* Mestranda em Antropologia Social.
PEREZ, Léa Freitas; AMARAL, Leila; MESQUITA, Wania (Org.). Festa como perspectiva
e em perspectiva. Rio de Janeiro: Garamond, 2012. 380 p.
Patrícia Kunrath Silva*
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil
O foco está nas festas. Nas festas como fato e como questão […]. E que, por isso mesmo, se constituem em verdadeira
perspecti-va a partir da qual se penetra – com o perdão pela linguagem objetifi cadora – nas religiões, nas construções da infância e da juventude, na organização dos tempos, nas artes, na política, nas histórias, nas morais, no turismo, no trabalho, na loucura, na violência, na organização retórica. Tudo isso ganha nova luz.
Otávio Velho
Festa como perspectiva e em perspectiva é um livro composto por uma pluralidade de artigos que nos conduzem por ricas propostas
teórico-metodo-lógicas e análises a partir de dados etnográfi cos e históricos na proposição de
uma compreensão, de apreensão, dos “universos festivos”. Com aporte em diversas modalidades de eventos festivos, a coletânea apresenta ao leitor a
possibilidade de refl etir acerca da produção acadêmica crescente em torno do
tema “festa” – lato senso – e suas abordagens, bem como seguir um percurso
nova apreensão – a partir de uma gama variada de estudos apresentados por renomados pesquisadores brasileiros, que têm se dedicado ao tema da “festa”,
esta obra condensa “diferentes formas de abordagens etnográfi cas e históricas
do fenômeno festivo em modulações empíricas: cristotecas
católico-carismá-ticas, ‘boias-frias’, festa infantil de aniversário, literatura, funk, música
eletrô-nica, ciberarte, turismo religioso […] relações entre festa e religião” (p. 14). A diversidade dos textos alcança ainda o nível das problematizações e análises
que colocam em foco discussões sobre performance, ritual, violência,
iden-tidade, etc., além de explorar refl exões quanto ao lugar do pesquisador em
campo e do próprio fazer antropológico.
Dividida em 17 capítulos condensados em três eixos ou blocos temáti-cos, a obra coloca em perspectiva: um viés teórico-metodológico, um bloco
de cunho mais etnográfi co e outro, histórico. Partindo da festa sempre como
evento complexo, espaço paradoxal de rompimento e renovação em relação a uma ordem externa, o leitor é convidado a pensar, no encadeamento dos pró-prios textos, as ordens e universos simbólicos internos acionados em espaços muitas vezes caracterizados como liminares (Turner, 1974).
No eixo teórico-metodológico Léa Freitas Perez expõe refl exões
acer-ca “do entendimento da festa em perspectiva, ou festa-fato” propondo passar para a sua apreensão como perspectiva, ou festa-questão. Partindo de noções de ritmos, alternâncias e periodicidades marcadas pelas festas, como ensinado por Mauss (1974) e Van Gennep (1978), a autora lança o questionamento:
“Afi nal, o que é festa?” A partir dessa provocação e ao mesmo tempo convite
à refl exão, a autora propõe abordar a festa-questão como apreensão de uma
perspectiva propriamente dita, superando e enriquecendo defi nições
conheci-das e até consagraconheci-das nas ciências sociais, mas que se restringem a descrever e remeter a festa a um fenômeno externo, muitas vezes no campo das religiões, considerando a própria festa como um mero epifenômeno (p. 23).
Na esteira da discussão acerca do estatuto de carência conceitual da festa nas ciências sociais, Léa Freitas Perez traz à luz questionamentos acerca de
teses lançadas quanto à “morte da festa” com o advento da modernidade.1 Em
seu argumento a autora mostra como a festa ainda está viva celebrando, reno-vando, selando pactos, uniões, trocas, sendo parte fundamental da vida social.
De suas considerações irradiam indagações que orientam no sentido de se questionar e rever aquilo que se pensa e como se pensa a festa na antropologia.
Olhando para o interesse que as festas de santo despertam nos cientistas sociais, Renata de Castro Menezes lança mão da discussão acerca da “tradição
e atualidade no estudo das festas” a partir de uma leitura de Saint Besse, ou
São Besso, de Robert Hertz – publicado pela primeira vez em 1913 (p. 43). O culto alpestre, italiano, em homenagem ao santo, estudado pelo
sociólo-go – de certa forma pioneira pelo viés etnográfi co e abordagem da cultura
popular ou religiosidade popular – apresenta perspectivas distintas para as diferentes comunidades estudadas nos registros da montanha e da planície.
Além de desenvolver uma refl exão sobre o fazer do pesquisador e desafi os na
produção antropológica, a autora refl ete acerca das fronteiras – e seus
rompi-mentos pela devoção – entre os grupos sociais, a própria organização social, disputas, tensões e questões de reivindicação de legitimidade entre eles. No entanto, a autora aponta que Hertz já destaca o poder de reunião na celebração apesar desses elementos de tensão e apresenta ao leitor as diferentes versões nas legendas sobre a vida do santo. É interessante observar como nessas lei-turas e seus encontros os sujeitos (re)apropriam-se das legendas e impregnam
de criatividade as narrativas a fi m de sobrepô-las e operá-las, e como também
investem tempo e energia na realização das festas de devoção.
Fechando o primeiro bloco, Rita Amaral propõe “questões metodológi-co-organizativas do campo festivo brasileiro” (p. 67). A autora aponta o cará-ter fundamental, para o estado da arte em que se encontram os estudos sobre festas, de organizar e estabelecer parâmetros e diretrizes metodológicas cla-ras que sirvam como padrão para possibilitar estudos comparativos e orientar uma forma de categorização dos dados.
Além disso, segundo a autora, certas defi nições e conceitualizações nos
estudos de festas são fundamentais, como, por exemplo, a defi nição da
inten-ção do evento (comemorainten-ção, celebrainten-ção, cumprimento de um rito, ou ou-tro). Categorizando os eventos em festas, festivais e festividades, Rita Amaral sugere também pensar – e aqui o leitor é remetido a lembrar o texto de Léa Freitas Perez – “o que é (ou não) festa”. Em suas considerações acerca de mé-todos e técnicas de pesquisa, a autora encerra seu texto propondo a aplicação e
o modelo de uma “fi cha catalográfi ca para o registro de eventos festivos”, sem
claro de organização e sistematização dos dados, passível de grande interesse para todos os pesquisadores que trabalham com a temática.
O segundo eixo, que trata de uma perspectiva mais etnográfi ca, pode ser
subdividido em dois núcleos temáticos, como aponta Léa Freitas Perez, “um que se refere às diferentes modulações festivas do campo religioso brasilei-ro […] outbrasilei-ro que trata de manifestações festivas que mais recentemente têm despertado o interesse de pesquisa e que dizem respeito ao mundo do trabalho […] da infância, ao comportamento e à música no universo pop […] à arte e à literatura” (p. 15).
No primeiro núcleo o leitor encontra o texto de Emerson Sena da Silveira tratando das “Cristotecas católico-carismáticas” e problematizando questões de performance, tradição e identidade (p. 87). Com referências em Maffesoli
(2001), Hannerz (1997) e Barth (1995), o autor estabelece uma refl exão acerca
de fl uxos, fronteiras e identidades aqui aplicada ao contexto da religião, festa e
consumo, mas que pode ser pensada na problematização da própria identidade enquanto “juventude” dos atores em foco. Desejos, contenção, moralidade,
performance, elementos acionados que ganham visibilidade nessa análise de um espaço que parece mediar relações e práticas atravessadas pela “intensa circulação dos corpos, emoções e consumo” (p. 103).
Wania Mesquita trabalha com a religião inscrita no espaço/tempo da “folia” (p. 105). Sua análise se desenvolve a partir do bloco evangélico no carnaval carioca, o bloco Mocidade Dependente de Deus, da Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul. Traçando um breve histórico do bloco
por meio de entrevistas e depoimentos dos fi éis/foliões a autora aborda a
par-ticipação e envolvimento destes na criação do samba e dos enredos enquanto dispositivos religiosos que devem alcançar o povo na rua, chamando para a
religião. À signifi cação e apropriação que esse bloco religioso faz do cenário
da festa, se opõe a ideia de outros grupos religiosos que dela se afastam, não interagindo, mantendo uma dicotomia – nesse caso ultrapassada – do sagrado
da religião versus o profano do carnaval. A autora indica ao leitor a
importân-cia de pensar a presença da religião em um espaço festivo que extrapola a es-fera propriamente religiosa para pensar assim dinâmicas importantes da vida social brasileira, bem como o dinamismo e crescimento que esse segmento religioso tem alcançado no país (p. 117).
peregrinação atravessadas pela lógica do turismo religioso (p. 119). A autora discute e problematiza a questão da dicotomia das premissas coletivizantes
versus individualizante e as fronteiras entre ritual e cotidianidade, propondo utilizar o conceito deleuziano de agenciamento para pensar as relações de alteridade.
A preocupação em lidar com as dimensões do público e privado nas fes-tas religiosas pode ser encontrada no trabalho de Eufrázia Cristina Menezes Santos, que trata das festas públicas do candomblé como abertas a diversas
leituras possíveis (p. 131). Ao demonstrar a signifi cação dada pelos adeptos
da religião, em que arte e culto praticamente se confundem, sendo a música, dança e canto formas de comunicação com o sagrado, a autora contrapõe a visão do público que assiste ao culto com curiosidade e interesse, mas em um registro distinto. Tratando da festa enquanto espetáculo religioso, Eufrázia Santos destaca elementos “a serem vistos” no ritual, dentre eles as roupas, a
música e a dança, e encerra com a refl exão acerca da visão de mundo acionada
e partilhada na festa ou no culto que apresenta “a vida como um continuum
entre razão e não razão, entre arte e religião, entre aiyê e orun, entre magia e
religião, deixando de lado as polaridades e antinomias que fragmentam nosso olhar e nossas emoções” (p. 150).
A temática da festa segue perpassando diversos contextos ao longo da lei-tura. Ao chegar na temática do “Sacrifício e festa no Xangô de Pernambuco”,
de Roberto Motta, o leitor encontra um refl exão franca e bem-humorada que
ilumina questionamentos também acerca do lugar do antropólogo em campo,
sua biografi a e trajetória contextualizadas e seu próprio métier. Partindo da
relação entre comida e religião, meat and feast, o autor discute elementos do
ritual de sacrifício, o sangue e a emoção, e pensa em termos da função de bom
pra comer, bom para ser e bom pra pensar.
No segundo núcleo temático o leitor depara-se com mais uma rica va-riedade de objetos empíricos que passam pelo “Caxambu de Marafunda: ri-tual, memória e relações sociais”, texto de Oswaldo Giovanninni Junior (p.
175). A performance e a violência se apresentam como elementos fundantes
no caxambu que, como demonstra o autor, vem passando por um processo
de ressignifi cação a partir da criação da “Rede de Memória do Jongo e do
são feitas e como os elementos fundantes atravessam o “novo formato”, tor-nando-se imperativo atentar à capacidade ativa e criativa dos participantes.
John Cowart Dawsey trata da festa dos “boias-frias” (p. 197). Da mistu-ra do esgotamento físico e nervoso, nas carrocerias de caminhões de “boias--frias”, o autor observa surgir o clima de uma festa carnavalizante. Em jogos de deboches, sátiras da própria “loucura da loucura” de sua condição, estes trabalhadores parecem enfrentar a condição de suas existências com as festas nos trajetos de ida e retorno do canavial, alternando entre “autodeboches”, jocosidades com transeuntes, provocações com outros automóveis, etc. As descrições oferecidas no texto advertem ao lugar olhado das coisas, remetem
às margens e indicam práticas e estratégias desses bricoleurs em festa jogando
com os restos e as sobras de estruturas simbólicas.
Marcação do tempo, ritual de passagem e infância na sociedade con-temporânea ocidental. Com estes marcos temáticos, Eliana Braga Aloia Atihé
articula uma “refl exão imaginativa” acerca da festa infantil de aniversário
(p. 211). Em sua pesquisa, a autora elucida elementos simbólicos dessa festa
ritual, uma das poucas marcações de passagem que se mantêm signifi cativas
no cenário moderno. Abordando tanto festas de aniversário infantil das “eli-tes” em formatos luxuosos – como as realizadas em uma limusine – quanto
festas das “classes populares” com menos recursos fi nanceiros, o texto mostra
a centralidade que esta ainda ocupa no imaginário da sociedade e como a sua prática pode ser pensada em termos mesmo de um cultivo da alma.
A dimensão da violência dentro do espaço da festa é retomada por José
Augusto Silva e Leila Amaral ao tratarem do universo funk. Mais uma vez
trazido à tona um recorte de juventude – antes colocada em termos de uma
juventude cristã por Emerson Silveira – o que se vê agora é afl uir a disputa e a
briga por uma moral do poder por meio de uma disposição: a disposição para a violência. O controle e a ordem são buscados pelos seguranças dos bailes,
e estes, DJ’s e funkeiros compõem o cenário típico da festa funk. No entanto,
extrapolando essa esfera se pode depreender da leitura como esses jovens vão além do espaço restrito da “sua festa” e, organizados em galeras, acionam suas dinâmicas em contextos múltiplos como na Parada Gay, na Folia de Reis e na Banda Daki.
Das análises propostas não poderia faltar o olhar antropológico
vol-tado ao cenário da música eletrônica e das raves. De pequenos universos
transformação e sociogênese na música eletrônica de pista” (p. 255). A
ex-posição de sua experiência de pesquisa junto ao DJ de techno Arlequim e os
depoimentos do mesmo demonstram interpretações e signifi cações de uma
proposta de modulações da mente por meio da música e todo um ritual
envol-vido no que por muitos chega a ser chamado de uma “cultura rave”. Aliando
ou não o consumo de drogas, evidencia-se aqui mais uma faceta de tantas pos-síveis de juventudes pensadas. São pequenos grupos ou massas de pessoas, de certa forma conectadas e engajadas em uma mesma proposta, em níveis mais
“abertos” ou “fechados” da mente, para a condução do próprio DJ por meio
da música.
Leila Amaral discute “O caráter festivo da ciberarte” com base na inte-ratividade, olhando para construções artísticas digitais, o coletivo nesse
uni-verso, seu caráter sacrifi cial e as dimensões “humano e não humano” (p. 273).
Como indica a autora, “coloco, assim, em destaque a característica principal a ser levada em conta nesta minha interpretação do caráter festivo da ciberarte: a interatividade e a ação colaborativa desencadeada e ampliada por essa
ver-tente artística mediada por tecnologias” (p. 278). Sua refl exão se desenvolve
apropriando-se de três movimentos interpretativos, que passam pelo sacrifício da noção ocidental de “in-divíduo” dando lugar ao “divíduo” por meio das conectividades, a falta de sentido do mundo e a passagem da condição huma-na transformada em “inumahuma-na” (Dyens, 2008) até chegar ao aparecimento do festivo na interconectividade.
Sobrepondo mais uma vez festa e violência, mas agora em planos
distin-tos, Regina Coeli Machado e Silva desenvolve uma análise do conto Feliz ano
novo, de Rubem Fonseca (p. 289). Atentando para os planos de vida e morte
e a dimensão das possibilidades de violência nos centros urbanos, a narrativa do conto joga com “o medo, a impureza, a repugnância”. Quando um grupo de ladrões, sujeitos marginalizados da sociedade, invade a festa de ano novo de um grupo que desfrutava a “vida da festa”, e dá início a atos de violência, morte, violação dos corpos e sexualidades, instala-se o confronto dessas re-alidades que convivem nas metrópoles. Entretanto, a autora indica que por um momento o conto “subverte essa contradição, unindo dessemelhantes pelo excesso, formando uma unidade tensa em torno do valor precário da vida”.
Schwarcz trata da festa de Aclamação de Dom João VI, no Rio de Janeiro,
co-locando em questão a construção do cenário para a performance em uma
cele-bração ofi cial e ritualística. Em uma análise que cruza antropologia e história,
com recursos de imagens e trechos de versos e inscrições, é possível observar como se construiu um encantamento da festa, elemento central também de sua
“efi cácia”.
No que tange a festas do “período colonial brasileiro” em uma refl
e-xão sobre “festas barrocas”, Guilherme Amaral Luz traz dados, imagens e
refl exões teóricas que colocam luz novamente sobre a dimensão de poder e
preenchimento do vazio pelos excessos que se faziam presentes nas festas em questão. O autor mostra que essas festas não seriam a suspensão do cotidiano
nas colônias, mas sim “a sua extensão, o seu spectrum” – remetendo à pompa
da monarquia – estando seu diferencial centrado nos efeitos que deveriam
ge-rar, tais como “reafi rmação de pactos políticos […] desengano das vaidades e
a percepção sensorial e afetiva da concórdia. Em outros termos, as festas eram
evidências exteriores de um teatro interior.” (p. 341).
A referência a esses artigos, nesta coletânea que abrange signifi cativos
estudos sobre festas produzidos na antropologia brasileira, indica a existência de uma pluralidade de olhares, enfoques, metodologias e arcabouço teórico sendo pensado e utilizado na área, ao mesmo tempo em que provoca e indica a possibilidade de espaços para pesquisa e aprofundamento das discussões no campo antropológico. Seja a partir de pontos intrínsecos à realização das
festas, como mobilização dos agentes, a performance, violência, identidade,
subversão e ordem – apontados nos textos –, seja a partir de um olhar voltado
para o fenômeno festivo complexo, a partir dessa leitura fi ca patente a
relevân-cia dessa produção para a compreensão de dinâmicas sorelevân-ciais que extrapolam o “multiverso festivo” (p. 14).
Referências
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DYENS, O. A busca da espiritualidade na condição inumana: o exemplo da
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HANNERZ, U. Fluxos, fronteiras, híbridos: palavras chaves da antropologia
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