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O Cuidado na Formação de Crianças de Zero a Dois Anos: análise temática na perspectiva dos profissionais

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Academic year: 2021

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O Cuidado na Formação de Crianças de Zero a Dois Anos: análise temática

na perspectiva dos profissionais

Sandra Mara Gonçalves Valença1, Mara Quaglio Chirelli2 e Silvia Franco da Rocha Tonhom2

1 Secretaria Municipal de Educação, Brasil. [email protected];

2 Faculdade de Medicina de Marília, Brasil. [email protected]; [email protected];

Resumo. A implantação de creches no Brasil é um processo histórico que perpassa leis e processos de formação profissional. Objetivou-se analisar a relação entre cuidado em saúde da criança na educação infantil e a prática pedagógica dos profissionais de creche e gestores, além de elaborar propostas para atuação nesse cenário. Utilizou-se pesquisa qualitativa, entrevista e oficina de trabalho com professores e auxiliares de desenvolvimento escolar (ADE) e entrevista com gestores da Secretaria Municipal de Educação (SME). Pela análise de conteúdo, na modalidade temática, verificou-se que o cuidado e a educação são articulados, exigem olhar atento para os problemas de saúde ou acidentes. Os profissionais e gestores devem conhecer as necessidades de seus alunos e no adoecimento da criança realizar encaminhamento aos pais, com apoio da gestão. Sugere-se o trabalho mais integrado aos pais, considerando que podem ocorrer visões

divergentes sobre o cuidado e a educação das crianças.

Palavras-chave: pesquisa qualitativa; cuidado, educação infantil, ensino, creche.

Care in Children’s Training from Zero to Two Years: a thematic analysis from the professional perspective Abstract. The implantation of day care centers in Brazil is a historical process that goes through laws and

professional training processes. The objective of this study was to analyze relationship between child health care in early childhood education and the pedagogical practice of day care centers’ professionals and managers and to elaborate proposals for action in this scenario. Qualitative research, interview and workshop with teachers and school development assistants (SDA) and interviews with managers of Municipal Department of Education (MDE) were used. In analysis content, in thematic modality, it was perceived that care and education are articulated, it requires careful attention to health problems or accidents. Professionals and managers must know the needs of their students and in child’s sickness is made referrals to parents, with support of the management. It’s suggested to work more closely with parents, considering there may be divergent views on care and education of children.

Keywords: qualitative research; care, early childhood education, teaching, day care center.

1 Introdução

A criação e a implantação de creches no Brasil constituem um processo histórico que perpassa leis e acessos à formação profissional. Nesse contexto, para suprir a demanda social, surgiram as primeiras instituições de caráter assistencialista ao final do século XIX. A creche seria um lugar alternativo, onde os pais pudessem deixar seus filhos menores enquanto se dedicavam ao trabalho, sendo local apropriado para a socialização e a educação da criança pequena (Merisse et al, 1997).

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Esse modelo assistencialista tem recebido críticas frente à sua missão educativa. Necessita de investimentos na formação dos profissionais para que considerem as demandas educacionais e sociais; suas atividades devem focar mais os aspectos pedagógicos sem detrimento das ações de cuidado (Veríssimo & Fonseca, 2013). Isso tem exigido das instituições de educação infantil formas específicas de organização delimitando funções dos profissionais que atuam diretamente com a educação infantil - o pedagogo e os auxiliares de desenvolvimento escolar (ADE). Essa última categoria foi criada no município estudado para atuar junto com o pedagogo nas atividades da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI-creches). Exige-se para esse profissional a formação mínima de ensino médio completo (Lei Orgânica do Município (LOM), 2012).

O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) destaca em seu contexto que o princípio do cuidado na esfera da instituição da educação infantil significa compreendê-lo como parte integrante da educação, exigindo capacidades específicas, demandando a integração de vários campos de conhecimentos e a cooperação de profissionais de diferentes áreas. Trata-se da articulação entre as áreas de conhecimento para que ocorra o atendimento global e integral às necessidades da criança.

Os procedimentos de cuidado também precisam seguir os princípios de promoção à saúde, visto que para atingir os objetivos do cuidado, com a preservação da vida e com o desenvolvimento das capacidades humanas, as atitudes e procedimentos devem estar baseados em conhecimentos específicos sobre o desenvolvimento biológico, emocional e intelectual das crianças, levando em consideração as diferentes realidades socioculturais (RCNEI, 1998).

Nesse contexto, pretende-se verificar se existe a dicotomia entre o cuidado e a prática pedagógica. Maranhão (2000) defende a premissa de que os cuidados constituem o elo entre as atividades educativas e as ações de saúde na creche, local em que a criança tem suas primeiras experiências e novas vivências sociais, onde estabelece os primeiros contatos com o ambiente externo e com um grupo social diferente de sua família.

2 Referencial Teórico

Atualmente, é comum que as crianças fiquem grande parte do dia em instituições de educação infantil. Assim, justifica-se a necessidade de compreender como os cuidados à saúde são garantidos na creche (Alves et al, 2007).

A Constituição do Brasil (1988) estabelece o direito à educação básica, devendo ser gratuita às crianças de zero a cinco anos. Tem por finalidade o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. A Lei Nº 12.796 (2013) altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN) no 9.394, de

1996, dispondo sobre a formação dos profissionais da educação e dá outras providências. (Lei de Diretrizes e Bases Nacionais (LDBN), 2013).

Para que essa diretriz seja melhor implementada, os cursos de pedagogia deverão construir esse conteúdo durante a formação na graduação, sinalizando-o nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN). O egresso deverá estar apto a “compreender, cuidar e educar crianças de zero a cinco anos, de forma a contribuir para o seu desenvolvimento nas dimensões, entre outras, física, psicológica, intelectual e social” (Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), 2006). Embora a dicotomia, há muito discutida, não tenha sido superada na prática cotidiana das creches, a articulação entre cuidado e educação mantém relação direta com a questão da formação inicial e contínua de professores, calcada na necessidade da construção de uma identidade profissional coesa e na desvinculação da figura da professora de creche à figura materna, de alguém que cuida, sem planejamento ou preparo para exercer tal função (Spada, 2007).

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A criança que chega à creche é sensível, dependente e ainda não está com sua imunidade biológica adquirida de forma eficaz. Aparecem as “primeiras infecções”, dentre outras doenças. O educador na maioria dos casos, não sabe como proceder, já que sua didática foi construída nos moldes acadêmicos, o que não lhe dá suporte para agir na prática profissional (Oliveira, 2010).

Considerando esse contexto, objetiva-se analisar a relação entre cuidado em saúde da criança na educação infantil e a prática pedagógica dos profissionais de creche e gestores, bem como elaborar propostas para a atuação neste cenário.

3 Metodologia

A abordagem desta pesquisa é qualitativa. Aplica-se a estudos relacionados com percepções e interpretações que as pessoas fazem a respeito do modo de viver e pensar, propiciando a construção de novas abordagens e criação de novos conceitos a partir da investigação (Hernandez, Fernandez & Baptista, 2013).

Considera-se a pesquisa qualitativa como adequada, às abordagens, às proposições advindas do trabalho de campo e organização de dados, condições indispensáveis para a investigação. Possibilita profunda imersão no campo probalilístico, obtendo participantes com interesse e oferecendo grande riqueza para a análise de dados (Hernandez, Fernandez & Baptista, 2013).

A pesquisa foi desenvolvida na rede municipal de ensino em educação infantil de cidade de médio porte do centro-oeste do interior do Estado de São Paulo, Brasil, que engloba 40 escolas de educação infantil, sendo 5 Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI), 21 Escolas Municipais de Educação Infantil e Creche (EMEI-creches); 9 Escolas Municipais de Educação Infantil e Creche (Berçários – específicas para a faixa etária de 0 a 1 ano e 7 meses de idade), 3 Entidades Privadas Filantrópicas de Educação Infantil (EPFEI), – todas elas atendendo a crianças na faixa etária de 0 a 5 anos de idade; 2 Escolas Municipais de Ensino Fundamental e Educação Infantil (EMEFEIs).

Adotou-se, como critério de seleção das escolas, a escolha de uma de cada região (Norte, Sul, Oeste, Leste e rural), de acordo com o estabelecido pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), tendo sido utilizadas nessa distribuição, como eixo central, as principais avenidas e ruas que cortam o município; fato de ser mais distante ou próxima da região central; ser entidade privada filantrópica parceira da prefeitura (EPFEI) ou escola municipal de educação infantil (EMEI-creches).

Sabendo que a rede municipal de ensino é ampla e abrange grande número de classes de educação infantil na faixa etária definida, a seleção dos profissionais que realizam atividades nessas unidades ocorreu por amostragem e conveniência nas cinco escolas selecionadas, garantindo dados significativos na realização deste estudo.

Os participantes foram dois gestores de nível central; cinco diretores; cinco pedagogos e nove ADE. Como critério de exclusão, adotou-se o fato de ser gestor de nível central ou local, bem como profissional que está na unidade escolar municipal há menos de um mês.

Antes de iniciar a coleta de dados solicitou-se autorização da SME para que os dados pudessem ser coletados com os profissionais das EMEI-creches, bem como da diretora de cada EMEI-creche selecionada.

A coleta foi realizada em duas fases. Na 1ª fase, utilizou-se a entrevista semiestruturada com todos os participantes. Segundo Minayo, “a entrevista, em seu sentido amplo, é a estratégia mais usada no processo de trabalho de campo”, destinada a delinear as principais informações pertinentes ao objeto da pesquisa (Minayo, 2013).

A entrevista semiestruturada facilita a abordagem e assegura que as hipóteses ou pressupostos sejam apresentados na conversa. Utilizando-se um roteiro, com disparadores-guia para a conversa, abordou-se o processo de trabalho dos profissionais na EMEI, qual sua concepção de cuidado e

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educação e as relações estabelecidas entre eles, além dos desafios percebidos pelos profissionais. Dessa forma, possibilitou-se ao entrevistado discorrer sobre a temática sem se prender, necessariamente, à indagação formulada (Minayo, 2013).

Desse modo, as entrevistas estabeleceram um meio de comunicação entre entrevistador e entrevistado por meio de diálogo e reflexões, permitindo ao entrevistado inferir conhecimentos relativos aos propósitos da pesquisa.

As entrevistas tiveram duração entre 8’43 minutos e 49’22 minutos, com média de 29’22 minutos. Realizou-se a coleta dos dados da 1ª fase no período entre abril e agosto de 2018. As entrevistas foram realizadas pela pesquisadora e orientadoras.

Solicitou-se autorização para que as falas das entrevistas fossem gravadas para posterior transcrição, garantindo a privacidade, o respeito profissional e a fidedignidade dos dados.

Realizou-se teste piloto para verificação da validade do instrumento de coleta de dados.

Após a análise dos dados iniciais coletados, foi realizada a 2ª fase da pesquisa na qual se utilizou como método a oficina de trabalho “Reflexão e proposição sobre o cuidado e a saúde das crianças nas creches municipais”, tendo como intencionalidade apresentar os resultados parciais da pesquisa, refletir sobre o conteúdo apresentado, identificar os problemas/desafios e elaborar possíveis proposições frente a esses dados.

A oficina de trabalho foi empregada como estratégia de devolutiva dos resultados obtidos pela pesquisa, validando a análise dos dados, proporcionando também reflexão sobre os fatos obsevados, propondo estratégias de intervenção para os problemas/desafios identificados. Dessa forma, todos os atores envolvidos nesse processo puderam propor estratégias de intervenção para os problemas identificados, podendo repensar práticas relacionadas ao cuidado de crianças em creche (Campos et

al, 2010).

A oficina foi organizada no local de trabalho e planejada anteriormente com a equipe. Teve duração média de 55 minutos, resultando na elaboração coletiva de um material que, além de responder às interrogações dos pesquisadores, contribuiu para o processo de construção de autoria, vivido pelos sujeitos da pesquisa (Campos et al, 2010), sendo um espaço de construção e reflexões sobre o processo de trabalho e a troca de experiências.

A análise dos dados feita pela Análise de Conteúdo, modalidade temática, permitiu validar as inferências por meio da análise dos contextos, por procedimentos adotados na pesquisa ou achados científicos (Minayo, 2013).

Minayo (2013) discorre sobre a análise temática, tendo o tema como unidade central da pesquisa. É a partir dele que se desenvolvem os eixos ou caminhos que ela irá percorrer. No processamento considera-se o contexto e o desvendar dos núcleos de sentido articulados ao objetivo de pesquisa. Segundo Minayo (2013), os momentos da análise temática que significaram e compuseram as etapas da pesquisa, foram os seguintes - Pré-análise: escolha dos documentos, retomando hipóteses e os objetivos iniciais, que nortearam a pesquisa; leitura flutuante e exaustiva do material transcrito, resultando na delimitação das categorias de análise; Processamento: leitura dialógica e exploração do material de modo investigativo para que trouxesse os elementos relevantes para a melhor exploração dos dados; elaboração da síntese interpretativa, baseada no registro produzido a partir da transcrição das entrevistas, selecionando fragmentos dos depoimentos para a elaboração dos achados, conclusões e pressupostos, identificação dos núcleos de sentido, com seu agrupamento pela aproximação dos sentidos, resultando nos temas, de acordo com o quadro 1.

Interpretação dos dados: a partir dos temas, apresentou-se a síntese de cada núcleo de sentido, intercalando o texto síntese, as falas dos participantes, o diálogo com a literatura e as possíveis interpretações, (Minayo, 2013).

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Quadro 1 – Apresentação do tema e núcleo de sentido, XXXX, 2018.

Tema Núcleos de Sentido

Prática do cuidado na educação de crianças de zero a dois anos

- como se realizam os cuidados e quais as condutas para detrminadas situações;

- cuidado integrado ao educar;

- educar articulado com o cuidar; educar por meio da integração de profissionais e família;

- cuidar relacionado com o educar;

- ações do professor no cuidado, considerando os procedimentos;

- delimitação do que é a ação do ADE e a que é do professor.

Fonte: autores da pesquisa

Para preservar a identidade dos participantes, inseriram-se as falas sinalizando a sua categoria profissional ou cargo. Os gestores foram identificados pela letra “G” e o número da entrevista (G1, G2, G3, ... G7), os pedagogos P (P1, P2, ... P5) e os ADEs (ADE1, ADE2, ... ADE9). Nas oficinas, identificou-se pelas letras OF e o número da oficina (OF1, OF2, ... OF5).

4 Resultados e Discussão

4.1 Prática do Cuidado na Educação de Crianças de Zero a Dois Anos

Os participantes da pesquisa consideram que o cuidado está ligado à educação, não há como desmembrar o processo, ambos são fundamentais para a criança em idade pré-escolar. Educa-se e ensina-se ao mesmo tempo, dando limites e respeito, orientando a criança a se alimentar, a fazer a higiene, a sentir-se segura, a ter independência e autonomia. É o cuidar nas três esferas da criança: o emocional, o físico e o pedagógico. O professor necessita do olhar mais atento para captar os problemas de saúde ou acidentes, pois para muitas dessas crianças, é esse o primeiro contato escolar. O professor, o ADE e a equipe escolar devem conhecer as necessidades de seus alunos, reconhecer suas especificidades, quanto à alimentação e à higiene. Todas as crianças têm um prontuário com suas características e necessidades que deve ser do conhecimento da equipe escolar. “É uma faixa etária que exige cuidado como todas as outras, mas como está iniciando na escola, então é onde rompe a barreira, saiu da casa, mas não pode ser em choque quebrar isso. Agora a escola, a casa, aqui escola, [...] a criança está socializando com outras. [...].” (G4)

“[...] todos eles aqui têm um prontuário, [...] você pegou o bebê, já sentiu, está com febre [...] entra em contato com os pais, têm que vir buscar, porque a criança com febre ou com diarreia não pode estar na escola [...].” (G2) “[...] O cuidado está ligado à educação e a educação está ligada ao cuidado não tem como a gente desmembrar os dois, porque são duas coisas fundamentais para uma criança em idade pré-escolar [...].” (P1)

“[...] O cuidado desde o receber de dar uma olhadinha sempre para não machucar, para não brigar. Acho que a gente tem que entender que o mesmo cuidado que a criança tem na casa, ela tem que ter aqui [...].” (ADE1) Nessa idade quem cuida precisa ter a percepção aguçada. Tem que prever acidentes, para as crianças não cairem ou colocarem algo na boca; manter o ambiente seguro e adequado para a observação e nunca deixá-las sozinhas em nenhum momento, pois podem ocorrer riscos devido à idade em que estão. Ao cuidar do emocional também é importante oferecer carinho, conversar. A criança demonstra pelo olhar quando não está bem, o que exige atenção do professor e ADE, seja quanto à febre, ao cuidado com assaduras ou acidentes escolares.

No caso de doenças, é solicitado aos pais não trazer as crianças para a escola, pois se há alguma situação com transmissão contagiosa, isso poderá criar outras situações de doença. Solicita-se a

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colaboração dos pais, há alguns não colaboram e trazem as crianças doentes por não terem onde deixá-las. Em caso de problemas agudos, como febre e acidentes, avisam os pais, e se for o caso, encaminha-se o caso de imediato para a direção tomar providências junto aos pais ou até levar a criança ao pronto socorro, se for necessário. Há casos de a escola precisar acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) ou mesmo o Conselho Tutelar quando os pais não forem encontrados por ligação telefônica.

“[...] a gente presta muita atenção nos pequenos. Febre? O nosso papel aqui é aferir. A gente vê que a criança já demonstra, principalmente no olhar, estar com febre, a temperatura... aferiu. Qual é o procedimento da escola? É ligar e comunicar os pais [...].” (G1)

“[...] eu tinha uma visão completamente diferente. Eu achava que o cuidado, no caso ADE, eu achava que vou lá eu troco a fralda, eu deixo a roupinha limpinha, eu volto para a sala e dou aguinha. [...] Mas hoje já tenho outra percepção diferente, vejo que o cuidado não é só a parte higiênica, mas é a questão do educar também [...] Eu entendi que o cuidar não é só ajudar trocar uma fralda, dar uma papinha, não. É também cuidar disso, prestar atenção na criança, ajudar ela a ter uma autonomia maior [...].” (ADE4)

“[...] Quanto tem um problema de saúde, a primeira coisa que tem que ser feita é ligar para os pais. Isso aí não só para as crianças pequenas, mas na rede como um todo, junto aos pais, emergência, porque às vezes o pai já sabe, a mãe já sabe. [...].” (G6)

Os profissionais consideram que o trabalho com a criança tem que ser realizado em conjunto com o ADE, a família e com a gestão da escola, considerando que todos precisam trabalhar mudanças com as crianças, por exemplo, a retirada da fralda em turmas do Maternal 1. Quando as crianças realizam a troca de fraldas com a ADE, há o incentivo ao desfralde no segundo semestre, conversando-se com a família para ajudar em casa. Até mesmo com a fonoaudióloga o trabalho é em conjunto, passando os exercícios para fazer com a criança.

“[...] o cuidado com a criança nesta faixa etária é muito minucioso, [...] a orientação que a gente passa nas escolas é que o ADE tenha esse olhar de cada criança. [...] para que ele consiga realizar o trabalho de cuidado voltado individualmente para esta faixa etária, necessidade de cada criança [...].” (G7)

“[...] quem está olhando na hora que vai se alimentar e até mesmo a higiene de lavar as mãos e quando as crianças caem, tem que ter aquele cuidado com quem se ralou e tem tipo fez um galo, por um gelo, fazer aquele cuidado, primeiros socorros mesmo. A gente atende muito tipo primeiros socorros. [...] tipo quando a gente vai trocar, a gente percebe que a criança está com diarreia, a gente avisa a professora e avisa a direção, geralmente quando é assim, tipo é, está constante a diarreia, elas avisam os pais e os pais vêm buscar também. [...].” (ADE2) Consideram que a escola deve estabelecer parceria com os pais e um canal de comunicação, pois há situações de crianças que necessitam de cuidados especiais, seja por causa do emocional como de alergia alimentar ou outras questões judiciais.

“[...] no segundo semestre, a gente começa um incentivo para o desfralde. Aí eu começo a conversar com as crianças. A auxiliar começa a levar as crianças ao banheiro, e antes de trocar, ela oferece para ir no vaso, aí as crianças vão no vaso e tiram a fralda, vão pro vaso. Depois coloca a fralda novamente até o momento e também vamos conversando com as famílias para as famílias começarem a ajudar em casa e aí até o momento que elas pedem que elas não querem mais usar a fralda [...].” (P1)

Durante as oficinas de trabalho, percebeu-se, como um dos problemas a dificuldade na relação com as famílias. Argumentam que a visão de como cuidar da criança e educá-la são diferentes. Os valores são diferentes. Infelizmente, não conseguiram avançar com propostas.

“O que eu acrescentaria hoje […] é o posicionamento das famílias, que está assim, a gente está ficando cada dia mais chocada é que a família está vendo a escola não como escola, infelizmente,[…] mas como um depósito. Ela não..., parece que não quer ficar, muitas famílias, com o filho. Quando tem um feriado os pais ficam em pânico, quando vai ter uma emenda! Eu vou ficar com o meu filho?” (OF1)

“a única coisa que tem que frisar bastante é família e escola. Por que às vezes a gente faz um trabalho aqui, mas quando chega do portão pra fora é totalmente ao contrário. […] nós sempre ensinamos as crianças que lixo tem que se jogar no lixo! E a gente observa que tem mães que a criança vem comendo aqui no portão[…] acabou o

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pacote de salgadinho, a mãe é a primeira a catar e jogar. Aí eu educar: mamãe, por favor, deixa eu jogar no lixo lá dentro! Então, a gente observa que pra criança às vezes isso é muito difícil de entender porque a escola fala uma coisa e a família, em casa, é outra.” (OF2)

O profissional de educação infantil constitui-se em agente da maior importância, como elemento essencial à promoção da saúde das crianças, tendo em vista a duração e qualidade do contato entre estas e o educador nesse contexto de atenção (Rodrigues, D’Artibale, Barbieri, Bercini & Higarashi, 2014).

É importante o envolvimento dos pais na fase de desenvolvimento da criança. Os educadores consideram que família e creche juntas podem promover situações complementares e significativas de aprendizagem e convivência. O envolvimento familiar é uma medida social, psicológica e educativa que informa, articula e estimula a participação integrada das esferas creche-família (Kramer, 2006).

No entanto, há conflitos nessa relação família-escola. Não conseguem manter um diálogo para que possam construir uma forma pactuada de como cuidar das crianças e educá-las. Os profissionais, durante a oficina, não apresentaram propostas consistentes para avançarem na resolução desse problema. Há necessidade de rediscutirem, também, a forma como abordam e percebem as famílias, seus problemas e limites, para que possam elaborar estratégias que possibilitem o diálogo e algumas pactuações para um trabalho mais integrado.

4.2 Reflexão sobre o Processo de Investigação

A investigação qualitativa permitiu considerar os entrevistados como sujeitos principais. Adotou-se a coleta de dados em duas fases, pois num primeiro momento, queria-se explorar a visão dos professores, ADE e gestores sobre o processo de cuidar e ensinar. Nessa fase, utilizou-se a entrevista semiestruturada por permitir que, a partir de disparadores (perguntas), se desenvolvesse uma conversa com intencionalidade, criando uma situação em que cada entrevistado pudesse expressar as suas concepções, a forma de compreender a prática, revelando no discurso as visões de mundo de cada um.

Um dos aspectos importantes na realização da coleta dos dados por meio de entrevista refere-se à capacitação dos pesquisadores para aplicá-la, principalmente, quando as pesquisas são multicêntricas e/ou aplicadas por vários pesquisadores. Cavalcante, Minayo, Gutierrez, Sousa, Silva, Meneguel, & et al (2015) realizaram investigação com 60 pessoas idosas em 13 municípios, sendo necessário construir um manual contendo os procedimentos elaborados e consensualizados pela equipe de investigação, passando pelo preparo da pesquisa, o trabalho de campo e a análise dos dados. Destaca-se que o manual foi construído em oficina de trabalho com todos os envolvidos na investigação.

Na pesquisa com os profissionais de creches, realizou-se um estudo piloto, o qual possibilitou além de capacitar os investigadores, também testar o instrumento de coleta de dados, verificando-se a necessidade de alguns ajustes frente ao objetivo proposto.

Na segunda fase, a partir da análise e identificação dos temas, por meio da análise temática, realizou-se oficina de trabalho como estratégia, oportunizando a devolutiva do material da primeira farealizou-se. Assim, criou-se uma forma de validação dos dados analisados, bem como a discussão reflexiva sobre eles, identificando os problemas a partir do diálogo entre os participantes e investigadores, sua explicação e propostas de intervenção nos problemas.

Campos et al (2010) utilizaram a oficina de construção de indicadores e dispositivo de avaliação, aplicando as técnicas de consenso e grupo nominal como meio de discussão dos conteúdos a serem abordados. Um dos referenciais adotados remete-se ao planejamento estratégico situacional (PES), o

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qual trabalha na perspectiva da abordagem da gestão participativa, identificando os problemas, abordando as suas causas e estratégias de solução e a construção de indicadores de avaliação. A oficina de trabalho pode ser utilizada por várias áreas de investigação para envolver os interessados nos processos de construção da prática profissional e/ou na investigação científica. Tem como objetivo a participação dos integrantes, o debate reflexivo sobre os conteúdos propostos, além da elaboração de produtos que poderão ter acompanhamento e avaliação posterior (Macedo, Galenger, Degreas, Cossia, Campos, & Akamine, 2009, Campos et al, 2010).

Experienciou-se nas oficinas desta pesquisa, a oportunidade de os professores, ADE e gestores manifestarem sua reflexão sobre a análise dos temas elaborados. Isso gerou debate sobre o próprio processo de trabalho, reconhecimento das práticas constituídas e dos problemas que estão vivenciando, chegando também a estratégias de intervenção como possibilidade de superação de suas origens.

5 Considerações Finais

Considerando que o objetivo foi analisar a relação entre cuidado em saúde da criança na educação infantil e a prática pedagógica dos profissionais de creche e gestores para, então, elaborar propostas para a atuação neste cenário, verificou-se que o cuidado e a educação são articulados, sendo necessário um olhar atento para os problemas de saúde e acidentes, mantendo condutas voltadas para as situações de doença das crianças, envolvendo a presença ou autorização dos pais para que possam dar encaminhamentos e tomar decisões.

Os profissionais e gestores ao conhecer bem as necessidades de seus alunos, devem compartilhar com os pais para que ações possam ocorrer em conjunto. O trabalho articulado junto aos pais oportuniza conhecer visões diferentes sobre o cuidado e a educação das crianças. Porém, nas oficinas percebeu-se que há conflitos entre as concepções da família e da escola frente ao processo de educar e cuidar, não se conseguindo estabelecer uma proposta mais consistente para a constituição do diálogo entre os dois atores.

O trabalho pedagógico é desenvolvido por meio do brincar. Destacam que o educar é a aprendizagem e o princípio pedagógico. Faz-se necessário discernir situações, estimular o desenvolvimento intelectual da criança, propiciando o início de formação de um indivíduo crítico, de um cidadão consciente. Trata-se do preparo para o execício da cidadania, com a aprendizagem de regras e observação dos costumes sociais.

Em todo esse processo de educar e cuidar necessita-se do apoio da gestão institucional para que se possa avançar nas proposições, na construção de estratégias de intervenção mediadoras entre escola e famílias, visando à pactuação das estratégias de superação dos problemas que possam surgir, bem como avançar na formação dos profissionais e gestores locais para trabalharem os conflitos com as famílias.

A pesquisa qualitativa por meio das entrevistas possibilitou explorar a visão dos professores, ADE e gestores de forma espontânea sobre o processo de cuidar e ensinar. As oficinas oportunizaram a devolutiva do material da primeira fase, o que permitiu a validação dos dados analisados, bem como a discussão reflexiva sobre eles, identificando os problemas a partir do diálogo entre os participantes e investigadores, sua explicação e propostas de intervenção nos problemas.

Durante a pesquisa percebeu-se a necessidade de incluir a visão dos pais e das crianças sobre a temática investigada, podendo isso ser objeto de pesquisas futuras, com ampliação a compreensão dos problemas e situações vividas.

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Referências

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