da Ditadura Militar, a construção do Bairro do Arco do Cego seria brevemente retomada. Em 1927, foi atribuída à Câmara Municipal de Lisboa a responsabilidade de prosseguir com a sua conclusão. À medida que iam sendo concluídas, as casas eram ocupadas, no entanto, a sua atribuição não só dava prioridade a famílias de funcionários municipais como vedava o acesso a operários ou a pessoas de poucos recursos (Ferreira, 1994). Em 1929, o Estado decide aproveitar a herança recebida da Primeira

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República e põe a hipótese de terminar o Bairro Social da Ajuda, mas só em 1932 é que as obras são reiniciadas. Quase simultaneamente, o Bairro do Arco do Cego volta a ser responsabilidade do Estado para sua conclusão. Em clima de festa, o Estado Novo inaugura em 1934, o Bairro da Ajuda e em 1935 o Bairro do Arco do Cego, numa cerimónia onde a imagem do regime é engrandecida, de acordo com a eficácia da sua obra. Contudo, já não fazia sentido falar em bairros sociais, uma vez que os compradores das casas nestes dois bairros não correspondiam ao grupo social dos mais carenciados (Tiago, 2010). Se durante a Primeira República o Estado procurava agradar aos seus apoiantes, a classe operária, durante o Estado Novo, a classe beneficiada seria a classe média, a sua principal base de apoio (Teixeira, 1992). Estes bairros só foram bairros sociais enquanto foram projeto da Primeira República, depois adquiriram a conotação de símbolo da ideologia e do poder do Estado Novo e passaram a integrar uma nova tipologia, a de Casas Económicas (Ferreira, 1994). O regime das Casas Económicas criado com o eclodir do Estado Novo em Portugal corporiza as ideias de Salazar quanto à família: casa própria, modesta e bem portuguesa (Pereira, 1993).

“Os ocupantes não eram os operários, as classes laboriosas urbanas, mas antes os grupos de apoio do Estado Novo.” (Ferreira, 1994: 703).

Relativamente às condições de acesso às casas do Bairro do Arco do Cego, de acordo com o Decreto número 23052, de 23 de Setembro de 1933, os adquirentes deveriam corresponder às seguintes características: ter um emprego seguro e estável, ser fiel ao regime, revelar bom comportamento moral e profissional, ter idade compreendida entre os 21 e os 40 anos, e ainda relativamente à profissão, pertencer aos sindicatos ou à

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29 administração pública. Apesar do desvio relativamente à classe dos destinatários e de a classe social não ser a mais baixa, o ambiente do bairro não era o mais pacífico (Ferreira, 1994). Os novos edifícios apresentavam um desenho cuidado e as fachadas eram ornamentadas, correspondendo a uma nova tipologia na cidade de Lisboa (Pereira, 1994). A conclusão dos bairros foi feita de acordo com a ideologia do Estado Novo, dessa forma, o Teatro-circo inicialmente previsto foi substituído pelo Liceu D. Filipa para assegurar o fechamento social imposto pelo regime. Foram ainda feitas duas escolas primárias com separação de sexos, um arquivo municipal e uma esquadra da polícia. A construção de Casas Económicas não dava importância ao espaço público nem às relações de vizinhança. Relativamente a oficinas e ateliers de artistas que constavam do projeto inicial, nunca chegaram a ser feitos (Ferreira, 1994).

“Tipos de casas económicas: Quais os tipos de casas que se devem preconizar e consentir? A casa isolada que possa tornar-se propriedade do inquilino ou o grande prédio com muitos andares e muitos inquilinos. Inclino-me muito mais para a priInclino-meira solução, pois que na segunda, a que chamam casa-quartel, encontro grandes inconvenientes de ordem higiénica, moral e social. Em compensação as habitações em grandes prédios tem vantagens de ordem económica, desde que não sejam arranha-céus onde por vezes os transportes de materiais em altura oneram muito a construção. E porque não estudar a solução intermediaria?” (CML, 1937: 64). Os conjuntos habitacionais compostos por Casas Económicas, consistiam em habitações unifamiliares, de um ou dois pisos, independentes ou geminadas e com um pequeno jardim, baseadas em modos de vida tradicionais, à semelhança de uma

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aldeia na cidade (Teixeira, 1992). A opção por este tipo de construção unifamiliar em detrimento de habitações coletivas devia-se ao facto de o governo do Estado Novo considerar que nos edifícios coletivos facilmente se poderiam gerar movimentos revolucionários (Vieira e Coutinho, 2014).

“Existiam duas classes de casas (A e B), dependendo das suas áreas e qualidade de acabamentos, e dentro da cada uma das classes três tipos de habitações, conforme o número de quartos. Mais tarde, em 1943, foram introduzidas duas outras classes (C e D); habitações maiores e de melhores acabamentos claramente destinadas às classes médias, com rendimentos mais altos. (…) Embora supostamente destinadas à solução dos problemas habitacionais das classes trabalhadoras, (…) os pobres eram excluídos. As rendas (…) fora do alcance (…) dos habitantes dos bairros de barracas de Lisboa (…).” (Teixeira, 1992: 81).

Dando conta desta realidade da proliferação dos bairros de barracas, o Decreto-Lei número 28912, de Agosto de 1938, lança um novo programa, que visa a construção de “Casas Desmontáveis” (Teixeira, 1992).

“Há que acorrer então, como quem vai apagar um incêndio, para integrar em bairros experimentais e semiprovisórios, o que as populações sem recursos tinham improvisado no meio da urgência da sua situação.” (Goitia, 1982: 174).

É em 1938 que Duarte Pacheco, enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ministro das Obras Públicas e Comunicações, tenta erradicar os bairros de lata em Lisboa com a implementação do programa das “Casas Desmontáveis”,

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31 surgindo assim, entre outros, o Bairro da Boavista e o Bairro da Quinta da Calçada. Estas casas temporárias, construídas com chapas de fibrocimento, tinham uma durabilidade calculada em 10 anos, no entanto, persistiram muito além do tempo previsto. “Acreditou-se então que o fenómeno das barracas era controlável a prazo, quando na verdade estava para lavar e durar.” (Pereira, 1993: 1).

Alguns anos mais tarde, na década de 40, são criadas outras iniciativas para aqueles que não conseguem aceder às Casas Económicas. Entre eles estão o programa “Casas para Famílias Pobres” em 1945, “Casas de Renda Económica”, “Casas de Renda Limitada” e “Casas para Pescadores” (Pereira, 1993). Apesar do aumento significativo da construção de habitação por parte do Estado, os bairros de barracas continuaram a proliferar e surgiam inclusive novos bairros de lata, nas décadas de 40 e 50 (Teixeira, 1992).

Em 1959, o Ministério da Presidência cria por Decreto um Gabinete Técnico de Habitação na Câmara Municipal de Lisboa, do qual surge um programa específico de habitação social, do qual nascem os bairros dos Olivais Norte, Olivais Sul e Chelas. É com a construção destes bairros que o Estado abandona o ideal de casa unifamiliar em detrimento do programa de Casas Económicas.

Contudo, dois acontecimentos ocorridos durante a década de 60 abrandaram a proliferação das barracas: a forte emigração para a Europa e a construção de bairros clandestinos na periferia de Lisboa. É também nesta década que, no campo de ação dos Planos de Fomento, são reconhecidas as faltas de habitação pública, assim como as limitações do setor privado na construção social de habitação, e é então planeada a construção

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de cerca de 50 mil habitações, sendo para isso criado o Fundo de Fomento da Habitação (FFH), que a partir daí reuniria as competências até então atribuídas ao Ministério das Obras Públicas no que compete à habitação (Pereira, 1993).

A Revolução de 1974

A 25 de abril de 1974, um golpe militar pôs termo a cinco décadas sob ditadura. A esta revolução seguiu-se um período marcado pela instabilidade, durante o qual os trabalhadores da indústria e os moradores de bairros urbanos se mobilizaram e puseram em prática a democracia participativa.

Foi neste período que surgiu o programa SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), com apoio estatal, enquanto resposta às políticas de habitação autoritárias e repressivas do regime político anterior (Vieira e Coutinho, 2014). O SAAL, tema mais desenvolvido noutro ponto do trabalho, pretendia ser uma experiência inovadora, aplicada a pequenas áreas de alojamento precário, onde a discussão entre moradores e técnicos estava na base das decisões (Baptista, 2011). Foi um movimento que apenas durou dois anos, mas que teve repercussões na arquitetura do século XX (Vieira e Coutinho, 2014).

O PIMP e o PER

Após vários programas que visavam erradicar as barracas na cidade de Lisboa, a situação continuava caótica, registando-se um agravamento com o retorno dos habitantes nas ex-colónias portuguesas (também conhecidos por retornados). Em poucos meses, fruto da descolonização imposta pelo fim da ditadura do Estado Novo, cerca de 500 mil pessoas regressam da África

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33 colonial portuguesa. Nesse período, Lisboa representava a cidade portuguesa com o maior número de habitações precárias, que proliferavam de forma descontrolada (Pereira, 1993). No final da década de 80, em 1987, dá-se a primeira grande iniciativa da autarquia relativamente a construção de habitação municipal, com o traçar de um Plano de Intervenção a Médio Prazo (PIMP). O PIMP tinha por objetivo a construção de habitação para realojamento de famílias em habitações degradadas ou de construção precária (barracas), com o intuito de disponibilizar terrenos para a construção de infraestruturas viárias (CML, 2013a). No entanto, este programa revelou ser insuficiente por não oferecer um número suficiente de fogos, pelo que, em 1993, uma nova política de habitação surge com a criação de um novo programa, de grandes aspirações, o Programa Especial de Realojamento (PER). O PER promete, através do realojamento das famílias e da demolição das barracas, pôr fim ao flagelo que há tantas décadas assombrava a capital, daí ser um dos planos mais ambiciosos de sempre. Para além da erradicação das barracas, o PER ambiciona a diminuição da exclusão social por meio do acesso a habitação condigna, sob a forma de habitação social (Cachado, 2011).

Em termos de ambição e objetivo, atribuir uma habitação digna às famílias mal alojadas, o PER é comparável ao programa SAAL, no entanto, estas duas políticas são muito distintas. O SAAL, sempre que possível, construía e requalificava os bairros onde as pessoas moravam, isto é, rejeitava o deslocamento das comunidades por respeito à memória do local, pelo direito à cidade. O PER, perante o mesmo tipo de bairros, optou por realojar as populações em bairros sociais em novas localizações, mesmo que fossem distantes do bairro de origem das comunidades.

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Por outro lado, o SAAL colocou no terreno arquitetos, engenheiros e outros técnicos para que encontrassem soluções em conjunto com os moradores a quem se destinavam as habitações. Era política do SAAL ouvir e respeitar os interesses da população. O intuito do PER era construir para realojar, sob a máxima de alta densidade a baixo custo, com o objetivo único de extinguir as barracas.

As diferenças entre os dois programas são justificáveis com o ambiente político, que no pós-25 de Abril era propício à participação; e com a necessidade de nos anos 90 se libertar terrenos, onde se localizavam as construções informais, necessários para a implementação de outros projetos (Cachado, 2013).

Importa referir que o PIMP, como se pode ver adiante nesta dissertação, entre 1980 e 1984, construiu, no Bairro da Boavista, 230 novos fogos e, entre 1988 e 1996, edificou 541. Foi o programa que deu origem à 3ª e 4ª fases de realojamento no mesmo. Posteriormente, nos anos 90, o PER deu origem à 5ª fase de realojamento no bairro, terminando os realojamentos que haviam ficado por fazer no programa anterior.

Imagem

Fig. 2.  Casa bifamiliar  (Fonte:  http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-2-1f.jpg) Fig
Fig. 3.  Construção do tipo  vila  (Fonte:  http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-3-4f.jpg)
Fig. 9. Bairro Operário dos  Barbadinhos  (Fonte:  http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-9-1f.jpg) Fig
Fig. 11.  Bairro Grandella  (Fonte:  http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DED/NA/arq /ntp/vilas/4/4-8-1f.jpg)
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Referências

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