ANTÓNIO FIDALGO e PAULO SERRA (ORG.)
Ciências da Comunicação em Congresso na Covilhã
Actas do III Sopcom, VI Lusocom e II Ibérico
UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR
Volume IV
Actas dos III SOPCOM, IV LUSOCOM e II IBÉRICO •
Design da Capa: Catarina Moura •
Edição e Execução Gráfica: Serviços Gráficos da Universidade da Beira Interior •
Tiragem: 200 exemplares •
Covilhã, 2005 •
Depósito Legal Nº 233236/05 •
ISBN – 972-8790-39-2 Apoio:
Programa Operacional Ciência, Tecnologia, Inovação do III Quadro Comunitário de Apoio
ÍNDICE
Apresentação, António Fidalgo e Paulo Serra ... 9
Capítulo I JORNALISMO Apresentação, Jorge Pedro Sousa ... 13
Reportagens sobre a Cor da Pele em Jornais de Salvador e Aracaju/Brasil: criminalidade, loucura e macumba, Ana Cristina de Souza Mandarino ... 15
O Iraque nas televisões europeias: representações da segunda guerra do Golfo, Anabela Carvalho ... 23
Características de jornais e leitores interioranos no final do século XX, Beatriz Dornelles ... 37
Jornalismo na Web: Desenho e Conteúdo, Claudia Irene de Quadrose Itanel de Bastos Quadros Junior ... 47
A cobertura de epidemias na imprensa portuguesa. O caso da Sida, Cristina Ponte ... 53
O caso Jayson Blair / New York Times: da responsabilidade individual às culpas colectivas, Joaquim Fidalgo ... 61
Uma Teoria Multifactorial da Notícia, Jorge Pedro Sousa ... 73
Análise quantitativa sobre os espaços noticiosos da Internet e as consequências para os atores do processo informativo, Juçara Brittes ... 81
Internet como fuente de información especializada, Leopoldo Seijas Candelas ... 89
O que o jornalismo pode aprender com a ciência: Objetividade na perspectiva do racionalismo crítico de Karl Popper, Liriam Sponholz ... 97
A ‘explosão’ dos weblogs em Portugal: percepções sobre os efeitos no jornalismo, Luís António Santos ... 105
A impiedade das críticas ou a consciência da auto-regulação? O processo Casa Pia e o julgamento metajornalístico, Madalena Oliveira... 115
Ventos cruzados sobre o campo jornalístico. Percepções de profissionais sobre as mudanças em curso, Manuel Pinto ... 123
A presenza da lingua galega na prensa diaria de Galiza. Mínima, de baixa cualidade e sen xustificación, Marcos Sebastián Pérez Pena, Berta García Orosa, José Villanueva Rey, Miguel Túñez López ... 133
Los medios como protagonistas de la noticia, Marina Santín Durán ... 143
Periodismo y literatura, relaciones difíciles, Moisés Limia Fernández ... 149
Noticiabilidade no rádio em tempos de Internet, Nelia R. Del Bianco ... 157
Agenda e Discurso Midiático: quando a minoria é notícia. O caso indígena na Imprensa em Pernambuco, Patricia Bandeira de Melo ... 177 El Prestige en los medios. Las claves de una gran confusión, M. Pilar Diezhandino Nieto ... 183 Alberto Bessa e a sua história do jornalismo – uma memória de cem anos, Rogério Santos ... 193 Os Temas da Guerra. Estudo exploratório sobre o enquadramento temático da Guerra do Iraque na Televisão, Telmo Gonçalves ... 203 Weblogs y Periodismo Participativo, Tiscar Lara ... 219 O Jornalismo de Informação Sindical no Brasil: atores, práticas, mecanismos e estratégias de produção jornalística, Vladimir Caleffi Araujo ... 229 A eurorrexión Galicia-Norte de Portugal a través das páxinas da prensa galega. Análise do discurso mediático transmitido polos xornais galegos, Xosé López García e Berta García Orosa ... 239 O traballo xornalístico de Eduardo Blanco Amor en América: a divulgación da cultura galega nas páxinas de La Nación, Xosé López García y Marta Pérez Pereiro .... 245 A información cultural nos medios de comunicación en Galicia, Xosé López García e Marta Pérez Pereiro ... 253 Periodismo de servicio en la prensa local de Galicia, Xosé López ... 261 O jornalismo entre a informação e a comunicação: como as assessorias de imprensa agendam a mídia, Zélia Leal Adghirni... 269
Capítulo II
COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO
O potencial educativo do audiovisual na educação formal, Lara Nogueira Silbiger ... 375 Comunicação/Educação: Um campo em acção, Maria Aparecida Baccega ... 383 Comunicación y Educación “de cine”, Mª del Mar Rodríguez Rosell ... 395 La dieta televisiva en la infancia española. Aproximación al estudio de las audiencias infantiles, Amelia Álvarez, Marta Fuertes, Ángel Badillo y Zoe Mediero ... 403 A educação popular no Brasil: a cultura de massa, Maria da Graça Jacintho Setton ... 419 Crescer com a Internet: Desafios e Riscos, Neusa Baltazar ... 427
A rádio de modelo multimediático e os jovens: a convergência entre o FM e a Internet nas rádios nacionais, Paula Cordeiro ... 433 Educar para comunicar: una reflexión sobre la formación de los comunicadores en el contexto de la sociedad de la información, Viviana Fernández Marcial ... 443
Capítulo III
OPINIÃO PÚBLICA E AUDIÊNCIAS
Capítulo IV
COMUNICAÇÃO E ORGANIZAÇÃO
Apresentação, Eduardo Camilo ... 599 Apresentação, José Viegas Soares ... 603 Quando falo o que quero e digo o que é preciso, Adriana Gomes Moreirae Maria Madalena Simão Duarte ... 605 Comunicação, Identidade e Imagem Corporativas: o caso da Caixa Econômica Federal, Brasil, Ana Regina Barros Rego Leale Maria das Graças Targino ... 617 O Marketing político encarado como agente de progressão da comunicação em política, Antónia Cristina Perdigão ... 627 A Evolução Tecnológica e a Mudança Organizacional, Carlos Ricardo ... 637 La integración de la comunicación comercial en la gestión corporativa, David Alameda García ... 647 Intencionalidade e Diferença: Uma Aproximação Fenomenológica à Intersecção Acção/ Comunicação/Informação, Fernando Ilharco ... 657 Comunicación audiovisual corporativa: Un modelo de producción, Fernando Galindo Rubio ... 667 A Influência do Teatro no Marketing de Vendas Directas, Jorge Dias de Figueiredo ... 677 Identidade e Estilo de Vida: Novos Impactos no Contexto da Comunicação Organiza-cional, João Renato Benazzi e João Maia ... 683 Comunicação institucional em organização pública. O caso da Controladoria Geral do Município do Rio de Janeiro – 2001/2004, Lino Martins da Silva e Sonia Virgínia Moreira ... 691 Comunicação Estratégica: Aplicação das Ideias de Dramaturgia, Tempo e Narrativas, Luís Miguel Poupinha ... 699 Cátedra Unesco/Umesp e seu papel articulador no cenário da comunicação: desafios no século XXI, Maria Cristina Gobbi ... 705 El estado del Corporate en la empresa extremeña: el diseño y la imagen corporativa, Maria Victoria Carillo Duran e Ana Castillo Díaz ... 713 El desarrollo de la competencia comunicativa de los portavoces de la organización (propuesta pragmática y retórica), Mª Isabel Reyes Moreno ... 719
O estado da arte em Comunicação Organizacional. 1900 – 2000: um século de investigação,
APRESENTAÇÃO
António Fidalgo e Paulo Serra
“Ciências da Comunicação em Congres-so na Covilhã” (CCCC) foi a designação escolhida, pela Direcção da SOPCOM – Associação Portuguesa de Ciências da Co-municação, para o seu III Congresso, inte-grando o VI LUSOCOM e o II IBÉRICO, e que teve lugar na UBI, Covilhã, entre os dias 21 e 24 de Abril de 2004 (o LUSOCOM teve lugar nos dois primeiros dias e o IBÉRICO nos dois últimos).
Dedicados aos temas da Informação, Identidades e Cidadania, os Congressos de Ciências da Comunicação na Covilhã cons-tituíram um momento privilegiado de encon-tro das comunidades académicas lusófona e ibérica, fazendo público o estado da pesquisa científica nos diferentes países e lançando pontes para a internacionalização da respec-tiva investigação. Ao mesmo tempo, contri-buíram de forma importante para a conso-lidação, tanto interna como externa – rela-tivamente à comunidade científica, ao mun-do académico e ao próprio público em geral – das Ciências da Comunicação como campo académico e científico em Portugal.
Este duplo resultado é ainda mais rele-vante tendo em conta que se trata de campo de investigação recente em Portugal. Não pretendendo fazer uma descrição exaustiva do seu historial, assinalem-se algumas datas mais significativas. O primeiro curso de licenciatura na área das Ciências da nicação – na altura denominado de Comu-nicação Social – iniciou-se em 1979, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a que se seguiram o do ISCSP da Universidade Téc-nica de Lisboa (em 1980) e o da UBI (em 1989), para citarmos apenas os três primei-ros, expandindo-se até aos 33 cursos supe-riores do ensino público universitário e politécnico actualmente existentes.
No que se refere aos antecedentes ime-diatos dos Congressos que tiveram lugar na UBI, em Abril de 1997 realizava-se na
Universidade Lusófona, em Lisboa, o I Encontro Luso-Brasileiro de Ciências da Comunicação, momento em que os investi-gadores portugueses decidem criar a SOPCOM – Associação Portuguesa de Ci-ências da Comunicação. Um ano mais tarde, em Abril de 1998, o II Encontro é organi-zado na Universidade Federal de Sergipe, no Brasil, incluindo investigadores de países africanos de língua portuguesa. É então que se funda a LUSOCOM – Federação das Associações Lusófonas de Ciências da Co-municação. A terceira edição do LUSOCOM realiza-se na Universidade do Minho, nova-mente em Portugal, em Outubro de 1999, regressando ao Brasil para a sua quarta edição, desta vez a S. Vicente, em Abril de 2000. Depois de dois anos de pausa, o V LUSOCOM estreia Moçambique como país organizador, decorrendo em Maputo em Abril de 2002. Apenas com uma edição, realizada em Málaga em Maio de 2001, o Congresso Ibérico de Ciências da Comunicação procura agora, pela segunda vez, juntar investigado-res e académicos de Espanha e de Portugal, e assumir-se assim como momento de união e debate acerca do trabalho levado a cabo nos dois países. O primeiro congresso SOPCOM – a Associação teve a sua criação legal em Fevereiro de 1998 –, realizou-se em Março de 1999, em Lisboa, sendo também aí que, decorridos mais dois anos, viria a organizar-se o II SOPCOM, em Outubro de 2001.
Comunicação, Estética, Arte e Design, Pu-blicidade e Relações Públicas, Jornalismo, Estudos Culturais e de Género, Comunica-ção e EducaComunica-ção, ComunicaComunica-ção Audiovisual, Opinião Pública e Audiências, Comunicação e Organização.
A publicação do enorme volume de páginas resultante de tal número de comu-nicações – um volume que, e a aplicar o formato estabelecido para a redacção das comunicações, excederia as duas mil e quinhentas páginas –, colocava vários dile-mas, nomeadamente: i) Publicar as Actas do VI LUSOCOM e do II IBÉRICO em sepa-rado, ou publicá-las em conjunto; ii) Publi-car as Actas pela ordem cronológica das Sessões Temáticas ou agrupar estas em grupos temáticos mais amplos; iii) Dada a impos-sibilidade de reunir as Actas, mesmo que de um só Congresso, em um só volume, quantos volumes publicar.
A solução escolhida veio a ser a de publicar as Actas de ambos os Congressos em conjunto, agrupando Sessões Temáticas com maior afinidade em quatro volumes distintos: o Volume I, intitulado Estética e
Tecnologias da Imagem, compreende os
discursos/comunicações referentes à Aber-tura e Sessões Plenárias (Capítulo I), Fo-tografia, Vídeo e Cinema (Capítulo II), Novas Tecnologias e Novas Linguagens
(Capítulo III), Estética, Arte e Design (Capítulo IV) e Comunicação Audiovisual (Capítulo V); o Volume II, intitulado
Te-orias e Estratégias Discursivas,
compreen-de as comunicações referentes a Teorias da Comunicação (Capítulo I), Semiótica e Texto (Capítulo II), Retórica e Argumentação (Capítulo III) e Publicidade e Relações Públicas (Capítulo IV); o Volume III, intitulado Visões Disciplinares, compreende as comunicações referentes a Economia e Políticas da Comunicação (Capítulo I), Direito e Ética da Comunicação (Capítulo II), História da Comunicação (Capítulo III) e Estudos Culturais e de Género (Capítulo IV); finalmente, o Volume IV, intitulado
Campos da Comunicação, compreende as
comunicações referentes a Jornalismo (Ca-pítulo I), Comunicação e Educação (Capí-tulo II), Opinião Pública e Audiências (Capítulo III) e Comunicação e Organiza-ção (Capítulo IV).
Capítulo I
Apresentação
Jorge Pedro Sousa1
No espaço lusófono, os estudos jornalísticos são uma das áreas de maior vitalidade dentro das Ciências da Comuni-cação. O volumoso fluxo de trabalhos para congressos e outros eventos comprova-o. Neste VI Congresso Lusófono de Ciências da Comunicação, a mesa temática de Jorna-lismo teve de ser desdobrada em duas, para permitir a apresentação de vinte trabalhos entre os que foram submetidos para avali-ação.
Infelizmente, muitos dos excelentes tra-balhos que foram remetidos aos coordena-dores da Mesa Temática de Jornalismo não puderam ser integrados no programa, por ausência de tempo e não por falta de qua-lidade.
Os trabalhos submetidos aos avaliadores denotam preocupações e linhas de investi-gação diferenciadas. No seu conjunto, dão conta da diversidade de objectos de estudo que se desenham a partir do campo jornalístico e da interacção, muitas vezes problemática, entre jornalismo, sociedade e cultura. Dão conta também da natureza marcadamente interdisciplinar das Ciências da Comunicação. As conexões com a His-tória, por exemplo, são bem vincadas em vários dos trabalhos que foram submetidos aos coordenadores da Mesa Temática de Jornalismo.
Assim, Rogério Santos faz uma descri-ção do primeiro livro sobre jornalismo publicado em Portugal: Jornalismo, de Alberto Bessa, editado em 1904; Adriano Lopes Gomes e Cármen Daniella Avelino desmontam o agendamento das rotinas so-ciais no jornal A República, de Natal (RN, Brasil), durante a II Guerra Mundial; Orávio Soares relembra os 170 anos do jornal Monitor Campista; e Beatriz Dornelles mostra uma preocupação simultaneamente comuni-cacional e historiográfica ao descrever as características dos jornais e leitores do final do século XX.
Por seu turno, as conexões das Ciências da Comunicação com a filosofia e a epistemologia são estabelecidas por trabalhos como “Críticas Ímpias”, apresentado por Maria Madalena Oliveira, e “O Que o Jor-nalismo Pode Aprender com a Ciência: Objectividade na Perspectiva do Racionalismo Crítico de Karl Popper”. Ci-ência e jornalismo são também questões tratadas por Isaac Epstein, que apresenta um trabalho sobre “Etos e Tempos de Ciência no Jornalismo Científico.
As pontes entre as Ciências da Comu-nicação e a sociologia, designadamente entre as Ciências da Comunicação e a sociologia da produção de notícias (newsmaking) são patentes em trabalhos sobre a problemática natureza das relações entre fontes de infor-mação e jornalistas, como os apresentados por Zélia Adghirni, sobre a interacção entre jornalistas e assessores de comunicação, e por Vladimir Araújo, sobre jornalismo sindical no Brasil. Neste campo, Eduardo Meditsch dá o seu contributo à edificação de uma teoria do jornalismo, ou da notícia, questionando as “falácias lógicas, falhas argumentativas e generalizações sem base científica na inves-tigação do newsmaking”.
O elevado número de comunicações sobre jornalismo online indicia a importância e a novidade do fenómeno. Para o seu estudo, desenvolveram-se metodologias e conceitos especificamente ligados às Ciências da Comunicação, usados, por exemplo, nos trabalhos sobre webjornalismo apresentados por Cláudia Quadros, Itanel Júnior e Luciana Mielniczuk e no trabalho sobre “Noticiabi-lidade no Rádio em Tempos de Internet”, apresentado por Nélia Del Bianco.
fugir à regra, são também vários os trabalhos seleccionados para o VI LUSOCOM que elegem como principal método a análise do discurso. São os casos das pesquisas de Xosé López Garcia e Marta Pérez sobre a infor-mação cultural nos meios jornalísticos ga-legos; de Telmo Gonçalves sobre os enquadramentos temáticos da segunda Guer-ra do Golfo; de Patrícia Melo sobre o índio na imprensa pernambucana; e ainda o de Ana Cristina Mandarino sobre “a cor da pele” na imprensa brasileira Nordestina. Finalmente, a teorização da análise do discurso jornalístico dramatizado constitui a questão central que ocupa Pedro Diniz de Sousa.
Lançar luz sobre o jornalismo e os jor-nalistas e a sua função e repercussão na sociedade e na cultura é tarefa dos pesqui-sadores em jornalismo. Estamos certos de que os trabalhos seleccionados reflectem essa preocupação e atingem o seu nobre objectivo de construir um conhecimento ci-entificamente válido sobre os fenómenos jornalísticos, enquanto fenómenos pessoais, sociais, ideológicos, históricos, tecnológicos e culturais.
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Reportagens sobre a Cor da Pele em Jornais de Salvador
e Aracaju/Brasil: criminalidade, loucura e macumba
Ana Cristina de Souza Mandarino1
Introdução
O presente trabalho é fruto de minha tese de doutorado apresentada na Escola de Comunicação da UFRJ como resultado de minhas observações e do envolvimento enquanto pesquisadora, desde a graduação, com as comunidades de terreiro do Rio de Janeiro no período em que, como assistente de pesquisa, pude desfrutar do convívio de pais e mães-de-santo, fora do momento ri-tual, onde a descontração e a intimidade faziam as conversas discorrerem sobre os mais diversos assuntos.
Podemos perceber que um dos assuntos preferidos dizia respeito a como hoje encontra-se a religião, e quais as medidas que poderiam ser tomadas para que o Candomblé fosse melhor visto pela sociedade em geral. Os comporta-mentos percebidos pelos adeptos como não condizentes com a tradição, acabavam sendo tomados como exemplo, nas notícias de jornais e de programas veiculados na mídia em geral, além de programas religiosos.
Assim, após comentarem sobre o compor-tamento de certos indivíduos, e o quanto este era prejudicial à imagem da religião, relembravam e enfatizavam a luta que a re-ligião travou para que fosse mais respeitada, dos anos de perseguição policial, e de como aqueles que professavam a religiãodos Orixás, Voduns e Inquices2 eram perseguidos com o
rótulo de loucos e depravados.
A familiaridade adquirida com a visão de mundo do povo-de-santo3 conduziu-me a
pensar, sobre as “representações”,4 que ainda
hoje incidem sobre estes grupos e em que medida são percebidas pelo “senso comum”5,
da mesma maneira que são elaboradas e alimentadas a partir das notícias saídas na imprensa.
De acordo com Bastide, Verger e Elbein entre outros, o Candomblé pode ser definido como uma manifestação religiosa resultante da reelaboração das várias“visões de mundo
e de ethos”6 provenientes das múltiplas etnias
africanas que, a partir do século XVI, foram trazidas para o Brasil. É somente no século XVIII que esta designação será aplicada aos grupos organizados e espacialmente locali-zados. Verger (1981), porém indica as pri-meiras menções as religiões africanas no Brasil como existentes nas anotações feitas pela Inquisição em 1860.
Segundo Elbein (1988), guardando as devidas reservas, uma vez que a impossibi-lidade de uma comprovação mais rigorosa esbarra na escassez de material oficial, é provável que o primeiro contingente de escravos vindo da região de Ketu, tenha chegado ao Brasil por volta de 1789. Este grande grupo, proveniente de uma vasta região, será conhecido no Brasil pelo nome genérico de Nagô, portadores de uma tradi-ção, cuja riqueza deriva das culturas indi-viduais dos diferentes reinos de onde se originaram.
A fim de situar, aproximadamente, a chegada dos primeiros grupos nagô ao Brasil – seguindo por um lado, o esquema dos quatro ciclos distinguidos por Luis Viana Filho (1964) e que foram mais tarde minuciosa-mente examinados e modificados por Pierre Verger (1964 e 1968), e por outro lado a cronologia deduzida das fontes orais – pode-se admitir que os Nagô foram os últimos a se estabelecerem no Brasil, no fim do século XVIII e início do século XIX.
Segundos estes autores os ciclos estariam assim divididos:
I — Ciclo da Guiné, século XVI; II — Ciclo de Angola, século XVII; III — Ciclo da Costa da Mina e Golfo do Benin, século XVIII até 1815;
IV — Última fase: a ilegalidade: de 1816 a 1851.
1770 e 1850, sendo que estaria aí incluído o período do tráfico clandestino.
Cabe ressaltar, que, se estamos dando mais ênfase ao grupo étnico jêje-nagô, é porque será este que irá fundar as primeiras casa de culto que se tem oficialmente no-tícia, passando este modelo ser tido como referência quando se fala de estudos sobre as religiões afro-brasileiras. Inclusive é curioso lembrar, que o próprio Nina Rodrigues a estes exalta como “os negros nagôs possuem uma mitologia bastante com-plexa, com divinização dos elementos natu-rais e fenômenos meteorológicos” (ELBEIN, 1988: 216), “[...] da preponderância adqui-rida no Brasil pela mitologia e culto dos jejes e iorubanos a ponto de, absorvendo todos os outros, prevalecer este culto quase como a única forma de culto organizada dos nossos negros fetichistas”.(ELBEIN, 1988: 215).
Os Terreiros, Roças, Abaçás ou Casas-de-Santo, denominações correntes utilizadas para nomear os espaços e grupos de culto aos deuses africanos” – Orixás, Inquices e Voduns – representam assim historicamente, uma forma de resistência cultural, coesão social, e ao mesmo tempo centro de fermen-tação para sublevações e rebeliões, relatando às várias rebeliões ocorridas no século XIX como tendo relação com a fé que professa-vam os insurretos (RODRIGUES, 1988). É interessante ressaltar que Nina Rodrigues ao referir-se as rebeliões levava em considera-ção apenas a origem e a fé dos rebeldes, esquecendo-se que as próprias condições em que estes viviam – sub-humanas – por si só já eram motivos suficiente para a rebelião ou motim.
As formas da religiosidade africana, no caso brasileiro, podem ser consideradas fatores fundamentais para a formação de reagrupamentos institucionalizados de africa-nos e seus descendentes, escravos, foragidos e libertos. Ao lado de associações religiosas propriamente ditas, como Terreiros e Irman-dades de Igrejas Católicas, – e mais tarde – Federações, desenvolveram-se durante a escravidão formas de resistência política – os quilombos – que geralmente estavam associados às práticas religiosas africanas. Assim, passaremos a encontrar mais tarde, em diversas regiões do Brasil, a dissemina-ção dos cultos de origem africana, que agora
tomariam o nome de religião afro-brasileira denominadas genericamente sob os nomes de Umbanda e Candomblé.
Podemos perceber que a base dessas representações está situada no nível de re-lacionamento existente entre o rótulo religi-oso, a cor da pele e o nível social dos participantes dos grupos religiosos.
Vale ressaltar que as representações são, elas próprias, marcadas por critérios sociais e por mecanismos classificatórios fundamen-tados no sistema hierarquizado da organiza-ção social. Neste sistema, é possível perce-ber fronteiras nitidamente estabelecidas para a firmação individual e grupal, fundamen-tadas nos credos religiosos assumidos, na aparência física (cor da pele, feições, cabe-los, vestuário, etc.), que indicam a pertença a um dos diversos grupos profissionais e confessionais que, por sua vez, ajudam a promover a inserção – individual e grupal – nas diferentes camadas da pirâmide social. (TEIXEIRA, 1992).
A articulação entre as rotulações religi-osas e a racial é considerada como um fator importante para a compreensão do cenário social brasileiro, marcado pelo “medo do feitiço”, conforme mostrado por Maggie (1992), e alimentado e reforçado pelas notícias estereotipadas veiculadas na mídia. É esse medo exagerado do feitiço/malefício, fruto muito mais de um imaginário, do que baseado em verdades comprovadas, que irá promover durante muito tempo uma justifi-cativa a qual, imprensa e polícia, atribuíam como resultado às perseguições.
como para sedimentar hierarquizações atra-vés de uma inferioridade atribuída. Um dos aspectos ressaltados na confecção dos retra-tos dos adepretra-tos das comunidades religiosas, mostrado nos noticiários dos jornais, e mais recentemente na TV, é o da criminalidade, da loucura, devassidão e luxúria.
Assim, este trabalho tem como objetivo demonstrar como os estereótipos acerca das religiões afro-brasileiras foram cristalizados nas notícias de jornais nas cidades de Aracaju e salvador durante o período de maior re-pressão aos cultos afro, que teve seu início na década de 30 e perdurou até o final da década de 60.
Ao partimos para nossa pesquisa nos órgãos públicos do Estado de Sergipe, e ao conversarmos com cada um dos dirigentes, dessas instituições, outra surpresa nos aguar-dava. Segundo estes, não havia registros em jornais que tratassem da perseguição aos cultos negros no Estado, porque, por ordem dos poderes públicos da época, era proibido qualquer registro que retratassem as ações de perseguição, invasão e prisão ocorrida nos terreiros de Umbanda e Candomblé.
Diante desta nova perspectiva, que nos impedia o acesso ao material bibliográfico, resolvemos centrar nossa pesquisa, pelo menos no Estado de Sergipe, nos usos da história de vida e da oralidade, mesmo conscientes das limitações deste método.
Entretanto, devemos ressaltar que não descartamos a busca por materiais oficiais que comprovassem nossa idéia, pois consi-deramos que independente da quantidade a que tenhamos acesso, nos deteremos em analisar a importância, qualidade e signifi-cado do que encontrarmos.
Já nos Estado da Bahia, especificamente na cidade de Salvador, empreendemos pes-quisa nos órgãos e jornais em que houves-sem referências aos cultos afro-brasileiros, buscando ressaltar as diferenças que marcam estas duas sociedades tão próximas uma da outra, e, no entanto, distanciadas pela ma-neira através da qual optaram tratar o mesmo tema – uma a repressão e a negação da existência; no caso da cidade de Aracaju, e a outra a repressão e a veiculação da notícia em manchetes de jornais – e em que grau refletem as visões de mundo e – modus
vivendi das próprias sociedades.
Encontramos na cidade de Aracaju cerca de 15 notícias por nós analisadas que diziam respeito a uma período que ia desde a década de 50, até o final da década de 70. Vale ressaltar, que no período anterior, onde a repressão levada a cabo pelo regime político que se instalou no Brasil a partir da década de 30 e que perdurou até o final da década de 40, e que caracterizou-se como o período de maior repressão do Estado aos cultos afro-brasileiros, a ocultação por parte da impren-sa das prisões e perseguições, mantinham uma certa coerência com o momento político de então, que iria marcá-la por muito tempo ainda.
É sabido por todos em Sergipe, do epi-sódio envolvendo um secretário de segurança que ordenou a queima de todos os boletins de ocorrência que registrassem as prisões de negros ou que retratassem perseguições.
Desta maneira, as décadas de 50 e 70, período onde as comunicações de massa começam a exercer influência significativa sobre os indivíduos, ditando e alterando padrões de comportamento, questionando valores e levando informações rápidas e precisas através do surgimento da TV e dos jornais de grande circulação, são o momento onde encontraremos um maior número de notícias na imprensa envolvendo os cultos afro-brasileiros e acerca de suas práticas.
Ao contrário, no Estado da Bahia, desde o início do século, vamos encontrar notícias veiculadas que dão conta da perseguição aos cultos. Dentre tantos, escolhemos cerca de 12, que de várias formas nos possibilitavam um panorama de como esta sociedade lidava com a questão das religiões afro-brasileiras e da possessão. Acreditamos, que diferente de Aracaju, que não possuía uma – “tradi-ção” forte em relação a organização dos cultos e quanto a uma origem que pudesse ser evocada, em Salvador, ao contrário, desde cedo a imprensa acostumou-se a ceder es-paços em seus diários aos debates levados a cabo pela Escola de Medicina e por seus seguidores, que acreditavam ser de suma importância a divulgação na imprensa sobre a periculosidade que envolviam negros e mestiços praticantes das religiões afro-bra-sileiras.
partire-mos por considerar que durante os primeiros anos deste século, os estudos da Psiquiatria voltavam-se para as religiões afro-brasileiras como local capaz de promover a teoria aceita por muitos e, principalmente, por alguns psiquiatras de que negro e religião eram os ingredientes perfeitos que, combinados, eram capazes de promover a loucura e a criminalidade
Os estudos de Raimundo Nina Rodrigues7,
Ulisses Pernambucano e Cunha Lopes entre outros, grandes expositores desta teoria, acreditavam que a população negra partici-pante das religiões afro-brasileiras (Umbanda e Candomblé) eram passíveis de desenvolver algumas patologias e degenerações. Assim, diante desta perspectiva os terreiros em vários pontos do país, especialmente os do Rio de Janeiro, Salvador e Recife viram-se invadi-dos durante as sessões públicas (fato que daria maior destaque às notícias de jornal) por ilustres personagens que tentavam ali encon-trar a prova cabal que referendasse suas teorias.
Este autor inclusive foi o fundador da
Escola de Patologia Social fortemente
influ-enciado pelas teorias evolucionistas em voga na Europa, que articulava três disciplinas: a medicina, o direito e a antropologia social. Esta associação tinha como objetivo demons-trar através de argumentos “lógicos e cien-tíficos” que a população brasileira era inte-lectual e psicologicamente inferior na con-frontação com a superioridade indiscutível dos brancos. (RODRIGUES, 1988).
No quadro em que se explana a pluralidade da sociedade brasileira, além da discriminação que recai sobre tudo ou todos que são considerados negros ou afro, o rótulo
de macumbeiro supõe ainda uma outra
di-mensão: aquela estabelecida pela Escola de Patologia Social que associa certas práticas rituais, como possessão, à loucura e a criminalidade (BIRMAN, 1986). Outras doenças também foram atribuídas aos negros e mestiços, assim como atributos morais e comportamentais, o que contribui fortemente para o enquadramento dessas populações e de suas manifestações culturais e religiosas como produzidas por “gente de segunda categoria” conforme Nina Rodrigues.
Vale ressaltar, que segundo Angela Lunhing (2000), no período que realizou sua
pesquisa que vai de 1920 até 1942, nos jornais “A Tarde” e “Estado da Bahia” sobre as perseguições aos Candomblés baianos, ape-nas uma reportagem foi escrita por um jornalista presente a invasão, não havendo nenhum outro registro nas inúmeras repor-tagens que prove a presença de jornalistas presentes. O que demonstra que as notícias eram veiculadas de acordo com o imaginário e o senso comum daqueles que as escreviam, deixando transparecer não só o desconheci-mento a respeito das religiões afro-brasilei-ras, como representavam os estereótipos pelos quais as religiões afro-brasileiras eram per-cebidas.
Com o passar do tempo notícias que relatavam a invasão e posterior captura e encarceramento dos freqüentadores e adep-tos dos terreiros começaram a aparecer na imprensa escrita. Estas notícias serviriam para reforçar os preconceitos que já se encontra-vam latentes no imaginário social, agora substanciados e legitimados pela imprensa. Essas notícias transformar-se-iam na manhã seguinte em manchetes de jornais. Notícias: ideologias e estereótipos aos negros
Os jornais de uma forma geral sempre trouxeram em suas manchetes relatos acerca
das curas obtidas nos terreiros da mesma
forma que questionavam a validade e a veracidade de tais fatos, fornecendo, assim, material amplo para moldar o imaginário social acerca da loucura e da criminalidade e as religiões afro-brasileiras.
Assim, perda de controle, exploração pública, crime, suicídio, brigas, adultério,
roubos, loucuras sempre foram vistas pelos
jornais como atividades comuns no âmbito dos terreiros, da mesma forma que seus freqüentadores eram percebidos como cida-dãos perigosos, que deveriam permanecer sobre suspeita policial. Em síntese, todo
macumbeiro era classificado como um
pos-sível delituoso ou delinqüente.
reforçado. Nesta perspectiva era delimitado, de forma mais nítida o espaço social para as religiões afro-brasileiras; principalmente na década de 50, quando tais formas reli-giosas não tinham recebido ainda a marca da legitimidade conferida pelos estudos antropológicos desenvolvidos a partir das décadas de 50 e 60.8 (BROWN, 1985;
TEIXEIRA, 1986).
Assim, buscamos demonstrar que as notícias veiculadas na imprensa valorizam o sensacional e o caricato, sendo enfocado principalmente homicídios, suicídios e casos de loucura. Tendo sempre consciente que a notícia não é um ingênuo relato de um fato, mas uma construção elaborada segundo determinada ótica e ética, do nosso ponto de vista, todo jornal é um veículo, um instru-mento, criador de um mundo no qual se põe à consciência e ao consumo dos leitores.
As informações, portanto, são elaboradas por escolha, interpretação e avaliação, tor-nando-se assim significativas. O jornal co-locando-se como reprodutor de uma realida-de que se dá à observação, torna-se, na verdade, produtor e reprodutor de um uni-verso ideológico que atende a interesses específicos.
Acreditamos que a notícia tem um de-terminado fim, no entanto, resta-nos saber se aqueles que a produzem têm uma cons-ciência clara de seu conteúdo e de como este repercutirá sobre aqueles que as lêem, ou se simplesmente atuam como agentes de uma
coisa maior, reproduzindo, eles próprios
articulações do imaginário social acerca de determinados grupos, em especial aqueles que professam a religião dos Orixás Inquices e Voduns.
Conclusão
Após empreendermos nosso trabalho, cujo objetivo reside em percebermos as represen-tações que incidem sobre a cor da pele dos adeptos e praticantes dos cultos afro-brasi-leiros, acerca das notícias veiculadas na imprensa sergipana e baiana, algumas ques-tões nos parecem relevantes.
O início do século surge como um momento de grande reflexão por parte da-queles que enxergavam a necessidade de transformar o país. A realidade social,
econômica, política e cultural, com a qual se defrontavam intelectuais, escritores, po-líticos, profissionais liberais e setores popu-lares, não se ajustava facilmente às idéias e aos conceitos, aos temas e às explicações emprestadas, às pressas, de sistemas de pensamentos elaborados em países da Euro-pa. Estava em curso uma fase importante no processo de construção de um movimento capaz de pensar a realidade e a cultura nacional.(IANNI,1992, apud MANDARINO, 1995: 40).
As transformações políticas, econômicas e culturais por qual passavam o país, foi responsável pelo surgimento de várias cor-rentes contrárias a aproximação, se é que se pode dizer desta maneira, entre as classes populares e os setores mais conservadores e hegemônicos da sociedade.
A busca pela instauração de uma nova
ordem mais próximas das aspirações
daque-les que pensavam a necessidade de um Brasil
moderno, não condizia com uma sociedade
onde a presença de negros e de seus rituais
impuros pudessem proliferar.
Com isso, procuramos demonstrar que os mecanismos reguladores criados pelo Estado desde a República não extirparam a crença na magia e em sua eficácia, mas ao contrá-rio, foram fundamentais para sua constitui-ção.
Isto vai gerar inúmeras estratégias pelo povo-de-santo, que em determinado momen-to vão se fazer acompanhar de políticos e pessoas influentes, que acabarão por criar espaços para estes nos meios de comunica-ção. Esta estratégia de mão dupla, que por um lado é capaz de fazer com que alguns representantes e seus terreiros, passem a ser vistos de forma diferenciada por uma parcela da sociedade, por outro, vai gerar um com-prometimento capaz de afastar alguns, e de levar a suspeita a outros.
Estes mecanismos podem ser percebidos nos processos de formação das várias Fede-rações em diversos Estados, onde estes locais passam a servir de espaço para a cooptação política em troca de favores, como espaços em colunas de jornais e revistas, além da concessão de horários em rádios.
o contrário seja enunciado nas poucas repor-tagens recolhidas, e apenas apontado nos depoimentos, em Aracaju, as perseguições e a repressão não tinham como principal objetivo à punição dos adeptos por estes praticarem feitiçarias ou malefícios. No Estado de Sergipe a perseguição fora muito mais organizada como forma de instauração
da ordem do que por acusações de feitiçaria.
Como a sociedade sergipana pouco contato tinha com aqueles que à praticavam, o medo do feitiço era algo apenas cogitado. O caráter norteador dado às perseguições e a repressão encontravam-se muito mais re-vestido de uma postura ideológica, do que propriamente com preocupação da possível incidência de malefícios.
É curioso percebermos que Dantas (1984), ao tratar das perseguições aos cultos afro-brasileiros no Estado de Sergipe, e sua relação com as acusações de que serviam de local para abrigo de comunistas, e o papel desem-penhado pela imprensa, se utilize, como nós, para sua análise de jornais da Bahia,
escla-recendo ela própria que muita pouca coisa encontrou na imprensa local nos poucos jornais ainda preservados.
No caso específico deste estudo, nos foi possível identificar que isto vem ocorrendo junto àqueles pertencentes às minorias, se-jam elas caracterizadas pelos negros, pelos adeptos dos cultos afro-brasileiro, enfim, uma parcela que acaba por ficar à margem da sociedade por não conseguir se articular em um sistema voltado para atender àqueles que se proclamam brancos e superiores aos demais.
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_______________________________
1 Universidade Tiradentes,
Sergipe/Universi-dade Federal de Sergipe, Brasil.
2 Estas denominações dizem respeito as várias
tradições que denominam os principais grupos de cultos.
3 Conjunto de adeptos das diferentes formas
religiosas denominadas de afro-brasileiras.
4 Segundo Goffman, “representação seria toda
atividade desenvolvida por um indivíduo num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência.” (GOFFMAN, 1975).
5 Conforme indicou Schultz, o que distingue o
“senso comum” como um modo de”“ver” é a simples aceitação do mundo, dos seus objetos e dos seus processos exatamente como se apresenta, como parecem ser e o motivo pragmático, o desejo de atuar sobre esse mundo de forma a dirigi-lo e colocá-lo em seus próprios limites (GEERTZ, 1988).
6 Na discussão antropológica recente, os
aspectos morais e éticos de uma dada cultura, os elementos valorativos, foram resumidos sob o termo “ethos”, enquanto os aspectos cognitivos, existenciais foram designados pelo termo “visão de mundo.”(GEERTZ, 1989: 143).
7 Introdutor do rigor científico nas pesquisas
sobre o social, Nina Rodrigues inaugurou a prática etnográfica no meio urbano e sobre as relações entre negros e brancos, dando especial atenção ao fenômeno religioso afro-brasileiro e sua inci-dência sobre a criminalidade praticada por negros e mestiços.
8 A produção acadêmica ultrapassa os meios
O Iraque nas televisões europeias:
representações da segunda guerra do Golfo
Anabela Carvalho1
1. Introdução
A intenção de intervir militarmente no Iraque, promovida durante largos meses pelos EUA, conduziu a um longo confronto diplo-mático e a uma profunda divisão política internacional em 2002 e 2003. As posições oficiais de cada país não tiveram, em muitas casos, correspondência na forma como os seus cidadãos percepcionaram o problema. Na Europa ocidental, mesmo nos países cujos governos se colocaram ao lado dos EUA, ocorreram algumas das maiores manifesta-ções populares de sempre, como protesto face aos planos de guerra, e as sondagens apon-taram para elevados índices de oposição aos mesmos. Apesar de tudo, venceu a vontade de alguns políticos de fazer a guerra.
Nas suas primeiras semanas, o confronto militar no Iraque foi uma experiência televisiva intensa. Um exército de jornalis-tas, com um enorme arsenal de meios téc-nicos, trouxe até aos espectadores de (quase) todo o mundo um constante fluxo de ima-gens. No entanto, apesar das aparentes se-melhanças, tratou-se não de um único, mas de vários retratos da guerra que foram veiculados pelos media (e.g. Lamloum, 2003). Neste texto, pretende-se fazer uma com-paração crítica da representação da guerra no Iraque em três cadeias de televisão: BBC World, TV5 e RTPi. Estas escolhas relevam da variedade de posições e graus de envolvimento na guerra dos três países a que estão ligadas. Começa-se por rever algumas das questões centrais na investigação sobre os media nas situações de guerra e procede-se depois à análiprocede-se da imagem do conflito que foi veiculada por cada um dos canais. 2. Os media e a guerra
A reflexão sobre a re-construção televisiva do conflito no Iraque – como de qualquer guerra – tem que ser enquadrada pela
inves-tigação sobre a relação entre o sistema político e o sistema mediático. Tal relação tem sido frequentemente descrita como de dependência mútua e de influência recípro-ca. Porém, o exaltado “poder” dos media, enquanto árbitros e juízes da vida pública, parece cada vez mais diminuído, pelo que alguns analistas apontam para uma relação de subjugação estrutural dos mesmos rela-tivamente aos poderes políticos. Tal estaria relacionado com questões como a proprie-dade dos meios de comunicação e o poder económico, a dependência das fontes oficiais e a influência ideológica sobre as organiza-ções mediáticas (Bennett, 1988; Herman e Chomsky, 1988). Na expressão de Chomsky (1989), o complexo militar-industrial-mediático estaria cada vez mais refinado, com os media a desempenhar uma função essen-cial na “engenharia do consentimento”. A produção de concordância ou, pelo menos, de anuência tácita dos cidadãos relativamen-te às políticas projectadas, seria um serviço essencial que os media prestariam aos go-vernos (Lippman, 1960).
exercendo pressão no sentido de intervenções humanitárias); papel de limitação das opções de política externa; papel de mediação (nor-malmente desempenhado por determinados jornalistas em situações de conflito); e papel
instrumental (em que os media são
utiliza-dos pelos actores políticos para promover de-terminadas posições e mobilizar apoio po-pular).
Por boa razão, as situações de guerra têm constituído um objecto de estudo privilegi-ado para os investigprivilegi-adores em ciências da comunicação. Se bem que muitos dos traços da relação entre os media e a política se mantêm, a prestação dos media nos períodos de guerra (incluindo a “preparação” para a mesma) é, em muitos aspectos, “excepcio-nal”. Veremos como nos próximos parágra-fos.
A guerra do Vietname é um marco importante na história da mediatização de conflitos internacionais. Na primeira guerra intensivamente televisionada, com uma ampla e realista cobertura dos acontecimentos, a informação alimentou o mal-estar da popu-lação norte-americana relativamente à actu-ação militar externa do seu país e fomentou intensos protestos. Este impacto social da televisão foi designado como “síndrome do Vietname”, tão grave foi considerado o papel dos media pela máquina político-militar norte-americana. No sentido de evitar a repetição do síndrome, o Pentágono e outras instâncias de poder definiram uma política de controlo restritivo sobre os media nos palcos de guerra. O sistema de “pooling” implementado na guerra do Golfo de 1991 traduziu essa pre-ocupação. Nessa guerra, os media contribuiram para mobilizar apoio popular e para aumentar a popularidade de George Bush, tendo as organizações “mainstream” aderido quase totalmente à “propaganda oficial” (Taylor, 1992).
Em democracia, a decisão de envolver um Estado numa guerra tem que ser acompanha-da por um plano de legitimação pública acompanha-da mesma. Os governantes tendem a praparar meticulosamente os argumentos que susten-tam a sua posição e a oferecer uma análise da situação congruente com os seus planos de acção. Tipicamente, o “inimigo” é construído socialmente como uma “ameaça” para a nação. Seja pelo apelo ideológico do
patriotismo, seja pelos factores já enuncia-dos atrás, os media dominantes têm vindo a “colaborar” com os governos dos seus países. Assim, nos períodos que precedem as guerras, os media tendem a não oferecer alternativas ao discurso das instâncias governativas (Lewis & Rose, 2002) e, em muitos casos, a embarcar activamente no processo de demonização do inimigo (Vincent, 2000). Depois de iniciados os confrontos militares, o pouco debate em torno das grandes questões político-ideológicas que possa ter existido – É a guerra justificada? É a guerra justa? – deixa completamente de ter lugar. Os jornalistas centram-se em questões processuais – Como correu uma determinada acção militar? O que se vai fazer a seguir? A guerra é naturalizada.
Comparando com o discurso mediático em guerras anteriores, que constantes e trans-formações é possível identificar na guerra no Iraque? Internacionalmente, o panorama mediático era substancialmente mais comple-xo em 2003 do que noutros períodos. A anterior supremacia dos EUA em termos de meios técnicos e humanos para a recolha e difusão de informação sobre o palco de guerra esbatera-se. Jornalistas de um variadíssimo conjunto de países deslocaram-se para o Iraque, armados com recursos tecnológicos mais ou menos sofisticados mas capazes, em qualquer caso, de assegurar a transmissão imediata de imagens a partir do terreno (como o videofone). Os exclusivos da CNN na primeira guerra do Golfo deram lugar à cobertura pelas mais variadas estações ame-ricanas, europeias e – sublinhe-se – do Médio Oriente. A Al-Jazira foi uma alternativa às visões mais próximas do sistema anglo-ame-ricano de poder, muito procurada no mundo árabe e no mundo ocidental. A internet, agora com uma implantação mundial bastante sig-nificativa, ofereceu também múltiplos contrapontos aos media convencionais.
Outro traço importante desta guerra é que ambas as facções accionaram fortemente as suas máquinas de propaganda. Do lado norte-americano, essa máquina era, naturalmente, mais sofisticada, envolvendo mais meios (como o “media center” de Doha, Qatar) e mais “expertise” em termos de “news management”. Do lado iraquiano, houve também uma notável pro-actividade na re-lação com os media, com constantes confe-rências de imprensas, disponibilização de gravações e oferta de visitas guiadas aos jornalistas.
Para as cadeias televisivas, tal como outras guerras, o conflito no Iraque foi, em grande medida, um produto comercial. Houve grandes investimentos no envio de meios humanos e técnicos para o Iraque e países vizinhos e a expectativa era de recompensa em termos das dimensões das audiências conquistadas.
“The networks and cable are massing their own forces at home and overseas for this potential war, “an extraordinary story.” If there’s no war in Iraq, a lot of money will have gone to waste.” (S/A, 2003)
Os estudos já produzidos sobre a mediatização da guerra do Iraque sugerem que foram mostradas versões muito diferen-tes do conflito em diferendiferen-tes media. Com base numa comparação internacional, Lamloum (2003: 15) fala-nos de “six guerres différentes vues de six postes d’observation distincts” (os media de cinco países e a cadeia de televisão Al-Jazira). Uma análise produzida para o jornal alemão Frankfurter Algemeine Zeitung por Media Tenor (2003) aponta para um forte contraste entre a avaliação da actuação político-militar dos EUA pelas televisões alemãs”– sobretudo as privadas – e pelas televisões norte-americanas: predo-minantemente negativa no caso das primei-ras e positiva no caso das segundas. Nos EUA, terá havido uma colagem da maior parte dos media “mainstream” e, em parti-cular, das televisões à posição oficial ame-ricana relativamente à intervenção no Iraque. Mecanismos de auto-controlo dos media, como o sistema de pré-aprovação do guião das estórias adoptado pela CNN2, garantiram
uma representação da situação conforme aos interesses oficiais. A cadeia Fox foi a ex-pressão mais alta do serviço prestado pelos media à máquina ideológica da direita americana, com os seus aliados no mundo dos negócios, os seus “think tanks” e outros mecanismos de influência. Houve, porém, notáveis excepções a esta linha de análise, como o”New York Times que disse claramen-te “não à guerra”3.
Os casos estudados aqui são as estações públicas de televisão, com emissão “global” por satélite, de três países europeus com uma relação muito diversa com a guerra no Iraque: BBC, TV5 e RTP (cujos telejornais foram difundidos na RTP Internacional). O Reino Unido, através do governo liderado por Tony Blair, constituiu-se aliado dos EUA relativa-mente ao plano de intervenção militar no Iraque desde a primeira hora, vindo a enviar o único outro contingente de tropas nume-ricamente significativo. A população britâni-ca demonstrou, no entanto, uma larga opo-sição à guerra. Neste quadro, será relevante analisar a forma como a BBC re-construiu o conflito.
A TV5 é um canal multilateral. As suas emissões de informação são, sobretudo, de canais franceses como France 2 e France 3, embora associe várias estações públicas do mundo francófono (Suiça, Bélgica e Québec). A França é um dos Estados que, oficialmen-te, mais contestou a guerra. O presidente e o governo franceses oposeram-se frontalmen-te ao plano americano e procuraram por vários meios político-diplomáticos impedir a concretização da guerra. A população fran-cesa manifestou-se, também, contra a guerra. O governo português teve uma posição de apoio à administração norte-americana, embora de modo mais passivo que o Reino Unido. O patrocínio do primeiro ministro José Manuel Durão Barroso e da coligação PSD/ CDS no poder a George W. Bush teve, porventura, a maior expressão na cimeira entre Bush, Blair e Aznar que ocorreu nos Açores nas vésperas da guerra. Embora sem tropas no terreno no período inicial da guerra, Portugal enviou para o Iraque alguns con-tingentes de forças de segurança após o derrube do regime de Saddam Hussein.
relativamente à guerra e responder, entre outras, às seguintes questões: Até que ponto é que houve “alinhamento” para com a posição do governo do país em que cada televisão está sediada? Terão as televisões funcionado como peças na “engenharia do consentimento” controlada pelos governos ou, pelo contrário, promoveram a crítica e dissenção?
A análise terá em conta vários indicado-res tais como o grau de destaque dado a diferentes dimensões da guerra (o que é enfatizado e o que é secundarizado?); os actores cuja perspectiva é predominante na cobertura televisiva da guerra (ex. militares, civis, políticos); os jornalistas de cada es-tação envolvidos na cobertura da guerra (ex. jornalistas “embedded” e outros); os comentadores seleccionados; e a iconografia (escolha de imagens, símbolos, gráficos). Serão ainda consideradas as opções linguís-ticas de cada televisão para falar da guerra. Tentar-se-á compreender como é que as palavras utilizadas para designar ou avaliar a guerra e os seus agentes simultaneamente reflectem e produzem formas particulares de pensar tal realidade.
Procede-se a uma análise dos noticiários televisionados entre os dias 20 de Março e 16 de Abril de 2003, procurando, também, avaliar se há alterações ao longo do período analisado no discurso jornalístico e na pos-tura destes media sobre a guerra no Iraque. 2. BBC: Baghdad Broacasting Corporation ou aliado do governo britânico?
A BBC foi objecto de críticas por várias partes pela sua cobertura do conflito. Os militares britânicos e alguns membros do governo acusaram a BBC de se colocar demasiado ao lado dos iraquianos4. Alguns
comentadores e críticos consideraram que a BBC prestou um serviço de propaganda ao governo britânico. Investigadores e outros analistas apreciaram também de modo vari-ado o desempenho da estação.
Na análise de Media Tenor (2003), a BBC aparece como relativamente equilibrada na avaliação da actuação política e militar norte-americana no Iraque e na quantidade de tempo dedicada às baixas nas forças da coligação liderada pelos EUA e no lado iraquiano.
Numa análise textual e de discurso da co-bertura das primeiras semanas do conflito na BBC, Clark (2004) e Haarman (2004) não identificaram um posicionamento ideológico claro da estação. Em contraste, um estudo da Cardiff University (2004) revelou uma orientação da BBC favorável à intervenção militar no Iraque e portanto próxima da posição oficial do Reino Unido. De um modo ainda mais assertivo, Cromwell (2003) e a organização Media Lens5 apontaram várias
vezes a amplificação das posições governa-mentais nos relatos que a BBC fez da guerra. Dentro da própria BBC, houve divergên-cias entre os membros da direcção relativa-mente à qualidade da cobertura. Enquanto Richard Sambrook (2003), director de infor-mação, defendeu a informação dada pela BBC, Mark Damazer (cit. por Wells, 2003), sub-director de informação, afirmou publi-camente que a imagem da guerra veiculada pelos repórteres “embedded” foi demasiado “asséptica”, sem mortos nem feridos, e que prestou um mau serviço à democracia. Parte do interesse em analisar o caso BBC reside precisamente nesta falta de consenso sobre onde se situou politico-ideologicamente a sua representação da intervenção no Iraque. Percorramos, então, cronologicamente, a cobertura da guerra nesta estação.
A ofensiva militar liderada pelos EUA inicia-se no dia 20 de Março de 2003. Na BBC, os primeiros dias do conflito são dominados por imagens da progressão mi-litar, do avanço da máquina de guerra anglo-americana e do poderio do armamento oci-dental. A abertura dos blocos noticiosas é, pelo menos durante a primeira semana, dedicada predominantemente ao”“avanço das forças da coligação” (expressão usada várias vezes pelos “pivots” da BBC). Enfatiza-se o percurso feito pelos militares anglo-ame-ricanos em cumprimento do plano de tomar Bagdade. Mostram-se tanques em andamen-to e as extensas colunas militares nas estra-das de terra do Iraque. O “discurso da glória” militar é claramente estruturante neste perí-odo.
de uma forma imprevista e que o inimigo com que os militares ocidentais se confron-tam não é o mesmo com que fizeram simu-lações antes do confronto.
Na imagem construída pela BBC, a guerra é, porém, eminentemente asséptica, depurada dos seus piores horrores. Ocasionalmente, há referências verbais a “corpos” vistos ao lado da estrada pelo repórter que penetra o país com o exército invasor. Mas não há qualquer equivalente gráfico. Os mortos – e mesmo os feridos – podem ser quantificados (provavel-mente com grande imprecisão) mas não se mostram. Como se refere no relatório do estudo feito por investigadores da Cardiff University (2004: 6), “[t]he coverage seems to take us closer to the reality of war, and yet (…) [exclude] the ugly side of that reality”. É sobretudo pelos olhos desses jornalis-tas “embedded” que vemos a guerra. Eles colocam as forças britânicas em evidência contra “fanatical zealots” (expressão utiliza-da por militares no dia 24 de Março). Há uma aparência de proximidade e de trans-parência no retrato que nos chega dessas tropas.
“The television event that was the 2003 Iraq War collapsed the “news” into a real-time vacuum where instantaneity conquered content. The mass of correspondents embedded with the military produced a scattered and mobile simultaneity of coverage. In these circumstances, the distinction between witness to and subject of the media event was collapsed. More, faster and closer coverage simply produced more “fog”, to use the metaphor of war.” (Hoskins, 2004: 109) Com a mediação dos “embedded” vai-se estabelecendo uma relação de empatia entre o público e os militares britânicos. O espec-tador é convidado a participar no combate, a associar-se à “missão” de derrotar o “ini-migo”, a identificar-se com aquela guerra. Em jogo, está a sorte de jovens soldados nicos que, naturalmente, a população britâ-nica não quererá ver morrer, mesmo que (sobretudo?) ao serviço de uma guerra vista por muitos como injusta. A lógica do slogan americano “support our troops” (ver
Chomsky, 1991) sobrepõe-se às interrogações éticas e ideológicas sobre a guerra.
As possíveis repercussões socio-políticas deste modo de cobertura estão bem expres-sas nas palavras de Jeff Hoon, Secretário da Defesa britânica:
“I believe the public’s understanding of what our troops are achieving is increased by the access we’ve given the media. The professionalism, courage, dedication, restraint of the British and coalition forces shone through. …The imagery [embedded journalists] broadcast is at least partially responsible for the public’s change in mood with the majority of the people now saying they back the coalition.” (cit. por Tumber & Palmer, 2004: 25).
Outra dimensão de análise importante são os actores sociais que as televisões privile-giam na sua representação do conflito. Como sugerido acima, a BBC deu frequentemente voz aos militares britânicos. Estes puseram a tónica em questões “técnicas” (e não político-ideológicas), como o tipo de arsenal utilizado,”destacaram as vitórias militares e, de algum modo, legitimaram a guerra com a sua mostra de determinação e coragem. No exemplo seguinte, há uma clara tentativa de “rotulagem” moral do “inimigo” pelo jorna-lista “embedded” e pelo militar.
2 Abril 2003 (14˚ dia de guerra) Ben Brown, o repórter “embedded” da BBC em Basra, encontra-se junto a soldados britânicos. Ouvem-se disparos e explosões. Brown diz que os combatentes iraquianos estão deliberadamente a tentar que a popu-lação iraquiana seja apanhada no meio do fogo cruzado. O repórter pergunta a um militar britânico: “What do you think about that?” “I think it’s sick”, responde ele decididamente.
Muito frequentes no ecrã desta estação foram também actores governamentais do Reino Unido e dos EUA.
comentadores que, com frequência, são es-pecialistas em questões do Médio Oriente ou do Iraque e mesmo originários dessas regi-ões.
Obviamente, as características da repre-sentação da guerra na BBC descritas até aqui tomaram forma tanto no discurso verbal como na imagética, de que a fig. 1 é um bom exemplo. Como pode ser visto abaixo, o símbolo ou “logotipo” televisivo que acom-panhou toda a cobertura da guerra na BBC integra as palavras”“Iraq War” e uma ima-gem com um ponto de luz ao centro que irradia em toda a volta. As cores dominantes são o laranja e o preto.
Para este estudo, perguntou-se a cerca de 30 pessoas como interpretavam aquela simbologia6. A maior parte dos inquiridos viu
na imagem um nascer ou pôr do sol e vários associaram-na à ideia de um novo começo ou um “renascer”. Nesta leitura, a guerra estaria relacionada com libertação e eman-cipação. Um número significativo de pesso-as aludiu também à imagem de uma explo-são. A polissemia da imagem poderá ter sido deliberada.
Figura 1:
Imagem da BBC, 2 de Abril de 2003
À medida que a guerra se vai prolongan-do, há uma transformação nos significados construídos pela BBC. Após cerca de duas semanas de combates, a estação mostra cada vez mais o impacto dessa guerra na popu-lação. A destruição e o sofrimento, o modo de sentir das populações árabes e o que dizem os jornais da região, entre outras questões, estão cada vez mais presentes na cobertura da BBC.
Há também uma mudança ao nível dos jornalistas que relatam a actualidade do Iraque. Os “embedded” passam a ocupar menos espaço, dando lugar a jornalistas não “enquadrados”. A partir de Bagdade, Rageeh Omar, especialmente, passa a ter uma presença muito significativa nos ecrãs da BBC. Muito mais próxima dos iraquianos e das suas experiências da guerra, a imagem que ele constrói dos acontecimentos suscita, potencialmente, bastante mais crítica relativamente às consequências daquele conflito.
Após 9 de Abril e a “tomada” de Bagdade, fortemente simbolizada no muito mediatizado derrube da estátua de Saddam Hussein, a capital iraquiana assiste a uma enorme vaga de saques. As imagens de roubo e de caos generalizados, afectando locais como o Museu Nacional do Iraque e os seus tesouros culturais, criaram uma aura profundamente negativa em torno da guerra e deram mostra da incapacidade americana de controlar a situação, deixan-do adivinhar muitas dificuldades para o futuro. A 10 de Abril, a “pivot” da BBC refere-se a um “disturbing report” sobre um hospital a ser saqueado. A situação é descrita como “a very worrying and very dangerous turn of events” por Rageeh Omar.
Tabela 1: Traços dominantes da representação da guerra no Iraque na BBC
alguns analistas, estendido ao serviço públi-co de televisão em França: canais públi-como France-Info e France 2 teriam feito uma cobertura excessiva do início dos bombardeamentos no Iraque de forma a captar audiências (ACRIMED, 2003). De notar, porém, que todas estas apreciações têm a mesma fonte, já que foram publicadas no site da ACRIMED, uma associação francesa de crítica dos media. Os resultados da análise comparativa realizada no âmbito deste estu-do e descritos abaixo permitir-nos-ão re-avaliar estes comentários.
Nos primeiros dias de guerra, há uma espécie de recusa da TV5 em “embarcar no comboio” da mediatização da guerra. Dis-cutem-se ainda questões de geopolítica e geoestratégia, apresentam-se ainda argumen-tos contra a guerra. Há longas reportagens sobre as questões de fundo que poderão ter determinado a guerra e sobre as suas pos-síveis implicações. A 25 de Março, por exemplo, a TV5 passa um documentário sobre a primeira guerra do Golfo, as trágicas consequências do regime de sanções adop-tado pelas Nações Unidas e as mortes de soldados americanos relacionadas com o “síndrome do Golfo”. Nesse dia, a TV5 é o único dos três canais em consideração”a referir a que se destinam os 75 mil milhões de dólares adicionais pedidos ao Congresso americano por George W. Bush – 63 para financiar as operações militares, 4 para reforçar a segurança interna e 8 para recons-truir o Iraque. A este propósito, a TV5 fala também do envolvimento de uma empresa de Dick Cheney no processo de reconstrução do país.
Rapidamente, passa-se, na TV5, para uma imagem da guerra dominada pelo trágico. A 3. TV5: O efeito da oposição sistemática?
Dada a posição do governo e da popu-lação franceses relativamente à guerra, po-der-se-ia esperar que os media franceses fizessem, entre si, uma abordagem muito semelhante da guerra alimentando(-se d-) a oposição à intervenção anglo-americana e fomentando a solidariedade para com o povo iraquiano.
A comunicação social francesa foi, no entanto, alvo de recriminações bastante di-versas. A crítica mais feroz é, porventura, a de Alain Hertoghe (2003) que argumenta que os preconceitos dos media franceses embotaram a análise e levaram a graves exageros e omissões. Na sequência de uma análise de cinco jornais diários, Hertoghe considera que nas redacções francesas im-peravam três objectivos: diabolizar a admi-nistração Bush pela caricatura sistemática; aderir à linha de Chirac e Villepin num fervor nacionalista e comungar com as opiniões públicas anti-guerra com um populismo compulsivo.
Esta conclusão contrasta com as obser-vações de Thorens (2003) relativamente à estação de televisão francesa privada TF1. Este analista sugere que terá havido uma colagem à visão americana da guerra, com a “heroicização” de Tommy Franks, alto dirigente militar norte-americano, e a “neutralização” do sentido das manifestações contra a guerra. Referindo-se sobretudo à TF1, Maler (2003) fala, na mesma linha, de três traços dominantes: “la légitimation de la guerre par son récit (…), la fascination pour la puissance militaire (…), la fascination de la télévision pour sa propre puissance.” Este tipo de enviesamento ter-se-ia, segundo
a v i t a r r a n -a t e
M Implacávelprogressãomiiltaranglo-americana=>Impactonegaitvoda a r r e u g s e r o t c
A Miiltaresbritânicos,miiltaresamericanos=>Populaçãoriaquiana s a t s il a n r o
J Repórteres“embedded”=>Repórteresnoterreno s e r o d a t n e m o
C EassspuenctioaslisdotaMséedmioqOureiesnttõeesmilitaresepolíticas,especialistasem
a i f a r g o n o c I ; l e v á r a p m i o ç n a v a m e r e g u s l a t n e d i c o r a t i l i m a n i u q á m a d s n e g a m I ” r e c s a n e r “ e r e g u s o l o b m í
destruição e a dor causadas pela guerra ocupam uma grande parte do retrato da situação. A TV5 perspectiva a guerra essen-cialmente pelos seus impactos junto da população, fazendo um convite à empatia para com este povo que é atacado por um exército invasor. A hierarquização da infor-mação e outros aspectos relativos à selec-ção e construselec-ção da informaselec-ção colocam o espectador mais próximo do olhar dos iraquianos do que em qualquer uma das outras três estações. O alinhamento abaixo, do bloco noticioso das 21:00 horas do dia 27.03.03 da TV5 (a emitir o canal France 3), dá conta disso mesmo.
27 Março 2003 (8˚ dia de guerra) - Iraquianos no norte do Iraque: beijam o Corão; “estão prontos a morrer na batalha pelo país” - Mostra da destruição causada pelos americanos: criança magoada em bombardeamento; homem queimado para o qual não há medicamentos - Combates à volta de Basra; possi-bilidade de catástrofe humanitária - Imagens da Al-Jazira de um heli-cóptero americano alegadamente aba-tido pelos iraquianos
- Najaf: ênfase nos soldados iraquianos mortos (imagem dos cor-pos ao longo da estrada)
- 37 marines feridos em “friendly fire” - Americanos anunciam 24 mortos desde o início da guerra
- Paraquedistas americanos no norte do Iraque (assunto que teve um destaque muito maior noutras estações de televisão)
- Referência a mais mortos (segundo a Al-Jazira)
- Análise detalhada da importância da frente norte na batalha iraquiana e de toda a estratégia de guerra
No dia 2 de Abril, enquanto a BBC inicia os seus blocos informativos com notícias de avanços militares e fomenta cumplicidades para com os militares, na TV5 a primeira notícia é a de uma maternidade bombardeada pelos americanos. Os atrozes efeitos da guerra mostram-se na expressão de sofrimento das
pessoas, nas suas palavras, nas imagens de casas e ruas destruídas.
A morte e o luto são evocadas pelo sombrio símbolo utilizado pela TV5. Como é visível na fig. 2, esse “logotipo” con-siste num quadrado em que as palavras “Guerre en Irak” aparecem a branco sobre um fundo negro. Na parte de baixo, há uma barra vermelha cujo limite superior é irregular. Os sujeitos inquiridos neste estudo fizeram associações desta imagem com os temas referidos acima (morte e luto; muitas pessoas consideraram o ver-melho da imagem como sugestão de san-gue).
Figura 2:
Imagem da TV5, 2 de Abril de 2003