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III-100 PROPOSTA DE GESTÃO SUSTENTÁVEL DOS RESÍDUOS SÓLIDOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL MO MUNICÍPIO DE FORTALEZA.

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23º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental

III-100 – PROPOSTA DE GESTÃO SUSTENTÁVEL DOS RESÍDUOS

SÓLIDOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL MO MUNICÍPIO DE FORTALEZA.

Viviane de Sena Barros

Mestre em Engenharia Civil, área de concentração em Saneamento Ambiental, pela Universidade Federal do Ceará.

Marisete Dantas de Aquino(1)

Doutor em Meio Ambiente/Recursos Hídricos. Professora Adjunto do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Ceará.

Suetônio Mota

Engenheiro Civil. Doutor em Saúde Ambiental. Professor Titular do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Ceará.

Endereço(1): Rua Brigadeiro Vilela, 199 – Aerolândia – Fortaleza – CE - CEP: 60.850/780 – Brasil – Tel: (085)

3227.39.14 / FAX: (085) 4008 96.27 - e-mail: [email protected] RESUMO

O objetivo principal deste trabalho consiste na elaboração de propostas que contribuam para o desenvolvimento de uma gestão sustentável dos resíduos sólidos da construção civil, mais especificamente para os resíduos oriundos de novas construções, reformas e demolições de antigas estruturas. As propostas elaboradas baseiam-se no princípio dos 3R’s, visando a redução, a reutilização e a reciclagem de materiais. Além disso, tentam estabelecer os papéis dos diferentes agentes sociais envolvidos tanto no processo de geração como no manejo dos resíduos da construção civil. Deve-se mencionar que essas propostas são o resultado do diagnóstico do atual sistema de gerenciamento dos resíduos da construção civil produzidos na cidade de Fortaleza, assim como do estudo dos resultados de experiências nacionais de gestão diferenciada para estes resíduos. Além das propostas, este trabalho contém muitas informações sobre os resíduos da construção civil e sobre o processo de reciclagem destes resíduos. Também é possível encontrar o resumo de experiências desenvolvidas em alguns países e cidades sobre a reciclagem dos resíduos da construção civil, mostrando que esta prática pode constituir uma alternativa política e ecologicamente correta, além de economicamente viável.

PALAVRAS-CHAVE: Resíduos da Construção Civil – Reciclagem – Desenvolvimento Sustentável –

Impactos Ambientais.

INTRODUÇÃO

A questão ambiental está cada vez mais sendo discutida no mundo inteiro, evidenciando que, atualmente, a conservação do meio ambiente tornou-se um dos maiores desafios a serem enfrentados pela humanidade na busca do desenvolvimento sustentável.

Dessa forma, nos próximos anos caberá a sociedade reduzir o consumo de energia, reduzir a emissão de poluentes atmosféricos, reduzir o consumo de recursos naturais, especialmente os não-renováveis, bem como minimizar a produção de resíduos sólidos, entre outros.

No que diz respeito à produção de resíduos sólidos, verifica-se que ela é fortemente influenciada por alguns fatores, como: o crescimento populacional, o processo acelerado de urbanização e o desenvolvimento tecnológico.

O grande volume de resíduos produzidos diariamente tornou-se um dos principais problemas das administrações municipais. As prefeituras precisam gerenciar estes resíduos adequadamente para que não acarretem problemas ambientais, sanitários, sociais e econômicos vindo a afetar a população. (XAVIER; ROCHA, 2001).

Nesse contexto, menção especial deve ser feita ao desenvolvimento da indústria da construção civil, que provoca o aumento no consumo de energia, de matérias-primas não-renováveis e aumenta a produção de

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resíduos. Os resíduos provenientes da construção civil, ou simplesmente o entulho, são parte integrante dos resíduos sólidos urbanos (RSU) e merecem atenção especial, visto que são resíduos produzidos em grande quantidade. Além disso, verifica-se cada vez mais, a falta de áreas disponíveis para a disposição correta desses resíduos, assim como dos RSU produzidos nas cidades de médio e grande porte.

Atualmente, em alguns países Europeus é economicamente possível reciclar cerca de 80 a 90% de todos os resíduos de construção e demolição e que muitas tecnologias de demolição e reciclagem são geralmente fáceis de implantar e controlar.

É importante ressaltar que a de entulho é tão antiga quanto à própria atividade da construção civil. Há relatos sobre cidades que depois de guerras foram reconstruídas com seus próprios escombros, como ocorreram em Londres, Berlim e Varsóvia, logo após a Segunda Guerra Mundial, período em que ocorreu o uso significativo dos resíduos de construção e demolições (RCD), motivado pelo desenvolvimento da tecnologia de reciclagem destes resíduos.

METODOLOGIA

O procedimento metodológico aplicado neste estudo consistiu basicamente no levantamento bibliográfico acerca do tema e coleta de dados em fontes documentais, para posterior análise e elaboração de propostas que possam contribuir para o desenvolvimento de uma gestão sustentável dos resíduos sólidos da construção civil no município de Fortaleza.

Fonte: Secretaria Municipal de Infraestrutura e Controle Urbano (SEINF). Fortaleza, 2003.

Figura 1 - Mapa de Fortaleza

Para fundamentar o estudo proposto neste trabalho, escolheu-se o município de Fortaleza por ser um grande centro urbano, produzindo, portanto, uma grande quantidade de resíduos sólidos, dentre os quais destaca-se o entulho da construção civil, objeto de estudo desta pesquisa.

Como qualquer outra grande capital brasileira, Fortaleza possui problemas na gestão dos resíduos sólidos que produz, destacando-se, por exemplo, a falta de espaço físico para a correta disposição final dos resíduos sólidos urbanos (RSU).

Para avaliar a situação do município de Fortaleza, no que diz respeito à gestão do entulho da construção civil, realizaram-se visitas a EMLURB (Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização), mais precisamente nos seguintes setores: Departamento Técnico de Urbanização (DTU) e no setor de Fiscalização.

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No DTU foi possível coletar informações gerais sobre a gestão do entulho produzido em Fortaleza, como por exemplo:

- relação das principais empresas licenciadas pela EMLURB, que atuam na coleta particular do entulho de Fortaleza, visando uma posterior consulta para o recebimento de novos dados como: quantidade de entulho coletado ao final de cada ano por cada empresa de coleta, e o local onde o entulho coletado é normalmente encaminhado;

- quantidade de resíduos de origem domiciliar e da construção civil coletados pela Prefeitura, tornando possível estimar a quantidade de entulho produzido em Fortaleza e compara-la com a quantidade de resíduos domiciliares, que possuem a maior participação nos resíduos sólidos urbanos produzidos neste município.

No setor de Fiscalização da EMLURB foi possível quantificar o número de notificações realizadas nos últimos anos (2001 e 2002), por disposição irregular de resíduos sólidos no ambiente urbano. Nesta etapa da pesquisa foi possível verificar a quantidade de disposições irregulares de entulho, assim como de outros tipos de resíduos, que contribuem para aumentar os problemas de saneamento básico de Fortaleza.

Além da EMLURB, outros órgãos como a SEMAM (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Serviços Urbanos) e a SEMACE (Superintendência Estadual do Meio Ambiente - Ceará ) foram consultadas a fim de investigar a existência de locais licenciados para o recebimento do entulho gerado em Fortaleza.

Nesse contexto, deve-se mencionar as visitas realizadas a USIFORT, empresa privada que recebeu em novembro de 2003 a licença para instalação de uma usina de reciclagem de entulho em Fortaleza, após a aprovação do Relatório de Controle Ambiental e Plano de Controle Ambiental pela SEMAM. Esta usina localiza-se na BR-116 (Km – 06), em frente ao prédio da Polícia Rodoviária Federal (PRF). O objetivo desta usina é servir de base para o recebimento do entulho gerado em Fortaleza, e proceder com a reciclagem deste resíduo visando à produção de materiais de construção a um baixo custo.

Através das informações obtidas junto a EMLURB, SEMAM, SEMACE, empresas que atuam na coleta particular de entulho, assim como da USIFORT, empresa que pretende operar uma usina de reciclagem de entulho em Fortaleza, foi possível avaliar a gestão dos resíduos da construção civil produzidos no município, identificando suas principais deficiências.

Por fim, algumas medidas foram propostas para a gestão do entulho visando minimizar os impactos provocados pelo descarte clandestino deste resíduo contribuindo, conseqüentemente, com o desenvolvimento sustentável do município.

RESULTADOS

• Gerenciamento dos resíduos da construção civil gerados em Fortaleza

Um dos principais problemas no gerenciamento dos resíduos da construção em Fortaleza reside na inexistência de áreas licenciadas pela prefeitura para o recebimento do entulho oriundo de construções e reformas, contribuindo para a proliferação de pontos irregulares de depósito deste resíduo.

Além desse fato, existem muitos terrenos baldios sem muro que facilitam os descartes clandestinos de entulho, assim como de outros resíduos.

Adicionalmente a esta situação, menção especial deve ser feita à falta de uma fiscalização atuante e eficaz, que iniba os descartes clandestinos, não só de entulho, como também de toda sorte de resíduos sólidos urbanos.

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Fonte: SEMAN, 2003

Figura 2 – Ponto de disposição irregular de entulho próximo a Av. Abolição, Fortaleza –CE, 2003. Como os resíduos da construção civil são produzidos, geralmente, em grande quantidade, a coleta fica a cargo do próprio gerador. Existem algumas empresas cadastradas na EMLURB que exercem esta coleta. A quantidade de entulho coletado varia de empresa para empresa, dependendo do número de contêineres e caminhões que cada uma possui.

Geralmente, um contêiner possui uma capacidade de armazenamento de 4.2m3 e pode ser alugado por R$ 40.00, permanecendo sete dias no local onde os resíduos são gerados. Ao final deste período, os contêineres são removidos por caminhões e encaminhados aos locais onde estas empresas realizam seus bota-fora, normalmente, em terrenos de terceiros para fazer a regularização do relevo.

Verifica-se também a ação de pequenos coletores, os chamados carroceiros, que dotados de baixa capacidade de deslocamento, acabam descartando o entulho coletado em locais inadequados como terrenos baldios, ruas de periferia, margens de rios, entre outros locais, podendo gerar pontos de atração para outros tipos de resíduos, contribuindo para a proliferação de vetores de doenças, comprometendo elementos do sistema de drenagem, sem falar na poluição visual e nos custos adicionais na limpeza urbana para promover a remoção desses resíduos.

• Estimativa da quantidade de resíduos da construção civil gerados no município

Os dados aqui apresentados foram obtidos através de consultas realizadas junto a EMLURB (Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização) e nas duas maiores empresas que atuam na coleta particular de entulho produzido em Fortaleza. (Ver Tabela 1).

Vale salientar, que o motivo pelo qual somente duas empresas de coleta de entulho foram consultadas, reside no fato de que tais empresas além de serem as principais neste setor, são as únicas que possuem dados arquivados desde o ano 2000, enquanto as demais empresas, de pequeno porte se comparadas com as duas que participaram da análise, não dispõem destes dados.

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*Adotou-se para o entulho uma massa unitária de 1.2 t/m3 (PINTO, 1999)

Ano Agente responsável Nº. contêiners Volume do Volume Quantidade Pela coleta de entulho contêiner (m3) Total (m3) Total (t/ano)

Empresa A 6003 4,2 25.212,60 30.255,12 2000 Empresa B 6000 4,2 25.200,00 30.240,00 Prefeitura (EMLURB) 104.393,00 Total (t/ano) 164.888,12 Empresa A 6757 4,2 28.379,40 34.055,28 2001 Empresa B 7600 4,2 31.920,00 38.304,00 Prefeitura (EMLURB) 104.085,00 Total (t/ano) 176.444,28 Empresa A 7521 4,2 31.588,20 37.905,84 2002 Empresa B 9300 4,2 39.060,00 46.872,00 Prefeitura (EMLURB) 88.601,00 Total (t/ano) 173.378,84 Média (t/ano) 171.570,41

Tabela 1 – Estimativa da quantidade de resíduos da construção civil (entulho) coletados em

Considerando que o período de atividade dos coletores é de 26 dias ao mês, temos que a provável remoção diária de entulho em Fortaleza é de aproximadamente 550t/dia. Portanto, considerou-se a média do entulho coletado pela Prefeitura e pelas duas maiores empresas de coleta que são credenciadas na EMLURB, totalizando cerca de 171.570,41 t/ano, como sendo a provável quantidade de entulho gerado no município de Fortaleza, tomando como referência os dados dos últimos três anos (2000, 2001 e 2002). (ver figuras 2 e 3).

0,00 20.000,00 40.000,00 60.000,00 80.000,00 100.000,00 2000 2001 2002 ano T oneladas

Empresa A Empresa B Prefeitura

Figura 3 - Quantidade de entulho coletado segundo cada agente responsável pela coleta, em Fortaleza, Ceará. 2000/2002.

Apesar da coleta e disposição final dos resíduos da construção civil serem de inteira responsabilidade do gerador, verifica-se em Fortaleza que a coleta da maior parcela do entulho de obras acaba sendo realizada pela Prefeitura, na tentativa de remover tais resíduos quando dispostos irregularmente pela cidade. Isto evidencia a grande quantidade de entulho descartado em locais inadequados como passeios públicos, canteiros centrais, ruas de periferia, terrenos baldios, margens de rios, encostas...

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0,00 20.000,00 40.000,00 60.000,00 80.000,00 100.000,00 120.000,00 2000 2001 2002 ano Tone la da s

Empresa A

Empresa B

Prefeitura

Figura 4 - Evolução da coleta de entulho segundo os agentes envolvidos neste processo

Verifica-se pelo gráfico que a quantidade de entulho coletada pelas duas empresas vem progressivamente aumentando, enquanto que a quantidade coletada pela Prefeitura apresentou um declínio. Todavia, a quantidade coletada pela Prefeitura ainda permanece bem superior a que é coletada pelas duas empresas. Essa quantidade de entulho disposto irregularmente e que a Prefeitura através de medidas corretivas acaba recolhendo, pode ser atribuída a ação indiscriminada dos próprios geradores, devido a uma ineficiente fiscalização, assim como pela ação de pequenos coletores de entulho, que dotados de baixa capacidade de deslocamento, acabam depositando o entulho de modo irregular no ambiente urbano, ocasionando sérios problemas para a cidade.

• Comparativo entre a quantidade de resíduos de origem domiciliar e da construção civil gerados em

Fortaleza

Segundo pesquisa realizada pelo IPLANCE (2000), cerca de 45%, ou seja, a maior parcela dos resíduos produzidos nos municípios cearenses é de origem domiciliar. Dessa forma, baseando-se nesta informação e, adicionalmente, devido à falta de dados confiáveis que permitissem estimar o total de resíduos sólidos (domiciliar, comercial, hospitalar, entre outros) produzidos em Fortaleza, adotou-se o resíduo domiciliar como parâmetro para possibilitar uma comparação com a quantidade de entulho produzido na capital cearense.

Tabela 2 – Comparativo entre a produção de resíduo domiciliar e da construção civil na cidade de Fortaleza

Tipos de Quantidade Média

Resíduos (t/ano) (t/ano) 2000 2001 2002

Domiciliar 501.917,70 500.134,49 521.385,28 507.812,49 Const. Civil 164.888,12 176.444,28 173.378,84 171.570,41

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Pelo exposto, percebe-se que a quantidade de entulho coletado representa cerca de 34%, em massa, da quantidade de resíduos de origem domiciliar gerado em Fortaleza.

0,00 100.000,00 200.000,00 300.000,00 400.000,00 500.000,00 600.000,00 2000 2001 2002 ano T onelada Domiciliar Entulho

Figura 5 – Comparativo entre a produção de resíduo domiciliar e da construção civil na cidade de Fortaleza

• Provável taxa “per capita” de geração de resíduos de origem domiciliar e da construção civil em

Fortaleza

Tomando como base os dados da tabela 2, foi possível estimar taxas per capita de geração de resíduos de origem domiciliar e da construção civil para a cidade de Fortaleza, apresentadas na tabela 3.

Valores adotados:

* População de Fortaleza = 2.000.000 habitantes

** Período de atividade dos agentes coletores = 26 dias ao mês

*** Média da quantidade de resíduos de origem domiciliar e da construção civil coletados considerando os anos de 2000, 2001 e 2002

• Determinação do número de notificações por disposição irregular de resíduos sólidos urbanos no

município

Outro item analisado nesse estudo foi à determinação do número de notificações por disposição irregular de RSU na cidade de Fortaleza, com o objetivo de estimar qual a participação das notificações por disposição irregular de entulho, no universo de todas as notificações aplicadas nos anos 2001 e 2002. Vale salientar, que esses dados foram obtidos junto ao setor de fiscalização da EMLURB.

Provável taxa per capita de geração de resíduos Média*** (t/ano) Tipos de resíduos (Kg/hab.ano)* (Kg/hab.dia) ** Domiciliar 507.812,49 237 0,76 Const. Civil 171.570,41 80 0.26

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Tabela 4 - Notificações por disposição irregular de RSU na cidade de Fortaleza

Número de notificações anuais Motivo da

2001 (%)

Notificação 2002 (%)

Disposição irregular de entulho 671 26,40 503 18,91

Disposição irregular de outros resíduos * 1499 58,97 1388 52,18

Advertências ** 372 14,63 769 28,91

Total 2542 100,00

* Disposição irregular de outros resíduos = Somatória das notificações isoladas

provocadas por disposição desordenada de lixo domiciliar, ou comercial, ou saúde, ou restos de podação...

** Advertências = São efetuadas quando vários tipos de resíduos (lixo domiciliar,

entulho, restos de podação...) são descartados em um mesmo local.

Pelos gráficos representados nas figura 5 e 6, verifica-se que o número de notificações por disposição irregular de entulho em Fortaleza é bem significativo, podendo sofrer um incremento se considerarmos que parte das advertências são provocadas pelas disposições irregulares desses resíduos.

2660 100,00

Figura 6 – Distribuição das notificações por disposição irregular de RSU em Fortaleza no ano 2001

26,40%

14,63% 58,97%

Entulho Advertências Outros resíduos

18,91%

28,91% 52,18%

Entulho Advertências Outros resíduos

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23º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental • PROPOSTAS RECOMENDADAS

Uma gestão sustentável de qualquer tipo de resíduo sólido exige uma abordagem baseada no princípio dos 3R’s, conforme apresentado na Agenda 21 e que visa a redução, a reutilização e a reciclagem de materiais. As propostas aqui apresentadas fundamentam-se nesse princípio e, na medida do possível tentam estabelecer os papéis dos diferentes agentes sociais envolvidos tanto no processo de geração como no manejo dos resíduos da construção civil.

Antes da descrição das propostas para alcançar uma gestão sustentável dos resíduos da construção civil, que possibilite o alcance de benefícios de ordem social, econômica e ambiental, deve-se mencionar que elas são fruto do diagnóstico do atual gerenciamento desses resíduos na cidade de Fortaleza, assim como do estudo dos resultados de experiências nacionais de gestão diferenciada para os resíduos oriundos da construção civil, mas especificamente no setor de edificações.

Tais propostas objetivam, inicialmente, o desenvolvimento de ações voltadas para o disciplinamento das disposições irregulares dos resíduos da construção civil no ambiente urbano, contando para isto, com a participação preponderante da administração municipal.

Dentro dessas propostas encontram-se ainda, ações que visam incentivar a redução, a reutilização e a reciclagem dos resíduos da construção civil. Verifica-se que para a implantação destas ações, a participação da iniciativa pública e privada é de fundamental importância.

Descrição das propostas segundo cada agente envolvido no processo

Agente: Prefeitura Ações propostas:

1) Inicialmente, deve-se exigir que cada Secretaria Executiva Regional (SER) faça um levantamento de todos os pontos de disposição irregular de entulho, em suas respectivas áreas de atuação. Neste levantamento, além das localizações dos pontos de disposição irregular, deveram ser mencionadas as características da região do entorno de cada ponto de disposição.

2) Após a conclusão dos levantamentos realizados por cada SER, as informações deverão ser encaminhadas a SEMAM (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Controle Urbano) com o objetivo de elaborar um parecer final, visando uma posterior remoção desses resíduos dispostos irregularmente no ambiente urbano, bem como recuperar áreas que foram degradadas.

3) Estabelecer áreas para o recebimento de pequenos volumes (até 2m3) de entulho. É importante que estas áreas sejam localizadas, sempre que possível, nas proximidades dos pontos de disposição irregular de entulho, conforme o parecer final realizado pela SEMAM, baseado nos levantamentos realizados por cada SER. O estabelecimento destas áreas visa a formação de uma rede de atração de resíduos da construção civil, entregues voluntariamente pela população, auxiliando a minimizar as disposições irregulares de entulho em locais inadequados. Deve-se ressaltar, que estes locais devem funcionar como depósitos temporários de entulho, podendo este resíduo ser utilizado para nivelamentos de terrenos e/ou ser encaminhado para uma área maior, a qual será estrategicamente localizada, com a finalidade de diminuir as distâncias entre os grandes geradores de entulho e captar o máximo de resíduo possível. Nessa área deverá ser previsto a implantação de uma estação de reciclagem de entulho.

4) Oferecer o mínimo de infra-estrutura para esses pequenos pontos de recebimento, como: providenciar cercas ou muro para delimitar o terreno, assim como, uma guarita na entrada do ponto de recebimento para que seja assegurado que outros tipos de resíduos não sejam depositados nestes locais.

5) Na área escolhida para o recebimento de grandes volumes de entulho, deverá ser previsto a implantação de uma estação de reciclagem desse resíduo, com o objetivo de produzir um material possível de ser utilizado em algumas aplicações na construção civil, substituindo parcialmente ou

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totalmente agregados naturais como a areia e a brita. Todavia, em novembro de 2003 foi concedida pela SEMAM a licenciada de instalação para a usina de reciclagem de entulho em Fortaleza, que será operada pela USIFORT, empresa de iniciativa privada, que pretende reciclar o entulho e produzir agregados reciclados, tijolos e outros componentes construtivos a um baixo custo, chegando a 70% do valor dos materiais convencionais.

6) Listar e divulgar junto à população e, especialmente, junto aos agentes que trabalham na coleta e transporte de entulho, os locais licenciados para o recebimento destes resíduos.

7) Realizar o cadastro dos pequenos coletores de entulho, popularmente conhecidos como carroceiros, na tentativa de disciplinar o trabalho destes agentes que são responsáveis pela maior parte das remoções de pequenos volumes de entulho, principalmente nas obras realizadas nos bairros mais periféricos da cidade.

8) Promover ações de orientação, de fiscalização e de controle dos agentes envolvidos no processo de geração (pequenos e grandes geradores), bem como no processo de coleta e transporte dos resíduos da construção civil, de modo a inibir as disposições irregulares destes resíduos.

9) Através de incentivos financeiros e tributários incentivar a disposição do entulho nos locais licenciados para este fim. Pode-se citar, como exemplo, a isenção da taxa do Habite-se para aquelas obras cujo entulho foi encaminhado aos locais disponibilizados pela Prefeitura para o recebimento deste material. Este caso foi idealizado na cidade de Belo Horizonte em Minas Gerais.

10) Elaborar o Plano Integrado de Gerenciamento dos Resíduos da Construção Civil (PIGRCC), o qual deverá incorporar o Programa Municipal de Gerenciamento dos Resíduos da Construção Civil (PMGRCC) e os Projetos de Gerenciamento dos Resíduos da Construção Civil (PGRCC), conforme estabelecido na resolução do CONAMA Nº 307, de 5 de julho de 2002, que entrou em vigor em 2 de janeiro de 2003. Essa resolução estabelece que os municípios e o Distrito Federal devem elaborar no prazo de doze meses, seus respectivos PIGRCC, contemplando os PMGRCC os quais devem estabelecer as diretrizes técnicas e procedimentos para o exercício das responsabilidades dos pequenos geradores, sendo o prazo máximo de dezoito meses para sua implementação. Enquanto isso, os grandes geradores de entulho devem passar a elaborar e implementar seus PGRCC.

11) Após a elaboração do Plano Integrado de Gerenciamento dos Resíduos da Construção Civil (PIGRCC), a SEMAM deverá exigir dos grandes geradores de entulho a apresentação de seus Projetos de Gerenciamento dos Resíduos da Construção Civil (PGRCC), vinculando a expedição do alvará de construção à apresentação e aprovação deste documento, que deverá ser entregue junto com os projetos da obra a ser licenciada.

12) Caso a fiscalização constate disposições irregulares de entulho, identificando o infrator e, conseqüentemente, o não cumprimento do compromisso estabelecido no Projeto de Gerenciamento dos Resíduos da Construção Civil (PGRCC) da referida obra, será solicitado pela fiscalização e decretado pelo secretário de obras, o embargo da mesma. Este embargo somente poderá ser levantado, quando o agente infrator proceder com a remoção do entulho disposto irregularmente, encaminhando este material para o local indicado no PGRCC dessa obra.

13) Empreendimentos sujeitos ao licenciamento ambiental também deveram apresentar o Projeto de Gerenciamento dos Resíduos da construção Civil (PGRCC), a ser analisado dentro do processo de licenciamento, junto ao órgão ambiental competente.

14) Exigir em licitações públicas a apresentação do PGRCC, e a obrigatoriedade do uso de resíduos reciclados em determinadas obras e serviços públicos.

Agente: Construtores Ações propostas:

1) Caberá aos construtores, não classificados como pequenos geradores de entulho conforme artigo 7º da Resolução 307 / CONAMA, a elaboração e apresentação do Projeto de Gerenciamento dos

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Resíduos da Construção Civil (PGRCC) junto com os demais projetos da obra, que serão analisados pelo órgão competente visando à obtenção do alvará de construção.

2) Seguir as determinações previstas no PGRCC para evitar o embargo da obra em questão, em caso da fiscalização detectar o descumprimento do compromisso firmado no projeto de gerenciamento elaborado pelo construtor.

3) Tentar minimizar as perdas no canteiro de obra, através da adoção de métodos construtivos racionais visando reduzir a quantidade de entulho gerado.

4) Iniciar, mesmo que em pequena escala, práticas de reutilização e até mesmo de reciclagem de entulho na própria obra que o gerou.

5) Contratar empresas coletoras cadastradas pela Prefeitura.

Agente: Coletores Ações propostas:

1) Devem dispor os resíduos da construção civil, preferencialmente, nos locais indicados pela Prefeitura, visando diminuir as disposições irregulares. Ficam ainda, sujeitos a aplicação de multas, em caso de disporem esses resíduos em locais inadequados.

CONCLUSÕES

Quanto às disposições irregulares dos resíduos da construção civil no ambiente urbano, pode-se concluir que elas são o resultado da inexistência de soluções eficazes para a captação destes resíduos, da falta de uma fiscalização eficiente e, até mesmo, da falta de uma conscientização da população quanto aos danos provocados pelos descartes indiscriminados do entulho em locais inadequados. As disposições irregulares dos resíduos da construção civil no ambiente urbano geram problemas de ordem ambiental, social e econômica, pois comprometem o meio ambiente, promovem a redução da qualidade de vida da população e aumentam os custos com a limpeza urbana.

No que diz respeito ao gerenciamento desses resíduos, torna-se necessário mencionar os dois modelos existentes, ou seja, o da Gestão Corretiva e o da Gestão Diferenciada.

Deve-se deixar claro que a Gestão Corretiva é praticada pela maioria das cidades brasileiras e caracteriza-se por ações de caráter não preventivo. Já a Gestão Diferenciada ao contrário da Gestão Corretiva, caracteriza-se por ações de caráter preventivo ao invés de ações meramente corretivas. Além disto, incentiva a utilização mais racional dos recursos naturais não renováveis e a reciclagem dos resíduos com elevado potencial de aproveitamento, preservando dessa forma, o ambiente urbano dos problemas provocados pelas disposições desordenadas de resíduos sólidos.

A Gestão Diferenciada dos resíduos da construção civil promove benefícios, tais como: a proteção ambiental com a redução dos problemas provocados pelas disposições desordenadas destes resíduos, redução dos custos municipais com a limpeza urbana, preservação da paisagem e da qualidade de vida nos ambientes urbanos, entre outros.

Quanto ao processo de reciclagem propriamente dito, verifica-se que ele pode ser feito na própria obra que gerou o entulho, eliminando as despesas com transporte e disposição final deste resíduo. Todavia, a reciclagem também pode ser realizada em estações apropriadas para este fim. Esta segunda opção é mais sofisticada tecnologicamente e exige maiores investimentos.

É possível produzir agregados reciclados, a partir da reciclagem do entulho, para uso em pavimentação, produção de concreto não-estrutural, argamassas de assentamento e revestimento, fabricação de tijolos e outros. Para todas estas aplicações é possível, com um adequado controle da composição do entulho, obter um bom desempenho técnico e custos competitivos em relação aos produtos convencionais.

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Verifica-se que a elaboração de tais propostas partiu, inicialmente, do estudo dos resultados obtidos por algumas cidades brasileiras que investiram numa gestão diferenciada para os resíduos da construção civil. Além disso, como já foi dito, também foi feito um diagnóstico do atual gerenciamento destes resíduos no município de Fortaleza.

Diante desse quadro, as propostas recomendadas neste trabalho objetivam, inicialmente, o desenvolvimento de ações voltadas para o disciplinamento das disposições irregulares de entulho no ambiente urbano, bem como, ações que visam incentivar a redução, a reutilização e a reciclagem dos resíduos da construção civil.

Pelo exposto, fica claro perceber que tais propostas fundamentam-se no princípio dos 3R’s e, na medida do possível tentam estabelecer os papéis dos diferentes agentes sociais envolvidos tanto no processo de geração, como no manejo desses resíduos.

Finalmente, é necessário mencionar que a implantação da primeira usina de reciclagem dos resíduos da construção civil em Fortaleza, que se encontra em fase de instalação, além de resultar numa experiência pioneira no Ceará, no que se refere à reciclagem de entulho de obras visando a produção de materiais de construção a um baixo custo, representará a concretização de uma das propostas recomendadas neste trabalho. Deve-se deixar claro que a implantação dessa usina é de iniciativa privada, mas poderia ser de iniciativa pública, e serve de exemplo a ser seguido por outros municípios que são afetados pela problemática da insuficiência de espaço físico para a correta disposição dos resíduos da construção civil. Além disso, esta iniciativa revela-se como uma alternativa técnica, econômica e ambientalmente viável para contornar os problemas causados pelas disposições irregulares de entulho no ambiente urbano.

Em resumo, a adoção de medidas tanto por parte da iniciativa pública como privada, que visem o disciplinamento das disposições irregulares de entulho de obras no ambiente urbano, assim como, visem a redução, a reutilização e a reciclagem desses resíduos, sem dúvida, isto resultará num grande passo a ser dado rumo ao desenvolvimento de uma gestão sustentável dos resíduos da construção civil no município.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BARROS, V. S. Proposta de Gestão Sustentável dos Resíduos Sólidos da Construção Civil no Município de Fortaleza. Fortaleza. 2004. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Ceará, 2004. 2. PINTO, T.P. Gestão de resíduos de construção e demolição em áreas urbanas: da ineficácia a um

modelo sustentável. In: CASSA, J.C.S.; CARNEIRO, A.P.; BRUM, I.A.S. de (Org.). Reciclagem de

entulho para a produção de materiais de construção. Salvador: EDUFBA, Caixa Econômica Federal,

2001. cap. 3, p. 76-112.

3. XAVIER, L.L. ROCHA, J.C. Diagnóstico do resíduo da construção civil: início do caminho para o uso potencial do entulho. In: SEMINÁRIO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E A RECICLAGEM NA CONSTRUÇÃO CIVIL: MATERIAIS RECICLADOS E SUAS APLICAÇÕES, 4., 2001, São Paulo. Anais... São Paulo: IBRACON, 2001. p. 57-63.

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