Literatura e Transdisciplinaridade: uma proposta de ensino
a partir do romance Terra Papagalli
Rodolfo Meissner Rolando Mestrando em Linguística Aplicada pela Universidade de Taubaté. Atualmente é professor de Língua Portuguesa do Colégio Técnico Industrial de Guaratinguetá – UNESP e professor de Redação do sistema Anglo de ensino.
Resumo
É inegável que a Educação, de um modo geral, enfrenta uma crise na contemporaneidade. E, naturalmente, as aulas de Língua Portuguesa e Literatura são afetadas por esse cenário. Devido a isso, muitos caminhos têm sido discutidos para a superação dos problemas vigentes e, sem dúvida, a transdisciplinaridade emerge como uma possibilidade instigante. Nesse sentido, o objetivo deste artigo é oferecer uma unidade didática transdisciplinar de ensino de Literatura para alunos do Ensino Médio. Para tanto, foi escolhido o romance contemporâneo Terra Papagalli, dos autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, como corpus para a concretização de tal proposta. As sugestões aqui contidas foram embasadas, principalmente, nas proposições de Coelho (2000) a respeito de Literatura e Transdisciplinaridade e Paulino e Cosson (2009) sobre letramento literário. Em síntese, acredita-se que a proposta de ensino trazida por este artigo poderá auxiliar o professor de Língua Portuguesa a enfrentar os desafios impostos pela Educação no século XXI, além de contribuir para a realização do letramento literário.
Palavras- chave
Ensino de Literatura; transdisciplinaridade; Terra Papagalli.
Abstract
It is undeniable that education, in general, is facing a crisis in contemporary times. Naturally, Portuguese and Literature classes are affected by this scenario. Because of this, many ways have been discussed to overcome the existing problems and, undoubtedly, transdisciplinarity emerges as an intriguing possibility. In this sense, the purpose of this article is to provide a transdisciplinarity teaching unit for teaching literature to high school students. In order to do it, the contemporary novel
Terra Papagalli, writen by the authors José Roberto Torero and Marcus Aurelius Pimenta, was chosen as corpus for the realization of this proposal. The suggestions presented here were based mainly on the propositions of Coelho (2000) about Literature and Transdisciplinarity and Paulino and Cosson (2009) about literary literacy. In summary, it`s believed that the proposed education provided by this article may help Portuguese teachers to face the challenges of education in the twenty-first century, in addition to contributing to the achievement of the literary literacy.
Keywords
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Introdução
Há uma crise naquilo que concerne ao ensino de leitura no Brasil. Relatórios, como, por exemplo, o Programme for International Student Assessment (PISA), têm demonstrado as dificuldades dos estudantes brasileiros em todos os níveis para ler os mais diversos gêneros discursivos. No Ensino Médio, tal problema se acentua, entre outros fatores, devido ao estudo mais sistematizado de textos literários, pois esses textos exigem habilidades mais complexas de leitura.
Além disso, vive-se hoje em uma época construída, basicamente, por imagens, sons, visualidade e virtualidade. Desse modo, não há uma relação muito estreita entre os jovens e a palavra escrita, ou melhor, o encantamento requerido pela Literatura diante da palavra escrita. Pois, sendo a Literatura a arte que se utiliza da palavra como matéria-prima, amplia-se, muitas vezes, o despreparo dos discentes brasileiros no trato com o texto literário nesse contexto em que o fenômeno literário é preterido em detrimento de outras linguagens.
Não obstante, muitas vezes, as aulas de Literatura resumem-se a discussões inócuas e “engessadas” sobre a história literária. Em muitos momentos, o texto literário em si nem é devidamente apreciado, conforme comenta Cereja (2005). Assim, fica evidente a necessidade de se buscarem novos caminhos para alcançar o chamado letramento literário nas escolas brasileiras. Mas que novos caminhos seriam esses?
Naturalmente, existem inúmeras opções metodológicas e muitas pesquisas que procuram responder a essa inquietação. Esgotar essas possibilidades não constitui o objetivo deste artigo. Este texto se concentrará em uma das ideias preconizadas por Coelho (2000). Segundo essa autora, a Literatura pode funcionar como eixo de trabalho transdisciplinar em sala de aula. Acredita-se que essa estratégia possa favorecer a concretização do letramento literário. Vale ressaltar também que a transdisciplinaridade tem sido apontada, por diversos estudiosos da educação, como uma forma eficiente de organizar o currículo educacional dos novos tempos. No dizer de Coelho (2000, p.25), “a Literatura vem sendo apontada como uma das disciplinas mais adequadas para servir de eixo para a interligação de diferentes unidades de ensino nos novos PCN”
Dessa forma, o objetivo deste texto é oferecer uma proposta transdisciplinar de ensino de Literatura a partir do romance Terra Papagalli dos autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta. Tal obra foi escolhida, pois oferece, devido a seu enredo e temática, possibilidades de se estabelecerem diálogos com diversas áreas do conhecimento (como, por exemplo, a História e a Filosofia), concretizando uma sugestão de trabalho com o texto literário como norte de uma prática transdisciplinar. Vale dizer também que, sendo tal romance uma publicação de 1997, sua escolha traz para a sala de aula a chamada Literatura Contemporânea, o que corrobora tal seleção, uma vez que, na maioria das vezes, a escola concentra-se apenas nos chamados cânones como objeto de estudo no Ensino Médio.
Com isso, a fundamentação teórica para a realização deste artigo, além das ideias de Coelho (2000) sobre Literatura e Transdisciplinaridade, sustentar-se-á sobre as considerações de Paulino e Cosson (2009) sobre ensino de Literatura e Letramento literário.
Assim sendo, este artigo se justifica à medida que procura contribuir para a formação de leitores de Literatura a partir da sugestão de um trabalho pedagógico centrado no fenômeno literário como eixo de transdisciplinaridade em sala de aula.
Para fins organizacionais, este texto obedecerá a seguinte divisão: 1. Aborda Literatura como eixo de Transdiciplinaridade em que será discutida essa possibilidade de organização do ensino literário; 2. Conceitua Letramento literário e discute os desafios para efetivá-lo no Ensino Médio; 3. Apresenta uma sugestão transdisciplinar de ensino de Literatura a partir do
romance Terra Papagalli.
Literatura como eixo de Transdisciplinaridade
Nas últimas décadas, o ensino tem sido, em geral, perpassado pela disciplinaridade. Ou seja, os chamados “conteúdos” são organizados e oferecidos aos alunos de forma, muitas vezes, desconexa e estanque. A própria organização da grade curricular é alvo de críticas por ser engessada e não possibilitar ao professor uma prática pedagógica capaz de abarcar a complexidade e amplidão do conhecimento. Ademais, observa-se, em muitos momentos, a inquietação do universo discente, pois boa parte dos alunos não consegue compreender por que exatamente têm que aprender determinada “matéria” e, na maioria das vezes, eles não são capazes de estabelecer qualquer tipo de relação entre as diferentes áreas do conhecimento.
Na tentativa de melhor compreender a origem desse problema, Santos (2008) afirma que o cartesianismo preconizado por Descartes passou a organizar toda a estrutura educacional nos últimos séculos e tem responsabilidade por essa forma de encarar a educação. De acordo com o autor, isso resultou em um modelo marcado pela simplificação, fragmentação e descontextualização. Ainda de acordo com Santos, esse modo de ser cartesiano direciona o olhar das pessoas, exclusivamente, para o que é objetivo e racional, desprezando aspectos relevantes da vida e do cotidiano como a emoção, a intuição e a sensibilidade. Morin (2000) corrobora essa ideia quando afirma que os alunos têm saído das escolas com a cabeça “bem cheia” de informações, mas não necessariamente “bem feitas”.
Tal visão educacional ligada ao pensamento cartesiano tem se mostrado insuficiente para o homem contemporâneo. Vive-se em uma época de profundas transformações, em que “viver em rede” passou a ser um imperativo e a globalização se fez presente. Assim, percebe-se, claramente, que os indivíduos hodiernos não se satisfazem com o conhecimento isolado das “partes” em uma época em que há profusão de informações. Desse modo, faz-se necessária uma visão mais holística da educação, capaz de englobar e relacionar os mais distintos saberes, desenvolvendo a criticidade e a cidadania dos alunos.
É nesse contexto que emerge o conceito de transdisciplinaridade, sistematizado por Nicolescu (1999). A transdisciplinaridade representa uma possibilidade de fomentar uma nova arte de viver, visando à unidade do conhecimento. Assinala, portanto, novas propostas de ensino na medida em que almeja uma educação comprometida com o todo e com a vida. Seria uma ferramenta importante na busca de superar a crise que se observa na escola atual, possibilitando a tão desejada construção de conhecimento no âmbito escolar. Conforme Nicolescu (2000, p.150):
Aprender a conhecer significa ser capaz de estabelecer pontes – entre os diversos saberes, entre esses saberes e seus significados para a nossa vida cotidiana, entre esses saberes e significados e nossas capacidades interiores.
Na esteira dessa nova concepção de ensino, Coelho (2000) discute o papel da Literatura como campo do saber capaz de conduzir o indivíduo em tempos de “caos” e transição de paradigmas. É a Literatura como prática complexa de linguagem, segundo a professora, uma das possibilidades mais profícuas no planejamento e organização do ensino em perspectiva transdisciplinar nessa incursão pela contemporaneidade.
Em meio a esse novo mundo, basicamente, construído por imagens, sons, visualidade e virtualidade, Coelho (2000) ressalta a importância da palavra escrita como forma mais eficaz para a formação de crianças e jovens, ou ainda, para a reciclagem de adultos. De acordo com essa autora, há uma urgência em sintonizar o nosso pensamento à nova concepção de
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realidade (repleta de dúvidas no lugar das tradicionais certezas que marcaram a modernidade). E, nesse ponto, ela insiste na Literatura como eixo organizador do ensino para que o homem melhor se ajuste aos novos desafios que lhe são impostos. Afinal, não seria justamente a Literatura um campo de saber capaz de abarcar nas entrelinhas de sua tessitura tantas áreas distintas (psicologia, história, filosofia, antropologia, etc.) e oferecer caminhos para a complexidade de pensar os dias atuais?
É na tentativa de responder a essa pergunta que se oferecerá nesse artigo uma proposta de ensino transdisciplinar de Literatura a partir do romance contemporâneo Terra Papagalli. Antes disso, far-se-á uma breve discussão sobre letramento literário e os desafios para alcançá-lo no Ensino Médio brasileiro.
Letramento Literário e o Ensino Médio
Os índices de testes nacionais e internacionais mostram que a proficiência de leitura dos estudantes brasileiros encontra-se muito abaixo do esperado, apesar de ser o Brasil um país que vem obtendo bons resultados no campo econômico. Pode-se, assim, afirmar que a elevação observada da posição econômica brasileira em rankings internacionais não vem acompanhada de evoluções na proficiência leitora de seus estudantes, o que configura um triste paradoxo.
Tal contradição tem desencadeado iniciativas de promoção de leitura por todo o país. E, na base dessas iniciativas, de acordo com Paulino e Cosson (2009), está a leitura de obras literárias. Conforme os autores, isso se explica pelo papel importante que a Literatura cumpre no desenvolvimento do ser humano, quer no sentido de favorecer o trato com a escrita, quer em sentido mais amplo, ao educar os sentimentos e favorecer o entendimento das relações sociais. E, nesse sentido, Paulino e Cosson apostam no chamado letramento literário como estratégia pertinente para a formação de leitores no Brasil aos moldes, por exemplo, do que se faz na Finlândia, país exemplo de educação de maior qualidade.
Vale ressaltar que há uma série de discussões a respeito do termo “letramento”. Paulino e Cosson (2009) trabalham com o termo em sentido amplo, letramento é entendido por eles como capacidade de compreender e agir sobre a realidade social, o que demonstra uma visão mais sintonizada com os novos paradigmas educacionais. Na esteira desse pressuposto, os autores focalizam o termo letramento literário como ferramenta para desenvolver a chamada leitura crítica entre os jovens brasileiros, o que, cabe destacar, é uma ideia alentadora.
Nesse sentido, segundo esses autores, o letramento literário é entendido como um processo permanente de transformação, como um processo de apropriação da literatura enquanto construção literária de sentidos. Tal termo é entendido como uma aprendizagem que acompanha os indivíduos pelo resto das vidas e que se renova a cada leitura. Ou seja, o letramento literário acontece na e pela escola, mas não se esgota nela. Quando atingido esse nível de proficiência leitora entre os jovens, eles serão capazes de carregar o contato com o literário para além dos muros da escola, o que configura um desafio a ser enfrentado pela educação brasileira e por seus professores. E, vale reforçar, a transdisciplinaridade – visão mais holística do saber, capaz de estabelecer contato mais estreito com a realidade que engloba a escola - parece ser uma importante ferramenta para favorecer a efetivação do letramento literário.
No entanto, existem obstáculos para que tal letramento ocorra e Paulino e Cosson (2009) buscam compreender essas dificuldades. De acordo com eles, muitas vezes a disciplina de Literatura se fecha em biografismo ou historicismo monumentalista. Há também
problemas com a curta duração das aulas em que, basicamente, são trabalhados textos mais curtos e simples, impedindo a leitura mais intensa e detalhada que o texto literário requer. Por último, na preocupação docente de aferir leituras, são realizadas as exaustivas provas do livro ou os cansativos “seminários de literatura”, por exemplo. Dessa forma, acredita-se que a sugestão de ensino de Literatura apresentada por esse artigo poderá contribuir para a superação dos obstáculos observados no Ensino Médio naquilo que se refere à efetivação do letramento literário.
Terra Papagalli: uma proposta transdisciplinar de ensino de
Literatura
Terra Papagalli - breves considerações sobre a obra
Terra Papagalli é um romance ficcional dos escritores brasileiros de José Roberto
Torero e Marcus Aurelius Pimenta, publicada pela primeira vez em 1997 pela Editora Objetiva. Misturando episódios da história brasileira e humor, os autores narram, pela ótica de um degredado português – o narrador-protagonista Come Fernandes - os processos que envolveram a descoberta do Brasil e as primeiras três décadas de sua colonização.
Tal obra relata em primeira pessoa as aventuras de Cosme Fernandes, também conhecido como ``O bacharel de Cananeia", figura histórica do início da colonização. Outras personagens da época são descritas no livro, entre elas João Ramalho, António Rodrigues, Martin Afonso de Sousa, entre outros.
Esse livro caracteriza-se pelo tom de paródia e pelas críticas que faz à sociedade brasileira. Além disso, os autores mesclam formatos literários da época na tessitura do texto, tais como diários de navegação, dicionários e bestiários.
Vale mencionar também que a publicação dessa obra antecedeu as comemorações e discussões a respeito dos quinhentos anos da descoberta do Brasil e, desse modo, nota-se como as críticas e ironias percebidas no romance têm como objetivo fazer uma revisão de boa parte da história brasileira, estimulando a reflexão do leitor. Segundo Rocha (2002), estão presentes no enredo de Terra Papagalli, clichês a respeito do perfil intelectual de nossos colonizadores além de reflexões sobre as características exploratórias da colonização brasileira, evidenciando profundos diálogos entre a obra e a própria história de formação do Brasil e sua cultura. Tais diálogos permitem perceber no romance uma profícua oportunidade para um trabalho transdisciplinar em sala aula.
Uma proposta de ensino de Literatura a partir do romance Terra Papagalli Sem dúvida, o romance contemporâneo Terra Papagalli representa uma excelente possibilidade de trabalho transdisciplinar em sala de aula no Ensino Médio. Isso devido às características de tal obra, repleta de diálogos muito claros com outras áreas do conhecimento como a História e a Filosofia, além de reflexões metalinguísticas sobre a própria natureza do romance e da arte. Com isso, percebe-se que a opção por tal livro nas aulas de Literatura pode contribuir para uma relação mais ampla e complexa com o conhecimento, permitindo profícuas discussões sobre a vida em sua totalidade, o que vai ao encontro das novas tendências da educação alinhadas com a transdisciplinaridade. Além do mais, seguramente, ao realizar um trabalho dessa envergadura, os professores de Língua Portuguesa estarão em consonância com a necessidade de se realizar o chamado letramento literário nas escolas brasileiras.
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romance e serão sugeridos caminhos para a efetivação em sala de aula da proposta aqui discutida. Vale lembrar que o objetivo não é oferecer uma sequência didática propriamente dita ou algo dessa natureza. Tão somente, neste trabalho, deseja-se suscitar possibilidades de trabalho pedagógico transdisciplinar centrado na Literatura como eixo de organização. Nesse ponto, faz-se mister destacar que a edição do romance utilizada para a produção desse artigo tem como publicação o ano de 2000.
Sendo assim, começar-se-á tal sugestão a partir de um dos personagens mais interessantes do livro: Santo Ernulfo. Esse personagem representa uma espécie de santo medieval parodiado. Seus ensinamentos orientam o personagem principal, Cosme Fernandes, ao longo da narrativa. Vejamos um trecho:
Santo Ernulfo disse que o homem é o mais faminto de todos os seres que andam sobre a Terra, pois não possui apenas a fome da boca, que se sacia com carnes e frutos da terra, mas muitas outras, cada uma vinda de uma parte do corpo: dos ouvidos, vem a fome de música; dos olhos, a de belas paisagens; do nariz, a de bons cheiros; do cano, a de mulheres; da mente a de sabedoria, e da alma, a de Deus. (TORERO;PIMENTA, 2000, p. 7)
Em tal trecho, pode-se notar, claramente, a visão parodiada da figura do santo. Seria pouco provável que, em plena época de descoberta do Brasil - período ainda fortemente marcado por traços medievais, como, por exemplo, a visão pecaminosa a respeito do corpo -, um santo proferisse algo como “de cano, a de mulheres”. Esse “ensinamento” poderia ser um excelente objeto de reflexão com os alunos, pois oferece ao professor de Literatura a possibilidade de discutir o período histórico da Idade Média, abordar os preceitos filosóficos da época e a secular separação entre corpo e alma, além de debater junto aos estudantes como tal Santo representa uma ruptura, uma verdadeira paródia do conceito religioso de santidade.
Outro ponto importante do livro é a história de amor entre os personagens Cosme Fernandes e Lianor, que movimenta boa parte do enredo de Terra Papagalli. Esse modelo arquetípico de amor (subvertido ao longo do texto) pode oferecer ao docente mais uma boa possibilidade para discussão. Observemos um exemplo extraído do capítulo “juras de amor” – título altamente sugestivo:
Meu coração é teu! Se quiseres, arranco-o agora mesmo, pois de nada adiantará conservá-lo longe de ti! Confesso que tais palavras hoje me soam exageradas e não parecem ter saído da minha boca, mas assim é a mocidade e assim são seus juramentos. Demo-nos então longos beijos e nos vestimos. (TORERO; PIMENTA, 2000, p. 16)
Nesse momento, o professor de Língua Portuguesa poderia aproveitar para conversar com os alunos a respeito da construção cultural do amor romântico, suas implicações na vida cotidiana e presença constante nas mais diversas narrativas (inclusive o cinema, exemplo que sempre reverbera muito bem em aula). Dessa forma, poderia mostrar como esse arquétipo encaixa-se nas figuras do personagem principal Cosme Fernandes e sua amada Lianor e, no entanto, é esvaziado ao longo do texto, pois Lianor se casa com outro (Lopo de Pina, o antagonista) e Cosme passa a experimentar a vida de modo pragmático e a se relacionar sexualmente com as índias brasileiras. O próprio trecho acima sugere esse espírito de paródia, pois o narrador (Cosme) credita sua efusão sentimental aos arroubos da juventude e, na sequência, quando se refere ao ato de se vestir, sugere que sua declaração romântica e efusiva foi feita em meio aos prazeres da descoberta do sexo.
Além disso, há uma outra questão que chama muito a atenção em Terra Papagalli. É a presença de diferentes gêneros textuais tecendo o romance em questão. Em tal livro,
podem-se encontrar poema, dicionário, carta, diário – e, vale dizer, todos pontos potencialmente enriquecedores e merecedores de atenção por parte do professor – além de bestiários. Esses bestiários eram compostos por descrições da fauna dos lugares descobertos pelos viajantes europeus. Em Terra Papagalli, esses bestiários são reproduzidos com riquezas de detalhes e graficamente se diferem do restante da obra, chamando a atenção do leitor para tais textos. Vejamos um exemplo:
Dragão – é a maior de todas as serpentes, e, na verdade, o maior de todos os seres vivos que caminham sobre a Terra. Quando o dragão sai da caverna, se eleva aos céus e o ar ao seu redor se torna escuro e ardente. Sua força não está nos dentes, mas no rabo, que pode destruir uma árvore com uma simples abanada (...). (TORERO; PIMENTA, 2000, p.117)
Certamente, esse bestiário oferece ao professor de Português uma oportunidade de debater com os alunos as espécies nativas do Brasil e o espanto dos europeus diante da nossa flora e fauna, além das características biológicas de algumas espécies ali descritas. Caberia ainda discutir a presença de animais mitológicos em tal bestiário, como, por exemplo, o dragão. É uma boa chance de refletir com os estudantes sobre a visão edênica que muitos europeus tinham do Brasil e, de como a fantasia e o medo desses navegantes, muitas vezes, era responsável por criar verdadeiras lendas naquele início de formação do Brasil.
Não obstante, a presença (igualmente em formato de paródia) da Filosofia se faz sentir no romance. Há muitos momentos em que o pensamento filosófico – sinônimo de profundas reflexões e abstrações de natureza especulativa – é destronado pelo espírito crítico do livro e associado, puramente, a questões de ordem cotidiana e pragmática. Citaremos um exemplo: o índio Piquerobi. Esse personagem é um nativo brasileiro que se torna amigo de Cosme Fernandes. Observemos:
Duas coisas fazem o homem feliz: uma é fazer o bem a ele mesmo, outra é fazer o mal a quem ele odeia. Na vingança, fazemos as duas coisas. (TORERO;PIMENTA, 2000, p.17)
Nesse trecho, dito por Piquerobi quando perguntado sobre a sede de sua tribo por vingança, consegue-se perceber como uma frase ligada a aspectos nada éticos ou metafísicos, ostenta, no enredo, ares de profunda filosofia. Assim, esse ponto da narrativa poderia ser tomado pelo docente para penar sobre a própria natureza da filosofia e suas implicações na vida cotidiana. Os alunos poderiam ser indagados sobre se tal pensamento (e tantos outros presentes no livro) é perpassado pela ética ou se afasta dela. Seria uma excelente oportunidade para discutir valores com os alunos. Ademais, os costumes indígenas e a antropofagia percebida em alguma tribos (e presente no enredo de Terra Papagalli) poderiam ser igualmente debatidos.
Em síntese, o romance Terra Papagalli apresenta uma infinidade de temas e aspectos da vida e história humana que podem ser discutidos com os alunos de Ensino Médio nas aulas de Literatura. Como mencionado, a construção cultural do amor romântico e seu esvaziamento na contemporaneidade, a natureza da filosofia associada a uma discussão sobre ética e construção de valores, o período medieval e sua divisão corpo/alma e a noção de santidade que daí emerge, a visão crítica da formação cultural do Brasil, a relevância conceitual e estilística da Paródia, a figura do anti-herói (Cosme Fernandes), representam alguns dos pontos que permitem uma possibilidade de trabalho transdisciplinar a partir dessa obra.
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Considerações Finais
Concluindo, o trabalho com a Literatura como eixo de trandisciplinaridade pode indicar caminhos eficazes para a superação da crise educacional que se nota na atualidade. Ademais, tal prática favorece a concretização do letramento literário no Ensino Médio e representa uma boa alternativa para o desenvolvimento da competência leitora dos estudantes.
Neste artigo, o romance Terra Papagalli, devido às suas características e temática, foi destacado como uma obra capaz de concretizar as ideias propostas por Coelho (2000) acerca do ensino de Literatura. Os pontos aqui discutidos não encerram as inúmeras possibilidades oferecidas pelo livro, servem apenas como sugestões de como, de fato, o professor de Língua Portuguesa poderia organizar o seu trabalho em sala de aula em perspectiva transdisciplinar.
Assim sendo, espera-se que as ideias aqui expostas possam servir de inspiração para novos projetos pedagógicos. Projetos mais coadunados com os novos tempos e com as novas realidades educacionais. Afinal, quando a Literatura supera a mera historiografia descontextualizada e alcança verdadeiramente a vida sobre a qual reflete poeticamente, estar-se-á diante de uma conquista da qual a escola jamais se poderá furtar: a construção da cidadania e criticidade dos indivíduos.
Referências
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