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Balangandãs: ressignificações na contemporaneidade
Sura Souza Carmo1 Resumo: O presente tem por finalidade apresentar um estudo sobre os balangandãs – jóias de
crioulas dos séculos XVIII e XIX – e suas ressignificações e novos usos na atualidade a partir da comparação das peças precursoras que fazem parte da coleção do Museu Carlos Costa Pinto e as comercializadas atualmente em Salvador. O tema insere-se no campo de teoria museológica, especificadamente em teoria dos objetos e coleções, que oferece conceitos relacionados a definição de objetos, a partir dos principais teóricos da área, relacionando-os com o conceito de museologia e musealização.
Palavras-chave: balangandãs. Salvador. Musealização.
Abstract: This aims to present a study on the balangandãs-jewels of Creole in the 18th and
19th centuries – and their re-elaborations and new uses in actuality from the comparison of precursor parts that are part of the Carlos Costa Pinto's museum collection and the currently marketed in Salvador. The theme is inserted into the field of museological theory, specifically in the theory of objects and collections, which offers concepts related to definition of objects, from the area's main theorists, linking them with the concept of museology and Museum.
Keywords: balangandãs. Salvador. Musealization.
1. Os balangandãs
Os balangandãs referem-se a um tipo de adorno da joalheria afro-brasileira. Eram amuletos usados principalmente na Salvador do século XVIII e XIX por negras - libertas ou não - geralmente na cintura e que emitiam um som semelhante a um chocalho, os quais ganhavam notoriedade por se diferenciarem em tamanho, forma e no não ocultamento como ocorria com os demais amuletos usados por negras na época. Numa sociedade em que ritos católicos e africanos misturavam-se, o amuleto era o resultado do paralelismo religioso, pois as crioulas pediam proteção, através dos balangandãs, para as divindades de ambas as religiões.
Simone Trindade, museóloga e pesquisadora dos balangandãs, nos oferecem em sua dissertação de mestrado entitulada: referencialidade e representação: um resgate do modo de produção de sentido nas pencas de balangandãs a partir da coleção do Museu Carlos Costa
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Graduada em Museologia pela Universidade Federal do Recôncavo Bahiano (UFRB). Professora Auxiliar do Núcleo de Museologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
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Pinto, a etmologia do termo a partir de diversos viajantes e pesquisadores que denominaram o amuleto ao longo dos séculos. Dentre os citados encontra-se a seguinte definição:
Balangandã – 1. ornamento de metal em forma de fíga, fruto, animal, etc., preso a outros, forma uma penca usada pelas baianas em dias de festa; serve também como objeto decorativo, lembrança ou, se miniaturizada, jóia ou bijuteria; berenguendém. No passado era usado especialmente na festa do Senhor do Bonfim, em Salvador, pendente do pescoço ou da cintura das afro-brasileiras, e constituía amuleto contra o mau-olhado ou outras forças adversas.
2. Derivação: por extensão do sentido, penduricalho de qualquer formato. (Houaiss apud TRINDADE, 2005, p.132)
Segundo Raul Lody, museólogo, antropólogo e pesquisador das jóias de axé, hoje, tais objetos, símbolos de baianidade, além de serem amuletos e adornos corporais, se apresentam com outras características funcionais e estruturais (LODY, 2005, p.278-279). Todavia, as mudanças funcionais e estruturais em um objeto não ocorrem aleatoriamente, pois se o objeto é um prolongamento do homem ou reflexo da sociedade em que vive, por coerência ele não permanecerá inerte com o passar do tempo.
Os balangandãs são um exemplo da transitoriedade funcional e estrutural deste objeto, pois, nascido em ateliês de ourives, passou de objeto confeccionado de maneira artesanal à produção em série, com a tecnologia dos dias atuais. No que se referem aos aspectos funcionais, os balangandãs, na sua origem, conforme Simone Trindade, “funcionavam como amuletos de proteção e propiciatórios, além de moeda de troca para alguma necessidade que surgisse inesperadamente” (TRINDADE, 2005, p.98), uma vez que os pingentes poderiam ser vendidos separadamente. No que dizem respeito aos aspectos estruturais, os primeiros balangandãs eram usados na cintura, conforme já foi mencionado, e não possuíam um tamanho padronizado quanto a nave e os pingentes, além de serem produzidos em sua maioria em prata e com um trabalho apurado de ourivesaria.
Já os atuais balangandãs, referindo-se aos aspectos funcionais, perderam sua importância primordial de amuleto, sobressaindo como um tipo de adorno usado nas diversas partes do corpo (pulseiras, tornozeleiras, broches, colares) e torna-se também souvenir de uma determinada cultura, no caso, principal lembrança de quem visita a Bahia. Ao ser vendido como souvenir, os balangandãs de proporções maiores que os pioneiros, estão sendo utilizados largamente na decoração de ambientes sendo vendidos também em casas especializadas e expostos em revistas do segmento de decoração de imóveis.
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Conforme a descrição de Simone Trindade, os balangandãs são compostos das seguintes partes: corrente, responsável por prender o objeto junto ao corpo; nave, responsável por carregar os elementos pendentes; ‘borboleta’, fecho na nave para que se possa abrir e fechar a parte onde são colocados os elementos; elementos pendentes, objetos dos mais variados tamanhos, tipologias e origens a gosto da devoção e vaidade da usuária.
1.2 O estudo dos balangandãs dentro do campo de teoria dos objetos
Para a compreensão do estudo sobre os balangandãs e seus novos usos na atualidade é necessária uma discussão teórica a respeito dos objetos. Primeiramente é necessário observar a relação entre os objetos e a museologia. Segundo Marília Xavier Cury, a museologia “é entendida como uma disciplina aplicada e sua cientificidade está sendo construída” (CURY,2005,p.29).
Por sua vez, Cury citando Waldisa Russio Camargo Guarnieri, demonstra que fato museal “é a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da realidade a qual o Homem pertence e sobre a qual tem o poder de agir num cenário institucionalizado, ou no museu” (Guarnieri apud Cury, 2005, p.30). Dessa maneira, os objetos são portadores de significados valorizados a partir do olhar crítico do homem para este compreender as suas relações sociais.
Nos dias atuais nos acostumamos a estarmos cercados por uma grande variedade de objetos, contendo estes além do significado próprio a sua função e uso, outros mais que lhes são atribuídos de acordo a sociedade que se encontra ou espaço-tempo que está inserido. Dessa forma, para Flávio Leonel Abreu da Silveira, “um objeto ou coisa sempre remete a alguém ou algum lugar, permanecendo como um elemento de uma paisagem ou mesmo de uma paisagem corporal” (SILVEIRA, 2005, p.39). O objeto torna-se assim portador de signos, ou seja, de mensagens de um individuo e de uma sociedade. Os objetos são documentos para estudo do homem e suas relações com o meio e com os demais indivíduos. E, ainda, Silveira nos diz que “o objeto fala sempre de um lugar (...) porque está ligado à experiência dos sujeitos com e no mundo, posto que ele representa uma porção da paisagem vivida” (SILVEIRA, 2005, p.40). Dessa maneira, o estudo dos objetos leva-nos a compreensão das relações sociais.
Segundo Abraham Moles, um dos principais teóricos a respeito da teoria dos objetos, objeto significa “atirar contra, coisa existente fora de nós mesmos, coisa colocada adiante, com um caráter material: tudo o que se oferece à vista e afeta os sentidos” (MOLES, 1984,
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p.25). Portanto, é algo além do corpo humano, como uma espécie de prolongamento, que se torna resultado das necessidades humanas. Ainda de acordo com o autor os objetos são distinguíveis entre objetos de consumo, aqueles que são produzidos para consumo imediato como um pacote de biscoito ou pães empacotados em saco de papel, e objetos não consumíveis, aqueles que são produzidos para ter um tempo de vida maior, e neste encontram-se os balangandãs. Contudo, Moles nos aponta ainda que mesmo os objetos duráveis não o são por um longo período de tempo, pois além do desgaste do uso podem ter sua vida útil ceifada por algum acidente. Além destes aspectos que acabam a vida do objeto, existe ainda o desuso, ligado ao gosto pessoal do indivíduo ou perca de funcionalidade ou substituição (MOLES, 1984, p.108).
Conforme Moles, no que diz respeito a caracterização do objeto, este apresenta duas complexidades: a funcional, ligada a necessidade dos indivíduos, e a estrutural, ligada as peças que compõem e formam o objeto. Estas complexidades, reforça o autor, são os formadores da mensagem transmitida pelo objeto, sendo que cada empresa fabricante de objetos (aqui entende-se por empresa também artesãos e outros produtores) possuam complexidade funcional e estrutural próprias (MOLES,1984, p.28-29). Contudo, na atualidade, os objetos sofrem várias mudanças num curto espaço de tempo e recebem uma carga funcional, ou de significações, muito maior que os objetos antigos.
Aos objetos antigos, salvaguardados nos museus, muitas vezes e erroneamente, não cabe julgamento, pois, por está dentro de um ambiente de salvaguarda, este já lhe confirmam autenticidade. Segundo Jean Baudrillard, “o objeto antigo não tem exigência de leitura, é ‘lenda’ uma vez que é antes seu coeficiente mítico e de autenticidade que o designa. Épocas, estilos, (...) nada disso muda a especificidade vivida: ele não é nem verdadeiro, nem falso, é perfeito (...)” (BAUDRILLARD, 2008, p.88). Aos objetos atuais, os produzidos em massa, que na sua grande maioria ainda não penetraram o ambiente dos museus ou das grandes galerias de arte, cabe o plano secundário ou a desconfiança quanto há algumas características intrínsecas ou extrínsecas, que de acordo com Baudrillard “de todas as servidões que afetam o objeto de série, a mais evidente é aquela que concerne à sua durabilidade e à sua qualidade técnica” (BAUDRILLARD, 2008, p.153). E sobre tais objetos fica a dúvida relacionada quanto a sua qualidade técnica e como testemunho, pois apenas o objeto antigo é relacionado a perfeição, ou simplesmente, apenas o objeto antigo e raro é, por conseqüência, considerado documento. Além da questão serial, para o autor, o déficit técnico, o déficit de estilo e a
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diferença de classe são os principais obstáculos impostos aos objetos atuais em comparação aos objetos antigos (BAUDRILLARD, 2008, p.153-158).
Tais obstáculos são impostos aos estudos dos balangandãs atuais, pois objetos produzidos em série e vendidos, em muitos casos, apenas como souvenir, perdem as características que detinham os anteriores. O grande marco para a diferenciação dos objetos quanto à técnica empregada e, conseqüentemente, modo de produção é a Revolução Industrial e sua produção em série. Em muitos casos, a desvalorização e valorização de determinados artigos deve-se a mudança da produção artesanal para a produção em série e vice-versa. Contudo, a atual desvalorização de determinados objetos não ocorreu quando a produção em série era uma novidade, mas na medida em que ter produtos iguais já não era mais fetiche para quem dita os modismos do consumismo. No início da industrialização, segundo Cesare De Seta, no período vitoriano, o objeto é conduzido “a uma difusão de massa que lhe garanta a qualidade” (DE SETA, 1984, p.100), esta qualidade era autentificada pela burguesia que consumia avidamente estes produtos. Quando passa a febre de possuir bens de produção industrial e o status social volta-se ao possuidor do objeto único, produzido de maneira artesanal, os objetos fabricados em série perdem seu espaço de bens de consumo de fetiche. Dessa forma, houve a fetichização dos objetos antigos fortalecida pela valorização da produção artesanal.
Atualmente, e com a mesma força do consumo de bens produzidos artesanalmente, encontra-se no mercado uma grande procura por objetos étnicos. Num mundo globalizado, cujas fronteiras tornam-se invisíveis por conta dos meios de comunicação e encurtamento das distâncias causando a homogeneização dos povos, é necessária a exaltação de determinados objetos para garantir identidade a determinados grupos e assim poder distinguir-se ou distinguí-los. Tais objetos são consumidos principalmente por turistas, que ávidos por ter uma recordação do lugar que visitou, levam um objeto que caracteriza aquele local. Conforme Raul Lody, “a reprodução, a cópia, a dinamização de certos objetos seguidores de uma estética tradicional vêm abastecendo lojas, mercados, lojas de aeroportos que atendem àquele interesse turístico, do adorno, do souvenir” (LODY, 2005, p.278). Dessa forma, objetos produzidos artesanalmente ou não, cópias de determinados objetos que caracterizam a cultura de um lugar passam a ser produzidos e comercializados em larga escala, criando um novo tipo de objeto fetiche, a arte étnica.
Dentre os objetos que fazem parte deste universo da arte étnica consumida por turistas estão os atuais balangandãs, produzidos em diversos materiais, nobres ou não, usados de
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diversas maneiras, inclusive como as originais, como jóias. A jóia - objeto trabalhado -, como portadora de valores, como apresenta Eliane Gola “tanto pode representar o insigne, o poder, o conhecimento esotérico, quanto ser sinal de riqueza material” (GOLA, 2008, p.16), sendo um objeto presente desde a pré-história na vida do homem. A autora ainda diz que a jóia como amuleto “costuma ser um objeto de pequenas dimensões, quase sempre carregado junto ao corpo, servindo aos homens como projeção de um mundo mágico (...) e visando à ventura, à fortuna e à felicidade” (GOLA, 2008, p.17). Dessa maneira, estudar a jóia, especificamente os balangandãs, como importante objeto produzido pelo homem, leva-nos a busca de conceituações, resignificações e novos usos que recebeu ao longo dos anos, como qualquer outro objeto.
2. Os diversos tipos de balangandãs
Os balangandãs como a própria definição apresentada acima demonstra é a denominação de um determinado tipo de jóia de crioula, mas, também, pode designar qualquer tipo de adorno corporal que leve objetos pendentes, sem que estes sejam confeccionados em materiais preciosos ou repletos de características intrínsecas dos seus usuários. Para não haver o distanciamento da proposta inicial, serão apresentados os balangandãs da coleção do museu Carlos Costa Pinto, e os comercializados atualmente no Mercado Modelo e na Gerson’s Joalheiros.
2.1 Os balangandãs da coleção do Museu Carlos Costa Pinto
O Museu teve sua origem na característica de colecionador de um homem que dedicou a sua vida a reunir objetos das mais variadas origens, mas que acima de tudo representasse a sua terra, ou seja, a Bahia (CATÁLOGO, 1992). Carlos Costa Pinto importou-se em possuir objetos de valor artístico, e evitar, dessa maneira, que as peças fossem vendidas para outros estados por conta da decadência da elite baiana.Os balangandãs representam este desejo de Carlos Costa Pinto. Objeto de caráter único, o colecionador evitou que todos ficassem escondidos em coleções particulares ou fossem para o exterior.
Peças de apurado trabalho de ourivesaria, vinte e sete em prata e uma em ouro, cada uma possuí características únicas que ainda estão para ser desvendadas. Dentre as suas principais características estão a grande quantidade de decoração das naves, o número e variedade de elementos, além de todo o simbolismo da sociedade escravocrata que traz consigo.
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2.2 Os balangandãs do Mercado Modelo
De acordo com os vendedores de artesanato do Mercado Modelo, os balangandãs constituem o souvenir mais autêntico da Bahia, os quais são encontrados, dos mais variados tipos e materiais, em quase todas as lojinhas. Embora caros, são bastante procurados. Os balangandãs ocupam lugar de destaque nos folhetos de divulgação, os quais também explicam a significação de cada pingente. Vale salientar que, o Mercado Modelo não é o único lugar de comércio dos novos balangandãs. Além de ser vendido no mercado de artesanato, é possível comprar tal objeto nas ladeiras do Pelourinho.
2.3 Gerson’s Joalheiros
E para quem pode desembolsar uma quantia maior na compra do adorno, é possível encontrar balangandãs confeccionados em prata de lei na Gerson’s Joalheria do Carmo ou do Aeroporto Internacional de Salvador. Na loja pode-se encontrar desde balangandãs que segue o estilo dos pioneiros – só que em tamanho um pouco maior ou menor – até adaptações variadas para serem portados principalmente como colares. É preciso mencionar que tais objetos são comercializados durante todo ano, principalmente em locais de grande fluxo de turistas, reforçando a sua importância para a movimentação da economia local.
3. Um comparativo entre os antigos e atuais balangandãs
No estudo comparativo dos balangandãs antigos e atuais foram observados os aspectos estruturais e funcionais dos objetos em cada época. Vale ressaltar que trata-se de uma análise inicial, apenas de uma primeira visita de campo com registro fotográfico.
3.1 Aspectos estruturais
No que diz respeito a composição de um balangandã – neste caso têm-se como referência os pioneiros que pertencem a coleção do Museu Carlos Costa Pinto – é observável mudanças estruturais nos atuais balangandãs.
● Corrente: parte do objeto responsável por prendê-lo ao corpo, não é obrigatório na composição da peça, pois também eram carregadas na cintura com cordão de tecido. As peças da coleção do Museu Carlos Costa Pinto são de espessura fina e algumas vezes com figa na
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ponta; alguns balangandãs também não a possuíam, contudo, tinham o aro para a passagem de corrente de prata ou tira de algodão. As peças atuais seguem a mesma tendência, todavia, há a produção de peças também sem nave, com os elementos pendentes presos diretamente na corrente, como os maxi balangandãs vendidos no Mercado Modelo que chegam a mais de um metro de comprimento ou colares na joalheria Gerson’s.
● Nave: parte do objeto responsável por portar os elementos pendentes, tem a forma de um frontão vazado, com parte superior com elementos decorativos e parte inferior arredondada e denticulada. Os balangandãs precursores não ultrapassavam 19,0 cm de largura, possuíam como decoração da nave pombas do Espírito Santo em repouso ou aladas as mais comuns, pombas aladas com palmeta trilobada central, ramagens em curva e contracurva nitidamente barrocas, cabeças de anjos querubins, figuras antropomorfas; é observável também um apurado trabalho de cinzelamento e repuxamento nas peças(TRINDADE, 2005, p.89-93). Os objetos comercializados atualmente, observados até este momento, possuem dimensões variadas não podendo ser portadas na cintura por conta do aumento de tamanho, tem como único elemento decorativo a pomba do Espírito Santo alada ou não e repetição no formato das peças e até mesmo ausência de nave.
● Elementos pendentes: objetos fabricados por ourives ou não, colocados na parte denticulada da nave a gosto da usuária. Parte do objeto que o caracteriza como amuleto. Nos balangãndas pioneiros, são dos mais variados tamanhos e formatos, fabricados ou não por ourives, vendidos separadamente, colocados a gosto da devoção da usuária, não obedecem a um ordenamento inicial; cada peça tem um trabalho único de cinzelamento, com fácil caracterização de cada elemento; os mais comuns são figas, romãs, cocos d’água, uvas, peixes, chaves, contas, além de vários elementos curiosos com grande número de elementos em cada peça, variando de uma para outra. Nos objetos atuais, os elementos pendentes seguem um padrão único de tamanho e com elementos com formatos muito parecidos, podendo o observador não reconhecer ou confundir-se ao tentar descobrir qual é o elemento pendente, por conta do trabalho igual de cinzelamento dados aos elementos, no caso frutas; os elementos mais comuns são figas, cocos d’água e frutas variadas, chegando a ter no máximo 11 elementos.
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Os aspectos funcionais levam em conta a indicação de uso do comerciante local e o interesse demonstrado pelo turista. Os balangandãs antigos eram amuletos portados a cintura que tinham a intenção de proteção ou propiciar algo a usuária e que propositalmente faziam barulho para serem vistos; a venda ou acréscimo de elementos pendentes variava a partir da escolha individual da portadora do objeto, desde necessidade espiritual, financeira ou vaidade. A função dos atuais balangandãs é ditada por diversos fatores que vão desde devoção, a evocação de um objeto símbolo de baianidade até as tendências da moda para jóias e decoração de ambientes.
Os balangandãs produzidos na atualidade nos seus diversos formatos são utilizados desde a forma original (pouco citado), ou como outras formas de adorno – pulseiras, colares, tornozeleiras, brincos –, até utensílios – como portas-guardanapo -, e por último, e mais comum, como objeto decorativo seja pendurado ou colocado sobre uma mesa.
4. Referências Bibliográficas
BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. 5ª. São Paulo: Perspectiva, 2008.
CURY, Marília X. Exposição: concepção, montagem e exposição. São Paulo: Annablume, 2005. Capítulo I: O campo de atuação da Museologia.
DE SETA, Cesare. Objecto. In Enciclopédia Einaudi, vol.3, artes-tonal/Atonal. Imprensa Nacional, casa da Moeda, 1984. p. 91-113.
GOLA, Eliane. A jóia: História e designer. São Paulo: editora SENAC São Paulo, 2008.
LODY, Raul. A Joalheria Afro-Brasileira. Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2001.
LODY, Raul. O Negro no Museu Brasileiro; construindo identidades. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
MOLES, Abraham A. Teoria dos Objetos. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1981. MUSEU CARLOS COSTA PINTO: catálogo – catologue/FMCCP. Salvador/São Paulo: gráficos Brunner, 1992.
SILVEIRA, Flávio L. A. LIMA FILHO, Manuel F. Por uma antropologia do objeto documental: entre a “alma das coisas” e a coisificação do objeto. Horizontes
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TRINDADE, Simone. Dissertação de mestrado: Referencialidade e representação: Um resgate do modo de construção de sentidos das pencas de balangandãs dentro do contexto sócio-cultural de Salvador setecentista e oitocentista. Salvador: UFBA, 2005.