• Nenhum resultado encontrado

CARIJADA: Tempo e espaço de identidades

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "CARIJADA: Tempo e espaço de identidades"

Copied!
6
0
0

Texto

(1)

1

CARIJADA:

Tempo e espaço de identidades

Maria Aparecida Lucca Paranhos 1 Medianeira da Graça Gelati Weyh 2 Liliane Krebs Bessel Muller 3

Resumo: O conhecimento crítico e a apropriação consciente pelas comunidades do seu patrimônio são fatores indispensáveis no processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania. Este trabalho busca investigar a função da Carijada no contexto da comunidade indígenaTekoá Pyaú (Aldeia Nova) promovendo ações de respeito à identidade e inclusão, entre os alunos do IF Farroupilha. Através da Carijada, busca- se valorizar os saberes e fazeres tradicionais, resgatando a prática de todas as fases do processo de como era feita a erva-mate antigamente. A metodologia utilizada consiste de pesquisa socioantropológica e participante. Essa atividade mostrou-se como uma possibilidade de integração não só entre os estudantes do Instituto Federal Farroupilha (IF Farroupilha), mas também da comunidade acadêmica com um grupo social vulnerável da comunidade de Santo Ângelo: a comunidade M’byá Guarani. Além disso, promove a cultura guarani pelas interlocuções e interações promovidas ao logo do projeto, destacando a importância da erva-mate para os indígenas, não só para o consumo diário, mas sua presença em rituais religiosos, como um forte elemento identitário e cultural.

Palavras-chave: Educação Popular; Cultura; Identidade e Inclusão.

Introdução

A proposta da Carijada insere-se em um projeto já iniciado em 2014, em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) em que foi promovida a I Carijada na Comunidade Indígena Tekoá Pyaú. A Carijada consiste na produção artesanal de Erva-Mate, cujo cultivo e o consumo são herança dos Povos Indígenas, como é o caso dos Guarani, que utilizavam a caá com fins rituais e curativos.

A atividade ampliou-se e, nos dias 24 e 25 de maio de 2015, promovemos a ação no Instituto Federal Farroupilha Câmpus Santo Ângelo. Nesses dois dias, estudantes e comunidade foram convidados a vivenciar todo o processo de

1

Mestrado em Linguística; IF Farroupilha; [email protected]

2

Mestrado em Educação; IF Farroupilha; [email protected]

3

Especialista em Educação; IF Farroupilha; [email protected]

(2)

2 fabricação deste produto que faz parte da nossa cultura e identidade e que perpassou vários momentos da História do Rio Grande do Sul. Assim, aliamos uma necessidade do Câmpus, que é o manejo sustentável do erval, com o atendimento à demanda da comunidade indígena, uma vez que lhes fornecemos a matéria-prima para um produto fundamental à sua cultura, mas cujo consumo ficou muito restrito em função da carência para a produção. Além do que, possibilitamos aos alunos do IF Farroupilha a inserção e integração com aquela comunidade. Todo o processo orientado e conduzido pelo Sr. Emilio Correa, Mestre Carijeiro de São Miguel das Missões.

Metodologia

Para a realização desta pesquisa, elegemos duas metodologias: a Pesquisa Socioantropológica e a Pesquisa Participante. A pesquisa Socioantropológica estuda a diversidade cultural dos povos, principalmente, os costumes, crenças, hábitos e aspectos físicos dos diferentes povos que habitaram e habitam o planeta. Busca-se a investigação social, por meio da qual se quer a plena participação da comunidade na análise de sua própria realidade, a fim de promover a participação social dos investigados. As fontes de pesquisa são livros, imagens, objetos e, principalmente, depoimentos dos sujeitos envolvidos.

A pesquisa participante, conforme Demo (2004), insere-se na pesquisa prática, para fins de sistematização. Segundo esse autor, a pesquisa prática “é ligada à práxis, ou seja, à prática histórica em termos de usar conhecimento científico para fins explícitos de intervenção.” Mais uma vez, busca-se um processo de investigação tendo por perspectiva a intervenção na realidade social.

Essas metodologias nos possibilitam um processo concomitante de geração

de conhecimento por parte do pesquisador e do grupo pesquisado; além disso, de

acordo com Haguete (1985, p.149-150), desencadeia-se um processo educativo,

que busca a intertransmissão e ‘compartilhação’ dos conhecimentos já existentes

tanto de quem pesquisa quanto do grupo pesquisado alcançando um processo de

mudança, seja aquela que ocorre durante a pesquisa, a mudança imediata, seja a

projetiva, que extrapola o âmbito e a temporalidade da pesquisa, na busca de

(3)

3 transformações estruturais – práticas – que favoreçam as populações ou grupos oprimidos.

A pesquisa está em desenvolvimento, estão sendo coletadas informações por meio de vídeos, fotografias, registros de entrevistas e interações com a comunidade para posterior análise e documentação. Salienta-se que as entrevistas não têm caráter quantitativo, razão pela qual serão estruturadas de forma aberta no intuito de obter relatos acerca das vivências dos membros da comunidade indígena.

Discussão

O cultivo e o consumo da erva-mate é uma herança dos Povos Indígenas.

Conforme Arnaldo Bruxel, o uso da erva-mate tem origem feiticeira, “sendo virtualmente sorvida pelos médicos-feiticeiros (pajés), em suas adivinhações e diagnósticos. Por isso os espanhóis inicialmente consideravam seu uso um vício infame, proibido pelo governo e punido pela Igreja com a excomunhão (BRUXEL,1987, p. 83).

Mesmo após a liberação de seu uso nas reduções, a erva-mate tinha seu consumo extremamente controlado pelos padres jesuítas. Sabe-se que era distribuída, todas as tardes, com a ração da carne, sendo utilizada pelos índios no preparo do mate, em porongos, com água quente e, provavelmente, canudinho de bambu. Desempenhando papel de destaque no comércio entre as reduções, servia como artigo de troca por gado, lã ou algodão e mesmo como moeda.

Por meio da Carijada, buscou-se valorizar os saberes e fazeres tradicionais, resgatando a prática de todas as fases do processo de como era feita a erva-mate antigamente: colheita, transporte, sapeco, montagem dos “macacos” (pequenos feixes de erva), secagem no carijo, cancheamento das folhas e, finalmente, o momento de triturar a erva-mate nos pilões (pilagem), para, então, sorvê-la em um saboroso chimarrão.

A experiência é um exemplo de Educação Patrimonial, ou seja, educar a partir

do Patrimônio Cultural, neste caso, Patrimônio Cultural Imaterial. A Metodologia da

Educação Patrimonial “trata-se de um processo permanente e sistemático de

trabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária de

(4)

4 conhecimento e enriquecimento individual e coletivo” (HORTA et al, 1999: p.6). A partir da experiência compartilhada e do contato direto com a cultura, em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e significados, o trabalho de Educação Patrimonial possibilita aos sujeitos um processo ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua herança cultural, “capacitando-os para um melhor usufruto destes bens, e propiciando a geração e produção de novos conhecimentos num processo contínuo de criação cultural” (HORTA et al, 1999: p. 6).

Nesse sentido, o conhecimento crítico e a apropriação consciente pelas comunidades do seu patrimônio são fatores indispensáveis no processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania.

Resultados

Apesar de a pesquisa estar em andamento, podemos pontuar algumas evidências deste trabalho. Em primeiro lugar, possibilitou uma prática histórico- cultural que acompanha os indígenas antes mesmo da chegada dos jesuítas na região. A erva-mate produzida além de ter sido compartilhada entre as pessoas que participaram da Carijada, foi revertida para a comunidade indígena para uso nas suas práticas religiosas e no uso diário.

Além disso, a Carijada se constituiu num rico espaço-tempo de intercâmbio de ideias, valores, experiências que promoveram o respeito à identidade e à inclusão, fomentando o diálogo intercultural entre os sujeitos envolvidos. Foi um passo para a realização de ações inclusivas na promoção, defesa e garantia de direitos daquele grupo social vulnerável.

Conclusões

Apostamos neste projeto como uma possibilidade de integração da

comunidade acadêmica com um grupo social vulnerável, a comunidade M’byá

Guarani. A proposta ampara-se nos princípios norteadores da educação técnica e

Profissional a serem seguidos pelo IF Farroupilha. Em primeiro lugar, possibilita a

articulação com o desenvolvimento socioeconômico-ambiental dos territórios em que

(5)

5 os cursos ocorrem. Por outro lado, na área do IF Farroupilha Santo Ângelo, dispomos de algumas dezenas de pés de erva-mate que precisam de um manejo correto até que se iniciem os cursos do Eixo de Recursos Naturais.

A ação desencadeia, além da produção de erva-mate, todo um processo de resgate de práticas culturais, tais como a contação de causos e a roda de viola. A Carijada é um processo que dura em torno de 48 horas e, ao longo deste tempo, puderam ser realizadas diferentes ações: assistir a documentários, promover debates, trocas de ideias entre a comunidade indígena e outras pessoas da comunidade que tenham vivenciado a experiência em outros contextos.

A Carijada, mais do que o contato direto com a cultura indígena, proporcionou aos estudantes o que Paulo Freire denomina de “diálogo intercultural”, que só é possível através do “respeito as diferenças”. Respeitar o outro em seu modo de ser, pensar e agir é condição sine qua non para a construção da “vocação humana do ser mais”, capaz de denunciar toda a forma de dominação e invasão cultural.

No processo de construção e valorização de “identidades” a educação, seja ela no espaço escolar ou não escolar, como a experiência realizada na aldeia indígena, tem papel preponderante, pois como afirma Freire, “ensinar exige a assunção da identidade cultural”. Para tanto, uma prática educativa crítica e libertadora cria condições para que as pessoas vivenciem a “experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador” (1998, p.46) capaz de uma ação transformadora da realidade.

A Carijada é um momento de resgate da cultura da produção de erva-mate, não só entre os indígenas, mas também nas populações rurais. A partir da realização da Carijada, interessou-nos sistematizar informações sobre a percepção dos estudantes sobre a participação no evento. Ainda queremos investigar que significado esse momento teve para a comunidade escolar.

Referências

BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos guaranis. 2. ed. Porto Alegre: Nova Dimensão,

1987.

(6)

6 DEMO, Pedro. Pesquisa participante: Saber pensar e intervir juntos. Editora Liber Livro, Brasília, 2004.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 7. Ed, São Paulo: Paz e Terra, 1998.

FINOKIET, Bedati A. Educação Patrimonial – História e Memória. Santo Ângelo:

FURI, 2012.

HORTA, Maria de Lourdes Parreiras. Educação patrimonial. v. I e II. Mimeo S/R.

Referências

Documentos relacionados

te O curso Técnico em Informática Subsequente vem atender a uma demanda social que exige a prepara- ção e a qualificação da força de trabalho, capaz de observar, sustentar,

No âmbito da Educação Regular, segundo dados da SEDUC RS de 2017, há 8.509 alunos matriculados no Ensino Médio, sendo que apenas duas escolas oferecem Educação Profissional, um

O curso busca formar profissionais para o uso da tecnologia da informação, visto que é uma exigência da modernidade, pois através dela o Técnico em Informática poderá colaborar

Para o atendimento das legislações mínimas e o desenvolvimento dos conteúdos obrigatórios no currí- culo do curso apresentados nas legislações Nacionais e nas

Para o atendimento das legislações mínimas e o desenvolvimento dos conteúdos obrigatórios no currí- culo do curso apresentados nas legislações Nacionais e nas

Cabe ainda ressaltar que, buscando sanar a falta de Professores de Biologia, considerada pelo Governo Federal uma das áreas prioritárias para investimentos

Os Técnicos Administrativos em Educação no Instituto Federal Farroupilha tem o papel de auxiliar na articulação e desenvolvimento das atividades administrativas e

O currículo do curso de Tecnologia em Produção de Grãos está organizado a partir de 04 (quatro) núcleos de for- mação, a saber: Núcleo Comum, Núcleo Articulador, Núcleo