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AULA 5
Apropriação Cultural
TEMA: Apropriação Cultural
Jovem
com
câncer
é
repreendida
por
usar
turbante
e
desabafa
na
internet
DO UOL 12/02/2017
A jovem Thauane Cordeiro fez um post na sua página no Facebook em que questionou a "apropriação cultural" –a adoção de alguns elementos de uma cultura por um grupo cultural diferente.
Ela estava no ônibus, usando o pano na cabeça, e teve sua atenção chamada por outras mulheres. No entanto, Thauane tem câncer e estava com o acessório, que é típico da cultura afro, para disfarçar a queda dos fios.
Leia trecho do relato:
"Vou contar o que houve ontem, para entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural:
Eu estava na estação com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que estavam me olhando torto, tipo 'olha lá a branquinha se apropriando da nossa cultura'. Enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não
deveria usar turbante, porque eu era branca. Tirei o turbante e falei 'tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero! Adeus.', Peguei e saí e ela ficou com cara de tacho."
Ao fim do relato, postado no dia 4 de fevereiro, ela ainda colocou a hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim. Até o momento, seu post recebeu 104 mil curtidas e foi compartilhado mais de 30 mil vezes.
'Branco pode usar turbante?': Saiba o que é apropriação cultural
Carolina Cunha 04/03/2016, UOLImagine que você é branco e foi em uma festa à fantasia vestido de turbante. Mesmo não tendo a intenção, a sua fantasia pode ofender muita gente. Recentemente a edição de 2016 do Baile da Vogue gerou muita polêmica e acabou em discussão na internet. O tema era “África” e celebridades brasileiras (a maioria
branca) desfilaram roupas inspiradas na cultura africana. Logo veio a acusação de apropriação cultural.
A apresentação da cantora americana Miley Cyrus no Video Music Awards de 2015 também foi acusada de usar símbolos, gestos e danças que foram popularizados
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e sempre associados a artistas negros, como o uso de dreads no cabelo e a coreografia com o uso de twerking.
Recentemente até Beyoncé foi criticada pelo clipe “Hymn For the Weekend”, gravado com a banda inglesa Coldplay. A cantora americana aparece caracterizada como uma atriz de Bollywood, usando trajes tradicionais da Índia e tatuagem de henna. Nas redes sociais, o clipe foi criticado por reproduzir estereótipos da cultura indiana. A palavra “apropriar” significa tomar para si. O termo “apropriação cultural” é um conceito da antropologia e se refere ao momento em que alguns elementos específicos de uma determinada cultura são adotados por pessoas ou um grupo cultural diferente.
Mas não é só isso. O conceito de apropriação cultural passa por uma reflexão política. Esse uso tem uma conotação negativa, especialmente quando a cultura de um grupo que foi oprimido é adotada por um grupo de uma cultura dominante.
A cultura é um universo de símbolos e as imagens e as estéticas são fruto das experiências humanas. Um turbante carrega significados mais complexos e profundos do que simplesmente ser uma vestimenta.
A peça tem origem nas culturas afro-orientais. No Brasil, o turbante é um ornamento religioso no candomblé, religião brasileira criada por africanos de diferentes etnias, advindos da escravidão. Ele é usado tradicionalmente por povos da África, do Oriente Médio e da Ásia.
Desde a chegada dos escravos no Brasil, ritos espirituais africanos eram proibidos pelos colonizadores portugueses. Até a década de 1930, o candomblé era perseguido pela polícia e existia na clandestinidade. Muitos adeptos da religião sofreram racismo e ainda sofrem preconceito nas ruas por usar turbantes e outros símbolos afros.
Por muito tempo o turbante foi visto de forma pejorativa como “coisa de macumbeiro”. Todo esse contexto faz com que um negro, ao usar um turbante hoje, use-o não apenas como um item estético, mas também como um símbolo de resistência, afirmação e orgulho da ancestralidade.
E quando o turbante é usado por um não negro? A princípio não há problema. A liberdade individual é uma premissa de uma sociedade democrática. A pessoa pode levar o modo de vida que desejar e vestir o que quiser. Mas será que esse uso é ético? Será que ela não está refletindo uma relação de poder?
O poeta negro B. Easy publicou em sua conta no Twitter a frase: A cultura negra é popular, pessoas negras não são. A apropriação cultural esquece as práticas rituais e torna invisíveis as lutas desses povos. Pessoas começam a usar roupas e acessórios sem saber seus significados e origens. Ou seja, dá margem para que elementos de uma cultura sejam banalizados, estereotipados ou simplesmente reduzidos a “exóticos”.
Recentemente, a moda se apropriou dos turbantes com estampas étnicas. Modelos e atrizes brancas posaram para editoriais em revistas de moda. Adotado por uma determinada elite, o turbante se tornou estiloso. Por que os modelos não eram negros? Como fica a cultura negra? Possivelmente esquecida ou ainda esvaziada de sentido.
Vamos voltar aos símbolos. Por que cultura dominante? Quando uma cultura é dominante, ela se coloca como o padrão aceitável. Por exemplo, no período da Roma Antiga, os romanos invadiam regiões da Europa e pouco a pouco o idioma latim foi imposto aos povos nativos.
Quando um símbolo de um povo marginalizado é tomado pelo elemento dominante, isso se torna uma relação de privilégio de uma cultura em relação à outra. Trata-se de um processo que envolve desigualdade e desrespeito.
Mas qual o limite entre o elogio a uma cultura e a apropriação e esvaziamento de significado dela?
Existem pessoas que entendem que não existe problema em consumir bens culturais de outros povos, tudo isso são traços da individualidade e da busca de estilos de vida. Existem ainda aqueles que entendem que uma determinada prática cultural só deve ser exercida pelo grupo que o legitima. Seria isso autoritarismo ou afirmação?
A discussão é polêmica e repleta de perguntas. Brancos devem cantar rap? Ocidentais podem praticar o xamanismo indígena ou fazer a yoga indiana? O maracatu deve ser um produto de carnaval? É complexo definir o momento em que o uso de símbolos e costumes de um povo torna-se uma ofensa ou sinal de perigo.
O problema parece estar no ato de consumir sem a reflexão ou sem o devido respeito, o que esvazia o sentido. E quando esse comportamento se choca com a tradição de um povo, as coisas começam a ficar mais complicadas. De onde esse artefato veio? Que história ele conta? Que povo ele representa?
Não é o ato de usar um turbante que ofende esses grupos, mas o fato de usar o turbante sem ter consciência de seu valor simbólico para as comunidades tradicionais. É mais ofensivo ainda utilizar um símbolo para fins econômicos e que não tragam retorno para a comunidade “de origem”.
Um exemplo é a polêmica da marca Havaianas. Ela criou uma coleção de sandálias que leva ilustrações da etnia Yawalapiti, um dos povos indígenas do Alto Xingu, no estado do Mato Grosso. Os grafismos Yawalapiti são considerados propriedade coletiva e não um desenho de autoria de uma pessoa só. O contrato da marca foi feito com uma pessoa da etnia, mas não teve a autorização dos caciques para autorizar a reprodução dos desenhos para uso comercial. Quem é dono de um conhecimento coletivo e de uma cultura imaterial?
Frutos muito estranhos
Movimentos de defesa de minorias agora estrilam quando um membro dos chamados grupos dominantes se utiliza ("se apropria", na linguagem dos militantes) de um elemento icônico de sua cultura. No Brasil, uma adolescente branca que havia perdido seus cabelos por
causa de um tratamento contra o câncer foi duramente repreendida por ativistas negros por ter se exibido com um turbante afro.
Compreendo a necessidade dos movimentos de buscar bandeiras capazes de mobilizar a militância –e não
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há nada como uma polêmica cultural para fazê-lo. Também concordo que é importante discutir a história e a dimensão política de símbolos culturais, mas receio que vivamos num mundo onde as interações entre povos foram tantas e tão intensas que nenhum grupo pode reivindicar direitos exclusivos sobre nada.
O melhor exemplo de quão furado pode ser o discurso da apropriação cultural vem dos EUA. Se você quiser pôr americanos para discutir acaloradamente, é só perguntar se brancos têm o direito de cantar "Strange Fruit", a música que se tornou o emblema máximo da luta contra o racismo no país. A canção, imortalizada na voz de Billie Holiday, é mesmo de arrepiar. Ela descreve corpos de negros que foram linchados e pendurados numa árvore como frutos.
O problema é que "Strange Fruit", considerada a canção do século 20 pela "Time" e sempre incluída nas listas de músicas que mudaram o mundo, foi escrita e composta por Abel Meeropol, um autêntico judeu do Bronx –e com simpatias comunistas. Ele também acabou adotando os filhos dos Rosenberg, depois que o casal foi para a cadeira elétrica.
Podemos ir mais longe e dizer que a própria história é uma história de sucessivas apropriações. Tomemos o caso da escrita. Embora ela seja hoje quase universal, foi inventada de forma independente apenas três ou quatro vezes e depois "apropriada" por todas as culturas não ágrafas.
Hélio Schwartsman – Folha de S. Paulo – 28/2/2017
Movimento negro corre risco de virar caricatura
Faz mais ou menos um ano, estava na feirinha do Lavradio, no centro do Rio, e uma designer negra vendia brincos de sua fabricação com o desenho de rostos femininos com black power. Eram lindos e eu fiquei encantada por mais de um modelo. Quando já escolhia um para levar, veio o diabinho na orelha e falou que possivelmente eu queimaria no inferno da opinião alheia. Onde já se viu uma branca, usando a imagem de uma negra pendurada na orelha para dar uma de fashion?
Fui embora, deixando a artista sem entender a minha desistência diante do entusiasmo com que eu havia acabado de demonstrar pelas peças. Abri mão da compra por medo, por cagaço de ser perseguida pela patrulha, e achando que estava fazendo algo muito importante para contribuir para a valorização dos negros, seus movimentos e suas lutas. Sério? Por que deixei de usar um brinco com a imagem de uma negra?
Essa lembrança me ocorreu nos últimos dias quando o assunto apropriação cultural veio à tona porque uma jovem branca, que usava um turbante por causa de um câncer, foi abordada por uma negra que disse que ela não deveria usar a tal indumentária. Pronto. Pense no bate-boca na internet.
Obviamente, de um ano para cá percebi a armadilha que caí ao dar ouvidos e importância a uma ideia que não faz o menor sentido. Falar em apropriação cultural num mundo cada vez mais globalizado, em que as pessoas clamam por igualdade, não tem nada de ingênuo, é oportunista mesmo.
Fico com Oswald de Andrade: só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Patrulhar o que os brancos vestem, comem ou cantam não resolverá o problema crítico de desigualdade no Brasil, a quantidade de negros mortos pela polícia, o desequilíbrio da presença nas universidades, em cargos de chefia, a representatividade política. O Brasil é um país racista. Mas não deixaremos de ser apenas porque de agora em diante um grupo pequeno de pessoas decidiu que branco não pode usar turbante, dreadlocks, ser sambista.
Vocês acharam exagero a treta por causa do turbante? Tem ativista negro que acha absurdo que brancos ganhem dinheiro com o samba "enquanto negros talentosos morrem de fome". Tem disso. Negros, segundo o que li em alguns blogs, não podem se relacionar com brancas. São
chamados de "palmiteiros". Há páginas na internet que só existem para fazer chacota de negros famosos e suas mulheres "branquelas". Tem disso também. Se isso não é preconceito e intolerância, não sei o que é. Imagine se fosse o contrário.
Mas o problema é branco usando turbante.
A própria discussão sobre apropriação cultural é uma apropriação de debates em universidade americanas, que acabaram se espalhando pelo mundo. Sério que os negros daqui precisam se apropriar da problematização dos negros de lá?
Uma das coisas que chamou atenção foram as acusações de que a história da branca com turbante tenha sido inventada. Exatamente o que fazem quando uma mulher conta que foi estuprada. "Nossa, essa história está muito estranha." A vítima transformada em culpada na mesma hora. Ora essa.
É claro que o relato pode ser apenas uma fanfic dessa geração tombamento-lacração, mas a repercussão dela apenas mostra a fragilidade de algumas causas que os movimentos tomam para si. Este episódio, por exemplo, só serviu para virar piada entre pessoas que concordam com tudo que os movimentos negros denunciam e reivindicam, mas jamais levarão a sério a ideia de que um grupo pode decidir quem está credenciado a usar uma peça de roupa ou um penteado no cabelo. Só deu munição a gente de fato racista, que acha que programas sociais são privilégio e não necessidade.
Movimentos sociais só têm efeito se criam empatia e se conscientizam. O que temos visto são grupos ou indivíduos que sequestraram a fala de milhões para dizer o que é certo ou errado, e nem sempre representam a maioria. Vemos isso no feminismo também. O resultado é gente pregando para doutrinado, lacrando em páginas do Facebook (devidamente fechadas para comentários contrários, claro), afastando das questões que realmente importam uma massa descomunal de gente, erguendo muros instransponíveis entre pessoas e ideias, transformando o ideal da igualdade numa caricatura.
Enquanto isso, negros continuam sem acesso ao ensino superior, lotando presídios ou covas no cemitério. Enquanto isso, discutimos se branco pode usar turbante, se pode ser sambista, se negro pode casar com branca.
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Mariliz Pereira Jorge – Folha de S. Paulo – 16/2/2017
De uma branca para outra
O turbante e o conceito de existir violentamente
Como para mim é mais difícil vestir a pele de uma mulher negra, porque por ser branca eu tenho menos elementos que me permitem alcançá-la, eu preciso fazer mais esforço. Não porque sou bacana, mas por imperativo ético. E a melhor forma que conheço para alcançar um outro, especialmente quando por qualquer circunstância este outro é diferente de mim, é escutando-o. Assim, quando ouvi que não deveria usar turbante, entre outros símbolos culturais das mulheres negras, fui escutá-las. Acho que isso é algo que precisamos resgatar com urgência. Não responder a uma interdição com uma exclamação: “Sim, eu posso!”. Mas com uma interrogação: “Por que eu não deveria?”. As respostas categóricas, assim como as certezas , nos mantêm no mesmo lugar. As perguntas nos levam mais longe porque nos levam ao outro.
A resposta mais completa que encontrei na minha busca foi um texto de Ana Maria Gonçalves. Escritora de grande talento, mulher, negra.. Ana Maria Gonçalves diz: “Boa parte da população branca brasileira sabe de suas origens europeias e cultiva, com carinho e orgulho, o sobrenome italiano, o livro de receitas da bisavó portuguesa, a menorá que está há várias gerações na família. Quem tem condições vai, pelo menos uma vez na vida, visitar o lugar de onde saíram seus ancestrais e conhecer os parentes que ficaram por lá. E os descendentes dos africanos da diáspora? Quando chegaram por aqui, os traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam saído, redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os embarcados na costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento (ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar, separando-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados, para que não se entendessem.
Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo católico para que deixassem de ser pagãos e adquirissem alma por meio de uma religião ‘civilizatória’, ganhando um nome ‘cristão’ que se juntava, em terras brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil, não podiam falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem donos dos próprios corpos e destinos. Para que algo fosse preservado, foram séculos de lutas, de vidas perdidas, de surras, torturas, ‘jeitinhos’, humilhações e enfrentamentos em nome dos milhares dos que aqui chegaram e dos que ficaram pelo caminho. Como resultado disto, somos o que somos: seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá e nun ca conseguiram se firmar completamente por aqui.
(...)Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É juntar-se a outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a nossa precária habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para carregar este
turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto acontecia? Vocês que, agora, quando quase conseguimos restaurar a dignidade dos nossos turbantes, querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da sala. Onde estão vocês quando a gente precisa de ajuda e de humanidade para preservar estes símbolos?
(...)O turbante que habitamos não é o mesmo. O que para você pode ser simples vontade de ser descolado, de se projetar como um ser livre e sem preconceitos, para nós é um lugar de conexão”.
O que para mim tem se tornado mais evidente, Thauane, é o que tenho chamado de existir violentamente. Por mais éticos que nós, brancos, pudermos ser, a nossa condição de branco num país racista nos lança numa experiência cotidiana em que somos violentos apenas por existir. Quando eu nasço no Brasil, em vez de na Itália, porque as elites decidiram branquear o país, já sou de certo modo violenta ao nascer. Quando ao meu redor os negros têm os piores empregos e os piores salários, a pior saúde, o pior estudo, a pior casa, a pior vida e a pior morte, eu, na condição de branca, existo violentamente mesmo sem ser uma pessoa violenta.
É duro, Thauane, reconhecer e sentir nos ossos, a cada dia, que existo violentamente. Não posso escolher não existir violentamente, porque esta é a condição que me foi dada neste momento histórico. Mas penso que há algo que posso escolher, que é lutar para que meus netos possam viver num país em que um branco não exista violentamente apenas por ser branco. E para isso eu preciso escutar. E, principalmente, preciso perder privilégios. Me parece que hoje uma das questões mais cruciais deste país diz respeito a quanto estamos dispostos a perder para estar com o outro. Porque será preciso perder para que o Brasil se mova, para que o mundo se mova.
E às vezes os privilégios mais difíceis de perder, Thauane, são os mais sutis, assim como os mais subjetivos. Por séculos os brancos falaram praticamente sozinhos no Brasil, inclusive sobre o que é cultura e sobre o que é pertencimento. Os brancos falaram praticamente sozinhos até sobre o lugar do negro neste país. Agora, ainda bem, perdemos esse privilégio. E vamos ter que conversar. Mas o privilégio primeiro que perdemos quando as vozes negras começaram a ecoar mais longe é o da ilusão de que somos “limpinhos” porque não somos racistas. Não somos limpinhos. Porque não há como ser branco e ser limpinho num país em que os negros vivem pior e morrem primeiro. É isso que eu chamo de existir violentamente.
Escrevo esta carta para você, para todos e também para mim, na esperança de que ela atravesse os muros e chegue ao seu destino. E me despeço dizendo, Thauane, que com toda a sua dor e com toda a sua nudez, acho que
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você, eu, todas nós, mulheres brancas, precisamos escolher perder o privilégio de usar turbante, com tudo o que isso significa. Não apenas porque alguém barrou o
gesto, mas porque somos capazes de escutar argumentos e aprender com eles. E porque queremos muito estar com o outro sem ser violentamente.
MÃOS À OBRA