O Globo, 30 de novembro de 2017
Gastos com proteção à infância recuam
Trabalho infantil ilegal atinge 1 milhão no Brasil. Mas governo destina só R$ 1 bi dos R$ 2,4 bi previstos
Por: Cleide Carvalho, Luiza Souto, Daiane Costa e Marcello Corrêa
O trabalho infantil ilegal atinge um milhão no Brasil, segundo o IBGE. E, entre os adolescentes de 16 e 17 anos que trabalham, um quarto está fora da escola. Mas o governo gastou este ano só R$ 1 bilhão dos R$ 2,4 bilhões previstos para ações de proteção à infância, mostra levantamento do GLOBO. -SÃO PAULO E RIO- No dia em que a pesquisa Pnad Contínua do IBGE revelou que o trabalho infantil ilegal atinge ao menos 1 milhão de crianças e adolescentes no Brasil, levantamento feito pelo GLOBO mostra que ações ligadas à proteção da infância, que poderiam ter impacto na redução do trabalho infantil, receberam menos da metade da verba reservada para 2017.
MARCOS ALVES Fora da escola. Crianças vendem balas e pedem dinheiro em sinais de trânsito da capital paulista, expostas a riscos
Até a semana passada, o governo federal gastou R$ 1 bilhão em 13 ações sociais prioritárias, enquanto o orçamento da União previa R$ 2,4 bilhões até o fim do ano. O levantamento foi feito com base em ferramenta de acompanhamento da execução do orçamento do Congresso.
Em 2016, 1,8 milhão de crianças de 5 a 17 anos estavam ocupadas no país. Mais da metade delas, cerca de 1 milhão, de forma irregular. Neste caso, ou porque tinham de 5 a 13 anos (190 mil) ou porque, apesar de terem de 14 a 17 anos, idade na qual trabalhar já é permitido desde que na condição de aprendiz e com registro em carteira, estavam atuando no mercado de trabalho informalmente (808 mil).
— O trabalho infantil ilegal vem diminuindo nos últimos anos, mas ainda atinge muita gente. São jovens submetidos a uma situação irregular, a salários baixos, e boa parte está fora da escola. Isso é terrível. Estão comprometendo o seu futuro — analisa João Saboia, economista especialista em mercado de trabalho da UFRJ.
O levantamento feito com base no Orçamento do Congresso mostrou que a verba destinada a Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) em Minas Gerais, por exemplo, local onde as famílias carentes são inicialmente atendidas, soma até agora R$ 73,1 milhões, contra R$ 169,8 milhões em 2016. Os recursos repassados ao Rio de Janeiro para serviços de Proteção Social Especial de Alta Complexidade — aqueles que oferecem atendimento a pessoas que se encontram em situação de abandono, ameaça ou violação de direitos e que necessitam de acolhimento provisório — somam R$ 10,7 milhões, menos da metade dos R$ 26,6 milhões repassados em 2016, segundo dados do Portal da Transparência do governo federal.
Para especialistas, essas ações poderiam reduzir, por exemplo, o número de menores que trabalham nas ruas e melhorar a atuação das equipes municipais na prevenção do problema.
O Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) reconhece que não usou ainda todos os recursos à sua disposição, mas diz que o gasto neste ano foi de R$ 1,5 bilhão, que corresponde a 65% do total.
DO SINAL À CARVOARIA
O Brasil havia se comprometido a eliminar até 2015 a presença de crianças na lista das piores formas de trabalho infantil, definida pela Organização Internacional do Trabalho. Não conseguiu. De 2016 até agora, segundo outro levantamento do GLOBO, fiscalizações do Ministério do
Trabalho descobriram 3.299 crianças exercendo algum tipo de trabalho desta lista — da venda de produtos nos sinais de trânsito a serviços com objetos cortantes e colheita de pimenta no campo, passando por carvoarias e matadouros. Em 2016, foram 1.717 casos. Este ano, 1.582.
— É inegável que houve redução no trabalho infantil no Brasil, mas não o esperado e nossos números continuam muito altos. O mais alarmante é que pelo menos metade dessas crianças e adolescentes está exercendo trabalhos que as expõem a riscos de mutilação, queimaduras, violência física ou estupro. Quando não estão na escola ou com a família, essas crianças estão vulneráveis e entregues à própria sorte — afirma a ministra Kátia Arruda, do Tribunal Superior do Trabalho (TST).
Em outubro passado, o Grupo Especial de Combate ao Trabalho Infantil do Ministério do Trabalho flagrou, por exemplo, 118 crianças e adolescentes em atividades de risco em Roraima, incluindo carvoarias. Já na capital paulista, é comum ver crianças vendendo produtos ou pedindo dinheiro nas ruas, muitas vezes acompanhadas de adultos da família. Giovana Cristina da Silva, de 18 anos, e os sobrinhos Yasmin, de 7, e Thiago, de 5, vendem bala na calçada nos Jardins, área nobre da cidade.
— Se vender no sinal, falam que é trabalho infantil — diz Giovana, mostrando conhecimento da lei.
Segundo Kátia, 90% das pessoas resgatadas em situação de trabalho escravo foram trabalhadores infantis. Sem acesso à educação ou com acesso precário, elas não conseguem romper o ciclo do trabalho arriscado e da pobreza.
A Constituição brasileira permite o trabalho a partir de 14 anos de idade na condição de aprendiz, vinculado a um projeto de formação escolar. A socióloga Denise Cesário, gerente executiva da Fundação Abrinq, afirma que empresas de médio e grande porte não cumprem determinação estabelecida em 2000, de reservarem de 5% a 15% de suas vagas para adolescentes e jovens entre 14 e 24 anos.
‘CULTURA ESCRAVOCRATA’
A ministra do TST Kátia Arruda afirma que a conjuntura de crise e trabalho precário reaviva a necessidade de enfrentamento ao trabalho infantil.
— Ainda há no país uma banalização do trabalho infantil, consequência da cultura escravocrata, quando a criança escrava nascia trabalhando. Por
isso muita gente acha normal. Mas o fato é que quanto mais cedo se começa a trabalhar, mais baixa será a renda no futuro devido ao baixo rendimento escolar — explica ela.
O Brasil tem 955 municípios considerados focos de trabalho infantil. A maior parte está em Bahia (125), Pará (87) e São Paulo (76). -TERESINA E RIO - Rafael da Silva, de 16 anos, trabalha em uma banca de frutas no Mercado Central de Teresina, capital do Piauí, das 7h às 18h. Não tem carteira assinada e recebe pelas vendas entre R$ 10 e R$ 35 por dia. No fim de um mês “bom” consegue tirar R$ 900. Todo o dinheiro é entregue à mãe, que não pode trabalhar por ter problemas cardíacos. É ele quem sustenta a família, que inclui seus dois irmãos, de 10 e 12 anos. Dividem uma casa com mais cinco parentes. Para poder dedicar mais horas ao trabalho, abandonou os estudos no final de 2015, quando cursava o 7º ano do ensino fundamental. — Eu gostaria de ter continuado estudando, mas não deu para fazer isso, porque os ônibus demoram a passar e chego em casa muito tarde. Com a vida, aprendi que não se pode ter tudo, mas vou lutar para voltar a estudar no próximo ano. Fico triste por não estar numa sala de aula — contou Rafael.
REPETÊNCIA E CURRÍCULO INADEQUADO
O jovem ilustra o peso do trabalho para a evasão escolar. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE — que visitou mais de 200 mil domicílios no país para traçar um retrato das condições de emprego, renda e acesso a bens das famílias brasileiras — mostram que um quarto (25%) dos adolescentes de 16 ou 17 anos ocupados (em um total de 1,21 milhão) não frequentavam a escola no ano passado.
A evasão escolar é muito maior entre os adolescentes que precisam trabalhar. Na mesma faixa etária, a parcela dos que estão fora de bancos escolares entre os que não trabalham é bem menor: 13,9%, percentual ainda assim considerado elevado pelos especialistas.
A condição financeira é uma das causas do abandono escolar, mas não a principal, apontam especialistas. O que explica o alto índice de evasão do ensino médio é a repetência múltipla, que leva o adolescente a se sentir inadequado naquele espaço, e sua insatisfação com a distância entre o que aprende na escola e seu dia a dia fora dali.
— O desenho do ensino médio é equivocado e acaba expulsando da escola. O Brasil é o único país do mundo onde o ensino médio tem um currículo único. Todos os jovens fazem as mesmas 13 disciplinas
obrigatórias, com quase nenhuma interdisciplinaridade — aponta Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação.
E o fato de a economia ter saído da recessão e estar agora em recuperação traz ainda um alerta, observa Marcelo Neri, diretor do FGV Social:
— Historicamente, famílias pobres em época de recuperação econômica formam a pior combinação para o aumento do trabalho infantil. Como há mais empregos e a renda é baixa, mais crianças e jovens passam a trabalhar.
IMPACTO NA PRODUTIVIDADE DO PAÍS
Maria Cláudia Falcão, coordenadora do programa internacional para eliminação do trabalho infantil da Organização Internacional do Trabalho (OIT), diz que é preciso pensar em políticas públicas para lidar com um número tão elevado de crianças fora das salas de aula:
— Aqueles que entram de maneira precária, chegam ao fim da sua vida laboral com um aumento de renda imensamente menor do que os que têm mais anos de estudo. Os que têm oportunidade acabam dando um salto maior e rompem com esse ciclo.
Além disso, o trabalhador menos qualificado tem efeitos para a produtividade da economia, dizem os analistas.
— Quando eles não têm uma profissão, um diploma, vão ter empregos medíocres, salários baixos. Isso perpetua o ciclo da pobreza — diz Ana Lucia Kassouf, professora do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP).
Priscila aponta a reforma do ensino médio como uma alternativa para tornar o ensino atrativo a esse grupo.