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Envelhecimento, trajetória profissional e aposentadoria

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Academic year: 2021

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Erika Nigro

envelhecimento populacional é fenômeno demográfico, irreversível e sem precedentes, que se dá de maneira acelerada em países em desenvolvimento (VERAS, RAMOS, KALACHE, 1987). O índice de envelhecimento1 do Brasil no ano de 2011 foi de 58,1, número acima do encontrado no ano de 2001: 31,7. Esse índice também foi acima da média mundial para o ano de 2011: 48,2 (IBGE, 2012).

No Brasil é considerado idoso todo cidadão acima de 60 anos (BRASIL, 2003). O aumento da proporção de pessoas idosas origina novas e urgentes demandas em diversas áreas da sociedade, como saúde, educação, assistência social, economia e previdência social (VERAS, RAMOS, KALACHE, 1987). De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio de 2009, 11,9% da população brasileira era idosa e aproximadamente 57,9% desses idosos brasileiros estavam aposentados (IBGE, 2010).

1 O Índice de Envelhecimento Populacional é medido a partir da razão entre o número de

pessoas com 60 anos ou mais, para cada 100 pessoas com menos de 15 anos.

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Após a aposentadoria, de maneira geral, o homem ocupa o espaço privado e passa horas lendo jornal em frente à televisão. As mulheres, ao contrário, ganham o espaço público que antes lhes fora negado pelo casamento precoce, as obrigações do lar e a educação dos filhos. Teoricamente com mais tempo livre, ambos os gêneros têm de encontrar e construir novos papéis sociais e exercê-los em outros lugares.

Com a aposentadoria, as pessoas deixam não só o mundo do trabalho, mas um universo por elas construído com elementos importantes para a vida diária, como status, amigos e sentimento de pertencimento (RODRIGUES et al., 2005).

A interrupção da vida laboral representa perda de parte da identidade do ser humano que passa, normalmente, mais tempo no trabalho do que em seu próprio lar, e organiza horários, relacionamentos pessoais e até familiares a partir de seu emprego (RODRIGUES et al., 2005).

Tais aspectos são reforçados pela sociedade que, inserida na lógica capitalista e imediatista, tende a valorizar somente os indivíduos ativos economicamente. Quando em formulários de cadastro o campo da ocupação é preenchido com a palavra ‘aposentado’ instala-se um estigma de pessoa improdutiva e que definitivamente não se encaixa mais no sistema (CARLOS et al., 1999).

O indivíduo que durante tanto tempo foi imprescindível para o funcionamento de seu setor e de sua empresa agora não tem mais validade e pode ser descartado. Há um esforço coletivo inconsciente para que aqueles anos dedicados ao trabalho sejam apagados e que esses trabalhadores sejam, nesse momento, denominados apenas como aposentados, anulando a trajetória profissional.

Por outro lado, apesar de terem pouco reconhecimento por parte da sociedade, é preciso enfatizar que os mesmos aposentados desvalorizados sustentam cada vez mais famílias brasileiras: em 1992 eram cerca de 1,38 milhão de famílias chefiadas por aposentados, passando para 2,35 milhões em 2003 (SEADE, 2003).

Apesar da baixa renda advinda da aposentadoria, os aposentados são tidos como pessoas de referência em seu domicílio. Diante desse cenário, fica evidente, mais uma vez, que no contexto capitalista atual o valor está diretamente relacionado à produção e ao dinheiro. Quando o aposentado é a pessoa que tem maior renda na família ele é valorizado, respeitado e até desejado, mas quando ela é irrelevante o idoso volta a ser visto como improdutivo e sem utilidade.

A valorização do dinheiro muitas vezes nos leva a esquecer de que a identidade de um indivíduo é composta por tudo aquilo que ele vive e por tudo aquilo que já vivenciou. Todos nós, se não morrermos antes, iremos nos

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somos agora.

Pensando nessas questões e na necessidade de promover o resgate e reconstrução de identidade dos aposentados, frequentadores do Centro de Referência da Cidadania do Idoso (CRECI@)2, a equipe profissional sugeriu que o tema do baile do mês de maio fosse ‘Baile das Profissões’.

O tema estava de acordo com as homenagens prestadas ao Dia 1º de Maio, quando é comemorado o Dia Internacional do Trabalho. No dia 1º de maio de 1886, em Chicago, nos Estados Unidos, teve início uma série de 1.500 greves que aconteceram a favor da redução da carga horária de trabalho para oito horas diárias. Três anos depois, em 1889, em Paris, a 2ª Internacional Socialista decidiu convocar anualmente uma manifestação para a redução da jornada de trabalho. Em 1919 o Senado francês decidiu adotar a carga horária proposta e elegeu o dia 1º de maio como feriado para homenagear essas manifestações. No Brasil, a data é comemorada desde 1925 e, em 1º maio de 1943, foi promulgada a Consolidação das Leis do Trabalho - CLT (PORTAL BRASIL).

Na ocasião do baile, além de debates em espaços oportunos com idosos do CRECI@, os profissionais disponibilizaram um mural, no salão onde ocorreu o baile, e incentivaram os idosos a preencher com as profissões mais significativas exercidas ao longo da vida. A participação foi intensa e um momento para recordar o que faz parte de sua história e identidade.

2 O CRECI@, implantado pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social

(SMADS) e gerenciado pela Coordenação Regional das Obras de Promoção Humana (CROPH), realizou no dia 24 de maio de 2013, das 14h às 17h, o ‘Baile das Profissões’.

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No mural das profissões apareceram esteticistas, cuidadores, dançarinos, seguranças, compositores, cantores, jornalistas, funcionários públicos, taxistas, professores, enfermeiros, recepcionistas, atores, motoristas de ônibus, músicos, caldeireiros, comerciários, aeromoças, bailarinos, secretários, merendeiras, vendedores, analistas, costureiros, copeiros, cabeleireiros, bibliotecários, maquiadores, oficiais de justiça, guias de turismo, metalúrgicos, diretores de escolas, cozinheiros e assistentes sociais, dentre outros.

Todas as categorias profissionais, antes escondidas por trás da palavra ‘aposentado’ foram resgatadas e reafirmadas, porque, além de escrever suas profissões, os idosos contaram detalhes sobre os ‘mundos’ profissionais aos quais pertenceram.

A diversidade de profissões compõe a heterogeneidade da velhice. É nesse período da vida que as pessoas mais têm experiências acumuladas e, portanto, são mais diferentes entre si (CÔRTE E MEDEIROS, 2009).

Valorizar a identidade de cada indivíduo e dar espaço para que haja troca de experiências faz parte da formação para o exercício pleno da cidadania, objetivo do CRECI@ e de uma sociedade preparada para acolher seus velhos, sejam eles aposentados ou não.

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Referências

VERAS, Renato P.; RAMOS, Luiz R.; KALACHE, Alexandre. Crescimento da

população idosa no Brasil: transformações e consequências na

sociedade. Rev. Saúde Pública 1987, vol. 21, n.3.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de Indicadores Sociais: uma análise da condição de vida da população brasileira. Rio de Janeiro, 2012. BRASIL. Lei n. 10.741, de 1º de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 3 out. 2003. Seção 1, p. 1.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de Indicadores Sociais: uma análise da condição de vida da população brasileira. Rio de Janeiro, 2010. RODRIGUES, Milena; AYABE, Noelle H.; LUNARDELLI, Maria Cristina F.; CANÊO, Luiz Carlos. A preparação para a aposentadoria: O papel do psicólogo frente a essa questão. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005 vol. 6 (1), pp. 53 – 62.

CARLOS, Sergio A.; JACQUES, Maria da Graça C.; LARRATÉA, Sandra V.; HEREDIA, Olga C. Identidade, aposentadoria, e terceira idade. Est. Interdiscipl. Envelhec., 1999 vol. 1, pp.77- 89.

Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados. Mudanças demográficas no

Estado de São Paulo. [online] disponível em

http://www.seade.gov.br/produtos/mulher/index.php?bole=15&tip=08 –

acessado em 05.06.2013.

PORTAL BRASIL. História do dia do trabalho. [online] disponível em

http://www.brasil.gov.br/sobre/economia/trabalho-carreira - acessado em

05.06.2013.

CÔRTE, Beltrina; MEDEIROS, Suzana A. R. A heterogeneidade da velhice.

Revista Kairós, 2009 vol. 12 (1) pp. 13 -19.

Data de recebimento: 22/07/2013; Data de aceite: 09/08/2013.

____________________________

Erika Nigro - É técnica em Gerontologia do Centro de Referência da Cidadania

do Idoso (CRECI@), mestra em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e gerontóloga pela Escola de Artes,

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Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). [email protected]

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