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A contestação inglesa à Companhia em 1777

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CEPESE

CENTRO DE ESTUDOS DA POPULAÇÃO

ECONOMIA E SOCIEDADE

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A

POPULAÇÃO E SOCIEDADE

A COMPANHIA E AS RELAÇÕES ECONÓMICAS

DE PORTUGAL COM O BRASIL

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Título

POPULAÇÃO E SOCIEDADE – n.º 16 / 2008

Edição

CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade / Edições Afrontamento

Rua do Campo Alegre, 1055 4169-004 Porto Telef.: 22 609 53 47 / 22 600 15 13 Fax: 22 543 23 68

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Capa: João Machado Design

Execução gráfica: Rainho & Neves, Lda. / Santa Maria da Feira Tiragem 500 exemplares

Depósito legal n.º 94133/95 ISSN 0873-1861-16

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A CONTESTAÇÃO INGLESA À COMPANHIA

EM 1777

António Barros Cardoso

A instituição da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro revestiu-se de contornos que têm ocupado os historiadores do Vinho do Porto de há duas décadas a esta parte. Não é matéria esgotada, bem pelo contrário, à medida que se vai abandonando uma certa visão histórica construída com base num apego pouco crítico ao documento ou documentos de criação do instituto pombalino, muitas são as questões que se têm levantado sobre as suas origens. Vertente importante desta problemática é a da contestação inglesa às compe-tências que foram entregues ao instituto responsável pela instituição e regula-mentação de uma das regiões demarcadas mais antigas do mundo, que faz agora 250 anos.

Não vamos aqui historiar em pormenor as circunstâncias da fixação no Porto de mercadores ingleses no Porto. Lembramos que elas remontam a tempos medievais. Ajudaram a regularidade das trocas entre as cidades do sul de Ingla-terra e a cidade do Porto, bem como a proximidade que resultou numa comple-mentaridade comercial que se foi afirmando ao longo da Época Moderna. Esta assentou da parte inglesa em cereais, bacalhau, matérias-primas como o linho e o carvão e produtos manufacturados. Do lado do Porto fincou-se primeiro no sumagre e nas frutas durienses, depois nos produtos coloniais que o Porto rece-bia, com destaque para o tabaco e sobretudo para o açúcar brasileiro de que a urbe nortenha foi plataforma distribuidora no século XVII. É já nessa altura que surgem os vinhos durienses no mercado inglês. Na transição para o século XVIII as circunstâncias políticas que obrigam a Inglaterra ao conflituar quase perma-nentemente com a França e a quase abandonar a tradicional importação do vinho francês1determinaram a fixação no Porto de um apreciável número de merca-dores ingleses quase exclusivamente interessados no trato dos vinhos. De resto, fazem-no em monopólio face à reduzida dimensão comercial dos seus concor-rentes nacionais ou estrangeiros de outras nacionalidades2.

A CRIAÇÃO DA COMPANHIA POMBALINA REPRESENTOU UM PRIMEIRO ABANÃO NO MONOPÓLIO INGLÊS

Em 1756, a instituição da Companhia foi um duro golpe na estratégia comercial que os ingleses fixados no Porto tinham montado pacientemente ao

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longo de mais de meio século. Ancorados no monopólio do trato dos vinhos durienses, as companhias britânicas transformaram-se em dominadoras da eco-nomia portuense e a partir daí controlaram boa parte da ecoeco-nomia regional e por consequência uma fatia razoável da economia portuguesa de meados do século XVIII. Não queremos com isto dizer que estivesse por detrás da criação do instituo pombalino uma estratégia de reserva de todo o comércio inglês na cidade do Porto para mãos nacionais. Tal não era possível face ao papel funda-mental que os britânicos alcançaram enquanto agentes dinamizadores do comércio regional. O Porto, o Douro e todo o norte de Portugal estavam dema-siado dependentes dos produtos que eles faziam entrar pela barra do Douro3. Mas, se não foi esse o propósito, pelo menos no que respeita à principal âncora dos seus negócios no Porto, o vinho, os poderes que o alvará de instituição atri-buiu aos órgãos de gestão da Companhia, colidiam fortemente com os interes-ses dos britânicos. De resto, a sua reacção não se fez esperar e sabemo-los logo em Fevereiro de 1757, pelo menos indirectamente envolvidos nos motins do Porto4. De resto, ainda o alvará não estava promulgado, em Agosto de 17 de Agosto de 1756, pouco tempo antes da nomeação de John Withehead como Cônsul britânico no Porto, o embaixador inglês em Lisboa declarava intenção de protestar junto do governo português contra o projecto da Companhia por-que excluía os britânicos do comércio de vinhos para o Brasil, protesto por-que foi expresso pela Feitoria do Porto, em 13 de Setembro, ou seja, dois dias após a publicação do alvará que instituía a Companhia5.

Apesar das garantias formais de Sebastião José de Carvalho e Melo ao governo de Londres, através do embaixador em Lisboa, de que a Companhia tinha apenas por missão impedir a adulteração dos vinhos de qualidade produ-zidos no Douro e comercializados pelos ingleses do Porto e de que não iria con-tra os seus interesses, a verdade é que os britânicos desconfiavam dessas boas intenções portuguesas. Em Outubro de 1756 anunciaram a publicação de um manifesto contra a Companhia que nos inícios do ano seguinte chega ao gabi-nete do Ministro de D. José I. Acorda-se então na vinda de um enviado do rei Jorge II, com a especial finalidade de tratar de tais negócios, o que só vem a suceder em inícios de 1760, quando chega a Lisboa o Conde de Kinnoul. O objectivo foi o de forçar a alterações nas competências da Companhia por força da letra dos tratados luso-britânicos6Tais protestos referiam-se aos artigos do alvará de 1756 que mais afectavam a intervenção negocial dos ingleses em torno dos vinhos do Douro a saber: A demarcação das terras do Douro produ-toras de vinhos de embarquem (art.º 29.º); A exigência de guias de circulação dos vinhos de embarque (artigos 30º e 31.º; A fixação dos preços estáveis para vinhos de embarque ou e ramo (art.º 14.º e 33.º); A garantia do exclusivo do mercado brasileiro para a Companhia; O direito de requisição por parte da Companhia de barcos, carros, armazéns e trabalhadores para a prossecução do seu objecto (art.º 9.º). Finalmente, mostra-se receoso dos excessivos poderes do Juiz Conservador da Companhia7. A resposta portuguesa, ponto por ponto, não cedeu em nenhum dos propósitos que animavam o embaixador extraordinário

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em Lisboa. O contraditório, foi atento e bem fundamentado pelo Secretário de Estado D. Luís da Cunha, citando o autor que seguimos na afirmação da

dig-nidade de um Reino8

A “VIRADEIRA” MAIS UMA OPORTUNIDADE PARA OS INGLE-SES OPOSITORES DA COMPANHIA

Após a morte de D. José I, aproveitando as condições favoráveis geradas pela posição política de D.* Maria I, em tudo contrárias aos propósitos pom-balinos, os detractores da Companhia abraçaram com fé a causa de lhe por fim. É certo que a forma de alguns documentos que essa vontade gerou, certamente que tomou proporções exageradas Mas neles haverá certamente alguma auten-ticidade. Um desses documentos encontra-se nos fundos manuscritos da Biblioteca Nacional da Ajuda e em relação à Companhia declara o objectivo de “…fazer caducar os motivos da sua existência…” porque se considera não ser lícito conservar “…hum bem (que na verdade he hum mal) com tanto detri-mento do Povo”9.

Razões:

É que, segundo o documento, antes da criação da Companhia muitos nego-ciantes conseguiram grandes cabedais só com o negócio dos vinhos de Feito-ria. “…sem terem as inauditas vantagens…” de que a instituição pombalina gozava “…de os comprar, e vender pelo preço que lhe parece de taxa-los, de qualifica-los, de escolhe-los, de obrigar os seus devedores executivamente, de fazer os pagamentos quando muito quer, de pagar mal os direitos particulares e de se utilizar em fim de todas aquellas muitas convencionais industrias que lhe facilita a sua isenção e a exorbitancia da sua autoridade, e a natureza do mono-pólio”10. Interrogava-se o autor: “Em que paiz e em que religião se consente semelhante negociação? e em que moral ainda a mais relaxada, se desculpará a demora dos pagamentos, que sobre os damnos, que motiva dá occasião a hum ganho illicito?...”11

A Companhia é assim acusada de se demorar nos pagamentos aos lavrado-res, retirando daí benefícios. Denuncia que os lavradores de Sima do Douro pagavam 15% de comissão a quem no Porto se encarregava de receber tais pagamentos, para não perderem muitos dias quando vinham pessoalmente arrecadá-los. Não faltava quem desconfiasse que alguns membros da Compa-nhia estavam interessados nesse torpe negócio e que ela “…para o fazer bom demora de proposito os ditos pagamentos.”

Mais se acusa a Companhia de obter ganhos de 100% no negócio das “…agoas ardentes de prova de escada…” que eram postas nos seus armazéns a 48$000 réis a pipa livres de toda a despesa e que eram vendidas a perto de 100$000 réis12.

Outra acusação directa é a de que a Companhia obtinha lucros ainda maio-res com a adulteração de vinhos que vendia para as tabernas do Porto e

arre-A CONTESTarre-AÇÃO INGLESarre-A À COMParre-ANHIarre-A EM 1777

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dores13. Como é sabido, o monopólio da venda de vinhos nessa área, incluía os vinhos verdes. Neste caso diz-se que depois de os classificar, sem os levantar da mesma adega, os vendia “…aos seus mesmos donos pelo triplo e quadruplo do primeiro preço porque os ajustou sem ainda os ter pago…”, situação que acontecia também com as aguardentes14.

Critica-se-lhe a liberdade de “…levantar o preço do vinho das tavernas contra as promessas da instituição…” e a prática fraudulenta de “…na qualifi-cação dos vinhos dentro das agoas da demarqualifi-cação…” incluir “…na ametade dos de Ramo, os melhores, para os extrahir aos Compradores Estrangeiros, e ficar com elles…”. Mais, ainda por cima, mandava buscar às adegas o vinho que tinha ajustado comprar “… em toneis de vinte e seis e vinte e sete almudes com a dollosa apparencia de serem pipas de vinte e hum almudes…”15.

Diz-se que todos estes artifícios visavam obrigar os estrangeiros a compra-rem os vinhos da companhia já que a sua actividade se fundava “…Leis publi-cas… e… avisos e cartas secretas que nunca sahirão das escusas sombras do seu Cartório…” e que gozava “… do extraordinario direito de eleger hum Juiz Conservador…” que defendia os seus privilégios e protegia os seus empreen-dimentos acabando por “…legitimar o seu despotismo…”16.

A questão do livre comércio, tão cara aos britânicos, é desenvolvida neste documento. Acusando a Companhia ter “…autoridade de emendar absurdos, com outros maiores absurdo, não dando aos Lavradores, cujas terras estiverão dentro da primeira Demarcação, os devidos pagamentos, sem que declarem nos seus recibos, que lhe venderão os seus vinhos pelo preço dos de Ramo; porque assim o quizerão e pedirão…”. Argumenta-se que mesmo que fossem reais os prejuízos da Companhia com o alargamento da área demarcada (demarcações marianas) tais prejuízos não poderiam ser provenientes senão “…dos gastos supperfulos, que faz … ou do empate dos vinhos pela falta de consumo…”. Recomenda-se pois que se os problemas “… nascem dos gastos, resolva-se a Companhia a observar a economia, que he propria a huma sociedade de merca-dores; sem asseitar as exterioridades de hum Tribunal Supremo: se nascem do empate, extinga-se a Companhia, pois so ella he a cauza de tanto damno…”17. Como é comum em boa parte dos textos desta época, a repetição de assun-tos é comum. Por isso, o seu autor volta à questão do monopólio da aguardente para salientar que antes de criado o monopólio pombalino “…A fartura d’ellas, e o seu commercio fazião subsistir muitas familias, e facultavão aos Lavrado-res hum meio util de se desonerarem dos vinhos, que pela muita abundancia ou pela sua má qualidade não podião commodamente vender…”. Estas vantagens perderam-se desde que a Companhia se havia apropriado do seu comércio. Os lucros de 100% que obtinha no género, fez diminuir a sua exportação em 50%. Contudo, afirma denunciante, não parece preocupar-se com isso. Como qual-quer monopólio “…ella qual-quer comprar pouco e ganhar muito, e pertende equi-librar a qualidade do genero com a limitada somma das suas compras…”18.

Para além do monopólio das aguardentes, o monopólio dos vinhos, aguar-dentes e vinagres para o Brasil também não corria da melhor forma. O

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ciante fala em decadência. “…Quando havia a justa e necessaria liberdade de comprar e carregar vinhos” uma pipa de vinho vendia-se nos portos do Brasil a 25$000 réis19. “Esta util barateza fommentava o commercio porque facilitava a venda do genero: porem agora, que a Companhia, ou por não querer ou por não poder, vende nos ditos portos a pipa por perto de 100$000 réis…” as expor-tações têm diminuído tanto que os navios se vêm obrigados a completar as car-gas com bacalhau inglês, azeite e muitas vezes com lastro de areia e pedra20.

O crítico da Companhia aponta como principal consequência a diminuição das importações de géneros do Brasil e das exportações com o mesmo destino e a consequente diminuição considerável das receitas fiscais21 “…basta con-frontar nos livros da Alfândega e Consulados as actuaes entradas e sahidas res-pectivas ao Brasil com as que se fazião antes do Estabelecimento da Compa-nhia”, assegura.

As exportações de vinhos do Douro e aguardentes para Lisboa, também diminuíram depois da criação da Companhia22.

O autor do documento, detém-se depois no perfil de quem defende a manu-tenção da Companhia e arrasa: “…são os que tem ocupaçoens e empregos ren-dosos na mesma… são os inadvertidos que por não terem examinado a mate-ria, crêm seriamente que a Companhia he util: são os preocupados que não duvidando ser hum bem a Companhia, imaginão erradamente que he licito per-mitir destroços em contemplação d’este fingido bem: são os rudes, que ignorão o que pedem, e não conhecem os seus proprios interesses: são os superficiaes, que não sabem o que dizem nem entendem o que se lhes diz: são os habitado-res da Demarcação que se consideram felizes pela razão de a Companhia dar mais pelos seus vinhos, que pelos dos seus vizinhos: são as Camaras da mesma Demarcação induzidas pelo respeito de alguns dos poderosos d’ella, pelo inte-resse dos seus Vereadores, pelo erro, e por alguma coisa mais, segundo dizem: são os engalhados pella mesma Companhia, a quem tem vendido a sua elo-quencia, o seu prestimo e o seu coração: são os que julgão seriamente do bem geral pela sua utilidade particular: são os que temem o formidavel poder da Companhia, que presumem inextinguivel; e em huma palavra são os que dese-jão ter occasioens frequentes de experimentar a sua liberdade23.

Quanto aos contestatários do instituto pombalino, diz que lhes tem faltado um verdadeiro líder que faça ouvir as suas vozes junto da corte. E acrescenta: “Se as suas vozes estão suprimidas he, porque havendo de tantos annos o cos-tume de se tomarem por sedições os seus justos requerimentos, elles se tem habituado a gemer em segredo”24.

Adianta: “Ainda estremecem quando se lembrão das sanguinolentas victi-mas” do protesto no Porto contra a criação do Instituto de Pombal (motins de 1757) e interroga-se: “que importa que os interessados falem, e os aflictos se calem? Por ventura neste assumpto a autoridade extrinseca ha-de ser mais atten-dida, que a razão intrinseca? ou acaso a opinião ha-de ser preterida à evidencia?

Termina repetindo algumas das acusações à forma de actuação das Com-panhia e formulando outras, tais como:

A CONTESTAÇÃO INGLESA À COMPANHIA EM 1777

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• O seu carácter extorcionário e absoluto;

• Vício das leis que se produziram após a sua criação;

• Ausência de crescimento do valor das suas acções entre 1775 e 1777; • Prepotência dos seus provadores de cujas decisões dependia sem recurso,

ou a fortuna, ou a ruina do Lavrador, do negociante, e ainda da Igreja; • Destemida insolência dos seus comissários e oficiais que e cito: “como

vulgarmente se diz trazem El Rey na barriga”;

• Tomar vinhos por ela classificados de superiores por preços baixíssimos com o argumento de que degeneraram;

• etc.

Termina – por tudo isto a Companhia não é útil: 1. Porque são fallazes os motivos da sua utilidade.

2. Porque limita a agricultura dos vinhos, e a sua extracção. 3. Porque opprime o seu commercio exterior, e destroe o interior. 4. Porque he hum monopolio horroroso.

5. Porque não pode subcistir sem prejuizo do publico.

6. Porque ainda supposto o mal, he remedio pior, que o mesmo mal. 7. Porque por sua natureza não pode deixar de occasionar oppressoens,

dolos, violencias, e injustiças.

Os signatários do documento pedem por isso a extinção da Companhia. O redactor do documento, conhecia bem a estrutura organicional do comér-cio do vinho no Porto, anterior à criação da Companhia. De facto, no post--scriptum desta carta remetida à corte em 8 de Julho de 1777 insiste em abor-dar a questão do monopólio do comércio da Companhia em relação ao Brasil: Refere que nessa altura os “ Inglezes compravão alguns vinhos de qualidade inferior pelos preços de 6$400, 7$800, 8$000 réis. A razão, porque os compra-vão porque ajustacompra-vão indiscriminadamente todo o vinho das adegas, o que “chamavão comprar a varrer”. Destes vinhos escolhiam os que lhes pareciam mais próprios para Inglaterra. O resto, “ por mediação dos seus socios Portu-gueses ou era remettido para o Brasil e tavernas da terra, ou queimado para agoa ardente”. Defende assim a manutenção desse sistema no trato. O contrá-rio era prejudicial ao “interesse e subsistencia dos nacionaes”. Querer impedir os estrangeiros de negociarem desta “por meio de huma Companhia, he per-tender evitar hum mal, que vale hum, com outro mal que vale mil; he demolir huma caza para a alimpar das teas de aranha” e cita Montesquieu: “he cortar pelo pé huma laranjeira, para colher huma só laranja”.

CONCLUSÃO

Gostava de deixar claro que este documento deve ser lido com as cautelas que impõem os textos que procuram influenciar os decisores políticos neste ou

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naquele sentido. Ou seja, não pode ser lido senão de forma muito crítica. Con-tudo, nele nem tudo pode ser considerado falso. Antes reflecte a vontade dos britânicos do Porto de se libertarem da tutela da Companhia, mas, ao mesmo tempo, dá nota do interesse dos negociantes portugueses em retomarem o seu papel de intermediários no trato dos ingleses com o Brasil, nas aguardentes, vinhos e vinagres que o monopólio da Companhia lhes retirou.

Não devemos ignorar os desmandos e as prepotências do regime regula-mentar criado há 250 anos, antes, há luz da crítica histórica procurar perceber custos e benefícios desse modelo.

Julgamos que a divulgação deste tipo de documentos ajudam a uma maior aproximação à realidade vivida em torno da produção e comércio do vinho do Porto.

BIBLIOGRAFIA

CARDOSO, António Barros, 2001 – “Subsídios para a História do movimento da Barra do Douro (1704-1747)”, O Litoral em Perspectiva Histórica – Séculos XVI a XVIII, Porto: Ins-tituto de História Moderna da FLUP.

CARDOSO, António Barros, 2003 – Baco & Hermes – O Porto e o Comércio Interno e Externo dos Vinhos do Douro (1700-1756), vol. I, Porto: GEHVID.

SILVA, Francisco Ribeiro da, 1990 – Absolutismo esclarecido e intervenção popular. Os motins do Porto de 1757, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

SILVA, Francisco Ribeiro da, 1998 – “A Companhia do Alto Douro e os negociantes ingleses (1756-1761) ou o difícil combate contra a tutela britânica”, in Os Vinhos Licorosos e a His-tória, Funchal.

SOUSA, Fernando (coord.), 2006 – A Real Companhia Velha. Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (1756-2006), Porto: CEPESE.

SOUSA, Fernando de; FERREIRA, Diogo, 2006 – “Os ingleses e a Companhia dos Vinhos do Porto nos inícios do reinado de Maria I (1778-1779)”, in O Vinho do Porto em Gaia & Com-panhia – Livro de Actas, Porto: CEPESE.

NOTAS 1 CARDOSO, 2003: 259-262. 2 CARDOSO, 2003: 177. 3 CARDOSO, 2001: 227-245. 4 SILVA, 1990: 70. 5 SILVA, 1998: 245. 6 SILVA, 1998: 245-246. 7 SILVA, 1998: 245-246. 8 SILVA, 1998: 247-250.

9 Biblioteca Nacional da Ajuda – 44-XIII-54-40, fls. 512-522. 10 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 512-522.

11 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 512-522. 12 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 513. 13 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 513. 14 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 513.

A CONTESTAÇÃO INGLESA À COMPANHIA EM 1777

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15 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 513. 16 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 513. 17 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 415. 18 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 415. 19 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 515. 20 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 515. 21 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 516. 22 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 516. 23 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 517. 24 BNA – 44-XIII-54-40, fls. 517.

Referências

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