HÉLDER SAMUEL GONÇALVES DE LIMA
ANTÓNIO VICENTE DE CASTRO / AMPLIAÇÃO DA
ESTALAGEM SÃO CRISTÓVÃO
Dissertação apresentada para obtenção do Grau de Mestre em Arquitectura no Curso de Mestrado Integrado, conferido pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.
Orientador: Prof. Doutor Miguel Santiago Fernandes.
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Instituto Superior Manuel Teixeira GomesPortimão 2014
HÉLDER SAMUEL GONÇALVES DE LIMA
ANTÓNIO VICENTE DE CASTRO / AMPLIAÇÃO DA
ESTALAGEM SÃO CRISTÓVÃO
Dissertação defendida em provas públicas no Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, no dia 03/10/2014 perante o júri nomeado pelo Despacho de Nomeação nº. 15/2014, com a seguinte composição: Presidente:
Prof. Doutor Hugo Philipe H. da Nazareth Fernandes de Cerqueira (Professor Auxiliar, ISMAT)
Arguente:
Prof.ª Doutora Ana Cristina Santos Bordalo (Professora Auxiliar, ISMAT)
Orientador:
Prof. Doutor Miguel João Mendes do Amaral
Santiago Fernandes (Professor Associado,
ISMAT e Professor Auxiliar, UBI)
Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes
Portimão
Hélder Lima: António Vicente de Castro | Ampliação da Estalagem São Cristóvão
Hélder Lima: António Vicente de Castro | Ampliação da Estalagem São Cristóvão
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“António Vicente de Castro, autor qualificado e combativamente coerente com o seu tempo e a sua geração, introdutor da arquitectura moderna no barlavento algarvio, bem merece a continuação do estudo sobre a sua obra mas, acima de tudo, uma pensada protecção, restauro e preservação das suas mais notáveis criações.” (Fernandes, 2004)1
1 António Vicente de Castro / Arquitectos da Geração moderna, (2004). Portimão, [Desdobrável da exposição,
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RESUMO
O tema António Vicente de Castro - Ampliação da Estalagem São Cristóvão recorda um arquitecto e um dos projectos pioneiros do Movimento Moderno no Algarve que foi descaracterizado pelo desenvolvimento económico da região.
Muitas são as opiniões acerca do estado devoluto do Hotel São Cristóvão, mas muito poucas são as que reconhecem o edifício que lhe deu origem, era um posto rodoviário, um dos primeiros na região. Uma construção original em quase tudo a que lhe compete, o tempo e as circunstâncias rapidamente a depuseram. Que tempo? E que circunstâncias?
Em arquitectura, as demolições, reconversões e ampliações são «cicatrizes» legítimas da história, marcas que beneficiam ou não os seus corpos; estimulante é incorporar a intensão dessas mudanças e procurar as «cicatrizes» que nos convenham, o projecto final será sempre algo subjugado à emoção dos seus infindos observadores.
Palavras-Chave: Vicente de Castro; Estalagem São Cristóvão; Lagos; Ampliação; Composição.
ABSTRACT
The theme António Vicente de Castro – Magnifition of Estalagem São Cristóvão reminds an architect and a pioneer of the Modern Style project in the Algarve whose had been mischaracterized by the economic development of the region.
There are many opinions about the state of the degraded Hotel São Cristóvão, but very few are those who recognize the building that gave rise to it, was a bus station, one of the first in the region. An original construction, who’s the time and circumstances quickly ousted. Which time? And which circumstances?
In architecture, the demolitions, conversions and extensions are "scars" legitimate the history, marks that benefit or not their bodies; stimulating is embody the intention of this changes and look for the "scars" which may be we agreed on, the final draft will always be something subdued at the emotion of theirinfinities observers.
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ABREVIATURAS CML- Câmara Municipal de Lagos
CODA- Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitecto DUT- Declaração de Utilidade Turística
EBAL- Escola de Belas Artes de Lisboa EBAP- Escola de Belas Artes do Porto EN- Estrada Nacional
MUDJ- Movimento de Unidade Democrática Juvenil PIDE- Polícia Internacional e de Defesa do Estado SAAL- Serviço Ambulatório de Apoio Local
SNI- Secretariado Nacional de Informação Cultura Popular e Turismo SONAP- Sociedade Nacional de Petróleos
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ÍNDICE GERAL
VOLUME I
1. INTRODUÇÃO ... 12
1.1. QUEM É ANTÓNIO VICENTE DE CASTRO? ... 14
1.1.1. NOTAS BIOGRÁFICAS DO ARQUITECTO ANTÓNIO VICENTE DE CASTRO ... 16
1.2. QUESTÕES E OBJECTIVOS ... 20
1.3. METODOLOGIA ... 22
1.4. CRONOLOGIA ... 23
2. CAPÍTULO II - ESTALAGEM SÃO CRISTÓVÃO 2.1. UM POSTO RODOVIÁRIO NO ALGARVE ... 26
2.1.1. ESTALAGEM SÃO CRISTÓVÃO, 1952 ... 27
2.2. A INSURGÊNCIA DA ARQUITECTURA DO MOVIMENTO MODERNO EM PORTUGAL ... 31
2.2.1. O MOVIMENTO MODERNO NA ARQUITECTURA ... 31
2.2.2. A PRIMEIRA GERAÇÃO MODERNA EM PORTUGAL ... 32
2.2.3.O DILEMA ENTRE O MODERNISMO PORTUGUÊS E A ARQ. DO MOVIMENTO MODERNO .... 33
2.2.4.O ENSINO DA ARQUITECTURA NOS ANOS 40 ... 35
OS PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO TÚRISTICO DO ESTADO NOVO EM PORTUGAL ... 37
2.3.1. ANTECEDENTES ... 37
2.3.2. O DESENVOLVIMENTO DE UM NOVO CONCEITO DE ESTABELECIMENTO TURÍSTICO: AS POUSADAS E OS “ALBERGUES EN CARRETERA” ... 40
2.4. A CIDADE DE LAGOS NO INÍCIO DO SÉC. XX ... 43
2.5. ESTALAGEM SÃO CRISTÓVÃO, 1954 ... 44
3. CAPÌTULO III - TRANSFORMAÇÃO DO ALGARVE E OS CASOS DE ESTUDO 3.1. OS DIFERENTES TIPOS DE TURISMO ... 51
3.2. A GÉNESE DO ALGARVE TURÍSTICO ... 52
3.3. A MUDANÇA NA CIDADE DE LAGOS ... 53
3.3.1.CASO DE ESTUDO I, AMPLIAÇÃO DA ESTALAGEM SÃO CRISTÓVÃO, 1959; ARQ. JOSÉ VELOSO ... 56
3.4. A “TRAGÉDIA URBANÍSTICA” DO ALGARVE ... 63
3.4.1. CASO DE ESTUDO II, HOTEL SÃOCRISTÓVÃO, 1969; ARQ. FRANCISCO AZANCOT KERI ... 65
3.5. COMPARAR OS CASOS DE ESTUDO ... 71
4. CAPÍTULO IV - PROJECTO, LINGUAGEM E COMPOSIÇÃO EM ARQUITECTURA 4. O ACTO DE ARQUITECTAR ... 74
4.1. PRINCÍPIOS DE ORDEM ... 75
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EXEMPLO 1 ... 78
EXEMPLO 2 ... 79
CONSIDERAÇÕES ... 80
4.1.2. COMPOSIÇÃO ... 81
4.2. MEMÓRIA DESCRITIVA E JUSTIFICATIVA ... 82
4.2.1. CRITÉRIOS DE IMPLANTAÇÃO ... 83 4.2.2. CONCEITO E IDENTIDADE ... 84 4.3. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 90 5. CONCLUSÃO ... 92 BIBLIOGRAFÍA ... 94 ANEXO I LISTA DE OBRAS DE VICENTE DE CASTRO ... 97
VOLUME II PEÇAS DESENHADAS IMPLANTAÇÃO ... FOLHA 1 IMPLANTAÇÃO 2 ... FOLHA 2 PISO 0 ... FOLHA 3 PISO 1 ... FOLHA 4 PISO 2 ... FOLHA 5 PISOS 3 E 4 ... FOLHA 6 PISO 5 ... FOLHA 7 COBERTURA ... FOLHA 8 QUARTO TIPO ... FOLHA 9 CORTE AA’ ... FOLHA 10 CORTE BB’ ... FOLHA 11 CORTE CC’ ... FOLHA 12 ALÇADO NORDESTE ... FOLHA 13 ALÇADO SUDESTE ... FOLHA 14 ALÇADO SUDOESTE ... FOLHA 15 ALÇADO NOROESTE ... FOLHA 16
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ÍNDICE DE FIGURAS
Fig. 1- Estalagem São Cristóvão, anos 50. Fonte: Luísa Castro.Fig. 2- Hotel São Cristóvão, 2012. Fonte: Autor.
Fig. 3- Panorâmica da entrada da cidade de Lagos, 2014. Fonte: Fototeca Municipal de Lagos, por Francisco Castelo.
Fig. 4- Hotel São Cristóvão, 2014.Fonte: Fototeca Municipal de Lagos, por Francisco Castelo.
Fig. 5- Digitalização de um esboço do autor: Vicente Castro e a sua transposição de elementos da arquitectura tradicional algarvia para as suas vanguardistas construções. Fonte: Autor.
Fig. 6- Perspectiva à mão da Casa Nunes, Lagos, 1959. Por Vicente Castro. Fonte: Luísa Castro. Fig. 7- Piso 0; Reprodução do autor, Estalagem São Cristóvão, 1952. Fonte: Autor.
Fig. 8- Piso 1; Reprodução do autor, Estalagem São Cristóvão, 1952. Fonte: Autor.
Fig. 9- Perspectiva à mão da Estalagem São Cristóvão, Lagos, 1952. Por Vicente Castro. Fonte: Posto Rodoviário de Lagos, no Arquivo Municipal.
Fig. 10- Planta de Implantação da Estalagem São Cristóvão, Lagos, 1952. Por Vicente Castro. Fonte: Posto Rodoviário de Lagos, no Arquivo Municipal.
Fig. 11- Mapa de unidades hoteleiras no Algarve até 1930. Fonte: Autor; Interpretado de Brito S. P. (2009). Território e Turismo no Algarve; Lisboa: Edições Colibri / Centro Internacional de Investigação em Território e Turismo da Universidade do Algarve.
Fig. 12- Expansão Urbana de Lagos, no Ínicio do Séc.XX. Fonte: Paula, Rui,(1992). Lagos evolução
urbana e património; Lagos: Câmara Municipal.(p.118).
Fig.13- Painel de Apresentação e Capa do Portfólio para o Projecto da Estalagem São Cristóvão na EBAP, do Projecto da Estalagem São Cristóvão, 1955. Por Vicente Castro. Fonte: Luísa Castro.
Fig. 14- Piso 0; Reprodução do autor da Estalagem São Cristóvão, 1954. Fonte: Autor. Fig. 15- Piso 1; Reprodução do autor da Estalagem São Cristóvão, 1952. Fonte: Autor.
Fig. 16- Perspectiva à mão da Estalagem São Cristóvão, Lagos, 1954. Por Vicente Castro. Fonte: CODA, Um Posto Rodoviário em Lagos; Luísa Castro
Fig. 17- Estalagem São Cristóvão, anos 50. Fonte: CODA, Um Posto Rodoviário em Lagos. Luísa Castro.
Fig. 18- Reprodução com base nos desenhos originais da Cama tipo. Fonte: Autor
Fig. 19- Reprodução com base nos desenhos originais do tapume na sala de refeições. Fonte: Autor Fig. 20, 21 e 22- Perspectivas sobre os elementos decorativos: as grelhas nos planos de parede; o balcão, os tectos falsos, as prateleiras; o vão de escada interior com a parede «perfurada» de luz exterior. Fonte: Luísa Castro.
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Fig. 28- Em 1965, a viagem terrestre Lisboa- Algarve demorava o dobro do tempo da viagem aérea Londres-Faro ou Berlim-Faro. Fonte: Autor.
Fig. 29- Plano de Expansão Urbana de Lagos, nos anos 50. Fonte: Paula, Rui,(1992). Lagos evolução
urbana e património; Lagos: Câmara Municipal.(p.118).
Fig. 30- Representação tridimensional com a proposta de ampliação do Arq. José Veloso a vermelho. Fonte:Autor.
Fig. 31- Piso 0; Reprodução do autor, proposta do Arq. José Veloso, sobre a Estalagem do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 32- Piso1; Reprodução do autor, proposta do Arq. José Veloso, sobre a Estalagem do Arq. Vicente Castro no Piso 1. Fonte: Autor.
Fig. 33- Desennho de Implantação da Ampliação proposta pelo Arq. José Veloso, 1959. Fonte Projecto de ampliação do Posto Rodoviário de Lagos; Arquivo Municipal.
Fig. 34- Alçado Nordeste; Reprodução do autor, Estalagem São Cristóvão de 1954, do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 35- Alçado Nordeste; Reprodução do autor, proposta de ampliação do Arq. José Veloso, 1959. Fonte: Autor.
Fig. 36- Alçado Sudeste; Reprodução do autor, Estalagem São Cristóvão de 1954, do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 37- Alçado Sudeste; Reprodução do autor, proposta de ampliação do Arq. José Veloso, 1959. Fonte: Autor.
Fig. 38- Mapa de unidades hoteleiras no Algarve até 1964. Fonte: Autor; Interpretado de Brito S. P. (2009). Território e Turismo no Algarve; Lisboa: Edições Colibri / Centro Internacional de Investigação em Território e Turismo da Universidade do Algarve.
Fig. 39- Construção do Hotel Golfinho, Lagos, anos 60. Fonte: Francisco Castelo, Fototeca Municipal de Lagos.
Fig. 40- Representação tridimensional com a proposta de ampliação do Arq. Francisco Keri a vermelho. Fonte:Autor.
Fig. 41- Avenida dos Descobrimentos, com a Estalagem ao fundo, Lagos, anos 60. Fonte: Francisco Castelo, Fototeca Municipal de Lagos.
Fig. 42- Hotel São Cristóvão, Lagos, anos 70. Fonte: Francisco Castelo, Fototec Municipal de Lagos. Fig. 43- Piso 0; Reprodução do autor, proposta do Arq. Francisco Keri, sobre a Estalagem do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 44- Piso1; Reprodução do autor, proposta do Arq. Francisco Keri, sobre a Estalagem do Arq. Vicente Castro no Piso 1. Fonte: Autor.
Fig. 45- Implantação, Reprodução do autor, proposta do Arq. Francisco Keri. Fonte: Autor.
Fig. 46- Alçado Nordeste; Reprodução do autor, Estalagem São Cristóvão de 1954, do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
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Fig. 47- Alçado Nordeste; Reprodução do autor, proposta de ampliação do Arq. Francisco Keri, 1969. Fonte: Autor.
Fig. 48- Alçado Sudeste; Reprodução do autor, Estalagem São Cristóvão de 1954, do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 49- Alçado Sudeste; Reprodução do autor, proposta de ampliação do Arq. Francisco Keri, 1969. Fonte: Autor.
Fig. 50- Comparação do programa construtivo entre os três projectos. Fonte: Autor.
Fig. 51- Quadrado vermelho = preexistência; quadrado azul = ampliação. Fonte: Autor.
Fig. 52- Decomposição do Alçado Nordeste, Reproduzido pelo autor, Estalagem S. Cristóvão de 1954, do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 53- Composição Síntese do Alçado Nordeste, da Estalagem S. Cristóvão de 1954. Fonte: Autor. Fig. 54- Decomposição do Alçado Nordeste, Reproduzido pelo autor, proposta do Arq. José Veloso, sobre a Estalagem do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 55- Composição Síntese do Alçado Nordeste, Reproduzido pelo autor, proposta do Arq. José Veloso, sobre a Estalagem do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 56- Decomposição do Alçado Nordeste, Reproduzido pelo autor, proposta do Arq. Francisco Keri, sobre a Estalagem do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 57- Composição Síntese do Alçado Nordeste, Reproduzido pelo autor, proposta do Arq. Francisco Keri, sobre a Estalagem do Arq. Vicente Castro. Fonte: Autor.
Fig. 58- Alçado Nordeste da proposta para o Hotel São Cristóvão. Fonte: Autor.
Fig. 59- Enquadramento Urbano do Hotel São Cristóvão, Fotografia Aérea. Fonte: Google Maps.
Fig. 60- Organização do Lote. Fonte: Autor.
Fig. 61- Perspectiva para o hotel desde a EN 120. Fonte: Autor.
Fig. 62- Configuração dos módulos dos quartos sobre a Estalagem. Fonte: Autor. Fig. 63- Planta do Piso 1. Fonte: Autor.
Fig. 64- Planta do Piso 3 e 4. Fonte: Autor. Fig. 65- Quarto Tipo. Fonte: Autor.
Fig. 66- Pormenor do revestimento exterior.
Fig. 67- Perspectiva para o Hotel São Cristóvão desde a Praça D. João II.
Fig. 68- Comparação do programa construtivo entre os quatro projectos. Fonte: Autor Fig. 69- Gráfico Radial, comparativo entre os diferentes Casos de Estudo
Fig. 70- Mapa Administrativo de Portugal e do Algarve «rodado». Fonte: Gaspar (1993) in Fernandes, J. M; Janeiro, A. (2005) Arquitectura no Algarve: dos primórdios à actualidade, uma leitura de síntese: [s.l.]: Edicões Afrontamento.
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INTRODUÇAO | 01
Diz-se que a história é escrita pelos vencedores, perguntamo-nos quantos heróis ficaram perdidos no tempo, ou quantos heróis da história seriam inglórios aos olhos de hoje. Com o passar do tempo, a história vai-se «fechando» para os esquecidos, depois de se apagarem as memórias de quem viu ou de quem faz; fica apenas a valer o que é factual para permitir reescrevê-la ou emendá-la. Com um tempo cada vez mais «fervilhante» em acontecimentos, pessoas ou métodos para gerar factos, é natural que alguns submerjam no esquecimento, sendo uma constante «luta» saudável e legítima pela afirmação cultural. A história é escrita por homens e não está só limitada à bibliografia publicada; dando sentido ao aforismo frequente nos discursos de André Malraux “A cultura não se herda, conquista-se”.
António Vicente de Castro deixou-nos um legado de referência para a história da arquitectura no Algarve. As suas obras embargam traços de uma atitude vanguardista para o paradigma da construção existente, até então, a Sul de Portugal. É inglório que não exista sinal oficioso de reconhecimento do seu trabalho arquitectónico como «a mão» que trouxe a arquitectura modernista ao Barlavento Algarvio.
Não se pretende com esta dissertação qualquer afronta ou imposição ao «quadro» da história da Arquitectura, mas está implícito o objectivo de divulgar e honrar a obra do Arquitecto António Vicente de Castro, tendo como enfoque o seu primeiro projecto de Arquitectura, a Estalagem São Cristóvão, em Lagos.
Pretende-se levar a cabo uma ampliação do edifício referente ao projecto inicial (1954), através, de um programa idêntico ao do edifício existente, resultado da ampliação para Hotel em 1969, experienciando soluções sobretudo de sustentabilidade, composição e linguagem que permitam a coexistência com as características arquitectónicas deixadas pelo autor, num dos seus emblemáticos projectos.
Numa região em constante mutação desde os anos 50, muito devido à procura como refúgio turístico, pelas suas características naturais e climáticas, são de salientar os estragos provocados pela ganância de quem quer tirar o proveito máximo de uma das maiores fontes de enriquecimento financeiro em Portugal, o turismo. Exemplo demonstrativo dessa avidez, é a transformação da citada obra, a Estalagem São Cristóvão no Hotel São Cristóvão. Antes de
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avaliar ou reportar opiniões incipientes e não querendo desvalorizar já o trabalho elaborado e existente, embora devoluto, gostaríamos de começar por referir, que já na época da ampliação haveria respeito ao projecto da Estalagem; sinal evidente dessa «estima», além de outros, é claro, a prevalência desse primeiro volume no aglomerado actualmente em ruína.
Devoluto desde princípios dos anos 90, o Hotel São Cristóvão traduz uma imagem elementar e de lamentar para quem passa e vive em Lagos, isto porque se situa no principal ponto de acesso à cidade, o que, além de suscitar diálogo quanto à sua inutilidade, arrecada também o peso negativo para uma imagem local.
Pela sua localização, poderia ter o poder de dar uma representação positiva dos elementos históricos presentes na cidade, mas, pelo contrário, apresenta, logo à entrada, um descuido, ou despreocupação em proteger marcos de uma referência histórica mais recente, ainda que na cidade, além de outras estratégias de preservação arquitectónica de diferentes fases históricas, se queira, e bem, preservar elementos conotados à sua importância enquanto capital do Algarve na época dos Descobrimentos. Desconhecemos a possibilidade de reconhecimento da Estalagem como património, muito devido à sua actual configuração ou «desfiguração», sendo sobretudo importante a requalificação desta zona da cidade, por aquilo que a obra representa, como o próprio lugar exige, pela sua localização, no começo da Avenida dos Descobrimentos e junto ao novo edifício da Câmara Municipal de Lagos.
Fig. 1_ Estalagem São Cristóvão, anos 50 Fonte: Autor
Fig. 2_ Hotel São Cristóvão, 2012 Fonte: Autor
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É do conhecimento geral que a propriedade do edifício tem vindo a ser adquirida por diferentes entidades, sendo do desconhecimento comum o porquê da não-aprovação de projectos que reavivem o edificado ou o próprio espaço em si, assim como é do desconhecimento de todos e quiçá até dos proprietários, que algures naquele «emaranhado» de volumes, localiza-se um dos primeiros, se não o primeiro projecto do Movimento Moderno Internacional no Barlavento; talvez o primeiro protótipo de edifício hoteleiro destinado ao tipo de turismo vigente no Algarve e o primeiro projecto do Arquitecto António Vicente de Castro.
QUEM É ANTÓNIO VICENTE DE CASTRO? | 1.1.
Seguindo a escassa bibliografia em que este nome é referenciado, muito ainda em função das recentes investigações; por exemplo, de Rui Mendes Paula, ou de outras publicações que a ele ou dele sucederam, como as de José Manuel Fernandes, e não querendo descriminar outros trabalhos ou nomes envolvidos na recuperação e valorização do
Fig.3_ Panorâmica da entrada da cidade de Lagos, 2014 Fonte: Fototeca Municipal Lagos, por Francisco Castelo
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património arquitectónico algarvio, é elementar a referência a três arquitectos que se formaram nos finais da década de 40 na Escola de Belas Artes do Porto: Manuel Laginha, Gomes da Costa e António Vicente de Castro, por via de uma orientação reaccionária a uma arquitectura subjacente às ideologias do regime do Estado Novo que imperava sobretudo na Escola de Belas Artes de Lisboa e gerava inconformismo numa geração de arquitectos que se viria a notabilizar.
“Manuel Laginha, nascido em Loulé, 1919-1986, diplomado pela
EBAP, 1947, construiu na área de Loulé, Quarteira e Olhão, para além do seu brilhante percurso profissional próprio, em Lisboa; Manuel Gomes da Costa, natural de Vila Real de Santo António […] trabalhou em Tavira, Olhão, Faro e Aljezur; e Vicente Castro, trabalhando em Portimão e Lagos […]”2
(Fernandes, 2005, p.99)
Este trio de autores daria às suas respectivas cidades onde se estabeleceram ou de onde eram naturais, os primeiros e qualificados exemplos da chamada Arquitectura Moderna do Movimento Internacional, da arquitectura do pós-guerra construídos no Algarve.
Seguindo a mesma ordem de ideias, António Vicente de Castro nasceu em Lisboa a 17 de Outubro de 1920, no seio familiar viveu a sua infância e juventude em Lagos e é também em Lagos onde é impossível passar sem avistar o degradado edifício do antigo Hotel São Cristóvão. Para a generalidade dos visitantes pode ser descrito como um avultado aglomerado de volumes rebocados
de branco, repetindo sombrias varandas. Esta imagem mantém-se assim há tanto tempo, que para a maioria dos residentes nas redondezas, a fugaz e «desprezável descrição» pode também ser a mesma. São os que atravessaram a geração de 1960 que recordam o ainda identificável embrião original que implodiu naquele amontoado de construção; era uma estalagem, que em conjunto com uma bomba de gasolina adjacente completava o Posto Rodoviário de Lagos,
2 Fernandes, J. M; Janeiro, A. (2005) Arquitectura no Algarve: dos primórdios à actualidade, uma leitura de
síntese: [s.l.]: Faro: Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Algarve, p.99. Fig. 4_ Hotel São Cristóvão, 2014
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este “[…] constitui o trabalho final de curso para a defesa de tese e obtenção do diploma de
arquitecto do seu autor, o arquitecto António Vicente de Castro, que obteve, na Escola de Belas Artes do Porto, em 1955, a nota final de 19 valores.” 3
(Castro, 2009)
NOTAS BIOGRÁFICAS DO | 1.1.1.
ARQUITECTO ANTÓNIO VICENTE CASTRO4
Fundamentando-nos nos textos de José Manuel Fernandes, presentes na exposição “António Vicente de Castro / Arquitectos da Geração Moderna” de 2004, dedicada a este autor, em Portimão, aos quais acrescentamos algumas observações, verificamos que António Vicente de Castro, imbuído de uma atitude de resistência política que articulava com os ditames do Movimento Moderno no campo da arquitectura e do urbanismo, manifestou-se de forma coerente e de modo intenso no campo político da esquerda e da luta anti estatal, militando o MUDJ (Movimento de Unidade Democrática Juvenil), tendo até sido preso pela PIDE em 1947, e impedido, alguns anos depois, de frequentar a Escola de Belas Artes de Lisboa, interrompendo a sua frequência ao curso de Arquitectura, por se ter manifestado em defesa de “atitudes indignas”5
por parte de outros alunos. Discípulo de Carlos Ramos acabaria por formar-se em Arquitectura pela Escola de Belas Artes do Porto em 1955, apresentando como tese final, o projecto para o Posto Rodoviário de Lagos – Estalagem São Cristóvão. Radicou-se em Portimão a partir de 1956, onde estabeleceu o seu gabinete de arquitectura de onde saíram mais de uma centena de projectos da sua autoria, revelando uma intensa actividade profissional que prolongou por mais de quatro décadas. Manteve também uma consciência cívica e politica que o levou a participar em diversas acções, como a campanha eleitoral para as “eleições legislativas” de 1969, em Portimão ou no “3º Congresso de Oposição de Democrática em Aveiro”, em 1973, além de ter desenvolvido uma actividade crítica, evidente nos vários artigos publicados na imprensa no âmbito da arquitectura,
3 Castro, Luisa G. (2009). Arquitectura modernista no Algarve: a propósito dos «barracões» que envolvem a
nova câmara de Lagos. Jornal Barlavento.[Versão Electrónica], em 27 de Setembro, 2012. de _www.barlavento.pt/index.php/noticia?id=35167
4 Com base nas colunas para a exposição: António Vicente de Castro / Arquitectos da Geração moderna, (2004)
Portimão, [Desdobravel da exposição, coord. Pedro Reis e Luisa Castro, texto por José Manuel Fernandes arq.]
5 Diversos alunos foram interrogados acerca de actos considerados ilícitos por membros do corpo pedagógico da
EBAL, actos que Vicente de Castro defendeu ao ser interrogado, o que lhe valeu um processo de expulsão da Escola; Ver Processo Judicial, em: (1952-1953), "Processo de Rui Loureiro Cochofel e António Vicente de Castro", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_149119 (2014-4-2)
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planeamento e turismo. António Vicente de Castro faleceu em Lisboa a 26 de Novembro de 2002, aos 82 anos, deixando um conjunto de obras arquitectónicas notáveis no contexto algarvio.
O seu legado arquitectónico caracteriza-se por edificações integradas num urbanismo que privilegiava as construções isoladas, bem expostas ao sol e integradas em espaços verdes, com circulação rodoviária separada do trânsito pedonal; edifícios em formas simples geométricas, com elementos modulados, erguidos com recurso ao betão, ao aço e ao vidro. Nos projectos, Vicente de Castro demonstra uma clara e nítida tendência decorativa e de policromia, pela utilização de materiais de revestimento com cores e texturas, criando contrastes cromáticos intensos e vibrantes com recurso à cerâmica de vidrado colorido, à aplicação de cores em grelhas de cimento, ou à simples utilização de rebocos pintados. “[…] Esta tendência
decorativa, embora relativamente corrente nas obras desta época pelo país fora, poderá eventualmente filiar-se numa tradição anterior, já enraizada no algarve, que identificamos igualmente nas garridas cimalhas e platibandas oitocentistas, à qual Vicente de Castro deu uma dimensão renovada e moderna.” 6
(Fernandes, 2005, p. 105)
6 Fernandes, J. M; Janeiro, A. (2005) Arquitectura no Algarve: dos primórdios à actualidade, uma leitura de
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Fig. 5_ Digitalização de um esboço do autor: Vicente Castro e a sua transposição de elementos da arquitectura tradicional algarvia para as suas vanguardistas construções. Fonte: Autor.
Fonte: Autor
“Vicente de Castro demonstra o pendor pela utilização, nos edifícios de habitação colectiva, das varandas ‘em caixa’, formando conjuntos de prismas paralelepipédicos, salientes na fachada, com acentuação do efeito claro – escuro desta dos contrastes de sombra-luz e da marcação do cheio-vazio.
Esta ‘teoria dos avarandados’, que poderemos talvez filiar na arquitectura latino-americana e brasileira do pós-guerra, na sua procura de formas de controlo climático e térmico na habitação colectiva, dentro da influência ‘corbusiana’, contém normalmente três tipos de elementos: a varanda propriamente dita, saliente da fachada cerca de 1 metro protegida com pano de peito em alvenaria; as grelhas de blocos industriais modulados, ocultando ou sombreando parte do espaço avarandado; e as “vigas soltas”, de desenho horizontal, em betão, funcionando como ‘quebra-sol’ ou ‘brise-soleil’ na parte superior do vão, e também como linha de modulação da geometria de cada ‘caixa’ de varanda; Vicente de Castro utiliza as características ‘formas livres’, próprias do design desta época, com claro sentido gráfico, que Nuno Teotónio Pereira caricaturava designando-as como formas de ‘sofisma’, como por exemplo as superfícies curvas irregulares, desenhando vazios em tectos falsos de átrios de edifícios, ou marcando em incisão as fachadas dos edifícios, com recurso à cor.
No conjunto dos seus projectos e obras, Vicente de Castro induz um sentido de ‘obra total’, como atitude base da concepção, procurando tudo controlar e tornar coerente, intentando um ‘desenhar global’, que vai desde as linhas gerais do edificado até ao pormenor do mobiliário e os elementos ‘soltos’
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Fig. 6 Perspectiva à mão da Casa Nunes, Lagos (1958); Autor: Arquitecto António Vicente de Castro. Fonte: Luísa Castro
da composição. Esta é uma atitude que confirma a pertença clara de Vicente de Castro à geração moderna.” 7
(Fernandes, 2005, p.105)
7 Fernandes, J. M; Janeiro, A. (2005). Arquitectura no Algarve: dos primórdios à actualidade, uma leitura de
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QUESTÕES E OBJECTIVOS | 1.2.
Tendo em conta o projecto de ampliação de hotel que fora feito e que aqui é debatido, é evidente o desafio em que se torna esta dissertação, visto que essa intervenção representou um acréscimo de sete vezes o número de quartos pré-existentes na Estalagem, tendo em conta a proporção de programa que isso implica. O tema principal passa por questionar:
- Se será possível uma ampliação idêntica, sem no entanto descaracterizar os elementos que qualificam a Estalagem São Cristóvão?
- Que importância tem a Estalagem São Cristóvão ao ponto de se querer preservar a sua imagem?
- Que atitude na metodologia de projecto funcionaria melhor perante a prevalência estética da preexistência? Analogia ou Contraste?
- Que características no projecto beneficiariam a sua integração na cidade e seriam sustentáveis do ponto de vista do uso do equipamento?
Com a concretização da dissertação pretende-se abranger conhecimentos e competências adquiridas durante a formação académica através da realização de pesquisa, análise e execução de projecto.
No plano de conteúdos pretende-se com esta dissertação, uma divulgação e valorização do legado do Arquitecto António Vicente, contribuindo para o seu reconhecimento e protecção da sua «herança». De outra forma, fica demonstrada a intenção de proteger a Estalagem São Cristóvão através de diferentes possibilidades de projecto que demonstrem a sua possível coexistência com projectos futuros de programas similares ao existente, confrontando-os, sobretudo, pela sua relação de linguagem ou composição arquitectónica com a pré-existência. Há ainda a intenção de criar e dinamizar uma zona importante na cidade de Lagos, com um projecto consciente do contexto local.
Pretende-se ainda, compreender na generalidade, de que forma a arquitectura contemporânea se pode relacionar com pré-existências arquitectónicas, encontrando o seu
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lugar como solução para necessidade actuais, respeitando e recuperando a dignidade de elementos que marcam a identidade da história e do lugar.
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METODOLOGIA | 1.3.
Num primeiro plano, foi elementar a análise que reflectirá a necessidade de prevalência da Estalagem no contexto do projecto proposto, visto que na primeira parte da introdução, se reforçaram alguns aspectos da personalidade e da obra de Vicente Castro. É importante salientar o que representa este arquitecto e a sua obra no contexto da época, fazendo referência à mudança a que o ensino da arquitectura se sujeitou em Portugal, dando origem a uma geração onde se insere este autor; assim como realizámos uma análise sobre o panorama do turismo Português aquando da época da construção da Estalagem. Procuramos elementos de referência para o propósito da sua construção, do ponto de vista regional e local, de modo a revigorar características que a diferencia das demais, e determinámos quais os elementos singulares da Estalagem São Cristóvão, nos anos 50, assim como do autor e o que ambos representam.
Consequentemente, serão abordados os momentos de transição no panorama demográfico Algarvio nos anos subsequentes com fortes implicações na morfologia da cidade de Lagos, tendo impacto significativo na irrelevância que o projecto da Estalagem passou a compreender desde então, justificando assim a sua ampliação, sobre a qual reflectimos, analisando as suas diferentes metodologias de projecto.
A problemática essencial presente nesta dissertação surge a partir da crítica generalizada que é feita à construção existente do Hotel São Cristóvão; é esse momento de transformação da Estalagem para o Hotel que suscita o desafio e o que nos levou a considerar os dois projectos existentes, que se debruçaram sobre este mesmo momento. Assim, os casos de estudo são: o projecto de ampliação de 1959, por parte do Arquitecto José Albuquerque Veloso; e o projecto de 1969, correspondente ao edifício existente da autoria do Arquitecto Francisco Azancot Keri.
Na prática de projecto, será realizado um ensaio, com o objectivo de atingir um programa similar ao existente, tendo como referência os Casos de Estudo debruçando-nos sobre o que neles há a retirar para um exercício de projecto mais apelativo às questões aqui transcritas.
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CAPÍTULO II
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UM POSTO RODOVIÁRIO NO ALGARVE | 2.1.
O Algarve incorpora uma individualidade ímpar no panorama nacional. Já desde a existência da própria nação que é possível dividir o país pela fronteira do Algarve antes de qualquer outro fraccionamento em Portugal continental. Lembrar mesmo que, embora apenas como título honorífico e sem privilégios nem autonomia; desde a reconquista da região em 1248 até à queda da Monarquia em 1910, o nome do país permaneceu como “Reino de Portugal e dos Algarves”. De notar que o nome no plural devesse ao acréscimo dos territórios ultramarinos pertencentes após o século XV. São muitos os factores que contribuem para a individualidade da região: geográficos, climatéricos, económicos e culturais; são tudo factores que a personalizam em relação ao restante país. A extensão da foz do Tejo a acumular à longa planície alentejana fortaleciam a imagem de «ilha do Algarve», pois até ao aparecimento das linhas ferroviárias até sul, coincidindo ou não, o Algarve permaneceu intitulado como um Reino à parte8.
A «ilha do Algarve» é uma imagem factual para as gentes que até lá viajavam, vindas, sobretudo, da capital. Imaginemo-nos num século XIX, sem estradas, pontes, ou linha férrea. As viagens até ao Algarve eram aram assim vulgares por via marítima; era esta, que além de estreitar a viagem, permitia às gentes acima do tejo, usufruir de alguns recursos existentes na região: o sal e os frutos secos, por exemplo.
As viagens até ao Algarve são facilitadas a partir de 1889, com a conclusão da via-férrea até Faro, ainda assim, dependentes da travessia marítima no rio Tejo que ainda haveria de se adiar até final do século XX, com a inclusão da linha férrea na ponte 25 de Abril. À parte do comboio, as idas por terra ao Algarve eram aventuras individuais, por uma única «estrada», feitas a cavalo e sobretudo de Verão, quando baixava o leito da ribeira do Roxo entre Aljustrel e Ervidel, percorrendo longas paisagens quase desertas até atravessar a longitudinal Serra do Caldeirão. Em 1922, a viagem de comboio é possível até Lagos com a conclusão da ponte sobre o Rio Arade entre Portimão e o Parchal. A ligação às restantes vilas no interior, era então feita a partir de carros de tração animal que, a partir de 1927, motorizaram-se, transformando-se nas primeiras «toscas camionetas» improvisadas para a
8 As linhas de caminho de ferro até ao Algarve surgem entre 1889 e 1922, embora não estando directamente
relacionada, a instauração da República surge no mesmo período, 1910, modificando o nome da Nação de Reino de Portugal e dos Algarves para República de Portugal.
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função; caminhos e transportes esses, possíveis de imaginar pela expressão do Poeta Teixeira de Pascoais, de 1926: “Uma estrada em Portugal! Oh que tragédia em solavancos e
barrancos! Quem quiser conhecer Portugal político e administrativo, meta-se num automóvel, depois de implorar a protecção dos Deuses Imortais!” 9. Estas «novas máquinas» eram propriedade de meia dúzia de aventureiros que vinham a enriquecer com o transporte de pessoas dos grandes centros Algarvios para as comunidades mais próximas, limitadas a um alcance regional, em pequenos raios de acção, de 20 a 50 Km. Até aos anos 50, ainda nem havia pontes, nem sequer estradas alcatroadas ao longo dos caminhos inter-regionais, o que, a juntar às capacidades de locomoção destes automóveis, faz-nos perceptíveis essas limitações.
Como exemplo de outras grandes cidades costeiras, por onde passava o comboio, os transiundos chegavam a Lagos e, para chegar a Sagres, Aljezur ou Odemira, teriam de procurar alternativas. É neste sentido que se desenvolve o negócio dos transportes no Algarve. O cansaço das viagens e a dependência de combustível das viaturas seriam também oportunidades de negócio, como foi para Hermano do Nascimento Baptista10, proprietário do Posto Rodoviário de Lagos, encomendado ao então jovem estudante de arquitectura, António Vicente de Castro, em 1952.
ESTALAGEM SÃO CRISTÓVÃO, 1952 | 2.1.1.
Que melhor denominação para um abrigo de automobilistas e viajantes, que São Cristóvão, o nome do Santo protector dos mesmos? Denominado assim pelo empreendedor lacobrigense Hermano Baptista, também ele “camionista de passageiros”, segundo a denominação do ofício na época. Pretendia ele, um tipo de construção de apoio automobilista que fosse suficientemente prestável às necessidades da época; num terreno proveitoso para o efeito, no cruzamento entre as estradas: Lagos-Lisboa, Lagos-Portimão e Lagos-Sagres; encomenda feita ao jovem António Vicente Castro. O programa executado, empreendia um edifício sobradado, numa área de implantação de 220m2, com um piso térreo, dividido entre
9 Teixeira, Pascoais (1877-1952), Verbo Escuro – A beira um Relâmpago, 1966 in Guerreiro A.C., História da
Camionagem Algarvia (De Passageiros) 1925- 1975,Litografia do Sul, S.A.R.L. Vila Real de Santo António. 1983, p.15.
10 Hermano do Nascimento Baptista; (1907 – 2000) Empresário Lacobrigense, foi também camionista e
notabilizou-se como empresário hoteleiro e sobretudo como cozinheiro, recebeu em 2002 a Medalha de Mérito pela Câmara Municipal de Lagos.
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um refeitório, uma loja de acessórios para automóvel, instalações sanitárias e a respectiva zona de serviço, que incluía um quarto com casa-de-banho privativa e uma cozinha. O piso sobradado é composto por 5 quartos e 2 instalações sanitárias, com acesso através de uma escada interior em «U», ou directamente pelo exterior por uma varanda ligada a uma escada suspensa em «L».
A composição é definida na fachada principal pelo corpo sólido branco e paralelepipédico dos avarandados dos quartos, coroado por uma linha de respiradouros circulares, fazendo lembrar as janelas dos cascos nas embarcações; sobre um embasamento que cruzava múltiplos elementos, desde as diferentes larguras de vãos, encimados por linhas de grelhas metálicas, aos planos de parede revestidos pelos diferentes tipos de azulejo, desde a «pastilha», passando pelas quadrículas de medida média, até à pedra rústica, uma «descarga expressionista», demonstrativa das capacidades técnicas dos materiais. Uma segunda divisão é feita por um plano transversal que divide este conjunto sobradado das zonas de serviço, fechadas por uma arquitectura tradicional de paredes em reboco branco e cobertura em beirado, de duas águas.
Este primeiro projecto, embora não executado, denuncia o traço genuíno e expressivo de Vicente de Castro. Entre as linhas rectas surgem também as sinuosas linhas da vegetação e das silhuetas humanas. Noutra análise, é evidenciada, através de alguns pormenores construtivos, a ventilação natural pelos elementos no topo de cada piso, ou as diferentes cenografias orientadas pelos diferentes planos de parede, nalguns casos, «perfurados». De
Fig. 7_Piso 0; Reprodução do autor, Estalagem São Cristóvão, 1952.
Fonte: Autor
Fig. 8_ Piso 1; Reprodução do autor, Estalagem São Cristóvão, 1952.
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uma forma geral; este inovador projecto tem muito de original, a começar por uma implantação longe dos limites da propriedade e «próxima» da unidade habitacional, defendida pelos mestres Modernistas, além dos diferentes «jogos» de planos e volumes interceptados. Deduzindo pelo desenho, Vicente de Castro manifesta aqui, também, algumas intenções e características próprias: quanto às intenções, começa por demonstrar o propósito para o qual o objecto foi construído; isso evidencia-se pela opção do arquitecto em não voltar o alçado principal, onde se realçam os vãos dos quartos, para Sul, mas sim para a bomba de abastecimento no enfiamento da vista para o reflexo do sol nas águas da baía de Lagos. Da mesma forma, a separação, transposta no exterior entre a fachada principal e a zona de serviços, antecipa a possibilidade de ampliação do edifício, pelas evidentes diferenças de ornamentação entre os dois. Quanto às características próprias, é de salientar a forma como Castro cruza constituintes de uma arquitectura tradicional com novos materiais e elementos de uma arquitectura nova.
É este primeiro projecto que nos abre a perspectiva para as várias temáticas a abordar no percurso deste capítulo. É acima de tudo, um projecto de vanguarda; é icónico na obra de um Arquitecto de referência local; é simbólico de um estilo original que transforma características de elementos de linguagem arquitectónica local em algo inovador; é referência para uma nova tipologia arquitectónica que proliferou pela região, acompanhando a economia que hoje a caracteriza.
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Fig. 09_ Perspectiva à mão do Projecto para o Posto Rodoviário de Lagos, 1952; Autor: Vicente Castro
Fonte: Arquivo Municipal de Lagos
Fig. 10_ Planta de Implantação do Projecto para o Posto Rodoviário de Lagos, 1952; Autor: Vicente Castro
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A INSURGÊNCIA DA ARQUITECTURA DO MOVIMENTO MODERNO EM PORTUGAL | 2.2.
“ […] a arquitectura é uma arte social intimamente ligada à vida das pessoas que serve, não é um exercício académico em ornamentação aplicada.” Richards J.M.
O MOVIMENTO MODERNO NA ARQUITECTURA | 2.2.1.
O Movimento Moderno na Arquitectura teve a sua génese ao longo da década de 1920, mas só se viria a afirmar depois da II Guerra Mundial. Advém do espírito vanguardista da civilização no final do século XIX, manifestado através das artes e nas inovações tecnológicas. A procura da verticalidade nas superpovoadas cidades americanas do final do século XIX, aliada à crescente industrialização do aço procurado para as novas estruturas verticais, o desafio para o desenho para essas novas fachadas; o fascínio pelo automóvel revelado pelo Manifesto Futurista de 1909, em Itália, onde Marinetti expressa “Um
Automóvel de corrida… é mais belo do que a Vitória de Samotrácia”, e Sant’Elia ilustra,
como numa premonição, cidades gigantes, rasgadas por vias automóveis, cheias de movimento, uma arquitectura em favor de um novo modo construtivo, despojado de arrojo, com uma identidade simples apoiada por materiais modernos como o betão, o vidro e o aço, em detrimento do historicismo e da ornamentação prevalecentes na Europa. O movimento De
Stijl, fundado por Theo van Doesburg em 1917, nos Países Baixos, inspirado no exercício de
«geometria espiritual» de Piet Mondrian que «desmaterializava» os objectos das suas pinturas até alcançar elementos básicos, como linhas negras horizontais e verticais, preenchidas a branco ou por cores primárias; ou inspirados pela arquitectura de composições tridimensionais que Frank Lloyd Wright praticava na América, através da intersecção de planos que geravam espaços interiores fluidos, amplas varandas e coberturas em balanço, um exercício assimilado pelos restantes membros do Movimento, como Gerrit Rietveld, através da sua Cadeira Vermelha e Azul (1917-18) ou da Casa Schrönder (1924), objectos mais mediáticos que serão difundidos pelo fundador do grupo, Doesburg enquanto docente na Bauhaus, a partir de 1921. Fundada na Alemanha em 1919 por Walter Gropius, a Bauhaus era uma escola que pretendia unir a expressão artística individual aos novos materiais e à máquina industrial, permitindo assim a standardização dos diferentes modelos de objectos domésticos, além de um diferente
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processamento nos modos de pensar o espaço arquitectónico e o design de equipamentos, com significante impacto na qualidade das habitações; principal legado que a Bauhaus deixou sob direcção de Gropius, bem como outros directores que o sucederam, como Hannes Meyer e
Ludwig Mies van der Rohe. Toda esta sucessão de vanguardas seriam fonte de influência para
o designado Internacional Style, descrição da arquitectura modernista das décadas de 20 e 30, altura em que o trabalho de arquitectos como Mies van der Rohe, Walter Gropius e Le
Corbusier foi exposto em Nova Iorque, em 1932. A arquitectura em planta livre e a estética
funcionalista tornaram-se extremamente influentes, e pareciam resumir as ideias dos arquitectos e artistas até aqui descritos. O Movimento serviu-se dos novos materiais e incorporou novos sistemas e foi de tal forma importante, que ainda hoje são o «molde» de desenvolvimento na «paleta» das diferentes ciências, técnicas e métodos da construção actual.
A PRIMEIRA GERAÇÃO MODERNA PORTUGUESA | 2.2.2.
De acordo com Hugo Nazareth Fernandes, e tendo em conta a referência que os nomes têm ainda hoje no ensino da História da Arte e da Literatura em Portugal, podemos datar o aparecimento da modernidade em Portugal, através das publicações do movimento
Orpheu, entre 1914-15; onde surge um espírito artístico, sobretudo literário, reaccionário às
sucessivas demonstrações de «pequenez» por parte do poder vigente11, “subjugado às
potências Europeias que se industrializavam demasiado depressa para um país maioritariamente rural;[…] deste contexto artístico de modernidade portuguesa surgem três nomes pioneiros de um pensamento crítico, nacionalista e moderno: Almada Negreiros, Fernando Pessoa e António Ferro.” (Cerqueira, 2009, pp. 98-99)12
Na Arquitectura, o grande impulsionador terá sido a introdução do ferro nas construções, importante no desenvolvimento de equipamentos, nomeadamente pontes e caminhos-de-ferro, a partir de 1860. Ao longo das décadas seguintes, assiste-se a uma assimilação da linguagem do ferro no meio urbano que, a partir do início da década de 1920, irá conjugar com o betão armado.
11 O Ultimato Inglês ao “Mapa Cor de Rosa” Português, na Conferência de Berlim, em 1886, onde se reuniram
as potências europeias pela divisão das suas possessões no Continente Africano.
12 Cerqueira, Hugo. António Varela e o Legado do Invisível, Composição, Traçado e Simbólica de um à sombra
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O Movimento tem as suas primeiras manifestações a partir de 1925, com o Capitólio de Luís Cristino da Silva, ou o Pavilhão da Rádio do Instituto de Oncologia de Carlos Ramos, em 1927. Além de outros nomes, pretendemos destacar estes dois, por serem «tutores» de um antagonismo que iria marcar uma futura geração de arquitectos portugueses. Esta “primeira geração moderna”13
marca a ruptura com as tradições, através de formas puras, longe da ornamentação que o academismo vigente defendia. É um estilo moderno, um cenário oportuno que iria permitir à ditadura do Estado Novo, implantada em 1933, uma renovação simbólica, assente em novos valores formais, de vanguarda, um «show-off» de atitude de ruptura com o passado, seria uma ferramenta de afirmação do poder estatal e uma afirmação do estatuto profissional para os arquitectos que, através dos novos equipamentos públicos, se expressavam assumindo o «pesado betão-armado» numa demonstração de monumentalidade.
O DILEMA ENTRE O MODERNISMO PORTUGUÊS E A ARQUITECTURA DO MOVIMENTO MODERNO | 2.2.3.
Na realidade, a geração pioneira do Modernismo Literário e a geração desta nova Arquitectura Moderna entravam no paradoxal conflito de ideais; a literária porque defendia valores nacionalistas, num saudosismo sebastiânico. Já esta primeira geração de arquitectos manifestava tendências internacionalistas, fora do contexto tradicional; antagonismo que tornou “efémero” o ciclo modernista destes arquitectos, cujo internacionalismo se mostrava incompatível com o crescente nacionalismo, que passara a fazer parte do discurso de Salazar, Duarte Pacheco e o mesmo António Ferro, antigo director da Revista Orpheu, agora Secretariado de Propaganda Nacional (SPN); bastante evidente no manifesto ao «portuguesismo» que foi “A exposição do Mundo Português, de 1940”.
Para compreender este dilema de ideologias, é preciso entender o paradigma da civilização europeia desde o final da I Guerra Mundial. As crises e ameaças sucessivas14 que
13 Desta primeira geração moderna na Arquitectura, destacam-se, segundo a maioria dos bibliografia consultada:
Luis Cristino da Silva (1896-1976), Carlos Ramos (1897-1957), Pardal Monteiro (1897-1969), Cottinelli Telmo (1897-1948), Jorge Segurado (1898-1990), Rogério de Azevedo (1898-1983), Paulino Montez (1897-1988), Cassiano Branco (1897-1969), e Gonçalo de Mello Breyner (1896-1947), entre outros. Veja-se a este respeito Portas, Nuno, A evolução da arquitectura moderna em Portugal, in ZEVI, Bruno, História da Arquitectura Moderna, 2° vol., Lisboa, ed. Arcádia, 1970, p.707.
14 A Revolução Bolchevique (1917) e a ameaça Comunista; a Repressão e Austeridade imposta no Tratado de
Versalhes (1919) às denominadas Potencias Centrais, derrotadas na I Guerra Mundial, coligação constituída pela: Alemanha, Império Austro-húngaro, Império Otomano e Bulgária; O Crash económico (1929)…
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dela advêm, emergiam um espírito «romântico» de nacionalismo na procura dos seus respectivos heróis do passado, sejam eles míticos ou não, prática comum em tempos de crise. Se em Itália, no primeiro regime fascista, Mussolini evocava o Imperador Romano Júlio
César; na Alemanha, Hitler evocava Bismark, Carlos Magno ou até o mítico Deus Thor15. Estas alusões ao passado levaram, por exemplo, ao encerramento e emigração da Bauhaus em 1933, quando Hitler e o partido Nazi tomaram o poder, por ser considerada demasiado radical com o nacionalismo alemão; ideais tradicionalistas que, tal como em outras nações eram também alentados pela ameaça Comunista que, por seu lado, como acontecia na recente República Soviética, desde 1917, erradicava quaisquer referências com o passado.
Em Portugal, oportunamente «apareciam Santos nas árvores»16, A República tardava a laicização do estado. E na II revolução Republicana de 1926, destacavam-se os membros defensores do catolicismo, entre eles, António Oliveira Salazar, que seguiria o mesmo rumo conservador das nações fascistas mais representativas na Europa, onde ainda vigorava a monarquia. Salazar, Primeiro-Ministro em 1932, procura impor uma filosofia assente nos valores da moral e dos bons costumes e vai desenvolvendo os mecanismos necessários para impor a todos os sectores da sociedade, e ainda que, no princípio, tenha creditado uma primeira geração de edifícios com um estilo modernista, como referimos, vai agora criando um completo isolamento em relação ao exterior, complementado por uma ideia «ficcionada» da realidade portuguesa que começa a ser imposta a partir de 1933 pelo SPN António Ferro, a todos os níveis. No campo da cultura, o SPN controlava os salões de pintura, os prémios literários, as exposições coloniais e os pavilhões nas exposições internacionais, como foi a Grande Exposição do Mundo Português de 1940, esta em plena II Guerra Mundial e culminante nas intenções da política do Estado Novo.
É então pela política cultural nacionalista de António Ferro que se impõe na arquitectura, a imagem ficcionada de um estilo português que terá marcas no ensino da arquitectura a partir dos anos 40, enraizadas pelos textos de Raul Lino sobre a arquitectura portuguesa, como por exemplo o livro “Casas Portuguesas” de 1933, cujos desenhos serviram de modelo para a arquitectura doméstica, como por exemplo, Cassiano Branco concretizou, a partir de 1940, no “Portugal dos Pequeninos”17
, em Coimbra.
15 Deus da mitologia Nórdica idolatrado pelas povoações germânicas, sobretudo durante a ocupação no Império
Romano.
16 Aparições de Nossa Senhora de Fátima, por cima de uma azinheira, 1917.
17 Se Cassiano Branco a vem a desenhar e a sistematizar por encomenda, é, na verdade, Raul Lino o seu
ideólogo, o mentor teórico desta visão estilizada, da arquitectura popular. Bandeirinha, J., Quinas Vivas (pág. 58).
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O ENSINO DA ARQUITECTURA NOS ANOS 40 | 2.2.4. Vicente de Castro, como toda uma geração de arquitectos introdutora da «Segunda Vaga» Modernista em Portugal, atravessou o crucial momento de antagonismo entre dois «novos» estilos germinados no ensino da Arquitectura a partir dos anos 40, um enraizado na tradição e numa imagem nacionalista, o outro, assente na globalização, numa imagem «livre» de condicionalismos.
À cabeça deste antagonismo, estarão duas Escolas «encaminhadas» por dois Arquitectos que haviam sido pioneiros e introdutores da Arquitectura Modernista, pertencentes à denominada “Primeira Geração Modernista”18
dos anos 20; falamos da Escola de Belas Artes de Lisboa (EBAL), encabeçada por Cristino da Silva, e da Escola de Belas Artes do Porto (EBAP), onde se destaca o nome de Carlos Ramos.
Num período em que os Arquitectos se expressam transigentes aos padrões exigidos pelo Estado Novo, o Arquitecto Carlos Ramos aponta o ensino como causa das limitações da sua geração e instrumento de impulso para a transformação da mesma, considera que o ensino privilegia erradamente a reprodução de cópias de fachadas históricas, em detrimento dos aspectos mais técnicos e científicos da profissão. Em 1933, participa no concurso para professor da 4ª cadeira de arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa, mas acaba por perder, para Cristino da Silva, que oferece garantias de uma maior identidade com os valores do passado.
Derrotado, mas persistente contra o ensino obsoleto da arquitectura no momento, Ramos transforma o seu próprio atelier, ao estilo de Walter Gropius, numa escola prática para as novas gerações de arquitectos, por onde passaram novas gerações que com ele convivem, trabalham e aprendem, dando o exemplo de Keil do Amaral, Dário Viana, Raul Torjal ou Nuno Teotónio Pereira, entre muitos outros. Procura conciliar a noção de modernismo e nacionalismo com a finalidade de ultrapassar o momentâneo antagonismo entre as duas. “Se
nacionalismo é o conhecimento exacto ao lugar em que veio a este mundo e o modernismo o estado de consciência proveniente do conhecimento exacto da hora em que a pessoa viu a luz do dia, não só existe contradição entre eles, como podem mesmo ser complementares.”19
18
Portas, Nuno, A evolução da arquitectura moderna em Portugal, in Zevi, Bruno, História da Arquitectura Moderna, 2° vol., Lisboa, ed. Arcádia, 1970, p.707
19 Ramos, Carlos, Algumas palavras e o seu verdadeiro significado” Sudeste, n.º3, 1935. In Tostões, Ana (2004).
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Critica o predomínio da disciplina de desenho e considera que o ensino deve ser simultaneamente teórico e prático, associando as lições na escola à prática em ateliers e oficinas, metodologia que coloca em prática a partir de 1940, quando assume funções de professor interino na 4.ª cadeira de arquitectura da Escola de Belas Artes do Porto, transformando-a, assim, nos anos seguintes, num microcosmos longe das ideologias impostas pelo Estado Novo, promovendo, com isso, atractividade para muitos dos alunos da Escola de Lisboa, como foi o caso de Vicente Castro.
Por influência de Gropius, Ramos activa uma metodologia sustentada nos problemas urbanísticos da cidade do Porto, resultando daí, exercícios académicos relacionados com a realidade social e cultural ao serviço da comunidade inserida; é através dele, também, que chega às mãos dos alunos e colegas professores, uma série de fontes bibliográficas relacionadas com a genologia do Movimento Moderno e a definição dos seus princípios éticos, formais e conceptuais, de onde se destacam os vários ensaios de Le Corbusier, ou as várias publicações britânicas como o Building, The Architects’s Journal e Architectural
Review, a norte-americana Architectural Record, a Studio International e as Brasileiras Brasíl Constrói, Brasil Moderno e Habitat - Revista de Artes do Brasil.
Paralelamente e, desta forma, mais relacionado ainda com o Projecto da Estalagem de Vicente Castro, fomenta um permanente intercâmbio com organismos nacionais e locais permitindo à Escola avançar com projectos que extravasam os seus próprios limites, chegando a diferentes áreas do país; aliando, também, a forma de aproximar ainda mais a Escola da realidade surgem os projectos CODA (Concurso para Obtenção do Diploma de Arquitecto),
que ultrapassam o conceito escrito da importância do projecto, valorizando a reflexão teórica, a visão histórica e a consciência político-social do arquitecto; concurso este, de onde resulta o projecto para um Posto Rodoviário de Lagos, em 1955.
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OS PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO TURISTICO DO ESTADO NOVO EM PORTUGAL | 2.3. A Estalagem São Cristóvão é um projecto assente e criado nos ideais da EBAP como vimos, mas é também fruto da realidade turística que o Estado Novo fazia crer desde a sua instauração.
O fenómeno turístico em Portugal começa a ser desenvolvido num conceito de crescente procura interna; isto explica-se por dois fortes motivos: o isolamento da Europa por uma Espanha em Guerra Civil de 1936 a 1939, sucedendo-a, de 1939 a 1941 uma Segunda Guerra Mundial; e claro, uma incessante política de propaganda nacionalista do Estado Novo ainda recém-constituído, em 1933. Institucionalizado por António Ferro (SNP), que incorporava, além de outras, como vimos, a área do turismo, formalizou-se um desenvolvimento sustentado num forte investimento público no planeamento do território nacional, com implementação, em 1934, dos Planos Gerais de Urbanização, e na criação de novos equipamentos turísticos, com anúncio, em 1939, do lançamento das Pousadas de Portugal, avançando assim com um novo tipo de estrutura hoteleira. Sem esquecer as futuras medidas de férias pagas para incentivar a classe trabalhadora, em 1937. Os dois grandes projectos de planeamento territorial tinham implícitas a ideia de divulgação de uma Arquitectura Portuguesa, e um carácter nacionalista, traduzidos na defesa da moradia unifamiliar, com jardim, e da manipulação de certos elementos formais restritos às ideias de propaganda nacional, com os valores primordiais da terra e da tradição portuguesas.
ANTECEDENTES | 2.3.1. O turismo em Portugal terá tido a sua génese em meados do séc. XIX, com a afluência à ilha da Madeira, pelo seu reconhecimento médico internacional como Sanatorium
Natural para a cura de doenças do foro respiratório, em especial, a tuberculose. A afluência
internacional, sobretudo da classe alta britânica, já seria tão frequente que daí abriu portas para as vantagens climáticas do território. Com a chegada dos industriais britânicos ao continente, generalizou-se a abertura dos então “hotéis-casino”, estabelecimentos de jogo apoiados por hotéis luxuosos, fora do contexto da maior parte da população.
Com a Primeira República, o jogo foi proibido, dando lugar a uma crise no sector ainda embrionário, medida esta rectificada na legislação, após a Segunda República, ainda
Hélder Lima: António Vicente de Castro | Ampliação da Estalagem São Cristóvão
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durante a ditadura militar, em 1927, falamos do Decreto N.º14: 643, de 3 de Dezembro de 1927, onde se regulamentava sobre os “Jogos de fortuna ou azar, forma, lugares e época da sua exploração”. E que terá grandes implicações no sector turístico nacional, daí por diante.
Resumidamente, a legislação que autorizava os locais para a existência do jogo, fomentava a exclusividade de exploração, o que gerou um grande fluxo de investimento estrangeiro. As escolhas dos locais não foi casual, deve-se à presença prévia de estruturas desse tipo nesses mesmos locais. No mesmo decreto, estipulava-se a obrigatoriedade de divulgação e frequente realização de excursões internacionais, além de que exigia a construção de hotéis que servissem as diferentes zonas de jogo; e por isso importam como os primeiros focos de desenvolvimento turístico em Portugal.
“[…] 1.º As zonas de jôgo permanente são duas: uma abrangendo os Estoris e outra a Ilha da Madeira.
2.º As zonas de jôgo temporário serão seis: A primeira em Santa Luzia, Viana do Castelo. A segunda em Espinho.
A terceira na Curia.
A quarta na Figueira da Foz. A quinta em Sintra.
A sexta no Concelho de Portimão, Praia da Rocha.
3.º Em nenhuma das actuais cidades do País, a não ser Funchal e Figueira da Foz, será permitido o jôgo.
4.º No concelho de Cascais só será permitido o jôgo de fortuna ou azar em casino ou casinos construídos a oeste de S. João do Estoril. […]”20 (Lobo, 2012)
Três anos depois, também ainda no período da Ditadura Militar, é aprovado pelo Governo, o Decreto N.º 19:101, de 8 de Dezembro de 1930,- “Regulamento dos Hotéis”. Este definia as categorias em que podiam ser agrupados os estabelecimentos industriais destinados a receber hóspedes: Hotéis de luxo e Hotéis de 1.º, 2.º e 3.ª classe; demonstrando assim, os requisitos indispensáveis que estes deviam cumprir para corresponder a cada uma dessas classificações. Pretendia-se com esta medida, prevenir o uso abusivo da designação de «Hotel», além de cadastrar o número de equipamentos existentes em cada região, e uniformizar e organizar a oferta hoteleira disponível no país.
20 Decreto N.º 14:643, Diário do Govêrno, I Série, N.º 267, 3 Dezembro 1927, (pp. 799-800). In Lobo, S.
Arquitectura e Turismo: Planos e projectos as cenografias do lazer na costa portuguesa, da 1ª República à Democracia; Dissertação de Doutoramento na área científica de Arquitectura, especialidade de Teoria e História; Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra; Coimbra; Agosto de 2012, pp.375-377.