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Caracterização do microbioma de solos semiáridos da Caatinga e seu potencial para a degradação de lignocelulose

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(1)

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE BIOLOGIA

GILENO VIEIRA LACERDA JÚNIOR

CARACTERIZAÇÃO DO MICROBIOMA DE SOLOS

SEMIÁRIDOS DA CAATINGA E SEU POTENCIAL PARA A

DEGRADAÇÃO DE LIGNOCELULOSE

CHARACTERIZATION OF THE MICROBIOME OF CAATINGA

SEMIARID SOILS AND ITS POTENTIAL FOR

LIGNOCELLULOSE DEGRADATION

CAMPINAS

2017

(2)

CARACTERIZAÇÃO DO MICROBIOMA DE SOLOS SEMIÁRIDOS DA

CAATINGA E SEU POTENCIAL PARA A DEGRADAÇÃO DE

LIGNOCELULOSE

CHARACTERIZATION OF THE MICROBIOME OF CAATINGA

SEMIARID SOILS AND ITS POTENTIAL FOR LIGNOCELLULOSE

DEGRADATION

Tese apresentada ao Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do Título de Doutor em Genética e Biologia Molecular na Área de Genética de Microorganismos.

Thesis presented to the Institute of Biology of the University of Campinas in partial fulfillment of the requirements for the degree of Doctor in Genetics and Molecular Biology in the area of Genetics of Microorganims.

Orientador: Dra. VALÉRIA MAIA MERZEL

CAMPINAS

2017

ESTE ARQUIVO DIGITAL CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA TESE DEFENDIDA PELO ALUNO GILENO VIEIRA LACERDA JÚNIOR E ORIENTADA PELA VALÉRIA MAIA MERZEL.

(3)
(4)

COMISSÃO EXAMINADORA

Profa. Dra. Valéria Maia Merzel (orientadora)

Profa. Dra. Anete Pereira de Souza

Prof. Dr. Renato Vicentini dos Santos

Prof. Dr. Fernando Dini Andreote

Prof. Dr. Rodrigo Mendes

Os membros da Comissão Examinadora acima assinaram a Ata de Defesa, que se

encontra no processo de vida acadêmica do aluno.

(5)

Aos meus queridos pais Gileno e Sueli, que sempre estiveram do meu lado apoiando nos

momentos difíceis e sendo exemplos de força e superação.

A minha irmã Vivian, pelo carinho e amor que transborda no seu sorriso e apoio incondicional

em todos os momentos.

.

(6)

À Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em especial ao CPQBA, pela

oportunidade e infraestrutura disponibilizada para execução deste trabalho;

À minha orientadora, Profa Dra Valéria Maia Merzel, pelo apoio, dedicação, amizade

e confiança no transcorrer do doutorado, contribuindo para meu crescimento pessoal

e científico;

Aos membros da Banca Profa Dra Anete Pereira, Prof Dr Renato Vicentini,

Prof. Dr. Fernando Andreote e Prof. Dr. Rodrigo Mendes, pela disponibilidade e

valiosas correções e sugestões realizadas nesta Tese;

À querida Melline Fontes Noronha, pela grande parceria e colaboração fundamental

nas análises de bioinformártica, bem como pela amizade e companheirismo ao longo

desses anos.

Aos atuais técnicos: Viviane, Túlio, Milena; e aos que já se foram: Mariana, Ayume,

Éricka, Jaqueline e Rafael, que, com muita dedicação, gerenciam as atividades nos

laboratótios, mantendo um ótimo ambiente de trabalho, agradeço pelos

ensinamentos e amizade.

A todos os amigos da Divisão de Recursos Microbianos e do CBMEG/UNICAMP

pela parceria, companheirismo e agradáveis momentos de convivência e incentivo;

Enfim, muito obrigado a todos que colaboraram direta ou indiretamente

para execução deste trabalho.

(7)

que abriga uma exuberante e exclusiva diversidade biológica. Este ecossistema

consiste em uma floresta tropical seca adaptada a condições climáticas severas,

como elevadas temperaturas, alta acidez e irradiação solar, e déficit hídrico causado

pelo regime sazonal de chuvas. Portanto, é esperado abrigar uma microbiota

carreando arsenais enzimáticos únicos e versáteis com potencial aplicação

industrial. Micro-organismos residentes do solo são capazes de decompor a lignina

(segundo biopolímero mais abundante da biosfera) utilizando um conjunto de

enzimas ligninolíticas as quais também podem ser aplicadas na desintoxicação de

efluentes, na indústria de papel e de biocombustíveis, dentre outros processos. Visto

que aproximadamente 99% dos micro-organismos do solo ainda não podem ser

isolados por métodos de cultivo, tecnologias moleculares baseadas na análise do

material genético, como a "metagenômica", podem fornecer informações mais

precisas sobre a diversidade microbiana ainda não cultivada e o seu potencial

biotecnológico. Assim, este estudo propõe o uso de uma abordagem integrada de

metagenômica funcional (baseada na atividade biológica e similaridade de

sequências) e descritiva, com o objetivo de identificar novas enzimas

lignocelulolíticas, além de analisar o impacto da sazonalidade e práticas agrícolas

(irrigação/fertilização) na estrutura da comunidade e nas respostas funcionais da

microbiota de solos da Caatinga. A triagem funcional baseada na expressão

fenotípica de 40.000 clones metagenômicos não permitiu detectar atividade

ligninolítica. Entretanto, o rastreamento molecular via PCR possibilitou a

identificação de uma

“Multicopper oxidase" do tipo lacase, afiliada ao gênero

Mesorhizobium. Análises in silico a partir do sequenciamento em larga escala da

biblioteca metagenômica revelaram um vasto repertório enzimático relacionado à

degradação da biomassa lignocelulósica carreado por diferentes grupos bacterianos,

com potencial aplicação na produção de biocombustíveis a partir de fontes

renováveis, bem como em outros processos ambientais. Numa abordagem ecológica

foi verificado o enriquecimento dos filos Actinobacteria e Proteobacteria nos períodos

sazonais de seca e chuva, respectivamente. Os dados sugerem que

micro-organismos presentes em solos nativos do período seco são especializados na

utilização de monossacarídeos e dissacarídeos, bem como carboidratos com

funções osmoprotetoras, como a trealose. Por outro lado, o microbioma de solos

afetados pela agricultura foi influenciado, principalmente, por fatores químicos,

apresentando enriquecimento do filo Acidobacteria e de genes relacionados a

processos como nitrificação e desnitrificação, e ao estresse oxidativo. Estes

resultados sugerem que o input de nutrientes e a quebra dos ciclos naturais do

regime de água podem impactar os ciclos biogeoquímicos, afetando a

funcionalidade natural dos solos semiáridos da Caatinga.

Palavras-chave: Caatinga; Comunidade microbiana do solo; Metagenômica;

(8)

exuberant and exclusive biological diversity. This ecosystem consists of a dry tropical

forest adapted to severe climatic conditions, including high temperatures and solar

irradiation, soil acidity, and water deficit caused by the seasonal rainfall regime.

Therefore, it is expected to harbor a soil microbiota carrying unique and versatile

enzymatic arsenals with a potential biotechnological application. Resident soil

microorganisms are capable of decomposing lignin (second most abundant

biopolymer of the biosphere) using a set of ligninolytic enzymes which can also be

applied in the treatment of effluents, pulp and paper industry, biofuels productions,

among other industrial processes. Considering that about 99% of soil

microorganisms cannot be isolated by conventional culture methods, molecular

approaches based on the direct extraction of environmental genetic material, such as

"metagenomics", are needed to provide more precise information about the diversity

and biotechnological potential of the native microbial community. Thus, this study

uses an integrated approach of functional (based on biological activity and sequence

similarity) and descriptive metagenomics, with the aim of identifying new

lignocellulolytic enzymes, in addition to analyzing the impact of seasonality and

agricultural practices (irrigation/fertilization) in the community structure and functional

responses of the Caatinga soil microbiome. The functional screening based on the

phenotypic expression of 40,000 metagenomic clones did not show any ligninolytic

activity. However, the molecular screening by PCR allowed the identification of a

bacterial Laccase-like Multicopper oxidase, affiliated with the genus Mesorhizobium.

The large-scale sequencing of a soil metagenomic library and subsequent in silico

analysis revealed a large enzymatic repertoire related to the lignocellulosic

degradation carried by different bacterial groups with potential application in the

biofuels production as well as other environmental processes. In an ecological

approach, it was observed the enrichment of the phyla Actinobacteria and

Proteobacteria in the drought and rainy seasonal period, respectively. The data

suggest that microorganisms thriving on native soils of the dry period are specialized

in monosaccharides and disaccharides utilization, as well as osmoprotective sugars

such as trehalose. In contrast, the soil microbiome affected by land use was mainly

driven by chemical factors, with the enrichment of the Acidobacteria phylum and

genes related to nitrification and denitrification processes, and to oxidative stress.

These results suggest that the nutrients input and the breakdown of the natural

cycles of the water regime may impact the biogeochemical cycles, affecting the

natural functionality of the Caatinga semiarid soils.

Keywords: Caatinga; Soil microbial communities; Metagenomic; Bioprospection;

(9)

1. REVISÃO DA LITERATURA ...11

O bioma Caatinga ...11

1.1. O solo como fonte inestimável da diversidade microbiana ...11

1.2. A microbiota do solo da Caatinga ...13

1.3. Metagenômica e metatranscriptômica: acessando a biodiversidade microbiana 1.4. não cultivável ...15

Enzimas envolvidas na degradação da lignina e suas potenciais aplicações ...19

1.5. 2. APRESENTAÇÃO DA TESE ...23

CAPÍTULO 1 - Triagem de enzimas ligninolíticas a partir de uma biblioteca metagenômica do solo da Caatinga ...24

1. INTRODUÇÃO ...25

2. MATERIAL E MÉTODOS ...26

Réplica da biblioteca metagenômica...26

2.1. Extração do DNA fosmidial ...27

2.2. Screening de enzimas envolvidas na degradação de lignina ...27

2.3. Clonagem e expressão heteróloga do gene de interesse ...29

2.4. 2.4.1. Anotação, predição de ORF e desenho de primers específicos: ...29

2.4.2. Amplificação do gene alvo a partir do DNA fosmidial: ...30

2.4.3. Reação de ligação: ...31

2.4.4. Procedimento de Eletroporação: ...31

2.4.5. Procedimento de PCR de colônia para confirmar a clonagem: ...31

2.4.6. Testes de expressão em E. coli para indução da proteína recombinante: ...31

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO ...32

3.1. Ensaio funcional para prospecção de enzimas ligninolíticas ...32

3.2. Clones com fenótipos diferenciados ...33

3.3. Extração do pigmento e análise de espectrometria de massa (MALDI-TOF)...34

3.4. Extração de DNA fosmidial dos clones da biblioteca metagenômica...36

3.5. Triagem de genes via PCR e sequenciamento das bandas ...36

3.6. Sequenciamento do clone metagenômico, predição de ORFs e anotação ...40

3.7. Alinhamento da sequência de aminoácidos para predição da estrutura tridimensional e filogenia...41

3.8. Clonagem da ORF de interesse ...44

(10)

CAPÍTULO 3 - Potential of semiarid soil from caatinga biome as a novel source for mining lignocellulose-degrading enzymes ...70 3. DISCUSSÃO GERAL ...108 4. CONCLUSÃO GERAL ...112 5. PERSPECTIVAS FUTURAS ...113 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...114 7. ANEXOS ...121

(11)

1. REVISÃO DA LITERATURA

O bioma Caatinga

1.1.

O bioma da Caatinga está situado na região semiárida dos estados do

Nordeste do Brasil, estendendo-se até o Norte e Nordeste do estado de Minas

Gerais. Ocupa uma área de aproximadamente 850.000 km

2

, cerca de 10% do

território nacional (MMA, 2010). Trata-se de um bioma exclusivamente brasileiro, o

que significa que grande parte do seu patrimônio biológico não pode ser encontrado

em outro lugar do planeta. A Caatinga é composta por uma floresta tropical sazonal

seca com vegetação arbustiva adaptada ao déficit hídrico, ocorrendo em áreas

altamente sazonais com baixos níveis de precipitação (500-750 mm por ano), que

são distribuídos irregularmente através do ano (3-5 meses), com temperaturas

anuais médias de 23-27 ºC. A irregularidade das chuvas, juntamente com as altas

temperaturas e radiação solar, provoca déficit hídrico durante uma grande parte do

ano, resultando em dois períodos bem definidos: o período chuvoso e o período de

seca severa (Moura e Ramos, 2004; Salgado et al., 2015). A seca torna a vida difícil

para os habitantes humanos e proporciona desafios adaptativos para a biota da

região. Apesar de sua grande extensão e características peculiares, poucos estudos

biológicos estão disponíveis, tornando a Caatinga o bioma brasileiro menos

conhecido cientificamente (Leal et al., 2005; Santos et al., 2011) e um dos mais

ameaçados pela ação antrópica, com apenas uma pequena parcela dos

remanescentes (<1%) protegidos por unidades de conservação (Leal et al., 2005;

Redo et al., 2012; Beuchle et al 2015). Estima-se que aproximadamente 45% da sua

vegetação original tenham sido desmatados até o ano de 2008 (MMA, 2010). Apesar

disso, o bioma apresenta valores de biodiversidade mais altos do que os registrados

para outras florestas secas do mundo (Rodal e Melo, 1999; Leal et al., 2005), sendo

que o número real de espécies está subestimado, uma vez que 41% da região

nunca foram investigados (Silva et al., 2004).

O solo como fonte inestimável da diversidade microbiana

1.2.

O solo é um ambiente desafiador do ponto de vista microbiológico, visto que é

considerado o maior reservatório natural da diversidade genética microbiana,

(12)

podendo armazenar bilhões de céluas microbianas englobando milhares de

espécies individuais (Fierer e Jackson, 2006). A complexidade da comunidade

microbiana do solo e sua funcionalidade é regulada pela interação de múltiplos

fatores bióticos e abióticos, como pH, teor de água, estrutura da matriz, variação

climática e atividade biótica (Singh et al., 2009). Neste ambiente, os

micro-organismos distribuem-se de forma heterogênea, ligando-se fortemente com as

partículas do solo e possuem papel fundamental na ciclagem de nutrientes (Kirk et

al., 2004; Rousk e Bengtson, 2014). Portanto, é de extrema importância investigar as

comunidades microbianas do solo para prever as futuras consequências das

mudanças globais e seus efeitos nos ciclos biogeoquímicos do planeta.

Historicamente, produtos de interesse biotecnológico têm sido descobertos a

partir da diversidade microbiana do solo com base em metodologias tradicionais de

isolamento e cultivo de espécies individuais (Davis et al., 2005; Vartoukian et al.,

2010). Produtos naturais derivados de metabólitos secundários de microrganismos

que habitam o solo têm sido usados nas áreas médica, industrial e agrícola, como os

antibióticos, drogas anticarcinogênicas, antifúngicas, agentes imunossupressores,

probióticos, enzimas e polímeros para aplicações industriais e tecnológicas,

herbicidas, inseticidas, promotores de crescimento, dentre outros (Traxler e Kolter,

2015). Entretanto, estimativas indicam que aproximadamente 99% dos

micro-organismos presentes em ambientes ambientais não podem ser recuperados por

métodos convencionais de cultivo sendo, portanto, inacessíveis para prospecção

biotecnológica e/ou pesquisa básica (Amann et al., 1995; Schloss e Handelsman,

2003). Por esta razão, o acesso da diversidade

‘oculta’ dos micro-organismos no

solo é crucial, pois representa uma grande fonte de genes desconhecidos que

codificam novas enzimas e produtos naturais (Daniel, 2004; Daniel, 2005).

Metodologias moleculares desenvolvidas nas últimas décadas (extração de ácidos

nucléicos, amplificação por PCR, clonagem e sequenciamento em larga escala de

DNA) têm sido amplamente utilizadas para superar as limitações impostas pelo

isolamento e cultivo microbiano, apesar da grande dificuldade ainda encontrada no

estudo das comunidades em seus nichos nativos, em parte por sua grande

diversidade, interações complexas, intercâmbio genético e falta de ferramentas de

análise apropriadas (Singh, 2010). A utilização destes métodos para avaliar

microbiomas de diferentes solos tem revelado um inestimável reservatório de

(13)

micro-organismos não cultivados e de vias biossintéticas desconhecidas e ainda não

exploradas, além de um profundo entendimento de como fatores bióticos e abióticos

moldam a composição da comunidade microbiana e sua funcionalidade no ambiente

(Singh et al., 2009; Reddy et al., 2012; Traxler e Kolter, 2015). Recentemente, essas

ferramentas foram utilizadas com sucesso na descoberta de novos biocatalisadores

enzimáticos e produtos naturais com diversas aplicações biotecnológicas, como na

área de biocombustíveis (Xing et al., 2012; Ausec, et al., 2017) e médica (Borsetto et

al., 2016; Katz et al., 2016), revelando o inexplorado potencial desses complexos

ecossistemas microbianos.

A microbiota do solo da Caatinga

1.3.

O conhecimento sobre certos tipos de habitats, como a Caatinga, é quase

nulo, ficando limitado ao estudo da fauna e flora. A diversidade microbiana nativa do

solo da Caatinga e o seu potencial biotecnológico ainda são pouco explorados. Essa

região representa um grande potencial para prospecção biotecnológica, pois a

microbiota adaptada a esse ambiente significativamente heterogêneo e exposto a

condições extremas, incluindo acidez, altas temperaturas, radiação solar, acidez e

baixa disponibilidade de água, foi selecionada ao longo da evolução para lidar com

os estresses ambientais e, portanto, pode apresentar uma maquinaria enzimática

com grande aplicação industrial (Antranikian et al., 2005). Estas enzimas são

produzidas por micro-organismos que podem viver e se reproduzir em ambientes

com condições severas, isolados de outros habitats em nosso planeta por milhares

de anos devido à sua natureza peculiar (Tehei e Zaccai, 2005). Isto resulta na

seleção de organismos incomuns, e provavelmente, também impede a sua

dispersão. Portanto, espera-se nesses ambientes uma comunidade microbiana

desconhecida com potencial genético para descoberta de novos processos

biocatalíticos (Antranikian et al., 2005; Ferrer et al., 2007; Sulzbacher et al., 2012).

Devido às características biológicas e morfoclimáticas únicas, a microbiota

residente do solo semiárido do bioma da Caatinga tem sido mais intensamente

investigada na última década. Gorlach-lira e Coutinho (2007) avaliaram a produção

de enzimas extracelulares por micro-organismos termofílicos e mesofílicos isolados

desta região. A maioria dos isolados mesofílicos produziu amilases e proteases, e

(14)

38% dos isolados produziram todas as enzimas extracelulares estudadas: amilases,

celulases, proteases e quitinases. Em contrapartida, todos os isolados termofílicos

apresentaram atividade proteolítica e 77% produziram amilases, mas nenhum

representante produziu quitinases ou celulases. Mais recentemente, Soares e

colaboradores (2012) isolaram bactérias celulolíticas de dois ambientes com

condições climáticas severas (Antártica e semiárido da Caatinga), concluindo que

ambientes que apresentam maior variação de temperatura, como a Caatinga,

possuem uma comunidade microbiana com maior plasticidade no arsenal de

endoglucanases (ativas a 4°C e 60°C) do que solos de ambientes com temperaturas

constantes, como da Antártica. Apesar de inovadores, estes estudos ficaram

limitados apenas ao potencial da parcela cultivada da microbiota. O uso de

metodologias moleculares independentes de cultivo pode fornecer informações mais

detalhadas e precisas sobre a diversidade e potencial biotecnológico de bactérias

que vivem no solo da Caatinga no Nordeste brasileiro.

Por meio da técnica de T-RFLP e sequenciamento do gene RNAr 16S,

Kavamura (2012) demonstrou que a estrutura de comunidades bacterianas do solo

da Caatinga apresentou uma variação sazonal (período chuvoso e de seca),

levantando a hipótese de que a disponibilidade de água nesse ambiente delineia os

padrões de diversidade da comunidade. No entanto, apesar de caracterizar a

diversidade microbiana, estas abordagens não permitem ter acesso ao potencial

metabólico que possibilita aos micro-organismos se adaptarem as essas alterações

ambientais, bem como os efeitos nos ciclos biogeoquímicos neste ecossistema.

Recentemente, análises metagenômicas revelaram características funcionais chaves

da comunidade microbioma de um solo da Caatinga que permitem sobreviver em

condições estressantes, com enriquecimento de genes relacionados à resistência ao

estresse e reparo de DNA quando comprado com a microbiota de solos da Floresta

Atlântica (Pacchioni et al., 2014). Também foi demonstrado, pela primeira vez, um

grande potencial genético de uma biblioteca metagenômica do solo da Caatinga

para produzir o arsenal de enzimas relacionadas com a degradação da biomassa

vegetal, com perspectivas de aplicação na indústria de biocombustíveis (Lacerda

Junior et al., 2017).

(15)

Metagenômica e metatranscriptômica: acessando a biodiversidade

1.4.

microbiana não cultivável

Embora as técnicas de isolamento e cultivo de micro-organismos tenham sido

aprimoradas nos últimos anos, o entendimento sobre a ecologia microbiana ainda é

insuficiente para recuperar e cultivar a maioria deles (Amann et al., 1995; Schloss e

Handelsman, 2003), principalmente aqueles que sobrevivem em condições

ambientais extremas (LEWIN et al., 2013). Por microscopia de fluorescência

utilizando o

DAPI (4’,6-diamino-2-fenilindol), um marcador fluorescente que se liga

ao DNA, a contagem direta de micro-organismos em uma amostra de solo foi

estimada em aproximadamente 10

10

por grama de solo. Entretanto, após o emprego

de técnicas de enriquecimento e cultivo deste solo foram recuperadas apenas 10

6

UFC (Unidades Formadoras de Colônias) de bacérias, ou seja, apenas 0,01% dos

representantes da diversidade bacteriana deste solo (Torsvik et al., 2002). Tal

dificuldade consiste em reproduzir fielmente as condições ambientais às quais os

micro-organismos estão adaptados, dificuldade que é acentuada com amostras de

ambientes com características peculiares, como a Caatinga brasileira (Lewin et al

2013; Tanner et al., 2017).

Handelsman e colaboradores (1998) definiram pela primeira vez o termo

“metagenômica” para descrever a aplicação de técnicas genômicas modernas para o

estudo de comunidades microbianas diretamente do ambiente natural, sem a

necessidade de isolamento e cultivo de espécies individuais. O termo é derivado do

conceito estatístico de meta-análise (processo de combinar estatisticamente análises

separadas) e genômica (análise ampla do material genético total de um organismo)

(Schloss e Handelsman, 2003). Esta abordagem envolve a extração do material

genético de todos os organismos presentes numa amostra ambiental, com

subsequente sequenciamento em larga escala (Whole Metagenome Sequencing,

Tringe e Rubin, 2005) com a finalidade de entendimento da estrutura, composição e

funções microbianas, ou seja, um enfoque ecológico; ou a laboriosa clonagem de

grandes fragmentos de DNA (40 a 100 kb) em vetores do tipo BAC (Bacterial

Artificial Chromosome), fosmídeos ou cosmídeos e rastreamento das bibliotecas de

clones em busca de uma nova expressão fenotípica numa linhagem hospedeira

(Figura 1) (Handelsman et al., 1998; Lewin et al., 2013).

(16)

Figura 1 | Esquema da metodologia geral de estudo metagenômico, ilustrando as diferentes

abordagens possiveis. Fonte: Lewin et al. (2013).

Uma vez que o DNA ambiental está imobilizado nas bibliotecas

metagenômicas, estas são analisadas com o objetivo de compreender a fisiologia

dessas diferentes formas de vida, buscar novos compostos com atividade biológica

e, até mesmo, criar condições para interferir nos processos biológicos. A triagem das

bibliotecas metagenômicas na busca de produtos de interesse pode ser realizada

por duas abordagens complementares: através da mineração da informação

genética por sequenciamento e PCR (Polymerase Chain Reaction), ou pela

expressão da atividade biológica pelos clones (Lorenz et al., 2002; Lewin et al.,

2013). Na primeira, a busca por uma função biológica ou uma proteína em particular

(17)

é feita por similaridade com sequências disponíveis em bancos de dados públicos

através de ferramentas de bioinformática. A segunda, denominada como triagem

funcional de clones, consiste de ensaios biológicos nos quais os clones são testados

para uma determinada característica de interesse, como reações catalisadas por

enzimas, ou propriedades atribuídas a metabólitos como antibióticos e agentes

antitumorais. Esta última estratégia oferece a vantagem de poder acessar

sequências gênicas ainda totalmente desconhecidas e de detectar apenas enzimas

que estão ativas, enquanto a primeira depende da existência de dados de

sequências homólogas, sendo normalmente insuficiente para identificar novas

enzimas que têm a mesma função, mas uma estrutura diferente do que já é

conhecido (Ferrer et al., 2005). A partir da varredura de bibliotecas metagenômicas,

uma variedade maior de compostos bioativos de interesse pode ser encontrada

quando comparado ao método tradicional baseado em isolamento, cultivo e triagem

de linhagens puras de micro-organismos (Lorenz et al. 2002) (Figura 2). A utilização

de ambas as abordagens, rastreamento funcional e/ou in silico de bibliotecas

metagenômicas, tem resultado na identificação de novos biocatalisadores

enzimáticos e moléculas em um ritmo crescente com diversas aplicações industriais,

como na área de biocombustíveis (Xing et al., 2012), alimentícia e de detergentes

(Lorenz e Eck, 2005), bem como novos antibióticos (Gillespie et al., 2002; Traxler e

Kolter, 2015), pigmentos (Handelsman, 2007) e substâncias antitumorais (Chang e

Brady, 2011).

A metagenômica tem sido aplicada para compreender a estrutura (riqueza e

distribuição de espécies) e potencial metabólico de comunidades microbianas

ambientais. Contudo, análises baseadas no DNA não refletem a real atividade

metabólica do ambiente, pois não permitem diferenciar genes expressos e não

expressos de uma comunidade microbiana em determinado momento, assim, o

papel funcional de genes ou organismos no ambiente continua incerto. Como

alternativa para este problema, estudos de metatranscriptômica baseiam-se no

isolamento e sequenciamento em larga escala do RNAm (RNA mensageiro) de um

ecossistema microbiano para avaliar quais genes estão sendo expressos naquela

comunidade (Warnecke & Hess, 2009).

(18)

Figura 2 | Comparação das estratégias de cultivo (esquerda) e de metagenômica (direita) para

obtenção de novos biocatalisadores. Utilizando a abordagem de cultivo, apenas uma fração da diversidade microbiana podem ser isolada e cultivada em cultura pura para obtenção de compostos de interesse. Através da Metagenômica, o material genético isolado do ambiente é clonado em hospedeiros para subsequente triagem e expressão de enzimas de interesse oriundas de diferentes micro-organismos. (Fonte: Lorenz et al. 2002).

(19)

Esta abordagem permite vincular o potencial genético com a atividade

biogeoquímica de micro-organismos nos ambientes, além de contribuir para elucidar

quais bióticos e/ou abióticos são capazes de desencadear as respostas funcionais

em uma determinada comunidade microbiana. Sendo assim, uma análise integrada

de metagenômica e de metatranscriptômica fornece uma visão mais abrangente da

estrutura e funcionalidade de uma comunidade microbiana (Shi et al., 2011).

A aplicação dessa abordagem para estudos de comunidades microbianas

envolve as seguintes etapas experimentais: 1) Extração de RNA total de uma

amostra ambiental: esse produto final pode conter RNAm, RNAt, RNAr e outros

pequenos RNAs; 2) Enriquecimento do RNAm: nessa etapa ocorre a remoção de

RNAr, RNAt e outros pequenos RNAs. Pode ser realizada por métodos físicos e/ou

químicos, sendo que no primeiro caso é realizado pelo tamanho do fragmento, e no

segundo, por digestão sítio-específica, poliadenilação preferencial de RNAm ou

hibridização magnética; 3) Síntese de cDNA: pode ser realizada por poliadenilação

das caldas 3’e 5’, posteriormente amplificação utilizando-se iniciadores poli-T, ou por

iniciadores randômicos, sendo estes últimos mais indicados para células

procarióticas. Os adaptadores são ligados às extremidades dos fragmentos após a

síntese de cDNA; 4) Sequenciamento “high-throughput”: nessa etapa são utilizadas

as plataformas comerciais disponíveis para produzir um grande volume de dados

biológicos que serão analisados por ferramentas de bioinformática (Warnecke e

Hess, 2009). Recentemente, a análise de um grande volume de dados de

metatranscriptômica têm revolucionado o entendimento da ecologia microbiana e o

papel de micro-organismos tanto em amostras clínicas como ambientais, como por

exemplo, de água oceânica (Shi Y et al., 2011), solos (Urich et al., 2008; Tveit et al.,

2014), lodo de esgoto (Yu e Zhang, 2012) e intestino humano (Gosalbese et al.,

2011; Franzosa et al., 2014).

Enzimas envolvidas na degradação da lignina e suas potenciais

1.5.

aplicações

A lignina é um heteropolímero aromático de ocorrência natural, altamente

recalcitrante, que compreende um componente importante das paredes celulares de

todas as plantas vasculares. É o segundo biopolímero mais abundante na biosfera,

(20)

sendo superado apenas pela celulose, desempenhando um papel central no ciclo do

carbono na natureza (Ruiz-Dueñas e Martínez, 2009). A sua estrutura heterogênea

composta por unidades de p-hidroxifenilpropanóides unidas por ligações carbono–

carbono (C–C) e éter (C–O–C) confere às plantas uma maior rigidez estrutural, além

de proteger a celulose e hemicelulose da digestão enzimática por micro-organismos

(Jeffries, 1990; Martínez et al., 2005).

A degradação microbiana da lignina tem sido bastante estudada em fungos

que causam a podridão branca e a podridão marrom, sendo a maioria deles

pertencente à subdivisão Basidiomicetos (Sanchez, 2009). Entre as enzimas-chaves

responsáveis pelo processo de oxidação de compostos fenólicos e não fenólicos da

lignina estão as lignina-peroxidases (LiP), as manganês-peroxidases (MnP) e as

lacases, todas genericamente chamadas de ligninases (Martínez et al., 2005;

Sanchez, 2009). O processo enzimático de degradação da lignina exercido por

bactérias ainda é pouco conhecido e explorado, no entanto uma série de relatos na

literatura indica que a lignina também é degradada por sistemas enzimáticos

bacterianos bastante similares aos dos fungos (Bugg et al., 2011a; Bugg et al.,

2011b; Ausec et al., 2011). Trabalhos publicados recentemente demonstram que

uma gama de bactérias do solo, frequentemente bactérias que degradam compostos

aromáticos, é capaz de decompor a lignina. Esta observação fornece uma ligação

entre a degradação de compostos aromáticos e a degradação da lignina, o que é

esperado, dado que é a maior fonte de aromáticos presentes no solo (Bugg et al.,

2011a,b). Dessa forma, o material ligninocelulósico derivado da biomassa vegetal

renovável constitui uma fonte valiosa e sustentável de energia alternativa ao

combustível fóssil. A hidrólise combinada e a oxidação dos principais polímeros

derivados da parede celular da planta (celulose, hemicelulose e lignina) é um passo

crítico básico no ciclo global do carbono em ecossistemas terrestres e de valor

crescente para aplicações industriais “eco-friendly”. O interesse na utilização de

enzimas ligninolíticas tem crescido devido à grande versatilidade destas enzimas em

oxidar tanto compostos fenólicos e não fenólicos presentes na biomassa de plantas,

como também poluentes ambientais altamente recalcitrantes, tornando-as

extremamente úteis para utilização em vários processos biotecnológicos

sustentáveis (Canas e Camarero, 2010). Tais aplicações incluem a desintoxicação

de efluentes industriais contendo compostos xenobióticos e corantes têxteis (Mester

(21)

e Tien, 2000), na indústria de papel e celulose através da deslignificação seletiva e

branqueamento da celulose, na conversão da massa lignocelulósica em

biocombustíveis como o bioetanol (Burton e Fincher, 2014) e na degradação de

herbicidas utilizados na agricultura (Pizzul et al., 2009) (Figura 3).

Figura 3 | Ilustração da aplicação das enzimas ligninolíticas em diversos processos biotecnológicos

sustentáveis, incluindo a desintoxicação de efluentes industriais contendo compostos xenobióticos e corantes têxteis, no branquemanto do papel através da deslignificação seletiva, na conversão da biomassa lignocelulósica em biocombustíveis como o bioetanol e na degradação de herbicidas utilizados na agricultura.

Do ponto de vista microbiológico, o processo de mineralização da

lignocelulose é realizado por um sinérgico sistema enzimático carreado por um

complexo de múltiplas espécies microbianas. A aplicação de técnicas “ômicas” tem

possibilitado a prospecção de novas enzimas de conversão da biomassa a partir de

comunidades microbianas de habitats com altas taxas de material recalcitrante

derivado de plantas (Xing et al., 2012). O uso de métodos independentes de cultivo

ENZIMAS ligninolíticas Indústria Têxtil Desintoxicação de efluentes industriais Degradação de herbicidas e pesticidas Indústria de papel e celulose Produção de biocombustível

(22)

aliados ao sequenciamento em larga escala de DNA e RNA ambiental têm revelado

a diversidade e o potencial da microbiota não cultivada de diversos ambientes, como

o trato digestivo de animais herbívoros (Raychoudhury et al., 2013) solos (Cardenas

et al., 2015; Lacerda Junior et al., 2016), compostagem (Wang et al., 2016) e

fermentadores industriais (Güllert et al., 2016), bem como o papel desses micróbios

na degradação da biomassa lignocelulósica. Esses estudos revelaram uma enorme

quantidade de informações relacionadas aos mecanismos de degradação da lignina

adotados por vários micro-organismos. Verificou-se que linhagens do filo

Actinobacteria e Proteobacteria despolimerizavam uma ampla gama de compostos

relacionados com lignina através de da expressão de enzimas relacionadas às vias

de degradação de compostos aromáticos, como lacases, monoxigenases,

catecol-2,3-dioxigenase, DyP-peroxidases, B-esterases, O-demetilase de vanilato, feruloil

esterases, citocromo P450 e cloroperoxidase.

Nesse contexto, devido à grande volume de matéria orgânica vegetal

derivada das folhas que caem durante o período de seca, microrganismos residentes

do solo semiárido da Caatinga envolvidos na ciclagem desse material podem

fornecer um recurso genético único e especializado para a descoberta de novas

enzimas lignocelulolíticas termoestáveis.

(23)

2. APRESENTAÇÃO DA TESE

Este trabalho empregou abordagens independentes de cultivo para analisar o

microbioma do solo semiárido da Caatinga, um bioma exclusivamente brasileiro,

utilizando um enfoque tanto biotecnológico quanto ecológico. Na primeira

abordagem, utilizamos diferentes estratégias da metagenômica funcional para o

rastreamento de genes/enzimas relacionadas à degradação do material

lignocelulósico, em uma biblioteca metagenômica de DNA de alto peso molecular

construída a partir de amostras de solos da Caatinga do período chuvoso. No

Capítulo 1 serão apresentados os resultados da triagem funcional dos clones

metagenômicos via ensaios biológicos usando corantes poliméricos semelhantes à

lignina utilizados como substratos das reações enzimáticas indicadores para

atividade ligninolítica. Ainda nesse capítulo, serão apresentados os resultados de

triagem molecular baseada na similaridade de sequência através do isolamento do

DNA fosmidial a partir de pools de clones e o uso de primers degenerados para

rastrear via PCR os clones carreando genes de interesse. No capítulo 2 serão

apresentados os dados da composição filogenética e potencial genético da

biblioteca metagenômica para produção de enzimas lignocelulolíticas, os quais

foram publicados na revista FEMS Microbiology Ecology. Análises de bioinformática

utilizando bancos de dados específicos foram usadas para explorar o largo repertório

de micro-organismos e genes putativos que podem atuar na degradação de

polissacarídeos derivados de plantas e da lignina no microbioma do solo da

Caatinga. O capítulo 3 envolve o sequenciamento direto de DNA ambiental para

avaliar a composição da comunidade e o papel funcional de micro-organismos que

habitam solos semiáridos do bioma de Caatinga submetidos à sazonalidade e ação

antrópica, contribuindo com informações sobre a resistência ao estresse ambiental e

cliclagem de nutrientes, com possíveis impactos nos ciclos biogeoquímicos. Por fim,

as principais conclusões obtidas do trabalho serão apresentadas de maneira

integrada no item Conclusões Gerais e as próximas etapas que serão realizadas a

fim de obter resultados conclusivos de experimentos ainda em andamento serão

pontuadas em Perspectivas Futuras.

(24)

CAPÍTULO 1

___________________________________________________________________

TRIAGEM DE ENZIMAS LIGNINOLÍTICAS A PARTIR DE UMA BIBLIOTECA

METAGENÔMICA DO SOLO DA CAATINGA

(25)

1. INTRODUÇÃO

O bioma Caatinga é pouco estudado e representa uma das regiões semiáridas mais

populosas e biologicamente diversas do mundo, com altos níveis de endemismo

(Leal et al., 2005; Santos et al., 2011). Situado na região semiárida dos estados do

nordeste do Brasil, cobre uma área de aproximadamente de 900.000 km

2

, cerca de

10% do território nacional (MMA, 2010). A biodiversidade deste ecossistema

continua subestimada e desprotegida, além disso, o uso inadequado da terra já

causou sérios danos ambientais e desertificação acelerada (Leal et al., 2005).

A vegetação da Caatinga consiste em floresta tropical sazonal seca composta

principalmente por mosaicos de árvores e arbustos espinhosos com características

de sobrevivência xerofítica (savana-estépica), como longos espinhos para reduzir a

perda de água e tecidos suculentos para armazenamento de água (da Costa et al.,

2007). A irregularidade das chuvas, juntamente com a alta temperatura e radiação

solar, provoca um déficit hídrico durante uma grande parte do ano, resultando em

dois períodos bem definidos: chuvoso e seca (Moura e Ramos, 2004; Salgado et al.,

2015). Durante a estação seca algumas plantas perdem completamente as folhas,

formando uma densa camada de serapilheira constituída por polímeros derivados da

parede celular da planta (celulose, hemicelulose e lignina), representando a maior

fonte de matéria orgânica nos solos deste bioma (Salgado et al., 2015). A lignina,

segundo constituinte mais abundante da parede celular das plantas vasculares,

protege a celulose em relação ao ataque hidrolítico por micro-organismos saprófitos

(Ruiz-Dueñas e Martínez, 2009). Desse modo, a sua remoção representa um passo

fundamental para a reciclagem de carbono nos ecossistemas terrestres, bem como

um problema central para a utilização industrial da biomassa vegetal. A biotecnologia

baseada em micro-organismos degradadores de lignina e suas enzimas pode

contribuir para uma utilização mais eficiente e ambientalmente correta de

matérias-primas lignocelulósicas renováveis para produção sustentável de materiais, produtos

químicos, biocombustíveis e energia (Abdel-Hamid etal., 2013; Burton e Fincher,

2014). Entretanto, devido à natureza química recalcitrante da lignina, um complexo

processo enzimático é necessário para despolimerização da parede celular de

plantas através da interação sinérgica de múltiplas espécies microbianas (de

Gonzalo et al., 2016). Embora tenha sido acumulado uma grande quantidade de

conhecimento bioquímico sobre a degradação da lignina, principalmente por fungos

(26)

da podridão branca (Martínez et al., 2005), evidências revelam que as bactérias

também são capazes de deslignificação. Trabalhos publicados recentemente

demonstram que uma gama de bactérias do solo, frequentemente bactérias que

degradam compostos aromáticos, é capaz de decompor a lignina. Esta observação

fornece uma possível ligação entre a degradação de compostos aromáticos e a

decomposição da lignina, o que é esperado, dado que a lignina é a maior fonte de

aromáticos presentes no solo (Bugg et al., 2011a,b; de Gonzalo et al., 2016).

Devido ao grande volume de matéria orgânica vegetal derivada das folhas que

caem durante o período de seca e as condições ambientais poli-extremas, a

microbiota residente do solo semiárido da Caatinga envolvida na ciclagem dessa

biomassa pode fornecer um recurso genético único e especializado para a

descoberta de novas enzimas ligninolíticas termoestáveis. Dessa forma, esse

trabalho teve como objetivo a triagem funcional de uma biblioteca metagenômica

construída a partir de amostras do solo da Caatinga coletado durante estação

chuvosa, a qual concentra um maior depósito de biomassa vegetal oriunda da

abscisão foliar, na busca por novas enzimas relacionadas à degradação da lignina.

A abordagem funcional envolveu ensaios biológicos usando corantes poliméricos

semelhantes à lignina foram utilizados como substratos das reações enzimáticas

para detecção da atividade ligninolítica. Em paralelo, a abordagem molecular se

baseou no uso de primers degenerados para rastrear via PCR os clones carreando

genes de lacases do tipo multicobre oxidases (LMCOs), um grupo de enzimas

capazes de oxidar uma ampla gama de substratos fenólicos derivados da lignina, e

com diversas aplicações biotecnológicas, como na despolimerização da biomassa

lignocelulósica para produção de biocombustível, na indústria de papel, no

tratamento de águas residuárias e degradação de herbicidas (Abdel-Hamid e

Solbiati, 2013; Chandra e Chowdhary, 2015).

2. MATERIAL E MÉTODOS

Réplica da biblioteca metagenômica

2.1.

Para início das atividades foi necessário fazer uma réplica de uma biblioteca

metagenômica do solo da Caatinga (referente à época chuvosa) contendo 40.000

clones, previamente construída pelo grupo de pesquisa do Dr. Itamar Soares de

(27)

Melo em parceria com a Dra. Valéria Maia Merzel do CPQBA/UNICAMP

(supervisora desse projeto). Esta foi utilizada com sucesso na busca por celulases

termoestáveis pela estudante de doutorado Mirian Lobo Saber (Saber, 2012). Os

clones da biblioteca metagenômica foram icolulados em placas de 96 poços

contendo 150 µL

de meio Luria Bertani suplementado com 12,5 μg/mL de

cloranfenicol, e incubadas por 16-18h a 37 ºC. Posteriormente, foi adicionado glicerol

(concentração final de 10%) às culturas, e as placas forama armazenadas em

ultrafreezer a – 80 ºC.

Extração do DNA fosmidial

2.2.

Para extração fosmidial, todos os clones da biblioteca metagenômica foram

cultivados em placas de 96 poços (deep well) contendo 1,0 mL de meio Luria Bertani

líquido suplementado com 12,5 μg/mL de cloranfenicol + 0.01% de L-arabinose

(indutor do

número de cópias do vetor fosmídeo). Posteriormente, 500 μL de cada

poço (96 poços) da placa foram recolhidos em tubos de 50 mL (o volume de uma

placa de 96 poços ocupa um tubo de 50 mL). Os clones foram combinados em 40

pools (agrupando 1.000 clones por pool) os quais foram submetidos à extração do

DNA fosmidial utilizando o kit Qiagen Large-Construct Kit (Qiagen, Cat: 12462), de

acordo com as instruções do fabricante. O DNA fosmidial purificado de todos os

pools foi utilizado como molde nas reações de PCR para detecção de genes de

interesse.

Screening de enzimas envolvidas na degradação de lignina

2.3.

A triagem da biblioteca metagenômica foi realizada utilizando as abordagens

baseadas em atividade biológica (fenótipo) e em similaridade de sequência. Os

ensaios foram realizados na busca por um coquetel de enzimas chaves envolvido no

processo de degradação da lignina, a saber: lacases (EC 1.10.3.2), lignina

peroxidases (LiP, EC 1.11.1.14) e Manganês peroxidases (MnP, EC 1.11.1.13),

embora seja possível encontrar outros tipos de enzimas, visto que novas vias

ligninolíticas de degradação têm sido descobertas em bactérias atuando na lignina e

seus subprodutos (de Gonzalo et al., (2016).

(28)

a. Triagem funcional dos clones

A atividade ligninolítica dos clones foi avaliada através da descoloração de

corantes poliméricos utilizados como substratos das reações enzimáticas. Para isto

foram utilizados o corante Remazol Brilliant Blue R (RBBR), um importante grupo de

organopoluentes industriais, e o guaiacol. A oxidação destes compostos é resultado

da ação de sistemas enzimáticos que participam do processo de despolimerização

da lignina, como por exemplo, lignina peroxidase, manganês peroxidase e lacases

(peterncentes à família das multicobre oxidases). Os clones foram inoculados em

placas de Petri contendo meio LA suplementado com 12,5 μg/mL de cloranfenicol +

0,01% de L-arabinose + 0.05% RBBR (Sigma) e/ou guaicol, e incubados a 37 ºC por

cinco dias. A detecção dos clones positivos se deu com base na descoloração do

Remazol Brilliant Blue R (RBBR), conforme Borokhov e Rothenburger (2000) ou na

produção de coloração marrom derivada da oxidação do guaiacol.

b. Triagem baseada em similaridade de sequencia (PCR com primers

degenerados)

Foram realizadas buscas de primers degenerados na literatura para posterior

detecção via PCR de clones carreando genes de multicobre oxidases do tipo lacase

(Tabela 1). Estes primers foram utilizados com sucesso para avaliar a diversidade e

distribuição de genes bacterianos de solos, detectando uma grande variedade

taxonômica (Kellner et al., 2008; Ausec et al., 2011). Essa abordagem foi utilizada

como uma forma alternativa de detecção dos genes de interesse na biblioteca.

Tabela 1. Primers degenerados utilizados para amplificação de genes que codificam lacases.

Primer Aplicação Sequência (5’- 3’) Referência

Cu1AF

Bacterial laccase-like genes diversity in soils samples

ACMWCB GTYCAYTGGCAYGG (Kellner et al., 2008)

Cu2R

Bacterial laccase-like genes diversity in soils samples

GRCTGTGGTACCAGAANGTNCC (Kellner et al., 2008)

Cu4R

Diversity of bacterial genes for laccase-like enzymes

(29)

O DNA fosmidial extraído dos pools de clones (seção 2.2) foi utilizado como

molde para triagem por PCR utilizando os primers degenerados. O fragmento

metagenômico do clone carreando genes de interesse foi sequenciado para

posterior identificação da região codificadora completa, já que estes primers

contemplam apenas a amplificação de domínios conservados de ligação ao cobre.

Clonagem e expressão heteróloga do gene de interesse

2.4.

Clones metagenômicos carreando genes de interesse detectados via PCR

foram submetidos à extração do DNA fosmidial, sequenciamento, montagem dos

contigs. Para anotação funcional foi utilizada a base de dados de servidores do

RAST (http://rast.nmpdr.org/). A ORF completa do gene foi amplificada usando

primers desenhados com sítios de enzimas de restrição, de forma que mantivesse o

quadro de leitura correto e a adição da cauda de Histidina (6x) na região n-terminal

da proteína. Posteriormente, os amplicons foram inserido no vetor pET28a

(Novagen) para posterior transformação em células de E. coli BL21 e E. coli Rosetta,

de acordo com técnicas padrão (Sambrook et al., 1989).

2.4.1. Anotação, predição de ORF e desenho de primers específicos:

Após anotação do gene de ligninase pelo RAST a partir do DNA fosmidial, a

identificação da ORF foi confirmada utilizando a ferramenta Open Reading Frame

Finder do NCBI. Para definir a região para clonagem foi necessário a análise de

peptídeo sinal, para isso a sequência foi submetida ao programa online SignalP 4.1

Server (http://www.cbs.dtu.dk/services/SignalP/). Posteriormente o mapa de restrição

para escolha da enzima de forma que fossem evitadom sítios de clivagem dentro do

inserto

foi

obtido

com

auxílio

do

programa

RestrictionMapper

(http://www.restrictionmapper.org/). Após a escolha das enzimas de restrição foi feita

uma digestão teórica do possível constructo (inserto + vetor) para confirmação do

quadro

de

leitura

correto

utilizando

a

ferramenta

WebMap

(https://pga.mgh.harvard.edu/web_apps). A partir das sequências anotadas e

identificação dos códons de iniciação (start codon) e de terminação (stop codon),

foram desenhados os primers específicos com sítios de clivagem para as enzimas

NdeI (forward primer) e XhoI (reverse primer).

(30)

2.4.2. Amplificação do gene alvo a partir do DNA fosmidial:

Nessa etapa foram realizadas reações de PCR utilizando os primers

específicos desenhados anteriormente (item 2.4.1), sintetizados na EXXTEND

(Exxtend Inc., São Paulo, Brasil). O produto de PCR foi visualizado por eletroforese

em gel de agarose e purificado utilizando o GFX PCR and Gel Band Purification Kit

(GE Healthcare). Após a purificação, foram feitas as reações de digestão dos

produtos de PCR e do vetor de clonagem pET-28a(+) contendo os sítios de restrição

para as enzimas NdeI e XhoI (Figura 1). A digestão das amostras se deu em

reações contendo: 1 µg de produto de PCR; 3 µL de tampão Fast Digest 10X; 2

unidades de NdeI; 1,5 unidade de XhoI; 6,7 µLde água ultrapura. As reações foram

incubadas a 37°C por 1 hora e 30 minutos. Logo a seguir, as amostras foram

submetidas à eletroforese para confirmação da digestão.

Figura 1 |. Mapa do vetor de expressão pET-28a(+). Seta preta indica o sítio múltiplo de clonagem

(31)

2.4.3. Reação de ligação:

O produto da digestão foi ligado no vetor pET-28a(+) em reações contendo:

40 ng de vetor; 120 ng de inserto; 4 µL de tampão 10X; 1 unidade de T4 DNA ligase;

7,35 µL de H

2

O. A reação de ligação foi incubada a 15°C por 16-18 h.

2.4.4. Procedimento de Eletroporação:

Foram adicionados 1,5 µL do produto da reação de ligação em 40 µL da

suspensão de células E. coli DH10B eletrocompetentes. Após a eletroporação, 960

µL de meio LB foram imediatamente adicionados e a solução foi incubada por 1 hora

e 20 minutos a 37°C. Após o crescimento, 200 µL da cultura foram plaqueadas em

meio LB sólido contendo canamicina (50 µg/mL), seguido de incubação a 37°C por

16-18 h, até o aparecimento de colônias recombinantes.

2.4.5. Procedimento de PCR de colônia para confirmar a clonagem:

Doze colônias foram coletadas aleatoriamente das placas e diluídas em 15 ul

de LB. A amplificação foi realizada em reações contendo: 2 µL da solução de

células, 2,5 µL de tampão (10X), 1,25 µL de MgCl

2

(25 mM MgCl), 0,5 µL de solução

de dNTP (100 µM), 2,5 µL dos primers T7 Forward e Reverse (5 µM), 0,4 µL de Taq

DNA polimerase (5 U/µL), 13,35 µL de água ultrapura. As condições de amplificação

foram: desnaturação inicial 95°C por 3 min, desnaturação subsequente a 95°C por 1

min.; anelamento a 55°C por 1,5 min.; extensão a 72°C por 1,5 min e extensão final

de 72°C por 3 min.

2.4.6. Testes de expressão em E. coli para indução da proteína recombinante:

Após a confirmação da clonagem, um clone positivo foi cultivado em meio LB

com canamicina a 37°C por 16-18 h para posterior extração plamidial. Após o

período de incubação 2 mL da cultura foram centrifugados a 10.000 rpm por 8

minutos e o pellet foi submetido à extração de DNA plasmidial utilizando o Invisor

Spin Plasmid Mini Kit (Stratec Molecular). Posteriormente, 0,5 µL da solução de DNA

plasmidial foram misturados a 40 µL da cultura de células de expressão E. coli

BL21(DE3) para eletroporação. Imediatamente a seguir, foram adicionados 960 µL

de meio LB, seguido de incubação a 37°C por 1 hora e 20 minutos. Após essa

(32)

incubação preliminar, 50 µL do cultivo foram plaqueados em meio LB sólido com

canamicina e a cultura foi incubada a 37°C por 16-18 h. Uma colônia foi repicada em

5 mL de meio LB líquido suplementado com canamicina e incubada a 37°C por

cerca de 18 h para preparar um pré-inoculo para o teste de expressão da proteína

recombinante. Cerca de 1 mL do pré-inoculo foi adicionado em 50 mL de meio LA

contendo canamicina, e incubado a 37°C até atingir a fase exponencial (DO

600nm

entre 0,6 e 0,8), na qual foi realizada a indução da expressão hetoróloga por 3 h com

Isopropil-tio-β-D-galactosídeo (IPTG) a 0,4 mM e CuSO

4

(0.5 mM). A expressão da

proteína recombinante será confirmada por meio de SDS-PAGE, observando a

presença de uma banda cujo peso molecular corresponde a aproximadamente 34

kDa.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1.

Ensaio funcional para prospecção de enzimas ligninolíticas

Trabalhos publicados recentemente demonstram que bactérias isoladas do

solo, frequentemente bactérias que degradam compostos aromáticos, são capazes

de decompor a lignina. Esta observação fornece uma ligação entre a degradação de

compostos aromáticos e a degradação da lignina, o que é esperado, dado que a

lignina é a maior fonte de aromáticos presentes no solo (Bugg et al., 2011a,b).

Dessa forma, um total de 40.000 clones da biblioteca metagenômica do solo da

Caatinga foi submetido à triagem de alto desempenho para análise de atividade

biocatalítica de lacases, uma enzima relacionada à oxidação da lignina e seus

subprodutos, através da descoloração de substratos como guaiacol e RBBR. Após 5

dias de incubação a 37ºC, nenhum clone positivo foi revelado. Os resultados obtidos

são corroborados com dados da literatura, visto que até o momento um limitado

número dessas enzimas foi identificado e caracterizado por ensaios biológicos a

partir de clones metagenômicos: Lac15 e Lac21 de uma biblioteca metagenômica

marinha (Fang et al., 2012), RL5 e Lac51 da microflora do rúmen bovino (Beloqui et

al. 2006) e do microbioma fecal de panda gigante (Fang et al., 2012a),

respectivamente, e Lac591 do metagenoma do solo de manguezal (Ye et al., 2010).

Entretanto,

estudos

de

diversidade

utilizando

abordagens

moleculares

(33)

independentes de cultivo geram evidências que solos representam uma grande fonte

de genes de lacases. Além disso, tem sido demonstrado que estes genes podem ser

carreados por a uma gama de filos bacterianos (Ausec et al.2011b). Nesse sentido,

o screening funcional baseado na busca por similaridade de sequência, através da

amplificação dos genes alvos com primers degenerados desenhados a partir de uma

grande diversidade de grupos bacterianos do solo, oferece uma alternativa na

prospecção dessas enzimas em bibliotecas metagenômicas.

3.2.

Clones com fenótipos diferenciados

Durante a prospecção da biblioteca metagenômica do solo da Caatinga

(época chuvosa) na busca de enzimas ligninolíticas, alguns clones com fenótipo

diferenciado foram identificados. Essas alterações incluíam produção de pigmento e

alteração morfológica com aspecto esbranquiçado (Figura 2).

Figura 2 | Clones que foram detectados apresentando fenótipo diferenciado durante a prospecção da

biblioteca para enzimas ligninolíticas. Os clones foram cultivados a 37 oC em placas de Petri contendo meio LB + 25 μg/mL de cloranfenicol + 0,01% de L-arabinose durante cinco dias.

Dois clones produziram pigmentos de coloração marrom, apresentando uma

produção extracelular, e acúmulo dentro da célula (Figura 3 a,b), o que indica serem

duas vias biossintéticas diferentes. Outro clone apresentou alterações na morfologia

(34)

e um aspecto esbranquiçado, que será investigado com maiores detalhes no

andamento do projeto para possíveis aplicações (Figura 3 c).

(a) (b) (c)

Figura 3 | Detalhes dos clones apresentando fenótipo diferenciado (a) Pigmento sendo secretado

para fora da célula. (b) Acúmulo de pigmento marrom dentro da célula. (c) Clone apresentando alterações morfológicas e aspecto esbranquiçado.

Sabe-se que as lacases contêm átomos de cobre no sítio ativo, auxiliando a

enzima no processo de catálise. Um grande aumento na expressão de pigmento

pelo clone (a) foi observado com adição deste metal no meio de cultura (dados não

demonstrados). Portanto, apesar de não oxidar os compostos análogos da lignina

nos ensaios funcionais, não descartamos a possibilidade do clone produzir alguma

ligninase, uma vez que estas também possuem o papel de formação de pigmentos

como a melanina em bactérias (Claus, 2003; Sharma et al., 2007; Fower et al.,

2011). O DNA fosmidial desses clones foi extraído com QIAGEN® Large-construct

kit, e enviado para sequenciamento e os dados de sequência serão analisados na

busca de ORFs de interesse.

3.3.

Extração do pigmento e análise de espectrometria de massa

(MALDI-TOF)

O sobrenadante filtrado do clone produtor de pigmento e do controle (clone sem

produzir o pigmento) (Figura 4) foi utilizado para extração com solvente (metanol) e

posterior análise comparativa por espectrometria de massa em MALDI-TOF.

(35)

(a) (b) (c)

Figura 4 | Sobrenadante do clone produtor de um pigmento marrom. (a) controle, (b) clone após

secretar pigmento para o sobrenadante, e (c) sobrenadante após armazenamento em geladeira.

Não foi observada diferença nos espectros de massa obtidos entre as

amostras (Figura 5). Serão necessários outros métodos de extração dos compostos

para possibilitar uma melhor resolução e detecção de diferenças significativas entre

os espectros dos sobrenadantes avaliados.

Figura 5 | Análise comparativa dos espectros de massa obtidos por Maldi/TOF dos extratos

metanólicos dos sobrenadantes.

388.669 177.345 137.333 348.479 522.814 284.635 764.640 979.826

MeOH black_3 23.03.15 0:B24 MS Raw

0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 4 x10 In te n s. [ a .u .] 137.291 254.414 348.377 550.694 1144.842 215.235 304.516 696.368 214.228 911.535 780.422 1047.718 1305.180

MeOH brown_2 23.03.15 0:C5 MS Raw

0.00 0.25 0.50 0.75 1.00 1.25 4 x10 In te n s. [ a .u .] 177.313 550.728 137.300 254.421 348.396 1144.888 696.404 780.454 911.580 1305.233 466.666 1047.764 598.403 1396.457 MeOH C_1 23.03.15 0:C7 MS Raw 0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 4 x10 In te n s. [ a .u .] 200 400 600 800 1000 1200 1400 m/z

(36)

Futuramente, na tentativa de detecção de um possível pigmento serão

utilizados os valores massa-carga (m/z) de cada íon para identificação dos

metabólitos de cada extrato em softwares específicos que comparam os resultados

contra uma base de dados (MeltDB 2.0).

3.4.

Extração de DNA fosmidial dos clones da biblioteca metagenômica

Os precipitados celulares dos clones agrupados em 40 pools foram

submetidos à extração fosmidial. Foi obtido DNA de alto peso molecular e com três

bandas intactas (não foram observados rastros de degradação) características de

DNA circular (Figura 6).

Figura 6 | Eletroforese em gel de agarose (0,8%) do DNA fosmidial extraído a partir dos

pools de clones. Poços 1-10 correspondem aos respectivos pools. Poços 11-14 extrações

não satisfatórias (ilustrativo).

3.5.

Triagem de genes via PCR e sequenciamento das bandas

Para prospecção de genes biossintéticos de lacase, primers degenerados

descritos pela literatura e desenhados a partir de sequências oriundas de bactérias

de solo (Tabela 1) foram utilizados para rastrear via PCR os pools de clones. Para

isto, o DNA fosmidial extraído dos 40 pools foi utilizado como molde para as

reações. Várias bandas inespecíficas foram detectadas em diferentes pools (Figura

7). As condições de amplificação, bem como a concentração dos reagentes e DNA

molde foram utilizadas conforme Ausec e colaboradores (2011).

(37)

Figura 7 | Eletroforese em gel de agarose (1%) dos produtos da PCR obtidos com os primers

degenerados Cu1AF e Cu4R. Foi utilizado como molde o DNA fosmidial isolado dos 39 pools de clones.

Devido ao grande número de bandas inespecíficas, foi necessário a

otimização das condições das reações da PCR através de ajustes na temperatura de

anelamento dos primers. O aumento de três graus foi suficiente para eliminar grande

parte das amplificações inespecíficas (Figura 8). Para avaliar possíveis

amplificações falso-positivas foi utilizado em reações controle o DNA genômico do

hospedeiro (E. coli EPI300) e o vetor fosmidial (pCC1FOS). Duas bandas

características de E. coli foram detectadas em quase todos os pools (Figura 8),

indicando possivelmente a amplificação do gene CueO, uma lacase bacteriana

envolvida na tolerância ao cobre em E. coli (Li et al., 2007). Após os ajustes na

temperatura de anelamento dos primers, uma banda de aproximadamente 600 pb

continuou sendo significativamente amplificada no pool 32 (Figura 8, seta amarela).

Como o pool é formado por 10 placas de 96 poços, foi realizada a extração fosmidial

dos clones agrupados (96 clones) de cada placa e posteriormente amplificações

usando-os como DNA molde. As placas 333, 338 e 340 foram positivas (Figura 9),

sugerindo a presença de três clones diferentes contendo as sequências.

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