RAYSSA DEPS BOLELLI
IMPERIALISMO E EXPORTAÇÃO DE CAPITAIS NO BRASIL DA
PRIMEIRA REPÚBLICA (1889-1930)
Campinas
2020
RAYSSA DEPS BOLELLI
IMPERIALISMO E EXPORTAÇÃO DE CAPITAIS NO BRASIL
DA PRIMEIRA REPÚBLICA (1889-1930)
Profº. Dr. Fábio Antônio de Campos – orientador
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento econômico, na área de Histórica Econômica.
ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELA ALUNA RAYSSA DEPS BOLELLI E ORIENTADA PELO PROFº. DR. FÁBIO ANTÔNIO DE CAMPOS.
Campinas
2020
RAYSSA DEPS BOLELLI
IMPERIALISMO E EXPORTAÇÃO DE CAPITAIS NO BRASIL
DA PRIMEIRA REPÚBLICA (1889-1930)
Profº. Dr. Fábio Antônio de Campos – orientador
Defendida em 19/05/2020
COMISSÃO JULGADORA
Profº. Dr. Fábio Antonio de Campos - PRESIDENTE Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Profº. Dr. Eduardo Barros Mariutti
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Profª. Dr. Vinícius Vieira Pereira
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
A Ata de Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.
Aos meus pais, por sempre estimularem e apoiarem, emocionalmente e materialmente, os meus estudos.
Ao prof. Maurício Sabadini pelos conselhos, pela confiança e por ter me incentivado a ingressar na pós-graduação.
Ao prof. Fábio Campos, por ter me recebido na Unicamp e pela paciência, dedicação e rigor com que me auxiliou na pesquisa, nas reflexões e na escrita desta dissertação.
À Capes, pela bolsa concedida, que permitiu a minha manutenção em Campinas por dois anos. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
Aos professores Carlos Cordovano, Eduardo Mariutti, Fernando Macedo e Marco Antônio Rocha, pelas aulas, participações em bancas, conversas e apoio que me deram durante os três anos frequentando o Instituto de Economia.
Ao professor Vinícius Vieira Pereira, pelos comentários feitos na ocasião da banca de defesa e que proporcionaram o enriquecimento deste trabalho.
À profª. Lívia Moraes, por sempre ter sido solícita e por ter me emprestado livros de sua biblioteca para que eu pudesse concluir a escrita desta dissertação em Vitória.
Aos técnicos administrativos e terceirizados da Unicamp, pelo excelente trabalho desenvolvido, pela atenção e zelo que sempre dedicaram aos estudantes e ao ambiente acadêmico.
Por fim, mas não menos importante, às minhas amigas e aos meus amigos. As conversas, incentivos e energia de vocês foram fundamentais para tornar as agruras da pós-graduação mais suportáveis. Sempre tive a sorte de manter minhas amizades de longa data e fazer novas por onde passo. Para não me estender com uma lista excessiva de nomes, fica aqui o meu agradecimento às minhas amigas de Alegre, as amizades da graduação na UFES e de Vitória, da militância, da pós-graduação e de Campinas.
se inseriu de modo dependente e subordinada no mercado mundial durante o período clássico do imperialismo (1870-1914). No que concerne à investigação das especificidades e transformações da economia brasileira, o recorte será modificado para compreender o período da Primeira República (1889-1930), visto que identificamos neste período uma continuidade dos elementos de subordinação imperialistas e na dinâmica político-econômica nacional. Para analisar o desenvolvimento do capitalismo e o estabelecimento de sua etapa imperialista, nos baseamos na perspectiva marxista e nos autores clássicos das teorias do imperialismo. Identificamos, assim, que o imperialismo, como movimento histórico, tem por especificidades: a industrialização, como a base produtiva na qual se estabeleceu os Estados imperialistas, modificando as relações de poder e exploração entre os Estados nacionais; os monopólios como nova forma de organização industrial; a predominância do capital financeiro no controle das relações capitalistas de produção; e a concorrência entre os Estados imperialistas. Com isso, reconhecemos a exportação de capitais como elemento central das relações econômicas internacionais do período. O capital é exportado com o objetivo de auferir maiores taxas de lucro, seja por uma maior exploração da força de trabalho ou pela venda de mercadorias acima do seu valor. Para que isso ocorra, foi necessária uma intensificação do processo que modificou as relações de produção nas regiões periféricas. No caso brasileiro, isto ocorreu com o fim da escravidão e a intensificação da separação dos trabalhadores dos meios de produção, com as transformações tecnológicas operadas na produção agrícola, nos transportes, na urbanização, no aparecimento das primeiras indústrias, e com a formação de uma burguesia interna, aliada ao capital internacional. Para compreendermos estes tópicos, nos basearemos, principalmente, nas análises de Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Nelson Wernek Sodré. Temos, desta forma, como categoria chave de análise pela perspectiva do país dependente, a categoria capital internacional, evidenciando a falta de nexo deste capital com o espaço econômico nacional. Procuramos demonstrar, assim, como a entrada de capitais internacionais, por mais que aparentemente tenha dado início a “modernização” do país, permitiu a manutenção da base produtiva agroexportadora, estabeleceu o controle da produção, da distribuição das mercadoras nacionais e da política econômica brasileira por meio do estabelecimento de condições para a realização de empréstimos, proporcionando a diminuição do excedente, da acumulação interna, já que parte do valor produzido internamente foi apropriado no exterior como juros e lucros.
Palavras Chaves: imperialismo, exportação de capitais, formação econômica brasileira, dependência.
dependent and subordinate fashion in the world market during the classic period of imperialism (1870-1914). Regarding the investigation of the specificities and transformations of the Brazilian economy, the outline will be modified to understand the period of the First Brazilian Republic (1889-1930). This follow from the identified continuity of the elements of imperialist subordination and in the national political-economic dynamics in the period studied. In order to analyze the development of capitalism and the establishment of its Imperialist stage, we used the Marxist perspective and the classic authors of the theories of imperialism. We thus identify that imperialism, as a historical movement, has the following specific features: industrialization, as the productive base in which the imperialist states were established, changing the relations of power and exploitation between national states; monopolies as a new form of industrial organization; the predominance of financial capital in the control of capitalist relations of production; and competition between imperialist states. With this, we recognize the export of capital as a central element of the international economic relations of the period. Capital is exported with the objective of obtaining higher rates of profit, either through greater exploitation of the labor force or through the sale of goods above its value. For this to occur, it is necessary to intensify the process which modifies the relations of production in the peripheral regions. In the Brazilian case, this took place with the end of slavery and the intensification of the separation of workers from the means of production, with the technological transformations operated in agricultural production, in transport, in urbanization, in the appearance of the first industries, and with the formation of an internal bourgeoisie, allied to international capital. In order to understand these topics, we will mainly rely on the analyzes of Caio Prado Jr., Florestan Fernandes and Nelson Wernek Sodrét. Thus, we have as a key category of analysis from the perspective of the dependent country, the category of international capital, showing the lack of connection between this capital and the national economic space. We therefore try to demonstrate how the admission of international capital, despite its apparent “modernization” of the country, allowed the maintenance of the agro-export productive base, established the control of production, the distribution of national merchants and the Brazilian economic policy through the establishment of conditions for the realization of loans, providing a reduction of the surplus, of the internal accumulation, since part of the value produced internally was appropriated abroad as interests and profits.
km² e milhões de habitantes) ... 12 Tabela 2 - Produção e comércio mundiais, 1781-1929 (1913 = 100) ... 25 Tabela 3 - Malha ferroviária mundial, 1880-1911, em km ... 27 Tabela 4 - Crescimento das frotas da marinha mercante, por frota, 1872-1907, em % ... 27 Tabela 5 - Produção mundial das principais matérias-primas tropicais, 1880-1910 (em milhares de toneladas) ... 28 Tabela 6 - Conta Corrente Britânica, 1866-1913 (em milhões de £) ... 57 Tabela 7 - Frete Marítimo, 1881 e 1913 (só navios de 100 toneladas) (em milhares de toneladas) ... 57 Tabela 8 - Destino das exportações de mercadorias britânicas 1860-1870 (em
porcentagem e em milhões de £) ... 58 Tabela 9 - Destino das exportações de capitais britânicos 1865-1914 (em
porcentagem e em milhões de £) ... 58 Tabela 10 - Estrutura das aplicações britânicas na América Latina e no Brasil, 1885-1913, em % e milhões de libras ... 63 Tabela 11 - Capital investido em empresas na América Latina, 1890, em libras ... 67 Tabela 12 - – Investimento estrangeiro direto no Brasil por país de origem dos
capitais,1860-1913, em % ... 86 Tabela 13 - Porcentagem dos principais produtos exportados pelo Brasil sobre a exportação total, a partir dos valores de cada ano, 1870-1930 ... 92 Tabela 14 - Balança Comercial Brasileira, 1870-1930, em ££ 1.000 ouro ... 93 Tabela 15 - Porcentagem dos principais produtos importados pelo Brasil sobre a importação total, a partir dos valores médios em cada ano, 1901-1930 ... 98 Tabela 16 – Distribuição Setorial do Investimento Estrangeiro,1860-1913, em % .. 103 Tabela 17 - Principais ferrovias estrangeiras no Brasil, 1860-1913. ... 105 Tabela 18 – Tabela 18 - Principais Companhias de Navegação estrangeiras, 1870-1913 ... 113 Tabela 19 - Principais companhias de serviços públicos estrangeiras, 1870 – 1913 ... 114 Tabela 20-Dívida Pública brasileira e suas obrigações, 1871-1931, em milhares de libras ... 120 Tabela 21-- Estoque nominal de capital estrangeiro, 1824-1930, em milhões de libras ... 125 Tabela 22 - Balanço de pagamentos resumido, 1870-1930, médias anuais em
1913, (em milhares de £) ... 56 Gráfico 2 - Evolução da Dívida Pública, 1824-1931, estoque em milhares de libras ... 119
RESUMO ... 6
ABSTRACT ... 7
Lista de Tabelas ... 8
Lista de Gráficos ... 9
INTRODUÇÃO ... 11
CAPÍTULO 1 – IMPERIALISMO E O MERCADO MUNDIAL (1870-1914) ... 22
1. Introdução ... 22
2. Desenvolvimento capitalista e colonialismo ... 23
3. A transição do capitalismo concorrencial para o monopolista ... 29
3.1 A grande depressão (1873-1896) ... 30
3.2 O capital financeiro... 36
4. Teorias clássicas do imperialismo ... 40
5. Exportação de capitais e a inserção da América Latina no mercado mundial ... 55
6. Conclusão ... 68
CAPÍTULO 2 – EXPORTAÇÃO DE CAPITAL E INSERÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (1870-1930) ... 74
1. Introdução ... 74
2. Inserção da economia brasileira no mercado mundial capitalista ... 75
3. O padrão internacional de comércio: o padrão-ouro ... 89
4. Política econômica e articulação entre o capital internacional e a economia exportadora brasileira ... 92
4.1 Investimentos diretos ... 102
4.2 Dívida externa e política econômica na Primeira República ... 117
4.4 Modificações na estrutura produtiva... 126
5. Conclusão ... 140
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 146
INTRODUÇÃO
Países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em desenvolvimento, países ricos e pobres, centro e periferia. Essas são as formas com as quais, dentro do debate político e econômico, estamos acostumados a classificar os países do globo. Independente das concepções teóricas cuja utilização cada uma dessas formas explicite, o fato é que o uso desses termos diferenciadores já indica que há uma separação entre os países na estrutura de poder mundial, tanto do ponto de vista econômico, quanto político e social.
Mas o que determina essas diferenças? Responder a essa pergunta não é tarefa fácil e, até hoje, fomenta grandes discussões no campo econômico. Entretanto, é de fundamental importância que se faça um esforço nesse sentido, pois apenas a partir da clara apreensão do nosso lugar na estrutura econômica mundial e das forças econômicas que atuam no sentido de manutenção dessa estrutura é que se torna possível o entendimento de quais seriam os limites e as possibilidades das políticas que visam à superação do subdesenvolvimento econômico e à promoção de um plano econômico mundial mais equânime.
Entendemos que a formação da atual dicotomia entre desenvolvimento e subdesenvolvimento pode ser compreendida como um dos resultados da expansão imperialista realizada da segunda parte do século XIX ao início do século XX, pois é durante esse período que a articulação das áreas periféricas do globo com o mercado mundial, principalmente no que se concerne à América Latina, foi modificada, iniciando-se uma nova fase na divisão internacional do trabalho. O Brasil, enquanto país latino-americano, fez parte desse processo e se estabeleceu como mais um dos países subdesenvolvidos da região. Essa articulação, por sua vez, foi consequência do próprio processo de desenvolvimento das economias capitalistas centrais, já que é somente com o desenvolvimento da grande indústria no centro do sistema que se criam as bases sólidas para a divisão internacional do trabalho, concretizando-se, assim, a mundialização do sistema capitalista. Dessa forma, este trabalho tem por objetivo analisar como o Brasil se inseriu de maneira dependente e subordinada durante a fase clássica do imperialismo capitalista.
Durante o fim do século XIX e início do XX, a forma de expansão mundial do capitalismo ganhou notável atenção por reascender um novo movimento
tornavam independentes e lutavam para se estabelecer enquanto Estados autônomos, novas colônias formais eram estabelecidas, colocando grandes extensões de terra e de gente sob o domínio de potências industriais emergentes. Os números da tabela abaixo deixam claro o ressurgimento de uma nova política colonialista por meio da anexação territorial.
Tabela 1- Possessões coloniais das Grandes Potências, 1876-1914(em milhões de km² e milhões de habitantes)
km² hab km² hab km² hab
Inglaterra 22,5 251,9 33,5 393,5 0,3 46,5 França 0,9 6 10,6 55,5 0,5 39,5 Alemanha 0 0 2,9 12,3 0,5 64,9 Estados Unidos 0 0 0,3 9,7 9,4 97 Colônias Metrópoles 1876 1914 1914 Fonte: LENIN, 2012, p.114
O termo imperialismo, apesar de ter se originado na primeira metade do século XIX como um termo derivado do substantivo francês impérialisme, tornou-se, a partir dos anos de 1870, um vocábulo popular na Inglaterra da era vitoriana (MARIUTTI, 2015).
A palavra impérialiste – que abriu caminho para a criação do substantivo impérialisme ‒ parece ter ganhado popularidade na França por volta de 1830, com uma acepção particular e, fundamentalmente positiva: era usada para designar os partidários do “império” napoleônico. Logo em seguida o termo ganhou uma acepção crítica, pois passou a ser utilizado, antes de 1848, como uma denúncia às pretensões “cesarianas” de Luis Napoleão. Pouco tempo depois esta expressão conservou este mesmo sentido básico, quando passou a ser utilizada por franceses e ingleses contrários ao expansionismo francês. No entanto, no mundo anglo-saxônico, a palavra imperialismo ganhou força somente na década de 1870, em plena era vitoriana, como uma crítica à política de Disraeli, que tinha como objetivo converter as colônias inglesas – caracterizadas pelo próprio como “uma pedra atada ao nosso pescoço” – em membros autônomos de um império unificado, isto é, visava à constituição de uma “federação imperial” (MARIUTTI, 2013, p. 3).
Essa popularização marca uma mudança no que era percebido como práticas imperialistas. O imperialismo passa, no fim do século, a ser uma política econômica, baseada nas necessidades de expansão do sistema capitalista. Dessa forma, o termo passa a aparecer em publicações de escritores de finanças, como os do boletim U.S. Investors, de Boston, Massachusetts. Esses escritos teriam surgido entre 1898 e 1899 e colocaram o vocábulo como uma nova palavra que, em breve,
seria falada em todas as línguas e que evidenciavam os benefícios da guerra para os negócios (PEREIRA, 2015).
[...] pois não há dúvida de que a palavra “imperialismo” passou a fazer parte do vocábulo político e jornalístico dos anos 1890, no decorrer das discussões sobre a conquista colonial. Ademais, foi então que adquiriu a dimensão econômica que, como conceito, nunca mais perdeu. [...] A palavra (que não figura nas obras de Karl Marx, falecido em 1883) foi introduzida na política da Grã-Bretanha, nos anos de 1870, e ainda era considerada neologismo no fim da década. Sua explosão de uso geral data dos anos de 1890 (HOBSBAWM, 2015, p.98-99).
A mudança de significado atribuído ao termo imperialismo, no fim do século XIX, é percebida nos discursos oficiais dos dirigentes do maior império constituído, o Império Britânico. Em meados do século XIX, o discurso oficial condenava a aquisição de mais territórios, sendo usada recorrentemente como exemplo a política empreendida por Disraeli (LENIN, 2012; MARIUTTI, 2013)1.
Embora essa posição seja atribuída ao fato de que, entre 1840 e 18602, a
Grã-Bretanha passava por seu período de laissez-faire e, portanto, anti-imperialista, os números demonstraram que, nesse período, a política colonialista não ficou adormecida. Entre 1841 e 1851, foram anexadas ao Império Britânico “Nova Zelânida, a Costa Dourada, Labuan, Natal, Punjab, Sind e Hong Kong” (GALLAGHER e ROBINSON, 1953, p.2). Se levarmos em consideração a expansão indireta, expandimos ainda mais a área de controle econômico britânico e colocamos esse marco ainda mais no início do século XIX, nos anos de 1810, em que se iniciou o processo de independência das colônias espanholas latino-americanas. Os acordos comerciais firmados pela Grã-Bretanha neste período com os novos países latino-americanos garantiram mercados para os produtos e investimentos britânicos. Ou seja, não foi apenas no fim do século XIX que a expansão da economia britânica criou colônias e áreas de influência. Durante todo o século XIX, a Grã-Bretanha realizou uma expansão mercadológica e territorial (GALLAGHER e ROBINSON, 1953).
À medida em que o capitalismo se desenvolvia, a aquisição de novas colônias e áreas de controle impulsionava os negócios britânicos. O imperialismo
1 “M. Beer diz, num artigo publicado em 1898 sobre o “imperialismo inglês contemporâneo”, que, em 1852, um
estadista britânico como Disraeli, geralmente tão favorável ao imperialismo, declarava que “as colônias são fardos pesados de se carregar”.” (LENIN, 2012, p.112).
2É interessante notar que a contradição entre o discurso de alguns políticos e a prática do Império Britânico não
existia quando o tema era a política de dominação indireta, contra a qual não havia discursos. Neste sentido, os supostos anti-imperialistas da metade do século XIX se igualavam aos imperialistas do fim deste século (GALLAGHER E ROBINSON, 1953).
passava, assim, a ser naturalizado como apenas uma opção política no contexto de expansão liberal do capitalismo. Nessa concepção, o imperialismo seria um movimento benéfico não só aos países pioneiros, mas principalmente às colônias3.
Corroborando essa ideia, muitos analistas, à época, entendiam o fenômeno do imperialismo como uma tarefa árdua para o dominador, tanto que beneficiava muito mais a colônia do que a metrópole. Principalmente para os defensores mais exaltados do liberalismo econômico, muita atenção estava sendo dispensada ao desenvolvimento natural das trocas internacionais que expandiam a economia capitalista para os quatro cantos do planeta, levando mais benefícios às zonas atrasadas do que às metrópoles industriais. O livre comércio, mesmo entre metrópole e colônia, não podia ser identificado com qualquer relação desigual, mas, ao contrário, um comércio voluntário (PEREIRA, 2015, p.30).
Alguns ainda tentavam retirar do termo o seu caráter pejorativo ao introduzir a ideia da missão civilizacional da política imperialista. A “ideologia do fardo do homem branco” foi criada, assim, com o objetivo de justificar as empreitadas coloniais a partir da ideia de que “os britânicos ‒ ou seus sucessores ‒ tinham a dupla missão de civilizar os povos atrasados e de abrir os seus territórios em benefício do mundo” (MARIUTTI, p.4, 2015).
Outros autores liberais, como Hobson (1902), realizavam uma crítica ao imperialismo. Esse autor entendia o imperialismo como fruto do desenvolvimento do capitalismo e das mudanças em relação ao desenvolvimento técnico ao mesmo tempo em que criticava a violenta subordinação de outros povos ocorrida nos territórios anexados. Entretanto, ele compreendia esse caráter como uma anomalia, que atrapalhava o desenvolvimento do capitalismo e da democracia britânica. Para Hobson, a política imperialista era tocada por industriais ávidos por lucros e que, ao invés de realizarem investimentos em sua própria nação, buscavam maiores rendimentos em outros territórios. A solução apontada pelo autor seria a extirpação desse grupo do poder, para que o verdadeiro nacionalismo britânico pudesse florescer.
A principal fonte econômica do imperialismo foi encontrada na desigualdade de oportunidades industriais, pela qual uma classe favorecida acumula elementos supérfluos de renda que, em sua busca por investimentos rentáveis, avançam cada vez mais longe: a influência na política estatal desses investidores e seus recursos financeiros. Os gerentes asseguram uma aliança nacional de outros interesses que são ameaçados por movimentos de reforma social: a adoção do imperialismo serve, assim, ao duplo objetivo de garantir benefícios materiais privados para classes favoritas de investidores e comerciantes ao custo público, ao mesmo tempo
3 Para ver uma exposição mais abrangente das teorias liberais e das teses sobre a expansão capitalista advogada por este escopo teórico, ver Pereira (2015, pp. 29-33).
em que sustenta a causa geral de conservadorismo, desviando a energia pública e o interesse da agitação doméstica para o emprego externo. A capacidade de uma nação de se livrar dessa perigosa usurpação de seu poder e de empregar os recursos nacionais no interesse nacional depende da educação de uma inteligência nacional e de uma vontade nacional, o que tornará a democracia uma realidade política e econômica. Denominar imperialismo uma política nacional é uma falsidade insolente: os interesses da nação se opõem a todos os atos dessa política expansiva. Toda ampliação da Grã-Bretanha nos trópicos é um distinto fragmento do verdadeiro nacionalismo britânico (HOBSON, 1902, p.370).
Já Schumpeter, que escreveu sobre o tema em 1919, apesar de crítico, não entendia o imperialismo como um fenômeno conectado ao desenvolvimento capitalista. Para esse autor, esse fenômeno era uma reminiscência de um passado mercantilista dominado por monarquias absolutistas que tendiam para guerras. Schumpeter defendia que o liberalismo burguês iniciava uma nova forma de expansão do comércio mundial, feita “pela via pacífica da liberdade do comércio, e não pela invasão e conquista forçada de territórios estrangeiros” (PEREIRA, 2015, p. 30).
Enquanto a maior parte dos ideólogos do liberalismo defendia a guerra e a conquista territorial estrangeira, a Revolução Industrial levou a Europa a viver internamente a chamada Belle Époque, um período de paz e prosperidade, em que o avanço industrial proporcionava o florescimento da vida urbana, com as avenidas das principais cidades iluminadas por postes elétricos, início do consumo de massas, popularização dos cinemas e a consolidação do típico estilo de vida burguês (HOBSBAWM, 2000).
A ideologia criada para sustentar moralmente o novo colonialismo imperialista e o momento de prosperidade pelo qual passava a Europa encobria o fato de que o que estava no cerne desse movimento era a busca implacável por maiores taxas de lucro, já que a produção de mais valor, ou criação de excedente, é a lei absoluta do modo de produção capitalista (MARX, 2013). Ou seja, independente do padrão de acumulação, ou da fase em que se encontra o capitalismo, a busca por maiores taxas de lucro leva a uma expansão territorial.
De forma crítica às concepções liberais, que não exploravam as assimetrias e contradições estabelecidas pelo próprio desenvolvimento do capitalismo, os autores marxistas do período, como Hilferding, Lenin, Bukharin e Luxemburgo, construíram teorias do imperialismo em cujo cerne colocavam a crítica ao modo capitalista de produção. Embora o termo “Império” tivesse se popularizado ao ponto de tratar de distintos Estados ao redor do globo, para esses autores, o
imperialismo se distinguiu por ser fruto de uma fase específica do capitalismo, a fase monopolista e financeira, sendo denominados imperialistas apenas alguns Estados industriais centrais dentre todos os “Impérios” constituídos. Dessa forma, foram a primeira matriz teórica capaz de observar nessa fase um ponto de inflexão na divisão internacional do trabalho, permitindo identificar “a origem da produção da relação de desigualdade presente na configuração centro periferia” (PEREIRA, 2015, p.33). Por terem sido o grupo de autores que, nesse período, identificaram de fato as causas e os efeitos da expansão capitalista sobre a periferia do sistema (PEREIRA, 2015), neste trabalho, nos basearemos, fundamentalmente, em suas análises para compreender a dinâmica capitalista e para estabelecer nossa perspectiva a respeito do imperialismo e do desenvolvimento da economia mundial no período identificado.
Segundo esse escopo teórico, o capitalismo se desenvolveu entre 1840 e 1870 nos marcos da livre concorrência (LENIN, 2012). A partir de 1870, e, principalmente, da crise de 1873, o capitalismo ingressou em sua fase monopolista, em que passou a existir sob o domínio de grandes oligopólios industriais. Criado a partir da fusão do capital bancário e industrial, o assim categorizado capital financeiro (HILFERDING, 1986) controlava desde a produção de energia até a construção de máquinas e mercadorias, alcançando o patamar de capitalismo monopolista. Nesta fase, o desenvolvimento industrial foi marcado por intensas transformações tecnológicas, como o descobrimento da energia elétrica e o desenvolvimento de ferrovias e barcos. As tendências à concentração e à centralização do capital chegaram a um patamar tão elevado que transformaram toda a forma de produção, organização e distribuição da riqueza planetária, intensificando a necessidade de extroversão do capital para fora das fronteiras nacionais.
A divisão internacional do trabalho é estabelecida, assim, entre os países industrializados, desenvolvidos, exportadores de capitais e entre a periferia subdesenvolvida, importadora de capitais, que, politicamente, eram ou colônias diretas ou países dependentes, aqueles que, mesmo que obtivessem a independência política, estavam sob o jugo dos fluxos de capitais internacionais (LENIN, 2012). No primeiro grupo se encontravam, principalmente, quatro nações: Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos. A emergência de grandes potências industriais estabeleceu um novo patamar de concorrência entre os Estados
nacionais. Os países de industrialização atrasada‒ Alemanha, França e os EUA ‒ criaram um tipo de rivalidade imperial com os pioneiros britânicos, na qual o centro da disputa não estava mais em guerras diretas entre essas nações, mas em disputas internacionais, fora de seus territórios, por novos mercados e novas áreas de influência. O fim desse período só se daria em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, em que as tensões resultantes das disputas por novos territórios coloniais não são mais passíveis de serem resolvidas apenas em conflitos externos, levando a guerra para o território europeu.
Dessa forma, entendemos, assim como Lenin (2012), que o imperialismo clássico é o período que se estende de 1870, com o início da fase monopolista do sistema capitalista e da intensificação das políticas de anexação e exportação de capitais, até 1914, com a deflagração da Grande Guerra. Demonstramos, neste trabalho, que o imperialismo não pode ser caracterizado apenas como uma política expansionista de anexação territorial, mas sim como a política do capital financeiro, que, por meio de sua política expansionista, reproduziu, em medida ampliada, a base de produção do capital financeiro (BUKHARIN, 1986). É nesta característica que podemos definir a particularidade histórica do imperialismo clássico. Assim, compreendemos a exportação de capital como a maneira particular de expansão do capitalismo financeiro e o veículo principal da política imperialista. Esse modo de expansão possibilitou o controle indireto de outras economias, somente substituindo essa forma pelo braço armado e pelo controle direto quando é assim necessário para garantir a reprodução do capital.
Um princípio surge claramente: é somente quando e onde os meios políticos informais não fornecem a estrutura de segurança para a empresa britânica (seja ela comercial, filantrópica ou simplesmente estratégica) que surge a questão do estabelecimento de um império formal. Nas regiões satélites povoadas por ações europeias, na América Latina ou no Canadá, por exemplo, cresceram fortes estruturas governamentais; em áreas totalmente não-europeias, por outro lado, a expansão desencadeou forças destrutivas sobre as estruturas indígenas, que tendem a esgotar-se e até desmoronar com o uso. Essa tendência, em muitos casos, explica a mudança do controle indireto para o controle direto (GALLAGHER e ROBINSON, 1953, p.13, tradução própria).
Portanto, por mais que o colonialismo tenha sido o fenômeno que mais tenha chamado a atenção no período, em nossa concepção, a grande novidade foi o controle indireto, por meio da exportação de capitais, de grandes extensões territoriais e populacionais. É nesse contexto de dominação indireta que a América Latina e o Brasil têm a sua inserção no mercado mundial capitalista completada.
Essas áreas, de maneira similar às outras nações, foram frutos da expansão do capitalismo mundial desde a primeira etapa de colonização em sua fase mercantilista. Na etapa imperialista, após os processos de independência desses países, ao invés da esperada emancipação, a forma de integração subordinada atingiu um novo patamar de complexidade (FERNANDES, 1973). Importadores de capitais e pertencentes ao grupo caracterizado como dependentes, os países latino-americanos, por meio de suas classes dominantes, não romperam totalmente com seu passado colonial e entraram nessa nova fase ainda hegemonizados pelas potências europeias. Compreendemos, dessa forma, a política de dominação indireta possibilitada pela exportação de capitais como a particularidade deste desenvolvimento mais intenso do capitalismo em áreas já conectadas à economia mundial, as quais estavam indiretamente sobre o controle da Inglaterra, como a América Latina (GALLAGHER e ROBINSON, 1953).
O debate sobre a constituição do capitalismo no Brasil foi estabelecido, em grande parte, com o objetivo de entender as causas de nossa posição periférica no mercado mundial capitalista e apontar caminhos para a superação de nosso subdesenvolvimento. Com o fim da II Guerra Mundial e os movimentos de descolonização ao redor do globo, iniciou-se o questionamento do porquê algumas nações serem mais desenvolvidas do que outras. Nesse sentido, a Organização das Nações Unidas (ONU), criada com o intuito de dirimir as tensões oriundas no plano internacional pela expansão capitalista, encoraja a elaboração de teorias destinadas a explicar e justificar as desigualdades entre as nações. Dentre as comissões criadas, a da CEPAL4, na América Latina, foi a que obteve o maior destaque. Para
além do pretendido pelo organismo internacional, a CEPAL colocava como causa de nosso subdesenvolvimento a transferência de valor que ocorria ao se trocar bens agrícolas de baixo valor agregado por bens manufaturados e industriais de alto valor agregado, conhecida na literatura por intercâmbio desigual. A resposta encontrada por esse grupo, para que a América Latina atingisse o desenvolvimento social e econômico, seria a industrialização latino-americana realizada por um processo de substituição de importações. Ou seja, embora o subdesenvolvimento e o desenvolvimento fossem face da mesma moeda, não havia aqui uma ideia de que o subdesenvolvimento de algumas nações fosse condição para o desenvolvimento de
4 Comissão Econômica Para a América Latina. Dentre os economistas mais famosos que integraram esta
outras. Seria possível, em todo o globo, o alcance do desenvolvimento por meio de uma política industrializante orientada pelo Estado nos países ainda subdesenvolvidos. Nesse sentido, a interpretação cepalina se alinhava com a interpretação do sistema econômico internacional estabelecida pela ONU.
Os limites práticos das ideias cepalinas de conciliação do desenvolvimento econômico com desenvolvimento social apareceram nos anos 60 do último século, quando, após um grande esforço de industrialização, os países latino-americanos passaram por uma grave crise econômica que culminou na ascensão de regimes militares por todo o continente. É nesse contexto que surgem os teóricos da dependência, que buscaram apontar os limites da modernização cepalina.
As chamadas teorias da dependência podem ser mapeadas em dois grandes grupos. O primeiro pensava ser possível conciliar dependência e desenvolvimento, capitalismo e nação, via a negociação dos termos de dependência. Já o segundo grupo entendia dependência e subdesenvolvimento como uma mesma chave. Para deixar de ser subdesenvolvido, era necessário romper com os laços de nossa dependência em relação ao centro capitalista. Essa diferenciação é importante para os fins deste trabalho, pois as discordâncias em relação à nossa condição dependente são fundamentadas por meio de interpretações divergentes da transição da economia colonial brasileira para um estado capitalista dependente.
Dessa forma, nossa investigação foi baseada no segundo grupo, principalmente nas posições de Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes, que sustentaremos a partir dos dados5 sobre o fluxo de
capitais internacionais para o Brasil e das pesquisas recentes que procuraram explorar a articulação do capital financeiro com o capital cafeeiro naquele período. Categoria central, nesta análise, é a de capital internacional de Caio Prado Jr., que
5 Analisar o setor externo do período é um desafio justamente pela dificuldade em se encontrar dados
consolidados#. As estatísticas padronizadas das contas nacionais só começaram a ser elaboradas a partir dos
anos de 1930. Os dados existentes, como as séries de comércio exterior do IBGE (1986,1990) e os dados sobre entrada de empresas estrangeiras de Castro (1979), além dos dados sobre dívida pública de Bouças (1950), costumam ser criticados. Os dados de Castro (1979) normalmente são utilizados com restrição, pois indicam as empresas que anunciaram sua instalação, não necessariamente tendo entrado em operação de fato. Os do IBGE (1986, 1990) e de Bouças, segundo Abreu (1985), são séries cujas origens são bastante suspeitas. Uma outra debilidade é que as séries históricas desenvolvidas pelos autores só vão até 1913, enquanto as séries consolidadas do balanço de pagamentos desenvolvidas pelo IBGE (1986,1990) se iniciam em 1930. Temos aí,portanto, 17 anos que ficaram sem sistematização. De todo modo, optaremos por utilizá-los, mesmo que com cautela, já que são praticamente as únicas fontes sobre esses movimentos de capitais.
evidenciou o caráter especulativo e sem vínculos com a economia nacional brasileira, em que atuaria o capital externo ao se dirigir para o Brasil apenas com a intenção de garantir maiores taxas de lucro em moeda estrangeira. Esses autores exploraram as consequências da expansão imperialista para a economia brasileira a partir das teorias clássicas do imperialismo, aprofundando a crítica ao apontarem a necessidade de uma saída revolucionária para superar a situação dependente. Da mesma forma, entendem que a continuidade do capital mercantil em nossa formação histórica condicionou o desenvolvimento do capitalismo no Brasil em um desenvolvimento para atender aos mercados externos, e não às necessidades de nosso povo. Apresentaremos essas análises como uma contraposição ao grupo de autores da Escola de Campinas, que derivam suas análises das teorias da dependência do primeiro grupo, cuja concepção se iniciou com os trabalhos de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto.
Para completar o objetivo deste trabalho, analisaremos a economia brasileira a partir de suas particularidades históricas, como estas se articularam ao imperialismo. O recorte utilizado para a concentração da investigação em relação à história econômica brasileira é o período conhecido como Primeira República (1889-1930). Tal escolha se deu, pois, identificamos, neste período, o momento chave de articulação da economia brasileira com o mercado mundial na etapa imperialista. O surto ferroviário, o aumento dos investimentos estrangeiros diretos, o crescimento da dívida pública, a mecanização do campo e a consequente ampliação da produção cafeeira, que puderam ser observados no período, foram os elementos que nos permitiram realizar esta identificação.
Dessa forma, as hipóteses de que partimos foram as de que: i) o período imperialista foi o marco inicial da divisão internacional moderna do trabalho; ii) a expansão do capital foi necessária como forma de superação das crises por meio da obtenção de maiores taxas de lucro; e iii) a maneira como foi feita a subordinação entre capital internacional e a economia brasileira, sem romper com o passado colonial, condicionou o país a uma estrutura socioeconômica dependente e subdesenvolvida.
Assim, dividiremos o trabalho em dois capítulos. O primeiro capítulo versará sobre a expansão do mercado mundial capitalista entre 1870 e 1914 ‒ conhecido como período do imperialismo clássico ‒ e a centralidade da categoria exportação de capitais nesse movimento expansionista. Para tal, localizaremos
esses fenômenos dentro da etapa monopolista do sistema capitalista e do surgimento do capital financeiro, bem como discutiremos como foi formado o vínculo de dependência financeira que aumentou os espaços de valorização do capital e a obtenção de maiores taxas de lucro para os países centrais.
No segundo capítulo, trataremos especificamente da inserção periférica do Brasil no mercado mundial capitalista, a partir do capital exportado para esse país, das especificidades sociais e econômicas brasileiras e da articulação dessa realidade com o imperialismo, como base nas categorias expostas no capítulo um e nas análises desenvolvidas por Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes. Também procuramos identificar as transformações ocorridas na base produtiva e na sociedade brasileira como consequências das mudanças operadas no período.
CAPÍTULO 1 – IMPERIALISMO E O MERCADO MUNDIAL (1870-1914)
1. Introdução
O objetivo deste primeiro capítulo é explicar como o mercado mundial se expande e como, a partir das especificidades da etapa imperialista, a dependência financeira entre o centro e a periferia do sistema foi construída para possibilitar o aumento dos espaços de valorização do capital e a obtenção de maiores taxas de lucro para os países imperialistas. Portanto, partiremos da perspectiva marxista para compreender a dinâmica do desenvolvimento capitalista, assim como nos basearemos nas interpretações daquelas que ficaram conhecidas como as teorias clássicas do imperialismo, as quais estabeleceram a hipótese de que o período foi o marco inicial da moderna divisão internacional do trabalho: em primeiro lugar, porque deu início ao processo que definiria, após as duas grandes guerras mundiais, aquelas que seriam as economias centrais do capitalismo; em segundo lugar, pois, a posição periférica das demais áreas do globo foi definida nesse período por meio do estabelecimento de laços de dominação diretos e indiretos entre essas regiões e o centro industrial. Dessa forma, nossa hipótese é a de que este é o período chave para entender a inserção periférica agroexportadora da América Latina, em especial do Brasil, na divisão internacional do trabalho.
Estabelecer relações de causas e efeitos simples não é possível para o entendimento de como se desenvolveu essa divisão no mercado mundial. Portanto, a intenção aqui é explicitar algumas tendências gerais e históricas que formaram a divisão internacional do trabalho e o emaranhado das relações dependentes nesse período clássico do imperialismo. A partir das leis de reprodução e acumulação do capital, das manifestações históricas e das especificidades da etapa imperialista (a partir das quais foram desenvolvidas as teorias clássicas do imperialismo), iniciaremos analisando, na seção dois, como o desenvolvimento tecnológico e a expansão mundial ocorrem de forma particular no capitalismo. Na seção três, examinaremos como o capitalismo passou de sua etapa concorrencial para a monopolista e como, a partir desta transição, consolidou-se a categoria chave do período: o capital financeiro. Na quarta e última parte, analisaremos a articulação da exportação de capitas aos condicionantes históricos e internos dos países latino-americanos.
2. Desenvolvimento capitalista e colonialismo
O movimento mais aparente da nova Era dos Impérios, para além da nova política colonial, sem dúvidas, foi o crescimento da produção industrial. A industrialização chegou a um novo patamar com a ampla utilização do motor movido a vapor, o despontamento da energia elétrica, do motor de autocombustão e da indústria química e farmacêutica, dando prosseguimento à Revolução Industrial do século XVIII (MAGDOFF, 1979; HOBSBAWM, 2015).
Antes de nos aprofundarmos nas especificidades que marcaram o período imperialista, é importante analisarmos as leis gerais de funcionamento do modo de produção capitalista e seu desenvolvimento histórico que, inexoravelmente, determinaram a expansão territorial como uma de suas tendências principais. Em primeiro lugar, o capitalismo, enquanto um sistema que tem por objetivo a acumulação e a obtenção do lucro, revoluciona as atividades econômicas à medida em que estas possibilitam lucros maiores do que sem elas (HOBSBAWM, 2000). A Revolução Industrial, iniciada no século XVIII na Inglaterra, é um dos marcos da constituição do capitalismo e foi a expressão máxima do desenvolvimento técnico que redefiniu as bases da exploração do trabalho, pois o desenvolvimento da maquinaria, como meio de se produzir mais valor, tem por objetivo “baratear as mercadorias e encurtar parte da jornada de trabalho que o trabalhador necessita para si mesmo, a fim de proteger a outra parte de sua jornada, que ele dá gratuitamente para o capitalista (MARX, 2013, p.445)”.
A questão é que a maquinaria, como meio de produção de mais valor, encerra uma contradição em si. Ao mesmo tempo em que é desenvolvida para intensificar a exploração do trabalho, o aumento da sua composição no processo produtivo leva a uma tendência progressiva da queda da taxa de lucro (MARX, 1986). Uma das maneiras de compensação da queda da taxa de lucro encontrada pelo capital é justamente o comércio exterior. Nas palavras do próprio Marx:
À medida que o comércio exterior barateia em parte os elementos do capital constante, em parte os meios de subsistência necessários em que o capital variável se converte, ele atua de forma a fazer crescer a taxa de lucro, ao elevar a taxa de mais-valia e ao reduzir o valor do capital constante. Ele atua em geral nesse sentido ao permitir a ampliação da escala da produção. Assim ele acelera, por um lado, a acumulação, por outro, também o descenso do capital variável em relação ao capital constante, e com isso a queda da taxa de lucro. Da mesma maneira, a ampliação do comércio exterior, embora tenha sido na infância do modo de produção capitalista sua base, tornou-se, em seu progresso, pela necessidade intrínseca desse modo de produção, por sua necessidade de mercado sempre mais amplo,
seu próprio produto. Aqui se manifesta novamente a mesma duplicidade do efeito (MARX, 1986, p.180).
Além de ter atuado como contratendência à queda da taxa de lucro, o comércio com as áreas coloniais ou subdesenvolvidas possibilitou uma elevação da taxa geral de lucro (MARX, 1986). Os motivos para que isso tenha ocorrido foram: i) a inexistência de concorrência para as mercadorias produzidas nos países industriais, de tal modo que o país mais avançado tecnologicamente vendia seu produto acima de seu valor, conseguindo, no entanto, que eles fossem mais baratos do que os dos países concorrentes, obtendo, assim, um superlucro; e ii) a utilização de força de trabalho escrava, ou seja, a exploração do trabalho levada ao seu limite que gerava, também, um superlucro (MARX, 1986). Portanto, os capitais se dirigiram para o exterior não porque não pudessem ter sido aplicados em seus territórios originários, mas porque puderam obter taxas de lucro maiores em áreas não capitalistas (MARX, 1986; HILFERDING, 1985; BUKHARIN, 1984 e LENIN, 2012).
Capitais investidos no comércio exterior podem proporcionar taxa de lucro mais elevada, porque aqui, em primeiro lugar, se concorre com mercadorias que são produzidas por outros países com menores facilidades de produção, de forma que o país mais adiantado vende suas mercadorias acima de seu valor, embora mais barato do que os países concorrentes. À medida que o trabalho do país mais adiantado é valorizado aqui como trabalho de peso específico mais elevado, a taxa de lucro sobe, pois o trabalho que não é pago como qualitativamente mais elevado é vendido como tal. A mesma relação pode ocorrer no caso do país para onde são enviadas mercadorias e do qual são adquiridas mercadorias; que este, a saber, dê mais trabalho objetivado in natura do que recebe e que, não obstante, obtenha assim a mercadoria a preço mais baixo do que ele mesmo poderia produzir. Exatamente como o fabricante que usa uma nova invenção antes de sua generalização vendendo mais barato do que seus concorrentes, e mesmo assim vende acima do valor individual de sua mercadoria, ou seja, aproveita como mais-trabalho a força produtiva de trabalho especificamente mais elevada por ele empregada. Por outro lado, no que tange aos capitais investidos em colônias e etc, eles podem proporcionar taxas de lucro mais elevadas porque lá, em geral, por causa do menor desenvolvimento, a taxa de lucro é mais alta, assim como é mais alta a exploração do trabalho graças ao emprego de escravos, cules e etc (MARX, 1986, p.181).
Dessa forma, o processo de colonização, que garantia matérias primas e mercados aos produtos manufaturados6, e o controle exercido pelos ingleses do
6“A descoberta das terras auríferas e argentíferas na América, o extermínio, a escravização e o soterramento da
população nativas nas minas, o começo da conquista e saqueio das Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-negras caracteriza a aurora da era de produção capitalista. Esses processos idílicos constituem momentos fundamentais da acumulação primitiva. A eles se segue imediatamente a guerra comercial entre as nações europeias, tendo o globo terrestre como palco. Ela é inaugurada pelo levante dos Países Baixos contra a dominação espanhola, assume proporções gigantescas na guerra antijacobina inglesa e prossegue ainda hoje nas guerras do ópio contra a China, etc. (MARX, 2013p.821)”.
comércio marítimo de mercadorias e força de trabalho (comércio de escravos7) entre
as colônias americanas, africanas e as metrópoles europeias, constituíram os motivos, no plano das relações econômicas internacionais, que levaram a expansão industrial primeiramente à Inglaterra do século XVIII, possibilitando sua constituição enquanto potência industrial global (HOBSBAWM, 2000).
A razão para esse extraordinário potencial de expansão estava no fato de que as atividades de exportação não dependiam da modesta taxa de crescimento “natural” da procura interna de qualquer país. Tais atividades podiam criar a ilusão de crescimento rápido através de dois meios principais: a conquista dos mercados de exportação a uma série de outros países e a destruição da concorrência interna dentro de determinados países, ou seja, pelos meios políticos ou semipolíticos da guerra e da colonização. O país que conseguisse concentrar os mercados, durante um espaço de tempo suficiente, podia expandir suas exportações a um ritmo que tornava a revolução industrial não só viável para seus empresários, como às vezes praticamente automática. E foi isso o que a Grã-Bretanha conseguiu fazer no século XVIII (HOBSBAWM, 2000, p.46).
O grande desenvolvimento das forças produtivas foi fundamental para a rapidez com a qual se consolidou, no período imperialista, o capitalismo como primeiro sistema de produção em escala mundial (BUKHARIN, 1984). Foi justamente nesse período que o ritmo de modificação econômica e de relações sociais atingiu patamares infinitamente superiores aos dos séculos passados (DOBB, 1987). Como consequência, podemos observar pela tabela abaixo que o crescimento da produção e do comércio internacional também galgou os maiores patamares até então.
Tabela 2 - Produção e comércio mundiais, 1781-1929 (1913 = 100)
Ano Produção Comércio
1780 1,8 2,2 1840 7,4 4 1870 19,5 23,8 1881/85 16,9 38 1891/95 41,1 48 1901/05 58,7 67 1913 100 100 1929 53,3 113 Fonte: HOBSBAWM, 2015, p.522
7”[...] como triunfo da sabedoria política inglesa o fato de que, na paz de Utrecht, a Inglaterra arrancara dos
espanhóis, pelo Tratado de Asiento, o privilégio de explorar também entre a África e a América espanhola o tráfico de negros, que até então ela só explorava entre a África e a Índias Orientais inglesas. A Inglaterra obteve o direito de guarnecer a América espanhola, até 1743, com 4.800 negros por ano. Isso proporcionava, ao mesmo tempo, uma cobertura oficial para o contrabando britânico. Liverpool teve um crescimento considerável graças ao tráfico de escravos, e até hoje, a “respeitabilidade” de Liverpool é o Píndaro do tráfico de escravos que – cf. o escrito citado do dr. Aikin, de 1795 – “eleva até a paixão o espírito de empreendimento comercial, forma navegantes afamados e rende quantias enormes de dinheiro” (MARX, 2013, p.829).
A revolução tecnológica dominou as indústrias, os transportes e a vida econômica89. Com o aumento da população, da urbanização e da renda, novos
produtos e serviços foram criados pelo jogo concorrencial imperialista com uma tecnologia revolucionária (HOBSBAWM, 2015). As ferrovias modificaram, substancialmente, a maneira como o homem se deslocava territorialmente, além de diminuir o tempo de que as mercadorias necessitavam para serem transportadas, aumentando sua velocidade de circulação e produção, diminuindo o tempo de valorização do capital. A criação de uma rota no Atlântico Sul, em 1870, feita por cargueiros a vapor, por exemplo, cortou pela metade os custos e o tempo de transporte (DEAN, 2008), permitindo uma maior rapidez na realização das vendas e uma ampliação da margem de lucro pela diminuição dos custos. A velocidade com a qual se expandiu o capitalismo e a integração do mercado mundial foi também facilitada por esse desenvolvimento. Como resultado, a área geográfica da competição capitalista ampliou-se imensamente (HOBSON, 1996).
[…] quanto mais desenvolvidos estão os meios de transporte e quanto mais rápido e intensivo é o movimento das mercadorias, tanto mais acelerada se torna a integração [...], assim como o crescimento do organismo único de produção da economia mundial (BUKHARIN, 1984, p.32).
8 “Como todos nós sabemos, foi nessa época que o telefone sem fio, o fonógrafo e o cinema, o automóvel e o avião passaram a fazer parte do cenário da vida moderna, sem falar na familiarização das pessoas com a ciência por meio de produtos como o aspirador de pós (1908) e o único medicamento universal jamais inventado, a aspirina (1899). Tampouco devemos esquecer a mais benéfica de todas as máquinas do período, cuja contribuição para a emancipação humana foi imediatamente reconhecida: a modesta bicicleta (HOBSBAWM, 2015, p.86)”.
9 “A principal conquista técnica dessas últimas décadas foram os procedimentos encontrados para produzir energia elétrica e transmiti-la à distância. A transmissão à distância da energia elétrica permitiu, em certa medida, libertar-se do lugar em que é produzida e utilizar suas forças, antes absolutamente inacessíveis. Trata-se, em primeiro lugar, da utilização, para a fabricação da energia elétrica, da força hidráulica, da hulha "branca" que hoje, com a hulha "negra", transformou-se no principal fator da produção industrial. Assim, fizeram sua aparição as turbinas hidráulicas, geradoras de energia, em proporções até então desconhecidas. A eletrotécnica exerceu igualmente influência muito forte sobre o desenvolvimento das turbinas a vapor. Basta mencionar a iluminação elétrica e a aplicação dos processos eletrotécnicos à moldagem dos metais etc. Da mesma forma, os motores de combustão interna adquiriram, na atividade econômica, influência considerável. O desenvolvimento dos motores a gás ganhou poderoso impulso desde que se conseguiu, industrialmente, utilizar os gases dos altos-fornos. Os óleos minerais também passaram a ser fontes de energia. É, antes de tudo, o caso do petróleo e da gasolina. Os motores Diesel passaram a ter aplicação geral e tendem a eliminar a máquina a vapor, transformada em valor obsoleto? A aplicação da queima do ferro, as múltiplas descobertas realizadas no domínio da Química, mais particularmente em matéria de colorantes, a revolução operada na técnica dos transportes (tração elétrica, tração automóvel), a telegrafia sem fio, o telefone, e assim por diante, completam o quadro geral do desenvolvimento da técnica, ao mesmo tempo rápido e febril. Jamais, como hoje, a justaposição de ciência e indústria conheceu triunfos maiores. A racionalização da produção assumiu a forma de uma íntima colaboração entre as ciências abstratas e as realizações práticas. As grandes usinas estão dotadas de laboratórios especiais, a profissão de “inventor" está em via de formação, organizam-se centenas de sociedades científicas que estudam todas as questões que surgem. Pode-se fazer um juízo do desenvolvimento da técnica pelo número de patentes de invenção concedidas (BUKHARIN, 1984, p. 28)”.
Pelas tabelas abaixo, podemos ter uma dimensão do crescimento da infraestrutura dos principais meios de transportes responsáveis pela circulação de mercadorias mundialmente.
Tabela 3 - Malha ferroviária mundial, 1880-1911, em km
País 1880 1911 Europa 223.869 338.880 América 331.417 541.028 Ásia 33.724 105.011 Áustrália 18.889 32.401 Total 607.899 1.017.320 Fonte: BUKHARIN, 1984, p.3 Elaboração própria
Tabela 4 - Crescimento das frotas da marinha mercante, por frota, 1872-1907, em % Frota 1872-1907 inglesa 184% alemã 281% francesa 70% norueguesa 64% japonesa 1077% Fonte: BUKHARIN, 1984, p.33
No início, todas essas transformações se concentraram no centro capitalista, ou seja, nos países pioneiros da Revolução Industrial e nos que se integraram a ela posteriormente. Essas questões serão tratadas mais especificamente em outra seção ‒ o importante aqui é salientar que, nesse momento, as diferenças em relação ao desenvolvimento técnico foram estabelecidas como uma das principais condicionantes da divisão internacional do trabalho. Da maneira como foi historicamente constituída, a divisão internacional do trabalho capitalista organizou as economias nacionais em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, de acordo com o grau de desenvolvimento econômico e social atingido dentro dos parâmetros do sistema. No período, as economias que ocupavam uma posição inferior não eram somente aquelas que possuíam um baixo grau de desenvolvimento da força de trabalho, essa característica estava presente em países que possuíam, também, um baixo grau do desenvolvimento das forças produtivas, ou seja, que necessitavam de mais trabalho vivo para produzir.
Se, de modo geral, pode-se avaliar o grau de industrialização de um país segundo o índice de seu desenvolvimento econômico, a importância da
indústria pesada define o nível de desenvolvimento econômico nos países industrializados. Eis porque o surto das forças econômicas do capitalismo mundial encontra sua expressão mais nítida na expansão desses ramos industriais (BUKHARIN, 1984, p.28).
Não é coincidência que as áreas hoje conhecidas como subdesenvolvidas sejam justamente as colônias e ex-colônias do antigo sistema colonial, com a exceção dos Estado Unidos, única ex-colônia que despontou como potência imperialista. Como já apontado, a colonização desempenhou um papel fundamental na constituição histórica da acumulação do capitalismo. Foi por meio do comércio do antigo sistema colonial e do tráfico de escravos que a Inglaterra conseguiu realizar uma parte da acumulação primitiva necessária à Revolução Industrial.
Por outro lado, nas colônias e ex-colônias, o grau de desenvolvimento técnico era reduzido e a principal força produtiva era o trabalho escravo. No que concerne à América Latina, a produção interna acompanhava o ritmo do desenvolvimento industrial nos países centrais, já que as principais mercadorias, nesta região, eram matérias-primas e gêneros alimentícios fundamentais para a manutenção da produção e da força de trabalho nas economias industrializadas.
Tabela 5 - Produção mundial das principais matérias-primas tropicais, 1880-1910 (em milhares de toneladas)
1880
1900
1910
Banana
30
300
1800
Cacau
60
102
227
Café
550
970
1090
Borracha
11
53
87
Fibra de algodão
950
1200
1770
Juta
600
1220
1560
Oleaginosas
-
-
2700
Cana-de-açúcar bruta 1850
3340
6320
Chá
175
290
360
Fonte: HOBSBAWM, 2015, p.521Em suma, a Revolução Industrial inglesa só foi possível por meio da expansão territorial e comercial do capitalismo com as áreas até então não capitalistas. O comércio exterior acelerou a acumulação ao baratear os elementos do capital constante e os meios de subsistência que mantinham a reprodução da força de trabalho, ou seja, que mantinham o capital variável. Porém, da mesma
forma que a expansão capitalista foi pré-condição para o desenvolvimento acelerado das forças produtivas, a elevação da composição orgânica do capital gerou a tendência à queda da taxa de lucro, que pôde ser inibida pela própria expansão do comércio internacional. As diferenças de produtividade entre as nações, estabelecidas pelos diferenciais de desenvolvimento das forças produtivas, permitiram a obtenção de um lucro extra nas relações comerciais entre economias industrializadas e coloniais. Assim, o aumento do lucro, o ganho de lucros extras ‒ força motriz do capitalismo ‒ é o que manteve a tendência de expansão. Em busca de maiores taxas lucro, o capital utilizou-se de toda a sorte de mecanismos bárbaros de exploração dos povos colonizados. Dessa forma, a expansão se tornou uma das tendências inexoráveis do capitalismo que, de maneira alguma, resolve suas contradições, mas, sim, amplia-as em escala global.
3. A transição do capitalismo concorrencial para o monopolista
A elevação da produção mundial e a expansão do capitalismo no globo só foram possíveis devido à outra tendência do capitalismo, o da centralização e concentração de capitais10. O desenvolvimento das forças produtivas foi a condição necessária para que a produção de mercadorias pudesse se elevar nesses patamares. As contradições engendradas pelo desenvolvimento capitalista levarem este sistema a superar a fase concorrencial e ingressar em sua fase monopolista, na qual se consolidou a política imperialista. Portanto, é importante contextualizar o surgimento do capitalismo monopolista e as suas implicações para o desenvolvimento técnico, a concorrência, a organização industrial e a divisão internacional do trabalho. Seu nascimento das entranhas do capitalismo concorrencial modificou fundamentalmente a forma de organização e acumulação do capital (HILFERDING, 1985; LENIN, 2012, CAMPOS E SABADINI, 2014).
A livre concorrência é a característica fundamental do capitalismo e da produção mercantil em geral; o monopólio é precisamente o contrário da livre concorrência, mas esta começou a transformar-se diante dos nossos olhos em monopólio, criando a grande produção, eliminando a pequena, substituindo a grande produção por outra ainda maior, e concentrando a produção e o capital a tal ponto que do seu seio surgiu e surge o monopólio: os cartéis, os sindicatos, os trustes e, fundindo-se com eles, o capital de não mais que uma dezena de bancos que manipulam bilhões. Ao mesmo tempo, os monopólios, que derivam da livre concorrência, não a eliminam,
10Entendemos assim por concentração o crescimento do capital por meio da capitalização da mais-valia
produzida por esse mesmo capital; e por centralização a reunião de diversos capitais em um só (BUKHARIN, p.110).
mas existem acima e ao lado dela, engendrando assim contradições, fricções e conflitos particularmente agudos e intensos. O monopólio é a transição do capitalismo para uma ordem superior (LENIN, 2012, p.123). A substituição da política de livre concorrência pela monopolista está ligada a dois fenômenos históricos: i) à primeira crise capitalista, surgida no seio da Inglaterra industrial e ii) ao surgimento de novas economias industriais concorrentes à pioneira Grã-Bretanha. A reorganização do capitalismo é promovida, assim, como forma de enfrentar as contradições do capital agudizadas nestes momentos.
3.1 A grande depressão (1873-1896)
A Grande Depressão do último quartel do século XIX (de 1873 a 1896, interrompida por surtos de recuperação, em 1880 e 1888, continuada em meados da década de 1890) foi o marco que dividiu a fase concorrencial liberal do capitalismo da fase monopolista protecionista, em que se encerrou a etapa britânica da industrialização pioneira e se iniciou o momento em que a Inglaterra enfrentou a concorrência das outras nações recém industrializadas (DOBB, 1987; LENIN, 2012).
A depressão do último quartel do século na Inglaterra foi relativamente pouco marcada pela capacidade excedente extensiva que se iria tornar traço tão proeminente da segunda Grande Depressão do período entre as guerras: foi essencialmente uma depressão de concorrência desenfreada e de redução de preços do tipo encontrado nos manuais clássicos (DOBB, 1987, p.311).
A princípio identificada como uma crise de superprodução, as causas podem ser caracterizadas a partir de duas naturezas: internas ou externas. Como causas internas, podemos reconhecer a queda da taxa de lucro, devido ao enorme desenvolvimento das forças produtivas do período, que não foi compensada, imediatamente, nem por uma maior exploração do trabalho, nem pelo comércio externo. A razão para tal foi que a multiplicação das máquinas se deu em um ritmo muito maior do que o crescimento da força de trabalho para manejá-las11, fazendo
com que o efeito do investimento fosse aumentar os salários. Mesmo que no período
11
Vemos que, no primeiro caso, não é a diminuição no crescimento absoluto ou proporcional da força de trabalho ou da população operária que torna excessivo o capital, mas, por outro lado, é o aumento do capital que torna insuficiente a força de trabalho explorável. No segundo caso, não é o aumento no crescimento absoluto ou proporcional da força de trabalho ou da população trabalhadora que torna insuficiente o capital, mas, ao contrário, ou, antes, é a diminuição do capital que torna excessiva a força de trabalho explorável ou, antes, seu preço. São esses movimentos absolutos na acumulação do capital que se refletem como movimentos relativos na massa da força de trabalho explorável e, por isso, parecem obedecer ao movimento próprio desta última (MARX, 2013, p.696).