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SOBRE UM GRANITO ORBICULAR DA SERRA DA ESTRELA

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Academic year: 2021

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DA SERRA DA ESTRELA

POR

R. BOTO

Assistente da Faculdade de Ciências de Lisboa e

J. PAULA SANTOS

Geólogo da J. E. N.

CONDIÇÕES GEOLÓGICAS

Levantamentos geológicos de pormenor realizados pelas brigadas da J. E. N. na Serra da Estrela, entre o v.g. da Estrela (199S'm) e a Nave de Santo António, revelaram a existência de um afloramento de granito nodular situado aproximadamente entre o Covão do Boi, o Cântaro Raso, a Nave de Santo António e o Covão do Ferro.

Os nódulos são pouco abundantes e estão, em geral, bas- tante alterados; os melhor conservados provêm do talude norte da estrada que desce da Torre para a Nave de Santo António. É também aí que se encontram com maior fre- quência.

A rocha nodular é um granito porfiróide, de grão médio, leuco-mesocrático, de duas micas, com predomínio de biotite.

Está, de modo geral, alterada e forma uma mancha de orien- tação sensivelmente E-W, estendendo-se desde o Covão do Boi até ao v.g. de Curral do Vento. Na área da Nave de Santo António o afloramento está oculto por depósitos de cobertura.

Este granito passa de modo gradual a N, W e S ao gra-

nito porfiróide de grão grosseiro, com duas micas, predomi-

nantemente biotítico; desaparece a NE e SE por debaixo dos

depósitos da Nave de Santo António e da Ribeira de Alforfa.

(2)

CONSTITUIÇÃO DOS NÓDULOS

Os nódulos são todos constituídos segundo o mesmo plano geral: núcleo predominantemente feldspático, capa del- gada de lâminas de biotite, invólucro externo de feldspato.

}l'oram estudados ao microscópio dois nódulos. Os resul- tados desse estudo são apresentados a seguir.

Nódulo I - As dimensões do núcleo são de 6,5 x 5,0 x x 2,5 cm; a espessura da capa biotítica é de 0,1 a 0,05 cm e a do invólucro feldspático de 1,5 cm.

O núcleo é constituído essencialmente por plagioclases cujos cristais têm dimensões variadas, ultrapassando alguns 0,5 cm. Os outros minerais presentes são, por ordem decres- cente de abundância, quartzo, moscovite, clorite, biotite, apatite, microclina, fluorite, zircão e ilmenite. Alguns campos mostram um agregado confuso de cristais de albite (An 0-5), quartzo e mie as, mas, no geral, a plagioclase inclui os outros minerais citados. Quase sempre a plagioclase está turva e sericitizada em maior ou menor grau. As determinações, com a platina teodolítica, pelos métodos de Pedorow e Rittmann, levam à conclusão da existência de duas plagio ela ses predominantes:

albite (An 0-5) e oligoclase (An 15-20), com as características de refrangência, ângulos de extinção e 2V habituais nas for- mas chamadas de baixa temperatura. Na oligoclase, as macIas são raras e pouco distintas e as clivagens mal se notam. Na albite a geminação lamelar tendo por plano (010) é frequente;

a ela· associa-se, por vezes, outra lei que provoca o apareci- mento de lamelas, com alongamento positivo, dispostas quase perpendicularmente às da lei da albite. Alguns cristais de oligoclase passam, bruscamente, para o interior do núcleo, a albite ácida, como se se tratasse de cristais zonados com a zona de composição intermédia muito reduzida ou ine- xistente.

O quartzo existe principalmente incluso na plagioclase;

está fortemente corroído e contém inclusões de biotite desco-

rada, de apatite e de um mineral finamente granular não

(3)

identificável. Por vezes, forma agregados de dois ou mais cristais; não apresenta textura gráfica nítida nem extinção ondulante apreciável. O quartzo intersticial encontra-se em pequena quantidade.

A moscovite, em cristais de dimensões variadas, desen- volve-se principalmente ao longo dos planos de clivagem das plagioclases, em particular na albite.

A biotite, na maior parte transformada em clorite a que, por vezes, se associam esfena e rútilo, é fortemente pleocróica entre castanho avermelhado e amarelo pálido. Está crivada de cristais de apatite que, nalguns casos, dão auréolas estrei- tas e irregulares de pleocroísmo fraco. Os halos pleocróicos devidos a cristais de zircão são muito abundantes; em certos destes cristais os caracteres morfológicos e ópticos do mineral são nitidamente obHerváveis.

A clorite, mais abundante do que a biotite, é pràticamente uniaxial, negativa; apresenta as cores de interferência anó- malas frequentes na variedade penina. Os halos pleocróicos estão profusamente distribuídos.

O feldspato potássico, por vezes com as típicas geminações de mícroclina, apresenta-se, em escassa quantidade" sob a forma de pequenos cristais anédricos, muito turvos; aparece quer intersticialmente, quer incluso na plagioclase, em parti;' cular na albite. Quase sempre as secções, aparentemente homogéneas, são formadas por zonas que se extinguem em posições diferentes, facto apreciado sobretudo na platina uni- versal, que também revela, em muitas secções, a existência de uma só lei de macIa múltipla.

A fluorite é anédrica, incolor e roxa, com direcções de clivagem bem marcadas. Existe geralmente em inclusões na plagioclase que, por vezes, substitui em grande parte, a partir do interior para a periferia. Segue de preferência a clivagem

(010) da pIagioclase.

A apatite apresenta·se em inúmeros cristais, geralmente corroídos e incluídos em outros minerais particularmente em biotite e clorite.

A capa de biotite é constituída por lâminas dispostas

concentricamente; o mineral tem os caracteres da biotite do

(4)

núcleo sendo de destacar a grande quantidade de halos pleocróicos e de cristais inclusos de apatite.

O invólucro é formado quase só por oligoclase (An 15-20) de características semelhantes à do núcleo. Os cristais são alongados radialmente e muitas vezes atravessam sem inter- rupção a orla de biotite, indo assim constituir a zona perifé- rica do núcleo do nódulo.

Quartzo, micas e feldspato potássico, todos em pequenas quantidades, completam a constituição do invólucro.

Nódulo II-O núcleo é de forma aproximadamente esfe- roidal com 2,8 X 2,8 X 1,5 cm. A orla de biotite é irregular e inter- rompida. A espessura do invólucro oscila entre 0,7 e 1,~ cm.

Difere do nódulo I principalmente no seguinte:

A parte central do núcleo é um grande cristal dealbite (An 0·5), fragmentado localmente.

A restante plagioclase está, no geral, alterada, mas, onde as determinações são possíveis, o teor de anortite não ultra- passa 15 moI. %; 2V é grande, da ordem de 80

0 •

Esta plagio- clase passa, na periferia do núcleo do ovóide, quase brusca- mente a um feldspato intensamente impregnado de diminutos agregados com estrutura fibrosa-lamelar, constituindo amígda- las, por vezes coalescentes, ou formando pequenos veios.

Os caracteres ópticos deste agregado são os da calcedónia.

O feldspato em questão é destituído de macIas, não tem clivagens distintas, a refrangência (n

m )

é ligeiramente superior à da albite e vizinha da do bálsamo; 2V varia conforme os campos, entre 0° e 60°. Quando pràticamente uniáxico, as figuras de interferência lembram, pela pouca nitidez, as da nefelina; é negativa a reacção da coloração com o cobaltoni- trito de sódio e não gelatiniza com CIH.

A natureza deste feldspato, cujo pequeno valor de 2V parece indicar uma forma desordenada quanto às posições de Si e AI na rede cristalina, não pode resolver-se apenas pela óptica. A dificuldade de o isolar em quantidade suficiente e com a pureza necessária não permitiu a análise química;

não houve também possibilidade de o estudar pelos raios X.

É. de nqtar ~ respeito lIma antiga observação de C~Il.us·

. .

.

(5)

TSCHOFF (1) em que aquele autor identificou netelina associada com quartzo nos orbículos do granito de Ghistomai (Sarde- nha), diagnóstico que foi posto em dúvida por JOHANNSEN.

No caso presente, tudo leva a crer

tratar~se

de feldspato, em particular a passagem lateral do mineral, sem solução de continuidade, a plagioclase bem caracterizada, por um lado e a microclina pelo outro. Acresce o facto de as secções com 2V variável de umas para outras diferirem aparentemente só neste carácter.

O invólucro é constituído quase inteiramente por este feldspato. Na periferia, porém, o mineral apresenta-se menos impregnado de sílica, sericitizado, com geminação lamelar fina e 2V grande, em resumo, com os caracteres de albite-

~oligoclase de baixa temperatura. No contacto com a me sos- tase, a plagioclase apresenta uma orla interrompida e nem sempre nítida de inclusões de quartzo.

CONSTITUIÇÃO DO GRANITO

A mesostase dos orbículos é um granito porfiróide cuja composição química e parâmetros damos a seguir:

Si O

2 .,,

Ti O

2 •••

0

3

Al

2

0

3

Fe

2

O Fe .. . O Mn .. . O Mg .. . OCa .. . O Na

2

O K

2 •••

P

2

0

S •••

O H

2

+ O H

2-

ANÁLISE

69,02 0,49 14,17 0,86 2,11 0,04 0,43 1,61 4,54 5,81 0,41 0,37 0,42 100,28

Q ...

or .. . ab .. . an .. . wo en ...

f i .

fs ....

f i t . ..

il .. . ap .. .

NORMA

17,34 34,37 38,25 1,11 1,74 1,10 2,25 1,39 0,91 1,01 Parâmetros

1.'4.1.3

Análise de L.

GUIMARÃES ( 1)

Citado por A. J

OHANNSEN -

A descriptive petrography of t411

i&neous rocks, VoI.

III

:pág. 251,

Chica~ol

194jj, .

(6)

Na constituição mineral entram:

Quartzo - anédrico, intersticial e em inclusões, principal- mente na plagioclase e na periferia dos megacristais de micro- clina, onde toma a forma de grãos esferoidais. A extinção ondulante é, nalguns casos, acentuada.

Microclina - tanto em megacristais como na pasta. Parece haver duas gerações de feIdspato potássico: a 1. a reduzida a pequenos cristais muito turvos e de caracterização mal defi- nida; a 2. a, de cristais límpidos, em vários graus de pertitiza- ção. por vezes quase inteiramente substituídos por plagioclase sódica. A macla de Carlsbad, assim como as características geminações lamelares entrecruzadas são frequentes. A micro- clina contém abundantes inclusões de quartzo, plagiocIase (além da pertítica), micas, clQrite, apatite. É por vezes nítida

ê:!. disposição da biotite em faixa. paralela aos lados das secções de microclina.

Plagioclase - geralmente zonada, com o núcleo quase totalmente sericitizado; a orla, espessa e límpida, é de albite (0-5 An) com a geminação lamelar segundo (010).

Micas - a biotite, de acentu·a:do pleocroísmo, está em parte transformada em clorite de tipo penina. Contém inclu- sões corroídas entre as quais as de apatite e zircão originam balos pleocróicos; os de apatite são estreitos, irregulares e pouco nítidos. A moscovite é relativamente abundante.

Os acessórios apatite, ilmenite, zircão, esfena e alguma turmalina completam a constituição mineralógica do granito.

CONCLUSÕES

A constituição e estrutura dos nódulos agora descritos, tal e qual como os de Melgaço (1), têm bastantes semelhanças com as dos ovóides dos granitos «Rapakivi.. Estes cara-

(I) C.

TEIXEIRA

e R.

BOTO -

Granito orbicular de Lamas de Mouro, Melgaço. Rev., da Fac. de Ciências de Lisboa, 2.

a

Série - C - voI. vq.

Lisboa, 1959.

(7)

cterizam-se esquemàticamente (READ, 1957; 'TURNER e VER-

HiOOGEN,

1960) pela presença de ovóides de feldspato potássico dispersos em matriz de quartzo, feldspato potássico, plagio- clase, biotite e, por vezes, horneblenda, Frequentemente, mas não sempre, os orbículos de feldspato potássico estão circun- dados por um invólucro de pequenos cristais de plagioclase, o que dá aos «Rapakivi» a sua particularidade. Zircão e fluorite são acessórios comuns. Os nódulos desprovidos de invólucro consistem de microclina-pertite. Por vezes, o interior dos ovóides é formado pelos minerais da matriz; são frequentes intercrescimentos de quartzo e feldspato de vários tipos.

Cremos que o feldspato potássIco dos nódulos dos «Rapa- kivi» está representado, nos nódulos da Serra da Estrela, pelas poucas e pequenas secções de feldspato potássico dispostas à maneira de ilhas na plagioclase dos núcleos. Recordemos que nos nódulos de Melgaço há núcleos constituídos quase totalmente por microclina. Por outro lado, citamos a relativa abundância do acessório zircão e a presença, num dos núcleos, de fluorite. A faixa biotítica não é privativa dos orbículos, pois também existe com frequência nos megacristais de felds- pato potássico. Parece, pois, justificável, em certa medida, a comparação dos nódulos portugueses, até aqui estudados, com os dos cRapakivi».

Quanto à génese das estruturas orbiculares da Serra da Estrela, chamamos a atenção para o facto de a microclina- -pertite dos megacristais do granito encaixante se apresentar em vários estados de pertitização no que respeita à disposi- ção e abundância da fase plagioclásica; há cristais de micro- clina quase totalmente substituídos por plagioclase, facto que não é de atribuir exclusivamente a exsolução. A metassoma·

tose actuando preferentemente nos cristais de feldspato potás- sico poderia ser o processo responsável pela formação dos nódulos. E5sa metassomatose sódica acarreta provàvelmente também a desorganização da rede cristalina o que se reflec- tiria nos caracteres aparentemente anormais de algumas zonas do feldspato que, assim, constituíram como que uma fase feldspática em vias de reconstituição. O problema da fOl'ma- ção dos orbículos é porém extremamente complexo e seria

6 - BOL, Soe, GEOL" FAse, II. 1964

(8)

ilógico procurar resolvê-lo com os escassos elementos de que dispomos, tanto mais que ele se liga com o problema basilar da génese dos granitos.

SUMMARY

An orbicular granite occurs at Serra da Estrêla (Portugal) whose spheroids have a core made mainly of plagioclase feldspar (AnO_5 and An15-20) foIlowed by a thin layer of biotite flakes and an outer shell of plagioclase (An'5_20).

Several features of the orb:cules are believed to compare to the

Rapakivi ones and the Authors suggest that the nodules described

might be originated by sodic metasomatism of potash feldspar mega-

crystals.

(9)

E3

1

"Alto da

O 1 km.

O m

x x

O D § 0 CZJ

2 3 t.

5 6 7

~

, ,

/ /

10 11 12 13 14

1 -

Granito porfiróide de grão grosseiro de duas micas 2 - Granito porfiróide de grão médio de duas micas 3 - Granito porfiróide nodular

8

4 - Granito de grão grosseiro, essencialmente moscovítico 5 - Granito de grão fino de duas micas

6 - Depósitos fiúvio-glaciários (moreias)

7 - Aluviões

~

8 - Filões básicos 9 - Filões quartzosos

10- Limites geológicos observados 11 - Idem, aproximados

12 - Idem,

interpre~ados

13 - Estradas 14 - Caminhos

+

+ + + +

+ +

+

0

9

(10)
(11)

vigo 1 - Granito nodular d a Serra da Estrela

Fig. 2 - Aspecto de um nódulo no granito da Serra da E strela

Bol. d.l Soe. Gcol. de Portllgal - Vol. xv, I<.;64

(12)

Fig. a - Capa de biotite e parte do invólucro de um dos nódulos.

(Ligeiramente ampliado)

(13)

Fig. 4 - Outro asp ecto dos nódulos na rocha granítica.

Fig. 5 - Secção d e um dos nódulos.

Bol. da Soco Gcol. de Port"gal - Vol. xv, 1964

(14)

Fig. 6 - Secção polida de

um.

n ódulo

Fig. 7 - Parte central de

um

dos núcleos

(Nícois +; 25 X )

(15)

F ig . 8 - Passagem do invólucro à mesostase (Nícois +; 25 X )

Fig. 9 - Megacristal de microclina-pertite com orla de grãos de quartzo

(Nícois +; 25 X)

Referências

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