FILOSOFIA
GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
FERNANDA OLIVEIRA TORRES
A diversificação didática e o bemestar na escola
NITERÓI
2016
UFF – UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
FERNANDA OLIVEIRA TORRES
A diversificação didática e o bemestar na escola
Monografia apresentada ao
curso de Graduação em
Ciências
Sociais
da
Universidade
Federal
Fluminense, como requisito
para a obtenção do Grau da
Licenciatura.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª HÉLÈNE CECILE PETRY
NITERÓI
2016
Dedico à minha familia com muito carinho.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por ter guiado minha jornada até aqui e ter permitido que isso seja realidade.
A minha professora orientadora Hélène Petry, pela devida orientação e paciência em tão pouco tempo.
Aos meus pais que me deram suporte durante toda graduação.
A Romulo Lima, que durante a produção desse trabalho esteve do meu lado sempre me dando força.
RESUMO
O presente trabalho objetivou estudar e analisar o bemestar na escola para elucidar como a diversificação didática pode contribuir para o bemestar do aluno. Encaramos essa diversificação didática como uma estratégia para ser adotada na sala de aula que possa contribuir para o bemestar do aluno e então contribuir consequentemente para a aprendizagem. PALAVRASCHAVES: diversificação didática; bemestar; aprendizagem ABSTRACT
This paper aims to present and to analyze the wellbeing in school to show how a didactic diversification can help in the student’s wellbeing. This diversification can be seen as a strategy in the classroom to contribute to the student’s wellbeing, and then improve, consequently, their learning. KEYWORDS: didactic diversification; wellbeing; learning
SUMÁRIO INTRODUÇÃO 6 O BEMESTAR NA ESCOLA NA LITERATURA CIENTÍFICA 8
A DIVERSIFICAÇÃO DIDÁTICA E SUAS CONSEQUENCIAS NOS COLÉGIOS OBSERVADOS 14 CONCLUSÃO 20 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 21 ANEXOS 23
INTRODUÇÃO
Todos nós sabemos das dificuldades encontradas pelos professores de todas as áreas de conhecimento de proporcionar um ensino de qualidade para alunos de todos os níveis. Encontrar estratégias que podem ser tomadas para poder então ultrapassar essas dificuldades é de suma importância.
A diversificação didática e o bemestar na escola são dois aspectos complementares da experiência escolar que podem ser grandes aliados para potencializar o aprendizado dos alunos.
A didática é essencial para o processo de ensinoaprendizado visto que é ela que orienta o professor ao processo de ensino. Quando fazemos uma diversificação na didática utilizando filmes, músicas, dinâmicas, etc. estamos quebrando a rotina da sala de aula, o que deixa os alunos mais ativos e participativos, aumentando seu bemestar, permitindoos fazer parte daquilo, o que leva ao aprendizado.
De acordo com o modelo de Allardt (1989), desenvolvido mais adiante neste artigo, bemestar, ensino/educação e realização/aprendizagem estão interligados. Ensino e educação afetam cada categoria do bemestar e isto está conectado com o aprendizado. Sendo assim, o bemestar dos alunos nas escolas pode contribuir de forma significativa para o processo de ensinoaprendizagem também.
Além do mais, observações feitas com turmas de ensino médio nos estágios obrigatórios no colégio Aurelino Leal e participando do PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) na escola técnica Henrique Lage, ambas em Niteroi, RJ, apoiam
empiricamente o modelo didático supracitado. Nessas práticas pedagógicas, percebemos que quando havia uma diversificação didática, contudo quando eram utilizados os recursos áudiosvisuais, havia uma maior participação e interesse dos alunos.
Assim, a hipótese central deste trabalho é que a diversificação didática, entendida como a incorporação ao cotidiano dos alunos, dentro e fora da sala de aula, de diversos materiais configurações/ambientes, abordagens e recursos pedagógicos introduz o imprevisto e o novo, melhorando o bemestar dos discentes e docentes. Essas alternativas metodológicas que ajudam a quebrar a rotina permitem uma maior participação dos alunos, que se mostram mais engajados, melhorando assim o desenvolvimento e ensinoaprendizagem.
Diante da discussão proposta, temos como objetivo deste trabalho, entender a relação da diversificação didática com o bemestar do aluno e o quanto isso pode ser benéfico para a vida escolar, aprendizagem e o desenvolvimento do aluno. Entendendo isto, saberemos como contornar alguns dos problemas da sala de aula e fazer uso dessa diversificação como uma ferramenta para manter a atenção do aluno e aperfeiçoar seu aprendizado e desenvolvimento. Esperamos assim contribuir para que as aulas de sociologia possam se tornar mais atraentes e melhor aproveitadas pelos alunos, levandoos a compreender mais facilmente as questões propostas pela disciplina, e formando assim cidadãos informados e críticos capazes de pensar autonomamente.
No presente trabalho faremos primeiramente uma revisão bibliográfica com um resumo da literatura científica do bemestar na escola. No contexto da problemática encontrase a discussão em torno do bemestar dos alunos dentro da sala de aula utilizando a teoria de Erik Allardt, onde bemestar é definido tanto no plano das necessidades materiais
quanto das não materiais. Discutiremos o bemestar dentro da escola, sua relação com a diversificação didática e porque ele é de suma importância para o aprendizado e desenvolvimento do aluno.
Na segunda parte do trabalho, analizaremos as observações empíricas realizadas nas turmas de ensino médio e ensino médio técnico respectivamente no Colégio Estadual Aurelino Leal e na Escola Técnica Henrique Lage, mostrando como estas duas questões juntas podem manter a atenção dos alunos levandoos a uma maior participação e consequentemente ao aprendizado.
O
BEMESTAR
NA
ESCOLA
NA
LITERATURA
CIENTÍFICA
A noção de bemestar faz referência ao conjunto das coisas que são necessárias para viver bem. De acordo com Carol D. Riff( 1989) , um indivíduo com um alto índice de bemestar é um indivíduo com a capacidade de autoaceitação, relação positiva em relação aos outros, autonomia, controle do ambiente, propósito na vida e crescimento pessoal.
Dinheiro para as necessidades materiais, saúde, tempo para as relações afetivas e lazer são apenas algumas das questões que constituem o bemestar de uma pessoa. Podese dizer que bemestar significa saúde de uma maneira mais ampla, de maneira ativa e em todos os seus aspectos. Sendo este um conceito muito subjetivo, o bemestar pode ser diferente dependendo de cada indivíduo.
Concepções iniciais de 'bemestar' surgiram como parte de um movimento visando incentivar os governos a considerar uma ampla gama de fatores que contribuem para a má saúde, além da doença ou sua ausência. Na Declaração de AlmaAta de 1978, a saúde é definida como "um estado de bemestar físico, mental e social completo e não meramente a ausência de doença ou enfermidade" (Declaração de AlmaAta URSS, 1978). Desde então, o bemestar vem evoluindo como um conceito global que é geralmente utilizado para descrever a qualidade de vida das pessoas (Rees et al, 2010).
Em um relatório governamental britânico sobre capital mental e bem estar (Government Office for Science, 2008), o bemestar é definido como um estado dinâmico que é reforçado quando as pessoas podem realizar seus objetivos pessoais e sociais e alcançar um senso de propósito na sociedade. No lugar de ser estático, o bemestar emerge de acordo com como as pessoas interagem com o mundo ao redor delas em esferas diferentes de sua vida.
Existe na literatura científica uma distinção entre compreensões do bemestar na infância que adotam uma perspectiva de desenvolvimento e aquelas que adotam a perspectiva dos direitos da criança (Pollard e Lee, 2003). A perspectiva desenvolvimentista tende a incentivar medidas associadas a déficits como a pobreza, a ignorância e a doença física. Embora tais indicadores fossem importantes para começar a ajustar questões de desigualdades e exclusão social que impactam negativamente sobre a saúde e bemestar das crianças, elas podem ignorar os potenciais atributos e pontos fortes das crianças. Onde uma compreensão dos direitos das crianças é central para um conceito de bemestar, indicadores e medidas tendem a se concentrar mais em fatores que proporcionam oportunidades e ajudálos a alcançar suas aspirações, e se
concentrar na qualidade de suas vidas agora, e não apenas no futuro (Morrow e Mayall, 2009).
A psicologia afirma que crianças a partir de 8 anos tem habilidades cognitivas para se expressar e diferenciar suas ideias das de outras pessoas. Devese então valorizar a visão da criança sobre seu estado de saúde. Sabendo das necessidades das crianças, as escolas podem implementar soluções e prevenir situações visto que nesta idade as crianças estão em uma fase favorável à promoção de estratégias de eduação que podem trazer o bemestar desejado a elas. Os resultados da pesquisa “Saúde e bem estar das crianças em idade escolar” (2011) ajudam a planejar estratégias de intervenção em contexto escolar, para empoderamento, apoio relacional de ajuda e promoção de autoestima das crianças. Com isso, pode aumentar o bemestar da criança levandoa a uma partipação mais ativa dentro da escola. (Noronha e Rodrigues, 2011).
De acordo com Erik Allardt, bemestar é um estado no qual é possível um ser humano satisfazer suas necessidades básicas. No sistema indicador de bemestar, tanto as necessidades materiais quanto as não materiais são consideradas. O autor divide essas necessidades em três categorias:
● Ter ( Having) – que se refere ao que é material e impessoal. Ex.: Salário, renda,
ou bens, e recursos econômicos e materiais, condições de emprego, nutrição, educação etc.
● Ser ( Being) – referese às necessidades para crescimento pessoal, integração
com a sociedade e viver em harmonia com a natureza.
● Amar ( Loving) – diz a respeito das necessidades de se relacionar com outras
Cada ser humano vive numa sociedade que impacta profundamente sua vida. Para as crianças e os adolescentes, a escola é o cenário principal para a promoção da saúde. Levando esses aspectos em consideração, o seguinte modelo conceitual de bemestar na escola (figura1) foi definido baseado na concepção de bemestar do autor. Este modelo foi desenvolvido para caber no ambiente escolar, aplicando a literatura sobre saúde e avaliação da escola.
Figura 1 Modelo de bemestar na escola.
Fonte: KONU Anne e RIMPELLÄ Matti Konu, 2002
Neste modelo, bemestar, ensino/educação e realizações/aprendizagem estão interligados. Ensino e educação afetam cada categoria do bemestar e isto está conectado com o aprendizado.
Experiências positivas de aprendizagem aumentam a autorrealização. O ensino adequado com orientação e incentivo produz estas experiências para diferentes tipos de alunos. Oportunidades para atividades de lazer na escola e também uma aproximação com a natureza agem como um contrapeso para trabalhar e, assim, sustentar a autorrealização deixando o aluno mais motivado o que leva à manutenção do bemestar do aluno na escola. Com isso em mente, concentraremos então nossa atenção ao bemestar na escola. As categorias do bemestar na escola:
● Condições escolares (having)
Condições escolares incluem o ambiente escolar físico em torno da escola e o ambiente dentro da escola também (segurança, ventilação, temperatura, etc.). Outro aspecto lida com o ambiente de aprendizagem (currículo, tamanho dos grupos, horários, etc.) e o terceiro aspecto inclui serviços aos alunos (merenda escolar, cuidados com a saúde, etc).
● Relacionamentos sociais (loving)
Referese ao ambiente social de aprendizagem, relação alunoprofessor, relação com outros alunos, dinâmicas de grupo, tomadas de decisões na escola e a atmosfera de toda organização escolar. O clima escolar e o clima de aprendizagem têm seu efeito sobre o bemestar do aluno na escola. Um bom relacionamento e uma boa atmosfera são desejaveis em si, e ainda podem ter um impacto positivo sobre o desempenho escolar dos alunos.
“Being” referese a cada pessoa ser respeitada como uma parte importante do todo. No contexto escolar, é a forma como são oferecidos meios para a autorealização. Cada aluno deve ser igualmente considerado um membro importante para a comunidade escolar participando nas tomadas de decisões sobre sua educação formal e outros aspectos de sua vida escolar.
Oportunidades para melhorar o conhecimento e as habilidades enfatizando o campo de
interesse do aluno são de suma importância, pois as experiências de aprendizagem positivas podem aumentar a autorealização.
● Estado de saúde (health)
O estado de saúde é visto no seu sentido conciso: a ausência de doença ou efemeridade. Compreende sintomas físicos e mentais, resfriados comuns ou crônicos e outras doenças. A saúde também é uma ferramenta importante através da qual outras partes do bemestar pode ser alcançada. Entretanto, é preciso lembrar que, por exemplo, uma pessoa com uma doença crônica pode “estar bem” levando em consideração as outras categorias do bemestar.
Apesar do conceito de bemestar ser relativamente recente, vemos que a importância de fatores subjetivos e emocionais, como as relações sociais, já estavam presentes em teorias educacionais mais antigas, como a teoria de aprendizado sóciohistóricocultural de Vygotsky. Segundo o autor a origem das mudanças que ocorrem nos seres humanos, ao longo do seu desenvolvimento, está intrinsecamente ligada às interações que ocorrem entre o indivíduo e a sociedade, a sua cultura, sua história de vida e também das situações de aprendizagem que levam a este desenvolvimento durante toda sua vida. Ou seja, para o desenvolvimento do indivíduo as interações com outro ser social são, além
de necessárias, essenciais. Vygotsky verificou então que “a verdadeira trajetória de desenvolvimento do pensamento não vai ao sentido do pensamento individual para o socializado, mas do pensamento socializado para o individual” (Vygotsky, 1987 p.22)
A partir disso, o psicólogo, percebeu que o pensamento não é formado com autonomia e independência e sim sob condições determinadas, sob a mediação dos signos e dos instrumentos culturais que estão acessíveis histórica e socialmente. Assim,
[...] o processo de mediação, por meio de instrumentos e signos, é fundamental para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, distinguindo o homem dos outros animais. A mediação é um processo essencial para tornar possível atividades psicológicas voluntárias, intencionais, controladas pelo próprio indivíduo (OLIVEIRA, 1997, p. 33).
Sabemos que existem inúmeros motivos para o desinteresse por parte dos alunos numa sala de aula ou até o abandono da escola. De acordo com a pesquisa ‘Motivos da Evasão escolar’ da Fundação Getúlio Vargas, coordenada por Marcelo Neri(2009), a evasão escolar ocorre em 40,3% por falta intrínseca de interesse. O que deveria ser feito então para que esse numero diminuisse? A diversificação didática pode ser uma estratégia adotada para que assim eles possam alcançar o bemestar, e consequentemente um maior interesse e atenção na aula.
A
DIVERSIFICAÇÃO
DIDÁTICA
E
SUAS
CONSEQUENCIAS NOS COLÉGIOS OBSERVADOS
A didática tem um papel fundamental no trabalho do professor sendo ela a responsável por viabilizar ao professor a capacidade de formular seus objetivos. A Didática é uma disciplina teóricoprática que pretende auxiliar o professor “em todos os elementos constitutivos da dinâmica escolar, quais sejam: a reflexão pedagógica necessária à implementação de um projeto educativo, com suas concepções explicitadas através de seus planejamentos e efetivadas através de sua dinâmica cotidiana” (Melo; Urbanetz, 2008, p. 152)
A diversificação didática nada mais é do que a tentativa de ruptura com um modelo tradicional e engessado. São as alternativas metodológicas utilizadas pelo professor que podem quebrar a rotina dentro de uma sala de aula como, por exemplo, a exibição de filmes ou documentários para que através deste possam discutir algum assunto do programa.
Foram observados dois colégios localizados em Niterói, RJ. O primeiro foi o Colégio Estadual Aurelino Leal que é localizado no bairro do Ingá (mapa no anexo1), um bairro nobre residencial da zona sul do município de Niterói, de classe média à classe média alta. Também existe no bairro uma comunidade de baixa renda, o Morro do Palácio.
É um colégio considerado tradicional no bairro devido a sua riquíssima história. O público alvo do colégio são estudantes do primeiro ao terceiro ano do ensino médio, numa faixa etária de alunos entre 1518 anos, com alunos de classe baixa e média.
O colégio no turno da manhã era somente para o ensino médio, à tarde para ensino fundamental e a noite para educação de jovens e adultos. Foram assistidas às aulas de sociologia nas turmas do 1º, 2º e 3º ano do Ensino Médio. Onde as turmas de 1º ano tinham acesso a um tempo de 40 minutos de sociologia e as de 2º e 3º ano dois tempos
de 40 minutos cada. Tivemos a oportunidade de acompanhar dois professores neste colégio, o Professor Bruno e a professora Leticia (nomes ficticios).
No primeiro semestre de 2013 foram assistidas às aulas do professor Bruno. As aulas eram ministradas de forma descontraída, o conteúdo era passado através de aulas expositivas concatenadas às aulas com a utilização do recurso audiovisual que no caso desse colégio era em grande maioria a utilização do datashow para passar filmes e/ou documentários.
O professor trazia todo o conteúdo para a realidade dos estudantes e isso fazia com que houvesse uma maior participação dos mesmos. Fazendo a utilização dos filmes, era possível mostrar na prática tudo o que haviam visto em aula, fazer a contextualização do conteúdo.
Em uma aula foi exibido o documentário “ A sombra da Marquise ”, sobre moradores de rua, todos os alunos – inclusive os mais agitados e desinteressados assistiram atentamente ao documentário e ao final, no momento do debate sobre o tema, tiveram várias falas dos alunos. Não foi como numa aula expositiva onde só o professor falava. Aquilo chamou a atenção dos alunos e houve então uma maior participação. Um deles trouxe o exemplo de um morador de rua que vivia próximo da escola e como as pessoas o ignoravam seja por medo ou indiferença. Ouve também outro momento onde foi passado o documentário “ Hiato” que mostra quando um grupo de manifestantes organizou uma ocupação em um grande shopping da zona sul carioca. Mostrando claramente a desigualdade e como esses manifestantes eram tratados nas lojas quando entravam para olhar as roupas. Muitos alunos se identificaram com algumas situações
mostradas e relataram o que já tinham passado quando iam ao shopping com o uniforme da escola, por exemplo.
O professor passou ainda o documentário “Choque” que mostra o conflito diário entre
os camelôs e a guarda municipal, onde a maioria se mostrou indignada pela forma que a guarda municipal muitas vezes tratou os camelôs no video e se posicionaram a favor dos camelôs.
Pudemos observar que quando essas atividades eram encerradas os alunos tinham o desejo de opinar, de contar experiências vividas por amigos, familiares ou por eles mesmos. Ou seja, quando era utilizado algum recurso para uma diversificação didática que tornasse a aula um pouco mais atrativa daquela aula endurecida e expositiva havia uma maior participação.
No semestre seguinte a professora Letícia foi acompanhada em turmas de primeiro, segundo e terceiro ano do ensino médio. A professora também tinha um jeito descontraído de ministrar as aulas. Conseguia passar através de filmes curtos, utilizando a música e trabalhos de colagem, o conteúdo de suas aulas (sobre violência, desigualdade e condições desiguais, preconceito, cultura e diversidade etc.).
Quando a professora falava sobre diversidade, passou um trabalho em grupo onde os alunos tinham que achar uma música que falasse de alguma forma sobre o tema. Alunos que não mostravam interesse nenhum pela matéria se engajaram na busca pela música utilizando a internet do celular, apresentaram a música cantando e ajudando os outros grupos (que em alguns casos tiveram vergonha de cantar). Em outra aula a professora passou um trabalho de colagem sobre a desigualdade. Uma aluna achou uma imagem onde tinha um prédio de luxo e uma favela divididos com um muro alto e muitos fios de
alta voltagem. Ela ficou olhando a imagem e disse somente: “Caramba!”, parecendo abismada com o que via. Percebemos que a atividade trouxe uma grande reflexão a todos e que muitos se identificaram com as imagens achadas por eles.
A Escola Técnica Estadual (ETE) Henrique Lage é referência na formação Técnica em Niterói. A escola compõe a rede de ensino da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), vinculada à Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia. Com mais de dois mil alunos nos cursos Técnicos de Edificações, Eletrônica, Eletrotécnica, Construção Naval e Máquinas Navais, nas modalidades concomitantes e subsequente ao Ensino Médio, a ETE Henrique Lage está instalada no Centro de Educação Tecnológica e Profissionalizante (Cetep) Barreto (mapa no anexo 2).
As aulas do professor Daniel foram acompanhadas em turmas de primeiro, segundo e terceiro ano do ensino médio. As aulas eram no turno da manhã, no entanto havia alguns dias em que os alunos tinham algumas aulas à tarde por conta do número de matérias maior, já que tinham as matérias do técnico também.
Nas aulas de sociologia, na grande maioria das vezes, era feito o uso dos recursos audiovisuais para passar filmes e/ou documentários. A primeira atividade com filme que acompanhamos foi quando o professor passou o filme “ Tempos Modernos ” e depois houve uma roda de discussão sobre o tema.
Teve uma aula em que estavam se preparando para uma dinâmica de grupo, e uma aluna foi questionada se gostava das aulas de sociologia e a resposta foi que “nesse ano sim porque no ano passado as aulas do outro professor eram chatas, só tinham coisas para copiar do quadro.” Notamos que as aulas eram consideradas interessantes em grande para pela diversificação didática utilizada pelo professor.
Houve também o dia em que foi promovido um festival de curtas, onde foram exibidos
em cada turma alguns curta metragens selecionados para promover uma discussão sobre alguns dos temas do currículo mínimo. Os alunos assistiram aos seguintes curtas: Eu não quero voltar sozinho; Leveme para sair; Eu machista; Food Lunch; Love is all you need; O emprego; Vida Maria; Vista minha pele ; e após os curtas houve um debate sobre cada um. Percebemos que a maioria absoluta se engajou na atividade prestando atenção nos filmes e participando do debate depois, mais do que quando havia uma aula expositiva sem a utilização dos recursos.
Após o festival de curtas, o professor passou um trabalho em que os alunos tinham que escolher um dos temas abordados nos curtas e então apresentar de alguma forma, seja por slides, texto, seminário, etc. E o que aconteceu foi que quase todos os grupos apresentaram de forma diversificada. Um dos grupos escreveu uma poesia, no outro grupo os alunos fizeram um Rap e cantaram para a turma, o outro eles fizeram um vídeo onde falavam e mostravam a rotina dos trabalhadores. Percebemos então que os estudantes não só se interessavam por aulas assim como também gostavam de apresentar seus trabalhos dessa forma, havia sempre imagens, sons e vídeos presentes na sala de aula.
Visto tudo isso, podemos afirmar que as observações confirmaram que quando esses recursos são utilizados na sala de aula para se obter uma diversificação didática eles são capazes de potencializar o processo de ensinoaprendizagem, promover o bemestar e garantir um maior interesse do aluno na aula.
CONCLUSÃO
É preciso a interação com o meio em que se vive para poder falar sobre bemestar e consequentemente em desenvolvimento. Vimos que bemestar, ensino e aprendizagem estão interligados, exercendo então uma influência entre si. Sendo assim, o bemestar contribui para o processo de ensinoaprendizagem.
Foi visto que a diversificação didática pode ser adotada como uma estratégia para mudar a rotina da sala de aula. Tendo uma diversificação didática na escola com a exibição de filmes ou documentários se faz presente a possibilidade de trazer a realidade dos alunos para dentro da sala aula, contextualizando a aula, o aluno se sente parte disto visto que a tecnologia e as midias fazem parte de seu paradigma e estimulado a participar e colaborar com a aula de maneira efetiva levandoo ao desenvolvimento e contribuindo para o seu bemestar.
De acordo com o texto "Documentos não escritos na sala de aula" de Circe Bittencourt:
"Objetos de museus que compõem a cultura material são portadores de informações sobre costumes, técnicas, condições econômicas, ritos e crenças de nossos antepassados. Essas informações ou mensagens são obtidas mediante uma 'leitura' dos objetos, transformandoos em 'documentos'.
Imagens diversas produzidas pela capacidade humana também
nos informam sobre o passado das sociedades, sobre suas sensações, seu trabalho, suas paisagens, caminhos, cidades, guerras. Qualquer imagem é importante, e não apenas aquelas produzidas por artistas[...]
[...] A música erudita ou a chamada "música popular", que no Brasil integra a nossa cultura tão fortemente e é, no dizer de Marcos Napolitano, "a tradutora dos nossos dilemas nacionais e veículo de nossas utopias sociais"(2002, p. 7), completam apresentação dos 'documentos' não escritos que podem ser transformados em materiais didáticos preciosos na constituição do conhecimento histórico escolar" (BITTENCOURT, 2004)
Os filmes, documentários, as imagens ou músicas são os documentos não escritos dentro de uma sala de aula. Eles funcionam como tradutores dos nossos dilemas. Os alunos conseguem perceber em seu cotidiano de forma clara e rápida, os questionamentos e/ou críticas que esses documentos não escritos queriam e querem passar. Utilizar músicas para debater algum tema, concatenar aulas expositivas com imagens para mostrar alguma realidade, dinâmicas de grupo como exercício de fixação ou avaliativo são algumas das formas de conseguir a diversificação didática consequentemente uma maior atenção e bemestar dos alunos e então contribuir de forma efetiva para o processo de ensinoaprendizagem.
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ANEXOS
Anexo 1Anexo 2
(mapas retirado do site https://maps.google.com.br/)