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Archai n.º 24 (Revista completa) Autor(es):

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Academic year: 2022

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Autor(es): Cornelli, Gabriele (ed.)

Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL

persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/44796 DOI: DOI:https://doi.org/10.14195/1984-249X_24 Accessed : 28-Oct-2022 21:51:19

digitalis.uc.pt impactum.uc.pt

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Jan. - Apr. 2018

AS ORIGENS DO PENSAMENTO OCIDENTAL THE ORIGINS OF WESTERN THOUGHT

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AS ORIGENS DO PENSAMENTO OCIDENTAL THE ORIGINS OF WESTERN THOUGHT

24 | Sep.-Dec. 2018

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Archai: As Origens do Pensamento Ocidental é uma publicação quadrimestral da Cátedra UNESCO Archai: As Origens do Pensamento Ocidental.

É editada no Brasil (Universidade de Brasília/Annablume) e em Portugal (Imprensa da Universidade de Coimbra) em versões impressa e eletrônica.

A avaliação dos artigos submetidos é feita pela modalidade blind-review.

A revista Archai está catalogada no Web of Science, (ESCI), SciELO, L’Année Philologique, Philosopher‘s Index, DOAJ, Phil Brasil, Philpapers, Latindex,

Cengage Learning, Google Scholar, BASE, Diadorim, PKP Index e no Portal de Periódicos da CAPES. Recebeu avaliação de fator de impacto 5.171 no Scientific Journal Impact Factor e foi avaliada pelo recente Qualis CAPES com a nota (A2) na área de Filosofia.

EDIÇÃO:

Imprensa da Universidade de Coimbra/

Coimbra University Press Annablume Editora [email protected]

http://www.uc.pt/imprensa_uc VENDAS ONLINE:

http://livrariadaimprensa.uc.pt http://www.annablume.com.br IMPRESSÃO:

Annablume

PROJETO GRÁFICO: Gustavo Laet Gomes e Priscila Borges

DIAGRAMAÇÃO: Gustavo Laet Gomes COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO: Maria João Padez de Castro

JORNALISTA RESPONSÁVEL: Carolina Pinto

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Infothes e Tesauro Archai: As Origens do Pensamento Ocidental – Archai: The Origins of Western Thought, n.º 24 (Sep./Dec.

2018).

Brasília, 2018 [Impressa e eletrônica].

Quadrimestral.

Título português / inglês ISSN 2179‑4960

e‑ISSN 1984‑249X

https://doi.org/10.14195/1984‑249X_24 1. Filosofia. 2. História da Filosofia. 3.

História Antiga. 4. Literatura. 5. Estudos Clássicos. 6. História do Pensamento Ocidental.

CDU 101 CDD 100

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Rua da Ilha, 1 3000-214 Coimbra Tel.: (+351) 239 247 170 http://livrariadaimprensa.uc.pt http://www.uc.pt/imprensa_uc

ANNABLUME EDITORA

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[email protected] www.annablume.com.br Revista Archai

CÁTEDRA UNESCO ARCHAI Universidade de Brasília Instituto de Ciência Humanas Programa de Pós-Graduação em Metafísica

70904‑970 – Brasília – DF Tel.: (+55 61) 3107‑7040

http://periodicos.unb.br/index.php/archai

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24 | Sep.-Dec. 2018

EDITORES | EDITORS

Gabriele Cornelli (Universidade de Brasília, Brasil) – Editor Responsável – [email protected]

Rodolfo Pais Nunes Lopes (Universidade de Brasília, Brasil) – Editor Adjunto – [email protected]

COMISSÃO EDITORIAL | EDITORIAL BOARD

Anna Marmodoro (University of Oxford, United Kingdom) – [email protected] Barbara Sattler (University of Saint Andrews, United Kingdom) – [email protected]

Delfim Leão (Universidade de Coimbra, Portugal) – [email protected]

Dennys Garcia Xavier (Universidade Federal de Uberlândia, Brasil) – [email protected] Donald Morrison (Rice University, Houston, USA) – [email protected]

Francesc Casadesus (Universitat de les Illes Balears, España) – [email protected] Francesco Fronterotta (Università La Sapienza di Roma, Italia) – [email protected] Giovanni Casertano (Università degli Studi di Napoli, Federico II, Italia) – [email protected] Graciela Marcos de Pinotti (Universidad de Buenos Aires, Argentina) – [email protected] Loraine de Fátima Oliveira (Universidade de Brasília, Brasil) – [email protected] Marcelo Carvalho (Universidade Federal de São Paulo, Brasil) – [email protected] Maria Cecília Nogueira Coelho (Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil) – [email protected] Michael Erler (Universität Würzburg, Deutschland) – [email protected]

Miriam Campolina Peixoto (Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil) – [email protected] Oliver Renaut (Universitè Paris Ouest, Nanterre La Défense, France) – [email protected]

Phillip Horky (Durham University, United Kingdom) – [email protected] Renato Matoso (Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro) – [email protected] Richard McKirahan (Pomona College - Los Angeles, USA) – [email protected] Sandra Rocha (Universidade de Brasília, Brasil) – [email protected]

COMISSÃO CIENTÍFICA / SCIENTIFIC COMMITTEE

Aldo Dinucci (Universidade Federal de Serjipe, Brasil) – [email protected] Ália Rosa Rodrigues (Universidade de Coimbra, Portugal) – [email protected] Anastácio Borges (Universidade Federal de Pernambuco, Brasil) – [email protected]

André Leonardo Chevitarese (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil) – [email protected] Anna Motta (Freie Universität Berlin, Alemanha) – [email protected]

Dennys Garcia Xavier (Universidade Federal de Uberlândia, Brasil) – [email protected] Edrisi Fernandes (Universidade de Brasília, Brasil) – [email protected] Fernando Muniz (Universidade Federal Fluminense, Brasil) – [email protected] Fernando Rey Puente (Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil) – [email protected] Fernando Santoro (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil) – [email protected] Francisco Lisi (Universidad Carlos III de Madrid, España) – [email protected]

Franco Ferrari (Università degli Studi di Salerno, Italia) – [email protected]

Franco Trabattoni (Università degli Studi di Milano, Italia) – [email protected] Henrique Cairus (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil) – [email protected] José Gabriel Trindade Santos (Universidade Federal do Ceará, Brasil) – [email protected] Katia Pozzer (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil) – [email protected] Livio Rossetti (Università degli Studi di Perugia, Italia) – [email protected] Luca Pitteloud (Universidade Federal do ABC) – [email protected] Luc Brisson (CNRS, Paris, France) – [email protected]

Marcelo Boeri (Universidad Alberto Hurtado, Chile) – [email protected]

† Marcelo Pimenta Marques † (Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil)

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24 | Sep.-Dec. 2018._

Marco Zingano (Universidade de São Paulo, Brasil) – [email protected] Marcus Mota (Universidade de Brasília, Brasil) – [email protected]

Maria Aparecida Montenegro (Universidade Federal do Ceará, Brasil) – [email protected] Markus Figueira (Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil) – [email protected] Noburu Notomi (Keio University, Japan) – [email protected]

Pedro Paulo Funari (Universidade de Campinas, Brasil) – [email protected] Rodrigo Brito (Universidade Federal de Sergipe, Brasil) – [email protected] Thomas Robinson (University of Toronto, Canada) – [email protected] Zélia de Almeida Cardoso (Universidade de São Paulo, Brasil) – [email protected]

COMITÊ DE REDAÇÃO / MANUSCRIPT COMMITTEE André da Paz (Brasília)

Gustavo Laet Gomes (Brasília) Sussumo Matsui (Brasília)

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24 | Sep.-Dec. 2018._

EDITORIAL

Rodolfo Lopes 11

ARTIGOS | ARTICLES

A fisiologia do prazer na medicina hipocrática: modelos e reverberações The physiology of pleasure in Hippocratic medicine: models and reverberations

João Gabriel Conque 17

Sobre um modelo algébrico finito e discreto para a edução do espaço e do movimento a partir da matéria primeira On a finite and discrete algebraic model for educing space and movement from prime matter

Rodolfo Petrônio da Costa 35

Ὑπόκρισις. Da arte da atuação à arte do engano

Ὑπόκρισις. From the art of performing to the art of deceiving

Gustavo Bezerra do Nascimento Costa 111

L’échec de l’amour philosophique. Une autre manière de lire Le Banquet de Platon

The Failure of Philosophical Love.

A Reading on Plato’s Symposium

Irley F. Franco 137

As partes pelo todo: a mentalidade paratáxica em Homero e no Antigo Testamento

The parts for the whole: parataxic mentality in Homer and the Old Testament

Willibaldo Ruppenthal Neto e Renan Frighetto 159

Metamorfoses do logos: do não-predicativo ao predicativo Metamorphoses of logos: from non-predicative to predicative

José Gabriel Trindade Santos 179

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24 | Sep.-Dec. 2018

A caracterização da esfera da temperança em EN III.10 The characterization of the sphere of temperance in EN III.10

Bernardo César Diniz Athayde Vasconcelos 207

Explanation and Essence in Posterior Analytics II 16-17

Breno Andrade Zuppolini 229

O è nome o non è nome. Tertium non datur.

L’oracolo di Cratilo nel Cratilo di Platone To be or not to be a Name. Tertium non datur.

Cratylus’ Prophecy in Plato’s Cratylus

Barbara Botter 265

TRADUÇÕES | TRANSLATIONS Platão. Cartas: Carta VI Plato. Letters: Letter VI

Gabriele Cornelli e Rodolfo Lopes 299

RESENHAS | REVIEWS

L. Pitteloud (2017). La séparation dans la métaphysique de Platon.

Sankt Augustin, Academia Verlag.

Pauline Sabrier 309

DIRETRIZES PARA AUTORES 319

SUBMISSION GUIDELINES 329

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Editorial

Editorial

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[11]

AS ORIGENS DO PENSAMENTO OCIDENTAL THE ORIGINS OF WESTERN THOUGHT

Editorial

Rodolfo Lopes

Editor Adjunto https://orcid.org/0000-0001-9675-4023 Universidade de Brasília (Brasil) [email protected]

Se houvesse que reconduzir o presente número da revista a uma só palavra, ela seria ‘ecletismo’. Tendo em conta a nossa história, que, a partir de agora, excede oficialmente os dez anos de atividade, tal caracterização se revela tão natural quanto salutar, se quisermos levar a sério o espírito que animava os pensadores “originários” que, por sua vez, continuam animando o nosso trabalho.

Uso o termo ‘ecletismo’ com bastante generosidade semântica, pois ele implica (e inclui) as dimensões histórico-temática, metodológica, linguística e até geracional. Tivemos o privilégio de congregar contributos sobre medicina antiga, poesia, religião, matemática, dramaturgia, dialética, teoria da predicação e

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epistolografia, os quais se distribuem em quatro línguas diferentes (português, italiano, francês e inglês), bem como se devem tanto a jovens pesquisadores ainda em início de carreira, quanto a já renomados estudiosos da área.

No que respeita ao habitual ecletismo estrutural, a revista continua seguindo as mesmas coordenadas: contámos com uma generosa seção de artigos, seguida de uma tradução e uma resenha.

Começando pelos artigos, iniciamos com um contributo de João Gabriel Conque sobre a questão do prazer na medicina filosófica dos Hipocráticos (especificamente sobre o prazer sexual e um outro

“gastronómico”), que propõe uma originalíssima articulação textual com o Górgias de Platão. O segundo texto, da autoria de Rodolfo Petrônio da Costa, ensaia uma explicação matemática (através de um modelo algébrico finito e discreto) da ainda e sempre problemática noção aristotélica de matéria-prima (prote hyle), a qual o autor alarga até ao princípio da incerteza de Heisenberg, passando ainda pelo seu tratamento em Tomás de Aquino.

Também sobre Aristóteles escreveram Bernardo Vasconcelos e Breno Zuppolini, ambos tendo dedicado as suas análises, ainda que sobre questões diferentes, a passagens bem específicas e delimitadas e que, por isso, primam por um minucioso trabalho exegético do texto original, mantendo, todavia, o diálogo com a bibliografia secundária atualizada. O primeiro discute, em sede ética, o problema da temperança, enquadrada na discussão geral de Aristóteles sobre as excelências (mais tradicionalmente entendidas enquanto “virtudes”), conforme tratada em Ética a Nicómaco III.10. O segundo, em sede lógica, dedica-se à dynamis apofântica da linguagem, mais especificamente ao problema da definição, averiguando a possibilidade de um mesmo explanans dar conta de mais do que um explanandum, tendo em vista a passagem II.16-17 dos Segundos Analíticos.

Igualmente a propósito de problemas lógicos (lato sensu), mas dedicados ao sempre movediço texto de Platão, contámos com dois contributos. Um deles, da autoria de José Gabriel Trindade Santos,

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aborda, a partir de contextos dialéticos (desde os Diálogos considerados “socráticos” ao Sofista) em que o termo logos assume funções que podemos considerar “predicativas”, a possibilidade de o enunciado linguístico dar (ou, pelo menos, dar a conhecer) um determinado ente (ou, se quisermos, um determinado τι). O outro, assinado por Barbara Botter, segue coordenadas análogas, mas numa perspectiva mais “intraproposicional”, foca essa discussão lógico- -epistémica no onoma, sobretudo a partir do Crátilo.

Mudando o rumo para as dimensões poética e religiosa do ser, do pensar e do dizer, contámos neste número com três contributos.

Gustavo Costa, num interessantíssimo exercício interdisciplinar que relaciona a actio do palco com a praxis da esfera ética e moral, problematiza sobre a amplitude semântica do conceito de

“hipocrisia”, que, originalmente, designava apenas o uso de uma máscara em ambiente dramático, mas veio, posteriormente, a assumir uma espécie de “desvio moral”. Irley Franco dedica uma aprofundada análise ao discurso final de Sócrates no Banquete de Platão, a qual é pensada sobretudo em relação aos discursos das outras personagens.

Finalmente, Willibaldo Ruppenthal Neto e Renan Frighetto, a partir de uma leitura comparativa entre os Poemas Homéricos e algumas passagens do Antigo Testamento, propõem a dedução de uma mentalidade antropológica comum aos universos de referências de ambos os textos dedutível de algumas afinidades linguísticas, nomeadamente por via da sintaxe.

Não deixámos de incluir também a já habitual rubrica de tradução das Cartas de Platão, no âmbito do projeto global dos editores desta revista. Neste número publicámos a versão para português da Carta VI. Na seção de resenhas, contámos com a apreciação crítica de Pauline Sabrier do livro La séparation dans la métaphysique de Platon.

Cumpre ainda notar que este número inaugura uma nova etapa no já longo percurso da revista, a qual, desde a sua origem, tem procurado acompanhar as tão rápidas quanto exigentes mudanças do universo editorial académico. A reconfiguração da mancha gráfica, que os leitores mais assíduos já terão notado por esta altura, longe de

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se esgotar numa novidade estética, faz parte, na verdade, de um processo de reformulação de todo o processo editorial, tendo sobretudo em vista a parametrização em XML. Esta atualização, ao mesmo tempo complexa e inovadora, deve-se integralmente ao esforço, competência e dedicação de Gustavo Laet Gomes, a quem esta revista deve, e ficará devendo, agradecimentos incomensuráveis.

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Artigos

Articles

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https://doi.org/10.14195/1984 -249X_24_1 [17]

AS ORIGENS DO PENSAMENTO OCIDENTAL THE ORIGINS OF WESTERN THOUGHT

A fisiologia do prazer na medicina hipocrática: modelos e reverberações

The physiology of pleasure in Hippocratic medicine: models and reverberations

João Gabriel Conque

https://orcid.org/0000-0003-4768-4983 Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil) [email protected]

Resumo: Os principais objetivos deste artigo são demonstrar a presença de duas concepções fisiológicas acerca do prazer no Corpus Hippocraticum, apontar as diferenças entre elas e conjecturar a respeito da repercussão de uma delas no diálogo Górgias de Platão.

Veremos que podemos encontrar em textos da tradição hipocrática uma descrição da produção de prazer durante a relação sexual e uma

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outra relacionada à ocorrência de prazer durante a ingestão de alimentos, sendo que a segunda, diferentemente da primeira, é fortemente marcada pela noção do prazer como repleção. A identificação de uma concepção de ordem fisiológica acerca do prazer caracterizada por um processo de repleção no Corpus Hippocraticum é relevante pois uma concepção muito semelhante parece ser tomada como ponto de partida por Platão em suas reflexões acerca do prazer.

Palavras-chave: prazer, medicina, Corpus Hippocraticum.

Abstract: The main aims of this article are to demonstrate the presence of two physiological conceptions of pleasure in the Hippocratic Corpus, pointing out the differences between them and conjecturing about the reverberation of one of them in Plato’s dialogue Gorgias. We can find in texts of Greek medicine a description of pleasure produced during sexual intercourse and another related to the occurrence of pleasure during nourishment.

However, the second account, unlike the first one, is strongly marked by the notion of pleasure as replenishment. Identifying a physiological conception of pleasure featured by a process of filling in the Hippocratic Corpus is relevant because a very similar conception seems to be taken as starting point by Plato in his reflections on pleasure.

Keywords: pleasure, medicine, Corpus Hippocraticum.

1. Por uma fisiologia hipocrática do prazer

Descrições de ordem fisiológica acerca do prazer podem ser encontradas em dois tratados que compõem o Corpus Hippocraticum, a saber, Sobre a geração (peri gonês) e Sobre as doenças IV (peri nousôn d). Esses dois textos mais o tratado intitulado de Sobre a natureza da criança (peri physios paidiou)

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formariam, segundo Littré,1 uma única obra, embora tal unificação ainda seja fruto de debate.2

No que concerne à datação – um dos tópicos controversos e ainda irresolutos para os estudiosos da tradição hipocrática3 –, Joly (1970, p. 23) sugere que esses três tratados podem ter sido produzidos no fim do século V, ao passo que Lonie (1981, p. 71) conjectura uma influência democritiana sobre o autor dos mesmos e vislumbra uma data por volta de 420 a.C. Já Craik (2015, p. 118 e 190) supõe que Sobre a geração e Sobre a natureza da criança possam ser consideradas obras do período entre 430-420 a.C., enquanto Sobre as doenças IV da primeira metade do quarto século.

Especula-se que Pólibo, provavelmente genro de Hipócrates, seja o autor dos tratados citados acima4. Esse provável membro da escola hipocrática, mencionado por Aristóteles em História dos animais (Arist. HA. III, 3, 512b-513a), também pode ter sido o autor do tratado Sobre a natureza do homem (peri physios anthrôpou).5 Contudo, a autoria dos textos atribuídos ao Corpus Hippocraticum – assim como a datação – é um tema bastante discutido e que gera ainda muita polêmica.6 Em virtude de tais incertezas, trataremos o autor dos tratados analisados nesse artigo apenas como um discípulo de Hipócrates.

1 Cf. Littré (1851, VII, p. 462).

2 Consideraremos os capítulos desses três tratados dispostos de forma contínua, porém reconhecendo que a unificação desses textos é passível de questionamento.

Para mais detalhes acerca desse debate, ver Lonie (1981, p. 43-51) e Joly (1970, p.

9-12).

3 “None of these [Hippocratic] writings mentions the name of its author, and none provides secure internal evidence as to date and geographical or intellectual provenance.” (Eijk, 2008, p. 389).

4 Cf. Wolfsdorf (2013, p. 35-37).

5 Cf. Cairus & Ribeiro Jr. (2005, p. 39). Para mais detalhes sobre esse provável discípulo de Hipócrates, ver Boundon-Millot (2012, V5a, p. 1236-1239).

6 Sobre os problemas que giram em torno da “questão hipocrática”, ver Jouanna (1999, p. 56-71) e Craik (2015, xx-xxiv).

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A seguir, destacaremos os discursos fisiológicos7 acerca do prazer expostos em Sobre a geração e em Sobre as doenças IV. Se por um lado, o primeiro contempla, ainda que de modo conciso, o prazer produzido em uma relação sexual, por outro, o segundo aborda o prazer advindo da satisfação da fome e da sede.

1.2. O prazer sexual em Sobre a geração: deleite e calor

Entre os capítulos 6 e 11 de Sobre a geração, as razões pelas quais as características físicas dos filhos são determinadas pelas características de ambos os seus progenitores são apresentadas. Para fundamentar as suas concepções a respeito desse tema, o autor precisou defender em capítulos anteriores a tese de que tanto o homem quanto a mulher emitem sêmen durante o ato sexual. E, no decorrer da explicação do processo de produção de sêmen no corpo do homem e também no da mulher, uma descrição fisiológica acerca do prazer sexual assume um certo papel de destaque.

Logo no primeiro capítulo de Sobre a geração, o discípulo de Hipócrates afirma que o sêmen produzido no corpo do homem seria uma espécie de espuma (aphros) que, por sua vez, é gerada a partir do aquecimento de um dos fluidos que compõem o organismo. Ainda de acordo com o autor, o aquecimento corporal e a transformação de um dos fluidos corporais em uma espécie de espuma ocorrem devido ao calor difundido por todo o corpo durante o ato sexual. A difusão do calor no corpo do homem durante o ato sexual é acompanhada de prazer, como podemos observar em uma passagem na qual são apresentados mais detalhes acerca da produção de sêmen no corpo do homem:

[...] veias e nervos se estendem de todo o corpo até as partes genitais; ao friccioná-las, aquecê-las e preenchê-las, produz-se uma espécie de excitação que provoca prazer e calor em todo o corpo. Com a fricção

7 De maneira geral, estamos compreendendo fisiologia como um estudo do modo de funcionamento ou da produção de algo no corpo dos seres vivos. Assim, quando nos referimos à fisiologia do prazer, fazemos referência a um tipo de discurso explicativo acerca do processo de produção do prazer.

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das partes genitais e o movimento do homem, o fluido se esquenta no corpo, torna-se difuso, agita-se por causa do movimento e forma uma espuma...8

φλέβες καὶ νεῦρα ἀπὸ παντὸς τοῦ σώματος τείνουσιν ἐς τὸ αἰδοῖον, οἷσιν ὑποτριβομένοισι καὶ θερμαινομένοισι καὶ πληρουμένοισιν ὥσπερ κνησμὸς ἐμπίπτει καὶ τῷ σώματι παντὶ ἡδονὴ καὶ θέρμη ἐκ τούτου παραγίνεται· τριβομένου δὲ τοῦ αἰδοίου καὶ τοῦ ἀνθρώπου κινευμένου, τὸ ὑγρὸν θερμαίνεται ἐν τῷ σώματι καὶ διαχεῖται καὶ κλονεῖται ὑπὸ τῆς κινήσιος καὶ ἀφρεῖ. (Hp. Genit. 1, Joly 44. 6-12)9

Baseando-se no comentário de Lonie (1981, p. 106) acerca dessa passagem, pode-se afirmar que o prazer (hêdonê) e o calor (thermê) estão sendo tratados nesse tratado como subprodutos de um processo de excitação sexual que envolve a fricção das partes genitais e o preencher (plêroô) das cavidades venosas no entorno dos órgãos sexuais. Assim, o prazer não coincidiria com o processo de preenchimento, mas faria parte de um encadeamento que conta com um processo de excitação sexual e um aumento do calor corporal que resulta na produção de sêmen.

Essa descrição fisiológica da produção de sêmen pelo homem é utilizada pelo autor mais à frente para demonstrar que a mulher também emite sêmen durante a relação sexual. Segundo o discípulo de Hipócrates, durante a relação sexual uma espécie de excitação (knêsmos) também é produzida no corpo da mulher em decorrência da fricção dos órgãos genitais. Essa fricção, somada ao movimento do útero durante o ato sexual, também proporcionaria prazer e calor à mulher10 (Hp. Genit., 4, Joly 46-47).

8 Utilizarei uma tradução nossa a partir da tradução para o espanhol de Mª E.

Rodriguez Blanco (2003), com ligeiras modificações grafadas em itálico.

9 As referências aos tratados hipocráticos serão indicadas através do capítulo de cada obra seguida pela página (e pela numeração das linhas, nos casos de citação direta) referente à edição de Robert Joly (1970).

10 O prazer que a mulher tem durante o ato sexual apresenta diferenças em relação ao prazer sentidos pelo homem, pois o primeiro, em alguma medida, é dependente do segundo (Genit., 4, Joly 46-47). Para mais detalhes sobre as concepções médicas

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Uma das funções que as descrições fisiológicas acerca do que ocorre no corpo do homem e da mulher durante uma relação sexual possuem no tratado Sobre a geração é a de servir de base para a defesa da teoria da pangênese, teoria segundo a qual o sêmen procede de todas as partes do corpo. Na medida em que é demonstrado que o calor difundido por todo o corpo durante o ato sexual, além de produzir prazer, transforma um dos fluidos corporais em uma espuma e, por conseguinte, permite a emissão de sêmen, a hipótese de que o esperma tanto do homem quanto da mulher é formado pelos fluidos presentes em todas as partes do corpo emerge como plausível.

Como salienta Wolfsdorf (2013, p. 39), temas importantes como a natureza do apetite sexual e uma explicação mais acurada a respeito da relação entre calor e prazer11 são deixados em aberto nesse tratado.

A contribuição do prazer sexual para a saúde também é outro assunto que não é levado em consideração em Sobre a geração.12 Em contrapartida, a descrição da fisiologia do prazer proveniente da ingestão de alimentos e bebidas presente no tratado Sobre as doenças IV possui mais informações sobre o processo de produção de tal prazer.

1.3. A importância da nutrição em Sobre as doenças IV

No primeiro capítulo de Sobre as doenças IV, o autor promete discorrer, dentre outros temas, sobre cada um dos fluidos corporais que podem estar em excesso (pleiô) ou em escassez (elassô) no corpo humano e porque adoecemos (Hp. Morb IV. 32.2, Joly 84). O viés escolhido para cumprir essa promessa é nutricional. Tal escolha advém provavelmente do reconhecimento do autor que as enfermidades, com exceção daquelas originadas por algum tipo de

acerca do apetite sexual do homem e da mulher e, especialmente, a discrepância na abordagem de ambos, ver Dean-Jones (1992).

11 Uma breve menção ao prazer e ao calor, sem relação com a atividade sexual, é feita em Sobre o uso dos líquidos (Hp. Liqu. 2). Para menções ao prazer no Corpus Hippocraticum que não se limitam a uma perspectiva fisiológica ver, por exemplo, Holmes (2010, p. 198-199) e Levin (2014, p. 56-62).

12 Em tratados ginecológicos, a atividade sexual tem funções terapêuticas. Para mais detalhes, ver Lonie (1981, p. 122).

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violência (bia), procedem dos quatro fluidos – sangue (aima), água (hydôr), fleuma (flegma) e bílis (cholê). Esses fluidos estariam presentes nos corpos dos homens e das mulheres (Morb IV. 32.1, Joly 84) e também em todos os alimentos e bebidas em maior ou menor quantidade (Morb IV. 33.2, Joly 85). Assim, podemos notar que para o discípulo de Hipócrates a nutrição é capaz de interferir no desequilíbrio dos fluidos no organismo e, quando feita de modo inadequado, deve ser considerada como um dos fatores causadores das doenças.

Não fortuitamente, quando o autor aborda a variação dos fluidos dentro do corpo humano e os processos patológicos, ele também busca elucidar o modo de funcionamento do aparelho nutricional do corpo humano. E, ao longo da exposição sobre o que ocorre no corpo humano durante a alimentação, são oferecidas descrições fisiológicas acerca da produção de apetite por alimentos e bebidas e da ocorrência de prazer produzida pela ingestão dos mesmos. Comecemos pela passagem na qual uma explicação sobre o mecanismo de surgimento de um apetite é elaborada.

1.3.1. O apetite como deficiência

O capítulo 39 de Sobre as doenças IV nos fornece importantes elementos acerca do que o autor estaria concebendo como a origem do apetite. De acordo com o discípulo de Hipócrates:

No caso de sentir necessidade de algum tipo de bebida ou de alimento, o corpo o atrairá das fontes até que o fluido esteja menor do que o conveniente. Então, o homem sente desejos de comer e beber algo da natureza que pode preencher aquela porção da fonte e igualá-la às demais. (Morb IV. 39.5, Joly 93. 26-7 ─ 94, 1-4)

Εἰ δὲ ποτῶν καὶ βρωτῶν ἐνδεήσεται [τῶν πηγέων] τις, κατὰ τοῦτο καὶ τὸ σῶμα ἑλκύσει ἀπὸ τῶν πηγέων τέως καὶ τὸ ὑγρὸν ἔλασσον τοῦ καιροῦ γένηται· τότε ἱμείρεται ὁ ἄνθρωπος ἢ φαγεῖν ἢ πιεῖν τοιοῦτον, ὅ τι τὴν μοῖραν ἐκείνην ἐπιπλήσει καὶ ἰσώσει τῇσιν ἄλλῃσι·

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De acordo com o trecho exposto acima, ter apetite ou a ação de desejar (himeirô) é proveniente de uma falta ou de uma necessidade do corpo que é expressa pelo verbo endeô, ter necessidade de algo.

Quando uma determinada necessidade surge, aparentemente, uma espécie de atração (helxis) é exercida pelo corpo sobre os fluidos que estão presentes nos seus respectivos depósitos ou fontes (pêgai).13 O apetite, a partir daí, busca suprir uma necessidade do organismo com um alimento que possa preencher (epipimplêmi) o que está faltando nas fontes e no corpo.

A passagem mencionada ainda nos fornece outras informações que merecem ser destacadas. Primeiramente, pode-se notar que a fome, dentro dessa fisiologia, não é por qualquer tipo de alimento. O apetite busca um alimento que possa suprir não só uma, mas todas as quatro fontes.14 Em segundo lugar, a passagem ainda nos mostra que o processo de saciar um apetite visa o processo de preenchimento dos fluidos nas fontes e no corpo de um modo equânime, o que é expresso na passagem citada pelo verbo isoô, igualar.

Mas o que ocorre, de fato, quando nos alimentamos daquilo de que o nosso corpo necessita e os fluidos voltam a ficar em quantidades iguais em nosso organismo?

1.3.2. O prazer como repleção

Antes de responder à pergunta colocada no final da seção anterior, vale destacar que no parágrafo 39 o autor qualifica os alimentos como prazerosos e desprazerosos da seguinte maneira:

13 De acordo com esse tratado, o número de fontes no interior do corpo equivale a um total de cinco. A principal delas é a koilia ou estômago. As outras quatro fontes são a kardiê, kephalê, splên e o to chôrion to epi tôi hêpati, que podem ser traduzidos, respectivamente, por coração, cabeça, baço e vesícula biliar. Com exceção do estômago, cada uma dessas quatro fontes têm afinidades próprias com cada um dos fluidos. Assim, o coração estoca, mas não exclusivamente, o sangue, o baço é a principal fonte da água, a fonte da cabeça é relacionada com a fleuma e a vesícula biliar tem afinidade com o fluido bílis (Morb IV, 33.2, Joly 85).

14 Cf. Lonie (1981, p. 269).

(28)

Se um desses fluidos é mais abundante do que o conveniente nas bebidas e nas comidas, não os encontraremos agradáveis; mas aqueles dos quais se sente maior necessidade a esse respeito, esses são agradáveis. (Morb IV, 39. 4, Joly 93.23-26)

Τούτων γὰρ ἡμῖν ὅ τι ἂν ἑκάστου πλεῖον τοῦ καιροῦ γίνηται καὶ ἐν τοῖσι ποτοῖσι καὶ ἐν τοῖσι βρωτοῖσι, κεῖνα οὐδὲ ἡδέα γίνεται· ἅσσα δὲ χατίζει μάλιστα κατὰ ταῦτα, κεῖνα ἡδέα ἐστίν.

Conforme a passagem, um alimento será prazeroso na medida em que a quantidade de fluidos presente nele seja conveniente (kairos)15 ao nosso estado de carência (chatizô). Mas, caso o alimento possua mais fluidos do que seria o conveniente, a ingestão deste, ao contrário, não será prazerosa. A trecho acima ainda deixa entrever a tríade necessidade-apetite-prazer que subjaz às exposições feitas pelo discípulo de Hipócrates.

A significativa interligação entre carência, apetite e prazer é consolidada nas últimas frases do capítulo 39, quando o autor nos fornece uma descrição acerca do que ocorre quando nos alimentos daquilo do que temos necessidade:

Esta é a razão porque, às vezes, depois de comer ou beber em grande quantidade, nós temos desejo por alguma bebida ou por algum alimento específico, e não comemos nenhum outro [alimento ou bebida] com prazer, com exceção do que nós desejamos. Mas quando nós comemos e o fluido se torna igual o mais possível nas fontes e no corpo, então o desejo cessa.16 καὶ διὰ τοῦτο βεβρωκότες πολλὰ ἢ πεπωκότες, ἔστιν ὅτε ἱμειρόμεθα ἢ βρωτοῦ ἢ ποτοῦ, καὶ ἄλλο οὐδὲν ἂν ἡδέως φάγοιμεν, εἰ μὴ ὅ τι ἱμειρόμεθα· ἐπὴν δὲ φάγωμεν καὶ ἰσωθῇ ἡ ἰκμὰς κατὰ τὰ ἀνυστὰ ἐν τῇσι

15 Aqui, provavelmente, kairos possui um significado próximo de medida, proporção ou, mais precisamente, como sinônimo de metron ou metrion, significado que de acordo com Schiefsky (2005, p. 219-20) está presente em outros tratados hipocráticos.

16 Tradução nossa a partir da tradução espanhola de Mª E. Rodriguez Blanco, ligeiramente modificada.

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πηγῇσι καὶ ἐν τῷ σώματι, τότε οἱ πέπαυται ὁ ἵμερος.

(Morb IV. 39. 5, Joly 94.4-9).

De acordo com o trecho acima, não é possível ter apetite e, consequentemente, prazer ao comer ou ao beber quando os fluidos no corpo estão em quantidades iguais (isoô), pois nesse estado não há necessidades apetitivas. Assim, o prazer pode ser considerado, de acordo com essa passagem, como um “sinal” ou um indício de que as carências estão sendo supridas e os fluidos no corpo e nas fontes estão se tornando equânimes.

Para facilitar a compreensão do aparelho nutricional do corpo humano que, ao que tudo indica, trabalha voltado para obtenção de um equilíbrio dos fluidos que o compõem, o autor prefere nos oferecer uma imagem. A imagem escolhida para explicar a fisiologia nutricional implícita ao longo do tratado Sobre as doenças IV é a de um sistema hidráulico composto por jarros de bronze (chalkeia)17 e regido pelo princípio dos vasos comunicantes (Morb IV. 39.1, Joly 92). De modo análogo, o corpo também parece ser regido por um sistema de compensação envolvendo preenchimentos e esvaziamentos do estômago, das quatro fontes e do corpo.18 Contudo, todo esse mecanismo de auto-regulação, exemplificado pela imagem dos vasos comunicantes, nem sempre ocorre da maneira correta.

Alguém, por exemplo, pode ingerir mais alimentos do que, na verdade, ele necessita. A plêthôra, para o discípulo de Hipócrates, é o estado que o corpo pode assumir caso um fluido predomine (krateô) sobre os demais dentro do corpo (Morb IV. 45.4, Joly 100).19

17 Segundo Blanco (2003, p. 304, n. 34), “Chalkeia, ‘caldeiros de bronce’, eran recipientes profundos y de boca ancha, utilizados por los médicos para la preparación de medicamentos que debían secarse al sol.”

18 Sobre esse mecanismo de auto-regulação envolvendo fontes ou reservatórios, Holmes (2010, p. 196-197) comenta que “If one of the reservoirs is exhausted, however, this autoregulation is extended to the person, who longs (ἱμείρεται ὁ ἄνθρωπος) to eat or drink whatever will restore the necessary resources”.

19 Lonie (1981, p. 318) enxerga aqui um elo entre as concepções presentes em Sobre as doenças IV e as teorias fisiológicas de Alcmeão de Crotona ao afirmar que “plethora is really an imbalance of humours, an excess of one humour over another. We see here why a plurality of humours is necessary to explain health and

(30)

Todavia, a medicina hipocrática não explica muito bem qual é o papel do prazer nos casos de uma ingestão inadequada de alimentos.20

Para os fins deste artigo, é suficiente estabelecer, de acordo com a seção anterior, que o prazer advindo da alimentação pode ser entendido em Sobre as doenças IV como um processo preenchimento (pimplêmi), ou mais precisamente como um processo de repleção, já que esse último termo transmite melhor a ideia do restabelecimento do equilíbrio dos fluidos no corpo que a satisfação de um apetite tem como finalidade. Em contrapartida, o prazer produzido durante uma relação sexual, como vimos em nossa exposição do tratado Sobre a geração, não deve ser entendido da mesma forma, isto é, não deve ser compreendido como um processo de preenchimento que suprime uma falta, mas sim como um certo processo ligado ao aquecimento do corpo.

Não é uma novidade o fato de que muitas teorias médicas acerca do funcionamento do corpo humano despertaram o interesse dos filósofos antigos.21 O caso da fisiologia do prazer parece ser um exemplo de tal interesse, pois algumas semelhanças terminológicas e conceituais podem ser identificas entre a concepção acerca do prazer advindo da nutrição no tratado Sobre doenças IV e a que está presente em um determinado momento do diálogo Górgias de Platão.

disease; and the author’s doctrine of pletora is simply Alcmeon’s monarchy, given a mechanic application.”

20 Para mais detalhes sobre a ausência nos tratados médicos de uma explicação do papel do prazer em uma alimentação desregrada, ver Holmes (2010, p. 196-202).

21 Como afirma van der Eijk (2008, p. 386): “[...] Empedocles, Democritus, Parmenides, Pythagoras, Alcmaeon, Philolaus, Diogenes of Apollonia, Plato, Aristotle, and Theophrastus took an active interest in subjects we commonly associate with medicine, such as the anatomy and the physiology of the human body, embryology and reproduction, youth and old age, respiration, the causes of disease and of the effects of food, drink, and drugs on the body”.

(31)

2. O modelo do prazer-preenchimento no Górgias de Platão

O terceiro e último interlocutor de Sócrates no diálogo Górgias é Cálicles que, dentre outras teses, defende que o prazeroso e o bem são o mesmo (Pl. Grg. 495a).22 Com o intuito de demonstrar a incoerência da tese hedonista defendida por Cálicles, Sócrates desenvolve alguns argumentos. Um desses argumentos está baseado em uma espécie de fisiologia do prazer.23

A teoria fisiológica que serve de base para uma das premissas do argumento contra a identificação entre o prazer e o bem começa a ser explicitada com mais detalhes quando Sócrates, em um questionamento feito em 496d3-5, demonstra que o eixo central dessa teoria repousa na noção do apetite como deficiência ou falta física que, por sua vez, está correlacionada à dor:24

SOC: Devo continuar te perguntando, ou concordas que toda deficiência e apetite são dolorosos?

CAL: Concordo, e para de me interrogar!25

{– ΣΩ.} Πότερον οὖν ἔτι πλείω ἐρωτῶ, ἢ ὁμολογεῖς ἅπασαν ἔνδειαν καὶ ἐπιθυμίαν ἀνιαρὸν εἶναι;

22 Uma versão menos desenvolvida sobre este tópico pode ser consultada em Carvalho, M.; et al. (2015, p. 220-228).

23 Para mais detalhes ver Gosling & Taylor (1982, p. 69-75), Bravo (2009, p. 95- 105) e Muniz (2011, p. 179-185).

24 A noção do apetite como algo doloroso ou que causa sofrimento não é mencionada no tratado Sobre doenças IV. Porém, curiosamente, essa noção está presente em um outro texto do Corpus Hippocraticum, a saber, Sobre os ventos:

“Por exemplo, a fome é uma doença, como tudo que faz o homem sofrer é chamado de doença. Qual é o remédio para a fome? Aquilo que impede a fome. É a alimentação ; então pela alimentação a fome deve ser curada. (αὐτίκα γὰρ λιμὸς νοῦσός ἐστιν· ὅ τι γὰρ ἂν λυπέῃ τὸν ἄνθρωπον, τοῦτο καλέεται νοῦσος· τί οὖν λιμοῦ φάρμακον; ὃ παύει λιμόν· τοῦτο δ' ἐστὶ βρῶσις· τούτῳ ἄρα ἐκεῖνο ἰητέον.)”

(Hp. Flat., 1., Jones 228.27-30, tradução nossa a partir da tradução inglesa de Jones, ligeiramente modificada).

25 Utilizarei a tradução de Daniel Lopes (2011), que segue a edição de John Burnet, com ligeiras modificações grafadas em itálico.

(32)

{– ΚΑΛ.} Ὁμολογῶ, ἀλλὰ μὴ ἐρώτα.

A referida deficiência dolorosa é descrita como solidária ao processo de preenchimento. Este último, por sinal, é entendido, como podemos notar no passo 496e1-2, como processo de prazer:

SOC: E beber não é tanto preenchimento da deficiência quanto prazer ?

CAL: Sim.

{– ΣΩ.} Τὸ δὲ πίνειν πλήρωσίς τε τῆς ἐνδείας καὶ ἡδονή;

{– ΚΑΛ.} Ναί.

E, em 497c6-8, o apetite e o prazer, no quadro dessa fisiologia, cessam a partir do momento que não há mais deficiência:

SOC: Então, fome e os demais apetites e prazeres não cessam simultaneamente?

CAL: É isso.

{– ΣΩ.} Οὐκοῦν καὶ πεινῶν καὶ τῶν ἄλλων ἐπιθυμιῶν καὶ ἡδονῶν ἅμα παύεται;

{ – ΚΑΛ.} Ἔστι ταῦτα.

Isso posto, é possível definir as características da fisiologia do prazer presente no Górgias da seguinte forma: (i) trata-se de uma fisiologia pautada na deficiência ou falta que é associada à ocorrência de dor; o (ii) prazer é compreendido como o processo de preenchimento dessa carência dolorosa; (iii) dentro dessa fisiologia há a possibilidade de um estado de suficiência pois quando não temos apetite também não temos prazer. Terminologicamente, a teoria fisiológica acerca do prazer pode ser compreendida, conforme o texto em grego, pelas seguintes palavras-chave (i) hêdonê/prazer; (ii) plêrôsis, termo que pode ser compreendido como processo de preenchimento; (iii) endeia, termo que pode ser traduzido como deficiência e (iv) epithymia/apetite.

(33)

As semelhanças terminológicas e conceituais entre a fisiologia do prazer presente no Górgias e aquela que pode ser encontrada no tratado médico Sobre as doenças IV quando associada às conjecturas acerca das datações desses textos26 tornam plausível a hipótese, já levantada por Wolfsdorf (2013, p. 45), de que Platão pode ter recrutado noções médicas acerca do prazer advindo da nutrição para desenvolver suas reflexões acerca do prazer. Vale destacar também que essa descrição fisiológica do prazer não está presente apenas no diálogo Górgias. A noção de prazer como repleção também está presente em outros diálogos platônicos, 27 tendo sofrido, provavelmente, profundas transformações.28 A insistência de Platão em descrever o prazer utilizando um vocabulário fisiológico é apenas um dos muitos problemas para se compreender o lugar do prazer na filosofia de Platão. Os problemas relativos à compreensão da noção de platônica acerca do prazer e da exata dimensão fisiológica da mesma, no entanto, fogem ao escopo deste artigo.

É digno de nota que uma noção do prazer marcada pelo preenchimento de uma falta está presente em testemunhos de Empédocles29 fornecidos pelo doxógrafo Aécio (séc. II d.C.), os quais temos acesso através do antologista Estobeu (séc. V d.C.). Tal

26 Como vimos na primeira seção, especula-se que Sobre as doenças IV possa ter sido escrito por volta do final do século V a.C. Acerca do Górgias, Canto (1993, p.

96), por exemplo, sugere que “la date de la composition du Ménexène est connu avec une relative certitude, sans doute dans les années 386, époque dont la date de composition du Gorgias ne devrait donc pas être trop éloignée.”

27 “La idea de que el placer orgánico depende del retorno a um equilibrio y presupone um estado de privación comienza aqui [en el Gorgias] su desarrollo y seguirá en la República (583b-585a), donde tales placeres son considerados como no auténticos, y culminará en el Timeo (64c-d) y en el Filebo (31d-32b), donde el placer es explicado como la restauración de um estado natural.” (Bossi, 2008, p.

109).

28 Uma das transformações seria a formulação de uma espécie de fisiologia psíquica baseada na fisiologia dos apetites nutricionais, já que “Não seria arriscado dizer que a alma platônica ganha consistência a partir de transposições fisiológicas[...] A fisiologia nascente nos círculos médico-filosóficos contemporâneos de Platão, [...], serve de modelo para uma verdadeira invenção de uma fisiologia psíquica, uma duplicata purificada de aspectos reconhecidos do funcionamento corporal.” (Muniz, 2011, p. 233-234).

29 Aët. IV, 9, 15 = DK 31 A 95.

(34)

presença, no entanto, não invalida totalmente a hipótese mencionada no parágrafo anterior uma vez que não está descartada a possibilidade de que tais fontes de Empédocles tenham sido, de algum modo, adaptadas.30 Outro ponto que de certo modo pode favorecer a hipótese exposta ao longo desse artigo reside no fato de que nos testemunhos atribuídos a Empédocles nos quais o prazer é visto como um processo de preencher não há menção explícita à fome e à sede – os exemplos utilizados por Platão –, diferentemente das passagens do tratado Sobre as doenças IV.31 Apesar disso, é preciso reconhecer que tais apontamentos ainda são insuficientes para encerrar quaisquer discussões acerca da origem da concepção platônica do prazer.

A tentativa de aproximar algumas discussões presentes nos diálogos de Platão e certas teorias fisiológicas da tradição hipocrática acerca do prazer parece seguir, em certa medida, uma recente tendência das interpretações das obras desse filósofo. Macé (2009), por exemplo, chama atenção para a importância que tem sido dada à presença de uma “filosofia natural” no pensamento de Platão.

Embora essa tendência não seja uma unanimidade entre os intérpretes, as teorias atribuídas à medicina hipocrática, como o próprio Macé (2009, p. 13-14) ressalta, podem desempenhar um importante papel nesse tipo de abordagem dos diálogos platônicos.32

30 Sobre a noção de prazer presente nos testemunhos de Empédocles, Wolsford (2013, p. 37), por exemplo, adverte que “Stobaeus’passage occurs in a section devoted to past views of pleasure and desire. Aëtius drew heavily on Theophrastus for the views of the early philosophers, hence the resemblance to Theophrastus’

passage. Encountering Theophrastus’ very brief testimony on Empedocles, he must have been puzzled by it. I believe that the version we find in Stobaeus owes to Aëtius’ attempt to clarify the testimony. In his attempt at clarification, Aëtius was evidently influenced by the replenishment and depletion theory, which […] became familiar through the influence of Plato.”

31 A integralidade dos tratados hipocráticos, segundo Eijk (2008, p. 390), é um fator que contribui bastante para o estudo dessa tradição: “One of the major advantages of the Hippocratic writings compared to the doctrines of the Presocratics is that, as said, the former have been preserved as complete writings and are thus much more accessible to interpretation and much less prone to speculation than the fragmentary remains of many a philosopher of the same period.”

32 Trabalho executado com Bolsa CAPES. Agradeço os comentários e sugestões oferecidos por Fernando Muniz, Marcelo Marques (in memoriam) e Miriam

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Peixoto sobre o conteúdo desse texto o qual, vale dizer, foi objeto de estudo na minha dissertação de mestrado. As ponderações dos pareceristas anônimos também contribuíram de modo significativo para a finalização desse artigo.

(36)

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Submetido em 26/07/2016 e aprovado para publicação em 02/04/2017.

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(38)

https://doi.org/10.14195/1984 -249X_24_2 [35]

AS ORIGENS DO PENSAMENTO OCIDENTAL THE ORIGINS OF WESTERN THOUGHT

Sobre um modelo algébrico finito e discreto para a edução do espaço e do movimento a

partir da matéria primeira

On a finite and discrete algebraic model for educing space and movement from prime matter

Rodolfo Petrônio da Costa

https://orcid.org/0000-0001-7208-8265 Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Brasil) [email protected]

Resumo: Este artigo tem por objetivo apresentar um modelo algébrico finito e discreto para o conceito aristotélico de substrato ou matéria prima (proté hylé) com base no desenvolvimento posterior deste conceito em Tomás de Aquino. De forma oposta a considerá-lo como um conceito ultrapassado e obscuro, mostra-se a atualidade e

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proficuidade desta intuição aristotélica sobre a realidade, ainda que não individualizada, de um substrato que permearia a totalidade da natureza física, sendo a matriz fundamental para a gênese e a corrupção corpóreas. Esta intuição básica ainda que objeto de controvérsia ao longo do tempo foi aceita por diversos autores de destaque, porém em nenhum caso foi explorada através de um modelo matemático. Ademais, é fundamental que o substrato esteja dotado de qualidades que tornem possível que dele se possa extrair tanto o espaço como o movimento corpóreo. Neste trabalho, apresentamos um modelo algébrico por hipótese isomorfo ao substrato, do qual extraímos consequências relevantes, como a extensão do espaço e o caráter dinâmico da matéria, além de uma relação básica entre operadores derivados de espaços vetoriais duais da álgebra que formalmente provê o caso discreto da relação de incerteza de Heisenberg.

Palavras-chave: metafísica, ontologia da matéria, filosofia da natureza, filosofia da física.

Abstract: In this paper we aim at presenting a finite and discrete algebraic model for the Aristotelian concept of substratum or prime matter (proté hylé), based upon further developments on this concept as carried out by Thomas Aquinas. Rather than considering it to be an outdated and obscure concept, it is shown how much profitable and current this Aristotelian insight is, both on the reality (yet not an individual) of a substratum that would pervade the whole of physical nature and on being the basic matrix for bodily genesis and corruption. This basic insight, despite of being a much controverted object over time, has been accepted by renowned authors, although in no way examined through any mathematical modeling.

Additionally, it is essential that this substratum be endowed with qualities which allow the extraction of both space and bodily movement from itself. In this work, we present an algebraic model ex hypothesis isomorphic to the substratum, from which some relevant results like space extension and the dynamic character of matter are derived, and also a basic relation between operators which are obtained from dual vector spaces on the algebra and that provides the discrete case for Heisenberg’s uncertainty relations.

Keywords: metaphysics, ontology of matter, philosophy of nature, philosophy of physics.

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1. Fundamentos metafísicos da edução da geometria e do movimento no espaço-tempo

Em linha com o objetivo principal de prover um modelo algébrico para o substrato ou matéria primeira, nos concentraremos nesta seção inicial na análise conceitual provida por Aristóteles e Tomás de Aquino acerca do estatuto ontológico da matéria, convenientemente adequando a terminologia, bem como introduzindo alguma nova perspectiva consoante o importe epistemológico trazido especialmente pela mecânica quântica.

Chamamos a atenção de início para dois aspectos de nossa abordagem: em primeiro lugar, segundo implicado por uma análise ontológica propriamente dita, ou seja, metafísica, a matéria sobre a qual nos debruçaremos é aquele componente radical último, metafísico, que está na composição de todos os entes da natureza; na terminologia de Tomás de Aquino, utilizada em diversas ocasiões por Aristóteles, matéria prima. A matéria sobre a qual se debruça a análise empírica provida pela ciência experimental é, com relação à matéria prima, uma parte da matéria assinalada por certas dimensões, tratando-se, pois, de uma matéria fenomênica, mensurável espaço- temporalmente. A matéria prima, também denominada protomatéria1 a partir deste ponto, é o constitutivo ontológico último ou fundamento radical ou metafísico das manifestações quantitativas dos entes da natureza; em segundo lugar, dada a amplitude com o que Tomás tratou do tema em sua obra, desenvolvendo-o e burilando-o conforme as exigências do contexto assim o exigiam, bem como as elucidações provenientes do próprio Tomás de Aquino, muitas vezes tendo sido razão de equívocos conceituais justamente por terem sido

1 Doravante simplesmente matéria; onde houver algum conflito com a noção comum, fenomênica, de matéria, então será convenientemente explicitada como matéria prima ou protomatéria.

(41)

menoscabadas em várias ocasiões por multíplices autores, nos valeremos de uma excelente compilação (Faitanin, 2001a) que serviu como roteiro básico para nossa exposição, com as devidas adequações tendo em vista nosso propósito principal.

Inicialmente, devemos afirmar que a matéria possui estatuto ontológico, pois “se é correto que a matéria não possui estatuto ontológico senão por causa da forma,2 isso não justificaria atribuir- lhe carência absoluta de ser [...] porquanto a matéria é” (Faitanin, 2001b, p. 7). Tal estatuto ontológico implica que se busque estabelecer a origem e a natureza da matéria, a qual deve ser compreendida como “ser em potência”, significando que a matéria possui o ser, ainda que sob um aspecto minimamente entitativo e com máxima potencialidade; esta última implica que a matéria seja primeiro sujeito subjacente de toda mudança, quer essencial quer acidental, que tenha dependência da matéria, segundo Faitainin (2001b, p. 8-9). Assim, Tomás de Aquino apresenta duas possíveis assimilações para a matéria:3 (a) [Quando se diz “matéria”] se está referindo àquela matéria conceptualizada sem qualquer forma e privação, mas que é sujeito de forma e privação, denominada

“matéria primeira”, já que antes da mesma não há outra matéria, e à qual também se denomina “hylé”; (b) Ou se está referindo a algum gênero como, por exemplo, a água, que é a matéria primeira dos líquidos. Mas, neste caso, a água não é absolutamente primeira, porque é composta de matéria e forma, donde já possui previamente matéria (Aquino, 2009a, c. 2 n. 13-14), ou então se poderia afirmar que “a matéria primeira não existe por si mesma na natureza das coisas [...] ademais sua potência não se estende senão às formas naturais” (Aquino, 1980, Iª q. 7 a. 2 ad. 3). Para Aquino, portanto, o primeiro sujeito da geração (e corrupção) substancial é a matéria (matéria prima), na qual se fundamenta toda a produção dos corpos.

Igualmente, a produção (origem) da matéria não pode se dar a partir da matéria, pois segundo Aquino (2009b, c. 1 n. 1), “da matéria não

2 A saber, não há matéria sem forma na natureza.

3 Tomada aqui no sentido comum do termo.

Referências

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