GUIDO CAVALCANTI (1255-1300) Tradução Augusto de Campos Pelo olhar fere o espírito sutil
que faz na mente o espírito acordar, do qual se move o espírito de amar que faz todo outro espírito servil. Não o descobrirá espírito vil,
tal é o dom deste espírito sem par, espírito que faz tremer o ar
do espírito que faz dama gentil. E deste mesmo espírito se move um outro doce espírito suave, que um espírito segue de mercê. O qual espírito espíritos chove e dos espíritos conhece a chave, por força de um espírito, que vê.
DANTE ALIGHIERI (1265/1321) Tradução Jorge Wanderley
A toda alma gentil presa de amor em cuja direção parte este escrito, peço resposta sobre o que vai dito e saúdo em Amor, seu grão-senhor. Finda a terceira hora antes do alvor
quando os astros mais brilham no infinito, eis me aparece Amor trazendo inscrito em si um ar que eu lembro com horror. Alegre parecia, mas levando
meu coração na mão; no braço eu via a minha dama em trapos ressonando
e ele a acordava, e o coração queimando humilde e com receio ela comia.
PETRARCA (1304/74)
Tradução José Clemente Pozenato A alma minha gentil que agora parte Tão cedo deste mundo à outra vida, Terá certo no céu grata acolhida, Indo habitar sua mais beata parte.
Ficando entre o terceiro lume e Marte, Será a vista do sol escurecida,
Virá depois, muita alma ao céu subida, Vê-la – portento de natural e arte.
E se pousasse entre Mercúrio e Luz, Brilhara mais do que eles nossa bela, Como só se espalhara a fama sua. A Marte certo não chegara ela.
Mas se mais alto o seu vulto flutua, Vencera Jove e qualquer outra estrela.
SÁ DE MIRANDA (1481/1558)
Em tormentos cruéis, tal sofrimento, em tão contínua dor, que nunca aliva, chamar a morte sempre, e que ela, altiva, se ria dos meus rogos, no tormento!
E ver no mal que todo entendimento naturalmente foge, e quanto aviva a dor mais o vagar da alma cativa,
a quem não fará crer que é tudo um vento?
Bem sei uns olhos, que têm toda a culpa, e são os meus, que a toda parte vêm
após o que vêem sempre e os desculpa.
Ó minhas visões altas, meu só bem, quem vos a vós não vê, esse me culpa,
SÁ DE MIRANDA
O sol é grande, caem co’a calma as aves, do tempo em tal sazão, que sói ser fria; esta água que d’alto cai acordar-m’-ia do sono não, mas de cuidados graves. Ó cousas, todas vãs, todas mudaves, qual é tal coração qu’em Vós confia? Passam os tempos vai dia trás dia,
Incertos muito mais que ao vento as naves. Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura, as aves todas cantavam d’amores. Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m’eu fiz doutras cores: e tudo o mais renova, isto é sem cura!
CAMÕES (1524/80)
Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente E viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento etéreo, onde subiste, Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente Que já nos olhos meus tão puro viste. E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te, Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou.
SHAKESPEARE (1564/1616)
Tradução Thereza Christina Rocque da Motta SONETO 105
Não deixes meu amor ser chamado idolatria, Nem minha amada, de meu ídolo,
Pois todos os meus cantos e versos são apenas Para ela, sempre sobre ela, e muito mais ainda. Amável é meu amor, hoje e amanhã,
Sempre constante em maravilhoso espanto; Portanto, meu verso, preso à constância, Ao dizer uma coisa, entrevê outra.
BELA, GENTIL E VERDADEIRA, é tudo o que digo,
BELA, GENTIL E VERDADEIRA, dito com tantas palavras; Nesta alternância, uso minha mente,
Três em um, que suporta a soberba visão.
BELA, GENTIL E VERDADEIRA sempre viveram sozinhos , Pois, juntos, até hoje, jamais existiriam em alguém.
Shakespeare SONETO 130
Os olhos de minha amada não são como o sol; Seus lábios são menos rubros que o coral;
Se a neve é branca, seus seios sãos escuros;
Se os cabelos são de ouro, negros fios cobrem-lhe a cabeça.
Já vi rosas adamascadas, vermelhas e brancas, Mas jamais vi essas cores em meu rosto;
E alguns perfumes me dão mais prazer Do que o hálito da minha amada.
Amo-a quando fala, embora eu bem saiba
Que a música tenha um som bem mais agradável, Confesso nunca ter visto uma deusa passar –
Minha senhora, quando caminha , pisa o chão. Mesmo assim, eu juro, minha amada é tão rara,
LOUISE LABÉ (1522/1566) Tradução Mário Laranjeira
Beija-me mais, beija-me ainda e beija; Dá-me um daqueles teus mais saborosos; Dá-me um daqueles teus mais amorosos, Dou-te outros quatro em brasa que flameja. Ah! tu te queixas? Que este mal te seja
Paz ao te dar dez outros deliciosos. Mesclando nossos beijos mais ditosos Gozemos um do outro, o amor sobeja. E vida em dobro cada um terá;
Em si e no amante cada um viverá. Permite, Amor, pensar esta loucura: Sempre estou mal, em discrição vivendo, E não me posso dar contentamento,