OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO
Janaina de Ramos Ziegler Centro Universitário Univates [email protected]
Marli Teresinha Quartieri Centro Universitário Univates [email protected]
Ieda Maria Giongo Centro Universitário Univates [email protected]
Márcia Jussara Hepp Rehfeldt Centro Universitário Univates [email protected]
Resumo:
O presente relato apresenta ações desenvolvidas com seis professores de Matemática da Educação Básica, representantes de escolas integrantes do Programa do Observatório da Educação no ano de 2013. O projeto, denominado “Estratégias Metodológicas Visando à Inovação e Reorganização Curricular no Campo da Educação Matemática no Ensino Fundamental”, é financiado pela CAPES e desenvolvido no Centro Universitário UNIVATES. O objetivo geral é melhorar o desempenho dos alunos do Ensino Fundamental na avaliação denominada Prova Brasil e, consequentemente, as notas das instituições participantes no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Para alcançar as metas traçadas, as atividades elaboradas pelo grupo de pesquisa têm seus estudos concentrados em três tendências educacionais, denominadas Investigação Matemática, Etnomatemática e Modelagem Matemática. Realizaram-se reuniões semanais em que foram efetivados estudos sobre a composição do IDEB, análise de livros didáticos, leituras de obras relacionadas às tendências, bem como a elaboração e desenvolvimento de práticas pedagógicas. Estas últimas resultaram na produção de textos, os quais foram inscritos em eventos destinados à educação, possibilitando aos docentes trocar experiências com demais profissionais e aprimorar suas produções textuais. Destaca-se que essas ações proporcionaram momentos de formação continuada aos educadores participantes do projeto.
Palavras-chave: Observatório da Educação. Professores da Educação Básica. Formação continuada. Educação Matemática.
Introdução
Neste relato, pretendemos descrever ações desenvolvidas com professores de Matemática da Educação Básica participantes do programa Observatório da Educação. O Projeto tem como objetivo desenvolver estudos e pesquisas em educação e incentivar o crescimento da produção acadêmica, envolvendo os programas de pós-graduação de mestrado e doutorado das instituições de Ensino Superior. Nesta perspectiva, a metodologia de trabalho está pautada pela interação constante entre profissionais do Ensino Superior e da Educação Básica, mestrandos e alunos de Iniciação Científica. Assim, o grupo de pesquisa envolvido está constituído de quatro pesquisadoras da Univates; seis bolsistas de Iniciação Científica, graduandos da Instituição; seis professoras, uma de cada escola parceira, e três mestrandos oriundos do Mestrado Profissional em Ensino de Ciências Exatas. As referidas escolas são públicas e representam seis municípios diferentes do Vale do Taquari/RS. Elas foram escolhidas devido à discrepância entre as notas do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) relativos ao 5° e 9° anos do Ensino Fundamental.
O projeto, denominado “Estratégias Metodológicas Visando à Inovação e Reorganização Curricular no Campo da Educação Matemática no Ensino Fundamental”, possui apoio financeiro da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e tem o intuito de melhorar o desempenho no IDEB dos alunos das instituições parceiras. Nesse sentido, entendemos que a inserção das tendências de Modelagem Matemática (BARBOSA, 2004), Etnomatemática (KNJNIK et al, 2012) e Investigação Matemática (PONTE, BROCADO e OLIVEIRA, 2003), na prática pedagógica de professores do Ensino Fundamental, pode contribuir com os processos de ensino e de aprendizagem dos alunos na Matemática, em particular no Ensino Fundamental. Essas tendências também são o campo empírico das investigações produzidas pelos mestrandos, participantes do referido Observatório, ao serem inseridos nessas escolas, ou seja, nelas, cada um realiza intervenções a partir do estudo de uma das tendências educacionais.
Em relação aos professores das escolas de Educação Básica, proporcionamos encontros semanais realizados com o grupo de pesquisa, os quais são fundamentais, sobretudo, para que os educadores se tornem pesquisadores de sua prática pedagógica e, consequentemente, produzam novos conhecimentos. As discussões efetivadas nos referidos encontros estão sendo paulatinamente disseminadas nas escolas parceiras.
Temas, como composição do cálculo do IDEB, descritores da Prova Brasil e o estudo das três tendências citadas anteriormente – desconhecidos pelos professores – estão sendo debatidos e estudados. Nesse contexto, acreditamos estar proporcionando momentos de formação continuada aos participantes. Para Galindo e Vital (2011, p. 11), o professor necessita estar em constante formação, sendo necessárias “práticas de formação que sejam úteis na aquisição de conhecimentos e técnicas e práticas de formação que contribuam para a emancipação profissional e para a consolidação de uma profissão que é autônoma na produção de seus saberes e valores”.
Para Nóvoa (2009, p.27), a formação continuada ocorre de maneira coletiva e depende da experiência e da reflexão como instrumentos contínuos de análise. Assim, o autor afirma que “o trabalho do professor consiste na construção de práticas docentes que conduzam os alunos à aprendizagem.” Neste sentido, os encontros semanais se constituem em momentos de estudo, de reflexão e de troca de experiências, o que tem possibilitado aos participantes provocarem mudanças em sua prática pedagógica. E, como comenta Silva (2007), o educador que busca a formação continuada tende a ampliar o seu campo de trabalho, podendo promover alterações em relação à sua prática, crenças, concepções. Ademais, para o citado autor, a formação continuada é uma maneira de os docentes permanecerem em constante desenvolvimento pessoal, cultural e profissional.
Entendemos por formação continuada todas as ações praticadas pelos docentes para a melhoria de sua prática pedagógica. Não nos referimos aqui à formação mínima exigida para o exercício da profissão (curso de graduação), mas a outras formas que possibilitam agregar conhecimentos e podem ocorrer por meio de participação em cursos de formação, momentos de reflexão ou palestras, grupos de estudo na escola ou fora desse ambiente, oficinas, dentre outros. Ferreira (2009, p.23) comenta que a formação continuada proporciona
[...] a criação de grupos de estudos, onde determinado número dos docentes, com problemas comuns, geralmente relacionados ao desinteresse do alunado em estudar/aprender determinada disciplina, resolve compartilhar suas angústias, elaborar novas experiências, novas metodologias e refletir sobre a sua própria prática.
Nesse contexto, objetivamos proporcionar momentos de estudo, leitura, pesquisa sobre a prática dos participantes deste projeto com o intuito de propiciar a melhoria da prática pedagógica desses docentes. Ademais, esperamos que o grupo de professores
seja multiplicador desses estudos em suas escolas. A seguir, detalhamos as ações desenvolvidas, no decorrer do ano de 2013, com os docentes participantes.
Atividades desenvolvidas com os professores
As atividades do referido Observatório da Educação iniciaram em abril de 2013 com reuniões semanais, em que o grupo da pesquisa discutiu itens pertinentes às ações que se pretendiam desenvolver. Nos primeiros encontros, foram problematizados temas relacionados à composição da nota do IDEB e analisadas as questões da Prova Brasil. Além disso, realizou-se estudo da matriz de referência da referida Prova, documento que expõe os quatro temas norteadores do exame: I) Espaço e forma; II) Grandezas e medidas; III) Números e Operações/Álgebra e Funções; IV) Tratamento da informação. Todos esses temas apresentam respectivos descritores, ou seja, informações sobre as habilidades julgadas necessárias aos alunos.
Essas informações possibilitaram aos professores subsídios sobre o que deveriam trabalhar com seus alunos em sala de aula para ficar em consonância com aquilo que é solicitado nas avaliações externas. Isso foi um ponto de impacto para os docentes, já que, segundo Nacarato et al (2005, p.63),
dos professores tem-se exigido a organização de seus projetos e planejamentos na forma de competências e habilidades, como se esses conceitos fossem claros o suficiente para nortear a ação pedagógica. No entanto, o professor sente-se coagido a cumprir as orientações nesse sentido, visto que o controle do trabalho docente vem sendo realizado na forma de avaliações externas – em larga escala.
Após a análise dos temas e seus respectivos descritores, surgiram alguns questionamentos: Como é feita a composição da nota? Os livros didáticos estão em conformidade com as habilidades exigidas na prova? Aparecem questões semelhantes as da Prova Brasil nos livros didáticos? A partir dessas perguntas, foi solicitado que os professores trouxessem seus livros didáticos do 5° e 9° anos do Ensino Fundamental para que os mesmos fossem analisados pelos bolsistas e mestrandos participantes da pesquisa. Como resultados da investigação, notamos que todos os temas estavam presentes nos livros analisados; no entanto, as questões objetivas eram minoria em relação às dissertativas.
Posteriormente aos esclarecimentos sobre o IDEB e seus componentes, os educadores integrantes da pesquisa, juntamente com os demais membros, desenvolveram três questionários, os quais eram destinados a professores, alunos e
equipe diretiva das escolas participantes do projeto. A intenção era investigar o conhecimento que tinham sobre a Prova Brasil e a importância dessa avaliação no conjunto de itens examinado pelo Ministério da Educação (MEC) para a composição da nota do IDEB. Como resultado, obteve-se um número significativo dos estudantes respondendo que não sabiam da relevância dessa avaliação para sua escola. Os demais entrevistados relataram não compreenderem como a nota era composta. Neste sentido, os docentes do Observatório da Educação realizaram uma troca de informações com seus colegas de trabalho na escola, pois já haviam estudado a composição da nota do IDEB em reuniões anteriores.
Os encontros seguintes foram dedicados ao estudo das tendências educacionais, focos da pesquisa. Cada uma foi apresentada aos docentes de escola por um dos mestrandos, uma vez que, cada um destes tinha como tema de sua dissertação uma das metodologias.
O estudo da Modelagem Matemática ocorreu por meio dos textos de Barbosa, nos quais o autor define essa metodologia como:
A meu ver, o ambiente de Modelagem está associado à problematização e investigação. O primeiro refere-se ao ato de criar perguntas e/ou problemas enquanto que o segundo, à busca, seleção, organização e manipulação de informações e reflexão sobre elas. Ambas as atividades não são separadas, mas articuladas no processo de envolvimento dos alunos para abordar a atividade proposta. Nela, podem-se levantar questões e realizar investigações que atingem o âmbito do conhecimento reflexivo (BARBOSA, 2004, p.75).
Nessas publicações, o autor expõe alguns princípios da Modelagem Matemática, além de cinco argumentos para a inserção desse método de ensino no currículo escolar: motivação, facilitação da aprendizagem, preparação para utilizar a matemática em diferentes áreas, desenvolvimento de habilidades gerais de exploração, compreensão do papel sociocultural da matemática. O referido pesquisador enfatiza o último argumento, visto que “está diretamente conectado com o interesse de formar sujeitos para atuar ativamente na sociedade e, em particular, capazes de analisar a forma como a matemática é usada nos debates sociais” (BARBOSA, 2003, p.67).
Em relação à Investigação Matemática, utilizou-se o artigo de Ponte et al (2003), em que ele apresenta algumas atividades desenvolvidas com alunos da 7ª série, destacando o papel do docente quando afirma que “o professor continua a ser um elemento-chave mesmo nestas aulas, cabendo-lhe ajudar o aluno a compreender o que
significa investigar e aprender a fazê-lo” (PONTE et al, 2003, p.2). Conforme o autor, na realização de uma Investigação Matemática, há quatro momentos: o primeiro é reconhecer a situação, explorando o problema e formulando questões para resolvê-las. O segundo diz respeito ao processo de formular conjecturas; o terceiro à realização de testes e o eventual refinamento das conjecturas. O último se refere à argumentação, demonstração e avaliação do trabalho realizado pelos grupos.
A Etnomatemática foi problematizada por meio do texto de Giongo et al (2005), no qual ela relata uma prática pedagógica realizada com estudantes da zona rural de uma cidade localizada no Vale do Taquari/RS por uma professora em uma classe multisseriada. No artigo citado, a docente mostra a preocupação em relacionar atividades efetuadas pela comunidade na qual a escola estava inserida com conceitos estudados em sala de aula. Ela destaca que, inicialmente, tinha a intenção de abordar o sistema monetário e cálculos sobre compra e venda de produtos. Mas que, ao final, a aula se transformou no estudo da produção e comércio de aves, mercadoria fonte de renda das famílias da região. Sem perder o objetivo, alude que “o conhecimento dos alunos no âmbito familiar foi sendo problematizado juntamente com os saberes escolares” (GIONGO et al, 2005, p.35).
Após o estudo teórico e a apresentação de atividades envolvendo as três tendências, os professores indagaram sobre como poderiam realizar atividades em suas turmas. Assim, eles foram incentivados a planejar uma proposta pedagógica que seria explorada com seus alunos, contando para isso com o apoio dos pós-graduandos. Os participantes, em duplas, elaboraram um projeto de forma que cada uma tivesse como aporte teórico uma das tendências estudadas. Dessa forma, obtiveram-se como resultado propostas abordando os seguintes conteúdos matemáticos: matemática financeira e construção de gráficos – Modelagem Matemática –; circunferência e soma dos ângulos internos de um triângulo – Investigação Matemática – e pesquisa sobre a matemática existente nas profissões exercidas pelos pais e/ou responsáveis pelos alunos – Etnomatemática.
Durante a elaboração dos projetos, os professores, além de sanarem dúvidas em relação ao uso das tendências, trocaram experiências entre si. De acordo com Rocha e Fiorentini (s/a, p.2),
A formação do futuro professor não se reduz apenas ao período da formação inicial. A constituição profissional docente, longe de ser
uma trajetória linear ou limitada a um intervalo de tempo, é um processo contínuo e sempre inconcluso, permeado por dimensões subjetivas e sócio-culturais que influenciam o modo de vir a ser de cada professor.
Cabe destacar que os resultados da exploração das atividades foram socializados durante os encontros semanais com os demais membros. A partir desses relatos, os professores foram incentivados a participar de eventos, entre eles, XV Mostra de Ensino, Extensão e Pesquisa; XII Encontro sobre Investigação na Escola; VII Encontro Ibero Americano de Colectivos y Redes de Maestros y Maestras que hacen investigación e innovación desde su escola y comunidade; XII Fórum da Faculdade Porto-Alegrense e IV Seminário Institucional do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência. Esses eventos oportunizaram aos docentes estarem em contato com os demais profissionais da área e compartilharem seus resultados obtidos em sala de aula com outros pesquisadores. Já que, segundo Oliveira (2007, p.21), “A experiência de cada docente é, a meu ver, própria, mas compartilhada com uma coletividade de trabalho, que partilha desafios e condições. Em certo modo, então, a experiência de um é, também, a experiência de todos”.
Atualmente, os educadores elaboram atividades que serão desenvolvidas com seus alunos no decorrer do primeiro semestre de 2014. Estas foram produzidas de forma que, em duplas, eles pudessem vivenciar metodologias até então não exploradas. Dessa forma, os professores que se dedicaram à tendência da Etnomatemática no projeto anterior, agora se envolvem em atividades ligadas à Investigação Matemática. Os que estavam trabalhando com a metodologia da Modelagem Matemática hoje estão compondo trabalhos a partir de ideias vinculadas à Etnomatemática. Já aqueles que, atualmente, estão ocupados em realizar ações à luz da Modelagem Matemática, anteriormente, produziram tarefas relacionadas à Investigação Matemática. Essa proposta, além de proporcionar novamente aos docentes explorarem uma tendência educacional na prática pedagógica, também os incentiva a realizarem atividades em que a troca de ideias entre os pares é muito valiosa.
Na próxima secção, são apresentados alguns resultados observados no decorrer das ações desenvolvidas com os professores participantes do programa.
Discussão dos resultados
Ao analisar as atividades desenvolvidas com os professores participantes do Observatório da Educação, percebemos que tais ações lhes possibilitaram conhecer os motivos que levaram à escolha de suas escolas para participarem do programa. Além disso, foi possível esclarecer algumas dúvidas que eles tinham sobre a composição da nota do IDEB atribuída às suas instituições.
Na discussão das leituras sobre as tendências educacionais norteadoras da pesquisa, até então desconhecidas pelos docentes, verificamos que lhes concedemos a possibilidade de explorarem novos métodos de ensino. Esses estudos foram fundamentais à elaboração e desenvolvimento de práticas pedagógicas criadas pelos educadores, as quais foram enviadas a eventos destinados à educação. Com essas atividades, percebemos que proporcionamos ao grupo trocar experiências com demais profissionais, bem como aprimorar suas produções textuais. E, de acordo com Bovo (2004, p.36), a formação continuada pode servir de suporte aos professores, pois estabelece “parcerias entre a escola e a universidade, como é o caso de algumas atividades que procuram fazer uma formação contextualizada na prática do professor, nas suas dificuldades, nos seus anseios e na realidade da sua escola”.
Ressaltamos ainda que as experiências descritas neste artigo proporcionaram momentos de formação continuada aos professores participantes da pesquisa. Oportunizamos - lhes troca de experiências, estudo, reflexões constantes, compartilhamento de angústias e de conquistas. Isso também foi observado na pesquisa de Maccarini (2007, p.191), quando comenta que os participantes de momentos de formação continuada relataram que estes “favoreceram a reflexão sobre a prática, instigando a buscar novos métodos para o processo ensino-aprendizagem. Ao mesmo tempo, fazem referências a vários métodos e técnicas aprendidos na formação continuada e que aplicam em sala de aula”. O autor ainda expressa que a formação continuada possibilita o aprofundamento de conceitos e conteúdos.
As ações aqui descritas, pelo depoimento dos docentes, estão auxiliando na melhoria dos processos de ensino e de aprendizagem da Matemática. Ademais, eles estão divulgando essas atividades aos demais colegas da Escola, sendo os multiplicadores das ações propostas pela equipe proponente do projeto do Observatório da Educação.
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