O ESTADO A SERVIÇO DO CAPITAL: A CIDADE DE BARREIRAS – BA
Iann Dellano da Silva SANTOS Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável – ICADS/ Universidade Federal da Bahia – UFBA, Campus Edgar Santos, Graduação em Geografia, 5º semestre, Rua Professor José Seabra, S/N, Centro, Barreiras – BA. [email protected]
Resumo
O objetivo deste trabalho é estabelecer a verídica relação entre Estado e Capital, no intuito de evidenciar práticas políticas em beneficio de uma minoria, como no caso da Rua Dois de Julho, na cidade de Barreiras – BA principal centro urbano do Oeste Baiano. Os recursos financeiros públicos devem ser aplicados em obras de interesse coletivo de uma localidade, mas o que se encontra são obras sem planejamentos e estudos técnicos, afirmando o descaso com a comunidade. Na Lei Nº 10.257/2001 que regulamenta os Artigos 182 e 183 da Constituição Federal que trata da Política Urbana, ordena aos municípios para garantir o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e assegurar o bem estar de seus habitantes. O artigo ainda aponta a prática do governo municipal em favor implícito a um grupo particular onde a população é parcialmente beneficiada, não proporcionando o desenvolvimento urbano autêntico que uma cidade mereça. É preciso de práticas fiscais dos recursos públicos para uma Política Urbana atuante, possibilitando o êxito de projetos de infraestrutura.
Palavras - chave: Desenvolvimento Urbano,Infraestrutura, Estado e Capital.
Abstract
The objective of this article, is to establish an accurate connection between State and Capital, in the motif of evince political practices in benefit of a minority, as in the case of Rua Dois de Julho, in the city of Barreiras - BA, most important urban center in the West of Bahia. The public financial resources should be applied in works of public interest. However what is seen are constructions without planning nor technical studies, that disrespects the community. As the Law Nº 10.257/2001 that regulates Articles 182 and 183 of The Federal Constitution that deals with Urban Politics, orders the counties to ensure the welfare of its inhabitants. In addition, the article points to the municipal practice of implicitly favoring a specific group where the population is partially benefited, not allowing authentic urban development any city deserves. It becomes necessary, fiscal practices of public resources to an acting Urban Politic, allowing the success of infrastructure projects.
Key words: Urban Development, Infrastructure, State and Capital.
INTRODUÇÃO
principal relação de uma sociedade capitalista, necessita de bases estruturais para o seu desenvolvimento.
O objetivo principal deste trabalho é detectar as transformações da paisagem e os motivos que levaram a tal fenômeno, confrontando o antes e depois da implantação de um estabelecimento comercial acompanhada de uma infraestrutura.
O artigo vem identificar os verdadeiros motivos que estimularam o poder público a realizar seu papel, atendendo as “necessidades da comunidade”, no que rege os artigos 182 e 183 da Constituição Federal, regulamentada pela Lei de nº 10.257/2001, através de obras de infraestrutura, suas ações intencionais, benefícios e circunstâncias causadas à população local e vizinha.
MATERIAIS E MÉTODOS
O local de análise é a Rua Dois de Julho, “encontro” dos bairros JK, Vila Brasil e Vila Dulce, situada na cidade de Barreiras, região Oeste do estado da Bahia. Para a representação da área pesquisada foram necessárias pesquisas via internet de imagens do local referencialmente citado.
Foram trabalhados os conceitos, Desenvolvimento Urbano, Reforma Urbana e Reforma Passos, discutidos pelo o autor Marcelo Lopez de Souza que facilitou a linguagem cientifica, a distinção entre os mesmos e outros conceitos utilizados no senso comum. Também abordando o tema “Urbanização”, trabalhado por David Harvey em sua obra “A Produção Capitalista do Espaço”.
A revisão bibliográfica de outros autores foi indispensável na abordagem crítica sobre as verdadeiras intenções de um Estado capitalista e as ações políticas dentro de uma cidade ou como preferir Milton Santos, a ação Geopolítica.
Para aprofundamento reflexivo sobre atuação do Estado, foram consultados documentos relacionados ao Plano Diretor Participativo conforme exigência do artigo 182 da Constituição Federal e regulamentada pela Lei nº 10.257/2001, o Estatuto da Cidade, que foram fundamentais para a interpretação mais cabível sobre execução de obras e projetos públicos. Recorreu-se, também, a origem do até então, “projeto de obra” de recuperação da Rua Dois de Julho, através de informações na Câmara Municipal de Barreiras e Secretária Municipal de Infraestrutura da cidade de Barreiras.
Imagens fotográficas tiradas em 13/11/2009 e 29/05/2010, referentes aos períodos pré e pós a execução da obra, permitiu maior clareza da qualidade do serviço prestado em uso do dinheiro público, proporcionando uma comparação.
FIGURA 2
RESULTADOS E DISCUSSÕES
tornou um ambiente centrípeto, fazendo com que pessoas de outros municípios migrassem. Esses processos são chamados de atividades econômicas. “Até a metade do século XX, a pecuária extensiva, junto com a produção agrícola e o extrativismo da borracha, continuavam sendo a base da economia e a fonte de divisas do município, o que favorecia o crescimento do comércio local”. Com esse favorecimento ao comércio, o mesmo tendia a se fortalecer e se intensificar para atender a grande demanda que, na cidade, crescia vertiginosamente.
Com isso surgem as necessidades de novos investimentos no comércio, onde a cidade de Barreiras cresceu e a população desvinculou a sua dependência com atividades do primário, consolidando-se como uma cidade do terciário. “Barreiras hoje, congrega um vasto número de estabelecimentos comerciais e industriais de amplitude regional...”. Isso é notório ao comparar o contingente populacional que era de 120 mil habitantes em 2000 passando para uma estimativa de 137.832 em 2009 (IBGE), representando um crescimento aproximado de 15% em nove anos. Quanto maior a população, maior a circulação de capital. “Barreiras é hoje o principal centro urbano, político, tecnológico e econômico da Região Oeste da Bahia.”
Não se pode associar crescimento econômico e populacional à idéia de desenvolvimento, muito menos a de desenvolvimento urbano. Até porque o crescimento contínuo da população faz com que o poder público não tenha domínio sobre tal fenômeno e assim não atribuindo a seus habitantes o autêntico desenvolvimento almejado por todos.
Quando se trata de desenvolvimento urbano, partes da sociedade que não possui conhecimentos técnicos e científicos sobre o assunto remetem a idéia de estética, melhorias na infraestrutura e acessibilidade. Outros acreditam que é a instalação de novos prédios, monumentos imponentes altamente verticalizados ou não, mas que transmitam a sensação de poder pela sua grandiosidade.
Na verdade, um desenvolvimento urbano é a implantação de infraestruturas e projetos públicos que satisfaçam as necessidades primordiais da população de um determinado local, onde tragam benefícios nas áreas da saúde, educação, lazer, saneamento básico,
sem aspas, não se confunde com uma simples expansão do tecido urbano e a crescente
complexidade deste, na esteira do crescimento econômico e da modernização
tecnológica.” E ainda afirma que um desenvolvimento urbano é um desenvolvimento
sócio-espacial na e da cidade.
Pela oportunidade de prestar serviços e bens de consumo, a cidade tem o poder de atrair pessoas de outras regiões, com a esperança de melhores condições de vida, submetendo-se àquilo que realmente movimenta uma cidade, o trabalho, o comércio, o dinheiro.
Lefebvre (2001, p. 12) afirma que: “A própria cidade é uma obra, e esta característica
contrasta com a orientação irreversível na direção do dinheiro, na direção do comércio,
na direção das trocas, na direção dos produtos”. Portanto, movimentada pelo terciário
principalmente em áreas que possuem esse setor diversificado.
O Estado se alia ao capital fornecendo subsídios estruturais às empresas que executam sua tarefa no espaço urbano. Isso faz com que haja a atração de pessoas que se tornam consumidores dessas instituições. E, consequentemente, esses clientes que pagam os seus impostos mantêm o próprio Estado. Santos (2008, p. 169) diz que: “A criação de infra-estrutura é uma maneira de financiar indiretamente (e às vezes diretamente, em função do nível de corrupção dos planificadores ou dos funcionários) a implantação das indústrias modernas.” Neste caso, abarca-se a idéia de indústria a de comércio, pois ambos causam impactos muito semelhantes no que diz respeito à vida social.
Antes da implantação do sistema comercial especializado em combustíveis um trecho da Rua Dois de Julho era, praticamente, intrafegável, de difícil trânsito para veículos de alto porte. As empresas produzem e reproduzem o espaço urbano pela sua estrutura e o tipo de serviço prestado, assim, há a necessidade de modernização para melhor acesso do consumidor. Essa produção é sob “encomenda” do estado que se cede ao capital, assim como Cardoso & Ribeiro (1996, p. 81) deixam claro que: “[...] A contratação de obras públicas pelo estado responde não apenas às necessidades da população, mas também aos interesses econômicos específicos das empreiteiras”.
obrigação de seguir a tendência imposta pelos interesses particulares, seja para ligar a rede privada à rede nacional, seja pelas despesas de manutenção”. Isso fica claro com a própria atuação do Estado, pois o mesmo não se preocupa com o ambiente antes da instalação da empresa. Porém, Santos (2008, p. 169) salienta que: “Sem dúvida, é necessário distinguir as infra-estruturas indispensáveis à modernização de um Estado daquelas que são criadas com o objetivo deliberado de atrair investimentos.” Se por um lado esses investimentos são de interesse privado por outro se afirma que a população pode tirar proveito de um mínimo que investimentos em infra-estrutura podem fornecer a tal, como na implantação de camada de asfalto que contribui para melhor acessibilidade e limar transtornos que eram causados pela deficiência estrutural da rua, como o caso da poeira.
A modernização de vias é fundamental para que o capital atue diretamente sobre o espaço. Segundo Souza (2007, p. 190) que analisa a geopolítica brasileira desde a década de 30, afirma que nesse período: “O Estado passa a ser o responsável pela erradicação de todos os males que afligem a sociedade e assume a responsabilidade pela
manutenção de boas qualidades.” Qualidades essas voltadas para o grande mercado que
se instala num local e exige e/ou necessita de melhorias e acessibilidade para atingir o público alvo e, exemplificando mais uma vez, em menos de um ano a rua já passou por alguns ajustes reparos feitos pelo poder público.
Afirmar que o Estado resolve os problemas urbanos pode ser um equívoco, o seu papel é fundamental para sanar tais eventos, porém para cada solução se encontra uma contradição. Santos (2009, p. 123): “O poder público, entretanto, não age apenas de forma indireta. Ele também atua de forma direta na geração de problemas urbanos, ainda prometendo resolvê-los [...] “a intenção do Estado não alcança o objetivo de um desenvolvimento urbano.” Isso se verifica quando se percebe a ausência de investimentos em saneamento básico. Souza (2005, p. 108): “[...] É evidente para quase todos que às nossas elites políticas falta a “vontade” de resolver os problemas fundamentais [...]”. Pode-se chamar esse fenômeno de irresponsabilidade ou má vontade política.
tentativas de convertê-las para grande maioria da sociedade, com falsas justificativas, no intuito de realizar obras públicas. Afirma-se então que a obra apresentada à população foi direcionada, especialmente, à grande empresa instalada, que utiliza a rua “bem estruturada” como ferramenta de trabalho para o trânsito de seus consumidores.
Mendonça (2005, p. 12) afirma que: “[...] o desenvolvimento da ideologia do consumo
pós-anos 50 tem exacerbado as diferenças entre condições de vida” e ainda o aparecimento de magnatas gera “extremos na qualidade da miséria humana”. Santos (2009, p. 117) diz que: “[...] Devemos, igualmente, levar em conta o impacto dessas grandes empresas no processo político, paralelamente ao que têm no processo econômico”. Assim se observa um Estado capitalista, ou um Estado alienado ao capital, na construção do espaço geográfico.
A construção do espaço se relaciona à interação Estado-Capital. Ainda sobre construção do espaço geográfico Camargo & Guerra (2007, p. 150) afirmam que: “[...] relaciona-se à velocidade das trocas ou dos intercâmbios suscitados pelas inter-relações de variáveis [...]” e a sua complexidade estará relacionada ao tempo de produção. Sobre a organização espacial, para os mesmos autores: “[...] o tempo passa a ser analisado empiricamente relacionado a cada etapa da produção da cultura humana, e o espaço geográfico, por sua vez, também se associa à forma como essa velocidade relaciona-se à sua dinâmica.” Portanto, o espaço foi reproduzido de acordo com as exigências impostas pelo sistema capitalista, com a agilidade. Isso justifica a repentina “importância” que a Rua Dois de Julho obteve por ser contemplada com uma pavimentação asfáltica.
O espaço urbano obtém importância com a sua melhoria física, através da pavimentação, e a partir de então surge o que Cardoso & Ribeiro (1996, p. 80) chamam de “luta pela apropriação de benefícios”: “[...] em termos de geração de rendas e obtenção de ganhos de origem produtiva ou comercial, por um lado, e em termos de melhores condições materiais e simbólicas de vida, por outro.” Onde a empresa ali instalada se interessa, obviamente, em atrair recursos econômicos e a população, por conseguinte, usa da situação como um “ganho positivo”, a estruturação da rua e melhor acessibilidade. Porém, com a observação da atividade processual, realizada pelo poder público, e sua agilidade se constata a fragilidade das infraestruturas, como a deterioração do próprio asfalto. Assim, reforça-se a idéia de Souza, citada anteriormente, quando diz que o Estado se responsabiliza pela manutenção e boas qualidades, neste caso, da rua que anteriormente apresentava problemas estruturais.
FIGURA 4
Para isso, tem-se o Estatuto da Cidade, a Lei de Nº 10.257/2001, que estabelece diretrizes gerais de política urbana ou normas gerais de direito urbanístico para os Municípios em especial que são balizadoras e indutoras dos instrumentos de política urbana, encontradas especialmente no Artigo 2º, Capítulo I, incisos I, II e III:
O que se propõe é a preocupação com o uso do dinheiro público em investimentos sem planejamentos e estudos sobre determinada obra. Aponta-se a idéia de que os municípios, em especial Barreiras, devem se voltar ao que os geógrafos chamam de Reforma Urbana, onde Souza (2005, p. 112) explica perfeitamente que: “Reforma urbana é uma reforma social estrutural, com uma forte e evidente dimensão espacial, tendo por objetivo melhorar a qualidade de vida da população”. A pavimentação asfáltica é um método utilizado para “embelezamento da paisagem” que não supre as reais necessidades de uma população, é o que se denomina “reforma urbanística”, definida também por Souza (2005, p. 112) como Reforma Passos, que seria: “[...]
modernizar a cidade, em função de imperativos econômicos, políticos e ideológicos,
não torná-la mais justa.”, ou como o próprio autor menciona: “o inverso do espírito da
reforma urbana.” A problemática está na ausência da Reforma Urbana que pode ser compreendida como um “desenvolvimento urbano” onde, segundo o artigo 182 da Constituição Federal sobre Política Urbana, Capítulo II, artigo 2º: A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais (BRASIL, Lei 10.257/01, de 10 de julho de 2001).
Para Harvey (2006, p. 166) a problemática se dá pela separação do estudo da urbanização e da mudança social juntamente com o desenvolvimento econômico: “... como se o estudo da urbanização pudesse, de algum modo, ser considerado um assunto secundário ou produto secundário passivo em relação a mudanças sociais mais importantes e fundamentais. Na prática, pode se dizer que não houve estudos ou planejamentos da obra executada, pois fica implícita a vinculação do trabalho do poder público em benefício ao grande comércio. Isso porque não foram identificadas ações infraestruturais a nível de beneficiamento da população, como o caso do esgotamento sanitário, em que no local ainda há a falta. Para isso, o Estatuto da Cidade ainda menciona que o uso de recursos que contrariam as diretrizes gerais da política urbana: “poderá ser questionada até mesmo por via judicial, em razão do pleno desrespeito à lei federal de desenvolvimento urbano e às normas constitucionais da política urbana.” Ou seja, quando os recursos públicos são utilizados de forma em que não haja um motivo, não atendendo a necessidade da população.
As ações de um Estado capitalista são óbvias no momento em que se percebe, claramente, a sua parceria direta ou indireta com companhias, empresas privadas, entre outras, a partir de fornecimento de subsídios, principalmente, estruturais para a livre e execução de atividades. Isso se denomina, pela lei do capitalismo, “interesses particulares”, quando o benefício real é para uma minoria.
As transformações que aconteceram na Rua Dois de Julho foram provas suficientes para concluir a idéia de que a “recuperação e/ou reestruturação” da rua foi algo intencional e que não proporcionou o bem social e sim, apenas oferecer acessibilidade ao estabelecimento comercial. Isso é evidente a partir do momento em que se observam algumas variáveis como: a agilidade no processo de reestruturação ou recuperação da rua, um prazo que variou em poucos dias, em que apenas pequena parte da rua parte (nas proximidades do estabelecimento) foi recuperada. A ausência de projetos ou ações voltadas ao esgotamento sanitário, desnível no calçamento, má qualidade do asfalto e revisitações do poder público para recuperar trechos danificados, o que demonstra a falta de um bom trabalho técnico. E por fim, a falta de apresentação do projeto ou licitação da obra ao público, não informando custos, autoria, entre outros, mesmo quando havido uma busca em órgãos responsáveis pelo caso, como a Câmara Municipal de Vereadores de Barreiras e Secretaria Municipal de Infraestrutura em que a falta de informação foi uma das principais justificativas.
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