Análise do comportamento de estaca escavada, instrumentada, em solo da região de
Sinop/MT
Analysis of the drill-type bored pile, instrumented, in soil of the Sinop / MT region
Wagner de Almeida Ferreira¹, Julio César Beltrame Benatti²
Resumo: O perfil de solo no município de Sinop, MT apresenta características que limitam a utilização de fundações rasas, como a baixa capacidade de suporte e o lençol freático pouco profundo. Entretanto, ainda é comum a utilização deste tipo de fundação. Assim, é frequente a ocorrência de sapatas de grandes dimensões e recalques diferenciais elevados, ocasionando trincas nas edificações. Recentemente, tem aumentado o uso de fundações profundas na região, o que demanda um conhecimento mais aprofundados acerca dos métodos de cálculo empregados e dos parâmetros de resistência adotados. A execução de provas de cargas estáticas instrumentadas permite aprofundar a compreensão dos mecanismos de transferência de carga em fundações profundas, principalmente quanto à distribuição do atrito lateral, cujo comportamento ainda é pouco conhecido na região. Assim, este trabalho visa obter parâmetros de cálculo para fundações profundas executadas em Sinop, MT, a partir de prova de carga estática realizada em estaca escavada instrumentada.
Palavras-chave: Prova de carga estática; estaca instrumentada; fundações profundas; Sinop, MT.
Abstract: The soil profile in Sinop, MT presents features that limit shallow functionality, such as low support capacity and high compressibility. However, it is still common for this type of foundation. Thus, it is common in the region an occurrence of large shallow foundation with consequences of stress concentrations and high differential stresses, causing pathologies in the buildings. Recently, the use of deep foundations in the region has increased, which requires a more in-depth knowledge about the used calculation methods and the adopted resistance parameters. The execution of depth-instrumented static load tests better allow the load transfer mechanism in deep foundations as well as a lateral friction distribution, also being possible to obtain a load curve vs recalculate and a consequent rupture load. Thus, this research aims at obtaining a calculation parameter for foundations executed in Sinop, MT, from static load tests performed on drill - type bored pile.
Keywords:Static load test; Instrumented bored pile; Deep foundations; Sinop, MT.
1Introdução
No município de Sinop-MT, foram feitas diversas investigações geotécnicas com sondagem a percussão (SPT), como o ensaio citado por Pinto e Crispim (2012), Soares e Weber (2013) e Souza et al (2014). Os autores relatam que o solo tem baixa capacidade de suporte, com tensão admissível da ordem de 50 kN/m² e Nspt nas profundidades superficiais da ordem de 3. A partir destes resultados, verificou-se que se trata de um solo pouco resistente. Mesmo assim, é comum no município a utilização de fundações rasas, pouco recomendada para este tipo de solo, segundo Teixeira e Godoy (1998).
A adoção por fundação profunda é recomendada para solos superficiais pouco resistentes, pois transfere as cargas da estrutura para solos mais resistentes, normalmente encontrados em maiores profundidades. Quando todo o perfil superficial é de baixa resistência, estudos mais aprofundados devem ser feitos, buscando-se conhecer a resposta do solo às solicitações aplicadas. O ensaio da engenharia de fundações que permite conhecer o comportamento do solo quanto à capacidade de suporte é a prova de carga, que, quando executada em estacas instrumentadas, permite a distinção entre a resistência da estaca no seu fuste e na sua ponta.
A execução das provas de cargas estáticas instrumentadas em profundidade é justificada para compreender melhor o mecanismo de transferência de
carga em fundações profundas, bem como a distribuição do atrito lateral, também sendo possível a obtenção da curva carga x recalque e a consequente carga de ruptura (FRANÇA, 2011).
Desta forma, para se ter maior confiabilidade na utilização de fundações profundas no município de Sinop, MT, este trabalho propõe a realização de provas de carga instrumentadas, executadas em estacas tipo Broca, visando à obtenção de parâmetros de cálculo mais confiáveis.
1.1Instrumentação em fundação
A utilização da técnica de instrumentação ao longo do fuste das estacas proporciona, de uma maneira indireta, a obtenção de deformação em cada estágio do carregamento. Logo, é possível analisar com mais detalhes como ocorre o processo de dissipação da carga em profundidade na camada do solo (MELO, 2015).
De acordo com França (2011), a execução de provas de carga estática instrumentada em profundidade é justificada para compreender melhor o mecanismo de transferência de carga em fundações profundas, bem como a distribuição do atrito lateral, sendo ainda possível obter a curva carga x recalque e a consequente carga de ruptura, por ser uma técnica muito confiável.
Extensômetros elétricos de resistência (strain-gages) são elementos sensíveis que relacionam pequenas deformações com variações em sua resistência elétrica e tem por princípio o fato de que a resistência de um condutor aumenta quando submetido à força de tração e diminui quando é de força de compressão. (ALBUQUERQUE, 2001; NOGUEIRA, 2004).
1Graduando, Universidade do Estado de Mato Grosso,
Sinop-MT, Brasil, [email protected]
2 Professor Mestre, Universidade do Estado de Mato Grosso,
De acordo com Albuquerque e Melo (2014), o emprego de extensômetros elétricos de resistência (strain-gages), dentre outras várias técnicas, tem se tornado cada vez mais importante na análise de comportamento de transferência de carga de fundações profundas.
1.1.1 Extensômetros elétricos (strain-gages)
Os extensômetros elétricos transformam pequenas deformações em variações equivalentes de sua resistência elétrica. É utilizado para se medir e registrar o fenômeno da deformação, como uma grandeza elétrica (ALBUQUERQUE E MELO, 2014).
Segundo França (2011), o extensômetros elétrico é baseado na variação da resistência elétrica de um circuito quando submetido a uma deformação. O Físico Charles Wheatstone desenvolveu uma ponte para a medição de pequenas variações de resistência, fenômeno que ocorre nos extensômetros.
Atualmente, utilizam-se extensômetros de fio e lâmina, que possuem grande sensibilidade às deformações, não apresentando sensibilidade às variações de temperatura, umidade e do tempo (ALBUQUERQUE E MELO, 2014).
A sensibilidade à variação de temperatura é um dos mais importantes fatores a serem considerados no uso do strain-gages.
Os efeitos da temperatura podem ser minimizados dependendo dos tipos de montagem: montagem de dois cabos (meia ponte), montagem de três cabos (1/4 de ponte) e ponte completa (ALBUQUERQUE E MELO, 2014; MELO, 2015).
Desta forma, fazendo-se a conexão do extensômetro na Ponte de Wheatstone é possível medir, com grande precisão, pequenas variações em sua resistência elétrica.
Paulino (2011, apud Albuquerque e Melo 2014) apresenta alguns tipos de ligações que podem ser realizadas, conforme se verifica nas Figuras 1 a 5, a seguir.
Figura 1-Ligação 1/4 de ponte – 2 fios. Fonte: (PAULINO, 2011).
Figura 2-Ligação 1/4 de ponte – 3 fios. Fonte: (PAULINO, 2011).
Figura 3-Ligação 1/2 de ponte – ativo / passivo. Fonte: (PAULINO, 2011).
Figura 4-Ligação 1/2 de ponte – ativo / ativo. Fonte: (PAULINO, 2011).
Figura 5-Ligação ponte completa. Fonte: (PAULINO, 2011).
De acordo com Albuquerque e Melo (2014) e Melo (2015), o tipo de ligação depende do tipo de sinal, ou seja, esforços axiais, momento, torção e temperatura. Entretanto, caso haja falha no esquema de ligação, corre-se o risco de se obter uma somatória de sinais, assim podendo não corresponder às deformações reais da peça submetida ao ensaio. Na ponte completa é possível eliminar o efeito da temperatura e das deformações provenientes da flexão, observando apenas o efeito das forças axiais.
1.1.2 Instrumentação em estacas de concreto Albuquerque (1996) instrumentou uma estaca pré-moldada de concreto protendido de seção circular, com diâmetro de 0,18 m, aço do tipo CA-50, com 12,5mm de diâmetro e 0,6m de comprimento, visando compreender o mecanismo de transferência de carga após a execução de duas provas de carga na mesma estaca, dentro de um intervalo de 44 dias. A instalação da instrumentação ocorreu após o término da sua cravação, no interior de bainha metálica executada durante a fabricação da estaca. A união entre a instrumentação e a estaca se deu por meio da injeção de calda de cimento através da bainha. O extensômetros elétricos utilizados foram especiais para o aço (KFG-2-120-D16-11 – Kyowa Electronic Instruments). A instrumentação foi instalada na cabeça da estaca (seção de referência) e a 5m, 10m e 14m de profundidade ao longo do fuste da estaca. O comportamento da instrumentação funcionou perfeitamente, oferecendo maiores garantias quanto aos valores de carga calculados. Quanto à carga na ponta, no primeiro estágio de carregamento houve pouca mobilização. Com a proximidade da saturação do atrito lateral, a reação na ponta foi aumentando a
cada estágio, em torno de 3% da carga aplicada, chegando a 16,1% do total, para carga máxima aplicada. Para a segunda prova de carga, no primeiro estágio a ponta absorveu 15% da carga aplicada, diminuindo até o estágio de 160kN, e retornando o aumento até a carga de ruptura.
MELO (2015), analisou o comportamento de estacas pré-moldada e mista, instrumentadas, em solo sedimentar da região do Recife/PE. A instrumentação da estaca mista revelou o bom desempenho da ligação dos sensores em ponte completa, tanto no segmento metálico, quanto no segmento de concreto. A estaca pré-moldada trabalhou tanto por atrito lateral, quanto por resistência de ponta.
Garcia et al (2006), analisaram a capacidade de carga de estaca raiz instrumentada em solo de diabásio, concluindo que foram necessários pequenos deslocamentos, da ordem de 2% do diâmetro da estaca, para a plena mobilização do seu atrito lateral. O método de Lizzi (1982) se mostrou o mais indicado para previsão da carga última de estaca raiz.
Nogueira (2004), analisou o comportamento de estacas tipo raiz, instrumentadas, submetidas à compressão axial, em solo de diabásio. O método de Lizzi (1982) se mostrou o mais indicado para previsão da carga última de estaca raiz.
Outros autores, como Langone (2012) e Soares (2006), também realizaram provas de cargas em estacas instrumentadas.
2 Metodologia 2.1 Localização
O ensaio foi realizado no campus da Universidade do Estado de Mato Grosso de Sinop, MT, localizado nas coordenadas 11°51’03.7”S / 55°30’56.2” O. O local no interior do campus está indicado na Figura 6.
Figura 6 – Localização da área do ensaio. Fonte: Google Earth, 2017.
2.2 Montagem do ensaio de prova de carga em estaca instrumentada
Para a realização do ensaio de prova de carga foram utilizados os seguintes componentes: (a) macaco hidráulico com capacidade de 300kN, munido de manômetro, (b) viga metálica com 5,0m e aproximadamente 200kg em perfil I, (c) betoneira, concreto e aço (para estacas e bloco de reação), (d) extensômetros com precisão de 10-5m, (e) trado,
cavadeira, picareta, retroescavadeira para os serviços
de escavação, mão-de-obra para concretagem, solda e montagem dos equipamentos.
O sistema foi dotado pelas estacas de reação, por tirantes de aço CA-50 e por viga metálica. A viga de reação foi posicionada e centralizada no poço e suas extremidades foram soldadas sobre os blocos. Os carregamentos foram feitos até ser alcançada a carga esperada, sendo a mesma conservada durante o ensaio. O macaco hidráulico foi calibrado e revisado em uma empresa especializada. A Figura 7 apresenta a configuração da prova de carga.
Figura 7 – Configuração da prova de carga. Fonte: Arquivo pessoal.
Foi executada 1 estaca de concreto 25MPa, com profundidade de 1,10m e diâmetro de 0,30m. Junto à estaca foi colocado um tubo de 50mm de diâmetro e 1,50m de comprimento para instalação das barras instrumentadas (tubo guia) como apresentado na Figura 7. A estaca foi instrumentada em três níveis, sendo o nível 1 referência (0,0m), nível 2 a 0,55m e nível 3 a 1,1m de profundidade.
A estaca recebeu um bloco de coroamento para o apoio do macaco hidráulico e colocação dos relógios comparadores.
Os dados geotécnicos utilizados foram retirados do laudo de sondagem a percussão do Edifício “Ilhas Gregas” no município de Sinop/MT, fornecido pela empresa Expand Construtora, como apresentado na Figura 8.
Figura 8 - Resumo das sondagens SPT. Fonte: Soares e Weber, 2013.
2.2.1 Instrumentação da estaca
A estaca estudada foi instrumentada utilizando-se extensômetros elétricos de resistência (strain-gages). Para a análise das deformações, foi utilizada ligação do tipo ponte de Wheatstone completa.
2.2.2 Preparação dos Instrumentos
As Figuras 8 a 10 mostram os procedimentos de colagem dos extensômetros nas barras de aço CA-50, com diâmetro 12,50mm e 0,40m de comprimento, previamente torneadas, lixadas, condicionadas e neutralizadas.
Figura 9 – Detalhes do preparo da superfície. Fonte: O autor, 2017.
Figura 10 – Detalhes do preparo da superfície por via úmida. Fonte: O autor, 2017.
Figura 11 – Aplicação do condicionador e neutralizador. Fonte: O autor, 2017.
Cada uma das barras teve soldada na sua parte superior uma rosca macho, para posterior instalação na estaca. A Figura 11 apresenta a colagem dos extensômetros, feita com adesivo à base de cianoacrilato, especial para esse tipo de equipamento. Após a colagem, foi feita a ponte completa, utilizando-se cabo elétrico, e posteriormente feita a proteção do conjunto utilizando-se resina de silicone RK, própria para essa instalação, como apresentado na Figura 12.
Figura 12 – Colagem dos strain-gages e proteção. Fonte: O autor, 2017.
Figura 13 – Ligação dos cabos aos strain-gages e proteção. Fonte: O autor, 2017.
2.2.3 Sistema de aquisição de dados da instrumentação
O circuito é composto por um amplificador de diferença, onde são eliminados ruídos de módulo comum e atribuindo um ganho de 100 vezes. O circuito contém também 3 amplificadores individuais, alimentados com voltagem de 5V (VCC). As conexões correspondentes são mostradas nas Figuras 13 e Figura 14. Foram utilizados também trimpots, para balanceamento da ponte, que corrigem possíveis diferença devido as resistências dos fios envolvidos, que foram ajustados no início da medição, quando a estaca não estava submetida a carregamento, fazendo-se a saída V0 ser 0V.
Figura 14 – Equipamento utilizado na aquisição de dados da instrumentação. Fonte: O autor, 2017.
Figura 15 – Equipamentos utilizados na aquisição de dados da instrumentação. Fonte: O autor, 2017.
2.3 Ensaio de prova de carga
Realizou-se uma prova de carga do tipo estática e lenta (SML), segundo prescrições da ABNT NBR 12131/2006, ou seja, os carregamentos foram realizados em estágios iguais e sucessivos, não superiores a 20% da carga de trabalho prevista para a estaca ensaiada. Em cada estágio, a carga foi mantida até a estabilização dos recalques ou por no mínimo 30 minutos.
Com a utilização de barras instrumentadas com strain-gages no interior da estaca, pôde-se verificar a transferência de carga devido aos carregamentos no topo até a ponta em diferentes profundidades. A partir das leituras efetuadas pela instrumentação permitiu-se a construção de gráficos de resistência de ponta e lateral. A Figura 15 apresenta o sistema de reação para a prova de carga em estaca.
Figura 16 – Sistema de reação para a prova de carga estática instrumentada na estaca. Fonte: O autor, 2017.
Os valores de resistência por atrito lateral e de ponta, unitárias, obtidas, foram comparados com aqueles estimados pelos métodos de Teixeira (1996), Aoki e Veloso (1975) e Decourt e Quaresma (1978).
3 Análise e discussão dos resultados
A Figura 16 apresenta a curva carga-recalque obtida no ensaio de prova de carga, bem como a reta de ruptura teórica da estaca, posto que esta não ficou nítida no ensaio. A equação abaixo demostra a carga de recalque pR. Adota-se um valor P𝑅 e calcula-se o
correspondente recalque pR. pR =P𝑅.L 𝐴.𝐸 + 𝐷 30 onde:
pR =recalque de ruptura convencional (mm) P𝑅= carga de ruptura convencional (kN)
𝐿 = comprimento da estaca (m)
𝐴 = área da seção transversal da estaca (m²); 𝐸 = módulo de elasticidade do material da estaca; 𝐷 = diâmetro da estaca ensaiada (ou diâmetro do círculo circunscrito à estaca não circular), em mm.
Figura 17 - Curva carga-recalque Fonte: O autor, 2017.
Conforme se observa na Figura 16, obteve-se uma carga de ruptura da ordem de 45kN e recalque máximo de 52mm. 0 10 20 30 40 50 60 0 10 20 30 40 50
rec
alque
(mm)
carga (kN)
A Tabela 1 traz os valores da variação de carga transferida em cada um dos dois segmentos da estaca, e a Figura 17 apresenta as curvas de variação de carga na estaca, para cada carregamento.
Tabela 1. Valores da carga transferida para cada nível e estágio de carregamento.
Carga no Estági o (kN)
Variação de Carga Transferida (kN) Qp (kN) Qp/ Ql Nível 1 - Nível 2 (0,55m) Nível 2 - Nível 3 (0,55m) Ql na Ruptura - 1,10m 0 0 0 0 0 0 6 2,28 1,34 3,62 2,38 0,65 12 5,62 1,68 7,30 4,70 0,64 18 9,40 2,55 11,95 6,05 0,50 25 16,69 0,84 17,53 7,47 0,42 30 19,47 2,53 22,00 8,00 0,36 36 23,49 4,46 27,95 8,05 0,29 45 32,75 4,17 36,92 8,08 0,22 Fonte: O autor, 2017.
Observa-se, a partir da análise da Figura 17 e da Tabela 1, que para os carregamentos iniciais (6kN, 12kN e 18kN), há uma proporcionalidade entre as resistências por atrito lateral nos segmentos da estaca, que se perde para os maiores carregamentos, a partir de quando a maior parte da resistência da estaca é transferida pelo trecho mais superficial. Verifica-se também um aumento da carga de ponta da estaca com o aumento do carregamento, que chega ao seu valor máximo, aproximadamente 8kN, já no carregamento de 30kN, indicando ser este o valor de ruptura para a ponta.
Figura 18 - Transferência de carga ao longo da profundidade da estaca.
Fonte: O autor, 2017.
Os dados mostram também um ganho importante de resistência de ponta já para os primeiros carregamentos, onde se verifica que a resistência de ponta representa a maior parte da resistência da estaca. A partir do carregamento de 18kN, essa tendência se inverte, sendo que a resistência por atrito lateral supera a resistência de ponta da estaca. A Figura 18 apresenta a distribuição da resistência por atrito lateral unitária ao longo do comprimento da estaca e a Figura 19 apresenta os valores de resistência de ponta.
Figura 19 - Gráficos de atrito lateral Fonte: O autor, 2017.
Verifica-se através da análise da Figura 18, que ao longo dos sucessivos carregamentos, o valor do atrito ao longo do comprimento da estaca foi crescente até o carregamento máximo. Verifica-se, entretanto, que a resistência por atrito lateral unitária no trecho inicial mostrou-se muito superior aos valores do trecho final, mesmo na ruptura onde, teoricamente, os valores deveriam ser próximos.
Esse comportamento pode ser explicado pelo pequeno comprimento da estaca teste (1,10m) associado à presença de um bloco de coroamento. É provável que, a partir do carregamento de 18kN, aproximadamente, parte da carga aplicada tenha sido transferida de forma direta pelo contato do bloco de coroamento com o solo. Assim, os valores de resistência por atrito lateral unitária para o trecho inicial devem ser descartados. Por se tratar de um horizonte de solo homogêneo, conforme verificado por autores como Pinto (2012), Soares (2013) e Souza (2014), é possível considerar que a resistência por atrito lateral máximo da estaca é o valor máximo verificado para o segundo trecho, isto é, 8,6kPa, aproximadamente, correspondente à resistência de ponta de 8,9kN e o valor máximo de resistência de ponta unitária, 115kPa, aproximadamente, correspondente à resistência de ponta de 8,08kN, como mostrado na Figura 19. Desta forma, se poderia obter a carga de ruptura da estaca, chegando-se a um valor de 16,98kN. -1,2 -1 -0,8 -0,6 -0,4 -0,2 0 0 10 20 30 40 50 PROFU N DIDADE (m ) CARGA (kN) 6 12 18 25 30 36 45
Figura 20 – Gráficos resistência de ponta Fonte: O autor, 2017.
A Tabela 2 apresenta valores de resistência por atrito lateral e de ponta, unitárias, obtidas por métodos semiempíricos consagrados no meio técnico.
Tabela 2. Valores de resistência unitários e de carga de ruptura teóricos. Método Ensai o Resistênc ia Lateral na Ruptura (kPa) Resistênc ia de Ponta na Ruptura (kPa) Carga Total na Ruptur a (kN) Teixeira (1996) SPT 12,00 12,00 13,3 Aoki & Veloso (1975) SPT 4,40 220 20,1 Décourt & Quaresma (1978) SPT 16,00 510 52,6 Fonte: O autor, 2017.
Verifica-se que os valores obtidos no ensaio para a resistência unitária por atrito lateral (8,6kPa) é subestimado pelo método de Aoki e Veloso (1975) e superestimado pelos outros dois métodos. Em relação à resistência de ponta, verifica-se que apenas o método de Teixeira não superestima os valores encontrados.
Se for considerada a carga de ruptura da estaca, o método que mais se aproxima é o método de Aoki e Veloso (1975). O valor obtido a partir do ensaio foi de 16,98kN, 27% maior que o estimado a partir do método de Teixeira (1996), 18% menor que o estimado a partir do método de Aoki e Veloso (1975), e 209% menor que o estimado a partir do método de Décourt e Quaresma (1978).
A carga admissível da estaca será o menor entre os dois valores obtidos a partir das equações em que se admite o coeficiente global igual a 2,0 (FS), conforme orientação da NBR 6122 (ABNT, 2010) e, a segunda, uso dos coeficientes parciais para resistência de ponta igual a 4,0 e para o atrito lateral igual 1,3, conforme Decóurt e Quaresma, obtido o valor de 34,5kN e 26,3 kN respectivamente, sendo adotado 26,3kN. A carga admissível conforme Aoki e Velloso (1975) admite o coeficiente global igual a 2,0 (FS), obtido o valor de 10,1kN. A carga admissível conforme Teixeira (1996)
admite o coeficiente global igual a 4,0 (FS), obtido o valor de 3,3kN.
O método de Aoki e Veloso (1975) se mostrou o mais indicado para previsão da carga última de estaca, levando em consideração a carga admissível a partir da execução de prova de carga de 10,61kN, recomendado pela NBR 6122 (2010) para este tipo de ensaio o fator de segurança igual a 1,6 (FS) e do método de Aoki e Veloso (1975) de 10,1kN.
Porém, estas conclusões foram obtidas com base em apenas uma prova de carga estática executada, assim como uma estaca de 1,1m de comprimento, onde o ideal seria analisar os resultados de mais ensaios (determinados pela NBR 6122/2010) distribuídos em regiões diferentes do terreno e estaca com comprimento superior a 3,0m a fim de validar os resultados obtidos
4 Considerações finais
A carga de ruptura da estaca foi da ordem de 45kN, e recalque máximo de 52mm. A carga de ruptura adotada, sem considerar o efeito do bloco de coroamento, foi de 16,7kN. A ponta da estaca chega ao seu valor máximo, aproximadamente 8kN, já no carregamento de 30kN, indicando ser este o valor de ruptura para a ponta. Nos carregamentos iniciais se verifica que a resistência de ponta representa a maior parte da resistência da estaca.
A análise do funcionamento da instrumentação da estaca revelou o bom desempenho da ligação dos sensores em ponte completa.
A transferência de carga em profundidade obtidas a partir da instrumentação foram proporcionais aos métodos teóricos.
A baixa resistência lateral observada na estaca como um conjunto se deve ao fato da estaca estar em solo homogêneo, conforme verificado por autores como Pinto (2012), Soares (2013) e Souza (2014) (1 golpe < Nspt < 3 golpes).
Em relação a análise dos trechos, houve elevada resistência por atrito lateral unitário no trecho inicial em relação aos valores do trecho final, mesmo na ruptura, onde teoricamente, os valores deveriam ser próximos fato que evidencia interferência pelo pequeno comprimento da estaca teste (1,1m) associado à presença de um bloco de coroamento.
De maneira geral, a partir da realização de provas de carga estáticas, instrumentada, é possível obter valores de resistência que se diferencia dos métodos tradicionais, assim como, a efetiva capacidade de carga para o tipo de solo encontrado na região, tendo-se a possibilidade do emprego cada vez mais constante em fundações profundas em Sinop.
Como sugestão para trabalhos futuros, este trabalho abre caminho para que sejam feitos estudos visando: a) verificar o comportamento dos diversos métodos teóricos e semiempíricos a partir de parâmetros geotécnicos, obtidos em ensaios laboratoriais, e de ensaios de campo, como CPT, DMT e SPT, b) mais pesquisas sobre o efeito da ponta e resistência por atrito lateral através de provas de carga estática, com instrumentação na região com profundidades superiores a 3,0m e com estacas mistas, d) realizar maiores quantidades de provas de carga estática em
estacas instrumentadas na região de Sinop/MT, aumentando o banco de dados, de tal maneira que seria possível aumentar a confiabilidade e diminuir a probabilidade de ruína em obra de fundações e e) com base nos itens deste trabalho assim como dos itens anteriores, construir um método específico para a determinação da capacidade de carga de estacas para ser utilizada na região de Sinop/MT.
Agradecimentos
Agradeço primeiramente a Deus a vida a mim concedida, pelas inúmeras benções, assim como a proteção, sabedoria e determinação que tem me proporcionado.
Aos meus familiares, principalmente minha mãe Sra. Regina Maria de Almeida Lopes e meu padrasto Sr. Aguinaldo Barros Lopes por todo apoio, incentivo e confiança fora e dentro da faculdade. Aos meus irmãos Alex de Almeida Ferreira, Agliane Silva Lopes, Deisy Silva Lopes, Kassio Erghlys Silva Lopes, Renato de Almeida Ferreira, Rodrigo de Almeida Ferreira. Aos meus amigos, incluindo-se aquelas famílias que conquistei ao longo da vida, que estiveram ao meu lado durante toda a formação acadêmica, obrigado pelo carinho, confiança e apoio nas infindáveis noites. Em especial ao Everardo Costa, Miguel Gomes de Oliveira e Fernando Rodrigues Pillon pelo incentivo e companheirismo ao longo desses anos da graduação. A todos que de alguma forma colaboraram para realização do ensaio, Raimundo e Mencato Tratores. E, por fim, gostaria de agradecer aqueles que acredito serem responsáveis por semear a centelha da boa formação acadêmica, todos os professores que participaram da minha trajetória, em especial ao orientador e amigo Mestre Julio César Beltrame Benatti pela determinação em passar conhecimento acima de tudo, ao professor Doutor Flávio Alessandro Crispim pela contribuição na jornada acadêmica e ao aluno de Engenharia Elétrica Elton Fernandes dos Santos pela disponibilidade e apoio exercido na aquisição de dados. E enfim, a Universidade do Estado de Mato Grosso pela oportunidade acadêmica.
Referências
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