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ÍNDIOS, TERRAS E ARMAS. Indrodução a História do RN.

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Academic year: 2021

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Ia. edição: EDUFRN, 2 0 0 0

2a. e d i ç ã o : C o o p e r a t i v a C u l t u r a l , 2002 3a. edição: EDUFRN, 2007

4a. edição: Flor d o Sal, 2015

Autora

D e n i s e M a t t o s M o n t e i r o

Editores

Flávia Celeste M a r t i n i Assaf e A d r i a n o d e S o u s a

R e v i s ã o Márcio S i m õ e s D e s i g n e r Gráfico e Capa J o s é A n t o n i o B e z e r r a J ú n i o r Foto da Autora G i o v a n n i Sérgio Ilustração da Capa í n d i o T a r a i r i ú , t r i b o e x t i n t a . Óleo d e Albert E c k h o u t , p i n t o r h o l â n d e s (1654).

Catalogação da publicação na Fonte. M775Í Monteiro, Denise Mattos.

Introdução à História do Rio Grande do Norte / Denise Mattos Monteiro. - 4. ed. - Natal, RN: Flor do Sal, 2015.

208 p. : il.

ISBN 978-85-69107-00-2

1. História do Rio Grande do Norte. I. Título.

CDD 981.32

Todos os direitos desta edição reservados à Flor do Sal

Rua Nascimento de Castro, 1926, S 108 - Lagoa Nova - 59.056-450 - Natal/RN - Brasil e-mail: [email protected] - Telefone: 84 3025-4297

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CAPÍTULO

índios, terras e armas:

a luta pelo território (séculos XVI e XVII)

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índios, terras e armas:

a luta pelo território (séculos XVI e XVII)

A conquista portuguesa

Segundo a FUNAI, Fundação Nacional do índio, órgão do Governo Bra-sileiro que estabelece e executa a política indigenista no Brasil,

m a i s d a m e t a d e d a p o p u l a ç ã o i n d í g e n a e s t á l o c a l i z a d a n a s r e g i õ e s N o r t e e C e n t r o - O e s t e d o Brasil, p r i n c i p a l m e n t e n a área d a A m a z ô n i a Legal. M a s h á índios v i v e n d o e m t o d a s as regiões brasileiras, e m m a i o r ou m e n o r n ú m e r o , c o m exceção dos e s t a d o s do Piauí e Rio G r a n d e do Norte.

M e s m o n o P i a u í , e x i s t e m g r u p o s d e p e s s o a s q u e v i v e m n o i n t e r i o r d o e s t a d o a s q u a i s v ê m se a u t o i d e n t i f i c a n d o c o m o i n d í g e n a s e c o m e ç a m a r e i v i n d i c a r o r e c o n h e c i m e n t o c o m o i n d í g e n a s j u n t o à Funai.1

V Assim,jb Rio Grande do Norte é o único estado da Federação no qual não viveriam mais indígenas.(Entretanto) o n o s s o estado foi o p r i n c i p a l palco de u m dos maiores e maisToirgos~eonflitos a r m a d o s envolvendo índios e brancos de todo o período colonial da história do país - a c h a m a d a (Guerra dos Bárbaros. Como ocorreu esse processo?

Quando os europeus chegaram às terras americanas, naqueles territórios que vieram mais tarde a constituir o Brasil, encontraram homens e mulheres que foram por eles chamados devíndios"/ Essa expressão, que se consolidou com o t e m p o , t i n h a origem no fato de que, ao a q u i c h e g a r a m com s u a s caravelas, estavam na verdade p r o c u r a n d o u m c a m i n h o através do Oceano Atlântico para as índias, g r a n d e área econômica no Oriente, com a qual se f a z i a m importantes trocas comerciais.

No contato com esses habitantes, os e u j ç p ç u s aprenderam que aqueles que viviam no litoral autodenominavam-se Tupi e referiam-se aos do interior, que t i n h a m línguas e c o s t u m e s diferentes dós seus, como o ^ T a p u i | j Essa divisão e d e s i g n a ç ã o foi a d o t a d a pelos c o l o n i z a d o r e s b r a n c o s e vigorou d u r a n t e largo tempo.

Com o d e s e n v o l v i m e n t o da l i n g u í s t i e ^ e da etnologia^, s o b r e t u d o em nosso século, constatou-se que tanto osÍTupi quanto os(TapuiaS apresentavam, na verdade, grandes diferenças internamente, sobretudo as diversas tribos que habitavam o interior do território.

1 índios do Brasil. As sociedades. Disponível em: < www.funai.gov.br > Acesso em 29 de outubro de

2006. Segundo o Censo Demográfico realizado no ano de 2010 pelo IBGE, 817.963 habitantes do país se consideraram indígenas, estando distribuídos por todos os Estados da Federação. O Rio Grande do Norte e o Piauí seriam os Estados com menor número de indígenas. Ver: índios do Brasil. Quem

são. Disponível em: <www.funai.gov.br> Acesso em 17 de abril de 2014.

2 Lingüística é a ciência que estuda a linguagem h u m a n a , a origem, evolução e características de diferentes línguas. A etnologia é a ciência que se dedica ao estudo da cultura dos chamados povos naturais, aí se incluindo sua língua, raça, religião, modo de vida etc.

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O avanço de nosso conhecimento sobre os primitivos habitantes, entre-tanto, e s b a r r a em u m a g r a n d e dificuldade: a carência de vestígios dessas culturas, u m a vez q u e tribos inteiras d e s a p a r e c e r a m , física e / o u cultural-mente, no contato com o h o m e m branco. Esse foi o caso de tribos do sertão nordestino, aí incluindo-se todas as q u e h a b i t a r a m o sertão de nosso estado. Dessa forma, o pouco q u e s a b e m o s t e m origem em registros q u e foram escritos, sobretudo, no período colonial e a p a r t i r dos quais os estudos lin-guístico-históricos, estabelecendo ligações entre línguas q u e desapareceram e l í n g u a s a i n d a f a l a d a s , t e n t a m identificar a s t r i b o s e x t i n t a s . Com t o d a s essas dificuldades, são m u i t a s as incertezas e m e s m o as divergências entre diferentes estudiosos.

Mas, de m a n e i r a geral,jos povos indígenas do Brasil - tanto os desapare-cidos q u a n t o os sobreviventes - são classificados, pelo critério lingüístico, a t u a l m e n t e , e m q u a t r o g r a n d e s g r u p o s : o t r o n c o Tupi, d i v i d i d o e m sete famílias de línguas; o tronco Macro-Jê, com nove famílias; o tronco Aruaque e, por último, u m g r a n d e g r u p o d e l í n g u a s c o n s i d e r a d a s i n d e p e n d e n t e s e a i n d a n ã o classificadas.

Os povos q u e h a b i t a r a m o território que-hoje constitui o estado do Rio Grande-dí^Norte dividiam-se e n t r e o^Potiguara', q u e habitavam o litoral, e o s T a r a i r i ú , habitantes do_§ertão.

Òs Potiguara p e r t e n c i a m ao tronco Tupi e distribuíam-se entre os atuais estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Os h o m e n s ) P o t i g u a r a c o s t u m a v a m p e r f u r a r o lábio inferior, d u r a n t e a p u b e r d a d e , p o r o n d e t r a n s p a s s a v a m o s s o s , p e d r a s o u m a d e i r a s , às v e z e s t a m b é m p e r f u r a v a m as faces e orelhas p a r a o m e s m o f i m . P i n t a v a m o c o r p o c o m n e g r o , d o s u c o d o j e n i p a p o , e o v e r m e l h o , e x t r a í d o d o u r u c u m . U t i l i z a v a m enfeites d e p l u m a s coloridas pelo corpo e cabelos, c o r d õ e s d e c o n t a s n a t u r a i s e braceletes (...) H a b i t a v a m a p r o x i m i d a d e do litoral e a s ribeiras d o s rios, f a b r i c a n d o c a n o a s e a p e t r e c h o s p a r a a p e s c a , q u e e r a f e i t a c o m f l e c h a s e p e q u e n o s a n z ó i s feitos d e e s p i n h a s d e peixe ligados a fios d e algodão ou espécie d e c â n h a m o . M o r a v a m e m a l d e i a s , s u a principal u n i d a d e d a o r g a n i z a ç ã o social, c u j a l o c a l i z a ç ã o era e s c o l h i d a n u m lugar alto, v e n t i l a d o , p r ó x i m o à á g u a e a d e q u a d o às p l a n t a ç õ e s q u e s e f a z i a m a o s e u redor. S u a s h a b i t a ç õ e s , f e i t a s c o m t o r a s d e m a d e i r a , c o b e r t u r a d e f o l h a s e s e m divisões i n t e r n a s , t i n h a m d u a s a três e n t r a d a s a p e n a s , e e r a m c o m p r i d a s e a r r u m a d a s e m v o l t a d e u m t e r r e i r o q u a d r a d o q u e f i c a v a v a z i o . N u m lugar p e r m a n e c i a m a p e n a s três o u q u a t r o a n o s , q u a n d o , p o r e n f r a q u e c e r e m - s e a s i e n a s e d e s f a z e r e m - s e as c a s a s , t i n h a m q u e m u d a r . Em c a d á c a s a m o r a v a m . c e r c a d e d u z e n t a s p e s s o a s a p a r e n t a d a s e n t r e s í T ^ . ) O t r a b a l h o i n d í g e n a e r a , e m s u a e s s ê n c i a , c o m u n a l . Apesar d e h'avér e n t r e o s Potiguara a p o s s e d e i n s t r u m e n t o s e utensílios, n ã o havia a a p r o p r i a ç ã o da terra, n e m do seu p r o d u t o , p o r g r u p o s privilegiados (...) Os h o m e n s d e d i c a v a m - s e à c a ç a e à p e s c a , p r e p a r a ç ã o d a t e r r a p a r a o p l a n t i o , c o n s t r u ç ã o d e o c a s e c a n o a s , c o n f e c ç ã o d e a r m a s e i n s t r u m e n t o s , c a t a d e l e n h a e à g u e r r a c o n t r a o s i n i m i g o s . As: m u l h e r e á c u i d a v a m d a s p l a n t a ç õ e s , d e s d e a s e m e a d u r a à colIffiita"~défsuas p r i n c i p a i s r o ç a s , m a n d i o c a e m i l h o , c o m os

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quais se faziam as farinhas e t a m b é m as bebidas; cuidavam também das caças e peixes para a alimentação de todos, assim como teciam fios para confeccionar as redes onde dormiam, moldavam o barro para fazer potes e panelas; cuidavam das crianças e animais domésticos; faziam cestos de fibras vegetais; coletavam os frutos, raízes e mel; e carregaram os utensílios quando da mudança da aldeia. Os alimento? conseguidos em comum, tanto na caça e coleta quanto nas roças, garantiam a alimentação de todos da comunidade.3

Dentre as tradições culturais dos Potiguara estava á antropofagia, prati-cada com os prisioneiros feitos em guerras movidas contra tribos inimigas. A antropofagia fazia parte, portanto, de seu sistema de ritos, mitos e crenças. Os Tarairiú, incluídos por alguns estudiosos no tronco Macro-Jê devido a traços culturais em comum, habitavam a zona semiárida do que é hoje o Nordeste.

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Figura 1 - Indígena Tarairiú

Esses Tapuia, como alguns outros indígenas do Brasil, costumavam depilar todo o corpo e o rosto. Todos, inclusive as crianças, costumavam pintar o corpo, utilizando-se de tinta preta, extraída do jenipapo, e vermelha, do urucum. An-davam nus, porém com os genitais cobertos: as mulheres usavam u m a espécie de avental, confeccionado com folhas preso à cintura e os homens usavam u m cendal [véu], também vegetal. Os homens perfuravam bochechas, lábios, orelhas e nariz, por onde transpassavam ossos, pedras coloridas ou madeira. Também utilizavam penas de aves diversas, que prendiam nos cabelos e corpo, colando-as com cera de abelha ou atando-as com fios de algodão para fazer

J LOPES, Fátima Martins. Missões religiosas: índios, colonos e missionários na colonização da capitania do Rio Grande do Norte, p. 33-37.

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cordões, pulseiras e tornozeleiras. Usavam também sandálias feitas com fibras vegetais. O clima hostil do sertão impunha aos Tarairiú u m a vida seminômade. De acordo com as estações do ano, os Tarairiú mudavam seu acampamento para os lugares que melhor lhes garantissem a sobrevivência, portanto não tinham aldeias fixas, num único lugar, mas construíam acampamentos regulares, dentro de uma área delimitada (...) Por causa do seminomadismo, seus acampamentos eram rústicos, compostos por abrigos feitos de paus e folhas, geralmente à beira d'água. Dormiam em redes, ou mesmo no chão quando viajando, tendo sempre u m a fogueira perto (...) As mulheres e crianças eram incumbidas de transportar os utensílios, cestarias, bagagens e armas (...) também deveriam, no novo acampamento, procurar os paus e folhagem para confecção de abrigos. Eram também elas que se incumbiam da alimentação e bebidas, e dos cuidados das crianças, auxiliadas pelas anciães. Aos homens cabia a caça, pesca e a procura de mel silvestre; eram exímios caçadores (...) e construíam armadilhas para peixes e animais silvestres; caçavam principalmente pequenos animais, já que grandes não havia pelo sertão. Sua alimentação básica era, pois, a caça, assada em fornos subterrâneos, a pesca, o mel, frutos, raízes, ervas e animais silvestres como lagartos e cobras. Após as chuvas e os rios estarem cheios, os Tarairiú voltavam para as várzeas a fim de plantarem mandioca, milho, legumes e alguns frutos e raízes (...) Os Tarairiú eram guerreiros temidos pelos outros indígenas, por sua força, velocidade e destreza na guerra, onde adotavam a tática da surpresa, isto é, da guerrilha.4

RIO GRANDE DO NORTE CONFIGURAÇÃO E UMITES ATUAIS

TERRITÓRIOS INDÍGENAS TRADICIONAIS c m Tupi

I I Tarairiú

Figura 2 - Fonte: LOPES, Fátima M. Missões Religiosas: índios, colonos e missionários na colonização da capitania do Rio Grande do Norte

Na figura 2, podemos observar os territórios indígenas tradicionais, no início do processo colonizador.

O primeiro contato com o h o m e m branco se deu entre os Tupi-Potiguara que habitavam o litoral leste, visto que foi aí que a p o r t a r a m as primeiras

' LOPES, Fátima Martins, op. cit., p. 112-114. Veja-se, em Anexo A, um relato do final do século XVII aproximadamente, em que o autor descreve alguns aspectos da vida e da cultura de indígenas Tarairiú

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embarcações vindas do outro lado do Oceano Atlântico. O que teria movido os europeus em direção ao continente americano?

Na Europa dos séculos XV e XVI, o desenvolvimento atingido pelas ma-n u f a t u r a s e pelo comércio exigiam mercados cada vez mais amplos. Esses mercados eram f u n d a m e n t a i s para a continuidade do desenvolvimento do capitalismo mercantil europeu, através do fornecimento de matérias-primas e do c o n s u m o dos produtos m a n u f a t u r a d o s . Além disso, p o d e r i a m fornecer àquele continente os metais preciosos de que ele carecia e com os quais se c u n h a v a m as moedas, cada vez mais importantes em suas trocas comerciais. Foi através da expansão marítimo-comercial europeia e do estabelecimen-to de colônias no além-mar que novas áreas do planeta foram paulatinamente integradas ao sistema comercial europeu. Assim, os continentes da África, Ásia e América p a s s a r a m a ser d i s p u t a d o s por navegadores p o r t u g u e s e s , e s p a n h ó i s , h o l a n d e s e s , f r a n c e s e s e ingleses que, em prol d a s b u r g u e s i a s mercantis europeias, l a n ç a r i a m as sementes dos vastos impérios coloniais que iriam se formar.

Figura 3 - Caravela portuguesa

Nesse q u a d r o de luta entre diferentes nações europeias pela hegemonia colonial, chegaram ao litoral norte-rio-grandense os primeiros navegadores, corsários f r a n c e s e s em b u s c a de pau-brasil, á r v o r e existente e m g r a n d e parte da m a t a atlântica brasileira e da qual se retirava u m corante que t i n h a grande aceitação no processo de fabricação de tecidos na Europa. A extração dessa madeira inaugurou a exploração da mão de obra indígena nativa pelos interesses mercantis europeus: através de u m a relação que ficou conhecida como escambo, os indígenas cortavam e t r a n s p o r t a v a m até a praia os enor-mes troncos em troca de quinquilharias que lhes eram dadas pelos brancos.

Portugal, a q u e m cabia a primazia pelo "descobrimento" da nova terra, desde 1500, frente à ameaça francesa na exploração do pau-brasil, decidiu-se pelo envio da p r i m e i r a e x p e d i ç ã o q u e t i n h a como objetivo a c o n q u i s t a e o c u p a ç ã o efetivas desses territórios - a e x p e d i ç ã o de M a r t i m Afonso de Souza, de 1530.

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Visando dar início a u m processo colonizador, a Coroa portuguesa decidiu--se pela divisão de suas terras no Novo Mundo em capitanias hereditárias, a serem concedidas a particulares que, dispondo de grandes capitais, se dispu-sessem a povoá-las, garantindo sua posse por Portugal. As quinze capitanias, que foram divididas entre doze donatários, t i n h a m no seu extremo oeste a linha fictícia do Tratado de Tordesilhas, através do qual Portugal e Espanha haviam dividido os territórios da América.

Pela figura 4, p o d e m o s observar, a p r o x i m a d a m e n t e , a localização e a d i m e n s ã o originais da Capitania do Rio Grande. Ela t i n h a como seu limite sul a Baía da Traição, q u e a i n d a hoje conserva seu n o m e , no atual estado da P a r a í b a , e como seu limite n o r t e a Angra dos Negros, no atual estado do Ceará. Alongando-se para o interior, compreendia os sertões dos atuais estados do Ceará, Piauí e M a r a n h ã o .

J u n t a m e n t e com a capitania de P e r n a m b u c o , constituía u m a das d u a s maiores capitanias em extensão territorial.

Foi doada a João de Barros e seu sócio Aires da C u n h a , ricos e prestigia-dos f u n c i o n á r i o s da Coroa p o r t u g u e s a , que o r g a n i z a r a m - j u n t a m e n t e com o d o n a t á r i o da capitania do M a r a n h ã o - u m a expedição colonizadora em 1535, e m direção ao litoral setentrional, onde a presença francesa era u m a ameaça ao domínio português. A expedição, fortemente a r m a d a e composta por dez e m b a r c a ç õ e s e novecentos h o m e n s , entretanto, n ã o logrou êxito, devido à resistência indígena. A ocupação p o r t u g u e s a foi, assim, adiada.

Somente 62 anos depois, em 1597, ao fechar-se o século XVI, organizou-se u m a nova expedição de conquista e ocupação por determinação real. Essa expedição, sob a responsabilidade dos capitães-mores da Paraíba (Feliciano Coelho) e P e r n a m b u c o (Mascarenhas Homem), subdividiu-se em duas fren-tes: u m a esquadra por m a r e c o m p a n h i a s de infantaria e cavalaria por terra, esta última sob o comando dos irmãos Jerônimo e Jorge de Albuquerque, so-b r i n h o s de Duarte Coelho, primeiro donatário da capitania de Pernamso-buco.

Dessa ú l t i m a f r e n t e p a r t i c i p a v a m jesuítas e f r a n c i s c a n o s - d e n t r e os q u a i s havia aqueles q u e conheciam a língua tupi - e centenas de indígenas, originários da Paraíba e P e r n a m b u c o , pertencentes a tribos Tupi já contro-ladas pelos colonizadores.

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O c e a n o A t l â n t i c o

Capiluniii do Kio (tramlc

Figura 4 - Capitanias Donatárias: a capitania do Rio Grande

T i n h a início, assim, a presença e atuação de religiosos no território da capitania. Essa p r e s e n ç a foi c o m u m n a colonização da América h i s p a n o --lusitana, o n d e a Igreja Católica R o m a n a p a r t i c i p o u da c o n q u i s t a e ocu-pação de territórios, pois era instituição social de g r a n d e i m p o r t â n c i a nos reinos católicos de Portugal e E s p a n h a , q u e promoveram a colonização. A d e s c o b e r t a de novas á r e a s p a r a os interesses m e r c a n t i s e u r o p e u s abriu a possibilidade, simultaneamente, de novas áreas t a m b é m para o trabalho de evangelização. Se os objetivos da Igreja e do Estado e r a m diferentes entre si, isso não impediu que, na prática, a aliança t e n h a sido feita e com grande vantagem para a Coroa. No caso português, a decisão de colonizar as novas terras foi, inclusive, convenientemente justificada como necessária para a "evangelização" dos povos que aqui viviam. D. João III, rei de Portugal, no Regimento por ele elaborado para o primeiro governadorgeral do Brasil -Tomé de Souza - assim dizia:

í>

Eu, El-Rei, faço s a b e r a vós Tomé d e Sousa, fidalgo da m i n h a Casa, q u e vendo eu quanto serviço de Deus e meu é conservar

e enobrecer as capitanias e povoações das Terras do Brasil e dar ordens e maneira com que melhor e mais seguramente se possam ir povoando, para exaltamento de nossa santa fé e proveito d e

m e u s reinos e S e n h o r i o s e d o s n a t u r a i s deles, o r d e n e i ora d e m a n d a r n a s ditas terras f a z e r u m a fortaleza e p o v o a ç ã o g r a n d e e forte, e m u m lugar c o n v e n i e n t e p a r a d a í se dar favor e a j u d a as m a i s p o v o a ç õ e s e p r o v e r n a s coisas da justiça, direito d a s p a r t e s e n e g ó c i o s d a m i n h a f a z e n d a e a b e m d a s p a r t e s [„.]5 (Grifo n o s s o ) .

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Para o trato com os habitantes primitivos das novas terras, portanto, os conquistadores contavam com dois trunfos. O primeiro deles eram as a r m a s de fogo que a t i n g i a m os corpos e que seriam usadas, sobretudo, contra os mais renitentes em aceitar a presença do h o m e m branco. O segundo t r u n f o era a ç a t e q u e s e q u e visava a a l m a e que, ao f u n c i o n a r como f e r r a m e n t a p a r a a a t r a ç ã o de i n d í g e n a s ao convívio b r a n c o , através da pregação do cristianismo, contribuiria para a lenta destruição de sua cultura original.

A presença de mais de oitocentos indígenas na frente que avançava por terra para a conquista da capitania do Rio Grande inaugurava por aqui u m a tática empregada pelo colonizador que se tornaria comum a partir de então: a utilização de indígenas p a r a guerrear indígenas. Conhecedores da mata e seus perigos e dos hábitos de outras tribos, sua aliança era fundamental para o conquistador branco. Essa aliança foi, em muitos casos, facilitada pelas rivalidades já existentes entre diferentes tribos, como aquela que o p u n h a os Tupi-Potiguara do Rio Grande e os Tupi-Tabajara da Paraíba.

Assim, a expedição por terra avançava mediante combates em que se incendiavam aldeias inteiras. Mas u m a epidemia de varíola impediu a conti-nuidade dessa m a r c h a e as tropas regressaram à Paraíba e Pernambuco.6

A expedição marítima, por seu lado, desembarcou finalmente na foz do rio Grande (atual Potengi) e principiou a construção de um forte, inicialmente de madeira, em .6 de janeiro de 1598, sob a cerrada reação dos Tupi-Potiguara da região.

Os indígenas locais com certeza percebiam que, ao contrário da relação periódica e transitória que caracterizava seu contato com os brancos no es-cambo de pau-brasil, a instalação de europeus em suas terras significava uma a m e a ç a concreta, que se c o n f i r m o u com o tempo. O início da colonização c o r r e s p o n d e i i j a s s i m , ao início da própria resistência indígena.

Oáanvasorè'áj entretanto, t i n h a m vindo para ficar. À intimidação pelas a r m a s somòtFSe a ação dos religiosos que, d o m i n a n d o a língua tupi e se-c u n d a d o s pelos i n d í g e n a s q u e f a z i a m p a r t e da tropa de se-conquista, foram estabelecendo contatos com a população nativa da área, em meio a batalhas q u e se a r r a s t a r a m d u r a n t e meses. Um c r o n i s t a e u r o p e u da é p o c a a s s i m descreveu u m ataque dos conquistadores a u m a aldeia indígena:

[...] t e m o r i z a d o s c o m isto os da cerca [da aldeia], e os n o s s o s a n i m a d o s [os conquistadores], vendo que, se a noite os tomava de fora com o inimigo tão vizinho e outros, que podiam sobrevir d e o u t r a s p a r t e s , f i c a r a m m u i t o a r r i s c a d o s , r e m e t e r a m o u t r a v e z à cerca c o m t a n t o â n i m o , d i s p a r a n d o t a n t a s a r c a b u z a d a s e f r e c h a d a s , q u e p u s e r a m os d e d e n t r o e m aperto, e se deixou b e m conhecer pelos muitos gritos, e choros, q u e se ouviram das mulheres e crianças; e o capitão Miguel Álvares Lobo, com o seu sargento J o ã o de Padilha, espanhol, e seus soldados, remeteu a p o r t a da cerca, e a levou, p o r o n d e logo e n t r a r a m outros, e o m e s m o fez o capitão Rui de Aveiro, e outros capitães por outras partes c o m q u e forçaram os potiguares a largar a praça, e fugiram

6 A varíola, ou bexiga, era u m a doença contagiosa cujas epidemias eram então freqüentes, fazendo grande número de vítimas fatais. Foi trazida para a América pelos europeus e, juntamente com outras doenças antes desconhecidas, como a gripe e o sarampo, seria responsável por grande mortandade entre os indígenas.

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por outras portas, que abriram por riba da estacada, e por onde podiam, mas contudo não deixaram de ficar mortos e cativos mais de mil e quinhentos, sem dos nossos morrerem mais de três índios tabajaras, posto que ficaram outros feridos, e alguns brancos, dos quais foi um o sargento João de Padilha.7 (Grifo nosso).

Vencida a resistência indígena, chefes Tupi-Potiguara, que h a b i t a v a m territórios c o r r e s p o n d e n t e s às capitanias do Rio Grande e Paraíba, foram conduzidos à sede dessa última capitania, pelos portugueses, para selarem f o r m a l m e n t e u m acordo de p a z . Assim, no dia 11 de j u n h o de 1599, n a presença dos capitães-mores de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba, e tendo por intérprete u m religioso, os indígenas se comprometeram a cessar a luta. Conquistado u m ponto da capitania do Rio Grande, deu-se, a partir dele, a ocupação do território pelos colonizadores. A f u n d a ç ã o de u m a p e q u e n a p o v o a ç ã o , em 25 de d e z e m b r o de 1599, s i t u a d a n u m a á r e a elevada, três q u i l ô m e t r o s a c i m a do forte e à m a r g e m direita do rio, por J e r ô n i m o de Albuquerque - c o m a n d a n t e do Forte dos Reis - , reforçava a presença física e cultural do h o m e m branco. A "Povoação dos Reis", cuja d e n o m i n a ç ã o se referia a valores culturais da Europa e do Cristianismo, daria origem a Natal.8

Se a edificação do forte, que passaria a ser refeito em pedra, havia repre-sentado a conquista portuguesa, símbolo sobretudo militar, o erguimento da "Povoação dos Reis", constituída de algumas casas de palha e barro em torno de u m a capela, era o começo do povoamento europeu efetivo. As primeiras lavouras, em torno da povoação, simbolizavam a fixação do h o m e m branco ao território. Essas roças, j u n t a m e n t e com a caça e a pesca, aprendidas com os indígenas, iriam garantir a sobrevivência n a terra desconhecida.

A p a r t i r daí, a á r e a da c o l o n i z a ç ã o se a l a r g a r i a c r e s c e n t e m e n t e . Esse alargamento se daria com a concessão de vastas porções de terra pela Coroa p o r t u g u e s a aos interessados em participarem do processo de colonização, com a condição de que tivessem capital suficiente para fazê-lo. Aos capitães--mores, autoridades m á x i m a s em cada capitania, competia executar essas concessões, que deveriam ser c o n f i r m a d a s pelo rei de Portugal.

Esse sistema de concessão e distribuição de terras no Brasil, adotado pela Coroa portuguesa e que privilegiava os que t i n h a m capital, foi c h a m a d o de sistema sesmari^l e vigorou no Brasil durante quase trezentos anos, ou seja, até 1820. Sua adoção se explica pelo próprio objetivo mercantil da colonização ibérica: povoar para produzir mercadorias de alto valor no comércio europeu, como a cana-de-açúcar, que necessitava de grandes extensões de terra.

'SALVADOR, Vicente de, frei. História do Brasil (1500-1627) apud LYRA, A. Tavares de. História do

Rio Grande do Norte, p. 24-25.

8 "O ponto tradicional, tido e havido onde a cidade foi fundada é a atual Praça André de Albuquerque, Largo da Matriz, Rua Grande de outrora. Teriam celebrado missa e erguido uma capelinha que, no mesmo ponto e sob reformas incessantes através do tempo, é a Catedral [antiga] na mesma praça" (CASCUDO, L. da C. História do Rio Grande do Norte, p. 28). Em 1611, a pequena povoação foi elevada à condição de vila, ganhando uma primeira organização político-administrativa com um juiz, um vereador, um escrivão da Câmara e um procurador dos índios. Por volta de 1614, a denominação de "Povoação dos Reis" passou a ser substituída por "Cidade do Natal".

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Figura 5 - Primeira planta conhecida do Forte dos Reis Magos, de 1616 (Forte dos Reis).

Na capitania do Rio Grande, a distribuição de terras seguiu, portanto, a forma legal estabelecida pela Coroa. No período compreendido entre 1600 - a n o da p r i m e i r a c o n c e s s ã o , de "oitocentas b r a ç a s de terra ao longo do rio Potengi", a João Rodrigues Colaço, então capitão da fortaleza - e 1633 - a n o da invasão h o l a n d e s a - , m u i t a s foram as s e s m a r i a s e datas de terra concedidas. Duas merecem destaque: a primeira delas foi a concessão feita pelo capitão-mor Jerônimo de Albuquerque a seus próprios filhos, em 1604, no vale do rio C u n h a ú , atual município de C a n g u a r e t a m a . Essa sesmaria, cuja extensão foi considerada "exorbitante" pela própria Coroa, m a s confir-m a d a econfir-m 1628, daria origeconfir-m ao priconfir-meiro e n g e n h o da capitania - o E n g e n h o C u n h a ú - e seria a b a s e do poder da família Albuquerque M a r a n h ã o , poder esse quê atravessaria gerações e gerações. A segunda foi a concessão de terras feita aos padres jesuítas, em 1603, em área próxima à Povoação dos Reis. Essa concessão, que ocorreu a p e n a s q u a t r o a n o s depois de f u n d a d a a povoação, b e m d e m o n s t r a o i m p o r t a n t e papel q u e a Igreja Católica R o m a n a iria de-s e m p e n h a r no trato com a população nativa d u r a n t e o procede-sde-so colonizador.

Assim, terras antes indígenas p a s s a r i a m sistematicamente às mãos dos colonizadores. De início, em torno da p e q u e n a Cidade do Natal. Depois, a

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corrente colonizadora foi se interiorizando seguindo as m a r g e n s dos rios, principalmente o Potengi e o Jundiaí. Na direção sul, sempre na faixa lito-rânea, seguiu o percurso dos c a m i n h o s já estabelecidos e conhecidos que levavam aos núcleos colonizadores da Paraíba e P e r n a m b u c o . Na direção norte, atingiu, nessa etapa, o vale do rio Ceará-Mirim.

A corrente sul seria a única em que efetivamente o povoamento teria por base a atividade açucareira. Nessa faixa, que é hoje denominada Zona da Mata, as condi-ções de solo e clima propiciariam o cultivo e beneficiamento da cana-de-açúcar. O primeiro engenho da capitania, lá estabelecido, deu origem à Povoação de Cunhaú que, juntamente com a Cidade do Natal, constituíam os dois núcleos populacionais então existentes.9 Enquanto Natal era o centro do poder político-administrativo da

capitania do Rio Grande, a Povoação de Cunhaú constituía o centro econômico. O engenho aí situado, exportando açúcar para Pernambuco - além de milho e farinha - , consistia então na fonte de renda básica da capitania.

Nas d e m a i s áreas atingidas pelo povoamento, nessa etapa, a atividade principal seria a criação de gado introduzido na capitania pelos colonizado-res. Décadas mais tarde, a pecuária se estenderia por grandes áreas sertão adentro, tornando-se a mais importante atividade econômica do Rio Grande. Um autor, escrevendo no começo do século XVII, dizia a esse respeito:

A terra desta capitania é fraca mais para gados e criações que para canaviais e roças, e às vezes faltam nelas chuvas; mas tem muitas partes em que se podem fazer fazendas, ainda que as águas são rasteiras e os matos não são de madeiras tão reais como os da Paraíba; mas não faltam as que hoje podem ser necessárias; lenhas não faltarão nunca.10

Com q u e í õ ã ò j l e obra)contariam, então, os colonizadores p a r a "fazer fazendas", isto é, d e r r u b a r a mata, fazer as roças, construir as edificações necessárias? Os indígenas iriam d e s e m p e n h a r aí u m papel f u n d a m e n t a l .

No longo processo de conquista e catequese, muitas tribos foram estabe-lecendo aliança com os brancos que chegavam. Essa aliança significou, n a prática, o compromisso de cessar a luta de resistência, de incorporar-se nas próprias tropas de avanço da colonização - guerreando outras tribos ou inimigos europeus dos portugueses - , de fornecer mantimentos de suas lavouras, e de trabalhar para "fazer fazendas" para os brancos."

'Um segundo engenho teria então sido erguido onde é hoje o município de Macaíba, às margens do rio Jundiaí e teria pertencido a Francisco Coelho. Mas em 1633, data da invasão holandesa, ele já estaria "de fogo morto devido à ruindade das terras" (LEMOS, Vicente de. Capitães-mores e

governadores do Rio Grande do Norte, p. 15). A existência desse engenho é controversa. Em algumas

obras ele aparece referido como Engenho Utinga, em outras como Engenho Potengi. Há autores que, acreditando em sua existência no passado, consideram-no como tendo sido a origem do atual Solar do Ferreiro Torto, no município de Macaíba.

10 Razão do Estado do Brasil, obra do Governador-geral do Brasil, D. Diogo de Menezes, apud LYRA,

A. Tavares de. História do Rio Grande do Norte, p. 36.

11 Dentre os chefes indígenas que se aliaram aos portugueses, participando do próprio processo de conquista de terras e homens, o mais célebre, no Nordeste, foi Feliçe Camarão - Poti - , indígena TUpi-Potiguara que viveu na primeira metade do século XVII, participou das lutas para expulsão dos holandeses - episódio que veremos mais adiante - ocupou cargos militares e recebeu o título de "Cavaleiro do Hábito de Cristo".

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A r e l a ç ã o e n t r e i n d í g e n a s e c o l o n i z a d o r e s implicou, a s s i m , n e c e s s a -r i a m e n t e , e m i n ú m e -r o s conflitos, e x i g i n d o n ã o a p e n a s a i n t e -r f e -r ê n c i a p e r m a n e n t e dos p a d r e s , m a s t a m b é m a criação do cargo de " P r o c u r a d o r d e índios", f u n c i o n á r i o d a a d m i n i s t r a ç ã o e n c a r r e g a d o d e f i s c a l i z a r essa relação. O mesmo autor citado acima nos dá u m a boa idéia desse q u a d r o ao descrevê-lo por volta de 1612:

Tem este distrito dezesseis aldeias de índios, algumas mui pequenas, todas mal governadas e inquietas por lhes faltar a doutrina de clérigos e capelães, ou de padres ou de quaisquer outros religiosos: os da C o m p a n h i a [de Jesus] por missão m a n d a m a certos tempos dous padres a visitar esta gente, mas como duram pouco com eles nunca ficam em estado que possam servir aos moradores [os colonizadores], para que assim uns e outros se sustentem e facilitem.12

Uma vez estabelecido o início do povoamento branco na capitania, esta serviu de base de apoio territorial e militar, de ponta de lança, para as expe-dições que e m p r e e n d e r i a m a conquista definitiva para a Coroa p o r t u g u e s a das terras do litoral setentrional do Brasil, onde a presença francesa era u m a a m e a ç a concreta aos interesses de Portugal. Assim, o próprio Jerônimo de Albuquerque teve atuação destacada na conquista do M a r a n h ã o em 1615 -daí originando-se o sobrenome de sua família - e Martins Soares Moreno, q u e serviu no Forte dos Reis, tornou-se o primeiro capitão-mor da capitania do Ceará, em 1621.

Com o a v a n ç o da o c u p a ç ã o p o r t u g u e s a pelo litoral, novas c a p i t a n i a s foram sendo estabelecidas, alterando-se os limites das capitanias donatárias originais, traçadas por ocasião do Tratado de Tordesilhas. Era u m a nova sub-divisão política e administrativa das terras, imposta pelo processo efetivo de conquista e povoamento. Como esse processo foi longo e irregular, os limites não e r a m muito b e m definidos. Dessa forma, à medida que se consolidou a vizinha capitania do Ceará, o limite oeste da capitania do Rio Grande passou a ser o rio Mossoró, segundo alguns estudiosos, ou o rio Jaguaribe - no atual estado do Ceará - , s e g u n d o outros.

A conquista portuguesa, porém, nao estava ainda consolidada: a capitania continuaria sendo palco da luta entre potências europeias pelo domínio colonial.

12Razão do Estado do Brasil, obra do Governador-geral do Brasil, D. Diogo de Menezes, apud LYRA,

A. Tavares de. História do Rio Grande do Norte, p. 37. Segundo Vicente de Lemos (Capitães-mores

e governadores do Rio Grande do Norte, p. 15), a principal aldeia de índios aliados aos portugueses

era então a aldeia de Mipibu, situada ao sul de Natal, onde é hoje a cidade de São José do Mipibu. 13 Veja-se, em Anexo B, uma descrição da Fortaleza dos Reis em 1620.

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A conquista holandesa

Dentre as potências europeias que disputavam com Portugal a posse de terras do continente americano, a França constituiu a a m e a ç a inicial, que foi combatida progressivamente cõm o avanço da ocupação portuguesa pelo litoral, através de lutas a r m a d a s seguidas do estabelecimento de núcleos de povoamento p o r t u g u ê s ao longo da costa. Mesmo as d u a s tentativas france-sas de colonização, isto é, de ocupação efetiva do território que viria a ser o Brasil - ocorridas no Rio de Janeiro, entre 1555 e 1567, e no Maranhão, entre 1594 e 1615 - foram r e c h a ç a d a s por Portugal. No entanto, no decorrer do século XVII, u m a nova investida seria feita por interesses do capital mercantil europeu, dessa vez por outra daquelas potências: a investida holandesa.

Desde a Idade Média, a área europeia que hoje corresponde à Holanda apresentava u m grande desenvolvimento comercial. Com u m a rica burgue-sia de mercadores e usurário&l4 e cidades i m p o r t a n t e s n a s rotas mercantis

daquele continente, a Holanda óonstituía, no começo do século XVI, q u a n d o os europeus chegaram à América, a maior potência comercial do mundo, mas era, politicamente, u m a possessão espanhola, chamada então de "Províncias Setentrionais". Sua burguesia, se não havia participado do movimento inicial d ã s g r a n d e s navegações, que implicaram na "descoberta" de novos territórios por Portugal e E s p a n h a , far-se-ia presente no processo de incorporação da América ao capitalismo mercantil europeu através de sua frota mercante - a maior então existente na Europa - e do controle da distribuição dos produtos coloniais n a q u e l e c o n t i n e n t e . Era p r i n c i p a l m e n t e em seus navios q u e se t r a n s p o r t a v a m as m e r c a d o r i a s q u e c r u z a v a m o Atlântico e e r a m comer-ciantes holandeses que d o m i n a v a m sua distribuição por cidades europeias.

Dessa f o r m a , os interesses h o l a n d e s e s e s t a v a m p r e s e n t e s n a Colônia portuguesa na América, na medida em que a burguesia holandesa financiava - através de empréstimos de capital - a instalação de engenhos de açúcar no Brasil, t r a n s p o r t a v a o produto para a Europa, realizava seu beneficiamento n a s v á r i a s r e f i n a r i a s de a ç ú c a r existentes na Holanda e comercializava-o entre os países europeus.

Esses interesses seriam, e n t r e t a n t o , a b a l a d o s por fatos históricos q u e dizem respeito a acontecimentos políticos na própria Europa e que, em última instância, explicam a presença holandesa no Brasil.

A - p o r - J â A o ú * p o f r J í e c »

0 3 E L o t o ç a

" Usurários eram os negociantes que emprestavam dinheiro a juros, atividade que se desenvolveu, historicamente, ligada ao surgimento do sistema capitalista na Europa e está na origem do sistema bancário de hoje.

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As capitanias da Paraíba e Rio Grande desenhadas pelo artista holandês Franz Post, da corte de Maurício de Nassau, n u m mapa do século XVII.

Em p r i m e i r o lugar, d e v e m o s registrar as lutas pela i n d e p e n d ê n c i a da Holanda em relação à E s p a n h a , q u e se a r r a s t a r a m por mais de 80 anos, a partir de meados do século XVI. Em segundo lugar, a passagem de Portugal para o domínio espanhol em 1580, devido a problemas de sucessão do trono português. Essa passagem deu início ao período conhecido como o da "União das Coroas Ibéricas", que se estenderia até 1640, quando a Coroa portuguesa foi restaurada.

Durante esse período, e reagindo aos movimentos de independência na Holanda, a Coroa espanhola proibiu a burguesia holandesa de continuar ten-do acesso aos produtos das colônias ibéricas da América, entre elas o Brasil.

Na luta q u e essa b u r g u e s i a p a s s a r i a a travar pela m a n u t e n ç ã o de s u a posição no comércio a ç u c a r e i r o , teve g r a n d e i m p o r t â n c i a a f u n d a ç ã o da " C o m p a n h i a das índias Ocidentais", emfÍ621, Formada pela concentração de capitais de numerosos negociantes holandeses, a essa Companhia caberia a conquista de áreas para garantir a continuidade do comércio e navegação holandeses na América.

Dessa f o r m a , foi o r g a n i z a d o o p r i m e i r o a t a q u e h o l a n d ê s às posses de Portugal ^ E s p a n h a na América, ocorrido n a Çahia, sede da capital da Colô-nia, em(Í624. A resistência luso-espanhola, porém, r e u n i n d o u m a esquadra ibérica e reforços de várias capitanias, conseguiu, no ano seguinte, expulsar os holandeses da área.

Entretanto, isso não implicou na desistência da Companhia: expedições de observação, que t i n h a m por objetivo colher informações sobre o território p a r a u m a nova investida, p a s s a r a m a ser e n v i a d a s ao Brasil e em <1630'foi iniciada a çonquista de P e r n a m b u c o , maior área produtora de açúcar então existente no m u n d o . A partir daí, o domínio holandês se estenderia por 24 qnos. incluindo as capitanias v i z i n h a s de Itamaracá, Paraíba e Rio Grande. Antes m e s m o da conquista de P e r n a m b u c o , a C o m p a n h i a definira u m a política de p e r m a n e n t e aproximação e aliança com tribos indígenas locais,

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de f o r m a a facilitar a guerra de conquista. Uma vez estabelecido o p o d e r h o l a n d ê s no Nordeste do Brasil, essa a p r o x i m a ç ã o seria c u i d a d o s a m e n t e preservada e a ela os indígenas responderiam com i n ú m e r a s alianças.

Para a execução e sucesso dessa política, foram fundamentais alguns fun-cionários da Companhia das índias Ocidentais, contratados com esse objetivo. Dentre eles, encontrava-se Jacob Rabè, que atuaria junto aos indígenas do Rio Grande. Falando cinco idiomas (alemão, holandês, português, tupi e Tarairiú), Rabe conviveu com os indígenas durante longo tempo e produziu u m relatório com informações importantes sobre sua cultura, o qual constituiu u m dos ra-ros textos produzidos sobre os indígenas do período e utilizado por diferentes historiadores. Um depoimento existente sobre o período narra que

os t a p u i a s g o s t a v a m dele m a i s q u e d e c e m outros [e q u e ] esse h o m e m intrépido de tal f o r m a se a d a p t a r a a estes selvagens e m s e u s c o s t u m e s e m o d o d e viver, q u e se t o r n a r a c o m o se fosse u m deles, e estes de tal m o d o a ele se afeiçoaram, q u e o fizeram u m d e seus principais capitães.1 5

Data de 1625 o registro da p r i m e i r a i n c u r s ã o dos h o l a n d e s e s e m área mais próxima à capitania do Rio Grande. Nesse ano, u m a esquadra, vinda da Bahia, aportou na Baía da Traição, para abastecer-se de água e alimentos, de onde saiu u m a patrulha terrestre de observação. Dos contatos então estabele-cidos com indígenas Tupi-Potiguara, resultou que alguns deles partiram com os holandeses de volta para a Europa, onde iriam aprender a ler, escrever, seriam c a t e q u i z a d o s , p a s s a r i a m i n f o r m a ç õ e s i m p o r t a n t e s sobre sua terra de origem e serviriam, mais tarde, de intérpretes junto à população nativa.16

O que teria levado esses indígenas a aceitarem a aliança com os holan-deses, ou, em outras palavras, a preferirem os holandeses aos portugueses? Em p r i m e i r o lugar, é preciso c o n s i d e r a r que, do p o n t o de vista indígena, frente à necessidade de conviver com os invasores, fossem eles portugueses ou holandeses, cabia aos i n d í g e n a s a decisão política da aliança que lhes p a r e c e s s e m e n o s d a n o s a ao seu povo e a sua c u l t u r a . Era s e g u n d o lugar, e n q u a n t o a convivência com os p o r t u g u e s e s havia implicado até então em m a s s a c r e s e na escravização indígena, os holandeses r e c o n h e c e r a m e ga-rantiram, oficialmente, o direito dos índios à liberdade.

Em 1631, q u a n d o já havia sido iniciada a conquista da capitania de Per-nambuco, u m indígena "tapuia" denominado Marciano (ou Marcial, segundo

^ D e p o i m e n t o de Roelof Baro - também funcionário da Companhia em contato com indígenas "tapuia" - , traduzido para o francês por Pierre Moreau em livro publicado em 1651, citado por Olavo de Medeiros Filho (No rastro dos flamengos, p. 41). Rabe constituiu família entre os indígenas e estabeleceu-se em uma propriedade no vale do Ceará-Mirim, onde criava gado e possuía escravos negros.

16 Estavam, entre os índios embarcados para a Holanda, "Gaspar Paraupaba, então de 50 anos, André Francisco, de 32 anos, ambos do Ceará, Pieter Poty, Antônio Guiravassauay, Antônio e Luís Gaspar, todos da Baía da TVaição" (MELLO, J. A. G. de. Tempo dos Flamengos, p. 198). Os prenomes em língua europeia são indicativos do batismo desses indígenas no cristianismo. Observe-se que, nesta etapa de nossa história, dezenas de indígenas foram levados para a Europa, muitos tendo lá permanecido e outros tantos tendo retornado à terra de origem. Sobre eles e essa sua experiência pouco sabemos, uma vez que os registros escritos são raros e mesmo assim de autoria europeia.

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a l g u n s autores) se apresentou ao Conselho Político Holandês daquela capi-tania e propôs u m a aliança, em nome dos chefes indígenas do Rio Grande, N h a n d u í e Oquenou.

Pelos registros históricos existentes, não podemos determinar se Marcia-no estivera entre aqueles indígenas q u e viveram d u r a n t e a l g u m tempo na Holanda. Isso, entretanto, é b a s t a n t e provável, considerando-se o papel que desempenhou como intermediador de u m a aliança necessária aos holandeses e desejada por g r u p o s nativos. Da m e s m a forma, n ã o foi possível até hoje precisar q u e tribos i n d í g e n a s e r a m chefiadas por N h a n d u í e O q u e n o u . O ponto sobre o qual os historiadores não têm dúvidas é que foram, sobretudo, g r u p o s i n d í g e n a s d o s e r t ã o - c h a m a d o s na é p o c a d e "Tapuia" - q u e se a l i a r a m m i l i t a r m e n t e aos h o l a n d e s e s . Ainda n ã o atingidos pelo processo de c a t e q u e s e católica, a i n d a n ã o tendo perdido s u a s terras, conhecedores do resultado d r a m á t i c o da convivência e n t r e os b r a n c o s p o r t u g u e s e s e os indígenas do litoral, esses "Tapuia" o p t a r a m por u m a aliança, apresentando u m valor militar que foi sabiamente utilizado pelos holandeses nos tempos de guerra em q u e se vivia. > . ^

Ao final daquele mesmo ano d e(s ^ Q o c o r r e u a primeira tentativa

holan-desa de conquista do Forte dos Reis Magos; tentativa essa infrutífera, visto q u e a resistência a r m a d a p o r t u g u e s a fez retroceder a e s q u a d r a holandesa a P e r n a m b u c o . Dessa e s q u a d r a f a z i a m p a r t e a l g u n s indígenas, como Mar-ciano, que teriam a f u n ç ã o de intermediar o contato com diferentes tribos.

O Rio G r a n d e foi e f e t i v a m e n t e i n c o r p o r a d o ao d o m í n i o h o l a n d ê s e m (1633, q u a n d o u m a expedição o r g a n i z a d a com esse objetivo - composta por o n z e embarcações e 808 soldados - dirigiu-se à capitania. Aqui chegando, p a r t e da tropa desembarcou em algum trecho do litoral compreendido entre a Cidade do Natal e o n d e é hoje a praia de Ponta Negra. Avançando pela praia, dirigiu-se ao Forte e, posicionando-se n a s d u n a s próximas, iniciou u m ataque de a r t i l h a r i a terrestre, complementado com u m a investida por mar. Incapazes de resistir, os portugueses se renderam. O forte, que recebeu a d e n o m i n a ç ã o holandesa de Castelo de Ceulen, passou a ser comandado pelo capitão Joris G a r t s m a n , q u e recebeu "munições, víveres, oficiais, trabalha-dores, 150 soldados e 70 fuzileiros para as expedições em terra".''

Essas expedições em terra eram f u n d a m e n t a i s para a expansão territorial d a c o n q u i s t a h o l a n d e s a e s u a c o n s o l i d a ç ã o , a s s i m c o m o p a r a g a r a n t i r o abastecimento p e r m a n e n t e de á g u a e comida. Assim, u m a vez conquistada a Cidade do Natal - cuja d e n o m i n a ç ã o passaria a s e r ^ N o v a Amsterdã" - a f r e n t e h o l a n d e s a dirigiu-se p a r a a outra povoação então existente na capi-tania, cujo e n g e n h o constituía toda a sua riqueza - a. povoaçao de Cunhaú, C o n t a n d o c o m u m p e q u e n o forte a p a r e l h a d o com c a n h õ e s de ferro, q u e b e m indicam a i m p o r t â n c i a demográfica, militar e econômica da povoação, a resistência p o r t u g u e s a aí ocorrida implicou e m cojubàtes q u e n ã o conse-g u i r a m impedir o processo de conquista, no a n o de 1634}

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Do ponto de vista da administração, capitania do Rio Grande passou a ser s u b o r d i n a d a à Paraíba, q u e constituía u m a das q u a t r o "províncias" n a s q u a i s se dividiram os domínios holandeses. O poder político local foi constituído por u m a "Câmara de Escabinos", composta por u m representante holandês - o "esculteto" - e dois portugueses, ou seus descendentes, nomea-dos pelo Supremo Conselho Político Holandês. A Câmara seria responsável pela administração, justiça, fazenda e segurança da capitania.

Essa forma de administração, comum a outras áreas sob o controle ho-landês, é representativa da estratégia adotada pelos novos conquistadores na convivência com os proprietários rurais e senhores de engenho. Conside-rando-se que à C o m p a n h i a das índias Ocidentais interessava, sobretudo, o lucro gerado pela cana-de-açúcar, motivo último da invasão, era necessário garantir a c o n t i n u i d a d e da produção e comércio dessa mercadoria. Nesse sentido, o poder holandês lançou proclamas à população sob seu domínio, declarando que as propriedades seriam respeitadas, que seriam feitos em-préstimos em dinheiro para r e c o n s t r u ç ã o daqueles e n g e n h o s q u e h a v i a m sido d e s t r u í d o s n a s lutas e para a compra de escravos a f r i c a n o s , e que os impostos de exportação teriam seu valor diminuído. Além disso, a Compa-n h i a prometia respeitar a liberdade de culto da população local.

Figura 6 - Mapa holandês retratando a conquista do Forte dos Reis Magos.

Em troca, esperavam u m a convivência pacífica, ou seja, a cessação de q u a l q u e r forma de resistência. A conciliação daí decorrente entre os inva-sores e os s e n h o r e s de e n g e n h o p o d e ser explicada pelo interesse desses

" No século XVI, a burguesia holandesa - ao contrário da portuguesa, que se manteria fiel à Igreja Católica de Roma - havia aderido aorp alvinismo, L m a das seitas protestantes que tiveram origem na grande cisão do cristianismo europeu conhecida como Reforma - iniciada por Martim Lutero na Alemanha - e que iria pôr fim à hegemonia da Igreja Católica de Roma na Europa.

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últimos em manter, o quanto possível, o poder econômico e político até então d e s f r u t a d o por eles na Colônia. De qualquer forma, os senhores tiveram de submeter-se a a l g u m a s exigências holandesas, tendo sido

Figura 7 - Nos engenhos de açúcar era produzida a principal mercadoria da Colônia. (Engenho de açúcar)

p r o i b i d o s d e m a r c a r os e s c r a v o s [permitiu-se-lhes castigá-los c o m chicote, vara e correia d e couro, u s a r o tronco e correntes W ' n o pescoço e n a s p e r n a s , c a b e n d o à a u t o r i d a d e pública, depois í ^ d e c e r t o s t r â m i t e s , a d e c i s ã o s o b r e a m u t i l a ç ã o d e a l g u m !m e m b r o , m a r c a ç ã o a ferro e a m o r t e ] , d e d e r r u b a r c a j u e i r o s . ' 4 / [visto q u e o s e u f r u t o é u m i m p o r t a n t e s u s t e n t o d o s índios], d e jogar b a g a ç o d e c a n a ao rio [o q u e estraga as á g u a s e c a u s a sérias moléstias] e, pior d e t u d o , obrigados a plantar m a n d i o c a [eles q u e só se o c u p a v a m c o m plantar c a n a ] . '9

Com relação àqueles e n g e n h o s que h a v i a m sido a b a n d o n a d o s por seus proprietários no decorrer da guerra de conquista, a C o m p a n h i a estabeleceu q u e d e v e r i a m ser confiscados e vendidos a crédito a p a r t i c u l a r e s q u e por eles se i n t e r e s s a s s e m . No Rio Grande, o ú n i c o e n g e n h o de a ç ú c a r e n t ã o existente - o C u n h a ú - pertencia a Antônio de Albuquerque, u m dos filhos de Jerônimo de Albuquerque Maranhão. Tendo Antônio e seu irmão Matias se refugiado em Portugal, naquele mesmo ano de 1634, o engenho, que contava então com trinta escravos negros, foi confiscado e adquirido, inicialmente, por Joris G a r t s m a n , que casou-se com u m a m u l h e r da terra e era o capitão holandês do Forte dos Reis Magos, e u m seu sócio, em 1637/°

"MELLO, J. A. G. de. Tempo dos flamengos, p. 137 e 234.

20 Conforme os documentos da época, a união entre holandeses e mulheres da terra, fossem elas de origem portuguesa ou indígena, foi bastante comum, especialmente na capitania do Rio Grande.

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Se a c a p i t a n i a do Rio Grande era b a s t a n t e inferior à de P e r n a m b u c o e m t e r m o s de e x t e n s ã o e i m p o r t â n c i a da atividade a ç u c a r a r a , por outro lado, a p r e s e n t a v a u m a atividade criatória i m p o r t a n t e : o gado; existente, espalhando-se pelos campos da área povoada pelos brancos, já era enviado para as capitanias v i z i n h a s ao sul, abastecendo-as de c a r n e e força motriz para os engenhos. Seria por esse gado, sobretudo, que os holandeses iriam se interessar. Assim, há registros de que já em 1631, por ocasião da primeira tentativa de conquista do Forte dos Reis, cabeças de gado existentes em áreas ao norte da Cidade do Natal foram apropriadas pela tripulação da expedição m a r í t i m a que havia sido enviada à capitania.

O conde João Maurício de Nassau, que a partir de Recife governou o Brasil holandês por sete anos, visitou Natal em n u m relatório enviado ao Supremo Conselho Político Holandês em 1638, dizia:

y «

V

A

[O Rio Grande] t e m v a s t a s e d i l a t a d a s terras, q u e pela m a i o r parte se a c h a m inabitadas e desertas, pois o Rio Grande não t e m p o v o a d o s mais do q u e 10 o u 12 léguas ao norte do rio Grande [rio Potengi], d o n d e esta capitania tira o n o m e [...] tem s o m e n t e u m a cidade d e n o m i n a d a Natal, sita a légua e meia do Castelo C e u l e n , rio a c i m a , a q u a l a g o r a se a c h a d e c a í d a [...] Nesta

capitania os moradores se ocupam principalmente com a criação de gado que ali existia em abundância; a guerra o reduziu muito e fê-lo selvagem, mas trata-se de amansd-lo com toda a diligência e de levá-lo aos currais. O Rio Grande já está dando muito gado, que é conduzido para Paraíba, Itamaracá e Pernambuco, onde serve, quer para o corte, quer para trabalharem nos carros e engenhos.21 [Grifo nosso].

D o ^ m d í g e n a s que habitavam a faixa litorânea das capitanias conquis-tadas - como os Tupi-Potiguara no Rio Grande - , os holandeses esperavam, provavelmente, não só o apoio nos combates com forças portuguesas, mas t a m b é m o apoio em termos de provê-los de mantimentos, fossem caça e pes-ca, ou m ã o de obra na criação de rebanhos e plantio de roças. Dessa forma, aldeias de indígenas aliados foram subordinadas às autoridades holandesas. Nesse processo de aldeamento forçado, não faltou a tentativa holandesa de catequese calvinista, sempre u m precioso i n s t r u m e n t o de dominação das populações nativas.

Essa tentativa, contudo, foi fruto da ação individual de alguns missioná-rios voluntámissioná-rios que percorriam as aldeais. Em 1642, o governo holandês pro-curou estabelecer u m a política definida de catequese. Essa política, voltada para as crianças indígenas, determinava a seleção de algumas crianças, que seriam separadas de seus pais e enviadas para u m a escola na capitania de Pernambuco. Tal decisão esteve na origem de revoltas, como aquela ocorrida no Ceará, 1644, contra os holandeses. No que diz respeito à capitania do Rio Grande, não há registros seguros de que tenha sido visitada por missionários.

21LYRA, A. Tavares de. História do Rio Grande do Norte, p. 177-178. Nessa viagem à sede da capitania do Rio Grande, Nassau se fez acompanhar de Franz Post, um dos pintores holandeses que compunham um grupo de artistas e cientistas que o conde trouxe para o Brasil. Post retratou com sua pintura paisagens da capitania nesse período, deixando-nos registros históricos preciosos.

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Embora, oficialmente, o governo h o l a n d ê s t e n h a proibido o t r a b a l h o escravo indígena, a exploração da população dessas aldeias tupis da faixa litorânea - principalmente aquelas geograficamente distantes de Pernambuco e longe da fiscalização - , era b a s t a n t e c o m u m , por p a r t e das autoridades locais holandesas encarregadas de sua administração.

Figura 8 - Os indígenas Tupi foram os primeiros nativos a sofrer o impacto da cultura europeia. (Mulher tupi)

Os c o n f l i t o s q u e r e s u l t a r a m dg^se c o n v í v i o d e r a m o r i g e m a u m a assembleia de chefes i n d í g e n a s em(l64j!S na qual ficou d e t e r m i n a d o que, a partir de então, as aldeias existentesTormariam "grupos de aldeias" que s e r i a m dirigidos, c a d a u m deles, por u m chefe i n d í g e n a , s e m a n u l a r os representantes do poder holandês. Para as aldeias potiguares da capitania do Rio Grande, foi escolhido Antônio Paraupaba. Seria ele filho de Gaspar Paraupaba que estivera na Holanda em 162S?"

22 Segundo Cascudo (História do Rio Grande do Norte, p. 67), a aldeia de Itapecerica, onde se realizou a assembleia indígena, teria se localizado onde é hoje o município de Mamanguape, na Paraíba. Ainda segundo esse autor, à p. 67, as aldeias indígenas de Tupi-Potiguara na capitania do Rio Grande seriam seis, assim localizadas: Mipibu, Papari, Igapó, Pirangi, Goianinha e Taipu. Augusto Tavares de Lyra, em seu livro Domínio holandês no Brasil, especialmente no Rio Grande do

Norte, p.82, considera que essa assembleia teria ocorrido no vale do rio Ipojuca, em Pernambuco.

José Antônio Gonçalves de Mello, em sua obra Tempo dos flamengos, p. 215, afirma que "não possuímos até agora dados completos para a localização das aldeias principais - as estáveis - dos índios aliados dos holandeses".

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No sertãcjS a relação entre holandeses e indígenas teve características diferen-tes. Como í presença holandesa na capitania se restringiu a uma estreita faixa litorânea - que ao norte chegava até o vale do rio Maxaranguape e a oeste até o atual município de Macaíba - , o sertão continuou desconhecido pelo branco europeu e sob domínio absoluto da população nativa. Apenas alguns agentes da Companhia das índias Ocidentais, como Jacob Rabe, chegaram a conhecê-lo, no papel a eles destinado de aproximação com os indígenas. Pela figura 9 podemos observar a área conquistada pelos brancos europeus e sob o controle holandês nesse período, aproximadamente. Assim, os chamados "Tapuia"

t r a t a v a m o s s e u s a l i a d o s b r a n c o s d e i g u a l p a r a i g u a l . N h a n d u í d e s u a t a b a e n v i o u a o C o n s e l h o [Holandês] p l a n o s e s u g e s t õ e s p a r a v e n c e r a revolta d o s p o r t u g u e s e s [ a t r a v é s d e J a c o b R a b e ] . E r a m , p o r é m , a l i a d o s t ã o " f e r o z e s " q u e às v e z e s m a i s p a r e c i a m i n i m i g o s ; p r o c u r a v a s e s e m p r e m a n t ê -los o m a i s a f a s t a d o p o s s í v e l d a s z o n a s h a b i t a d a s ; q u a n d o d e s c i a m d o Rio G r a n d e e m direção a P e r n a m b u c o o g o v e r n o m o v i m e n t a v a - s e i m e d i a t a m e n t e : c o m p e d i d o s i a m p r e s e n t e s p a r a q u e t o r n a s s e m à s s u a s terras. A s s i m , p o r e x e m p l o , e m 1639, q u a n d o N h a n d u í com 2.000 tapuia - h o m e n s , m u l h e r e s e m e n i n o s - a p r o x i m o u - s e d o p o v o a d o do Rio Grande, c a u s a n d o g r a n d e s d a n o s a o s m o r a d o r e s . C o m a m a i o r s e m - c e r i m ô n i a i a m a r r a n c a n d o as roças, n o v a s e velhas, q u e e n c o n t r a v a m . O Conselho d e s p a c h o u logo os filhos d e N h a n d u í q u e se a c h a v a m n o Recife, r e c o m e n d a n d o - l h e s q u e fizessem voltar os s e u s para o lugar d o n d e h a v i a m procedido; q u a n d o f o s s e m n e c e s s á r i o s seriam c h a m a d o s .2 3

A partir dé\^64(}í com a restauração do trono português, novas alianças foram feitas na Europa, com repercussões sobre as áreas coloniais. Portugal, saindo do domínio espanhol, assinou u m tratado de paz e a m i z a d e com a Holanda, que tornou os dois países aliados e em oposição à Espanha.

Apesar dessa aliança, o território holandês no Brasil continuou existin-do, m a s seus dias estavam contados: os proprietários rurais, sobretudo os senhores de e n g e n h o de P e r n a m b u c o , que se endividavam cada vez mais com comerciantes e usurários holandeses, p a s s a r a m a preparar, à surdina, a chamada/lnsurreição P e r n a m b u c a n a , | t o n s e g u i n d o ajcmas e munições e in-centivando a população em geral a aderir à luta. Em'\1645)eclodiu o primeiro combate, próximo a Recife, iniciando u m a guerra que se arrastaria durante anos, alastrando-se por todo o território holandês na Colônia.

Na capitania do Rio Grande, nesse contexto de lutas e ameaça de perda dos territórios conquistados por parte da Holanda, a povoação de Cunhaú foi atacada sob o c o m a n d o de Jacob Rabe, a c o m p a n h a d o de indígenas Tapuia e, provavelmente, soldados holandeses. Alguns sobreviventes juntaram-se a outros colonos portugueses e ergueram, então, u m arraial -.'UruaçuJ- onde,

2J MELLO, J. A. G. de. Tempo dos flamengos, p. 204-205.

O

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a r m a d o s , e s b o ç a r a m u m a luta de resistência, que terminou com a rendição às forças holandesas.

Em 1646, tendo Jacob Rabe sido assassinado, os indígenas "Tapuia", que até então haviam se mantido aliados dos holandeses, quebraram sua aliança e c o m e ç a r a m a refluir para o sertão. Perdiam os holandeses u m forte apoio militar."

Figura 9 - Territórios da capitania do Rio Grande: área conquistada pelos europeus, aproximadamente, durante o período holandês

24 A localização do arraial de Uruaçu é controversa. Provavelmente, ele esteve localizado onde é hoje o município de Macaíba. Arraial era uma denominação comum, nessa época, para designar as povoações temporárias que se formaram no processo de resistência e luta contra os holandeses. 25 Jacob Rabe, como provavelmente outros funcionários da Companhia que desempenharam a

mesma função, usufruiu de sua posição privilegiada. Contra ele pesavam acusações d e insuflar periodicamente ataques indígenas contra a população da capitania e de se apropriar do produto de saques. Em função dessas denúncias, a Companhia das índias Ocidentais, através do Alto Conselho do Recife, ordenou sua demissão do cargo e autorizou sua prisão em 1643, o que no entanto não chegou a ocorrer. Rabe foi assassinado a mando de Joris Garstman, militar holandês.

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Figura 10 - Negros e mestiços foram incorporados n a s guerras holandesas. (Soldado)

As forças p o r t u g u e s a s , g a n h a n d o t e r r e n o em P e r n a m b u c o e P a r a í b a , avançaram para o Rio Grande. Aqui, iriam utilizar a mesma tática militar de "terra arrasada" que caracterizou a ação portuguesa no processo de expulsão dos h o l a n d e s e s do Brasil. Essa tática consistia n a d e s t r u i ç ã o , através de incêndios, de c a n a v i a i s e e n g e n h o s de açúcar. As m e d i d a s t o m a d a s pelo Alto Conselho de Recife, empregando soldados.holandeses para evitar essa d e s t r u i ç ã o , revelaram-se inúteis. Assim, e m 1647, n u m a t a q u e p o r t u g u ê s à p o v o a ç ã o de C u n h a ú n o Rio G r a n d e , seu e n g e n h o foi c o m p l e t a m e n t e destruído, seu gado s e q ü e s t r a d o e muitos prisioneiros foram levados para Pernambuco, "principalmente escravos foragidos e mulheres extraviadas".

Os combates na capitania prosseguiram com novos ataques ao engenho C u n h a ú - c o m a n d a d o s por André Vidal de Negreiros e Henrique Dias - e a u m fortim holandês, então existente na lagoa de Guaraíras - atual município de Arez - , em 1648, onde encontravam-se entrincheirados soldados, índios e negros.

Foi depois ^ a n o s de lutas encarniçadas que os holandeses se renderam em Recife, e m y 6 5 4 ) sendo definitivamente expulsos do Brasil. Nesse mesmo ano, o Forte dos*Reis Magos, no Rio Grande, foi retomado pelos portugueses. O que aconteceu aos grupos indígenas - fossem do litoral ou do sertão, da capitania de Pernambuco, Paraíba ou Rio Grande - que fizeram a opção

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política pelos holandeses e a eles se aliaram? Existem poucos registros histó-ricos e pouca menção nos livros de história. Certo é que, frente à retomada do poder colonizador pelos portugueses, milhares desses indígenas, temerosos do revide lusitano, q u e e f e t i v a m e n t e p a s s o u a ocorrer, r e f u g i a r a m - s e n a Serra do Ibiapaba, no atual estado do Ceará. Membros de diferentes grupos e t r i b o s p a r a aí m i g r a r a m , c a r r e g a n d o s u a experiência do contato com os b r a n c o s europeus.

Não t a r d a r a m os p o r t u g u e s e s em tentar penetrar nesse foco de resistên-cia: d u r a n t e toda a s e g u n d a m e t a d e do século XVII, mais especificamente entre 1656 e 1690, várias missões jesuíticas procuraram se instalar na Serra, a partir do M a r a n h ã o , o q u e efetivamente só viria a ocorrer em 1695. Nesse processo, teve papel d e s t a c a d o o p a d r e Antônio Vieira, jesuíta célebre n a Colônia e no Reino de Portugal por sua ação política contrária à escravização indígena por p a r t e de colonos portugueses.

Pela d o c u m e n t a ç ã o histórica existente, não é possível sabermos se An-tonio Paraupaba, ex-chefe das aldeias indígenas do Rio Grande, estava entre os que m i g r a r a m para o Ceará. Sobre esse personagem histórico, entretanto, existem registros q u e relatam sua viagem à Holanda, em 1654, onde fez u m a exposição ao governo holandês p e d i n d o ajuda para os indígenas ex-aliados, que n a Serra do Ibiapaba estavam agora vulneráveis aos ataques punitivos dos p o r t u g u e s e s . Inútil v i a g e m : aos interesses m e r c a n t i s h o l a n d e s e s não mais interessava essa aliança."

2' e mai 6 5 4e m A"e X 0 C' 3 ^ d°C U m e n t 0 d e A n , ô n i o p* ™ P a b a dirigido ao governo holandês Figura 11 - A Fortaleza dos Reis foi c h a m a d a de Castelo de Ceulen durante o período holandês

Referências

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