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Os filhos do amor entre iguais

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ANA LÚCIA FABRICIO CIDADE

OS FILHOS DO AMOR ENTRE IGUAIS:

CARACTERÍSTICAS DE SUJEITOS ADVINDOS DE FAMÍLIAS

HOMOPARENTAIS SEGUNDO O DISCURSO DE PROFISSIONAIS ATUANTES NESTE CONTEXTO FAMILIAR

Palhoça

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ANA LÚCIA FABRICIO CIDADE

OS FILHOS DO AMOR ENTRE IGUAIS:

CARACTERÍSTICAS DE SUJEITOS ADVINDOS DE FAMÍLIAS HOMOPARENTAIS SEGUNDO O DISCURSO DE PROFISSIONAIS ATUANTES

NESTE CONTEXTO FAMILIAR

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Psicóloga.

Orientadora: Profª. Maria do Rosário Stotz, Drª.

Palhoça

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AGRADECIMENTOS

Quase dez anos se passaram do dia em que eu ingressei na Universidade, para cursar Psicologia. No decorrer desses anos, muitas foram as dificuldades que se colocaram no meu caminho em direção à minha formação como Psicóloga, mas com certeza, maiores foram as alegrias e o aprendizado profissional e pessoal. Com certeza, foi imprescindível o apoio e o incentivo que tive de pessoas muito especiais, que estiveram ao meu lado durante a construção deste trabalho e durante o curso.

Primeiramente, gostaria de agradecer aos meus amados pais! Não tenho palavras que possam expressar a gratidão que tenho por tudo o que vocês sempre fizeram por mim, pelo incentivo desde pequena ao estudo, e principalmente na minha “saga” para cursar Psicologia. O amor e a confiança de vocês me dão sempre mais força para ir em busca dos meus objetivos! À minha mãe querida, obrigada por toda a ajuda durante a construção desta pesquisa, por torcer junto, por ler, opinar, conversar, debater, indicar livros, incentivar, dar suporte nos momentos difíceis, pelo exemplo de profissional dedicada que és, e por tudo mais que tu fizestes por mim. Ao meu pai querido, obrigada pelo cuidado, dedicação e carinho de sempre, por ser meu amigo de todas as horas, por sempre participar ativamente ajudando neste trabalho, e principalmente por me proporcionar um amadurecimento e me fazer repensar valores preconcebidos. Amo vocês!

Ao meu amor, Rafinha, muito obrigada primeiramente por ser meu companheiro em todos os momentos, pelo seu carinho e aconchego. Agradeço pela paciência, por compreender meus vários finais-de-semana de estudo, meus momentos de estresse e cansaço, por tentar me distrair, pelos mimos e por toda a ajuda que tu me destes durante a construção desta pesquisa. Ter você ao meu lado faz meus dias mais felizes. Te amo muito!

Ao meu irmão, meu “Guri”, agradeço pelas palavras diretas e incentivadoras, que sempre me fizeram enxergar as situações de formas mais simples, por me encorajar quando eu precisava. Por me dizer: “foco!” nas horas certas, durante a construção do trabalho.

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As minhas avós, Elba e Zita, não poderia deixar de expressar minha gratidão pelo incentivo e preocupação, pois mesmo de longe, o carinho de vocês sempre foi muito importante para mim.

Gostaria de agradecer as amigas que tive o prazer de conhecer durante a faculdade, Mary, Jaqueline, Vitória, Thiciara e Roberta, que estiveram comigo em momentos muito importantes nessa trajetória. Com certeza aprendi muito com vocês e me diverti mais ainda. Também agradeço as minhas queridas amigas de Porto Alegre, em especial à Nina, pelo apoio desde o início do curso, e que se manteve presente até hoje, mesmo com a distância que nos separa. Obrigada a todas por entenderem o meu “sumiço” durante esse ano, para que eu pudesse estar focada nesta pesquisa.

Agradeço também as minhas colegas e amigas da IONICS, Carina, Fran, Renata e Bea, que participaram de toda a caminhada deste trabalho, que me apoiaram e entenderam sempre, me ajudaram quando eu precisava me ausentar da empresa para realizar esta pesquisa, e que fazem o meu dia-a-dia no trabalho ser muito mais alegre. Com certeza a parceria de vocês foi muito importante para mim!

À minha orientadora, Maria do Rosário, meu agradecimento pelos ensinamentos, não somente durante a construção deste trabalho, como durante todo o curso de Psicologia, e por ser um exemplo de profissional para mim. Por me ajudar e acreditar na minha pesquisa, pelas orientações diretas e esclarecedoras. Às professoras Maria Ângela Giordani e Saidy Maciel, por aceitarem o convite para participar da banca examinadora deste trabalho, e pelas contribuições e sugestões expostas no processo de qualificação desta pesquisa, que foram muito importantes para ampliar as possibilidades desta pesquisa.

E agradeço também aos profissionais que se disponibilizaram a participar deste trabalho, tornando possível a realização do mesmo, contribuindo assim para uma ampliação da discussão sobre as famílias homoparentais.

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RESUMO

Diante das novas possibilidades de configurações familiares, as famílias homoafetivas com filhos vêm ganhando visibilidade e gerando diferentes discussões na sociedade. Através da contribuição dos profissionais atuantes em contextos familiares homoparentais, a presente pesquisa objetivou caracterizar os aspectos psicológicos de sujeitos oriundos destas famílias. Para tanto, foram entrevistados três profissionais de diferentes áreas de atuação: um psicólogo, um assistente social e um advogado. Esta pesquisa revelou-se de natureza qualitativa, com objetivo exploratório e delineada como levantamento, tendo sido realizada através da técnica de entrevista semi-estruturada. Foram investigados aspectos referentes aos papéis parentais exercidos em contextos homoparentais, assim como as relações entre pais e filhos e com a sociedade, bem como as facilidades e dificuldades enfrentadas pelos pais homossexuais na criação de seus filhos e questão da sexualidade da criança. Os dados obtidos foram submetidos à análise de conteúdo e foram agrupados em categorias e subcategorias para sua melhor compreensão e discussão. Foi identificado que os profissionais não consideram haver a necessidade de diferenciação sexual por parte dos pais para que se estabelecesse uma relação de parentalidade, sendo que todos os entrevistados reforçaram os laços de afeto que norteiam os vínculos instituídos nas famílias homoparentais. Pode-se perceber que a homoparentalidade ainda enfrenta desafios e preconceitos. Todos os profissionais defenderam a igualdade de condições das famílias homoparentais e heterossexuais quanto à criação de seus filhos. A análise de dados sugeriu que os sujeitos advindos de famílias homoparentais apresentam possibilidades de constituírem vínculos de parentalidade e filiação, baseados em relações de afeto.

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Perfil Sujeitos S1, S2, S3

Tabela 2 - Categorias e Subcategorias da Pesquisa Tabela 3 – Papéis Parentais

Tabela 4 - Relações entre pais e filhos Tabela 5 - Relações com a sociedade

Tabela 6 - Facilidades e dificuldades enfrentadas na criação dos filhos Tabela 7 - Sexualidade dos filhos

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LISTA DE SIGLAS

CID – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde

DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais OMS – Organização Mundial da Saúde

TIME DA MENTE – Projeto de Extensão de Psicologia da UNISUL UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina

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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ... 9 1.1 TEMA ... 10 1.2 PROBLEMA DE PESQUISA ... 10 1.3 OBJETIVOS ... 10 1.3.1 Objetivo geral ... 10 1.3.2 Objetivos específicos ... 10 1.4 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA ... 11 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 20

2.1 AS FAMÍLIAS E SUAS TRANFORMAÇÕES ... 20

2.1.1 Considerações sobre as famílias e suas mudanças nos últimos séculos 20 2.1.2 As famílias contemporâneas e as novas formas de parentalidade ... 24

2.2 UNIÕES HOMOAFETIVAS E PARENTALIDADE ... 27

2.2.1 As Uniões Homoafetivas ... 28

2.2.2 As famílias homoparentais e a parentalidade ... 31

2.3 DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO, SEXUALIDADE E FILIAÇÃO HOMOPARENTAL ... 34

2.3.1 A Psicologia e suas contribuições sobre o desenvolvimento psíquico dos sujeitos ... 34

2.3.2 Filiação homoparental, gênero e sexualidade ... 38

3 MÉTODO ... 41

3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ... 41

3.2 PARTICIPANTES ... 42

3.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS ... 43

3.4 SITUAÇÃO E AMBIENTE ... 43

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3.6 PROCEDIMENTOS ... 44

3.6.1 De seleção dos participantes ... 44

3.6.2 De contato com os participantes ... 45

3.6.3 De coleta e registro dos dados ... 45

3.6.4 De organização, tratamento e análise dos dados ... 46

4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ... 47

4.1 APRESENTAÇÃO DOS SUJEITOS DA PESQUISA ... 47

4.2 APRESENTAÇÃO DAS CATEGORIAS E SUBCATEGORIAS ... 48

4.3 PAPÉIS PARENTAIS ... 49

4.4 RELAÇÕES ENTRE PAIS E FILHOS ... 53

4.5 RELAÇÕES COM A SOCIEDADE ... 55

4.6 FACILIDADES E DIFICULDADES ENFRENTADAS NA CRIAÇÃO DOS FILHOS ... 59

4.7 SEXUALIDADE DOS FILHOS ... 61

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 66

REFERÊNCIAS ... 72

APÊNDICES ... 81

APÊNDICE A – Roteiro de entrevista semi-estruturada ... 82

APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESLCARECIDO ... 83

APÊNDICE C - TERMO DE CONSENTIMENTO PARA ENTREVISTA E GRAVAÇÃO ... 85

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1 INTRODUÇÃO

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). Esta pesquisa está diretamente vinculada ao Núcleo Orientado em Psicologia da Saúde, juntamente com o Projeto Time da Mente, que atua com estagiários de Psicologia, com um foco na Saúde Mental.

A partir da leitura de Fromm (1983, p.78), que caracteriza a Saúde Mental “pela capacidade de amar e criar [...] por uma sensação de identidade baseada no sentimento de si mesmo como o sujeito e o agente das capacidades próprias, pela captação da realidade interior e exterior, isto é, pelo desenvolvimento da objetividade e da razão”, surgiu a preocupação e o interesse de articular o cuidado com a Saúde Mental com a investigação sobre a temática da homoparentalidade.

Esta nova configuração familiar, a homoparental, tem despertado diversas discussões na sociedade. Dessa forma, visando o cuidado em Saúde Mental com relação a esta problemática, este trabalho versa sobre os sujeitos advindos de famílias homoparentais, com o objetivo de caracterizar os aspectos psicológicos de sujeitos oriundos desta configuração familiar, segundo o discurso de profissionais que atuam junto a estas famílias.

Este projeto de pesquisa está organizado da seguinte maneira: o primeiro capítulo é constituído pela introdução, pela apresentação do problema de pesquisa, dos objetivos gerais e específicos, juntamente com a problemática e a justificativa deste trabalho. O segundo capítulo consiste em uma explanação a respeito do referencial teórico relativo a presente temática, discorrendo sobre as famílias e suas transformações, as uniões homoafetivas, as famílias homoparentais, os papéis familiares desempenhados; além de apresentar algumas contribuições da psicologia sobre as características do desenvolvimento psíquico dos sujeitos. Este trabalho apresenta a metodologia que foi utilizada, descrevendo os procedimentos que foram adotados durante a coleta dos dados, bem como o modo como foram examinados as informações coletadas. Após o método, há a análise e discussão dos dados que foram obtidos, seguido das considerações finais da pesquisa.

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1.1 TEMA

As características de sujeitos advindos de famílias homoparentais, segundo o discurso de profissionais atuantes neste contexto familiar.

1.2 PROBLEMA DE PESQUISA

Quais as características identificadas em sujeitos oriundos de famílias homoparentais, segundo o discurso de profissionais que atuam junto a este contexto familiar?

1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Objetivo geral

Caracterizar os aspectos psicológicos de sujeitos oriundos de famílias homoparentais, segundo o discurso de profissionais que atuam junto a este contexto familiar

1.3.2 Objetivos específicos

• Identificar como são vivenciados os papéis parentais em famílias homoparentais, de acordo com os profissionais atuantes neste contexto familiar

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• Descrever como se constituem as relações entre pais e filhos de casais homossexuais, de acordo com a visão dos profissionais atuantes neste contexto familiar

• Descrever como as configurações familiares homoparentais se relacionam com a sociedade, segundo a opinião dos profissionais atuantes neste contexto familiar

• Avaliar as principais dificuldades enfrentadas pelos pais homossexuais na educação e formação de seus filhos, de acordo com os profissionais atuantes neste contexto familiar

• Identificar como os profissionais que atuam junto a famílias homoparentais percebem a relação entre a homossexualidade dos pais e a sexualidade dos filhos

1.4 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA

A presente pesquisa aborda como tema famílias homoparentais e seus filhos, sob o âmbito da Psicologia. Através de uma pesquisa com profissionais atuantes nesse contexto familiar, busca-se caracterizar os aspectos psicológicos de sujeitos que advêm de núcleos parentais homossexuais. A seguir, apresentam-se algumas considerações no intuito de contextualizar as discussões que envolvem a temática descrita, assim como o problema a ser respondido por esta pesquisa e a sua relevância social e científica.

Ao pensar a homoafetividade e os papéis parentais assumidos por estes sujeitos, percebe-se que este tema, apesar de não ser novidade, ainda é repleto de tabus e de conceitos pré-estabelecidos. Zambrano (2006) relata que as famílias contemporâneas e suas novas formas de conjugalidade e de parentesco vem ganhando visibilidade na sociedade, trazendo à tona uma discussão a respeito das suas configurações, formas de vivência e significado. A autora discorre que as mudanças ocorridas através dos novos papéis da mulher na sociedade, da demanda dos homossexuais pelos seus direitos enquanto famílias e os avanços da tecnologia reprodutiva têm feito a sociedade se defrontar com diferentes composições familiares e a desconstruir velhos paradigmas de família.

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Ao longo do século XX, pode-se perceber que houve transformações relevantes no âmbito das configurações familiares no Brasil. Na década de 70, estava em transição o modelo de família patriarcal para a família nuclear. Já na década de 80, com o reconhecimento da lei do divórcio, a sociedade se deparava com a família reconstruída, com filhos de casamentos anteriores e do novo casamento. Nos últimos anos, diferentes constituições familiares vêm surgindo e buscando o seu espaço na sociedade. (OUTEIRAL, 2007).

Nas relações contemporâneas, os indivíduos buscam principalmente o bem-estar e a qualidade de seus vínculos afetivos. Dessa forma, o afeto tem se tornado o elemento norteador dos relacionamentos e a principal base da constituição das famílias atuais, deixando esta de ter como função central a procriação e a manutenção dos bens. Diante dessas novas configurações, o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo ganha visibilidade, apesar de ainda enfrentar grandes dificuldades como o preconceito da sociedade e as restrições jurídicas e religiosas. (ARAUJO & OLIVEIRA, 2008).

Atrelado a estas questões, Frazão (2010) relata que na cultura popular, a imagem de família ainda dificilmente é associada aos gays e às lésbicas. O mesmo autor pontua que até hoje, alguns segmentos da sociedade os consideram como sendo anti-família, refletindo uma imagem familiar extremamente conservadora.

Peroni & Costa (2008) discorrem que o indivíduo que é homossexual, na maioria das vezes, é rejeitado por sua orientação sexual. Os autores reforçam que o preconceito aumenta na medida em que estes indivíduos resolvem ter uma vida conjugal estável, pois geralmente considera-se como “casal” um homem e uma mulher.

A Desembargadora Maria Berenice Dias vem sendo uma pioneira na justiça brasileira a defender os direitos dos homossexuais e de suas famílias, trazendo à tona os direitos de liberdade e igualdade tão proclamados nas revoluções. No seu artigo sobre a família homoafetiva, ela discorre que:

As uniões de pessoas do mesmo sexo sempre existiram, mas a partir do momento em que a igreja sacralizou o conceito de família, conferindo-lhe uma finalidade meramente procriativa, as relações homossexuais se tornaram alvo do preconceito e do repúdio social. A mais chocante conseqüência da exclusão no âmbito jurídico é a absoluta invisibilidade a que são condenados os vínculos afetivos, cujo único diferencial decorre do fato de serem constituídos por pessoas de igual sexo [...] É preciso resgatar os estragos que acabaram jogando para fora do âmbito da tutela jurídica

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significativa parcela da população. É necessário reconhecer que os relacionamentos entre pessoas, independente de sua identidade sexual, é uma união de afetos e como tal precisa ser identificada. Daí a expressão homoafetividade (DIAS, 2011).

Com relação aos aspectos jurídicos envolvendo os casais homossexuais, é importante destacar que, durante a produção do presente trabalho, no mês de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união civil entre homossexuais. Com a votação a favor da maioria dos ministros, esta decisão permite que casais de pessoas do mesmo sexo tenham os mesmos direitos patrimoniais que os casais heterossexuais. Apesar de esta decisão ser uma vitória para os casais gays, ela instigou ainda mais as discussões na sociedade sobre a temática dos uniões homossexuais, gerando manifestação contra e a favor das uniões homossexuais. (D’Ella, 2011).

Anteriormente a esta votação de 2011 do STF, Uziel et al (2006) apontam que o Projeto de Lei nº 1.151/95, que institui a união civil entre casais de pessoas do mesmo sexo, apresentado pela então deputada Marta Suplicy, foi importante para trazer a tona discussões a nível nacional sobre as uniões homossexuais, fazendo com que esta temática se tornasse assunto de programas de televisão, matérias de revistas e jornais, conversas familiares, debates acadêmicos e políticos. Os autores afirmam que a participação de profissionais e de cientistas sociais tem tido grande importância para o debate sobre as famílias homoafetivas.

Apesar de alguns operadores do Direito defenderem a causa dos homossexuais, buscando tratá-los com igualdade, os casos envolvendo casais homossexuais não são tratados nas Varas de Família, e sim nas Varas Civis.

A este respeito, Almeida (2006) relata que em muitos países, o acesso ao casamento e/ou à adoção entre casais do mesmo sexo surgem como a última barreira formal da igualdade com o restante da população.

Além do âmbito jurídico, durante muitos anos a comunidade científica também contribuiu para a construção dessa visão estereotipada sobre as relações homossexuais. Negrão (2008) relata que a medicina, muito influenciada pelas concepções religiosas na época da Idade Média, considerava a homossexualidade como uma doença, um mal contagioso decorrente de um defeito genético. Apesar de a medicina pesquisar durante muitos anos alguma diferença física entre homo e heterossexuais, nada encontrou. O mesmo autor refere que o comportamento

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humano tido como desviante foi alvo de tentativas de mudança através de diversos métodos, porém o resultado foi nulo.

De acordo com Martins & Aguirre (2010), somente em 1973 a homossexualidade deixou de ser considerada como doença, desvio ou perversão pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) e em 1983 foi retirada do CID 10 (Classificação Internacional de Doenças). No Brasil, apenas em 1985 que o Conselho Federal de Medicina reviu sua classificação com relação à homossexualidade, deixando de ser considerada como “transtorno sexual”.

Roudinesco (2003) traz a reflexão a respeito do paradoxal panorama contemporâneo, que anteriormente era marcado pela reivindicação dos homossexuais, que viviam à margem da sociedade, por direitos a igualdade; e atualmente esta mesma parcela da população luta pela possibilidade do reconhecimento das suas relações conjugais e pelo direito à parentalidade.

No Brasil, há mais de dez anos, a legislação não restringe a família ao casal parental constituído por dois indivíduos do mesmo sexo, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, que segue diretrizes da Constituição Federal. Mesmo assim, os novos modelos de família ainda são pouco absorvidos pelo discurso dos profissionais da justiça e da sociedade civil como um todo. Dentre as novas formas de configurações familiares, as compostas por pais homossexuais são as que têm gerado maior polêmica, pois apesar de crianças educadas por pais do mesmo sexo não ser novidade, muitas pessoas põe em dúvida a sua possibilidade e adequação para a educação e criação de seus filhos. (UZIEL, 2002).

Nesse contexto, Matias (2007) relata que um dos mitos mais comuns na sociedade é que crianças que crescem em famílias com pais do mesmo sexo poderão ser futuros homossexuais, ou que poderão apresentar algum tipo de alteração sexual. O temor que os filhos de homossexuais sejam estigmatizados e rejeitados socialmente, de que desenvolvam certos tipos de patologias ou a possibilidade de abusos sexuais também são alguns dos temas propostos nas discussões sobre famílias homoparentais.

A Psicologia pode ter muito a contribuir com as discussões geradas em torno das famílias homoparentais, com suas teorias a respeito do desenvolvimento psíquico dos sujeitos.

A psicóloga Arán relata, em seu artigo do ano de 2005, sobre “A psicanálise e o dispositivo diferença sexual” que muitas teorias criticam as famílias

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homoparentais justificando que “as noções de alteridade e diferença estão totalmente atreladas à polaridade masculino/feminino, ou seja, à heterossexualidade, como se na homossexualidade ou na homoparentalidade não fosse possível viver a diferença.” (ARÁN, 2005, p. 664).

O presente trabalho pretende ampliar a discussão a respeito das características psicológicas sujeitos oriundos de famílias homoparentais, segundo o discurso de profissionais que atuam junto a este contexto familiar.

Alfano (2007) relata que a Psicologia tem buscado entender estas novas constituições de família sob o âmbito dos Direitos Humanos. A autora refere que o Conselho Nacional de Psicologia integra uma Rede Internacional de reflexão sobre orientação sexual em Psicologia, fundada em 2001 nos EUA, na Reunião Internacional sobre questões lésbicas, gays e bissexuais.

Além disso, o Conselho Federal de Psicologia adotou em 1999 a Resolução 01/99 que "Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual”. Em seu Artigo 2°, estabeleceu que “Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.” (CFP, 1999).

Diante do quadro configurado até o momento, percebe-se que as discussões a respeito das famílias homoparentais envolvem aspectos biológicos, psicológicos, sociais, jurídicos, religiosos e que muito se tem a discorrer sobre este tema.

Nesse sentido, surgem os seguintes questionamentos: De que forma os profissionais como médicos, psicólogos, professores, juízes, assistentes sociais ou outros que atuam junto a esse contexto familiar caracterizam os aspectos psicológicos destes sujeitos? Como a psicologia pode contribuir com as discussões a respeito das famílias homoparentais?

A fim de responder tais questionamentos, buscou-se levantar a literatura disponível relacionada a “homoparentalidade” e a “psicologia” nas bases de dados científicas online Scielo, Bireme e Google Acadêmico, durante o mês de abril de 2011. Pode-se perceber que os estudos a este respeito são em sua grande maioria datados a partir do início do século XXI.

No âmbito da Psicologia, percebe-se que há pouca literatura que verse sobre a Homoparentalidade e as características dos sujeitos advindos deste núcleo

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familiar. No site Scielo, não houve nenhum resultado para a pesquisa dos termos “homoparentalidade e psicologia”. Atendendo apenas ao termo “homoparentalidade”, esta base de dados encontrou seis artigos relacionados, sendo que apenas três tratam especificamente da temática sob o âmbito da Psicologia. Dessa forma, pode-se citar as seguintes obras: “A psicanálise e o dispositivo diferença sexual” (Arán, 2009), que discorre sobre a psicanálise e sexualidade, apresentando a teoria de Freud e discutindo alguns destinos da mesma na cultura contemporânea; “A parentalidade homossexual: uma exposição do debate psicanalítico no cenário francês atual” (Perelson, 2006), que fala sobre a homoparentalidade no contexto das novas práticas sociais e médicas de filiação e reprodução, confrontados os pensamentos de cinco psicanalistas e apresentando como cenário o debate francês atual sobre essa questão; e “Homoparentalidade: uma entre outras formas de ser família” (Passos, 2005), que tem como objetivo examinar a homoparentalidade, partindo do pressuposto que essa modalidade de família apresenta as mais significativas mudanças nas relações conjugais e parentais, já que questiona o paradigma do qual a família se origina: a diferenciação sexual.

Nas pesquisas realizadas na base de dados online Bireme, foram encontrados apenas dois artigos relacionados aos temas homoparentalidade e psicologia, sendo estes: “Adoção por homossexuais – uma nova configuração familiar sob os olhares da psicologia e do direito” (Futino & Martins, 2006), que traz uma reflexão sobre as famílias na atualidade e suas formas de filiação, que compreendem desde a monoparentalidade até um casal do mesmo sexo, e sua possibilidade de adoção; e “Um estudo sobre o exercício da parentalidade em contexto homoparental” (Rodriguez & Paiva, 2009), que discute sobre a configuração homoparental, tendo como objetivo apresentar o resultado de uma pesquisa realizada com dois casais, na qual foi investigado o exercício da homoparentalidade, focando as possíveis especificidades existentes no relacionamento parental homossexual, assim como compreender o olhar dos pais com relação a seus papéis parentais. Nesta pesquisa, os dados foram coletados e registrados em campo, através de uma entrevista semi-dirigida e Desenhos de Família com Estórias, e o resultado apontou que as famílias homoparentais se diferenciam de outras configurações principalmente pelo preconceito sofrido, falta de apoio e aceitação das famílias de origem e círculos sociais.

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A pesquisa feita no site Google Acadêmico com os termos “homoparentalidade e psicologia” encontrou mais de cem resultados. Apesar de este site abranger um maior número de trabalhos, muitos deles apresentam pouca relevância para esta pesquisa. Muitos dos trabalhos versam sobre esta temática no âmbito jurídico, sociológico, antropológico, e poucos com foco na psicologia. Pode-se citar como relevante a TePode-se de Doutorado em Psicologia aprePode-sentada por Toledo em 2008 “A família no discurso dos membros de famílias homoparentais” que relata um estudo feito com dez homens membros de famílias homoparentais residentes no interior de São Paulo, sendo que as entrevistas foram avaliadas a partir da análise da obra de Foucault, que pensa a sexualidade como fenômeno social. Na discussão dos resultados obtidos nesta pesquisa, um dos aspectos relevantes apresentados nos discursos dos entrevistados foi a tentativa de defesa da sua normalidade enquanto parceria amorosa e família, além do temor existente com relação a sua rejeição e exclusão por parte da sociedade.

Além deste, pode-se mencionar um artigo de grande importância para a presente pesquisa, que fala sobre “Reflexões acerca das novas formas de parentalidade e suas possíveis vicissitudes culturais e subjetivas” (AMAZONAS & BRAGA, 2006). Este traz uma discussão sobre o impacto cultural e subjetivo provocado pelas novas formas de parentalidade, assim como suas repercussões sobre o grupo familiar e os processos de subjetivação, defendendo a idéia de que, independentemente da configuração familiar, o principal é que exista uma figura que ofereça a criança um lugar configurado com seus limites, sendo elas cuidadas e desejadas.

Outro trabalho encontrado na busca realizada em abril de 2011 no site Google Acadêmico que se pode destacar, foi a “Percepção de futuros profissionais de áreas psicossociais sobre o desenvolvimento psicológico de crianças educadas em famílias homoparentais” (GATO et al, 2010). Este se propõe a uma discussão semelhante com a da presente pesquisa, pois através de uma metodologia semi-experimental, o estudo procurou caracterizar de que forma alguns futuros profissionais de áreas psicossociais percebem alguns aspectos do desenvolvimento psicológico de crianças adotadas por pessoas homossexuais, confrontando os resultados obtidos com o resultado dos estudos científicos sobre este tema. A diferença primordial do trabalho desenvolvido por Gato et al e a presente pesquisa é que o primeiro foi desenvolvido em Portugal, a sua análise abrange apenas crianças

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que foram adotadas e os profissionais participantes da pesquisa de Gato et al não haviam necessariamente atuado juntamente à famílias homoparentais (como serão os participantes do presente trabalho).

Ainda que existam diversos trabalhos versando sobre a homoparentalidade, sob diferentes âmbitos, seu manuseio ainda constitui um grande desafio para a área da saúde mental. Esforços devem ser concentrados na desafiadora tarefa de aprofundar os estudos que investiguem não somente a homoparentalidade em si, mas também as questões sociais em que estes indivíduos e suas famílias encontram-se implicados, e principalmente, as suas conseqüências nos aspectos psicológicos dos sujeitos oriundos destas famílias. Percebe-se que a literatura acumulada sobre o assunto até hoje ainda não cobre toda a problemática acerca desta temática.

Por isso, este trabalho é relevante cientificamente pois se diferencia dos demais, trazendo informações sobre as características dos aspectos psicológicos de sujeitos oriundos de famílias homoparentais (abrangendo filiações homossexuais de todas as formas que possam se apresentar), segundo o discurso de profissionais brasileiros de diversas áreas de atuação, que atuam junto a este contexto familiar.

Magalhães e Féres-Carneiro (2004, p. 242), afirmam que “o trabalho psíquico de constituição da subjetividade implica a metabolização da herança no confronto com o outro que transmite. O sujeito se constitui oscilando entre momentos de auto-produção, de ilusão individual [...] e de ilusão grupal”. Dessa forma, percebe-se a importância que o núcleo familiar tem no desenvolvimento de seus membros, reiterando que os avanços no conhecimento que serão disponibilizados por esta pesquisa são de grande relevância científica, pois pretendem contribuir com novas possibilidades de entendimento a respeito da homoparentalidade, e suas implicações nas características psicológicas de sujeitos oriundos deste contexto familiar.

Este estudo pode possibilitar maiores embasamentos teórico para a prática dos profissionais envolvidos com as famílias homoparentais, para que estejam preparados para lidar com estas novas configurações familiares, a partir do entendimento desse novo arranjo familiar, quebrando antigos paradigmas.

Como este estudo avaliará opiniões de profissionais com diferentes focos de atuação, pode evidenciar demandas específicas de algumas áreas de trabalho com relação às questões de parentesco homossexual, auxiliando na avaliação e

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entendimento dos fenômenos envolvidos. Dessa forma, esta pesquisa pode servir de base para ações, auxiliando os profissionais envolvidos a traçar estratégias de intervenção, como também para novos trabalhos sobre esta temática.

O conhecimento decorrente desse estudo também favorecerá a sociedade, pois trará uma visão científica de um assunto que ainda é tabu em muitos meios sociais, permeado por muitos “achismos”, que acabam reforçando visões estereotipadas dessas famílias. Assim, o resultado da presente pesquisa poderá abrir um novo horizonte de entendimento da Homoparentalidade.

A falta deste conhecimento poderá ter implicações sociais como a falta de preparo por parte de psicólogos, professores, médicos, juízes, e todos os profissionais que podem em algum momento de sua atuação defrontarem-se com uma família homoparental. Além disso, a falta de conhecimento sobre esta temática pode reforçar o preconceito existente, ou levar a julgamentos precipitados a respeito destas famílias, acarretando em um possível aumento na dificuldade de inserção das famílias homoparentais na sociedade.

Portanto, este trabalho pretende contribuir para o enfrentamento de algumas questões que estão relacionadas ao presente tema, enriquecendo a discussão e despertando novos elementos, sendo estes relevantes para a Psicologia, tanto no âmbito social quanto no científico.

Assim, a partir dos apontamentos levantados, a presente pesquisa visa responder a seguinte questão: quais as características identificadas em sujeitos oriundos de famílias homoparentais, segundo o discurso de profissionais que atuam junto a estes contextos familiares?

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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Este capítulo teve como objetivo fazer uma explanação a respeito do referencial teórico existente sobre a temática deste trabalho, a fim de que servisse de subsídio para a análise dos dados coletados na presente pesquisa. Dessa forma, apresenta-se inicialmente uma contextualização a respeito das configurações familiares. Na seqüência, há uma discussão sobre a homossexualidade e a homoparentalidade e, por fim, discorre-se a respeito das contribuições da Psicologia a respeito do desenvolvimento psíquico dos sujeitos, sobre filiação homoparental, gênero e sexualidade.

2.1 AS FAMÍLIAS E SUAS TRANFORMAÇÕES

Para compreender os aspectos psicológicos do sujeito oriundo de uma família homoparental é preciso, primeiramente, entender como as famílias se constituem. É relevante que se reavalie “pré-conceitos” relativos ao imaginário da família e das relações entre pais e filhos, e que se elucide brevemente o histórico de quebra de paradigmas culturalmente construídos sobre as famílias. Para isso, optou-se por iniciar discutindo as famílias e suas transformações, trazendo alguns conceitos diversos de família, fazendo uma reflexão sobre as mudanças históricas ocorridas, as configurações familiares contemporâneas e as suas relações com a sociedade.

2.1.1 Considerações sobre as famílias e suas mudanças nos últimos séculos

A família é o primeiro grupo social em que os sujeitos estão inseridos desde o seu nascimento. É uma instituição social presente em qualquer sociedade, apresentando diversas configurações, sendo estas modificadas ao longo da história.

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Bourdieu (1993 apud Uziel, 2002, p. 10) define família como “um conjunto de indivíduos aparentemente ligados entre si, seja pela aliança (o casamento), seja pela filiação, mais excepcionalmente pela adoção (parentesco) e vivendo sob o mesmo teto (coabitação)”.

Carter e McGoldrick (1995, p. 9), no livro sobre “As mudanças no ciclo de vida familiar”, descrevem que “como um sistema movendo-se através do tempo, a família possui propriedades basicamente diferentes de todos os sistemas.” Os autores relatam que “as famílias incorporam novos membros apenas pelo nascimento, adoção ou casamento, e os membros podem ir embora somente pela morte [...] nenhum outro sistema está sujeito a estas limitações.” (CARTER & MCGOLDRICK, 1995, p.9).

A respeito da definição de família, no seu livro sobre “Os complexos familiares”, Lacan (2002) relata que a família, na espécie humana, apresenta uma forma singular de desenvolvimento das relações sociais, ampliando as suas capacidades de comunicação mental, ao mesmo tempo em que vai restringindo os instintos, tornando-os suscetíveis de conversão e inversão. Dessa forma, acaba permitindo comportamentos adaptativos.

A transmissão da cultura é um papel primordial desempenhado pelas famílias. Esta instituição tem grande prevalência na primeira educação da criança, sendo responsável pelos processos fundamentais de desenvolvimento psíquico, pela aquisição da língua materna, transmitindo estruturas de comportamento e de representação. Sendo assim, seu papel no desenvolvimento de seus membros transcende os limites da consciência. (LACAN, 2002).

Sobre este assunto, a psicanalista Michele Kamers (2006) reforça as idéias de Lacan citadas anteriormente sobre o conceito de familia. Esta autora relata que a psicanálise vê a família como a estrutura responsável pela transmissão e inserção da criança na cultura, cumprindo através das funções parentais a inscrição do infans no universo simbólico.

Para Correa (2001), a família é um grupo singular que carrega elementos de continuidade vital, unidos através de alianças de consangüinidade, filiação e fraternidade. A autora reforça que a família

Constitui o grupo primário por excelência que sustenta a estruturação do psiquismo, originariamente desde a relação mãe-bebê. Neste espaço,

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circulam fantasias, intensos afetos, pulsões, mecanismos de defesa e processos de identificação, assim como diversos pactos e alianças. (CORREA, 2001, p. 15).

Pensando a respeito dos aspectos psicológicos do sujeito, percebe-se a importância do estudo sobre as famílias para o presente trabalho, considerando o seu importante papel enquanto primeiro grupo social onde os indivíduos se relacionam, além do seu papel educativo, que vem sendo discutido neste capítulo.

A psicóloga e Pós-Doutoura em Psicologia Terezinha Féres-Carneiro é uma estudiosa das questões familiares, tendo produzido diversas obras sobre este tema. No seu livro “Família: diagnóstico e terapia”, relata que o funcionamento das famílias define e conserva as diferenças humanas, reforçando a idéia de que estas variam de acordo com a cultura em que estão inseridas as famílias. Além disso, a autora lembra que o que é considerado adequado em certa sociedade pode ser considerado patológico em outra. (FÉRES-CARNEIRO, 1983).

Sobre este tema, Silva Junior (2005) afirma que em cada época histórica, a organização familiar foi moldada de acordo com os interesses políticos, econômicos, culturais e religiosos dominantes do período. O autor reforça que estudar os discursos históricos que abordam a família é muito importante, pois pode ajudar a identificar como alguns preconceitos foram construídos, e que até hoje podem se apresentar como obstáculo nas relações entre as famílias.

Fazendo uma reflexão acerca da concepção histórica de família, Ariés (1981, p. 273) conta que anteriormente ao século XV, a família existia como realidade vivida, mas não “como sentimento ou como valor”. O autor refere que na Idade Média, a função da família era de transmitir a vida, os bens e os nomes, não penetrando na sensibilidade dos indivíduos. Porém, a partir do século XVIII, Ariés (1981) expõe que a família passou a ter necessidade de intimidade, e também de identidade, fazendo com que os seus membros se unissem pelo sentimento, costume e gênero de vida.

Trazendo a discussão a respeito das mudanças familiares, com relação à realidade brasileira, percebe-se o histórico de influência do poder patriarcal nas constituições das famílias. O patriarcado designa o poder dos homens enquanto categoria social, sendo que neste tipo de organização social as mulheres ocupam um papel de subordinação aos homens, e os jovens estão subordinados

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hierarquicamente aos homens mais velhos. Até o início do século XX, as mulheres do Brasil ainda estavam em desvantagem com relação aos homens, segundo o Código Civil Brasileiro da época. (NARVAZ & KOLLER, 2006).

De acordo com Roudinesco (2003), há três períodos distintos na evolução da família. O primeiro é o da família tida como “tradicional”, sendo esta responsável pela transmissão do patrimônio. Este arranjo familiar era dominado pela autoridade patriarcal, citada no parágrafo anterior, sendo esta autoridade uma adaptação do poder do direito divino, sem possibilidade de modificação. Dessa forma, os pais tinham sob sua responsabilidade a escolha dos casamentos de seus filhos, mesmo em idade precoce, sendo que os filhos não tinham a opção de escolha, tendo que se sujeitar ao que era determinado por seus pais. Em uma segunda fase, situada entre o final de século XVIII até meados do século XX, surge a família dita “moderna”. Esta constituição familiar é baseada no amor romântico, sendo que através do casamento era possível a reciprocidade dos sentimentos e a existência dos desejos carnais. Surge então a divisão do trabalho entre os esposos, com a mulher começando a trabalhar fora do lar. Essa mudança acarretou em uma divisão da atribuição da autoridade sobre a educação das crianças entre os pais e o Estado. Por fim, no século XX, a partir dos anos 60, surge a família “pós-moderna” ou “contemporânea”, aonde a transmissão da autoridade vai se tornando cada vez mais complexa devido a existência das separações, dos divórcios e das famílias reconstruídas. Nesse contexto familiar, as relações têm duração relativa, e o que une principalmente duas pessoas é o interesse em relações de intimidade entre os casais, além da realização sexual. (ROUDINESCO, 2003).

Ainda sobre as mudanças nas configurações familiares, Peres (2006) traz alguns eventos importantes que ocorreram nos últimos cinquenta anos nas famílias brasileiras. A autora cita a importância da aprovação em 1977 da Lei do Divórcio; o surgimento da pílula anticoncepcional e de outras formas de controle feminino da procriação; as mudanças de valores e costumes com relação aos papéis de gênero; além da inserção da mulher no mercado de trabalho. Todas essas mudanças tiveram um papel imprescindível na formação dos novos arranjos familiares.

Além disso, Narvaz e Koller (2006) também discorrem sobre outras modificações históricas, como algumas conquistas femininas que têm relação com as novas configurações familiares. As autoras citam o Código Civil Brasileiro de 1916, que era patriarcal e paternalista e referia a que a mulher casada só poderia

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trabalhar com a autorização de seu marido; referem sobre a possibilidade da mulher votar que ocorreu a partir de 1934; além da influencia da Segunda Guerra Mundial no cotidiano das famílias, onde os homens foram para a batalha e as mulheres tiveram que trabalhar para garantir o sustento de suas famílias.

No seu artigo sobre “A família homoafetiva”, a Desembargadora Maria Berenice Dias reforça que no século XX, pelas regras do Código Civil Brasileiro de 1916, a família aprovada pela lei tinha um padrão conservador, sendo uma entidade patriarcal, hierarquizada, indissolúvel e heterossexual.

No Novo Código Civil Brasileiro, de 2002, que veio em substituição ao Código Civil ainda vigente desde 1916, a família não seria mais governada pelo “pátrio poder, ou seja, pelo poder do pai, como na época feudal, mas pelo pater

familiae, que pressupõe a igualdade de poder entre os membros do casal.”

(NARVAZ e KOLLER, 2006, p. 51).

Portanto, diante de toda a discussão acerca das modificações históricas da família, percebe-se que neste terceiro milênio estamos vivenciando mais uma mudança nas estruturas familiares. A família patriarcal está dando espaço para outros tipos de famílias, que através de um processo de mudança não tem mais como foco apenas os vínculos biológicos entre pais e filhos. Há sim uma maior distribuição entre os poderes e deveres de cada membro familiar, além da modificação dos papéis desempenhados por cada membro. (COSTA, 2007).

Iremos nos aprofundar a seguir em uma discussão referente às configurações familiares contemporâneas e a sociedade.

2.1.2 As famílias contemporâneas e as novas formas de parentalidade

A instituição família sofreu diversas modificações no decorrer da história. Segundo Correa (2001), neste século estamos assistindo a um aumento das recomposições familiares, considerando como entidades familiares as famílias monoparentais, as adotivas, as recompostas por membros de outros casamentos já terminados, e também as famílias homoparentais. A autora relata que dentre esta

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diversidade atual de formas de parentalidade, a chamada simbólica, que envolve laços de filiação e aliança, tem prioridade sobre os vínculos ditos biológicos.

A respeito dos laços que unem uma criança a um adulto, formando uma família, Zambrano (2006) também menciona que na contemporaneidade, estes podem apresentar-se das seguintes formas: através do vínculo biológico, advindo da concepção e de origem genética; através do parentesco, tipo de vínculo que une os sujeitos determinando o seu pertencimento a um grupo; através da filiação, que é o reconhecimento jurídico dessa relação de filiação; e a parentalidade, que é o exercício da função parental, incluindo nessa relação todas as atividades relativas ao parentesco.

Ainda, de acordo com Zambrano (2006), os tipos de vínculos que formam uma família, citados anteriormente, podem estar combinados de diversas formas, e vão depender das escolhas dos sujeitos envolvidos, da cultura em que estão inseridos e também da época. No caso da parentalidade homossexual, no capítulo seguinte serão discutidas as possibilidades de filiação e parentesco das famílias homoparentais.

No caso das famílias chamadas de nucleares ou tradicionais, compostas por pai, mãe e filhos, também se pode perceber que houve alterações no exercício da parentalidade. Hoje podemos notar uma mudança no papel anteriormente concedido às mães de onipotência diante dos filhos, pois também nas famílias nucleares essa responsabilidade vem sendo compartilhada com o pai, com os avós e com outros possíveis membros da família. (AMAZONAS & BRAGA, 2006).

Kamers (2006) reforça que atualmente muitas atividades dentro da família que anteriormente eram definidas como sendo de responsabilidade da mulher, hoje podem e são desempenhadas pelos homens, e vice-versa. Diante desta afirmação, surgem questionamentos sobre a forma como os papéis parentais tem sido vivenciados na contemporaneidade, diante das mudanças nos papéis vivenciados por homens e mulheres e diante das novas formas de constituir-se família, que vem se apresentando no final do século XX e no século XXI.

Diante destas questões, a psicóloga Michele Kamers expõe no seu artigo sobre “As novas configurações da família e o estatuto simbólico das funções parentais” que

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As funções parentais, ao consistirem em funções simbólicas e inscritas na cultura, implicam necessariamente a presença de um outro de “carne e osso” que possa encarná-las; o que pressupõe uma transmissão da cultura e a introdução da criança na ordem societária, portanto, na introdução da criança no campo da palavra e da linguagem. Assim, se a transmissão implica uma ordenação simbólica que delimita lugares, de modo que a categoria dos pais defina diretamente a categoria de filho, parece que atualmente assistimos a um desvanecimento da diferença necessária a esse ordenamento. (KAMERS, 2006)

Principalmente a partir da teoria de Freud, a família, mais especificamente a relação mãe-filho, passou a ser o referencial explicativo para o desenvolvimento psicológico da criança. Os primeiros anos de vida passaram a ter uma grande importância e a família ganhou grande destaque como o ambiente que poderia possibilitar o desenvolvimento de pessoas saudáveis, equilibradas, emocionalmente preparadas. Em contrapartida, a família também se tornou um núcleo capaz de gerar inseguranças e até desvios de comportamento. (CARVALHO, 2002).

No século XXI, a principal mudança com relação às famílias diz respeito às suas outras possibilidades de configurações, diferentes das existentes na época de Freud. Negreiros e Féres-Carneiro (2002) expõem que nas “novas famílias”, as fronteiras entre os homens e as mulheres têm diminuído, e as possibilidades de representação são diversas. As autoras reiteram que, atualmente, vemos mulheres ocupando profissões que anteriormente eram consideradas masculinas; assim como assistimos a homens cuidarem da casa e dos filhos; a mulheres serem chefes de família; a pais e a mães solteiros; a um casal de dois homens ou de duas mulheres; a inseminação artificial e a “produção independente”, e as mais plurais circunstâncias no que se refere a relacionamentos amorosos, familiares e entre gêneros.

Na estrutura subjetiva da família, onde cada sujeito tem o seu papel (por exemplo: de pai, de mãe, de filho), o mais importante não é a orientação sexual dos pais ou o vínculo biológico entre pais e filhos, mais sim o afeto que os une e a forma como essa família vai estar preparada para enfrentar as adversidades da vida. Analisando a família com um foco na sua realidade psíquica, percebe-se que o vínculo sócio-afetivo pode ser mais forte do que o vínculo biológico, pois o amor entre os membros é o que reflete no respeito entre eles. (SILVA JUNIOR, 2005).

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A este respeito dos papéis parentais, a psicóloga Solange Rousset, partindo de pressupostos relacionais sistêmicos, defende que a família é como um sistema, um círculo onde cada membro, independente da idade, tem suas responsabilidades e participação. Dessa forma, na família existem subgrupos, chamados pela autora de subsistemas, com os quais cada membro exerce funções específicas, importantes para o desenvolvimento da família. Em um sistema familiar disfuncional, as funções geralmente são desempenhadas de forma rígida e sem variação na sua forma e nas pessoas que assumem tais tarefas como suas responsabilidades. (ROSSET, 2008).

Além disso, Rosset (2008) relata que na família existem as “funções básicas”. A “função materna não é a tarefa de mãe, é tarefa materna, que pode e deve ser desempenhada por alguém do sistema familiar, que pode ser a mãe, mas não é da mãe”. (ROSSET, 2008, p. 74). Assim, esse papel materno tem relação com as tarefas de alimentar, de zelar, de cuidar, de dar afeto, de fazer um vínculo com a realidade, de proteger.

Já a função paterna faz referência às tarefas de organização, de imposição e ensino de limites e leis, de estruturação. Nesse caso, Rosset (2008, p. 74) também defende que “não é tarefa do pai, é tarefa paterna, que pode ser desempenhada por alguém do sistema familiar, que pode ser o pai, mas não do pai”. O Psicanalista Gley Costa (2007, p. 19) diz que “não são os genitais do pai e da mãe que definem essas funções, mas a forma de agir das pessoas que estiverem ocupando tais lugares, tendo presente que nada supera a importância do amor e do limite na educação de uma criança”. Este autor reforça a idéia de que se um par formado por um homem e uma mulher ou por dois homens ou duas mulheres tiver condições para exercer as funções parentais, a criança criada por este casal tem condições satisfatórias para se desenvolver psicologicamente.

2.2 UNIÕES HOMOAFETIVAS E PARENTALIDADE

Neste capítulo, serão abordadas as temáticas das uniões homossexuais, das famílias homoparentais, além das formas de filiação homoparental e dos papéis parentais neste contexto familiar.

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2.2.1 As Uniões Homoafetivas

Como este trabalho se propõe a caracterizar os aspectos psicológicos de sujeitos oriundo de famílias homoparentais, segundo o discurso de profissionais que atuam junto a este contexto familiar, é relevante trazer uma breve reflexão acerca das uniões homossexuais.

Através das leituras referentes à temática das famílias homoparentais, pode-se perceber que há diversas teorias que versam a respeito da homossexualidade. No decorrer da história, diferentes correntes de saberes buscaram explicações para esta orientação sexual. Algumas teorias trazem elucidações de causas biológicas, como por exemplo, a homossexualidade sendo um padrão hereditário, ou um defeito congênito ou hormonal; outras teorias vêem a homossexualidade como sendo uma conseqüência da inserção de um sujeito em um determinado meio social; ou ainda como o resultado de uma combinação de fatores biológicos e sociais (Futino e Martins, 2006). Porém, neste trabalho não se pretende identificar as causas que levam a escolha homossexual, e sim discutir temáticas que tenham envolvimento com o problema desta pesquisa.

Segundo Girardi (2005, p. 66), “a homossexualidade tida como a atração sexual e afetiva entre duas pessoas do mesmo sexo é um fato que percorre a história da humanidade, enaltecida e tolerada em algumas sociedades e culturas, repreendida e abominada em outras.” A visão a respeito desta orientação sexual também tem sofrido mudanças no decorrer dos tempos, e principalmente no século XXI, estamos assistindo a diversas discussões a este respeito em todos os âmbitos da sociedade.

No século XIX, a homossexualidade era relacionada à imagem de perigo, de crime, e até como uma doença, sendo esta última reforçada pela medicina e pelos preceitos religiosos. (WEREBE, 1998).

De acordo com Costa (2007), o fim da classificação da homossexualidade como doença mental representou o fim de 42 anos de patologização desta opção sexual. Porém, ainda assim, a Igreja Católica permanece com a sua conduta anti-homossexualidade, reforçando o preconceito existente com esta orientação sexual

A este respeito, Zambrano (2006) expõe que a reprovação por parte da sociedade com relação às uniões homossexuais ainda persiste, em grande parte,

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por causa desta influencia religiosa, que considera a homossexualidade como uma união que ofende o caráter sagrado da família. A autora reforça que esta “sacralidade” da família tem como base uma estrutura familiar considerada “natural”, que contempla uma relação de um homem com uma mulher, como pai e mãe, respectivamente, e seus filhos.

Dessa forma, não se pode deixar de mencionar a grande influência das religiões no imaginário popular sobre a família e seu papel enquanto parte constitutiva da sociedade. A este respeito, é importante citar algumas palavras da Igreja Católica, escritas em 2003 e assinadas pelo então Cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI) e pelo arcebispo Ângelo Amato, no documento denominado “Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais”, que reitera que:

O ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e sobre a complementaridade dos sexos propõe uma verdade, evidenciada pela reta razão e reconhecida como tal por todas as grandes culturas do mundo. O matrimônio não é uma união qualquer entre pessoas humanas. Foi fundado pelo Criador, com sua natureza, propriedades essenciais e finalidades. Nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas. Assim se aperfeiçoam mutuamente para colaborar com Deus na geração e educação de novas vidas. [...] a sociedade deve a sua sobrevivência à família fundada sobre o matrimônio. É, portanto, uma contradição equiparar à célula fundamental da sociedade o que constitui a sua negação. (CONGREGAÇÃO, 2003, s.p.).

Pode-se perceber através da citação acima, que até hoje a Igreja Católica mantêm sua doutrina fortemente ligada à família dita tradicional, composta por um homem no papel de pai, uma mulher no papel de mãe, e seus filhos.

Apesar disso, no século XXI há uma maior flexibilidade de relacionamentos, considerando-se além das famílias constituídas por pessoas do mesmo sexo, os casais que se divorciam, formando novas famílias; a união de sujeitos sem o vínculo oficial do casamento; além das famílias monoparentais e dos filhos nascidos fora do casamento, percebendo, assim, que há uma dificuldade de se estabelecer um modelo único de família, como é proposto pela Igreja Católica.

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Dessa forma, compreende-se que, atualmente, a função primordial da família tem sido a de uma vivência de afeto mútuo, deixando para trás a idéia imposta principalmente pela visão “divina” da família, que tinha principalmente a função de procriar. (ARAUJO e OLIVEIRA, 2008).

No livro Novas Famílias: conjugalidade homossexual no Brasil contemporâneo, Luiz Mello (2005) destaca as diferenças essenciais entre casais homossexuais e casais heterossexuais, citando ser o preconceito e a discriminação social que acometem os casais formados por pessoas do mesmo sexo, além da impossibilidade de gerar filhos biológicos por parte dos homossexuais. Porém, o autor enfatiza que gays e lésbicas fazem parte da mesma cultura que os heterossexuais, no que se refere à importância da dimensão afetiva e sexual em suas vidas. Dessa forma, tanto os homossexuais quanto os heterossexuais depositam em seus parceiros amorosos um ideal de conjugalidade.

Carter e McGoldrick (1995) trazem uma reflexão acerca das especificidades encontradas por casais homossexuais, como o possível aumento do entendimento entre os membros do casal, por serem do mesmo sexo e assim haver uma maior possibilidade de identificação entre ambos. Além disso, os casais do mesmo sexo também podem enfrentar dificuldades no que se refere ao preconceito existente e a falta de aceitação que a maioria dos casais homossexuais vivencia em suas famílias de origem e na sociedade em geral; assim como o estabelecimento de uma identidade que não é ou não pode ser exposta publicamente, e também a uma revolta com os heterossexuais. Dessa forma, estas dificuldades podem se apresentar como fatores estressores nas relações homossexuais (CARTER & MCGLODRICK, 1995).

A identidade sexual para o sujeito homossexual não surge como uma opção, principalmente pela dificuldade em assumir-se “diferente” em uma sociedade onde a heterossexualidade é vista como o ideal. Ela surge como uma opção em se viver a sexualidade que repercutiu em toda sua vida. Inicialmente, o indivíduo assume a sua homossexualidade para si, apesar da tentativa de encobrimento dessa realidade ser muito comum. E assim, pode começar a surgir a necessidade de assumir essa identidade para a família, amigos, colegas de trabalho. Para facilitar a sua adaptação nesses meios, os homossexuais podem buscar a discrição, a estereotipia, o sucesso profissional, a independência econômica, um amor para confortar. (SELL, 2006).

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Estudos demonstrados no livro Sexualidade, Política e Educação, de Watabe (1998), descrevem que a homossexualidade aparece em todas as sociedades, apesar das mudanças temporais, e que as normas da sociedade em que estão inseridos não impedem nem facilitam a emergência desta orientação sexual. A autora relata que apesar da homossexualidade não ser mais considerada crime, anomalia, doença, perversão, os discursos moralistas e estigmatizadores ainda permanecem existindo, através de novas maneiras, muitas vezes veladas.

Trazendo uma reflexão acerca da união entre pessoas do mesmo sexo, Junior (2006, p.51) mostra que:

A homossexualidade, em sintonia com as revoluções científicas, com os novos entendimentos sobre orientação afetivo-sexual e em conformidade com os avanços jurídicos, em matéria de direitos humanos, deve ser vislumbrada no plano essencial da constituição humana – assim como as outras manifestações ou variantes do desejo, como a heterossexualidade e a bissexualidade.

O psicanalista Gley Costa (2007), no seu livro “O amor e seus labirintos”, reforça que o indivíduo que é homossexual apenas tem como seu objeto de desejo e/ou fantasias sexuais um sujeito do mesmo sexo, não representando esta preferência nenhuma patologia. O autor reitera que no histórico familiar de um sujeito homossexual pode haver as mesmas possibilidades que o histórico de um sujeito heterossexual, no que se refere a: ter um pai ausente ou um pai presente; mais rígido ou mais carinhoso; ter uma mãe distante ou superprotetora; que seja submissa ao marido ou que possa desvalorizá-lo na frente do filho, podendo diversas situações ter ocorrido no desenvolvimento do sujeito (COSTA, 2007).

Através do exposto, percebe-se que as discussões a respeito da homossexualidade variam das posições mais extremistas e recriminatórias, às mais modernas e transgressoras.

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Conforme tem sido abordado no decorrer deste trabalho, além da família, as formas de filiação também têm sofrido alterações nas últimas décadas. A este respeito, Maria Berenice Dias expõe no seu site, em seu artigo sobre “A família homoafetiva”, que o afeto passou a ser o elemento norteador para a definição dos vínculos parentais neste século XXI.

Dentro destas novas possibilidades de parentalidade e filiação, vem ganhando destaque as famílias homoparentais, que se sustentam em um vínculo de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo. Embora os componentes destas famílias não tenham o poder biológico de procriar, estas configurações familiares também podem ter o desejo de ter filhos, e através de novas tecnologias de fecundidade, das possibilidades de adoção e pela capacidade de seus membros terem filhos individualmente, isto tem se tornado possível (ZAMBRANO, 2006).

Uziel (2002) faz uma reflexão a respeito das diversas possibilidades de pensar a filiação atualmente, questionando se a concepção (enquanto ato biológico) e a filiação (enquanto ato social) têm importância para que essa relação se legitime. A autora traz a idéia da pluriparentalidade, que é uma forma de pensar a parentalidade que “desafia a lógica da primazia do biológico sobre o social, propondo não uma hierarquização ou substituição, mas uma adição”. (UZIEL, 2002, p.33).

Passos (2005) chama a atenção para os desafios que envolvem o desejo dos casais homoafetivos em ter filhos. A autora refere que a impossibilidade dessa união de gerar filhos envolve um trabalho psíquico por parte do casal, pois ambos precisam elaborar a questão narcísica do abandono da sua continuidade biológica e a possibilidade de se submeter a agentes externos para poder gerar filhos. Além disso, a autora diz que a escolha da maneira como esse filho será concebido também envolve um esforço do casal, pois a impossibilidade de gerar poderá trazer um sentimento de incompletude, marcada no desejo que é projetado no filho.

Outro desafio envolvido com a possibilidade de casais homossexuais exercerem a parentalidade, conforme reforça Santos (2004), são alguns mitos comuns na sociedade a este respeito, como, por exemplo, o de que os homossexuais não teriam capacidade de serem bons pais e mães, por serem promíscuos, por poderem influenciar na orientação sexual de seus filhos, dentre outros.

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Para reforçar esta argumentação, muitos autores se utilizaram de fundamentos da teoria psicanalítica, principalmente de Freud e Lacan, para basear seus argumentos políticos e científicos contra o casamento e a possibilidade de parentalidade homoafetiva. Esses autores utilizam algumas noções como a função paterna, a dupla referência de identidade e o dispositivo da diferença sexual como pilares para compreensão da sociabilidade e da cultura, considerando as diferentes possibilidades de filiação e parentesco como uma ameaça. (ÀRAN, 2009).

Essa visão a respeito da homoparentalidade também ocorre em processos de filiação e adoção homoparental, onde por vezes ocorrem situações de constrangimento e posições homofóbicas por parte dos profissionais envolvidos da instância jurídica. (ALFANO, 2007).

Passos (2005) ressalta que, em um processo de filiação, em qualquer configuração familiar, são muito importantes as funções do casal de inserção deles próprios e da criança em uma cadeia simbólica. A autora refere que há uma construção psíquica das representações e afetos, que existem reciprocamente entre os integrantes dessa inter-relação.

A partir do exposto, Passos (2005) acredita que, usando como parâmetro as funções mais universais da família, como a recepção da criança, o seu acolhimento e reconhecimento, e a sua inserção na cadeia psíquica de transmissão, essas funções podem ser constituídas em outras configurações familiares, tornando possível um ambiente em que “se torna plausível a não-diferenciação sexual no triângulo familiar.” (PASSOS, 2005)

A este respeito, Tarnovski (2002) refere que o amor, sendo considerado o denominador comum entre os diferentes vínculos familiares, faz com que pais e mães homossexuais possam ter a possibilidade de deixar de ocupar um lugar de desconfiança com relação à legitimidade de sua parentalidade. O autor reforça que a dedicação dos pais com relação a seus filhos e o seu envolvimento afetivo com os mesmos são os aspectos mais importantes na construção dos vínculos familiares.

De acordo com Ceccarelli (2002), a diferença que as crianças criadas por pais homossexuais vão apresentar das outras crianças vão ser as mesmas que diferenciam qualquer ser humano: as suas particularidades, as suas identificações e as escolhas de cada um. Segundo o autor, todos os modos de filiação apresentarão suas formas de lidar com as angústias vividas, mas, a priori, não se pode determinar que certo tipo de parentalidade e filiação vá ser mais ou menos saudável.

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Visto isso, a seguir será apresentada uma discussão a respeito das teorias psicológicas que versam a respeito do desenvolvimento psíquico dos sujeitos, a fim de fornecer maiores embasamentos para a análise dos dados coletados.

2.3 DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO, SEXUALIDADE E FILIAÇÃO

HOMOPARENTAL

Neste capítulo, buscou-se apresentar algumas contribuições de autores da Psicologia sobre as características do desenvolvimento psíquico dos sujeitos. Além disso, foi feita uma explanação sobre os sujeitos que se desenvolvem em contextos familiares homoparentais, de acordo com a literatura atual referente a esta temática.

Ressalta-se que o entendimento do desenvolvimento psíquico pode ser vislumbrado por diferentes abordagens da Psicologia, sendo um campo de estudo muito vasto e que envolve diversas variáveis. Para discorrer sobre tal tema, diante de termos utilizados pelas diferentes linhas teóricas, decidiu-se por optar pelo termo “desenvolvimento psíquico” para nortear esta discussão. De qualquer forma, devido à amplitude desta temática, pretende-se neste trabalho apenas elucidar alguns pontos dos referenciais teóricos que pudessem estar relacionados com o problema desta pesquisa.

2.3.1 A Psicologia e suas contribuições sobre o desenvolvimento psíquico dos sujeitos

Diversos profissionais ligados as áreas humanas têm elaborado teorias a respeito do processo de desenvolvimento psíquico dos sujeitos. Alguns autores, como Freud, Erickson, Winnicott, Lacan, entre outros, dentro das suas diferentes abordagens, chegaram ao ponto de concordância sobre a importância dos fatores

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