OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA PRIORIDADE ABSOLUTA E DA PROTEÇÃO INTEGRAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E
SUA EFETIVIDADE
Silva, Edenise Andrade da2; Pessoa,Tatiane de Fátima da Silva3,Cezne,Andrea Nárriman4
1 Trabalho de Pesquisa _UNIFRA
2 Curso de Direito Noturno do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil 3 Curso de Direito Noturno do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, RS, Brasil 4Curso de Direito Professora do Curso de Direito do Centro Universitário Franciscano
(UNIFRA),Doutora em Direito (UFRGS) Santa Maria, RS, Brasil
E-mail: [email protected]; [email protected]; [email protected]
RESUMO
O presente artigo analisa os princípios da prioridade absoluta e da teoria da proteção integral da criança e do adolescente, os quais são assegurados pela Constituição Federal e Estatuto da Criança e do Adolescente. Analisa-se a questão da criança e adolescente e a mudança no paradigma que se estabeleceu após a Constituição Federal de 1988. Traça-se os princípios da teoria da proteção integral e examina a doutrina anterior da situação irregular. Estuda-se de que forma foram construídos os fundamentos jurídicos para garantir direitos fundamentais a esses sujeitos peculiares na sociedade contemporânea. Buscando-se verificar a aplicação da teoria e análise de fatos, foi realizado um estudo de caso dos processos da Vara Regional do Juizado da Infância e Juventude de Santa Maria, no decorrer do mês de agosto de 2012. As conclusões parciais permitem dizer que há ainda dificuldades na aplicação da teoria da proteção integral na atual realidade santamariense.
Palavras-chave: Criança; Adolescente; Proteção Integral; Prioridade Absoluta; Direitos Fundamentais.
1. INTRODUÇÃO
O reconhecimento da Criança e do Adolescente como sujeitos de direito, seres em pleno desenvolvimento, é novo, e pode ser associado à Declaração de Direitos da Criança e do Adolescente da ONU, datado no ano de 1959.
No Brasil foi a Constituição de 1988 que estabeleceu a necessidade de proteção integral desses sujeitos de direito. Posteriormente, o Estatuto da Criança e do Adolescente, fruto desse imperativo constitucional, prescreve normas com a finalidade de criar um suporte
protetivo e garantidor dos Direitos Fundamentais. Essa classe de sujeitos, que anteriormente eram tratados pelo Código de Menores, como objetos, submetidos à intervenção judicial quando estavam sob ameaça ou ameaçando a sociedade.
Esta quebra de paradigma é recente, e ainda não está totalmente superado, necessitando o texto constitucional e a lei 8.069/90 ser amplamente difundidos. Desta forma, embora essas leis estabeleçam garantias suficientes à concretização dos direitos fundamentais das crianças e adolescentes.
O fato é que ainda há uma enorme distância entre previsão legal e realidade, aspecto que será demonstrado no decorrer deste trabalho.
2. EVOLUÇÃO HISTÓRICA, CONCEITOS E CARACTERISTICAS DOS PRINCIPIOS.
A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente consagram a chamada teoria da proteção integral, estabelecendo, também, que essa proteção (integral) à criança e ao adolescente deve ser levada a efeito com absoluta prioridade.
Esse extremo rigor com que o constituinte e o legislador infraconstitucional responsabilizaram o poder público, a sociedade e a família em relação aos cuidados para com a população infanto-juvenil, todavia, não é algo específico do Brasil; é universal. Analisando-se a existência de inúmeros Documentos Internacionais, cujo conteúdo pode ser adotado por qualquer país do mundo.
Os textos do artigo 227 (e seguintes) da Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente apontam para um contexto normativo universal, tendo como base documentos Internacionais, como:
a) a Declaração Universal dos Direitos do Homem (aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948);
b) a Declaração Universal dos Direitos da Criança (20 de novembro de 1959);
c) a Convenção das Nações Unidas Sobre os Direitos da Criança (adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 20 de novembro de 1989 e promulgada no Brasil pelo Decreto nº 99.710, 21 de novembro de 1990);
d) a Declaração Mundial Sobre a Sobrevivência, a Proteção e o Desenvolvimento da Criança nos Anos 90 (Encontro Mundial de Cúpula pela Criança, Nova Iorque, 30 de Setembro de 1990).
Analisando-se a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente, destaca-se claramente a recepção, pelo sistema brasileiro, da teoria da proteção integral e do princípio da prioridade absoluta no atendimento à criança e ao adolescente.
O reconhecimento da situação especial da criança e do adolescente, como seres em desenvolvimento, cuja imaturidade física e mental recomenda cuidados especiais, cria uma nova classe de direitos coletivos ou difusos, os direitos da criança e do adolescente.
No Brasil, esse reconhecimento é tardio, a partir da década de 80 (oitenta) com o surgimento de movimentos sociais pela democracia que se passou a refletir sobre as práticas históricas instituídas aos ‘menores’.
Posteriormente, na Constituição da República de 1988 (mil novecentos e oitenta e oito) é que se estabelece a necessidade de proteção integral desses sujeitos de direito, dizendo o artigo 227, na sua íntegra, o seguinte:
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
A Lei 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente - é produto desse preceito constitucional e traça normas com a finalidade de criar instrumentos garantidores e protetivo à população infanto-juvenil atribuindo a estes direitos o status de prioridade absoluta.
O Estatuto representa uma mudança de paradigma no direito brasileiro, pois rompe drasticamente com a idéia menorista imposta pelo Código de Menores.
Deixa-se de enxergar o jovem somente nos momentos em que se encontra sob ameaça da sociedade ou ameaçando-a, paradigma da situação irregular - e passa a protegê-lo em todas as fases e situações de vida. Com isso assegurando-lhes direitos fundamentais para que possa se desenvolver e se tornar um adulto sadio, autônomo e livre.
Ao contrário da Teoria da Proteção Integral, na Teoria da Situação Irregular a prevenção se limitava a disciplinar as medidas de vigilância, em regra de conteúdo proibitivo para os menores. Indicando que a ideia de prevenir às ofensas aos direitos da criança e do adolescente ainda estava para ser consolidada.
O Código de Menores, de 1979 (Lei 6.697, de 10/10/79), adotou tal doutrina - Proteção ao Menor em Situação Irregular – a qual abrangia os casos de abandono, infração penal, desvio de conduta, falta de assistência ou representação legal. A lei de menores cuidava somente do conflito instalado e não da prevenção.
Era instrumento de controle social da criança e do adolescente, vítimas de omissões da família, da sociedade e do Estado em seus direitos básicos. Portanto, crianças e adolescentes não eram sujeitos de direitos, mas sim objeto de medidas judiciais.
O artigo 2º, do Código de Menores, definia quais eram as situações tidas como irregulares. Estas situações eram definidas em seis classes que retratavam situações de perigo que poderiam levar o menor à marginalização e/ou criminalidade. São elas:
Art. 2º - Para os efeitos deste Código, considera-se em situação irregular o menor:
I – privado de condições essenciais à sua subsistência, saúde e instrução obrigatória, ainda que eventualmente, em razão de:
a) falta, ação ou omissão dos pais ou responsáveis;
b) manifesta impossibilidade dos pais ou responsável para provê-las. II – vítima de maus tratos ou castigos imoderados impostos pelos pais ou responsável;
III – em perigo moral, devido a:
a) encontrar-se, de modo habitual, em ambiente contrário aos bons costumes;
b) exploração em atividade contrária aos bons costumes.
IV- privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual dos pais ou responsável;
V – com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação familiar ou comunitária;
VI – autor de infração penal.
Desde então, a compreensão que se tem do novo Direito da Criança e do Adolescente exigiu uma teoria jurídica própria, com uma nova concepção de valores, princípios e regras. Possivelmente, a maior parte das incompatibilidades relativas ao tema criança e adolescente no Brasil resulte num descompasso, compreensível historicamente, embora injusto.
O que demonstra uma transição entre compreensões distintas sobre um mesmo tema. Nota-se uma resistência, ininteligível por informações e práticas de caráter tecnicista, que insistem, pela tradição ou pela dificuldade de compreensão, em tentar realizar uma leitura do Direito da Criança e do Adolescente com as lentes epistêmicas da antiga doutrina.
De todo modo, o Direito da Criança e do Adolescente no Brasil alcançou uma capacidade de afirmação teórica incontestável, desestruturando todas as demais concepções, que historicamente legitimavam seu anverso, ou seja, o Direito do Menor.
É preciso reparar que esta afirmação não decorre do acúmulo epistemológico, mas de uma ruptura radical com a própria compreensão histórica relativa ao tema.
Quase 20 anos após a promulgação da Lei 8.069/90, o direito da criança e adolescentes, para muitos, ainda encontra-se sobre o estigma de um direito para menores abandonados e infratores que deve servir para receber os primeiros e punir os últimos.
Atualmente no Juizado Regional da Infância e Juventude de Santa Maria/RS, tramitam aproximadamente 1100 (mil e cem) processos. Processos estes, em sua maioria, à medida de proteção para crianças e adolescentes em situação de risco e/ou vulnerabilidade social, ato infracional e medicamentos. Vejamos a tabela ilustrativa da tabela 1:
A Tabela 1 apresentará os mapas parciais do Juizado Regional da Infância e Juventude Comarca Santa. Maria / RS referente ao mês de agosto de 2012, dados estes retirados do sistema THEMIS, da Vara da Infância e juventude da Comarca de Santa Maria.
Classes Números
Procedimento por ato infracional 203
Remissão 40
Alteração do poder familiar 62
Colocação em família substituta 49
Habilitação adoção 14
Infrações administrativas 4
Medidas de Proteção 108
Execução de Medida Sócio Educativa Meio
Aberto 23
Execução de Medida Sócio Educativa Meio
Fechado 41
Boletim de Ocorrência em tramitação 140
Internações Provisórias 26
Total: 710
Tabela 1: Mapa parcial do Juizado Regional da Infância e Juventude Comarca Santa. Maria / RS referente ao mês de agosto de 2012
De acordo com o parágrafo único do artigo 4º do ECA, a garantia de prioridade compreende: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas e d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.
Contudo, diante dos números apresentados, percebemos que não há investimento em políticas sociais públicas, conforme preceitua o Estatuto. Diante da falta de cumprimento desses dispositivos, os órgãos incumbidos de zelar pela proteção (como o Ministério Público e a Defensoria Pública) têm escolhido a via judicial como uma das alternativas para forçar o Estado a cumprir suas obrigações.
Mas não apenas o Estado deixa de cumprir a sua obrigação para com a população infanto-juvenil. Fatores como a desestruturação familiar, o baixo poder aquisitivo das famílias, a proximidade dos agentes com a violência na comunidade e a falta de perspectiva para o futuro levam os adolescentes à prática de atos infracionais.
O Código Penal brasileiro tipificou, em seus artigos 136, 244, 246 e 247, os crimes de maus-tratos, abandono material, intelectual e moral, com penas de detenção e multa, aos violadores dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes.
Porém, há pouquíssimos inquéritos, denúncias ou ações penais visando responsabilizar criminalmente a conduta dolosa ou culposa de genitores e responsáveis que levam tais jovens a se colocarem em situação de risco/vulnerabilidade ou a praticarem atos infracionais.
A sociedade também é responsável por sua omissão quanto às ações para prevenção da violência e para a ressocialização do adolescente infrator. A concretização do princípio da tríplice responsabilidade (família, Estado e sociedade) é fundamental para o rompimento da cultura de violência juvenil.
Partindo-se da premissa de que a norma do art. 227 é de eficácia plena, temos de reconhecê-la, sim, como um fator a mais a limitar o campo de atuação discricionária do administrador público. Pensar de outra maneira é converter o art. 227/CF, juntamente com o Estatuto da Criança e do adolescente, em meras cartas de intenções, desvirtuando-os de seu sentido evolutivo e concreto.
O Direito da Criança e do Adolescente consagra na ordem jurídica a doutrina da proteção integral e ainda reúne, sistematiza e normatiza a proteção preconizada pelas Nações Unidas.
A proteção jurídica à criança e ao adolescente transcende a mera carta de intenções e passa a garantir seus direitos que estão objetivamente previstos, capazes de possibilitar a invocação subjetiva para cumprimento coercitivo. O novo Direito, assegura às crianças e aos adolescentes “todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, assegurando-lhes oportunidade e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade”. (Estatuto da Criança e do Adolescente, artigo 3º).
3. METODOLOGIA
Empregou-se no presente trabalho, como método de pesquisa, o dedutivo, buscando como suporte a pesquisa teórica em confronto com o estudo de casos de processos que tramitam na vara do Juizado Regional da Infância e Juventude da Comarca de Santa Maria. O procedimento utilizado foi à análise de conteúdo de decisões e pareceres de técnicos que
trabalham na rede de atendimento às crianças e adolescentes. Tais pareceres referem-se a casos em que se verificou a observância, ou inobservância, dos princípios da proteção integral e da prioridade absoluta.
4. CONCLUSÃO
A presente pesquisa trouxe a tona velhos paradigmas e preconceitos vistos pelos olhos do código de menores, e que depois de anos ainda não teve suas lembranças esquecidas pela sociedade.
Com relação à diferença entre os princípios que regem a proteção integral e a realidade, há uma grande discrepância. Sequer deveria estar em juízo casos como pedidos de medicamentos, pedido de vagas em escolas, sendo que o Estado tem o dever da proteção, e os infantes e adolescentes tem o direito garantido pela Constituição tanto á saúde como a educação, entre outros. Porém, o que acontece, é que não há distribuição de medicamentos suficientes e disponíveis para os que necessitam o que ocorre também com as vagas em escolas, com muitas solicitações chegando às luzes do judiciário, sem tê-las de fato como resolve-las sem o auxilio do judiciário.
A pesquisa também trouxe dados alarmantes em relação aos atos infracionais praticados, nota-se que no período de apenas um mês, tramitava na Vara do Juizado Regional da Infância e Juventude de Santa Maria, 203 (duzentos e três) processos por atos infracionais. É um número preocupante, pois são jovens praticando condutas contrárias às leis, afetando com isso o desenvolvimento saudável enquanto adolescente.
Os infantes, as crianças e os adolescentes não devem sofrer privações, as quais são imprescindíveis à condição peculiar de desenvolvimento. Percebe-se com estes dados que essa situação decorre da negligência da tríplice responsabilidade (família, Estado e sociedade). Quando o estado/família/sociedade deixa de cumprir com os princípios da proteção integral e da prioridade absoluta o sistema torna-se falho. A partir daí repete-se as negligências, tornando o sistema em um círculo vicioso. A sociedade parece fechar os olhos para estes problemas latentes, os quais são reais descumprimentos dos preceitos constitucionais e do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Portanto, com os dados fornecidos pela pesquisa, evidencia-se a importância do dispositivo constitucional e da lei infraconstitucional no que tange ao Princípio da Proteção Integral à Criança e ao Adolescente. Todavia, precisa-se refletir acerca da implementação destes princípios, ou seja, se realmente a tutela está sendo eficaz.
REFERÊNCIAS
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LASSALLE, Ferdinand. A Essência da Constituição, Rio de Janeiro,Editora LiberJuris Ltda.1985.