Tourism as an alternative towards the preservation of the cultural heritage of the Araçá Cemetery
Cintia de Oliveira Silva [email protected] Orientador: Brenno Vitorino Costa
RESUMO: Ao contrário de alguns países, no Brasil há poucas ações voltadas para a
inserção dos Cemitérios como atrativo turístico das localidades. Esse artigo tem como objetivo mostrar a importância do turismo para a preservação do patrimônio histórico cultural nos cemitérios antigos das grandes metrópoles, usando como estudo de caso o Cemitério do Araçá, um dos mais antigos da cidade de São Paulo. Para tanto, realizou-se pesquisa exploratória em livros, artigos nacionais, posteriormente visitações para verificação da estrutura existente no local e entrevista com funcionários. Conclui-se que o local possui grande potencial artístico e histórico, porém é necessária a elaboração de propostas para adequar e preservar o patrimônio cultural do Cemitério, para que esse possa ser usufruído da melhor maneira pelos visitantes.
Palavras-chave: turismo, patrimônio histórico cultural, Cemitério do Araçá, São
Paulo, Brasil.
ABSTRACT: In Brazil there are just few initiatives focused on the integration of
Cemeteries as a tourist attraction. This university project aims to show the importance of tourism to the preservation of cultural heritage in the old cemeteries in large cities, using as a case study of the Araçá Cemetery, one of the oldest in the city of São Paulo. Therefore, we carried out research in books, national articles and later visits of inspection for verification of the existing structure on site and interviews with officials. It is concluded that the site has great historical and artistic potential, but it is necessary to prepare proposals to adapt and preserve the cultural heritage of the cemetery, so that can be better explored by visitors.
Keywords:tourism, cemetery, historic-cultural heritage, Araçá Cemetery, São Paulo, Brazil.
Introdução
No Brasil, até o final do século XVII, as pessoas eram sepultadas dentro das igrejas e muitas dessas igrejas, até hoje, conservam os túmulos e estão abertas à visitação. Entretanto, três motivos fizeram com que essa realidade mudasse, e os sepultamentos passaram a ser feitos em locais abertos. O primeiro foi a questão sanitária; não necessariamente era uma prática inovadora, uma vez que esse procedimento já era comum entre os povos chineses e japoneses. O segundo, causado pela separação da Igreja Católica do Estado, o que fez com que pessoas de várias religiões e pessoas não religiosas pudessem ser sepultadas nas igrejas. O terceiro foi o crescimento dos centros urbanos, que dificultou a manutenção das antigas práticas nas igrejas (OSMAN; RIBEIRO, 2008).
O primeiro cemitério público da cidade de São Paulo foi o da Consolação, inaugurado em 1858 e onde estão enterradas pessoas de várias classes sociais. O Dr. João Bueno, em 1896, expõe idéias sobre a ampliação do Cemitério da Consolação. Contudo, não encontrou um terreno, e propôs assim a criação de um novo cemitério, que viria a ser o Cemitério do Araçá. Ele está localizado a mil metros do Cemitério da Consolação e sua construção foi iniciada em 1897 (MASTROMAURO, 2008, p. 96).
Com os cemitérios em lugares abertos, as pessoas ricas começaram a construir túmulos suntuosos, para assim, poderem se distinguir e mostrar sua importância e riqueza diante da sociedade. Isso tornou os cemitérios verdadeiros museus a “céu aberto”, com várias construções e esculturas de grande importância como patrimônio cultural (REZENDE, 2007).
Para o Ministério da Cultura, a utilização dos bens culturais através da atividade turística supõe que haja a valorização e a promoção do local, bem como a manutenção e garantia de sua permanência no tempo. A valorização e promoção significam propagar o conhecimento sobre esses bens e facilitar-lhes o acesso e usufruto, além de respeitar sua memória e identidade.
O turismo é uma forma de fomentar a preservação do patrimônio cultural. De acordo com Lickorish e Jenkins (2000 apud TONINI, 2009, p.93) o turismo é um deslocamento temporário, que ocorre por diversos motivos que unem a fantasia, o sonho e o diferencial na experiência do produto turístico, o qual tem como
característica a combinação de bens e serviços, que é comprado pelo viajante com intuito de fazer sua viagem.
Pode-se dizer, assim, que o turismo está relacionado à motivação do turista em vivenciar o patrimônio histórico e cultural além de aproveitar determinados eventos culturais de uma localidade, sem que estes sejam prejudicados, ou seja, que haja a preservação do patrimônio histórico e cultural.
Dentre os vários elementos componentes do patrimônio cultural de uma localidade, os cemitérios, em países como Argentina e França, atraem muitas pessoas, tornando-os verdadeiros pontos turísticos. Neles, os visitantes podem conhecer túmulos de personalidades mundiais, da literatura, da música e da política, além de visitar as obras de artes que eles possuem. (OSMAN; RIBEIRO, 2008 p.03)
Os Cemitérios La Recoleta (Argentina) e Père Lachaise (França), são dois exemplos de cemitérios que atraem visitantes de vários lugares do mundo. No Brasil, o Cemitério da Consolação, em São Paulo, faz parte do Projeto Arte Tumular, que consiste em visitas agendadas e monitoradas aos túmulos de personalidades ilustres e às obras de arte existentes no cemitério.
Este artigo tem como objetivo principal estudar a importância do turismo para a preservação do patrimônio histórico cultural nos cemitérios antigos das grandes metrópoles, estudando o caso do Cemitério do Araçá, um dos mais antigos da cidade de São Paulo.
Para atingir o objetivo proposto, realizaram-se visitas ao Cemitério do Araçá, utilizando-se de uma observação sistemática para verificação da estrutura existente no local, como esculturas, placas, calçamento e estacionamento. Através de visita guiada, obtiveram-se maiores conhecimentos do local, informações das esculturas e ilustres sepultados. Para realização da visita e para tirar fotos foi necessário solicitar autorização à assessoria de imprensa da prefeitura da cidade de São Paulo, não sem antes obter informações junto aos funcionários do Araçá, através de entrevista com o administrador do cemitério Sr. Carlos David, a encarregada da administração Sra. Julia Nascimento, o encarregado Sr. Miguel Rodrigues Vieira e o agente de apoio da administração Sr. Osmair Camargo Candido.
Origem dos Cemitérios
A superstição e o medo são dois dos problemas que afastam as pessoas dos cemitérios. Isso ocorre pelo fato da morte ser uma fonte de mistério, interrogações, angústia e revolta.
Para Chiavenato (1998, p.16):
Além do mistério que a morte propõe, as pessoas viam-se diante de um corpo que apodrecia, cheirava mal e, conseqüentemente, assustava. A primeira impressão é de que esse corpo em transformação não está morto. É evidente a sua degradação, e, mesmo durante algum tempo, pode-se perceber alguns sinais de vida: vermes saindo do ventre do cadáver, unhas e cabelos continuando a crescer, Sem uma explicação para tais fenômenos, o homem precisava se livrar dessa presença ameaçadora. Foi assim que a superstição invadiu o pensamento, e surgiram as fantasias que se transformaram em lendas e mitos (...). Temia-se a morte como algo desconhecido e acidental, que quebrava a normalidade da vida social. (CHIAVENATO, 1998, p.16)
A palavra Cemitério tem origem grega (Koumetèrion) que se referia ao local onde se dormia. A apropriação do termo aconteceu por parte da Igreja Católica (descanse em paz), em referência ao descanso do senhor morto na “mansão dos mortos”, até sua ressurreição no terceiro dia usando a palavra coemiterium, palavra do latim (REZENDE, 2007, p.12).
As primeiras sepulturas encontradas datam de 35 mil anos antes de Cristo; o homo sapiens, nesse período, enterrava seus mortos sentados com os braços em volta dos joelhos (CHIAVENATO, 1998, p.12).
Para Rezende (2007, p.13) a crença na reencarnação e a busca de outro mundo regiam a forma de sepultamento e os diferentes rituais, com o intuito de salvação da alma e conservação do corpo.
Segundo Chiavenato (1998, p.13) as covas passaram a ficar mais fundas a fim de que os fantasmas não pudessem sair de seus túmulos, isso ocorreu após o surgimento da crença que diz que o homem é corpo e alma. Essa crença deu origem ao conhecido “sete palmos”, onde se dizia que o morto estava “seguro” embaixo de sete palmos de terra. No entanto a realidade era de que os vivos sentiam-se “garantidos” com a terra aprisionando o morto. Por isso supõem se que tais comportamentos visavam impossibilitar o retorno do morto.
Os cemitérios atuais são semelhantes aos que eram controlados pela Igreja Católica durante a Idade Média, onde a desigualdade social era representada espacialmente,
ou seja, os ricos eram sepultados em “dormitórios” próximos ao altar e os pobres ficavam do lado de fora, no pátio da igreja (REZENDE, 2007, p12).
De acordo com Mastromauro (2008, p.92), as pessoas se associavam a alguma irmandade e assim tinham garantia que seriam enterradas em alguma igreja quando falecessem. E por isso as associações procuravam aumentar seus patrimônios através de fundos criados pelos próprios membros.
Segundo Mastromauro (2008, p.93), a discussão sobre a construção de cemitérios públicos teve inicio a partir do período colonial e prosseguiu até 1850. Nessa época foram criadas várias teorias médicas, o que acabou influenciando a criação de leis e decretos, que autorizavam a construção de cemitérios públicos. O objetivo era separar os vivos dos mortos, pois os médicos higienistas dessa época estavam preocupados com a salubridade dos lugares.
Essas medidas estão relacionadas com os tratados de arquitetura de Pierre Patte e Vicq D’Azir no século XVIII, que recomendavam que os sepultamentos fossem realizados fora da área urbana, pois acreditavam que os cadáveres trouxessem doenças mortíferas (MASTROMAURO, 2008, p. 93).
O Brasil também teve seus higienistas. Na cidade de São Paulo, Libero Badaró, médico e jornalista, propôs por questões higiênicas o término dos sepultamentos nas igrejas (REZENDE, 2007, p.70).
Ainda de acordo com Rezende (2007, p.70), a ação dos higienistas ocorreu entre o século XVIII e XIX, devido à necessidade das indústrias nascentes de distribuir suas mercadorias. Para isso era necessário o alargamento das ruas com esse panorama alguns administradores decidiram isolar os mortos dos vivos, construindo os cemitérios longe da aglomeração humana.
Porém, com o crescimento das cidades a população expandiu suas moradias até as regiões onde se encontram os cemitérios, fazendo com que alguns deles se encontrem em meio aos grandes centros urbanos, como é o caso dos Cemitérios do Araçá e Consolação na cidade de São Paulo e La Recoleta em Buenos Aires.
O turismo em cemitérios
O turismo em cemitérios tem um grande destaque em alguns países como França e Argentina, onde os cemitérios, respectivamente, Père Lachaise (Paris) e o La Recoleta (Buenos Aires) são conhecidos pontos turísticos, e atraem pessoas do mundo inteiro interessadas em visitar os túmulos de figuras famosas que fizeram história nas artes ou na política ou para apreciar a arte tumular.
O Cemitério Père-Lachaise foi criado em 1803 por Napoleão Bonaparte. O local tem 44 hectares, com mais de 110 mil túmulos e seis mil árvores espalhados. É um lugar usado para o lazer e o turismo. Nesse cemitério estão enterradas mais de 50 celebridades mundiais, tais como Allan Kardec, Jim Morrison, Victor Hugo e Frédéric Chopin. Anualmente o Père-Lachaise registra três milhões de visitantes.
Em relação à estrutura para o turismo, o cemitério conta com serviço de guias de turismo especializados, na maior parte das vezes bilíngües, que conduzem os visitantes aos túmulos de importância histórica e artística. As visitas ocorrem com hora marcada em determinados dias da semana. Também há indicação da localização de túmulos de famosos e um mural na entrada que contêm a informação de personalidades sepultadas no local, segundo Osman e Ribeiro (2000, p.4-7). O cemitério conta também com um site que permite ao visitante da página realizar um tour virtual pelo local.
O Cemitério La Recoleta, inaugurado em 1822, possui cerca de seis mil túmulos. Desde 1946 é considerado Museu Histórico Nacional, devido às personalidades sepultadas, à arquitetura e suas esculturas.
No Brasil, pode-se destacar o Cemitério da Consolação, o mais antigo da cidade de São Paulo. Inaugurado em 15 de agosto de 1858, estão enterrados no local personagens importantes da história do Brasil, como a Marquesa de Santos, Ramos de Azevedo, Tarsila do Amaral e Monteiro Lobato, conforme dados obtidos no site da Prefeitura da Cidade de São Paulo (2009).
O Cemitério da Consolação faz parte do Programa Arte Tumular, que foi idealizado e viabilizado pelo Serviço Funerário da cidade de São Paulo, a partir de pesquisas realizadas pelo historiador Délio Freire dos Santos. O projeto consiste em visitas monitoradas previamente agendadas e tem como público alvo estudantes,
professores, pesquisadores e turistas, conforme informado pela Prefeitura da Cidade de São Paulo.
Para Godoi (2003), o turismo no Brasil precisa ser desenvolvido e explorado em vários aspectos. Em alguns casos não existe demanda para alguns segmentos ou não existe oferta para outros. No caso do turismo em cemitérios, o autor explica que algumas das causas da falta de oferta e de demanda, no Brasil, são a cultura e a tradição de cada local, sendo a superstição e o medo entraves.
Apesar do turismo interno no Brasil estar em constante crescimento, não há iniciativas voltadas para a inserção dos cemitérios como atrativo turístico.
Nota-se que há uma falta de conscientização por parte da população e dos administradores para a importância em se preservar os bens artísticos e culturais que se encontram nos cemitérios.
Godoi (2003) destaca a importância de se preservar o patrimônio dos cemitérios:
Degradadas, muitas manifestações artísticas nos túmulos e lápides perdem o seu encanto e beleza que é naturalmente ofuscada pelo tom fúnebre e sombrio dado aos cemitérios... O que demonstra que é o espaço em que a obra está localizada é que vai influenciar no valor que a sociedade atribui a ela. Uma herança cultural pobre onde os antepassados não são valorizados produz uma sociedade ávida por novidades relegando sua memória ao limbo do esquecimento. Volver nossas atenções para cemitérios como os do Araçá e Consolação em São Paulo.
Cemitério do Araçá
Em 1896, afirmou-se não encontrar terreno para ampliação do Cemitério da Consolação e propôs-se a criação de um novo Cemitério Público.
O argumento era de que:
Não podendo executar a Lei n°187, que autoriza o aumento do Cemitério da Consolação – por não encontrar para isso o terreno necessário – e por ter reconhecido inconveniente a continuação do mesmo cemitério, persistindo, no entanto, na necessidade de terreno para o enterramento cujo número de dia em dia aumenta com o crescimento da população desta cidade, de acordo com Sr. Dr. Silva Pinto, Diretor do Serviço Sanitário, foi conjuntamente com o Dr. Evaristo de Veiga, examinar o terreno em frente ao Hospital do Isolamento que tem aérea de 200.000 metros quadrados, segundo a planta junta, reconhecendo ter ele todas as condições precisas para um novo Cemitério, não só pelo lado higiênico, como pela excelente topografia do lugar. (BUENO, 1896 apud MASTROMAURO, 2008, p.97).
De acordo com Mastromauro (2008, p.98) em 31 de Janeiro de 1896, o Sr. Rodrigues de Barros declara ter entrado em negociação para a compra do terreno
para o novo cemitério. Em março de 1896, a Câmara autorizou a execução das obras de nivelamento e limpeza do terreno adquirido para construção do novo cemitério público. Também foi realizado o calçamento que ia da Rua da Consolação até o novo Cemitério Municipal do Araçá.
Segundo Rezende (2007, p.27), o Cemitério do Araçá pode ser classificado como Cemitério Tradicional, pois é usado para enterros de pessoas tradicionais e grandes burgueses. A construção dos Cemitérios Tradicionais tem origem européia no século XVIII e XIX, por isso pode-se chamá-los de cemitérios históricos, pois normalmente são os mais antigos das cidades. A marca dos cemitérios tradicionais como o Araçá, são as esculturas construídas nos jazigos.
Acesso e Caracterização
Para realização da caracterização e acesso do cemitério, utilizou-se de observações sistemáticas, realizadas entre os anos de 2009 e 2010. Durante as visitas ao local, listaram-se aspectos que deveriam ser observados como: limpeza (número de funcionários fixos, lixeiras); segurança (número de funcionários fixos e rondas); acesso (linhas de ônibus e metrô, táxi nas proximidades, estacionamento para veículos) e outros cemitérios encontrados nas proximidades do Araçá.
O Cemitério do Araçá está localizado no número 666 da Avenida Doutor Arnaldo, Zona Oeste da cidade de São Paulo. O local é aberto para visitação diariamente das 7 às 19h.
O local conta com aproximadamente 42 funcionários responsáveis pela limpeza, sendo 18 contratados por uma empresa terceirizada e 24 do Serviço Funerário de São Paulo.
O Serviço Funerário também é responsável pela segurança dos 22 cemitérios municipais da cidade de São Paulo. A segurança é realizada através de rondas, de acordo com o encarregado Miguel Rodrigues Vieira, existe apenas um carro responsável em realizar a segurança dos 22 cemitérios, o que ocasiona que alguns dias da semana a ronda pode passar duas ou três vezes pelo Araçá como também pode não passar nenhuma vez.
Segundo a encarregada da administração do cemitério Julia Nascimento, eles não possui um número exato de quantos funcionários trabalham no local.
Nas proximidades do Araçá encontram-se outros três cemitérios: o Cemitério do Santíssimo Sacramento, o Cemitério do Redentor – São Paulo, estes localizados na Avenida Doutor Arnaldo e o Cemitério da Consolação, localizado na Rua da Consolação.
Figura 1 – Localização do Cemitério do Araçá Fonte: GOOGLE MAPS, 2010
O local onde está situado o Cemitério do Araçá é de fácil acesso. Pode-se chegar de automóvel próprio, metrô, ônibus ou táxi.
É permitida a entrada e estacionamento de automóveis dentro do Cemitério, através da entrada principal. Entretanto, não existem vagas demarcadas para se estacionar; os carros são estacionados nas vias asfaltadas, como se pode notar pelas figuras 2 e 3. A propósito desta e demais figuras, todas foram tiradas pela autora, exceto quando indicado.
Figura 2 – Carros estacionados dentro do cemitério
Figura 3 – Estacionamento de carros nas vias do Araçá
É possível se chegar ao Araçá através de táxi. Em frente à sua entrada principal há um ponto de táxi para os visitantes.
O acesso pelo Metrô (Linha Verde - Estações Clínicas ou Sumaré) se dá pela estação Clínicas, que se encontra em frente ao Cemitério.
Para os visitantes que utilizam como meio de transporte os ônibus, existem linhas vindas de várias regiões da cidade. Segundo informações da SPTrans são aproximadamente 20 linhas de ônibus que passam nas proximidades.
Há sete portões de entradas no Araçá, segundo informações obtidas na administração do mesmo. Entretanto, atualmente somente quatro estão abertas, com intuito de evitar o vandalismo.
O local possui poucas placas de indicação, sendo que uma delas se localiza em frente à entrada principal. Essa indica as direções da Administração, da Capela e do Velório. No local podem-se observar diversos funcionários trabalhando para a limpeza das ruas e quadras. Quanto aos cuidados com os túmulos, eles são feitos através de pedido e pagamento por parte das famílias dos falecidos; por isso mesmo, observa-se no local alguns túmulos abandonados e obras de arte danificadas, como é possível verificar na figura 4.
Figura 4 – Estátua de Anjo danificada
O acesso para portadores de necessidades especiais e pessoas idosas é bastante dificultado, pois o calçamento interno está em condições ruins. Algumas quadras onde se encontram os túmulos são estreitas e dificultam a passagem de cadeiras de rodas. Além disso, o acesso para a parte baixa do Cemitério ocorre através de escadas ou rampas com asfalto danificado e muito inclinadas (figuras 5, 6 e 7).
Segundo informações da administração atualmente não existe um projeto para reforma do cemitério ou pelo menos dessas vias internas.
Figura 5 – Acesso à parte baixa do cemitério Figura 6 – Asfalto danificado
Figura 7 – Escada de acesso parte baixa do cemitério
O local oferece aos visitantes o serviço de guiamento, que deve ser agendado e que ocorre às segundas-feiras.
Visita Guiada
O agendamento de visitas é realizado através dos telefones (11) 3256-6486 e 3258-3190. O responsável pelo agendamento e guiamento é o Sr. Osmair Camargo Candido, conhecido como “Fininho”.
Encontrou-se grande dificuldade na marcação e realização dessa visita guiada, pois o Sr. Osmair não está todos os dias no local. Além disso, ele não realiza apenas as visitas; também trabalha como agente de apoio na administração do cemitério.
Realizou-se, afinal, uma visita guiada no dia 19 de outubro de 2009, no período da manhã, pelo Cemitério do Araçá.
Para poder tirar fotos do local foi necessário pedir autorização à Assessoria de Imprensa da Prefeitura do Município de São Paulo, que está localizada à Rua da Consolação, 247, quinto andar.
A visita teve início na administração do local, de onde se partiu para uma visita aos túmulos. Durante a visita observou-se obras de artistas reconhecidos na arte tumular como: Raphael Galvez, Victor Brecheret, Armando Zago, Eugenio Prati, Enrico Bianchi e Roque de Mingo.
Visitou-se o mausoléu da Família Cutrale, conhecida pela importância no mercado global de suco de laranja. A obra de arte do mausoléu é de Raphael Galvez, que foi pintor, escultor, desenhista e lecionou na Faculdade Belas Artes de São Paulo. Outro túmulo visitado foi o da Família Bei, fundadores do bairro de São Mateus em São Paulo. No túmulo encontra-se uma Pietá, obra de um artista italiano que assina como A. Mazzucheli. Não se encontraram maiores informações sobre o artista. Também foram visitados os túmulos de: Maria Esther Figueiredo Ferraz, Cacilda Becker, Francisca Julia, Nair Bello e Euclydes de Jesus Zerbini:
Maria Esther Figueiredo Ferraz foi a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra de Estado do Brasil, durante o governo de João Figueiredo. Além disso, foi a primeira mulher a dar aula na USP (Universidade de São Paulo) e a primeira a ocupar uma cadeira na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil);
Cacilda Becker foi atriz e considerada uma das mais importantes da classe teatral brasileira e defensora da categoria na fase do regime militar de 1964;
Francisca Júlia da Silva foi uma poetisa parnasiana, sendo que seus últimos poemas já apresentavam algumas tendências do simbolismo. Sobre seu túmulo encontra-se uma escultura de Victor Brecheret, de nome “Musa Impassível”, em homenagem a um de seus poemas mais famosos. Atualmente
no local está uma réplica de bronze e a original de mármore encontra-se na Pinacoteca do Estado de São Paulo;
Nair Bello foi uma atriz com mais de 50 anos de carreira, conhecida por sua participação em inúmeras novelas e minisséries, além de filmes;
Euclydes de Jesus Zerbini foi o cirurgião brasileiro que realizou o primeiro transplante de coração na América Latina e quinto médico do mundo a fazê-lo. No Cemitério encontram-se enterrados também personalidades como: Osmar Lins (escritor simbolista), Eunice Rossi (musa inspiradora da música “Amada Amante” de Roberto Carlos), Haroldo de Campos (um dos fundadores do concretismo) e José Mauro de Vasconcelos (autor do livro “Meu Pé de Laranja Lima”). O local possui também um túmulo mulçumano, um túmulo judeu e os memoriais Francês e Britânico. Todas essas informações foram obtidas durante a visita guiada pelo Sr. Osmair.
Segundo informações obtidas através da encarregada da administração do Araçá, não existe nenhuma catalogação das obras de arte, como as mostradas nas figuras 8, 9 e 10, e não há uma estimativa de quantas peças existem no local. De acordo com a encarregada o principal motivo em não se fazer um inventário das obras é a falta de interesse.
Figuras 8, 9 e 10 – Obras de arte do Araçá
De acordo com o Sr. Osmair fazia quase um ano que ninguém o procurava para realizar uma visita guiada no local e que a última pessoa a fazer a visita foi uma turista australiana, que segundo ele “ficou encantada com a beleza das obras”. O local é procurado diariamente por pessoas que vão visitar o túmulo de parentes ou amigos. Durante as cinco visitas realizadas no cemitério observou-se que havia
sempre em torno de vinte a trinta pessoas no local. Não existe um controle sobre quantas pessoas passam diariamente no cemitério.
Em entrevista com o encarregado Miguel e a encarregada da administração Julia obteve-se a informação de que o local tem poucas solicitações para realização de estudos e para se tirar fotos.
Os entrevistados disseram avaliam que o cemitério tem um potencial para receber visitantes para o turismo, pois possui muitas obras de arte, histórias e celebridades tão importantes quanto o cemitério da Consolação, mas a falta de interesse em promover e investir no local são fatores que fazem com que ele seja “esquecido”.
Entrevista com o administrador do Araçá
Foi realizada uma entrevista com o administrador do cemitério do Araçá, Sr. Carlos David, no dia 02 de junho de 2010. Ele está há um ano e meio na gestão do local, mas já trabalha no Araçá há muitos anos. Iniciou como coveiro, foi para a administração e atualmente é seu gestor. Trata-se de um cargo que o tempo de permanência do administrador depende de como está a gestão (boa ou ruim) e que a qualquer momento o administrador pode ser mudado de cargo ou local de trabalho.
No inicio da gestão o principal problema encontrado dizia respeito à limpeza; a medida tomada para solucioná-lo foi a melhor distribuição dos encarregados pela parte de limpeza do cemitério.
Segundo o administrador, atualmente existe um projeto para recapeamento das vias, anexar placas de identificação das ruas e quadras. Também há um projeto solicitando funcionários que fiquem fixos no cemitério para realizar o trabalho de segurança.
Para o administrador, a principal dificuldade encontrada para realizar grandes melhorias no local são as licitações, que devem ser autorizadas pela Prefeitura em conjunto com o Serviço Funerário. Porém, para pequenos consertos, como colocar um corrimão ou arrumar o esgoto, a própria administração fica responsável.
De acordo com observações realizadas diariamente pelo Sr. Carlos David, a maior parte dos visitantes do local visita túmulos de parentes e amigos. Ocasionalmente, algumas escolas, faculdades e turistas pedem autorização na assessoria de
imprensa da cidade de São Paulo para poder fotografar no cemitério, fazer visita guiada ou visitar o local com fim educativo.
Quanto à incidência de furtos, roubos e vandalismo no local, David diz que já faz algum tempo que não há ocorrências, e que iniciativas para amenizar esses problemas vêm sendo tomados desde as gestões anteriores, como fechamento dos portões localizados na parte baixa do cemitério, e a melhor distribuição espacial de funcionários de todas as funções, de forma que todos ajudem a “vigiar” o cemitério. O administrador disse que atualmente não existe nenhum projeto visando o tombamento parcial ou integral do cemitério. Apesar de não ser contra, ele diz que “o tombamento do cemitério acaba impedindo de tomar certas medidas para realizar obras no local, pois tem sempre que se pedir autorização”.
Com relação às visitas guiadas o administrador disse que eles pensam em deixar alguém fixo para realizá-las, mas que atualmente todos os funcionários estão autorizados a guiar as pessoas interessadas nas visitas. David diz que a divulgação das visitas não existe porque nunca se pensou nesse assunto e que nunca houve uma proposta para que fossem divulgadas as visitas em conjunto com o Serviço Funerário.
David entende que seria interessante a divulgação das visitas, para mostrar a parte cultural do local. Para ele as visitas contribuiriam para a preservação do patrimônio, pois o cemitério ficaria mais movimentado e, assim, haveria mais pessoas “vigiando”. Perguntado sobre o fato do Cemitério da Consolação ser mais divulgado e conhecido, o Sr. Carlos David pondera que o da Consolação tem maior destaque por possuir mais obras de arte e mais famosos sepultados.
Após apresentação do projeto de turismo como alternativa para preservar o patrimônio do cemitério e estimular a visitação, o Sr. Carlos David disse que tem interesse e que, apesar da decisão final da aplicação deste no local não depender dele, ele levaria o projeto às pessoas responsáveis (Diretor do Araçá, Superintendente e Serviço Funerário).
Considerações Finais
Após visitas ao local observou-se que, para o desenvolvimento do Cemitério do Araçá como possível atrativo turístico na cidade de São Paulo, é necessário realizar melhorias no local, para que esse receba adequadamente o visitante, além de investimentos na divulgação do Cemitério para visitas.
Observou-se, durante as visitas ao local, que independente do lazer e do turismo, o Cemitério precisa realizar obras para atender as pessoas que vão diariamente visitar o túmulo de seus amigos e familiares, pois as vias estão danificadas e a sinalização do local é precária.
Deve-se, por exemplo, realizar obras nas ruas e quadras do Cemitério para melhorias no calçamento, além de adaptação das rampas para acesso à parte baixa do Cemitério (que atualmente é feita através de escadas e rampas inclinadas), facilitando a locomoção de idosos e portadores de necessidades especiais.
No que diz respeito à visitação não relacionada a familiares e amigos enterrados no Araçá, verificou-se a ineficiência no agendamento e realização das visitas guiadas, devido ao fato da pessoa responsável pelas visitas ter outras obrigações no local, o que acaba deixando o guiamento em segundo plano.
Assim, propõe-se um projeto para catalogação e o inventário das esculturas que o cemitério possui; fazer o levantamento das peças que necessitam ser restauradas e, principalmente, oficializar o patrimônio através de seu tombamento.
Para a utilização do cemitério como atrativo turístico sugere-se a implementação de placas indicativas no local, para assim facilitar a localização dos túmulos e esculturas. Propõe-se também a colocação de placas que contenham uma breve história sobre a escultura, época que foi feita, autor e qual estilo de arte utilizado na obra. Nos túmulos, afixar placas contendo informações sobre a pessoa sepultada. Obviamente, deve-se solicitar aos familiares a permissão para essas ações.
Faz-se necessária também a contratação de um guia com conhecimentos em história e arte, não sem antes estudar a melhor forma de se fazê-lo. Com isso, as visitas não mais ficarão restritas às segundas-feiras e à disponibilidade do guia, podendo ser realizadas diariamente, através de agendamento.
Verificou-se que não há divulgação do Cemitério do Araçá como um espaço cultural. Para tanto, será necessária a elaboração de um projeto de marketing, que torne o Cemitério mais conhecido e principalmente mostre ao visitante a importância histórica e cultural do local. A campanha encontrará como desafio desmistificar o Cemitério como um local repleto de superstição e que provoca um sentimento de medo nas pessoas. A campanha mostrará o Cemitério como um museu a céu aberto, um lugar de grande importância, onde se pode adquirir conhecimentos históricos, de arte e descobrir curiosidades sobre os ilustres sepultados.
Com a visitação motivada pelo lazer simples, o Cemitério poderia atrair a atenção do público em geral e, até mesmo, do poder público, para que outras ações de preservação do local sejam tomadas. Potencial o espaço tem, pela descrição apresentada anteriormente e pelo interesse que a arte tumular já despertou nos visitantes do Cemitério da Consolação e naqueles que visitam outros cemitérios famosos em outros países.
Enfim, observando-se o grande potencial artístico e histórico que o Cemitério do Araçá possui, apresentaram-se algumas sugestões e fica aberto o debate visando a elaboração de propostas concretas de melhorias para adequar e preservar o patrimônio cultural do Cemitério, para que esse possa ser usufruído da melhor maneira pelos visitantes e possa, efetivamente, ter sua história resgatada e conhecida pelos moradores de São Paulo e seus turistas.
Referências Bibliográficas
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