Budadarma
O Caminho para a Iluminação
Centro Numata
Traduções e Pesquisas Budistas
2003
Tradução para o português
CEBB – Centro de Estudos Budistas Bodisatva Marcelo Nicolodi
“Frequentemente me perguntam se os ensinamentos e as técnicas do budismo ainda são relevantes nos tempos atuais. Como todas as religiões, o budismo se volta aos problemas humanos básicos. Enquanto continuarmos experimentando os sofrimentos humanos básicos do nascimento, doença, velhice e morte, não há como questionar se ele continua relevante ou não. Portanto, eu dou as boas-vindas a esta nova edição em inglês de 'Budadarma', que apresenta uma antologia clara e concisa dos ensinamentos do Buda.”
Sua Santidade, o XIV Dalai Lama
“Esta nova edição de 'Budadarma' é uma compilação excelente dos ensinamentos, discursos e ações do Buda Sakyamuni, extraídos de forma não-sectária de fontes Theravada e Mahayana. A leitura deste livro é uma boa introdução ao mundo de um grande ser iluminado e de seus seguidores. É uma experiência de encontro com o Buda, ouvindo o seu Darma e conectando-se com a sua comunidade da Sanga. Eu o recomendo com alegria.”
Professor Robert Thurman, Je Tsongkhapa Professor de Estudos Indotibetanos, Universidade de Colúmbia
“O mundo dos leitores da língua inglesa deve um profundo respeito e gratidão ao falecido Dr. Yehan Numata. É admirável que ele tenha dedicado uma parcela considerável dos lucros de suas companhias à nobre causa da propagação dos ensinamentos do Buda. Além de seu grandioso projeto de tradução e publicação do Tripitaka Taisho em inglês, este 'Budadarma' é uma parte importante de seu legado generoso. Este livro é uma antologia
excelente dos ensinamentos budistas que será benéfica para todos que desejem aprofundar sua compreensão.”
Samuel Bercholz, Fundador e Editor-Chefe, Shambala Publications
“Devido aos votos generosos do Reverendo Yehan Numata, a vida e os ensinamentos do Buda Sakyamuni estão sendo disseminados a todos aqueles que buscam o estado desperto. Ao ler este volume, que se baseia em fontes tanto da tradição Theravada quanto da Mahayana, você se verá em meio à própria assembleia viva do Buda histórico. Assim, poderá reconhecer em sua vida a humanidade essencial daqueles que praticam este Darma sutil. Este volume é uma introdução excelente ao Darma do Buda.”
Wendy Egyoku Nakao, Centro Zen de Los Angeles
“Uma apresentação bastante necessária e ampla dos ensinamentos básicos do budismo, incluindo importantes escrituras Theravada e Mahayana. Este livro está bem organizado e é fácil de ler, devendo atrair aqueles que buscam adquirir uma visão geral da tradição budista. Talvez seja o que há de mais próximo à ideia de uma Bíblia Budista, atualmente.”
Dr. Taitetsu Unni, Professor de Jill Kerr Conway Professor Emérito de Religião, Smith College
“Esta coleção de textos denominada 'Budadarma' apresenta apenas isto: a vida e os verdadeiros ensinamentos do Buda histórico, Sakyamuni. A maior parte do texto cobre os anos em que Sakyamuni ensinou. O relato que se segue é inspirador, em
sua descrição bastante humana dos mais sinceros (e às vezes céticos) leigos, bhikshus, bhikshunis como pessoas bastante reais, de todos os estilos de vida. O próprio Grande Professor é estável, profundo, paciente, doce, e em algumas situações, irritado por seus complicados seguidores. Esta é verdadeiramente a fonte histórica do budismo. Ele nos leva às raízes, que são perenes e incrivelmente profundas, e ainda mais fortes por sua familiar idiossincrasia. Esta é a nossa própria história, a ser seguida e na qual devemos mergulhar, em um texto claro e disponível.”
Gary Snyder, Escritor Vencedor do Prêmio Pulitzer
“Extraída das vastas fontes escriturais do budismo Theravada e Mahayana, esta ampla antologia oferece seleções representativas de passagens de vários tópicos e aspectos do budismo. Esta rica e variada tradição produziu histórias, mitos, lendas, parábolas, metáforas e ensinamentos através dos quais o estudante do budismo poderá experimentar o sabor do Darma e seu espírito de compaixão e sabedoria. Este volume é indispensável para o estudo da visão budista e de seu modo de vida. O glossário, o índice e a lista de fontes textuais serão de grande ajuda ao navegar por este texto.”
Dr. Alfred Bloom, Professor Emérito Departamento de Religião - Universidade do Havaí
Budadarma
Segunda Edição Revisada
Centro Numata
Traduções e Pesquisas Budistas
Conteúdo
Conteúdo ... 6 PREFÁCIO ... 11 PRÓLOGO ... 13 AGRADECIMENTOS ... 19 GATHA ... 23 LIVRO I ... 26 Introdução... 26Capítulo I - A BUSCA PELO CAMINHO ... 30
1. Uma Encarnação Anterior do Honrado pelo Mundo ... 30
2. O Nascimento do Buda... 31
3. Noivado com uma Princesa ... 35
4. Viajando Além dos Quatro Portões ... 37
5. Abandonando o Lar para Buscar o Caminho ... 42
6. Práticas Ascéticas ... 50
Capítulo II - ILUMINAÇÃO ... 54
1. A Conquista de Mara ... 54
2. Versos em Louvor à Iluminação. ... 64
3. A Súplica de Brahma ... 74
Capítulo III - A DISSEMINAÇÃO DO DARMA ... 79
1. Girando a Roda do Darma ... 79
2. O Abandono do Lar por Yasa. ... 85
3. A Conversão dos Três Kassapas ... 89
4. O Monastério do Bosque de Bambus ... 93
5. Sariputta e Moggallana ... 96
6. O Ensinamento no Monastério do Bosque de Bambus ... 101
Capítulo IV - SAKYAMUNI EM SUA TERRA NATAL ... 105
2. Os Versos dos Seres Celestiais ... 108
3. O Honrado pelo Mundo Retorna à Cidade ... 114
4. Yasodhara ... 122
5. Nanda e Rahula ... 126
6. Anathapindika, o Homem Rico ... 131
LIVRO II ... 139
Introdução... 139
Capítulo I - NO BOSQUE JETA ... 144
1. O Sermão no Monastério de Anathapindika ... 144
2. Pasenadi ... 157
3. Instruções a Nanda ... 162
4. O Diálogo dos Bodisatvas ... 164
Capítulo II - RAJAGAHA ... 178
1. Uggasena e Talaputa ... 178
2. Pancasikha ... 183
3. A Fome em Vesali... 186
4. O Sermão de Sariputta ... 187
5. A Disputa pela Água de Irrigação ... 190
6. O Estabelecimento da Sanga das Monjas ... 195
7. As Instruções do Buda no Jardim Posterior ... 199
Capítulo III - AS OITO CONSCIÊNCIAS ... 203
2. O Reino da Iluminação ... 205
3. As Oito Consciências ... 209
4. Duas Visões Deturpadas ... 215
5. Nenhuma Palavra Pronunciada ... 222
Capítulo IV - O CRESCIMENTO DA SANGA ... 233
1. A Relação entre o Professor e os Discípulos ... 233
2. Observância de Encontros Regulares e da Estação Chuvosa ... 238
3. O Último Dia do Retiro... 240
4. Poderes ... 243
5. O Rugido do Leão ... 246
6. O Sermão no Céu de Tavatimsa ... 253
7. Os Doze Elos da Originação Dependente ... 261
8. Cinca ... 267
9. Anuruddha ... 274
10. A Cidade de Kosambi ... 278
LIVRO III... 290
Introdução... 290
Capítulo I - O SEGUIDOR IDEAL... 293
1. Ghatikara ... 293
2. A Parábola da Cobra e a Parábola da Balsa ... 297
3. Matangi ... 304
4. A Origem Externa dos Obscurecimentos ... 307
5. As Circunstâncias que Levam à Iluminação ... 323
Capítulo II - OBSCURECIMENTOS ... 332
1. Os Três Venenos ... 332
2. O Pico dos Abutres ... 338
3. Instruções no Reino de Vajii ... 341
4. A Dor do Desejo Ardente ... 354
Capítulo III - A CONDUTA DE UM BODISATVA ... 366
1. O Discurso de Sariputta sobre o Darma ... 366
2. A Parábola da Serra... 372
3. Hatthaka, o Homem Rico ... 377
4. Homenagem às Seis Direções ... 380
5. Punna e Sariputta ... 386
6. O Honrado pelo Mundo e Vários Deuses ... 391
7. Sudhana ... 395
8. Um Brâmane em Prática Ascética ... 406
9. Ratridevata ... 423
10. Os Bodisatvas Maitreya e Samantabhadra ... 428
LIVRO IV ... 439
Introdução... 439
Capítulo I - A ESSÊNCIA DA MENTE DO BUDA ... 444
1. A Sabedoria do Buda ... 444
2. Diálogos com Professores Não-Budistas... 452
3. O Monarca Universal ... 463
4. A Prática de Samantabhadra ... 471
5. As Ações do Corpo e da Mente ... 491
Capítulo II - A SABEDORIA ABSOLUTA ... 506
1. Vacuidade ... 506
2. A Iluminação Livre de Fixações ... 510
4. A Busca pelo Caminho do Bodisatva Sadaprarudita ... 514
Capítulo III - A TRANSFERÊNCIA DE MÉRITOS ... 534
1. Os Três Tipos de Professores ... 534
2. Quatro Perigos ... 546
3. O Caminho de um Soberano... 558
4. A Transferência de Méritos ... 563
5. As Cinco Virtudes do Buda ... 574
Capítulo IV - OS ESTÁGIOS DA ILUMINAÇÃO... 582
1. Rahula ... 582 2. Os Dez Estágios ... 584 3. Vimalakirti ... 595 LIVRO V ... 632 Introdução... 632 Capítulo I - EDUCAÇÃO ... 636
1. O Professor Correto e o Falso Professor ... 636
2. Os Demônios nas Planícies Selvagens ... 642
3. Linhagem Familiar ... 647
4. A Questão do Eu... 656
5. O Príncipe de Cinco Armas ... 671
6. Ratthapala ... 682
Capítulo II - ORGANIZAÇÃO DA ORDEM ... 689
1. Os Dez Preceitos Principais e os Quarenta e Oito Preceitos Menores de um Bodisatva ... 689
2. Desarmonia na Ordem ... 706
3. Lições da Jornada ... 721
4. O Cabelo Branco ... 733
Capítulo III - SABEDORIA E IGNORÂNCIA ... 738
1. Nanda e Rahula ... 738
2. Os Ignorantes e os Sábios ... 742
3. Angulimala, o Transgressor ... 747
4. A Origem da Sociedade ... 756
5. As Duas Rodas de Uma Carruagem ... 762
6. O Emaranhado da Natureza Humana ... 767
Capítulo IV - AS QUATRO NOBRES VERDADES ... 773
1. Libertando-se dos Obscurecimentos ... 773
2. Maha-Kaccayana ... 778
3. O Assento das Quatro Nobres Verdades ... 785
4. O Débito com os Pais ... 789
5. A Mente e o Mundo ... 796
LIVRO VI ... 811
Introdução... 811
Capítulo I - CONHECENDO O DARMA ... 817
1. Carma ... 817
2. O Brâmane Cabeça de Cervo ... 826
3. Descartando a Cobiça, a Raiva e a Ignorância ... 832
4. O Esforço e Seu Estímulo ... 836
5. O Dhammapada ... 844
Capítulo II - O VOTO PRIMORDIAL DO BUDA ... 888
AMITAYUS E SUA SALVAÇÃO ... 888
1. O Bodisatva Dharmakara ... 888
2. O Buda da Vida Infinita ... 897
4. A Realidade da Vida e do Ensinamento ... 908
5. Vendo o Buda Amitayus ... 926
Capítulo III - O SIGNIFICADO DO TATHAGATA ... 930
1. Uma Vida de Reverência ... 930
2. Indra ... 933
3. A Isca do Caçador ... 936
4. A Rainha Srimala ... 938
5. Os Três Grandes Votos ... 942
Capítulo IV - REALIZANDO O CAMINHO ... 951
PARA A EMANCIPAÇÃO ... 951
1. Moggallana e Punna ... 951
2. Potaliya ... 955
3. Realizando o Caminho para a Emancipação ... 961
4. A Alegoria da Flecha ... 966
5. Rajakarama – O Templo do Rei ... 970
6. As Folhas na Mão ... 980
LIVRO VII ... 985
Introdução... 985
Capítulo I - O DARMA MARAVILHOSO É REVELADO ... 990
1. O Ensinamento do Veículo Único ... 990
2. A Parábola da Casa em Chamas ... 1004
3. A Mente da Fé ... 1016
4. A Realização da Iluminação pela Filha do Rei Naga ... 1031
5. A Duração da Vida do Buda ... 1043
6. Pensamentos ... 1059
Capítulo II - A TRAGÉDIA EM RAJAGRIHA ... 1066
1. A Deserção de Devadatta ... 1066
2. Ajatasatru Usurpa o Trono ... 1077
3. Vaidehi ... 1081
4. A Agonia de Ajatasatru ... 1093
5. O Honrado pelo Mundo Expõe o Darma... 1110
Capítulo III - DEVOÇÃO AO CAMINHO ... 1115
1. A Entrega ao Caminho ... 1115
2. O Príncipe Bodhi ... 1128
3. Citta, o Homem Rico ... 1131
4. Parábolas ... 1138
5. O Formigueiro ... 1167
Capítulo IV - A ESTUPA ... 1171
1. A Morte de Nigantha Nataputta ... 1171
2. Vassakara ... 1177
3. Bhaddiya ... 1180
4. Os Últimos Anos do Rei Pasenadi ... 1184
5. A Queda de Kapilavatthu ... 1191
6. A Terra de Sukhavati ... 1199
LIVRO VIII ... 1206
Introdução... 1206
Capítulo I - A PROFECIA DA GRANDE PASSAGEM DO BUDA ... 1212
1. Os Sete Princípios do Bem-Estar ... 1212
2. O Espelho da Verdade ... 1216
3. Amrapali, a Cortesã ... 1223
5. O Sermão do Buda Antes de Sua Morte ... 1241
Capítulo II - A LUZ DOURADA ... 1249
1. Os Três Corpos do Buda... 1249
2. A Terra do Verdadeiro Darma ... 1257
3. Oferecendo Sua Carne à Tigresa Que Morria de Fome ... 1261
4. A Mente da Iluminação, da Grande Compaixão e dos Meios Hábeis ... 1269
Capítulo III - TATHAGATA-GARBHA ... 1280
1. A Despedida ... 1280
2. A Natureza de Buda ... 1291
3. A Oferenda de Cunda ... 1316
4. Três Tipos de Pessoas Incuráveis ... 1323
5. O Preço de Meio Verso ... 1331
6. As Quatro Mentes Ilimitadas ... 1335
Capítulo IV - A GRANDE PASSAGEM ... 1343
1. O Caminho do Bodisatva ... 1343
2. O Grande Nirvana ... 1350
3. A Doença do Honrado pelo Mundo ... 1354
4. A Metáfora da Montanha do Tesouro ... 1359
5. Os Quatro Lugares Sagrados ... 1368
6. A Última Instrução ... 1382
7. A Fumaça se Eleva ... 1392
8. Fatos Posteriores à Morte do Buda ... 1402
Glossário ... 1419
Fontes Escriturais ... 1478
PALAVRAS EM PÁLI E SÂNSCRITO ... 1489
Lista de Palavras em Páli e Sânscrito ... 1491
LEITURAS SUGERIDAS ... 1501
A SOCIEDADE PARA A PROMOÇÃO DO BUDISMO ... 1507
PREFÁCIO
A mais completa e aceita edição das escrituras budistas é denominada Taisho Shinshu Daizokyo, ou Taisho Daizokyo, estudada amplamente em todo o mundo. Ela foi compilada por vários estudiosos japoneses eminentes, durante o Período Taisho (1912 – 1925), e foi publicada de 1924 a 1934. Essa edição de 100 volumes consiste em 3360 obras, com aproximadamente 12.000 fascículos. Todos os textos estão em chinês, tanto as traduções das obras originais nas línguas da Índia e da Ásia Central quanto os tratados, comentários, catálogos e outras obras de monges e estudiosos chineses ou japoneses. O Taisho Daizokyo é, resumindo, uma edição na língua chinesa do Tripitaka.
Durante o difícil trabalho de compilação desta coleção monumental, os
estudiosos japoneses liderados pelo Professor Junjiro Takakusu,
reconheceram a necessidade e a urgência da publicação de uma coleção pequena de textos selecionados do Daizokyo em japonês, para os leitores comuns do Japão, que até aquele momento não tinham à disposição um livro com os sutras budistas em japonês. Como resultado, a primeira edição do Shinyaku Bukkyo Seiten (A Nova Tradução das Escrituras Budistas), em forma condensada, foi publicada em 1925, tendo sido editada pelo Rev. Muan Kizu, representante da Bukkyo Kyokai (Associação Budista) de Nagoya, Japão. Devido à extensão e ao uso excessivo de termos técnicos na edição original de 1925, o Rev. Kizu, com a ajuda dos Professores Chizen Akanuma e Shugaku Yamabe, retirou alguns termos e passagens que poderiam não ser compreendidos prontamente pelos leitores, e publicou edições revisadas em
1929 e 1976. A extensão foi reduzida de 1626 páginas para 720, reduzindo, desta forma, o preço do livro e tornando mais fácil a sua aquisição.
A Sociedade para a Promoção do Budismo (Bukkyo Dendo Kyokai) do Japão e o Centro Numata para Traduções e Pesquisas Budistas, estabelecido de forma independente em Berkeley, Califórnia, estão envolvidos na tarefa formidável de traduzir e publicar o Taisho Daizokyo completo em inglês. Visto que esse trabalho pode levar cerca de cem anos ou mais para ser finalizado, foi decidido que uma tradução para o inglês da edição revisada em 1976 do Shinyaku Bukkyo Seiten seria uma forma rápida e desejável de oferecer aos leitores da língua inglesa uma coleção condensada das escrituras budistas. Assim, a primeira edição do Budadarma foi publicada em 1984.
Esta edição atual é uma revisão completa da edição de 1984, contendo adicionalmente uma introdução para cada uma das oito seções principais, uma lista das fontes originais para passagens selecionadas, a compilação de nomes e da terminologia sânscrita e do páli, um glossário ampliado e um índice definitivo. Para esta edição do Budadarma também foram revisadas cuidadosamente as traduções de diferentes seções realizadas por diversos ministros budistas na América, de forma a proporcionar uma imagem fiel ao texto original em japonês.
Contrariamente a outras antologias de escrituras budistas em inglês, que são organizadas de acordo com as diversas escolas ou seitas às quais os textos estão associados, o Shinyaku Bukkyo Seiten, a coleção original em japonês, foi organizado de forma aproximadamente cronológica, independente da fonte, para que os leitores possam apreciar os discursos do Buda no contexto de suas viagens pela Índia, desde o momento de sua iluminação em Bodhgaya, até sua morte 45 anos mais tarde em Kusinagara.
de 1984 de usar os nomes e termos páli e sânscritos de acordo com o texto original das passagens que foram utilizadas para fazer a tradução para o japonês. A maior parte dos textos chineses que serviram de fonte para a tradução para o japonês tiveram por fonte os textos em sânscrito.
Alguns termos que agora se encontram em uso geral nos dicionários ingleses, tais como nirvana, Darma, arhat, atman etc, foram utilizados independente da fonte. Assim como na primeira edição, os sinais diacríticos foram omitidos intencionalmente para tornar a leitura mais fácil para os leitores comuns. Uma lista de palavras páli e sânscritas com os sinais diacríticos foi disponibilizada no final do livro.
O Prólogo do Rev. Kyoshiro Tokunaga, escrito originalmente para a edição de 1984, agradece a muitos ministros budistas que fizeram suas contribuições à difícil tarefa de traduzir o Shinyaku Bukkyo Seiten para um inglês compreensível.
Esperamos que este livro seja, para muitos leitores, uma boa introdução à vida de Shakyamuni, o Buda histórico, e aos seus ensinamentos maravilhosos, o Budadarma.
Equipe de Edição Centro Numata para Traduções e Pesquisas Budistas
PRÓLOGO
Durante as últimas décadas, centenas de livros de boa qualidade sobre o budismo foram publicados em inglês e outros idiomas. Existe muito material disponível para que os leitores ocidentais desenvolvam uma visão geral do Darma do Buda. Para os estudantes com inclinação acadêmica existe
um grande número de textos originais traduzidos para diversas línguas europeias. Por que, então, publicar mais um volume? Acreditamos que temos algo único a oferecer ao público leitor, o que justifica esta publicação.
O cânone budista, como ele existe hoje, é, no mínimo, muito volumoso. Existem muitas razões para isto. O Buda teve uma longa vida. Entre o período do seu Despertar com a idade de trinta e cinco anos e o momento de sua morte aos oitenta, passaram-se quarenta e cinco anos durante os quais ele expôs continuamente o Darma. Os ensinamentos eram dirigidos não apenas a um segmento da população, mas a todos os tipos de pessoas. Dentre a sua audiência estavam aqueles de castas inferiores, jovens e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres, estudiosos e iletrados, e seus próprios discípulos, assim como os mestres e discípulos de outras tradições (havia pelo menos seis escolas filosóficas na Índia daquela época, além do budismo). O método de ensino do Buda era flexível o bastante para acomodar as necessidades espirituais de todos da forma mais efetiva.
O cânone budista é denominado Tripitaka, que significa Três 'Cestos' ou 'Recipientes', e é composto por três partes: Sutras, Vinayas e Abhidharmas. Os Sutras, significando “urdidura, trama”, e, por extensão, ‘Princípios Imutáveis’, são também chamados, às vezes, de ‘Buddhavacana’, ou ‘Palavras do Buda’. Os Vinayas são a combinação de preceitos e regras para a ordem monástica. Os Abhidharmas são os tratados ou comentários sobre os Sutras por mestres e eruditos. Na época da primeira compilação do cânone, que aconteceu vários meses após a morte do Buda, os Abhidharmas não foram incluídos. Este cânone era uma coleção de recitações simples da Buddhavacana que os discípulos principais tinham memorizado, e que todos os discípulos participantes do concílio, estimados em quinhentos, deveriam aceitar como verdadeiros e autênticos. Assim, era comum iniciar os Sutras
com a frase, “Assim eu ouvi.”
Mais tarde, no século I A.C., o primeiro Tripitaka escrito foi compilado no dialeto de Magadha. Diversas outras compilações foram realizadas nos séculos seguintes. Uma compilação mais completa foi realizada no Ceilão utilizando a língua páli. Com o passar do tempo, mais Sutras e Abhidharmas foram acrescentados. O que começou como um simples Tripitaka, gradualmente cresceu em volume, especialmente no caso da escola Mahayana. A maior parte das edições chinesas possui mais de 5000 volumes. À medida que o ensinamento se propagou pelos países asiáticos, ele encontrou expressão em línguas diferentes, tais como Wigur, Khotan, tibetano, chinês, mongol, manchuriano, coreano e japonês. No Japão, em meio a outras edições, o Taisho Daizokyo (O Cânone Taisho da Grande Compilação), que é considerado o mais completo Tripitaka Mahayana, inclui tratados de mestres chineses e japoneses e descobertas mais recentes de Tunhuang. Ele contém 11.970 fascículos.
Ao considerarmos estes fatos podemos visualizar facilmente a enorme tarefa que é a leitura e a compreensão integral de todas essas escrituras. Apenas folheá-las é quase impossível em uma única vida. Muitas tentativas foram feitas para tentar abreviar a Buddhavacana completa em um único ou uma série de volumes, tornando-a disponível para o público em geral. Entretanto, ou a maioria das tentativas foi acadêmica ou técnica demais para o leitor comum, ou então não era abrangente o suficiente para englobar toda a vastidão de ensinamentos, e não trazia o tom mais profundo e inspirador da Buddhavacana original.
Alguns anos atrás, o Bhikshu Sangharakshita escreveu um livro excelente, ‘Uma Análise do Budismo’. Como análise, ele oferece uma exposição lúcida dos diversos aspectos do Darma. No prefácio do livro o
autor escreve que seu foco principal é ver os ensinamentos como um todo, e vê-los em profundidade suficiente para ser capaz de discernir as conexões subjacentes tanto a eles mesmos quanto à vida espiritual do praticante budista. Eu acredito que esta é a postura adequada para um estudante em busca de compreensão em qualquer religião. Todas as experiências religiosas estão relacionadas no aspecto de ser neste nível profundo que é encontrado o ponto comum ou os princípios filosóficos básicos e espirituais, sobre os quais toda a estrutura dos ensinamentos se baseia.
Para explorar as profundezas do Darma do Buda é preciso experimentar o ‘sentimento’ que ele traz; e isto não será experimentado apenas lendo um compêndio ou dois. O Darma do Buda só pode ser completamente apreciado quando nos aprofundamos o bastante para discernir a ‘interconexão’. Isto significa que os materiais para leitura deveriam oferecer substância ou ‘carne’ a serem saboreados, e isto só pode ser realizado quando nos familiarizamos com as palavras originais do sábio. Por ‘original’ eu não quero dizer que os textos devem ser, necessariamente, lidos na língua original ou dialeto utilizado pelo Buda. Não temos nem mesmo certeza em qual dialeto ou dialetos ele ensinou. Entretanto, as palavras não devem ser interpretadas pelo escritor. A interpretação deve ser realizada pelo leitor. É a este propósito que este volume pretende servir.
Felizmente para nosso projeto havia um protótipo que pudemos seguir. Ele foi compilado por eruditos budistas como o Reverendo Muan Kizu, os Professores Chizen Akanuma, Shugaku Yamabe e outros da Universidade Otani de Kyoto, Japão. O livro intitulado Shinyaku Bukkyo Seiten, as Escrituras Budistas da Nova Tradução (referidas aqui como ‘Nova Tradução’ deste ponto em diante), foi a resposta a nossa busca por um volume modelo, breve o suficiente para ser disponibilizado aos leigos comuns, mas
abrangente e detalhado o bastante para que o leitor possa sentir a presença do grande ser. Nós o tomamos de forma livre para compilar esta nossa versão em inglês. Somos extremamente gratos aos citados eruditos.
Não consideramos este volume completo. Devido à magnitude do tema envolvido e ao limite de espaço, algumas partes foram tratadas de forma inadequada. Em uma rápida leitura pode-se notar que algumas partes são até mesmo contraditórias, especialmente devido às vastas diferenças entre os enfoques e interpretações Theravada e Mahayana. Mesmo dentro de cada escola existem muitas divergências, comparáveis às diferenças encontradas entre as várias denominações do cristianismo, e aquelas encontradas entre as outras religiões. Neste aspecto eu sugiro que o leitor relembre as palavras de Sangharakshita. É preciso cavar fundo o bastante para descobrir que os brotos de bambu que surgem em lugares diferentes em um bosque vêm todos da mesma raiz.
Ao enviarmos este manuscrito para a gráfica, gostaríamos de expressar nossa profunda satisfação com o Sr. Yehan Numata da Bukkyo Dendo Kyokai (Fundação para a Promoção do Budismo), por nos dar a oportunidade deste trabalho. Foi o zelo e a sinceridade deste senhor que nos motivou a realizar este projeto e nos sustentou durante o extenso período de preparação que foi necessário. Pessoalmente, eu gostaria de oferecer meus sinceros agradecimentos aos contribuintes que ofereceram cada momento livre de seus intensos deveres profissionais para preparar este material. Foram eles: os Reverendos John Doami e Masami Fujitani, o Reverendo Dr. Ronald Nakasone, os Reverendos Shojo Oi, Takashi Tsuji, Shodo Tsunoda e Tesuo Unno. Eles são pastores budistas ordenados, versados no pensamento budista, com excelente domínio das línguas inglesa e japonesa, bem como possuindo a habilidade de ler os textos chineses. Meus agradecimentos
especiais vão para o Reverendo Masami Fujitani, um linguista consumado, por verificar os termos em sânscrito e páli, e ao Dr. Ichimura pelos mapas detalhados, dos quais só pudemos utilizar um, e pelo amplo glossário, que também foi abreviado devido à falta de espaço. Sinto-me profundamente em débito com o Reverendo Tetsuo Unno pela coedição dos manuscritos e com o
Reverendo Takashi Tsuji por seus constantes conselhos. Meus
agradecimentos também aos Reverendos Ejitsu Hojo, Keizo Norimoto e Junjo Tsumura por suas palavras sempre encorajadoras, e ao Sr. e à Sra. Robert Lyon por digitar e repassar todo o manuscrito. Finalmente, sou profundamente grato aos Srs. Steve Yamamoto e Art Hayashi e a toda a equipe da MTI Graphics Inc., que produziram este volume, por seus conselhos gentis e pacientes durante os estágios finais da publicação. Concluindo, eu sinto a verdade de Pratityasamutpada e por ela sinto gratidão, sem o quê este trabalho, mesmo imperfeito, não poderia ter sido completado.
Gassho, Kyoshiro Tokunaga Editor, 1984
AGRADECIMENTOS
Este livro é uma revisão da edição de 1984 com 755 páginas de ‘Budadarma’. Um grande número de pessoas esteve envolvido na preparação do material para a Primeira Edição, e seus esforços foram reconhecidos pelo editor, o Reverendo Kyoshiro Tokunaga. Neste momento, eu quero agradecer ao Reverendo Tokunaga pelo tremendo trabalho que ele realizou compilando as traduções de oito ministros budistas e publicando uma antologia das escrituras budistas. O que é mais surpreendente é que tudo isto foi realizado mesmo diante de muitos obstáculos, dos quais o mais severo era a restrição de tempo. O livro deveria ser publicado antes de novembro de 1984, pois seria usado como um presente de comemoração na ocasião do estabelecimento do Centro Numata de Traduções e Pesquisas Budistas, em Berkeley, Califórnia. Para manter o prazo, ele teve que realizar esforços muito além das expectativas normais. Ele teve que supervisionar o trabalho de tradução realizado pelos ministros budistas, a maior parte da edição e todas as tarefas árduas necessárias no processo de desenvolvimento de um livro. Como resultado do trabalho estressante em uma idade avançada (mais de setenta anos), ele acabou arruinando sua saúde. Não posso agradecê-lo o
bastante pelos sacrifícios que realizou. Ele também estava destinado a grandes contribuições para a Segunda Edição.
Como podemos imaginar, muitas pessoas também estiveram envolvidas na produção desta Segunda Edição. Acima de todos, foi o próprio Reverendo Tokunaga que, aparentemente, ao reconhecer as limitações da Primeira Edição, sentiu-se no dever de corrigir a situação. Ele apoiou a re-edição, a tediosa tradução da seção sobre as fontes escriturais e a compilação inicial do índice. Infelizmente, entretanto, o Reverendo Tokunaga foi incapaz de ter a satisfação e o prazer de ver os resultados do seu sacrifício nesta Segunda Edição. Ele faleceu em junho de 2001.
Para este volume revisado, eu gostaria de agradecer em primeiro lugar à Sra. Kimi Hisatsune, que aceitou com alegria a enorme responsabilidade de ajudar na edição geral deste valioso trabalho. Ela é a filha mais velha do falecido Reverendo Inshu Yonemura, um pastor budista que atuou nos Estados Unidos de 1927 a 1949. A Sra. Hisatsune foi Editora Associada de “The Pacific World” de 1987 a 1991, o jornal do Instituto para Estudos Budistas, de Berkeley, Califórnia. Seu objetivo neste livro foi assegurar que a revisão respeitaria os esforços anteriores dos eminentes eruditos japoneses que compilaram a antologia original, assim como os de todos que traduziram e produziram a Primeira Edição. Dentre os novos elementos da revisão estavam as introduções aos oito capítulos do livro, uma lista de fontes escriturais, uma compilação de nomes e terminologia em páli e sânscrito, um glossário ampliado e a produção de um índice definitivo. A Sra. Hisatsune passou incontáveis horas em todos os aspectos da edição, da pesquisa e do texto das introduções para as oito seções do livro. O material introdutório trouxe uma transição mais suave e compreensão mais fácil da seção seguinte. A produção de um índice útil e abrangente também consumiu muito de sua
energia e concentração. As palavras são insuficientes para expressar minha satisfação com seus esforços dedicados. Também deve ser mencionado o papel do marido da Sra. Hisatsune, o Dr. Clarence Hisatsune, Professor Emérito de Química Física, Universidade do Estado da Pensilvânia, e Professor Adjunto de Ciência e Budismo, Instituto de Estudos Budistas, Berkeley, Califórnia. Sinto-me devedor a ele por ter lido o texto completo três vezes, revisando o manuscrito e oferecendo sugestões significativas ao editor.
Muitos outros contribuíram a esta Edição Revisada e Ampliada. Ideias valiosas e recomendações para a revisão foram feitas por Charles Niimi. Agradecimentos especiais ao Dr. Kenneth K. Inada, Professor Emérito por Serviços Especiais, SUNY, e ao Professor Emérito Dr. Francis Crook, Universidade da Califórnia em Riverside, por revisar o material introdutório para os Oito Livros e o glossário. Também sou grato ao Dr. Taitetsu Unno, Professor Emérito, Smith College, Northampton, Massachussets, por suas sugestões de melhorias em geral na qualidade do livro e ideias para o pós-publicação. Minha gratidão a Elizabeth Cook, que ajudou a criar o mapa apresentando a região das atividades evangélicas de Sakyamuni na Índia, e para Koh Nishiike pela revisão das novas seções sobre as fontes escriturais e os equivalentes páli-sânscrito. Brian Nagata também foi muito útil fazendo contatos e oferecendo apoio administrativo.
Além disso tudo, para realizar a miríade de tarefas necessárias na produção de uma ampla revisão de um livro de 750 páginas, agradeço muito pelos esforços das seguintes pessoas: Diane Ames, Brian Galloway, Marianne Dresser, Betty Jo Yamamoto, Dr. Eisho Nasu e Rev. Tetsuo Unno.
Uma menção especial deve ser feita ao fato de que também sou extremamente grato ao Reverendo Toshihide Numata, Chairman do Bukkyo Dendo Kyokai (Sociedade para a Promoção do Budismo), e a Shigeru
Yamamoto da Buddha Dharma Kyokai (Sociedade), EUA, por oferecerem generoso apoio financeiro para a produção do livro, e por seu encorajamento e paciência incansável. Eu espero que este livro seja útil aos estudantes, útil aos professores, inspirador aos praticantes budistas leigos, e interessante para os leitores em geral. Acima de tudo, tenho esperanças que os ensinamentos deste livro ajudem a promover paz e harmonia entre os povos do mundo ao fazer com que cada homem, mulher e criança que leiam este livro se tornem pessoas mais virtuosas e melhores. Esta foi a visão inspiradora do falecido Reverendo Yehan Numata, o fundador da Sociedade para a Promoção do Budismo, em 1965.
Outubro de 2001
Seishin K. Yamashita, Presidente
GATHA
No fluxo sem princípio e sem fim do tempo você encontra o Buda apenas uma vez. Portanto, livre-se de seus apegos mundanos
e receba o Darma.
Estamos todos afundando no mar do sofrimento e nossas mentes corrompidas tremem de medo. Mas o Buda, através de sua compaixão,
nos mostra o Reino da Pureza.
Em cada raio de luz
residem incontáveis budas,
Trabalhando incansavelmente por incontáveis éons para salvar todos nós.
O corpo do Buda é puro e sereno,
ele irradia luz por todo o mundo, Mas sua Verdade é silenciosa e sem forma.
O reino do Buda é incompreensível
Mas ele fala com uma certa voz
e a voz do Darma chega a todos os lugares.
E todos os seres alcançam a Iluminação.
Cada um de acordo com a sua capacidade, Mas todos os ensinamentos são apenas um.
Muitas são as alegrias do mundo,
mas nenhuma supera a alegria da pura paz. O Darma imaculado é o domínio do Buda,
de onde ele vê o mundo com visão pura.
Todos os países do mundo
ocupam espaço menor que um fio de cabelo. A compaixão do Buda é verdadeiramente
tão ampla quanto o céu aberto.
Nosso orgulho é grande como uma montanha,
mas o Buda o destrói com o poder de seus meios hábeis e sabedoria.
Ele trabalhou incansavelmente para realizar o estado búdico que dissipa a escuridão de nossa ignorância.
Realmente pura é a sabedoria do Buda.
No passado infinito
ele transcendeu o sofrimento do nascimento e da morte. Ele ensina o caminho da pureza.
O Buda é a lâmpada da sabedoria.
Ah, nascimento, velhice, doença e morte,
miséria e sofrimentos caem pesadamente sobre o coração humano.
Mas, ao ver apenas uma vez o Buda,
sua mente imediatamente entra no Reino da Pureza.
Todos os incontáveis mundos do Buda
estão preenchidos por suas profundas virtudes. Aqui se reúnem numerosos e imaculados filhos do Buda,
sempre para ouvir a voz do Darma. O Buda é elevado e exaltado,
mas ele também reside em cada partícula de poeira.
Ele nos ensina numerosas práticas
e usa meios além de nossa compreensão
Para conduzir todos os seus filhos ao Reino da Pureza.
Ah, o mundo puro da iluminação, o oceano de virtude,
todos os seres abençoados pelas circunstâncias positivas para ouvir o Darma
fazem votos de seguir o caminho
LIVRO I
Introdução
O livro I inicia com a vida lendária do Buda, desde o momento de seu nascimento, e termina com o estabelecimento do primeiro monastério por Anathapindika para o Buda e seus discípulos, no bosque Jetavana, em Savatthi (Sct. Sravasti), a capital do clã Kosala. Essa antiga cidade foi identificada como as modernas cidades gêmeas de Sahet-Mahet do distrito de Gonda, na margem sul do rio Rapti.
Inspirados pelas fabulosas histórias dos deuses e seres celestiais do panteão hindu narradas desde tempos imemoriais na Índia antiga, os primeiros escribas budistas ornamentaram a história da vida de Gotama (Sct. Gautama) Buda com eventos fictícios e sobrenaturais, entremeados por fatos e lugares históricos, para honrar este grande professor espiritual. Assim, o primeiro capítulo inicia com uma vida anterior do Buda como Sumedha, que fez o voto ao Buda Dipankara de salvar os seres humanos das delusões que os fazem sofrer. Seu carma positivo trouxe-lhe um renascimento no reino celestial. Mais tarde, ele desceu deste reino celestial para entrar no útero da rainha Maya. Após seu nascimento, o rei Suddhodana tentou impedir o príncipe de se tornar um monge, conforme profetizado, e circundou-o com todos os tipos de prazeres e luxos em uma tentativa de protegê-lo de
testemunhar os sofrimentos da vida. A lenda dos Quatro Portões simboliza as preocupações do jovem príncipe com a velhice, doença e morte, que ele acaba descobrindo. O quarto portão representa a decisão que ele tomou de deixar o palácio em busca do caminho que pudesse livrá-lo das inevitáveis misérias da vida.
Apesar dos contos fantásticos, a veracidade histórica da vida de Gotama pode ser encontrada não somente em traços físicos descobertos por arqueólogos, mas também nos registros escritos de não-budistas contemporâneos à época dos primeiros registros budistas. Dois monges chineses que foram à Índia para estudar ou coletar cópias das escrituras budistas (Fa-Hsien no quinto século D.C. e Hsuan-Tseng no sétimo século D.C.) também descreveram em detalhes os lugares sagrados relacionados à vida do Buda que eles visitaram.
Gotama (nome de família do Buda histórico) nasceu na metade do sexto século A.C. (a data exata é desconhecida), no bosque de Lumbini, localizado entre Kapilavatthu e Devadaha, o local do nascimento de sua mãe, a rainha Maya, do clã Koliya. Apesar de a vegetação original ter desaparecido completamente da área, as vilas da época de seu nascimento eram separadas por densas florestas que se estendiam do rio Ganges até as montanhas do Himalaya ao norte das planícies. O local em Lumbini, no Nepal, próximo à fronteira indiana, é marcado por uma coluna de pedra erigida em 249 A.C. pelo rei Asoka, o rei do império de Magadha que abrangia aproximadamente todo o território da Índia atual.
De acordo com a tradição cingalesa (Sri Lanka), a coroação de Asoka aconteceu 218 anos após a morte do Buda. Esta data é de grande importância para os eruditos estimarem a cronologia dos regentes de Magadha e outras figuras contemporâneas à época do Buda. Segundo a discussão sobre este
ponto crucial em ‘A Idade da Unidade Imperial’, volume 2 de ‘A História e a Cultura do Povo Indiano’, editado por R.C. Majumdar (Bombaim: Bharatiya Vidya Bhavan, 2ª ed., 1953) os cingaleses fixam a data da morte do Buda em 544 A.C.; os chineses a colocam em 486 A.C., que foi determinada pela sua prática de gravar um ponto a cada ano após a morte do Buda. Uma vez que a data da coroação de Asoka pode ser determinada como 269 A.C., ‘com um grau tolerável de certeza’, 218 anos antes desta data seria o ano de 487 A.C. Assim, a fonte acima citada declara que a maioria dos eruditos fixou a data da morte do Buda com apenas alguns anos de diferença em relação a esta data. A maior parte dos eruditos determinou as datas da vida do Buda como sendo 563 – 483 A.C. Entretanto, os leitores devem estar conscientes de que não existem provas arqueológicas ou documentais para embasar estas datas, e assim os eruditos tiveram que escolher entre várias datas históricas disponíveis para calcular a cronologia provável da vida do Buda.
O local da iluminação do Buda em Bodhgaya é marcado por uma grande árvore Bodhi (figueira sagrada, ficus religiosa) e logo ao lado dela se encontra o Templo Maha Bodhi com sua enorme torre piramidal. Não há evidência direta que permita fixar a data exata ou provável da construção deste templo. Diversas tradições atribuem seu estabelecimento a Asoka, mas o peregrino chinês Fa-hsien visitou Bodhgaya em 409 D.C. e não registrou nada sobre esta marcante estrutura ao lado da árvore Bodhi. Outro monge chinês, Hsuan-tsang, visitou o local em 637 D.C. e descreveu um templo de 160 pés de altura (53 m), tendo ouvido a história de que um brâmane o construiu ao receber um conselho do deus Shiva. Em outras palavras, não é sabido quem ordenou a sua construção, mas parece ser provável que ele tenha sido construído no século VI, antes da visita de Hsuan-tsang. A descrição física registrada em detalhes por Hsuan-tsang corresponde
aproximadamente ao templo atual.
Bodhgaya está situada seis milhas ao sul da moderna Gaya, no estado de Bihar, e está a cerca de 70 milhas (112 quilômetros) ao sul de Patna, a capital do atual estado de Bihar, Índia. O rio Neranjara (Sct. Nairanjana) no qual o Buda se banhou após seis anos de práticas ascéticas, pouco antes de sua iluminação, está localizado a cerca de 200 jardas (182 m) do local da árvore Bodhi.
O capítulo 3 apresenta ao leitor o Primeiro Sermão do Buda que foi proferido aos seus companheiros anteriores que tinham praticado austeridades com ele, mas que o abandonaram quando ele parou com as práticas ascéticas e aceitou a comida da mulher Sujata. Os cinco ascetas se tornaram seus discípulos após ouvirem sua doutrina das Quatro Nobres Verdades e do Caminho do Meio para a liberação espiritual, que é o ensinamento básico do Iluminado.
LIVRO I
Capítulo I - A BUSCA PELO CAMINHO
1. Uma Encarnação Anterior do Honrado pelo Mundo
Num passado muito distante, o asceta Sumedha lamentava que as pessoas estavam destinadas a vidas sem fim de sofrimento neste mundo. Para liberar-se deste destino, Sumedha realizou ações humanitárias livres do egoísmo. Suportando pacientemente as dificuldades, ele praticou o caminho com devoção unifocada. Naquela época o Buda Dipankara se manifestou neste mundo. Ele expôs o Darma, apontou o caminho e trabalhou para salvar as pessoas. Certa vez, soube-se que este Buda visitaria a vila de Rammaka. O povo da vila se reuniu, decorou os beirais de suas casas, e consertou as estradas colocando areia nas poças cheias de água. Nesse momento, Sumedha se juntou ao povo desta vila, observando suas atividades, e disse: “Mesmo ouvir o nome de um buda é difícil; que boa fortuna ter um buda manifestando-se diante de nossos olhos aqui e agora!” Tomado pela alegria e bastante motivado, Sumedha se juntou a eles e lançou-se à tarefa de consertar as estradas. Mas, antes de eles terminarem os reparos, o Buda, acompanhado por um grande número de discípulos, chegou à vila. Sumedha achou que esse era o momento para fazer uma oferenda ao Buda. Ele soltou seus cabelos, deitou-se no chão lamacento, e disse: “Honrado pelo Mundo, para minha
felicidade e benefício eterno, por favor não pise na lama, mas caminhe com seus discípulos por cima de minhas costas.” Após dirigir-se ao Buda com estas palavras, Sumedha fez o voto: “Assim como o Buda Dipankara, eu também faço o voto de eliminar todos os meus obscurecimentos; após alcançar a iluminação, irei salvar todos os seres do oceano da delusão.”
O Buda estava próximo à cabeça prostrada de Sumedha, olhou para ele, percebendo o voto na mente de Sumedha, e disse: “Sumedha, num futuro distante você irá, sem dúvidas, tornar-se o Buda Shakyamuni.” Dipankara louvou a aspiração de Sumedha, e então partiu.
2. O Nascimento do Buda
(1) Daquele momento em diante, Sumedha praticou gradualmente o caminho dos budas, e logo ele foi elevado à condição que conduz ao estado búdico. Ele renasceu no céu de Tushita e tornou-se um bodisatva.
O bodisatva residia em uma terra com árvores asoka e flores de lótus e mandarava desabrochando, onde papagaios, pavões e kalavinkas entoavam suas canções. Circundado por música oferecida por donzelas celestiais, ele subiu no Trono do Leão na Grande Sala do Verdadeiro Darma, e para o benefício de uma hoste de seres divinos, ele expôs o ensinamento.
Certo dia, em uma reunião, a música dos seres divinos produziu naturalmente uma canção: “Ó Arhat, éons atrás, sob o Buda Dipankara, você alcançou a iluminação dos budas.
“Você completou as práticas e está tomado pela sabedoria.
um longo tempo, rapidamente desça ao mundo e dê-lhes água.
“Onde o fogo dos obscurecimentos queima furiosamente, emane uma nuvem de compaixão que faça com que a chuva do Darma caia.
“Destrua os estratagemas dos demônios e seus ensinamentos falsos, revele o caminho dos bodisatvas e salve as pessoas do mundo.”
O bodisatva ouviu esta canção, e, percebendo que deveria realizar uma grande missão, fez o voto de descer ao mundo dos homens. A hoste de seres divinos elevou as suas vozes em regozijo e gritou: “Agora o Buda surgirá no mundo dos humanos.” O bodisatva analisou numerosos mundos humanos, e desejando nascer em um lar pertencente a um clã nobre, ele escolheu a família Gotama, do clã Sakya.
O rei do clã Sakya, o rei Suddhodana, realizava constantemente ações virtuosas e governava seu povo de forma magnânima. Sua consorte, a rainha Maya, possuía uma bela aparência e seu coração era puro. Era hábil em diversas artes e possuía todos os méritos necessários para se tornar a mãe de um buda.
(2) Então, o bodisatva expôs os ensinamentos para o benefício da hoste de seres divinos: “Todos vocês, primeiramente fortaleçam sua fé, venerem os ensinamentos, sustentem o Buda, o Darma e a Sanga em suas mentes, e sigam o caminho dos sábios. Sabendo que o mundo é impermanente e cheio de sofrimentos, repousem na mente livre de identidades. Com a mente pacífica, não gerem pensamentos de cobiça. Incessantemente absortos em meditação, atinjam a sabedoria; através dos meios hábeis, guiem aquelas pessoas que estão encobertas pela escuridão da ignorância.
“Até mesmo os maravilhosos ornamentos do mundo celestial caem nas terras do sofrimento quando a boa fortuna que os produziu se exaure.
Mesmo a cobiça é pateticamente volátil. Tudo é tão vazio quanto um sonho. A cobiça não será nunca saciada; é como estar morrendo de sede, e então beber água salgada.
“Portanto, movendo-se com urgência, alcancem o êxtase do não-criado. Se vocês atingirem a sabedoria transcendente alcançarão a satisfação.
“Estudem os princípios das coisas, não se apeguem às palavras. Ajam de acordo com suas palavras, e falem de acordo com suas ações.
“Sempre estejam conscientes de suas próprias negatividades, e não fiquem olhando para as falhas dos outros. Sem realizar suas próprias ações, vocês não receberão os frutos das ações realizadas pelos outros.” O bodisatva instruiu a hoste de seres divinos com estas palavras.
Quando ele estava pronto para descer do reino celestial, incontáveis seres divinos daquele mundo se reuniram no palácio do céu de Tushita, e fizeram oferendas de música ao bodisatva. Naquele momento, do corpo do bodisatva irradiou luz, que brilhou nos grandiosos três mil mundos, e dissipou a escuridão. Os céus e a terra tremeram, e a luz do sol e da lua perderam seu poder. O povo foi preenchido por alegria, e se tornaram tão amorosos uns com os outros como se fossem pais e filhos. Os seres celestiais cantaram:
“Por um tempo incomensurável ele dilacerou sua carne e pulverizou seus ossos.
Como recompensa para sua prática completa, o bodisatva atinge um corpo que não pode ser movido.
Recebendo o elmo da compaixão ele dissipa o mal perpetrado pelas negatividades. Possuindo compaixão por todos os seres, o bodisatva agora se manifesta no mundo.
Brilhando com a luz da sabedoria, ele desperta todos aqueles que estão adormecidos.
Como um grande rei dos grandiosos mil mundos, ele surge no mundo como o sol.”
(3) Nesse momento o bodisatva assumiu a forma de um enorme elefante branco com seis presas e desceu do céu de Tushita. Ele passou sob o braço direito da rainha Maya e entrou em seu útero, enquanto ela dormia pacificamente. O palácio foi preenchido por alegria e paz. Nuvens auspiciosas moviam-se pelo céu e envolveram os telhados das imponentes torres.
Certo dia, no último mês de sua gravidez, a rainha decidiu passar um dia de primavera no jardim florido. Tendo recebido a permissão do rei e acompanhada por um séquito de damas de companhia, ela foi levada até o bosque de Lumbini. As árvores estavam cobertas por belas flores que emanavam fragrâncias agradáveis; o gramado de um verde profundo era como as penas da cauda de um pavão, e dançava como fina e macia seda tocada pelo vento. A rainha se pôs a passear prazerosamente; ela se apoiou em um galho de uma árvore asoka que se inclinava devido ao peso das flores. Naquele instante o bodisatva nasceu, repentinamente, porém tranquilamente. Imediatamente após o nascimento, ele deu sete passos em cada uma das quatro direções e declarou: “No céu acima e na terra abaixo, eu sou o mais honrado. Irei dissipar o sofrimento que envolve o mundo.”
Os seres divinos que residem no espaço louvaram as virtudes da mãe, a rainha Maya. O rei Naga fez chover água fria e morna para banhar o corpo do bodisatva. A grande terra tremeu e se agitou com alegria. Logo depois, a criança foi recebida pela rainha, e como tudo havia acontecido sem
dificuldades ele foi chamado de Siddhattha (Aquele que Alcança Suas Metas). Sete dias após seu nascimento, sua mãe, a rainha Maya, partiu deste mundo e renasceu no céu de Tavatimsa, e sua irmã mais jovem Mahaprajapati assumiu o papel de uma amorosa madrasta para o príncipe.
Naquela época o sábio Asita, que vivia nas montanhas próximas à cidade de Kapilavatthu, estava alarmado com os sinais auspiciosos que acompanharam o nascimento do príncipe. Ele visitou o palácio real, levando consigo o seu sobrinho, uma criança de nome Narada. Asita embalou o príncipe com reverência e olhou para ele por um longo tempo, mas logo, soluçando com lágrimas de tristeza, ele disse: “Ó rei, se esta criança permanecer em casa irá se tornar um monarca universal e trará paz para os quatro mundos. Mas ele, sem dúvidas, deixará o lar em busca do caminho e se tornará um buda. Eu sou um homem velho e não ouvirei os ensinamentos deste buda; ao compreender isto, derramei estas lágrimas de pesar.” O rei Suddhodana ouviu essas palavras e se regozijou, fazendo diferentes tipos de oferendas ao sábio e a Narada.
3. Noivado com uma Princesa
Desde os sete anos o príncipe Siddhattha estudou idiomas, matemática, direito, astronomia, geografia, arco e flecha, e outros, com diversos professores. A superioridade de sua inteligência e de sua força física assombrava repetidamente os seus professores.
Certo ano, na primavera, em um festival de plantio, o rei Suddhodana estava dando uma festa para os oficiais, e realizou o ritual do arado com uma pá de ouro. O príncipe o acompanhou, deixando o castelo. Ele observava
enquanto os agricultores aravam o campo. Então ele viu um pássaro que mergulhava dos céus para pegar uma minhoca que havia sido desenterrada por acaso pela ponta do arado. Seu coração compassivo condoeu-se com esta visão. Ele lamentou: “Que sofrimento! Os seres vivos devoram uns aos outros para sobreviverem.” Tomado por tristeza, ele andou até a floresta no limite do campo. Sentado sob uma árvore jambu de espessa folhagem, ele mergulhou profundamente em seus pensamentos. Ninguém sabia onde o príncipe estava; o povo, preocupado, começou a procurá-lo. Quando depararam com ele, descobriram algo estranho. Apesar de as árvores ao redor fazerem sombra, a árvore sob a qual o príncipe estava sentado não lançava sombra alguma. O rei Suddhodana olhou a forma majestosa do príncipe imerso em pensamentos. Mesmo o príncipe sendo seu próprio filho, ele o louvou e disse: “Ele é como a lua que brilha claramente no céu.”
Quando o príncipe tinha dezenove anos o rei construiu palácios para as três estações do verão, inverno e a estação chuvosa; e decidiu que eles seriam as residências para o príncipe. As águas do lago tocavam as escadarias do palácio, e pequenas ondas se propagavam na superfície. A fragrância do puro lótus sempre estava no ar. Naquele ano o rei decidiu escolher uma princesa virtuosa e torná-la consorte do príncipe. Sua primeira escolha foi a princesa Yasodhara, a filha mais velha de Suppabuddha, rei dos Kolyias, a família da rainha Maya.
De acordo com os costumes daquele tempo, foi organizada uma festividade na qual o príncipe deveria, junto com jovens príncipes de outros clãs, se engajar em uma competição para Escolha do Noivo. Naquele dia, a princesa, vestida com beleza e acompanhada por seu pai, assumiu o trono que havia sido preparado para ela. Durante a competição os outros príncipes, com os corações batendo fortemente, enfrentaram-no. Mas não havia
ninguém que pudesse igualá-lo nas artes marciais, fosse na luta, no arco ou outras habilidades. Em meio às palavras de louvor que choveram sobre ele, o príncipe e a princesa noivaram; assim, a futura rainha foi escolhida neste local.
4. Viajando Além dos Quatro Portões
(1) Após o noivado, o príncipe e a princesa viveram no palácio por aproximadamente dez tranquilos anos. Durante esse tempo, entretanto, ele havia contemplado profundamente a natureza da vida, e agora estava próximo o momento de deixar o lar para buscar o caminho. Certo dia, ele ouviu os seguintes versos na música que estava sendo tocada no palácio:
“A música das belas donzelas desvia os homens para a luxúria. Mas a força de um homem livre de máculas permitirá que ele ouça a música como sendo as palavras do Darma.
Ó Arhat, lembra-te daqueles dias passados quando observaste as massas sofrendo e, ao fazer o voto de salvá-las, acumulaste virtudes para o seu benefício. Agora é o momento de deixar o lar. Com uma mente de grande compaixão, recebe aqueles aflitos pelos três venenos. De fato, nos três mundos as negatividades queimam como um fogo intenso. Os ignorantes estão inebriados pela juventude, mas logo serão destruídos pela velhice, doença e morte. O homem sábio, em tempos passados, encontrou o Buda e já se iluminou com o verdadeiro Darma.
(2) O príncipe passava cada vez mais os seus dias em um estado contemplativo. Certo dia, ele pensou: “Em última análise, viver como um ser humano nada mais é do que buscar alguma coisa. Há a busca positiva e a busca negativa. A busca negativa é seguir desta forma: Apesar de ser alguém que passa pelo nascimento e pelo envelhecimento, a pessoa procura outros seres que também passam por nascimento e velhice. Apesar de possuir um corpo que é presa fácil das doenças, que definha e morre, que entra em depressão, e que é maculado pelas negatividades, a pessoa procura por outros que sofrem da mesma forma. Quais são algumas das coisas que se seguem ao nascimento? São coisas como esposa e filhos, servos, víveres, ouro e prata. Assim como a própria pessoa, estas coisas envelhecem, adoecem, caem em depressão, e são maculadas pelas negatividades. As pessoas deste mundo, apesar de, um dia, definharem e morrerem, mesmo assim buscam coisas que definham e morrem; além do mais, elas se apegam a estas coisas e são desvirtuadas por elas.
“A busca positiva se dá da seguinte forma: Aquele que passar pelo nascimento observa a desgraça daqueles que também passaram pelo nascimento, e procura alcançar o nirvana da paz insuperável, que é um Darma que não leva ao nascimento. Ou, aquele que envelhece, adoece, cai em depressão e é maculado pelas negatividades, observa a desgraça daqueles que sofrem o mesmo, e busca o nirvana da paz insuperável, que não envelhece, adoece, cai em depressão ou se torna maculado pelas negatividades.
“Quando reflito sobre mim mesmo, vejo que eu também sou um daqueles que buscam coisas sem valor. Que tolice! De agora em diante, devo buscar as coisas que estão livres de depressão e negatividades.”
(3) Novamente, Siddhattha pensou consigo mesmo: “Meu corpo é extremamente belo e delicado. Em meu palácio, lagos repletos de incontáveis lótus estão cheios até a superfície com água. Flores em uma multiplicidade de cores – azul, vermelho e branco – desabrocham em toda sua glória. Se o perfume não provém da árvore candana que cresce no país de Kasi, eu não aceito passá-lo em meu corpo. Também visto roupas de baixo de seda que tocam a minha pele, e indumentárias e chapéus superiores e inferiores de seda, todos do país de Kasi. Noite e dia um dossel branco, sobre minha cabeça, me abriga dos desconfortos do calor e do frio, e me protege da poeira, grama, orvalho e assim por diante.
“Além disso tudo, eu possuo três palácios. Durante os quatro meses da estação das chuvas eu me retiro no Palácio da Chuva; e, rodeado por donzelas, nunca saio do palácio, tomado pelos prazeres da música, dança e vinho. Os servos de outras casas recebem para a refeição arroz com casca ou um mingau azedo; mas, em minha casa, mesmo os servos comem arroz branco e limpo.
“Eu vivo em meio a tamanha opulência, abençoado com um corpo esplêndido; entretanto, de que me serve isto tudo quando procuro o despertar? Os seres do mundo irão, definitivamente, envelhecer; eles são recipientes que adoecerão; eles são seres que irão, pela sua própria natureza, fenecer e morrer. Porém, vendo os velhos, os doentes e os mortos, eles os olham com desgosto. Eu não devo me comportar assim.
“Neste instante, eu abandonarei o orgulho da juventude, saúde e vida.”
(4) Enquanto sua mente se encontrava em profunda batalha, seu pai, o rei, relembrando as palavras do sábio Asita, que tinha feito uma profecia
sobre o príncipe, ficou profundamente preocupado que ele pudesse deixar o lar para buscar o caminho. Um dia, ele ouviu que o príncipe planejava deixar o castelo e visitar a floresta, e ordenou a todos os seus atendentes que removessem todas as coisas feias e nocivas de sua visão. Ele ordenou aos atendentes para limparem as estradas, decorarem a cidade e varrerem e limparem o jardim. O príncipe, acompanhado por seus atendentes, partiu em uma carruagem através do Portão Leste. Na estrada, ele deparou com um homem que se arrastava com dificuldades. O homem parecia ser corcunda; seu cabelo era branco; seu corpo estava enfraquecido; e ele se apoiava em um cajado. Quando o príncipe perguntou ao condutor da carruagem que tipo de homem era aquele, o condutor respondeu: “Um homem velho.” O príncipe disse: “Eu também me tornarei como aquele homem?” O condutor respondeu: “Todos os seres vivos, nobres ou não, não têm como escapar desse destino.” O príncipe ficou angustiado e seu plano de visitar o jardim desapareceu, ele imediatamente ordenou que a carruagem retornasse ao palácio.
Na segunda vez o príncipe deixou a cidade através do Portão Sul. Ele encontrou um homem que era apenas ossos. Enquanto ele se contorcia em dor no meio de um monte de lixo e arfava, gotas de suor escorriam por sua pele amarelada. O príncipe perguntou: “Algum dia eu ficarei doente como aquele homem?” O condutor respondeu: “Ninguém é capaz de escapar a esse tipo de sofrimento.” Novamente o príncipe ordenou que a carruagem retornasse ao palácio.
O rei Suddhodana ouviu sobre o que estava acontecendo e foi ficando cada vez mais incomodado. Com severidade ainda maior ele ordenou que seus atendentes limpassem todos os cantos da cidade. Mas, quando o príncipe deixou a cidade pelo Portão Oeste, ele topou com uma procissão de
pessoas entristecidas em luto, carregando um homem morto em uma maca. O príncipe observou e perguntou: “Ai de mim, no final eu também serei como esse homem?” O condutor respondeu: “Todas as coisas vivas devem morrer, inevitavelmente.” Então, naquele dia a carruagem, novamente, retornou ao palácio.
Na próxima ocasião, quando deixou a cidade através do Portão Norte, ele encontrou um homem vestido com um manto cor de açafrão, caminhando com grande dignidade. Seu cabelo e sua barba tinham sido raspados, ele carregava uma tigela de mendicante em suas mãos. Quando o príncipe perguntou ao condutor: “Que espécie de homem é aquele?” o condutor respondeu: “Um mendicante que busca o caminho.” O príncipe desceu da carruagem, curvou-se para o homem, e disse: “Que tipos de benefícios recebe o mendicante?” O homem respondeu: “Observando a transitoriedade deste mundo, a doença, a velhice e a morte, eu busco alcançar a liberação, e ao abandonar todos os meus parentes, eu pratico agora o caminho em locais tranquilos. Guiado pelo Darma verdadeiro eu restrinjo meus cinco órgãos sensoriais, e com grande compaixão eu protejo todas as pessoas sem me deixar macular pelas negatividades deste mundo; estes são os benefícios de ser um mendicante.”
Ao ouvir estas palavras, o príncipe tomou uma firme decisão, e pensou consigo: “Não há nada neste mundo que supere isto, eu também devo abandonar o lar e estudar o caminho.” Então, ele se curvou com reverência ao mendicante, entrou na carruagem, embrenhou-se na floresta e passou o restante do dia em uma variedade de atividades lúdicas.
À medida que o crepúsculo se aproximava, ele se banhou em um lago escondido na floresta. Então, mandou seus atendentes apanharem suas roupas mais finas para ele vestir. Em meio às exclamações de encanto das
donzelas da corte, ele subiu à carruagem. Naquele momento, um mensageiro enviado pelo rei trouxe a notícia do nascimento de um príncipe. Ele, sem alegria, disse: “Nasceu outro grilhão que devo desfazer.” Tendo ouvido a palavra rahula (grilhão), o mensageiro reportou-a ao rei, e assim o recém-nascido foi chamado de Rahula. O príncipe, que tinha tomado a firme decisão de deixar o lar naquela noite, apressou-se para chegar ao palácio e foi circundado por uma multidão de pessoas felizes. Mas, no caminho, uma jovem donzela de nome Kisa Gotami, a qual estava no andar superior de seu palácio, que possuía vista para a estrada principal, viu o príncipe e, encantada, recitou este verso:
Verdadeiramente feliz é o pai, Verdadeiramente feliz é a mãe Que possuem tal filho.
Verdadeiramente feliz é a esposa Que espera por tal marido. Quão verdadeiramente feliz!
A mente do príncipe não se perturbou com tais versos agradáveis e apaixonados, mas como a palavra ‘feliz’, ‘nibbuta’, parece-se com a palavra nirvana, ele lembrou-se da segunda. Grato por sua bênção inesperada, ele tirou um colar de pérolas e o presenteou à jovem donzela. Então, apressando seu condutor, ele retornou ao palácio.
(1) Para descansar a fadiga do passeio daquele dia, o príncipe deitou em sua cama adornada por joias. Um grupo de belas cortesãs tentou confortar o príncipe cantando e dançando ao som da música. A qualidade belíssima de sua performance e a graciosidade de suas formas faziam lembrar as donzelas celestiais. Mas até mesmo sua habilidosa dança não foi capaz de afetar a mente do sereno príncipe, que rapidamente caiu em um sono profundo. As cortesãs perceberam e perderam seu entusiasmo pela dança e pelo canto. Elas pararam a música e também foram dormir. Apenas a chama perfumada tremulava brincando na noite silenciosa. O príncipe acordou repentinamente de seu sono, sentou na cama e analisou a cena que o circundava.
A noite estava calma, o palácio era belo e a luz dos incensos emitia uma fragrância agradável. Mas quão repugnantes pareciam as dançarinas! Saliva escorria de suas bocas; elas rangiam os dentes e murmuravam durante o sono. Suas roupas e corpos estavam desalinhados, e elas estavam esquecidas de suas posições como mulheres. Em grupos de duas ou três elas se encontravam em sono profundo. Na verdade, o palácio que brilhara durante a tarde havia se tornado um cemitério. O príncipe ficou arrepiado de desgosto e levantou-se. Em seu coração, ele clamava: “Todas as coisas são como esta cena, não posso tolerar isto.” Ele decidiu fugir do palácio imediatamente; deixou seu quarto silenciosamente e se dirigiu ao portão do palácio. Ele chamou seu condutor, Channa, e ordenou que selasse seu cavalo. Então, retornou mais uma vez aos aposentos da princesa e abriu a porta com cuidado. No quarto, lamparinas perfumadas lançavam pálidas sombras na profunda escuridão da noite, e havia apenas a respiração silenciosa de alguém em sono profundo. Ele pensou: “Se eu abraçar meu filho e me entristecer por este encontro final, a princesa despertará e tentará me impedir de deixar o lar. Em vez disso, seria mais sábio visitar esta criança depois que
eu atingir a iluminação.” Deixando o palácio e montando seu belo garanhão Kanthaka, ele se apressou em direção ao grande portão externo da cidade. Como precaução para o caso de o príncipe deixar o lar, o rei havia posicionado um grande número de soldados nesse portão, que tinham a ordem de guardá-lo. Além disso, os dois portões de ferro foram construídos de tal forma que mesmo a força de mil homens poderia abri-los apenas com dificuldade. Mas, talvez devido à ajuda de seres divinos, os guardas haviam misteriosamente adormecido, e mesmo aqueles grandes portões de ferro se abriram silenciosamente. O garanhão branco Kanthaka correu através do portão como uma rajada de vento. Era meia-noite do dia da lua cheia do quarto mês.
Naquele momento, Mara apareceu no céu e gritou: “Ó príncipe, abandona a tua intenção tola de deixar o lar e retorna ao palácio cheio de flores. Se assim o fizeres, em sete dias tornar-te-á um rei universal que reinará nas quatro direções.” O príncipe respondeu: “Ó rei Mara, vai para longe! Demônio do mal, desaparece daqui! Ser soberano neste mundo não é meu objetivo, minha única aspiração é encontrar o caminho.” Quando o príncipe o rejeitou com aquelas palavras, o rei Mara silenciosamente se retirou desanimado. Mas ele pensou: “Mais cedo ou mais tarde, o pássaro do ódio construirá um dia um ninho no coração do príncipe; nesse momento, eu aproveitarei a minha chance.” Daquele dia em diante, como a sombra que segue o corpo, ele não saiu do lado do príncipe e fez o seu melhor para obstruir o caminho dele para a iluminação.
(2) O príncipe, que havia deixado o palácio de forma resoluta, sentiu vontade de olhar uma última vez para sua cidade, que estava gradualmente desaparecendo à distância; porém, ele repreendeu a si mesmo e apertou o