DA SERRA DA ESTRELA
POR
R. BOTO
Assistente da Faculdade de Ciências de Lisboa e
J. PAULA SANTOS
Geólogo da J. E. N.
CONDIÇÕES GEOLÓGICAS
Levantamentos geológicos de pormenor realizados pelas brigadas da J. E. N. na Serra da Estrela, entre o v.g. da Estrela (199S'm) e a Nave de Santo António, revelaram a existência de um afloramento de granito nodular situado aproximadamente entre o Covão do Boi, o Cântaro Raso, a Nave de Santo António e o Covão do Ferro.
Os nódulos são pouco abundantes e estão, em geral, bas- tante alterados; os melhor conservados provêm do talude norte da estrada que desce da Torre para a Nave de Santo António. É também aí que se encontram com maior fre- quência.
A rocha nodular é um granito porfiróide, de grão médio, leuco-mesocrático, de duas micas, com predomínio de biotite.
Está, de modo geral, alterada e forma uma mancha de orien- tação sensivelmente E-W, estendendo-se desde o Covão do Boi até ao v.g. de Curral do Vento. Na área da Nave de Santo António o afloramento está oculto por depósitos de cobertura.
Este granito passa de modo gradual a N, W e S ao gra-
nito porfiróide de grão grosseiro, com duas micas, predomi-
nantemente biotítico; desaparece a NE e SE por debaixo dos
depósitos da Nave de Santo António e da Ribeira de Alforfa.
CONSTITUIÇÃO DOS NÓDULOS
Os nódulos são todos constituídos segundo o mesmo plano geral: núcleo predominantemente feldspático, capa del- gada de lâminas de biotite, invólucro externo de feldspato.
}l'oram estudados ao microscópio dois nódulos. Os resul- tados desse estudo são apresentados a seguir.
Nódulo I - As dimensões do núcleo são de 6,5 x 5,0 x x 2,5 cm; a espessura da capa biotítica é de 0,1 a 0,05 cm e a do invólucro feldspático de 1,5 cm.
O núcleo é constituído essencialmente por plagioclases cujos cristais têm dimensões variadas, ultrapassando alguns 0,5 cm. Os outros minerais presentes são, por ordem decres- cente de abundância, quartzo, moscovite, clorite, biotite, apatite, microclina, fluorite, zircão e ilmenite. Alguns campos mostram um agregado confuso de cristais de albite (An 0-5), quartzo e mie as, mas, no geral, a plagioclase inclui os outros minerais citados. Quase sempre a plagioclase está turva e sericitizada em maior ou menor grau. As determinações, com a platina teodolítica, pelos métodos de Pedorow e Rittmann, levam à conclusão da existência de duas plagio ela ses predominantes:
albite (An 0-5) e oligoclase (An 15-20), com as características de refrangência, ângulos de extinção e 2V habituais nas for- mas chamadas de baixa temperatura. Na oligoclase, as macIas são raras e pouco distintas e as clivagens mal se notam. Na albite a geminação lamelar tendo por plano (010) é frequente;
a ela· associa-se, por vezes, outra lei que provoca o apareci- mento de lamelas, com alongamento positivo, dispostas quase perpendicularmente às da lei da albite. Alguns cristais de oligoclase passam, bruscamente, para o interior do núcleo, a albite ácida, como se se tratasse de cristais zonados com a zona de composição intermédia muito reduzida ou ine- xistente.
O quartzo existe principalmente incluso na plagioclase;
está fortemente corroído e contém inclusões de biotite desco-
rada, de apatite e de um mineral finamente granular não
identificável. Por vezes, forma agregados de dois ou mais cristais; não apresenta textura gráfica nítida nem extinção ondulante apreciável. O quartzo intersticial encontra-se em pequena quantidade.
A moscovite, em cristais de dimensões variadas, desen- volve-se principalmente ao longo dos planos de clivagem das plagioclases, em particular na albite.
A biotite, na maior parte transformada em clorite a que, por vezes, se associam esfena e rútilo, é fortemente pleocróica entre castanho avermelhado e amarelo pálido. Está crivada de cristais de apatite que, nalguns casos, dão auréolas estrei- tas e irregulares de pleocroísmo fraco. Os halos pleocróicos devidos a cristais de zircão são muito abundantes; em certos destes cristais os caracteres morfológicos e ópticos do mineral são nitidamente obHerváveis.
A clorite, mais abundante do que a biotite, é pràticamente uniaxial, negativa; apresenta as cores de interferência anó- malas frequentes na variedade penina. Os halos pleocróicos estão profusamente distribuídos.
O feldspato potássico, por vezes com as típicas geminações de mícroclina, apresenta-se, em escassa quantidade" sob a forma de pequenos cristais anédricos, muito turvos; aparece quer intersticialmente, quer incluso na plagioclase, em parti;' cular na albite. Quase sempre as secções, aparentemente homogéneas, são formadas por zonas que se extinguem em posições diferentes, facto apreciado sobretudo na platina uni- versal, que também revela, em muitas secções, a existência de uma só lei de macIa múltipla.
A fluorite é anédrica, incolor e roxa, com direcções de clivagem bem marcadas. Existe geralmente em inclusões na plagioclase que, por vezes, substitui em grande parte, a partir do interior para a periferia. Segue de preferência a clivagem
(010) da pIagioclase.
A apatite apresenta·se em inúmeros cristais, geralmente corroídos e incluídos em outros minerais particularmente em biotite e clorite.
A capa de biotite é constituída por lâminas dispostas
concentricamente; o mineral tem os caracteres da biotite do
núcleo sendo de destacar a grande quantidade de halos pleocróicos e de cristais inclusos de apatite.
O invólucro é formado quase só por oligoclase (An 15-20) de características semelhantes à do núcleo. Os cristais são alongados radialmente e muitas vezes atravessam sem inter- rupção a orla de biotite, indo assim constituir a zona perifé- rica do núcleo do nódulo.
Quartzo, micas e feldspato potássico, todos em pequenas quantidades, completam a constituição do invólucro.
Nódulo II-O núcleo é de forma aproximadamente esfe- roidal com 2,8 X 2,8 X 1,5 cm. A orla de biotite é irregular e inter- rompida. A espessura do invólucro oscila entre 0,7 e 1,~ cm.
Difere do nódulo I principalmente no seguinte:
A parte central do núcleo é um grande cristal dealbite (An 0·5), fragmentado localmente.
A restante plagioclase está, no geral, alterada, mas, onde as determinações são possíveis, o teor de anortite não ultra- passa 15 moI. %; 2V é grande, da ordem de 80
0 •Esta plagio- clase passa, na periferia do núcleo do ovóide, quase brusca- mente a um feldspato intensamente impregnado de diminutos agregados com estrutura fibrosa-lamelar, constituindo amígda- las, por vezes coalescentes, ou formando pequenos veios.
Os caracteres ópticos deste agregado são os da calcedónia.
O feldspato em questão é destituído de macIas, não tem clivagens distintas, a refrangência (n
m )é ligeiramente superior à da albite e vizinha da do bálsamo; 2V varia conforme os campos, entre 0° e 60°. Quando pràticamente uniáxico, as figuras de interferência lembram, pela pouca nitidez, as da nefelina; é negativa a reacção da coloração com o cobaltoni- trito de sódio e não gelatiniza com CIH.
A natureza deste feldspato, cujo pequeno valor de 2V parece indicar uma forma desordenada quanto às posições de Si e AI na rede cristalina, não pode resolver-se apenas pela óptica. A dificuldade de o isolar em quantidade suficiente e com a pureza necessária não permitiu a análise química;
não houve também possibilidade de o estudar pelos raios X.
É. de nqtar ~ respeito lIma antiga observação de C~Il.us·
. .
.
TSCHOFF (1) em que aquele autor identificou netelina associada com quartzo nos orbículos do granito de Ghistomai (Sarde- nha), diagnóstico que foi posto em dúvida por JOHANNSEN.
No caso presente, tudo leva a crer
tratar~sede feldspato, em particular a passagem lateral do mineral, sem solução de continuidade, a plagioclase bem caracterizada, por um lado e a microclina pelo outro. Acresce o facto de as secções com 2V variável de umas para outras diferirem aparentemente só neste carácter.
O invólucro é constituído quase inteiramente por este feldspato. Na periferia, porém, o mineral apresenta-se menos impregnado de sílica, sericitizado, com geminação lamelar fina e 2V grande, em resumo, com os caracteres de albite-
~oligoclase de baixa temperatura. No contacto com a me sos- tase, a plagioclase apresenta uma orla interrompida e nem sempre nítida de inclusões de quartzo.
CONSTITUIÇÃO DO GRANITO
A mesostase dos orbículos é um granito porfiróide cuja composição química e parâmetros damos a seguir:
Si O
2 .,,Ti O
2 •••0
3Al
20
3Fe
2O Fe .. . O Mn .. . O Mg .. . OCa .. . O Na
2O K
2 •••P
20
S •••O H
2+ O H
2-ANÁLISE
69,02 0,49 14,17 0,86 2,11 0,04 0,43 1,61 4,54 5,81 0,41 0,37 0,42 100,28
Q ...
or .. . ab .. . an .. . wo en ...
f i .
fs ....
f i t . ..
il .. . ap .. .
NORMA
17,34 34,37 38,25 1,11 1,74 1,10 2,25 1,39 0,91 1,01 Parâmetros
1.'4.1.3
Análise de L.
GUIMARÃES ( 1)Citado por A. J
OHANNSEN -A descriptive petrography of t411
i&neous rocks, VoI.
III:pág. 251,
Chica~ol194jj, .
Na constituição mineral entram:
Quartzo - anédrico, intersticial e em inclusões, principal- mente na plagioclase e na periferia dos megacristais de micro- clina, onde toma a forma de grãos esferoidais. A extinção ondulante é, nalguns casos, acentuada.
Microclina - tanto em megacristais como na pasta. Parece haver duas gerações de feIdspato potássico: a 1. a reduzida a pequenos cristais muito turvos e de caracterização mal defi- nida; a 2. a, de cristais límpidos, em vários graus de pertitiza- ção. por vezes quase inteiramente substituídos por plagioclase sódica. A macla de Carlsbad, assim como as características geminações lamelares entrecruzadas são frequentes. A micro- clina contém abundantes inclusões de quartzo, plagiocIase (além da pertítica), micas, clQrite, apatite. É por vezes nítida
ê:!. disposição da biotite em faixa. paralela aos lados das secções de microclina.
Plagioclase - geralmente zonada, com o núcleo quase totalmente sericitizado; a orla, espessa e límpida, é de albite (0-5 An) com a geminação lamelar segundo (010).
Micas - a biotite, de acentu·a:do pleocroísmo, está em parte transformada em clorite de tipo penina. Contém inclu- sões corroídas entre as quais as de apatite e zircão originam balos pleocróicos; os de apatite são estreitos, irregulares e pouco nítidos. A moscovite é relativamente abundante.
Os acessórios apatite, ilmenite, zircão, esfena e alguma turmalina completam a constituição mineralógica do granito.
CONCLUSÕES
A constituição e estrutura dos nódulos agora descritos, tal e qual como os de Melgaço (1), têm bastantes semelhanças com as dos ovóides dos granitos «Rapakivi.. Estes cara-
(I) C.
TEIXEIRAe R.
BOTO -Granito orbicular de Lamas de Mouro, Melgaço. Rev., da Fac. de Ciências de Lisboa, 2.
aSérie - C - voI. vq.
Lisboa, 1959.
cterizam-se esquemàticamente (READ, 1957; 'TURNER e VER-
HiOOGEN,
1960) pela presença de ovóides de feldspato potássico dispersos em matriz de quartzo, feldspato potássico, plagio- clase, biotite e, por vezes, horneblenda, Frequentemente, mas não sempre, os orbículos de feldspato potássico estão circun- dados por um invólucro de pequenos cristais de plagioclase, o que dá aos «Rapakivi» a sua particularidade. Zircão e fluorite são acessórios comuns. Os nódulos desprovidos de invólucro consistem de microclina-pertite. Por vezes, o interior dos ovóides é formado pelos minerais da matriz; são frequentes intercrescimentos de quartzo e feldspato de vários tipos.
Cremos que o feldspato potássIco dos nódulos dos «Rapa- kivi» está representado, nos nódulos da Serra da Estrela, pelas poucas e pequenas secções de feldspato potássico dispostas à maneira de ilhas na plagioclase dos núcleos. Recordemos que nos nódulos de Melgaço há núcleos constituídos quase totalmente por microclina. Por outro lado, citamos a relativa abundância do acessório zircão e a presença, num dos núcleos, de fluorite. A faixa biotítica não é privativa dos orbículos, pois também existe com frequência nos megacristais de felds- pato potássico. Parece, pois, justificável, em certa medida, a comparação dos nódulos portugueses, até aqui estudados, com os dos cRapakivi».
Quanto à génese das estruturas orbiculares da Serra da Estrela, chamamos a atenção para o facto de a microclina- -pertite dos megacristais do granito encaixante se apresentar em vários estados de pertitização no que respeita à disposi- ção e abundância da fase plagioclásica; há cristais de micro- clina quase totalmente substituídos por plagioclase, facto que não é de atribuir exclusivamente a exsolução. A metassoma·
tose actuando preferentemente nos cristais de feldspato potás- sico poderia ser o processo responsável pela formação dos nódulos. E5sa metassomatose sódica acarreta provàvelmente também a desorganização da rede cristalina o que se reflec- tiria nos caracteres aparentemente anormais de algumas zonas do feldspato que, assim, constituíram como que uma fase feldspática em vias de reconstituição. O problema da fOl'ma- ção dos orbículos é porém extremamente complexo e seria
6 - BOL, Soe, GEOL" FAse, II. 1964
ilógico procurar resolvê-lo com os escassos elementos de que dispomos, tanto mais que ele se liga com o problema basilar da génese dos granitos.
SUMMARY
An orbicular granite occurs at Serra da Estrêla (Portugal) whose spheroids have a core made mainly of plagioclase feldspar (AnO_5 and An15-20) foIlowed by a thin layer of biotite flakes and an outer shell of plagioclase (An'5_20).
Several features of the orb:cules are believed to compare to the
Rapakivi ones and the Authors suggest that the nodules described
might be originated by sodic metasomatism of potash feldspar mega-
crystals.
E3
1
"Alto da
O 1 km.
O m x x O D § 0 CZJ
2 3 t.
5 6 7~
, ,/ /
10 11 12 13 14
1 -
Granito porfiróide de grão grosseiro de duas micas 2 - Granito porfiróide de grão médio de duas micas 3 - Granito porfiróide nodular
8
4 - Granito de grão grosseiro, essencialmente moscovítico 5 - Granito de grão fino de duas micas
6 - Depósitos fiúvio-glaciários (moreias)
7 - Aluviões
~8 - Filões básicos 9 - Filões quartzosos
10- Limites geológicos observados 11 - Idem, aproximados
12 - Idem,
interpre~ados13 - Estradas 14 - Caminhos
+
+ + + ++ +
+0
9
vigo 1 - Granito nodular d a Serra da Estrela
Fig. 2 - Aspecto de um nódulo no granito da Serra da E strela
Bol. d.l Soe. Gcol. de Portllgal - Vol. xv, I<.;64
Fig. a - Capa de biotite e parte do invólucro de um dos nódulos.
(Ligeiramente ampliado)
Fig. 4 - Outro asp ecto dos nódulos na rocha granítica.
Fig. 5 - Secção d e um dos nódulos.
Bol. da Soco Gcol. de Port"gal - Vol. xv, 1964