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Os impasses do sintoma histérico na era do DSM-5

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Academic year: 2021

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Os impasses do sintoma histérico na era do DSM-5

Sandra Chiabi1

Ao considerarmos os enunciados de Freud sobre o sintoma histérico, verificamos o que reafirma Lacan em sua Conferência pronunciada em Genebra sobre o sintoma. Nesta, ele reafirma o postulado freudiano de que os sintomas tem um sentido sexual e um caminho até a sua formação.

Além disso, consideremos com Freud (1926[1925]) que o sintoma é o resultado sempre de um conflito, pois ele representa a busca de uma satisfação para a libido. Sabemos que a libido insatisfeita vai procurar uma saída para se satisfazer e por essa razão diríamos que o sintoma fala, joga com o equivoco da língua e, assim Quinet 2005 nos ensina: “O corpo é também a mesa de jogo entre consciente e o inconsciente, entre o sentido e o não sentido, entre a presença recalcante da razão e o retorno do recalcado.” (idem, ibidem, p.112)

Ao que tudo indica a histérica com seus sintomas denominados no discurso médico de “migratórios”, engana o saber médico, colocando-o num impasse. Entretanto, do médico, a histérica só ouvirá como resposta: “ Você não tem nada”. Entre os médicos, comenta-se que ela tem qualquer coisa, que ela sofre de “ piti”. O que para a psicanálise fica evidente é a desqualificação promovida pelo “diagnóstico de piti”. (Coutinho Jorge, 1983).

Essa visão nos permite pensarmos que, os impasses de diagnóstico no DSM-5 visam aferir o que, para Freud, foi situado como incomensurável: as moções da

1Psicóloga e psicanalista. Doutoranda e Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela Universidade

Veiga de Almeida. Psicanalista, Membro do Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro e da Internacional dos Fóruns, pós-graduada em psicanálise clínica pela PUC-RJ. Endereço eletrônico: [email protected].

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energia pulsional. O DSM-5, parece tomado pela preocupação de constituir uma língua comum entre psiquiatras, médicos, psicólogos, assistentes sócias, enfermeiros etc.

Na investigação do sintoma histérico, constatamos que o DSM (American PsychiatricAssociationDiagnosticandStatisticof mental Disorders) em sua quinta edição DSM-5( 2014) tem como objetivo ser um guia para prática clínica, através de uma nomenclatura oficial, facilitando uma avaliação dos sintomas em diversos contextos clínicos.

Entretanto, não se encontra mais no DSM o termo histeria ou seja o sintoma histérico. De fato, foi no DSM-III R, publicado em 1987, que a categoria neurose foi definitivamente abandonada. Pautados nessa reedição, verificamos que os sintomas histéricos são diagnosticados como “Transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados.” Segundo os formuladores, os sujeitos que recebem o diagnóstico de “Transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados”, acabam buscando múltiplos médicos para os mesmos sintomas. Além disso, observaram que esses mesmos sujeitos parecem não responder a intervenções médicas, revelando que o tratamento médico foi inadequado. ( APA, 2014) . Pesquisadores dessa quinta versão, sublinham que os sintomas clinicamente inexplicados continuam sendo um aspecto chave, como por exemplo o transtorno conversivo, pois os sintomas conversivos não são compatíveis com uma fisiopatologia médica. ( APA, 2014)

Percebemos que há uma grande desordem, no que se refere aos transtornos conversivos, pois o sintoma conversivo é classificado como “Transtornos de Sintomas Neurológicos Funcionais” ou também pode ser diagnosticado em um

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Nesse sentido, a complexidade dessas situações, os impasses e os paradoxos que essas classificações geram, é algo muito diferente do que a psicanálise propõe.

A psicanálise vem desde Freud, propondo uma maneira de fazer diagnóstico que se distingue do discurso médico e que não se confunde com o discurso psiquiátrico e/ ou psicológico. Assim,no diagnóstico freudiano não se trata de agrupar sinais indicadores da doença como o DSM-5, mas sim localizar a posição em que o sujeito se localiza frente à castração. Ou seja, o diagnóstico em psicanálise é da ordem da construção, não se reduzindo as classificações como no DSM-5.

Segundo Pollo, 2003 Freud e Lacan concebem a histeria como estrutura. A noção de estrutura pode ser encontrada na obra freudiana em “A psicoterapia da histeria”, de ( 1893- 1895). Precisamente nessa época, Freud se refere à “arquitetura da histeria” de 1895. Freud concebe a histeria como uma estrutura que comporta três elementos: dois correspondem a arranjos morfológicos que são eles: um arquivo de lembranças e, um núcleo traumático. O terceiro é um arranjo dinâmico, que ele se refere ao fio lógico. Assim surge pela primeira vez a estrutura da histeria.

Já Lacan a partir do diagnóstico como construção, nos propõe“estruturas clínicas”, neurose, psicose e perversão.Em 1960, Lacan explica que seu conceito de estrutura não é a forma, tampouco o modelo teórico, mas sim “a máquina original que põe o sujeito em cena”.Lacan 1970, em “ Radiofonia” menciona que a estrutura tem a ver com “ efeito de cristal da língua”, devido o significante se estilhaçar em significantes. ( Pollo, 2005)

Em 1973, Lacan afirma que “os tipos clínicos decorrem da estrutura”, e isso podemos afirmar com confiabilidade na neurose de histeria. Desse modo, os sintomas histéricos podem ser manifestados como efeitos da ruptura, interrupção ou

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corte em que incide o sujeito do inconsciente, presa da linguagem. Nesse sentido, podemos dizer que é a estrutura que faz aparecer o sujeito.( Pollo, 2005)

Diante dessas questões, a estrutura que nos interessa não é a psicológica, nem orgânica, muito menos o empirismo. Em outras palavras, os ditos do sujeito são tomados como efeitos de estrutura e, a partir deles, vai ser possível construir as leis que regem a lógica significante de cada sujeito, apontando para sua posição subjetiva. ( Perez, 2012).

O que evidencia a partir da noção de estrutura é que o diagnóstico em psicanálise se desloca efetivamente das classificações e, reconhecemos que estamos efetivamente afastados do diagnósticos de “ transtornos” ou seja do DSM-5.

Contudo, restituir a função diagnosticada no tratamento médico ou psiquiátrico a partir da clínica psicanalítica, significa restituir a clínica do caso e corrigir o processo em que se avalia e se diagnostica o DSM. Desse modo, médicos e psiquiatras podem cogitar no tratamento como Lacan fez em relação à psicanálise, retornando a uma nosografia baseada nos sintomas e em suas relações com as estruturas clínicas para aquém do tratamento. ( Quinet, 2001).

Por sua vez, podemos afirmar que, no DSM-5, as classificações se transformam em catálogos que esperam enxugar todas as maneiras possíveis de adoecer, causando um novo modelo que se poderia chamar de clínica da medicação. Este fato nos leva a refletir sobre o discurso capitalista, que financia as pesquisas gerando novas drogas, que necessitam ser consumidas para o financiamento de novas pesquisas, determinando que o médico seja prático e seguro. Desse modo, como fazer um diagnóstico preciso e aplicar perfeitamente a medicação sem escutar o sujeito, se muitas vezes os quadros se confundem e até mesmo se superpõem do ponto

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Desta maneira, percebemos que os interesses capitalistas, as pesquisas cientificas dirigidas pelos laboratórios farmacêuticos, excluíram a psicanálise da corrente central da psiquiatria e da medicina. Cabe aqui lembrarmos que ao excluírem a psicanálise, excluíram também o sintoma histérico. Portanto, na medida em que os pesquisadores fazem desaparecer a neurose, e a histeria em particular do manual, certamente fazem desaparecer o sujeito e, provavelmente se deve ao fato de que o histérico, como diz Lacan, é o sujeito do inconsciente por excelência; ou, como acentuou Freud, em nenhuma outra neurose é tão tênue a tela que separa o eu do inconsciente.

Portanto, o excesso de classificações, gera uma produção infinita de pílulas pela indústria farmacêutica, cuja turbina não cessa, trabalha incessantemente. Somos bombardeados frequentemente por uma medicalização, mas sabemos que o modo de satisfação, as soluções sintomáticas não se encontram nas prateleiras, no excesso de medicação, nas vitrines ou portais de teses.(Brisset-Barros, 2012). A questão é que tantos os médicos, quantos os psiquiatras não deveriam desqualificar o sujeito do inconsciente arriscando todas as fichas nas drogas que garantem a felicidade e anestesiando a dor psíquica de qualquer natureza. Não resta dúvida que o resultado de uma série de revisões de DSMs aboliu a própria subjetividade.

Portanto diante de tantos obstáculos no que concerne o sintoma histérico, para a psicanálise o sintoma histérico não desapareceu, pois os histéricos estão presentes nos consultórios médicos dos ginecologistas, neurologistas, gastroenterologistas, psiquiatras ou melhor, eles estão sempre retornando com inúmeros sintomas histéricos. Assim, para a psicanálise, o sintoma histérico deve ser decifrado, pois esse corpo histérico revela a história do sujeito e para o analista

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afirmar que um sintoma físico é histérico é preciso comprovar sua origem psíquica, eis o que Freud ( 1893-1895) aborda desde seus Estudos sobre a histeria.

Nesse bojo, lembramos que, os sintomas histéricos, cuja clínica permitiu Freud chegar à descoberta do inconsciente, eram tomados pelos médicos do século XIX como fingimento ( Freud, 1956[1886], p.45) Então, Freud destituído de lugar no saber médico, exclusivamente por afirmar que um sintoma histérico não apresenta lesão orgânica, foi com Freud que o sintoma histérico recebeu estatuto de mensagem. Ainda em 1897, no dia 2 de maio, Freud destaca que a neurose de histeria se constitui pela reprodução de cena que o sujeito endereça ao Outro. Ele pesquisou e analisou com detalhes o sintoma simbólico na histeria. Freud, expõe suas ideias em seu texto ” Algumas considerações para um estudo comparativo das paralisias orgânicas e histéricas” Freud (1893[1888-1893]) esclarecendo a distinção entre paralisias orgânicas e histéricas, abordando a paralisia histérica como um sintoma corporal na histeria. O sintoma histérico vai direto no corpo e está dissociado da consciência. O ataque histérico é uma encenação, a representação de uma ou mais fantasias. A questão é que, no corpo histérico, os sintomas se manifestam através de “relações simbólicas” que são decifráveis por meio da fala e revelam um dizer original.

Contudo, a psicanálise permanece ligada às referências construídas por Freud, endossadas e ampliadas por Lacan. É certo que as práticas médicas e analíticas são sustentadas por discursos diferentes, porém os caminhos se cruzam permanentemente É dentro desse entrelaçado que podemos indagar: por que não recorrer aos conceitos psicanalíticos de estrutura da histeria e sintoma histérico? Sabemos que há algo que dificulta o intercâmbio entre as diferentes clínicas. Mesmo assim, propomos uma interseção em relação ao sintoma histérico entre psicanálise, medicina e psiquiatria.

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interseção funciona por uma topologia que se arquiteta a cada caso. É preciso então, sustentarmos que há boas razões para uma interseção. Tanto a psicanálise, quanto a medicina e a psiquiatria repousam sobre uma demanda marcada pelo sofrimento estabelecendo o ponto comum entre práticas médicas e analíticas.( Escola letra freudiana, 2004)

Para finalizarmos, podemos dizer que nem a medicina e nem a psicanálise podem se limitar à doutrina atrelada às suas referentes práticas. O exercício não se resume somente na observação do corpo e das doenças, é preciso ir além. Em1966, ao participar de uma mesa-redonda no Colégio de Medicina de Paris, Lacan não descarta a possibilidade de um diálogo entre a psicanálise e a medicina : “uma vez que as ideias passeiam, é sempre possível que alguém as escute – isto assegura efeitos.”

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Tradução técnica: Aristides

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Referências

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