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(2) AGRADECIMENTOS. Muitas pessoas cruzaram meu caminho no decorrer desses dois anos de aulas, leituras, conversas, preocupações, angústias, risadas, esperanças. Nesse momento em que encerro essa dissertação, quando um sentimento de dever cumprido traz uma relativa tranqüilidade, gostaria de agradecer a algumas pessoas fundamentais para que esse trabalho chegasse a bom termo. Ao professor Milton, orientador paciente e amigo. Milton passou por várias dificuldades nesse período, mas sempre soube manter a esperança e incentivar a cada um dos seus orientandos, de forma simples e precisa. As aulas de Milton são fantásticas, e tanto quanto elas são as conversas que tivemos, sobre motocicletas, paisagens jordanianas e história do Brasil. Creio que ainda estaremos junto às muralhas otomanas de Jerusalém, a comer alguns damascos! Espero também que juntos possamos cantar mais vezes o hino “O povo de Deus”! Ao professor Archibald, homem de grande sabedoria, e que esteve sempre ao meu lado. Devo agradecê-lo também pelos livros que gentilmente me ofereceu, e por ter dedicado um deles ao “amigo Vinicius”. Penso que sempre encontrarei livros na biblioteca que tenham sido doados por ele. Confesso que já me ajoelhei entre as estantes e agradeci a Deus por conhecer esse homem! Ao amigo sempre presente, padre Celso Pedro, que me incentivou nessa empreitada árdua e gratificante que é o estudo da história de Israel e das Sagradas Escrituras. Sempre lembrarei das grandes letras hebraicas através das quais adentrei nesse misterioso mundo cheio de volutas e pontos. Ao professor Renatus, que durante a doença de Milton assumiu a tarefa de orientar-me, e com bastante propriedade. Aos professores Jung e Paulo Nogueira, pelas. 2.
(3) aulas e pelas discussões sobre assuntos densos e empolgantes. Aos professores Lauri e Tércio, pelas intervenções durante a banca de qualificação. Desejo agradecer também à querida amiga Marli, com quem tanto conversei sobre textos sagrados, sobre a fé evangélica e sobre as coisas da vida. Todo meu carinho a ela e à sua família. Agradeço também aos amigos Genildo, Lília e Ângela, por termos, juntos, aprendido e rido muito durante esse tempo todo. Quero deixar um abraço todo especial às meninas da Bibliografia, Sirley e Cynthia, pelas conversas durante a tarde, pela ginástica e pelo chimarrão, que esse aspirante a gaúcho tanto aprecia. Enquanto estudei, também trabalhei ao lado de bons colegas e diante de queridos alunos. Meninas e meninos, pequenos ou grandes, que sempre queriam abrir aquele “enorme livro” que é a Biblia Hebraica Stuttgartensia, e admiravam-se de que fosse possível alguém conseguir ler aquelas estranhas letras. Muitas vezes deixei de conversar com algum professor amigo, por ter que ler textos ou digitar notas de rodapé; nem por isso deixaram de estar próximos e ter curiosidades sobre essa coisa “incomum” que é uma inscrição com quase 2.900 anos. Como trabalho em duas escolas, e para não esqueça ninguém, deixo aqui meu abraço a professoras e professores, coordenadoras e diretores. Agradecimentos especiais à professora Madalena e ao seu esposo Denys, que fizeram a revisão do resumo em língua espanhola; à professora Kátia, pela revisão do resumo em língua inglesa; às professoras Valentina e Vera Simão, que se dispuseram a fazer a revisão do texto da dissertação. Agradeço aos pastores Vera e Frederico, pelo apoio, incentivo e orações durante esses anos em que estive presente apenas nos cultos. E, por fim, aos da minha casa. Ao meu cunhado, Henrique, sempre pronto a auxiliar-me na língua inglesa e na informática, e que gentilmente cedeu suas fotos tiradas no Museu do Louvre, em julho de 2007. À minha sobrinha e aluna, Marina, que. 3.
(4) também me auxiliou com o inglês, inclusive traduzindo o resumo apresentado por essa dissertação. Espero que, quando chegar a sua vez de “dissertar”, eu possa auxiliá-la também. À minha irmã, Telma, que me deu caronas durante esses dois anos, sobretudo em 2007. Como recompensa, prometo que ainda viajaremos muito! À minha mãe, Eva, que, na sua simplicidade, sempre se preocupou porque eu ficava muito tempo na frente da tela de um computador, ou com a minha comida e com o descanso, ou com a data de entrega dessa dissertação. Quero desejar-lhe muita saúde! Sem a graça de Deus, seria impossível que eu chegasse até aqui. Apesar das angústias, das decepções, do cansaço, o Senhor, que é castelo forte, deu-me coragem, esperança e muitas alegrias. Que Ele seja eterno refúgio!. 4.
(5) GALLEAZZO, Vinicius, A estela de MESA – Uma introdução à arqueologia e à literatura de Moab, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2008. RESUMO. Essa dissertação faz uma introdução aos aspectos arqueológicos e literários de Moab, temática carente de publicações em língua portuguesa. Trata, primeiramente, dos fatos relacionados à descoberta da inscrição de Mesa na segunda metade do século 19, das disputas diplomáticas que ocasionaram a destruição da inscrição, bem como das obras científicas que, durante as décadas seguintes, abordaram o assunto. Na seqüência, apresenta as principais características geográficas e arqueológicas de Moab, durante as Idades do Bronze Recente, do Ferro Antigo e do Ferro Recente, dando especial atenção aos assentamentos humanos, mas também às grandes construções e às esculturas, consideradas recursos culturais necessários ao estado moabita, patrimonial e segmentário, que fazia uso de metáforas domésticas para referendar sua hegemonia; além do mais, apresenta o lugar de Moab no mundo assírio, e sua importância como rota comercial. A tradução da estela de Mesa, os comentários filológicos e a análise da sua forma e do seu gênero literário, apontam para um texto elaborado a partir de ferramentas literárias claras, utilizado para marcar o poder da monarquia moabita. Tais aspectos arqueológicos e literários sustentam que o desenvolvimento de Moab ocorreu após o fim da dominação do Israel omrida, além de sugerirem um novo olhar sobre a Bíblia Hebraica.. Palavras-chave: Moab – Mesa – Arqueologia – Literatura – Israel. 5.
(6) GALLEAZZO, Vinicius, A estela de MESA – Uma introdução à arqueologia e à literatura de Moab, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2008. ABSTRACT. This dissertation introduces the archaeological and literary aspects of Moab, thematic with a lack of publications in Portuguese language. It discusses, firstly, the related facts with the discovery of Mesha’s Inscription in the second half of the 19th century, the diplomatic disputes that brought about the destruction of it, as well the scientific works that, in the course of following decades, broach this subject. After that, it presents Moab’s main geographical and archaeological characteristics, in the time of Late Bronze, Early Iron and Late Iron Ages, giving special attention to the human settlements, but also to the huge buildings and sculptures, considered essential cultural resources to the patrimonial and segmentary Moabite state that used to make domestic metaphors to attest its hegemony; in addition, it presents Moab’s place in Assyrian world, and its value as a commercial route. The translation of Mesha’s Stela, the philological comments and the analysis of its structure and literary style, points out to an elaborated text from clear literary instruments, used to designate the power of the Moabite monarchy. Such archeological and literary aspects support that Moab’s development took place after the end of the Omride Israel domination, and besides that, they propose a new look upon the Hebrew Bible.. Keywords: Moab – Mesha – Archaeology– Literature – Israel. 6.
(7) GALLEAZZO, Vinicius, A estela de MESA – Uma introdução à arqueologia e à literatura de Moab, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2008. RESUMEN. Esa disertación hace una introducción a los aspectos arqueológicos y literarios de Moab, temática privada de publicaciones en lengua portuguesa. Versa, primeramente, de los hechos relacionados a lo descubrimiento de la inscripción de Mesa durante la segunda mitad del siglo 19, de las disputas diplomáticas que ocasionaron la destrucción de la inscripción, así como de las obras científicas que, durante las décadas siguientes, abordaron el asunto. En la secuencia, presenta las principales características geográficas y arqueológicas de Moab, durante las Edades del Bronce Reciente, del Hierro Antiguo y del Hierro Reciente, dando atención especial a los asentamientos humanos, pero tambiém a las grandes construcciones y a las esculturas, consideradas recursos culturales necesarios a lo estado moabita, patrimonial y segmentario, que hacía uso de metáforas domésticas para refrendar su hegemonía; además, presenta el lugar de Moab en lo mundo asirio, y su importancia como ruta comercial. La traducción de la estela de Mesa, los comentarios filológicos y la análisis de su forma y de su género literario, apuntan para un texto elaborado desde herramientas literárias claras, utilizado para marcar el poder de la monarquía moabita. Estos aspectos arqueológicos y literarios sustentan que el desenvolvimiento de Moab ocurrió después del fin de la dominación del Israel omrida, allende sugerieren una nueva mirada sobre la Biblia Hebrea.. Palabras clave: Moab – Mesa – Arqueología – Literatura – Israel. 7.
(8) SUMÁRIO Introdução......................................................................................................................10. Capítulo 1: A pesquisa sobre Moab e sobre a Inscrição de Mesa.............................21 1.1 Arqueologia e imperialismo:a descoberta e as disputas pela estela..........................21 1.1.1 O surgimento da arqueologia bíblica..........................................................22 1.1.2 A Palestina e a Transjordânia na segunda metade do século 19.................26 1.1.3 A descoberta e as disputas em torno da estela de Mesa..............................29 1.1.4 A reconstrução da inscrição........................................................................38 1.2 A pesquisa sobre a estela de Mesa e sobre Moab, nos séculos 20 e 21.....................41 1.2.1 Primeiros trabalhos.....................................................................................42 1.2.2 Nelson Glueck.............................................................................................43 1.2.3 A. H. Van Zyl.............................................................................................46 1.2.4 John Andrew Dearman...............................................................................47 1.2.5 André Lemaire............................................................................................49 1.2.6 Bruce Routlege...........................................................................................51 1.2.7 Artigos avulsos...........................................................................................53 1.3 Conclusão..................................................................................................................54. Capítulo 2: A terra e a história de Moab.....................................................................55 2.1 A geografia de Moab.................................................................................................55 2.2 Arqueologia transjordaniana......................................................................................66 2.2.1 Idade do Bronze Recente............................................................................68 2.2.2 Idade do Ferro Antigo.................................................................................76 2.2.4 Idade do Ferro Recente...............................................................................82. 8.
(9) 2.3 Moab e o império.....................................................................................................100 2.4 Conclusão................................................................................................................105. Capítulo 3: Eis as palavras de Mesa, o dibonita.......................................................107 3.1 Aspectos materiais...................................................................................................108 3.2 Tradução..................................................................................................................111 3.2.1 Tradução interlinear..................................................................................113 3.2.2 Texto em português..................................................................................124 3.3 Gênero literário........................................................................................................128 3.3.1 Inscrições dedicatórias..............................................................................130 3.3.2 Inscrições memoriais................................................................................131 3.3.3 Inscrições mistas.......................................................................................134 2.3.4 O gênero do texto de Mesa.......................................................................136 3.4 Forma do texto.........................................................................................................138 3.5 Conclusão................................................................................................................153. Considerações Finais É possível uma visão ‘moabita’ sobre a Bíblia Hebraica?.......................................156. Referências Bibliográficas..........................................................................................173. Anexos – Imagens e Mapas.........................................................................................187. 9.
(10) Introdução. Moab é a minha bacia de lavar. Sl 60,10. São inúmeras as referências a Moab1 na Bíblia Hebraica. A primeira delas encontra-se após o relato da destruição de Sodoma e Gomorra, quando as filhas de Ló, após refugiarem-se numa caverna, embriagaram o pai e mantiveram relacionamento sexual com ele. Cada qual concebeu um filho, sendo o rebento da mais nova, chamado Ben-Ami, considerado o ancestral dos amonitas, e o da mais velha, Moab, “o pai dos moabitas de hoje” (Gn 19, 30-38). O texto parece, de saída, condenar Moab, assim como Amon, por conta da sua origem incestuosa, tanto que Bruce Routledge defende que o relato apresenta Moab como um “outro”, mas que, genealogicamente, é próximo aos israelitas.2 Claus Westermann afirma, no entanto, que o texto apresenta uma imagem positiva de Moab e Amon. As filhas de Ló sofreram desde o início do capítulo 19: foram oferecidas pelo pai aos habitantes de Sodoma, no intuito de proteger seus hóspedes (v.8) e perderam seus noivos (v.14-16). Apesar de tudo, permaneceram fiéis ao pai, assim como Ló permaneceu obediente aos homens de Deus (v.12.14-17.22). A atitude das filhas, na caverna, visava a sua sobrevivência, fazendo o que melhor se podia, naquela situação desesperadora, e assegurando o seu futuro. Dessa relação surgiram os dois povos que habitaram a Transjordânia.3. 1. Optou-se pelo termo, diferente de “Moabe”, utilizado por Almeida, já que segue melhor o original moabita ( ) e hebraico ( ), além da própria opção da Vulgata. 2 ROUTTLEDGE, Bruce, Moab in the Iron Age – Hegemony, Polity, Archaeology, Pennsylvania, University of Pennsylvania Press, 2004, p.44. 3 WESTERMANN, Claus, Gênesis 12-36: A Comentary, trad. John Scullion, Minneapolis, Augsburg Publishing House, 1985, p.313-316.. 10.
(11) As menções a Moab aparecem novamente durante os relatos da conquista da Transjordânia (Nm 21,10-35), na história do profeta Balaão (Nm 22-24) e no caso da transgressão sexual-religiosa entre homens israelitas e mulheres moabitas (Nm 25,1-5), sempre sugerindo uma visão negativa sobre aquele povo. O Deuteronômio, inclusive, proíbe a participação dos moabitas nas assembléias cultuais israelitas, em razão dos incidentes relacionados a Balaão (23,4-7). A literatura profética também contribuiu com fortes condenações a Moab, como pode ser constatado nos livros de Amós (2,1-3), Sofonias (2,8-11) e Ezequiel (25,8-11) e nos densos trechos de Isaías (15,1-16,14) e Jeremias (48,1-47). Até os salmos mencionam Moab, considerada a “bacia de lavar” de Javé (60,10;108,10); existe ainda o relato de 2Rs 3,4-27, do qual se falará mais a seguir. Uma única ressalva pode ser feita: a novela de Rute apresenta uma moabita que segue a sua sogra, mesmo após a morte do esposo, dando um vigoroso testemunho de fé no Deus dos israelitas (Rt 1,16-18). Rute, aliás, encontra-se na mesma trajetória iniciada pelas filhas de Ló, assediando Boaz (Rt 3,7-9), para garantir a descendência da sogra e a posse da terra. Ela figurará, posteriormente, como ascendente de Jesus (Mt 1,5). Aliás, das cinco mulheres citadas na genealogia do Nazareno, três não tiveram condutas sexuais “adequadas”: Tamar engravidou de seu sogro Judá (Gn 38,13-30), Raab era uma prostituta que deu guarida aos espias israelitas em Jericó (Js 2,1-7) e a mulher de Urias, assediada pelo rei Davi (2Sm 11,2-5). A própria gravidez de Maria parece ter sido, aos olhos de José, bastante duvidosa (Mt 1,29). Provavelmente, para quem elaborou a genealogia, a “conduta inadequada” de Rute era ser moabita.. A partir dessa rápida constatação, é possível perceber que Moab e o seu povo eram problemas para diversos autores bíblicos e, provavelmente, para Israel e para Judá. Infelizmente, no cenário acadêmico nacional, Moab parece continuar como uma “bacia. 11.
(12) de lavar”, por não merecer grande destaque nas pesquisas sobre o Oriente Próximo e sobre a literatura bíblica. Na contramão dessa tendência, essa dissertação aponta para dois questionamentos, que devem ser colocados ao pesquisador do Israel bíblico: (i) quem era, onde e como vivia esse povo chamado “moabita”; (ii) quais foram os vestígios produzidos e deixados por esse povo, e como eles podem auxiliar a pesquisa sobre Moab e, porque não, sobre a própria Bíblia Hebraica. São esses questionamentos os delimitadores desse trabalho, que também apontaram as fontes estudadas no decorrer da pesquisa que o originou, a saber: a cultural material “moabita” e a Inscrição de Mesa (Anexos, Figuras 1, 2 e 3).4. Tanto a inscrição de Mesa, quanto os aspectos relacionados à arqueologia de Moab, são praticamente desconhecidos da pesquisa acadêmica nacional, ao contrário dos cenários europeu e norte-americano, nos quais a inscrição, deixada pelo mais ilustre dos dibonitas, tem sido estudada e debatida há pelo menos 130 anos. Localizada próximo a vila árabe de Dhiban (a bíblica Dibon), em 1868, por um missionário alsaciano, Friedrich Klein, a inscrição tornou-se um objeto de desejo, disputado entre a França e a Prússia, duas das maiores potências européias do século 19. Após alguns debates diplomáticos, que envolveram, inclusive, a ‘Porta Sublime’,5 bem como negociações como os beduínos transjordanianos, a inscrição acabou sendo despedaçada por membros de uma tribo árabe, em represália à interferência dos turcos na região. Felizmente, a maior parte dos fragmentos da estela foi recuperada pelo pesquisador francês Charles Clermont-Ganneau, e após a reconstrução, foi confiada ao acervo do Museu do Louvre, em Paris. 4. A rigor, o nome do rei moabita deveria ser grafado como “Meša”, que melhor corresponde ao moabita (linha 1 da inscrição) e ao hebraico (2Rs 3,4). No entanto, optou-se pelo termo já fixado pela tradução portuguesa de Almeida, que segue a versão latina de Vulgata. 5 Bab-ı-Ali, em turco. Trata-se da porta monumental que dava acesso ao palácio imperial. Foi a designação dada ao governo otomano até 1922.. 12.
(13) Clermont-Ganneau foi o primeiro tradutor da inscrição, revelando ao mundo acadêmico a narrativa de Mesa, rei moabita citado pela Bíblia Hebraica (2Rs 3,4), que trata de suas conquistas feitas ao reino de Israel, bem como de suas construções em várias localidades transjordanianas, também citadas pelo texto massorético. Mesa nomeia, inclusive, um dos reis de Israel, Omri (1Rs 16, 23) e, ao citar o “filho de Omri”, ele poderia referir-se a Acab, um dos soberanos mais conhecidos do reino do norte, seja por causa de seu casamento “pecaminoso” com Jezabel (1Rs 17,31), seja por sua importância nas narrativas do profeta Elias (1Rs 18-21). A inscrição apresenta também as mais antiga referência ao nome da divindade israelita (yhwh), além de confirmar a existência de outros centros de culto javista que não o templo de Jerusalém, como o de Nebo.. Outros estudiosos também se debruçaram sobre o trabalho de tradução da inscrição, que foi escrita em moabita, um idioma muito próximo do hebraico, em caracteres paleo-hebraicos. A inscrição impulsionou também várias escavações arqueológicas na Transjordânia, ao longo do século 20, sobretudo em localidades que, tradicionalmente, estão ligadas aos sítios nomeados nas Escrituras, como Hesbon e Dibon. Outros sítios de grande importância, ainda que não mencionados na Bíblia, também foram escavados, sendo possível traçar um panorama razoável da sociedade e do Estado moabita governado por Mesa e seus sucessores. Algumas inscrições assírias também confirmam a importância estratégica de Moab no Crescente Fértil, sobretudo por causa da “Estrada do Rei”, que ligava o golfo de Ácaba ao norte da Síria, facilitando as comunicações e o transporte, inclusive de mercadorias de luxo, entre o Egito e a Mesopotâmia.. 13.
(14) Essa dissertação pretende apresentar ao público brasileiro um pouco desse desconhecido e fascinante “mundo moabita”. Para tanto, levou-se em conta o resultado das escavações realizadas no centro-sul jordaniano, posto que a cultura material de um grupo humano possibilita diversos esclarecimentos sobre a história dessa sociedade. Mas, como a esmagadora maioria dos relatórios dessas escavações não pode ser encontrada em acervos brasileiros, em virtude do interesse limitado nesse tipo de pesquisa em nosso cenário acadêmico, a principal referência foi o arqueólogo Bruce Routledge, do qual tratar-se-á na seqüência.6 Além da grande atenção prestada à cultura material, o segundo foco desta dissertação é a grande inscrição mencionada acima, legada pelo rei Mesa, conhecida também como Estela de Mesa ou Pedra Moabita, da qual se apresenta primeiro a tradução crítica ao português, bem como a análise da forma do texto e do seu gênero literário.. A escolha de Moab justifica-se. Apesar dos grandes avanços nas pesquisas da história sobre o antigo Israel, baseadas não só no estudo crítico do texto bíblico, mas, principalmente, nas evidências arqueológicas e testemunhos escritos extra-bíblicos,7 não se pode ignorar o fato de que os reinos de Israel e Judá, que legaram ao mundo ocidental não somente a base do credo monoteísta, mas também toda uma tradição ética e moral, eram pequenos estados que participaram, a seu tempo, de uma intrincada rede de interesses políticos entre os dois grandes pólos do antigo Oriente Próximo, a saber, a 6. Cf. abaixo, capítulo 1, p.51-53. FINKELSTEIN, Israel; SILBERMANN, Neil, A Bíblia não tinha razão, trad. Tuca Magalhães, São Paulo, A Girafa Editora, 2003, p.244ss. Sobre a importância de uma arqueologia secularizada no estudo da história israelita, William Brown, no apêndice à obra de John Bright, afirma que a arqueologia bíblica tem sua utilidade para os estudos bíblicos, mas não tem como função ilustrar a Escritura ou ser utilizada de modo apologético; BRIGHT, John, História de Israel, trad. Luiz Alexandre e Eliane Cavalhere Solano Rossi, 7ª ed., São Paulo, Paulus, 2003, p.554. Da mesma forma, Amihai Mazar critica a interpretação simplista e fundamentalista dos dados arqueológicos palestinenses, defendendo uma ciência secular e profissional; MAZAR, Amihai, Arqueologia na terra da Bíblia: 10.000-586 a.C., trad. Ricardo Gouveia, São Paulo, Edições Paulinas, 2003, p. 53.. 7. 14.
(15) Mesopotâmia e o Egito. Nesse sentido, o historiador e biblista alemão Herbert Donner, no prefácio à primeira edição da sua obra sobre a história de Israel, mas também dos povos que viviam no seu entorno, justifica o título do livro afirmando que é impossível realizar o estudo da história israelita sem levar em contra as sociedades que circundavam o povo bíblico.8 Mesmo que tal proposta pareça não ter sido satisfatoriamente seguida pelo autor, de forma alguma fica invalidada. Desse modo, as lacunas sobre o modo de vida e a história de povos tão próximos aos antigos israelitas precisam ser preenchidas, e o reino de Moab não fica excluído dessa tarefa.. Some-se a isso o fato da que, conforme foi salientado nas páginas anteriores, a pesquisa acadêmica nacional carece de literatura especializada sobre a sociedade moabita, além de praticamente inexistirem obras estrangeiras sobre o assunto nas bibliotecas nacionais, muitas delas extremamente atuais, sendo sequer citadas quando algum trabalho faz referências aos moabitas ou à inscrição de Mesa. Geralmente, as referências feitas à inscrição têm o objetivo de ilustrar o texto de 2Rs 3,4-27, sustentando a historicidade do texto bíblico; em nenhum momento pretende-se falar da especificidade dos moabitas. Da mesma forma, inexiste uma tradução da inscrição, a partir do texto original, em língua portuguesa. Ao trazer essa temática à baila, essa dissertação demonstra seu aspecto pioneiro. Esse pioneirismo, porém, pretende lançar apenas alguns “primeiros acordes”, na esperança de que, futuramente, novas pesquisas nacionais aprofundem-nos e superem-nos.. A hipótese primeira que norteava essa pesquisa era de que Moab, citada inúmeras vezes na Bíblia Hebraica, teve uma importância estratégica fundamental no 8. DONNER, Herbert, História de Israel e dos povos vizinhos: dos primórdios até a formação do Estado (v.1), trad. Claudio Molz e Hans Trein, 3a ed, São Leopoldo, Editora Sinodal, 2004, p.5.. 15.
(16) decorrer do primeiro milênio A.E.C., sobretudo por guardar uma importante rota comercial, que ligava o Mar Vermelho e o Egito à Síria e à Mesopotâmia. Provavelmente Moab era um “problema” político-econômico para Israel e Judá, já que estava bem mais inserido no grande jogo político do Oriente Próximo, e recebendo os dividendos dessa participação, como indicam as inscrições assírias.9 Com a tradução e análise do texto de Mesa, bem como dos dados arqueológicos, ficaria claro o interesse de Israel na região, bem como sua ira diante da derrota e da “relação amigável” dos soberanos moabitas com a Assíria. Ao longo da pesquisa, evidenciou-se que a situação também poderia ser a inversa: o Israel omrida era o problema de Moab, e o desenvolvimento do pequeno reino transjordaniano, no aspecto econômico-político, mas também ideológico, deu-se a partir de um forte elemento unificador: as sucessivas derrotas omridas para o rei Mesa; a futura “aliança” com os assírios foi mais um elemento para referendar a vitória sobre os israelitas. Por outro lado, ficou claro também que os dados sobre Moab poderiam trazer novos questionamentos e sugestões para o estudo do texto massorético.. A partir dessas hipóteses, essa dissertação possui três grandes objetivos; mas antes, como prelúdio, pretende-se apresentar uma síntese da pitoresca história da descoberta da inscrição, bem como breves comentários sobre as obras que versam sobre os temas “Moab” e “Mesa”. O primeiro dos objetivos é elaborar uma análise sobre os aspectos arqueológicos de Moab durante a Idade do Ferro, sobretudo o chamado Ferro II, período em que Mesa reinou sobre aquelas terras; para tanto, será necessário também tratar rapidamente sobre a Idade do Bronze Recente, bem como algumas considerações, de ordem mais literária, sobre a dominação assíria na região levantina. O segundo é. 9. Cf. abaixo, capítulo 2, p.100-105.. 16.
(17) apresentar uma tradução crítica da inscrição de Mesa em português, acompanhada dos comentários filológicos mais relevantes; da mesma forma, pretende-se também analisar o gênero literário do texto, comparando-o a outras inscrições do mesmo período, bem como sua forma. Por último, pretende-se sugerir como alguns aspectos, trabalhados na inscrição, podem trazer novas luzes sobre a Bíblia Hebraica.. Por se tratar de uma pesquisa eminentemente teórica, já que, infelizmente, não fazia parte do projeto a participação em levantamentos ou escavações arqueológicas, a segunda parte do capítulo abordará primeiro as obras que são referenciais para esse trabalho. Quanto à tradução da inscrição de Mesa, ainda que ela não esteja associada a um estudo exegético do texto, levará em conta algumas das etapas de investigação propostas pelo método histórico-crítico de exegese, sobretudo as relacionadas à crítica textual, à análise crítica literária, bem como dos gêneros literários, à coesão interna, à forma do texto e à filologia.10 Ainda que a crítica bíblica não possa ser feita da mesma maneira em textos extra-bíblicos pois a exploração filológica e literária de tais documentos ainda está em pleno curso, a não utilização dessas ferramentas metodológicas tornaria as fontes inutilizáveis do ponto de vista histórico-científico11. Quanto ao trabalho de tradução, utilizam-se de vários dicionários e gramáticas especializadas na língua hebraica do Primeiro Testamento.12. 10. VOLKMANN, Martin et alii, Método Histórico-Crítico, São Paulo, CEDI, 1992, p.44. Herbert Donner, História de..., v.1, p.23. 12 ALONSO SCHÖKEL, Luís, Dicionário bíblico hebraico-português, trad. Ivo Storniolo e José Bortolini, 3ª ed., São Paulo, Paulus, 2004, 798 p.; BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles, A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament with an Appendix containing the Biblical Aramaic, Oxford, Claredon Press, 1962, 1118 p.; GESENIUS, Wilhelm, Hebräisches und aramäisches handwörterbuch über das Alte Testament, Berlin, Springer-Verlag, 1962, 1013 p.; HOLLADAY, William (ed.), A Concise Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament, Grand Rapids / Leiden, W. B. Eerdmans / E. J. Brill, 1988, 427 p.; LAMBDIN, Thomas, Gramática do Hebraico Bíblico, trad. Walter Lisboa, São Paulo, Paulus, 2003, 398 p.; KIRST, Nelson et alii, Dicionário hebraico-português e aramaico-português, São Leopoldo/Petrópolis, Sinodal/Vozes, 1988, 305 p. 11. 17.
(18) Não é objetivo desse trabalho estabelecer uma exaustiva comparação, do ponto de vista histórico-arqueológico, entre a sociedade moabita e os reinos de Israel e Judá. Da mesma forma, não se tratará da importância da dinastia omrida, citada pela inscrição de Mesa; para tanto, sugere-se a leitura do capítulo de Israel Finkelstein e Neil Silbermann, dedicado ao tema, bem como do artigo de Carlos Dreher, publicado recentemente; John Dearman, por sua vez, detalha os aspectos relacionados à política e à estratégia internacional dos omridas, sobretudo em relação à Transjordânia.13 Outros aspectos importantes, que não serão abordados, são as questões relacionadas à “revolta” de Moab contra Israel, e a relação da inscrição de Mesa com a História Deuteronomista, bem como as práticas da religião moabita; tais assuntos são trabalhados por John Dearman e Gerald Mattingly, assim como por A. H. Van Zyl.14 Também não se trabalharão as perícopes da Bíblia Hebraica nas quais Moab é nitidamente condenada, como é o caso das passagens que constam no livro dos Números, e dos oráculos que constam em Amós, Ezequiel, Isaías, Jeremias e Sofonias, citados anteriormente.. Não se pretende, igualmente, comparar o texto da inscrição de Mesa com a narrativa de 2Rs 3,4-27, que trata de uma campanha militar dos reis Jorão, de Israel, Josafá, de Judá, além de um rei desconhecido de Edom, contra a rebelião de Mesa, que foi derrotado e ainda sacrificou seu primogênito, tentando safar-se do desastre militar; além disso, a passagem conta com um oráculo do profeta Eliseu, que o faz em atenção ao rei judaíta. No entanto, cabem aqui alguns comentários sobre essa passagem. O pesquisador israelense Michael Avioz afirmou, em artigos bastante recentes, que 13. Israel Finkelstein ; Neil Silbermann, A Bíblia..., p.234-268; DREHER, Carlos, “Um olhar favorável sobre os Omridas”, em DREHER, Carlos et alii (orgs.), Profecia e esperança: um tributo a Milton Schwantes, São Leopoldo, Oikos, 2006, p.202-217; DEARMAN, John Andrew, “Historical Reconstruction and the Mesha‘ Inscription”, em DEARMAN, John Andrew (ed.), Studies in the Mesha Inscription and Moab, Atlanta, Scholars Press, 1989, p.157-167. 14 John Andrew Dearman, “Historical Reconstruction...”, p.196-210; MATTINGLY, Gerald L., “Moabite Religion”, em John Andrew Dearman (ed.), Studies in the..., p.211-238; VAN ZYL, A. H., The Moabites, Leiden, E. J. Brill, 1960, p.193-202.. 18.
(19) narrativas proféticas como a de 2Rs 3,4-27, ou a cura de Naamã (2Rs 5), bem como o cerco de Dotã (2Rs 6,8-23), o cerco de Samaria (2Rs 6,24-7,20), a profecia para Hazael (2Rs 8,7-15) e mesmo os eventos relacionados a Jeú, podem apresentar um núcleo histórico, ainda que o relato que trata de Mesa seja muito mais uma crítica ao rei Jorão, salientando a impiedade dos reis omridas.15 Já para Herbert Donner, a perícope de 2Rs 3,4-27 é uma saga relacionada à atuação do profeta Eliseu, provavelmente registrada na fase pré-deuteronomista;16 talvez seja por isso que John Dearman prefira analisar o texto de Mesa de forma menos dependente dessa passagem, assim como a de 2Cr 20.17 Além de referendar esse aspecto, John Bartlett afirma que existem paralelos entre 1Rs 22,45.7 e 2Rs 3,7.11, o que poderia sugerir uma dependência do segundo texto em relação ao primeiro.18. O primeiro capítulo dessa dissertação, além de fazer uma introdução geral sobre o surgimento da “arqueologia bíblica” e da situação política do Levante, durante a segunda metade do século 19, apresentará a história da descoberta e das negociações em torno da inscrição de Mesa, bem como da sua reconstrução, por Charles ClermontGanneau. Da mesma forma, trará um sucinto levantamento dos principais autores consultados, que trabalharam a inscrição de Mesa e a história de Moab. Em seguida, o 15. AVIOZ, Michael, “The Book of Kings in Recent Research (Part I)”, em Currents in Biblical Research, 5.1, 2005, p.6; AVIOZ, Michael, “The Book of Kings in Recent Research (Part II)”, em Currents in Biblical Research, 4.1, 2006, p.27.29. Curiosamente, em 1Rs 22 e 2Rs 3, quando o piedoso rei judaíta sai de cena, Israel sofre revezes; BARTLETT, John, “The ‘United’ Campaign against Moab in 2 Kings 3:427”, em em SAWYER, John ; CLINES, David (eds.), Midian, Moab and Edom, JSTOR Press, Sheffield, 1983, p.137. 16 DONNER, Herbert, História de Israel e dos povos vizinhos: da época da divisão do reino até Alexandre Magno (v.2), 3a ed, trad. Claudio Molz e Hans Trein, São Leopoldo, Editora Sinodal, 2004, p.299. 17 John Dearman, “Historical Reconstruction...”, p.201-210. 18 John Bartlett, “The ‘United’ Campaign against Moab in 2 Kings 3:4-27”, p.135-136. A grande preocupação desse autor, na verdade, é menção ao “rei de Edom”, que tem um papel bastante limitado na narrativa (2Rs 3,9.12.26). Segundo ele, não existem sólidas evidências que algum rei de Edom tivesse participado de qualquer campanha militar contra Mesa, aliando-se ao rei de Israel, mesmo porque talvez nem existisse uma monarquia em Edom. Ao contrário, menciona-se um “rei” simplesmente em função do “deserto de Edom”, onde as águas aparecem avermelhadas; cf. p.144.. 19.
(20) segundo capítulo traz um panorama sobre os aspectos geográficos mais importantes da porção centro-sul da atual Jordânia, como os tipos de solo, a quantidade de chuvas, a relação entre sítios atuais e localidades indicadas pela inscrição de Mesa e pelo texto massorético, as principais vias de comunicação. O mesmo capítulo trabalha alguns aspectos da arqueologia transjordaniana, na Idade do Bronze Recente (a organização das cidades-Estado sob a dominação egípcia, bem como o desenvolvimento de um comércio internacional, e sua relação com a elite local), na Idade do Ferro (o surgimento de uma sociedade baseada na casa, o crescimento populacional e no número de relacionamentos, a construção de “palácios”, portões, fortalezas, o uso de esculturas) e durante a dominação assíria. Finalmente, no terceiro capítulo, é apresentada a tradução da inscrição do rei Mesa ao português, bem como a análise do seu gênero literário e da sua forma. As considerações finais, além de uma síntese geral do trabalho, sugerem que, em alguns aspectos, a Bíblia Hebraica poderia ser trabalhada a partir de um “olhar moabita”.. 20.
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