Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 954.825 - CE (2007/0119264-4)
RELATOR
: MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
RECORRENTE
: LUIS ANTÔNIO PEREIRA LOPES E OUTROS
ADVOGADO
: RICARDO PINHEIRO MAIA E OUTRO(S)
RECORRIDO
: FAZENDA NACIONAL
PROCURADOR
: CRISTIANO LINS DE MORAIS E OUTRO(S)
EMENTA
TRIBUTÁRIO. ACORDO COLETIVO FIRMADO ENTRE A BEC E
FUNCIONÁRIOS. VERBAS INDENIZATÓRIAS. INCIDÊNCIA DE IMPOSTO
DE RENDA.
1. O abono concedido aos empregados em substituição ao reajuste de salários
inadimplidos no tempo devido, não obstante fruto de reconhecimento via transação, é
correção salarial e, como tal, sofre incidência do imposto devido, tal como incidiria a
exação se realmente paga a correção no tempo devido.
2. Recurso especial improvido.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam
os Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, negar provimento
ao recurso nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Castro Meira (Presidente),
Humberto Martins, Herman Benjamin e Eliana Calmon votaram com o Sr. Ministro Relator.
Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Castro Meira.
Brasília, 9 de outubro de 2007 (data do julgamento).
MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Relator
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 954.825 - CE (2007/0119264-4)
RELATOR
: MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
RECORRENTE
: LUIS ANTÔNIO PEREIRA LOPES E OUTROS
ADVOGADO
: RICARDO PINHEIRO MAIA E OUTRO(S)
RECORRIDO
: FAZENDA NACIONAL
PROCURADOR
: CRISTIANO LINS DE MORAIS E OUTRO(S)
RELATÓRIO
O EXMO. SR. MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA:
Cuida-se de recurso especial manifestado pela LUIS ANTÔNIO PEREIRA LOPES e
OUTROS com espeque no art. 105, III, "a" e "c", da Constituição Federal, contra acórdão proferido
pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região em sede de apelação. O aresto restou assim ementado:
"TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. ACORDO COLETIVO DE TRABALHO. FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO ESTADO DO CEARÁ – BEC. VALORES RECEBIDOS A TÍTULO DE REAJUSTES SALARIAIS. NATUREZA NÃO INDENIZATÓRIA. CARÁTER REMUNERATÓRIO. AQUISIÇÃO DE DISPONIBILIDADE ECONÔMICA. INCIDÊNCIA DO TRIBUTO. CARÁTER INDENIZATÓRIO DAS DEMAIS VERBAS. NÃO INCIDÊNCIA DO IR.
- Afigura-se perfeitamente cabível a via mandamental para o fim de afastar os efeitos, no caso específico, do ato iminente e concreto, tido por ilegal, do Sr. Delegado da Receita Federal no Ceará e do Sr. Presidente do Banco do Estado do Ceará (BEC), com o fito de não se sujeitarem os impetrantes à cobrança do Imposto de Renda sobre os valores a serem pagos aos requerentes, a título de verbas tidas como indenizatórias, questão idêntica a outro processo que já tive a oportunidade de apreciar (AMS 92604, dentre outros).
- Os valores recebidos a título de reajuste salarial em decorrência de acordo coletivo, firmado entre o Banco do Estado do Ceará e seus funcionários, têm natureza salarial, constituindo-se em fato gerador do imposto de renda.
- No que tange aos pagamentos relativos à supressão de direitos, a saber: licença-prêmio, auxílio refeição, anuênio, entre outros, cuidam-se de verdadeira indenização, não configurando acréscimo patrimonial, porquanto apresentam caráter meramente reparatório, não se sujeitando, por conseguinte, à incidência do Imposto de Renda.
- Preliminar rejeitada.
- Apelação e remessa obrigatória parcialmente providas" (fl. 298).
Nas razões recursais, os recorrentes alegam que o acórdão recorrido ofendeu o artigo
6º, VII, alínea "b", da Lei n. 7.713/88 ao declarar a incidência do imposto de renda sobre as verbas
percebidas em decorrência de acordo coletivo entre o Banco do Estado do Ceará e o respectivo
sindicato.
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dissenso pretoriano.
Diante do exposto, requerem a reforma de:
"(...) todos os termos o Acórdão, para determinar a não incidência do Imposto de Renda sobre as verbas indenização por supressão de direitos trabalhista acordado em convenções coletivas, reconhecendo assim os direitos dos recorrentes, dando provimento ao Recurso Especial, realizando se assim o fizer, confirmação da sentença e JUSTIÇA" (SIC, grifo no original, fls. 315/316).
As contra-razões foram apresentadas às fls. 323/332.
O apelo foi admitido às fls. 339/340.
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RECURSO ESPECIAL Nº 954.825 - CE (2007/0119264-4)
EMENTA
TRIBUTÁRIO. ACORDO COLETIVO FIRMADO ENTRE A BEC E
FUNCIONÁRIOS. VERBAS INDENIZATÓRIAS. INCIDÊNCIA DE IMPOSTO
DE RENDA.
1. O abono concedido aos empregados em substituição ao reajuste de salários
inadimplidos no tempo devido, não obstante fruto de reconhecimento via transação, é
correção salarial e, como tal, sofre incidência do imposto devido, tal como incidiria a
exação se realmente paga a correção no tempo devido.
2. Recurso especial improvido.
VOTO
O EXMO. SR. MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA (Relator):
Não assiste razão aos recorrentes. O posicionamento adotado no aresto impugnado
guarda perfeita sintonia com a orientação jurisprudencial desta Corte.
Na hipótese dos autos, a percepção dos valores sobre os quais se discute a incidência
de imposto de renda decorreu de acordo coletivo celebrado com o Banco do Estado Ceará, por meio
do qual estipulou-se que os índices de reajuste da Fenaban relativos aos períodos 1996/1997,
1997/1998, 1998/1999 e 1999/2000 não mais seriam incorporados aos salários dos funcionários do
Banco do Estado do Ceará. Em compensação, os empregados receberiam um valor fixo, que não se
incorporaria a seus rendimentos e com os quais não teria relação alguma.
A questio juris refere-se à incidência ou não de imposto de renda sobre essas verbas
recebidas do BEC em virtude de acordo coletivo. Impõe-se, assim, assentar se, in casu, as verbas
mencionadas possuem natureza salarial ou indenizatória.
Com efeito, a jurisprudência dessa Corte tem se manifestado no sentido de que o abono
concedido aos empregados em substituição ao reajuste de salários inadimplidos no tempo devido, não
obstante fruto de reconhecimento via transação, é correção salarial e, como tal, sofre incidência do
imposto devido, tal como incidiria a exação, se realmente paga a correção no tempo devido.
Caso as verbas recebidas pelos recorrentes fossem de natureza indenizatória, aí sim
operar-se-ia a isenção do IR, porquanto a indenização não traduz a idéia de "acréscimo patrimonial"
exigida pelo art. 43 do CTN.
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salário, visando à recomposição da perda do poder aquisitivo da moeda em decorrência da inflação.
Destarte, incide imposto de renda, nos termos do art. 43, do CTN, sobre a atualização monetária dos
proventos provenientes do trabalho assalariado. Essa correção monetária integra-se ao salário,
formando o montante da base de cálculo da exação.
Nesse sentido, confiram-se os seguintes precedentes:
"TRIBUTÁRIO. ACORDO COLETIVO FIRMADO ENTRE A CABEC E FUNCIONÁRIOS DA ATIVA. VERBAS INDENIZATÓRIAS. INCIDÊNCIA DO IMPOSTO DE RENDA.
1. O imposto sobre a renda tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica da renda (produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos) e de proventos de qualquer natureza (art. 43, do CTN).
2. As verbas recebidas pelo trabalhador a título de indenização não podem ser tributadas como se renda fossem, porquanto não traduzem a idéia de 'acréscimo patrimonial' exigida pelo art. 43, do CTN.
3. O pagamento, sem incorporação, em uma única vez, das parcelas em atraso, na forma de 'abono' concedido aos empregados em substituição ao reajuste de salários inadimplidos no tempo devido, não obstante fruto de reconhecimento via transação, no caso a quo, de convenções coletivas realizadas entre 1996 e 2000, é correção salarial e, como tal, incide o imposto devido, tal como incidiria a exação, se realmente paga a correção no tempo devido. Abono salarial com esse teor é, em essência, salário corrigido, sendo indiferente que a atualização se opere por força de decisão judicial ou de transação.
4. Interpretação econômica que se impõe, uma vez que a realidade econômica há de prevalecer sobre a simples forma jurídica.
5. Recurso especial provido." (REsp n.
700338/CE
, relator Luiz Fux, Primeira Turma, DJ de13.6.2005
.)"AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. IMPOSTO DE RENDA. PESSOA FÍSICA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES.
O conceito de acréscimos patrimoniais abarca salários, abonos e vantagens. A correção monetária não é um plus, mas, mera cláusula de readaptação do valor da moeda corroída pela inflação, e, como tal, no caso em exame, integra-se aos proventos, para formar o quantum da base de cálculo do imposto.
Agravo regimental a que se nega provimento. Decisão unânime." (REsp n. 318.690/CE, relator Min. Franciulli Netto, DJ de 25/3/2002.)
"TRIBUTÁRIO – IMPOSTO DE RENDA – CORREÇÃO MONETÁRIA INCIDENTE SOBRE SALÁRIOS ATRASADOS.
1. Incide o imposto de renda sobre verbas salariais ou de provimentos pagos a destempo e por isso mesmo com a atualização. 2. Correção monetária é expressão atualizada da moeda e, como tal, havendo a incidência do Imposto de Renda sobre o salário, é natural que se faça o cálculo sobre a base atualizada. 3. Recurso especial
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Sendo assim, imperioso o reconhecimento do caráter eminentemente salarial das
mencionadas verbas decorrentes de acordo coletivo, devendo, pois, incidir a referida exação.
Diante dessas considerações, conheço do recurso especial e nego-lhe provimento.
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CERTIDÃO DE JULGAMENTOSEGUNDA TURMA
Número Registro: 2007/0119264-4 REsp 954825 / CE Número Origem: 200181000007316
PAUTA: 09/10/2007 JULGADO: 09/10/2007
Relator
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro CASTRO MEIRA Subprocurador-Geral da República Exmo. Sr. Dr. ALCIDES MARTINS Secretária
Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : LUIS ANTÔNIO PEREIRA LOPES E OUTROS
ADVOGADO : RICARDO PINHEIRO MAIA E OUTRO(S)
RECORRIDO : FAZENDA NACIONAL
PROCURADOR : CRISTIANO LINS DE MORAIS E OUTRO(S)
ASSUNTO: Tributário - Imposto de Renda - Pessoa Física - Verbas Indenizatórias CERTIDÃO
Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"A Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)."
Os Srs. Ministros Castro Meira, Humberto Martins, Herman Benjamin e Eliana Calmon votaram com o Sr. Ministro Relator.
Brasília, 09 de outubro de 2007
VALÉRIA ALVIM DUSI Secretária