ISSN 2176-1396
A FORMAÇÃO INICIAL NO CONTEXTO PIBID: CONTRIBUIÇÕES
DO PROGRAMA E DA INTERAÇÃO COM OS SUPERVISORES NA
VISÃO DOS ACADÊMICOS BOLSISTAS
Tatiane Skeika1 - UEPG Leila Inês Follmam Freire2 - UEPG Grupo de Trabalho – Formação de Professores e Profissionalização Docente Agência Financiadora: CAPES-PIBID
Resumo
A análise da formação profissional docente, por meio da busca de conhecimentos e saberes necessários para ensinar, resultado na formulação de estratégias para implantação de projetos voltados para a melhoria da qualidade de ensino através da ampliação desses saberes docentes. No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) vem aprimorando medidas para essas melhorias no que tange aos processos de formação, figurando o PIBID, como uma das estratégias de incentivo e aprimoramento na formação inicial. Analisando esse contexto os objetivos desse trabalho é identificar as características formativas relacionados ao PIBID embutidos no aprendizado para a carreira docente dos acadêmicos bolsistas e analisar a contribuição dos supervisores no contexto de formação inicial dos sujeitos analisados em uma Universidade do interior do Paraná. O trabalho apresenta uma abordagem qualitativa de pesquisa, com coleta de dados pela aplicação de questionário aos bolsistas PIBID, selecionando como sujeitos os acadêmicos de licenciatura parceiros do programa pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, representando um recorte da avaliação interna do programa na instituição e contou com a participação de 86 bolsistas. As respostas dos acadêmicos pesquisados indicaram entre as principais influências do professor supervisor no processo formativo, o papel de mediador de ações na escola, exemplo de atuação profissional, e influenciador para a formulação da prática pedagógica do bolsista a partir da análise das vivências com o professor supervisor mais experiente. As respostas indicaram que a troca de experiência entre acadêmico, supervisor e coordenador pode permitir uma formação diferenciada, principalmente pelo fato desse processo ser contínuo durante o tempo de execução do projeto.
Palavras-chave: Formação inicial. PIBID. Saberes docentes.
1
Doutoranda em Educação Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Mestre em Química Aplicada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Professora do Quadro Próprio do Magistério pela SEED-PR, Supervisora no Sub Projeto do PIBID Química UEPG, Professora Colaboradora pelo Departamento de Métodos da UEPG. E-mail: [email protected].
2
Doutora em Ensino de Ciências: Universidade de São Paulo (USP). Professora Adjunta da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Paraná. E-mail: [email protected]
Introdução
Um dos marcos do século XXI está na valorização do professor como centro das preocupações relacionadas à educação (NÓVOA, 2009). Nesse aspecto, é crescente a análise na melhoria da formação profissional por meio da busca de conhecimentos e saberes necessários para ensinar, sendo uma das estratégias a implantação de projetos voltados para a melhoria da qualidade de ensino através da ampliação dos saberes docentes (FREITAS, 2002). No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) e a CAPES, por meio da Diretoria de Educação Básica, vem aprimorando medidas para essas melhorias no que tange aos processos de formação, sendo um desses projetos, o PIBID, voltado principalmente para a formação inicial.
O PIBID foi instituído a partir da Portaria Normativa nº 38, de 12 de dezembro do ano 2007, com base legal a Lei nº 9.394/1996, a Lei nº 12.796/2013 e o Decreto nº 7.219/2010, cuja finalidade está na articulação com as políticas públicas para desenvolvimento da educação básica. Dessa forma, os projetos e subprojetos das IES vinculados ao PIBID devem promover a inserção dos alunos bolsistas na realidade das escolas públicas, para que possam desenvolver atividades didático-pedagógicas sob orientação de um professor coordenador do ensino superior e um professor supervisor da escola campo de ensino, para que este possa atuar como co-formador de docentes e assim elevar a qualidade da formação inicial dos futuros professores, articulando teoria e prática. Atualmente os objetivos propostos pelo PIBID de acordo com a portaria nº 96, de 18 de julho de 2013, são:
I – incentivar a formação de docentes em nível superior para a educação básica; II – contribuir para a valorização do magistério; III – elevar a qualidade da formação inicial de professores nos cursos de licenciatura, promovendo a integração entre educação superior e educação básica; IV – inserir os licenciandos no cotidiano de escolas da rede pública de educação, proporcionando-lhes oportunidades de criação e participação em experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de caráter inovador e interdisciplinar que busquem a superação de problemas identificados no processo de ensino aprendizagem; V – incentivar escolas públicas de educação básica, mobilizando seus professores como co-formadores dos futuros docentes e tornando-as protagonistas nos processos de formação inicial para o magistério; VI – contribuir para a articulação entre teoria e prática necessárias à formação dos docentes, elevando a qualidade das ações acadêmicas nos cursos de licenciatura; VII – contribuir para que os estudantes de licenciatura se insiram na cultura escolar do magistério, por meio da apropriação e da reflexão sobre instrumentos, saberes e peculiaridades do trabalho docente. (Seção 2, Art. 4º)
Desde 2007 até 2013 o programa teve seis editais abertos para seleção de IES, gerenciados pela Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(Capes). O diferencial principal dos editais está na ampliação da natureza das instituições participantes:
Edital MEC/CAPES/FNDE Pibid 2007: instituições federais de ensino superior e centros federais de educação tecnológica;
Edital Pibid 2/2009: instituições públicas de educação superior, federais e estaduais;
Edital Pibid 18/2010: instituições públicas municipais de ensino superior e universidades e centros universitários comunitários, confessionais e filantrópicos;
Edital Pibid 1/2011: instituição pública de Ensino Superior;
Edital Pibid 11/2012: Instituições de Ensino Superior públicas, filantrópicas, confessionais ou comunitárias;
Edital Pibid 61/2013: Instituições de Ensino Superior públicas e privadas, com e sem fins lucrativos. (CAPES, 2015)
Com a ampliação das universidades no decorrer desses editais, houve uma consequente expansão numérica e geográfica de adesão das IES com os processos de reformulação do PIBID. Segundo Nunes et. al. (2014, p. 592):
O programa passou recentemente, em 2013, por uma ampla reformulação e uma forte expansão quantitativa pode ser percebida a partir da mais recente seleção do programa, convocada pelo Edital Capes nº 61/2013 (CAPES, 2013): em abril de 2014, 81.177 mil bolsas foram pagas por meio do Sistema de Acompanhamento de Concessões da Capes – SAC, das quais 65.928 mil são destinadas a licenciandos (CAPES, 2014). Em 2009, segundo ano de execução do programa, o número de bolsistas oriundos da primeira seleção – ocorrida em 2007 – era de 3.088 no total, conforme o Relatório de Gestão da Diretoria de Educação Básica Presencial – DEB (CAPES, 2012). Isto corresponde a um crescimento de aproximadamente 26 vezes no total geral de bolsistas em cinco anos. (NUNES, et.al., 2014, p. 592)
Esse crescimento na adesão do programa pode indicar, entre outros aspectos, a contribuição para a formação docente nas universidades. Dessa forma, tal processo de formação viabilizado pelo PIBID pode ser considerado um terceiro espaço formativo que, segundo Felício (2014, p.214), baseado nos seguintes princípios:
- Distingue-se do estágio curricular obrigatório na consideração do cenário escolar; - permite a inserção antecipada do licenciando na escola, que se assume como parceira no processo de formação inicial docente, ao acolhê-lo, por intermédio dos supervisores;
- compreende uma configuração que possibilita a participação de professores da universidade (coordenador de área), responsáveis diretos pelos licenciandos bolsistas, e do professor da escola de Educação Básica (supervisor), responsável
pelo licenciando, quando ele se encontra na escola desenvolvendo as atividades de iniciação à docência;
- pressupõe um diálogo constante entre licenciando, coordenador de área e supervisor;
- são previstas ações visando iniciar o licenciando na docência tendo por base experiências reais, advindas do contexto escolar;
- assume o movimento de reflexão–ação–reflexão como pressuposto fundamental para o desenvolvimento das atividades;
- propicia a permanência contínua dos licenciandos no cotidiano escolar, por um período de, pelo menos, dois anos. (FELÍCIO, 2014, p.214)
Essa complementação da formação acadêmica aos participantes do projeto, baseada na vivência de situações reais no campo de atuação, unida com atividades que estimulem a reflexão sobre a ação, já vem demonstrando efeitos positivos entre os sujeitos envolvidos no programa. Nesse contexto os objetivos desse trabalho estão em identificar as características formativas relacionados ao PIBID embutidos no aprendizado para a carreira docente dos acadêmicos bolsistas e analisar a contribuição dos supervisores no contexto de formação inicial dos sujeitos analisados.
Procedimentos Metodológicos
Esse trabalho apresenta uma abordagem qualitativa de pesquisa, com realização de coleta de dados pela aplicação de questionário aos bolsistas PIBID, selecionando como sujeitos os acadêmicos de licenciatura parceiros do programa pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, selecionados com base no edital CAPES/DEB N. 2/2009 e 1/2011. A pesquisa é um recorte da avaliação interna do programa na instituição e contou com a participação de 86 bolsistas. No período da pesquisa a UEPG contava com 19 subprojetos, sendo eles nas áreas de Licenciatura: Artes Visuais/2009, Artes Visuais/2011, Biologia/2009, Biologia/2011, Educação Física/2011, Física/2011, Geografia/2011, História/2011, Letras Português Espanhol/2009, Letras Português Espanhol/2011, Letras Português Francês/2011, Letras Português Inglês/2009, Letras Português Inglês/2011, Matemática/2009, Matemática/2011, Música/2011, Pedagogia/2011, Química/2009, Química/2011.
Os dados foram tratados com base na metodologia de análise de conteúdo (BARDIN, 1977) técnica que auxilia na descrição e interpretação do conteúdo de documentos e textos. Possibilita análises, com descrições sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, permitindo a reinterpretação de informações para a compreensão de seus significados num nível que vai além de uma leitura comum. (MORAES, 1999)
Resultados e discussão
As duas questões do questionário interno de avaliação do programa selecionadas para a análise, estão relacionadas ao processo da formação inicial dos acadêmicos bolsistas, sendo estas:
Questão 1: A ação do professor (a) supervisor teve algum impacto na sua formação? Questão 2: Quais os impactos do PIBID na sua formação enquanto licenciando? De acordo com a pré-análise das respostas para a questão 1, realizou-se a síntese do processo de categorização emergente dos dados, as quais estão apresentadas na Tabela 1. Tabela 1 – Caracterização para as respostas da pergunta: A ação do (a) professor (a) supervisor teve algum impacto na sua formação?
Categorias emergentes do impacto do (a) supervisor na
formação inicial segundo os acadêmicos
Recortes de exemplos de respostas para as categorias
Número de menções
Mediador de ações na escola
“[...] Os professores fizeram com que nos adaptássemos de forma rápida e que nos envolvêssemos no máximo de atividades possíveis, como sala de apoio, auxílio em trabalhos, teatros e oficinas.”
8
Exemplo de atuação profissional “[...] me possibilitou fazer uma reflexão acerca das metodologias utilizadas por ela, seja positiva ou negativamente, e a oportunidade de desde a graduação, possa pensar sobre as práticas docentes que por ventura venha a desenvolver quando atuar de maneira efetiva na profissão”
31
Formulação da prática pedagógica do bolsista a partir da análise das vivencias com o professor supervisor mais experiente
“A prática pedagógica adquirida com a experiência do professor supervisor é muito importante para o PIBID. Há muitas dúvidas que surgem no momento em que estamos no ambiente escolar, e muitas delas é solucionada com o auxílio do professor supervisor.”
29
Troca de conhecimentos entre supervisor e acadêmico
“[...] Contato maior com questões didáticas referente ao ensino e aprendizagem, onde pude entender melhor como é a escola e como é a educação em uma forma geral, impacto de sala de aula e também a articulação do que é visto em sala de aula com a realidade escolar.”
13
Fonte: Dados organizados pelas autoras com base no questionário, 2015.
Cinco entrevistados responderam que a atuação do supervisor não teve influência sobre o seu processo formativo. Isso pode ser resultado da pelo pouco tempo de atuação do acadêmico no PIBID, da postura diferenciada do supervisor com relação as concepções dos alunos, entre outros aspectos relevantes dessa negação.
A análise dos resultados mediante a categorização, indica a caracterização do supervisor como exemplo de atuação profissional (31 menções), fato esse justificável pelo contato diário com um profissional experiente, sendo muitas vezes o primeiro contato. O fato do supervisor estar envolvido no contexto proporcionado pelo PIBID contribui para a preocupação com o aprimoramento dos saberes docentes, refletindo nas ações em sala de aula, conquistando também a atenção do futuro professor. Esse fator também pode ter contribuído para o fato da formulação da prática pedagógica do bolsista a partir da análise das vivências com o professor supervisor mais experiente também ser citada em grande número (29 menções), comparadas às demais.
A troca de conhecimentos aparece na fala dos sujeitos, no sentido de debate de textos e temas inerentes ao processo de ensino. Já o supervisor como mediador foi caracterizado como um processo de orientação das atividades na escola e pela ponte em direção a abertura do espaço escolar para o convívio e livre acesso do acadêmico nos ambientes de ensino, como pode ser verificado no recorte de uma das falas na Tabela 1.
É importante ressaltar que os aspectos classificados como influência dos supervisores respondidos na questão 1, é parte de um dos complexos do processo de formação embutidos nas atividades do PIBID, e não seria correto enumerá-lo como único responsável pelos saberes citados.
As respostas para a questão 2 resultaram na categorização apresentadas na Tabela 2, sendo a relação entre a teoria e a prática o impacto mais relevante na formação para a atuação como futuro professor (31 menções relacionadas). Tal relevância provavelmente vem do fato que as atividades pensadas no conjunto: acadêmico-supervisor-coordenador, possa ser aplicada no contexto de sala de aula e analisada no contexto universitário. Além desse aspecto existe a oportunidade constante de reflexão sobre o conteúdo aprendido nas disciplinas da universidade e as observações de tais aspectos na realidade escolar.
O aspecto de formação complementar também foi atribuído ao PIBID (22 menções), sendo essa uma das propostas do programa. Essa formação foi caracterizada por 10 sujeitos como um diferencial positivo quando comparados aos colegas de cursos não atuantes no programa. Também foram citados em menor número os aspectos da importância da reflexão para a formação, a atuação no ambiente de trabalho antes mesmo do estágio, e a certeza da escolha da profissão durante a participação no projeto.
Tabela 2 – Caracterização para as respostas da pergunta: Quais os impactos do PIBID na sua formação enquanto
Categorias emergentes do impacto do (a) PIBID na
formação inicial
Recortes de exemplos de respostas para as categorias
Número de menções
Desenvolvimento do Processo reflexivo
“Fui sempre instigado a refletir sobre todas as atividades desenvolvidas no projeto. Acredito que a reflexão e a ação foram sem dúvida a grade contribuição do PIBID na minha formação.”
10
O PIBID como prática complementar
“Me sinto mais preparada, é uma boa oportunidade para conhecermos o ambiente escolar, para nos sentir mais seguros”
22
Um diferencial para a formação docente comparando-se com os colegas
“Creio que o PIBID é o diferencial na minha formação. É o marco do tripé ensino, pesquisa e extensão tão fundamental na formação profissional. [...] Hoje, sei o que é estar em sala de aula, conheço os desafios do magistério e estou preparado para passar por eles”
10
Oportunidade de vivência da aplicação de teoria na prática.
“Um maior contato com a sala de aula durante a minha graduação, trabalhando aspectos e vendo como funciona a escola de verdade, ligando a teoria com a prática.”
31
Comprovar a escolha pela
carreira docente “Me faz pensar se realmente quero ser uma professora.”
7
Atuação no ambiente de trabalho antes do estágio supervisionado
“Muito importante pela oportunidade de poder conhecer o contexto escolar antes mesmo antes do estágio.”
6
Fonte: Dados organizados pelas autoras com base no questionário, 2015.
As vivências no contexto PIBID aonde observa-se um estreitamento na relação entre universidade e escola, configuram-se positivas de acordo com os resultados. Considerando, segundo Schön (1992) que o professor desenvolve em sua prática um saber sobre o qual age e reflete, pode-se estabelecer por meio da reflexão a construção de saberes indispensáveis na formação. Essa ideia de Schön da construção dos saberes por meio de reflexão sobre as ações, pode ser relacionada com as respostas dos acadêmicos analisados. O processo reflexivo citado pelos sujeitos e a relação entre teoria e prática podem ser atrelados à construção dos saberes indispensáveis para a formação, as quais segundo Tardif (2002), quando entrelaçadas podem ser a base dos processos de formação inicial e continuada.
Fica claro pelas falas que a troca de experiência entre acadêmico, supervisor e coordenador realmente pode permitir uma formação diferenciada, o que é justificado principalmente pelo fato desse processo ser contínuo durante o tempo de execução do projeto.
Considerações Finais
A interação entre o espaço universitário e o espaço escolar e os indivíduos pertencentes a esse processo são proporcionadas pelo PIBID. Os resultados indicaram que a
interação dos envolvidos com os supervisores e o envolvimento nas atividades propostas pelo programa, permitem vincular a atuação docente em caráter de múltiplas habilidades, seja pela interação entre acadêmico e supervisor, ou no contexto como um todo, buscando relacionar o conhecimento teórico com o prático cotidianamente.
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